Nostradamus: Profeta ou Charlatão? 

Nostradamus: Profeta ou Charlatão? 

Estamos a 11 de setembro de 2001. Duas torres desabam em Nova Iorque. A poeira ainda cobre Manhattan. Enquanto o mundo inteiro está em choque, colado à televisão, tentando perceber o que acabou de acontecer, as pessoas apontam para um livro. Sim, um livro escrito por um médico francês em 155. E se quer saber porque é que um texto do século X tornou-se fonte de consulta polémica durante a tragédia, é que uma das quase mil quadras deste livro dizia: “Dois pássaros de aço cairão do céu sobre a metrópole. O fogo aproxima-se da

grande cidade nova. Imediatamente uma chama enorme e espalhada salta. 446 anos antes dos Boeings 767 atingirem as torres gémeas. Um homem que não tinha eletricidade, não tinha telescópio e definitivamente nem sabia o que era um avião, aparentemente descreveu a cena com esta estranha precisão. O nome dele Michel de Nostredame, a profissão real, médico da peste, mais precisamente um ex-farmacêutico expulso da Faculdade de Medicina que ganhou fama a tratar aldeias infectadas com comprimidos de rosa que não serviam para nada.

Nostradamos não tinha formação em astrologia, não tinha formação místico e definitivamente não tinha nenhum motivo racional para estar certo sobre coisa nenhuma. Ainda assim, ele escreveu um dos livros mais vendidos dos últimos 500 anos, apontado como previsão do grande incêndio de Londres, da ascensão de Napoleão, de Hitler, das bombas atómicas e do assassinato de Kennedy.

 E a questão que persegue todo o mundo há cinco séculos é simples: Nostradamos via realmente o futuro ou apenas descobriu que versinhos vagos sobre desgraça rimada vendem muito bem em qualquer? A resposta não é direta, não é romântica. E para compreender Nostradamos, precisamos primeiro de entender o que transforma um médico da peste traumatizado num dos nomes mais famosos dos últimos séculos.

Mas antes de começar, quero agradecer pela sua companhia e se quiser receber a notificação sempre que novos vídeos forem publicados, considere candidatar-se no canal. Agora relaxe, desfrute do vídeo e vamos juntos falar da pessoa que transformou a imprecisão na arte e que 500 anos depois de morto, ainda consegue viralizar toda a vez que o mundo parece estar a acabar.

O homem que a história conhece como Nostradamos nasceu em 1503 como Michel de Nostredame, apenas mais uma criança numa família numerosa, numa época em que o registo civil era vago e sobreviver à infância era a sorte do destino. As circunstâncias exatas do seu nascimento são nebulosas, mas acredita-se que tenha chegado ao mundo em dezembro desse ano, na região da Provença, no sul de França, provavelmente no dia 14 ou 21, na pequena cidade de San Remy de Provence.

O seu pai, Jom ou Jaques, dependendo de quem estava a anotar, era notário a serviço do governo local. A mãe Renier era neta de Pierre de San Remi, um médico de prestígio na cidade. Jaques e Reenier tiveram pelo menos nove filhos, embora o número exato seja incerto. A família Nostredame tinha origens obscuras e possivelmente judaicas, o que na França do final da Idade Média era mais ou menos como ter um alvo pintado nas costas.

 O povo judeu vinha sofrendo severa perseguição por toda a Europa, Inglaterra, França, Espanha, basicamente qualquer lugar em que houvesse uma coroa e uma opinião forte sobre a religião. A ordem era clara: ou se converte ao cristianismo ou faz as malas. Muitos converteram-se publicamente e continuaram a praticar o judaísmo em casa, o que é a versão medieval de ter um perfil falso para omitir a sua opinião no anonimato.

Entretanto, a família Nostredame resistiu durante séculos, em parte porque a coroa francesa era tão fraca e descentralizada que imponha regras na provença era como tentar educar um gato. Tecnicamente possível, mas ninguém leva a sério. Ainda assim, a pressão foi suficientemente grande para que em meados do século XV, o avô paterno de Michel, um sujeito chamado Crescuas, do qual sabemos apenas que era agiota em Avinhon e, provavelmente não muito querido, decidisse converter-se ao catolicismo. Quando o fez, adotou

o nome cristão Pier e o apelido Nostredame, que significa Nossa Senhora. O batismo aconteceu no dia de Nossa Senhora, 25 de março. Porque se vai trocar de religião, que seja com marketing impecável. Esta origem judaica não era apenas um pormenor de ficha cadastral. Havia uma forte tradição de misticismo e o conhecimento esotérico na cultura judaica europeia.

 E isso salpicou diretamente nos escritos do Michel adulto. Primeiro tinha a Cabala, uma escola de pensamento do misticismo judaico que tentava explicar a relação entre um Deus eterno e imutável e o pequeno mundo finito dos mortais. Basicamente filosofia pesada com pitadas de apocalipse e zero hipóteses de entendimento paraa maioria dos cidadãos.

O texto mais central da Cabala, o Zohar, era um conjunto de livros que oferecia comentários místicos sobre a Torá. A linguagem era propositadamente vaga e carregada de simbolismo apocalíptico, tipo horóscopo, mas com consequências teológicas reais. E o pormenor crucial, a A Cabala emergiu com mais força exatamente nas comunidades judaicas do sul da França e de Espanha, nos séculos XI e X.

 Ou seja, a família Nostredame viveu mergulhada nesta tradição durante gerações. Os historiadores concordam que a influência da Cabala nos escritos de Nostradamos é direta e profunda. O gajo não inventou o misticismo do nada, herdou de família, tipo uma receita de bolo. Só que em vez de bolo era profecia para o fim do mundo.

 Da infância de Michel sabemos quase nada. Existe uma teoria de que ele foi educado pelo avô materno Pierre de San Remi e que teria recebido dele os primeiros ensinamentos em medicina. Teoria bonita se não fosse o facto de Pierre morreu quando Michel ainda era bebé. Assim, a menos que o avô tenha ensinado diagnóstico médico por osmose neonatal, podemos descartar esta história.

 O que sabemos de concreto é que em 1518, com 14 anos, Michel entrou na Universidade de Avinhon, uma das mais antigas de França, aí fundada em 1303. O currículo era o padrão da época, gramática, retórica, lógica e as obras de Aristóteles e Cícero. Basicamente, como argumentar bonito sem dizer nada de útil.

 Treinamento perfeito para quem um dia escreveria profecias vagas suficientes para encaixar em qualquer catástrofe. Mas o seu tempo em Avinhon foi curto. Um surto de peste bubónica varreu o sul de França e obrigou a universidade a fechar. Procedimento padrão na época. Quando a peste batia à porta, quem podia fugia das cidades como se tivessem visto o diabo.

 E quem não podia, bem, ficava e conhecia o diabo pessoalmente. Este encerramento, no entanto, acabou sendo a melhor coisa que podia ter acontecido. Com a universidade trancada, Michel fez-se à estrada, [a música] começou a viajar pela Europa Ocidental e foi durante estes anos de peregrinação que fez grande parte da sua formação médica de forma informal, sem sala de turma, sem diploma, sem supervisão, tipo um intercâmbio, mas em vez de festas e fotos em pontos turísticos, era dissecação de cadáveres e chá de ervas duvidosas.

E para compreender o tipo de medicina que O Michel estava a aprender, a gente necessita de contexto. Estamos a falar de uma época anterior à revolução médica dos séculos XVII e XVI. A prática médica dominante era a sangria, abrir literalmente as veias do doente e drenar sangue. Porque afinal Galeno, um médico grego morto há mais de 1000 anos, disse que funcionava.

A lógica. O corpo dependia do equilíbrio dos estados de espírito, como a Billy, e tirar sangue supostamente recalibrava o sistema. Era tipo reiniciar o computador, só que o computador era uma pessoa e às vezes não ligava de novo. No mais, a medicina era uma mistura de remédios populares, cirurgias limitado e muita oração.

 Doenças que hoje resolvemos com um comprimido de farmácia eram sentenças de morte. sem penicilina, sem vacinas, sem nada. O conhecimento médico que Michelle adquiriu nos anos 20 do século X era tão baseado na esperança como na ciência, ou talvez mais. Os pormenores da vida dele ficam um pouco mais nítidos no final da década de 1520.

Algures aí, por meados dessa década, ele afirmou-se como farmacêutico no sul de França, o equivalente renascentista de abrir uma farmácia de manipulação, só que com mais alquimia e menos fiscalização sanitária. Em 1529, querendo aprofundar os estudos, Michelle matriculou-se na Universidade de Montpelier, que albergava uma das escolas médicas mais antigas da Europa, a funcionar desde 1130.

era a nata da educação médica. O problema? Em questão de semanas, as As autoridades da faculdade descobriram que tinha trabalhado como farmacêutico ou boticário, como era designado na época. E isso era uma violação gravíssima dos estatutos universitários que proibiam alunos com histórico de trabalho manual.

Porque na Europa renascentista, universidade era coisa de filho de nobre. E gente que já tinha sujado as mãos com trabalho real era tratada como infiltrada numa festa chique. Resultado, Michel foi expulso em semanas. Uma cópia da ordem de expulsão dele sobrevive até hoje nos arquivos de Montpelier, tipo um troféu invertido da humilhação académica.

Mas Michelle não se desmoronou, fez o que qualquer pessoa teimosa e talentosa faria. ignorou o sistema e continuou por conta própria. No início da década de 1530, especializou-se como médico da peste, o tipo de profissional que poderia ser chamado de voluntário para missão suicida. A peste bubónica, embora mais associada ao apocalipse da peste negra nos anos 1340, que matou mais de 1/ça, continuava a aparecer regularmente como uma visita indesejada que ninguém conseguia cancelar.

O sul de França, por se manter nas rotas comerciais entre a Itália e o norte da Europa, era especialmente vulnerável. Gente a viajar, doenças a apanhar boleia, o turismo medieval tinha os seus efeitos colaterais. O método de Michelle para combater a peste, as famosas pílulas de rosa, uma mistura de pétalas de rosa, serradura de cipreste verde, cravo da Índia, cálamo e lenho aloés.

Medicinalmente falando, isto era tão eficaz como deitar purpurina numa fratura exposta. Mas e aqui está o pormenor que lhe salva a reputação juntamente com as comprimidos inúteis, Michel também prescrevia algo revolucionário, a higiene. Mandava remover e enterrar os corpos dos mortos rapidamente, mandava lavar superfícies, recomendava ar fresco e, diferentemente de quase toda a gente na época, não recomendava a sangria.

 Ou seja, os comprimidos eram placebo, mas o pacote completo funcionava. Michelle era um charlatão com instintos sanitários surpreendentemente bons, tipo um astrólogo que, por acidente também sabe lavar as mãos. E funcionou. A reputação dele como médico da peste cresceu pelo sul de França ao longo dos anos 30.

Cidades afetadas pela doença chamavam-lhe como quem liga ao bombeiro. Quando a peste explodiu em Ais, capital da Provença, Michel foi lá, ajudou a conter o surto e o rei Carlos I o recompensou com uma pensão vitalícia, um plano de segurança social da renascença, pago em gratidão e ecu de ouro, a moeda francesa.

Nessa altura, [a música] Michel também se casou. Em 1531 aceitou um convite de Júlio César Escalígero, um médico italiano respeitado que vivia na cidade de Agem, no sudoeste de França. Foi aí que Michelle casou com uma mulher local, possivelmente chamada Henriette Dancos. Tiveram dois filhos e então a peste, a mesma doença que tinha passado a carreira a combater, levou a esposa e as duas crianças em 1534.

É o tipo de ironia que a história adora e que a vida real torna insuportável. O médico da peste perdeu a própria família paraa peste. E é possível que esta tragédia pessoal tenha sido o combustível que o fez redobrar a obsessão por encontrar formas de deteríger o anfitrião, era um intelectual de peso, um tipo que debatia publicamente com Erasmo de Rotterdaman, o maior académico europeu da primeira metade do século X.

[música] Enquanto viveu em Agen, Michel teve acesso à vasta biblioteca de Escalígero. O que ele ali leu não o sabemos com precisão, mas tudo o que tenha absorvido naquelas estantes, certamente alimentou os escritos que viriam mais tarde. Pense numa incubadora intelectual com acesso ilimitado à informação.

 E então, em 1538, veio o acontecimento que mudaria a trajetória da vida dele. O Michel foi acusado de heresia. Num período em que a A reforma protestante varria a Europa e a Igreja Católica reagia com perseguição, ser acusado de heresia era basicamente receber um convite paraa fogueira com presença obrigatória.

Michel compreensivelmente não compareceu ao julgamento. Ele fugiu, viajou por França e chegou até à Itália, onde fez contactos na indústria de impressão, cuja capital no sul da Europa, ficava em Veneza. Ainda não tinha publicado nada, mas estava prestes a começar e seria certamente influenciado diretamente por essas ligações italianas.

 Em meados da década de 1540, ele voltou a França, combateu mais um surto de peste, desta vez em Marsélia, e finalmente estabeleceu-se em Salon de Provence. Aí constituiu uma segunda família ao casar com Annie Ponard, que era viúva e também muito rica. Eles tiveram seis filhos, três rapazes e três raparigas. E aqui está o ponto de viragem.

 Com o dinheiro da esposa somado às pensões e pagamentos acumulados em anos de combate à peste, Michel tinha finalmente estabilidade financeira suficiente para fazer o que sempre quis, sentar-se e escrever. Ele estava a entrar no que hoje chamaríamos de meia idade, mas que na época era basicamente um idoso, considerando que chegar aos 50 já era um ato de rebeldia biológica.

 O médico da peste em breve se iria tornar profeta e o mundo não fazia a mínima ideia do que estava para vir. A carreira de escritor de Michel começou em 1550 e como todo o bom empreendedor, ele começou pelo produto mais barato possível. O seu primeiro livro foi um Almanque, um opúsculo fino, rápido de produzir e mais barato que um pão em dia de promoção.

 Os almanaques eram a espinha dorsal da indústria editorial no século X. Livros completos ainda custavam uma fortuna, mas panfletinhos de 8, 16 ou 32 páginas, estes saíam das prensas como pão quente e cabiam no bolso de qualquer pessoa. Havia almanque sobretudo, disputas religiosas entre católicos e protestantes, dicas agrícolas, receitas culinárias, basicamente o feed de notícias da renascença, só que em papel e sem algoritmo.

 O almanaque de Michel era sobre previsões astrológicas e a inspiração veio de mais uma viagem a Itália, onde reencontrou os seus contactos do mercado editorial. E foi aqui que tomou uma decisão de marketing que mudaria tudo. Latinizou o nome na capa. Saiu Michel de Nostredame, entrou Nostradamos.

 Porque nada é tão confia nas minhas profecias quanto um nome que soa a encantamento em latim. O Almanque vendeu bem, muito bem. Nos anos seguintes, publicou pelo menos um por ano, uma regularidade impressionante para alguém que teoricamente já sabia o que ia acontecer. Infelizmente, quase nenhuma cópia sobreviveu até aos dias de hoje.

 Assim, é difícil rastrear exatamente como o estilo profético dele evoluiu nesta fase. O que sabemos é a estrutura. Cada Almanque tinha 12 quadras, poemas de quatro versos rimados, oferecendo previsões para o ano seguinte. A linguagem era vaga, esotérica e quase codificada.

 O tipo de texto que fazia com que o leitor do século X inclinar a cabeça, semicerrar os olhos e pensar, isto pode significar qualquer coisa. E era exatamente esse o ponto. A imprecisão não era um defeito, era o modelo de negócio. Quanto mais vago, mais gente se reviu na previsão. É o princípio do horóscopo. Se diz algo importante vai acontecer na sua vida, alguém algures vai responder: “Tem razão, aconteceu mesmo.

” Os almanaques fizeram sucesso instantâneo e Nostradamos com o faro comercial de quem percebe uma mina de ouro, decidiu que o formato merecia uma versão expandida, tipo aquela série que começa como uma minisérie e se transforma franquia de 10 temporadas. Enquanto continuava a publicar os almanaques anuais, ele já estava trabalhando num projecto muito mais ambicioso, centenas de quarteirões cobrindo os supostos acontecimentos futuros na Europa e arredores.

 A sua reputação, como vidente e místico crescia no sul de França. Nobres, comerciantes e membros da pequena nobreza batiam-lhe à porta, querendo saber o que o futuro reservava para os negócios. Nostradamos tinha-se tornado essencialmente o coach pessoal mais requisitado da provença, só que com rimas e uma peruca melhor.

 Em 155 saiu a primeira parte da grande obra. Chamou originalmente centúrias, depois rebatizou de profecias, porque Centúrias soava como um livro de contabilidade e profecias soava como bilhete de Deus. A primeira edição publicada em Lyon trazia 353 quadras e um prefácio. A versão completa, reunida postumamente em 1568, totalizaria 942 quadras espalhadas por 10 centúrias.

 Era basicamente o catálogo do apocalipse [canção] com rimas e métricas melhores. As quadras seguiam o mesmo padrão dos almanaques, quatro versos rimados, linguagem propositadamente ambígua e declarações proféticas vagas o suficiente para encaixar em praticamente qualquer desastre futuro. Tipo uma delas, quando as liteiras forem virados pelo remoinho e os rostos forem cobertos por mantos, a nova república será perturbada pelo seu povo.

Neste tempo, os vermelhos e os brancos governarão erroneamente. Isto poderia referir-se à Revolução Francesa, a Guerra Civil Americana, a uma briga de claques ou a um desfile de carnaval que correu mal. E essa era a jogada. As quadras não tinham datas específicas, diferente dos almanaques.

Assim, qualquer evento em qualquer O século futuro podia ser retrospectivamente encaixado numa profecia. Era previsão com um prazo de validade infinito. Os temas eram variados, mas gravitavam em torno de política e o caos social. Os dois assuntos que nunca passam de moda: reis, rainhas, impérios, reinos, deposições, pragas.

Nostradamos escrevia sobre a turbulência como se fosse a única constante da história humana, o que, convenhamos, não estava errado. As referências geográficas eram absurdamente amplas. Não era só o sul da França. As profecias mencionavam Escandinávia, Mediterrâneo, Mar Negro, Europa de Leste, Império Otomano.

As edições impressas traziam subtítulos como representa parte do que está a acontecer agora em França, na Inglaterra, em Espanha e em outras partes do mundo. Nostradamos não pensava pequeno. Ele queria ser o profeta global, o correspondente internacional do fim dos tempos. E fazia sentido para o contexto.

 Quando nasceu, os europeus tinham acabado de descobrir rotas marítimas paraa África e as Américas. Quando estava a entrar na vida adulta, Magalhães já tinha dado a volta no mundo. O planeta estava a expandir-se em tempo real. Tudo era novo, tudo era incerto e o mundo assim era terreno fértil para quem vendia previsões sobre o futuro.

Nostradamos surfou esta onda com a elegância de quem sabia que num mundo em pânico certezas vagas valem ouro. As referências eram também impressionantemente específicas. Não eram apenas países, eram cidades, ilhas, vilas e províncias individuais. E como adorava a estética clássica, utilizava frequentemente os nomes romanos antigos para regiões da Europa.

 Isto dava ao texto uma aura de profundidade histórica e de quebra tornava tudo ainda mais difícil de interpretar. Dois coelhos, uma cajadada. Mas aqui vem a parte que os fãs de Nostradamos preferem ignorar. Séculos de estudo académico revelaram que as profecias foram escritas com base em fontes muito concretas. Nostradamos não estava a canalizar visões do além, estava a ler livros, muitos livros.

 Para criar aquelas quadras sobre reis depostos, pragas e impérios em ruínas, ele mergulhou fundo na história clássica. Leu as vidas dos 12 césares de Suetónio, leu as biografias comparativas de Plutarco, pegou em padrões históricos de ascensão e queda e reembalou-os como profecias futuras. É tipo pegar numa notícia de jornal velho, mudar os nomes e dizer: “Isto vai acontecer de novo”.

 O que sendo justo, acontece quase sempre, porque a humanidade tem uma capacidade impressionante de repetir os próprios erros. Também se inspirou em obras proféticas mais recentes. Os escritos de Girolamo Savonarola, aquele frade dominicano que montou uma teocracia relâmpago em Florença nos anos 1490. aparecem claramente nas profecias.

 As primeiras quadras contêm citações bíblicas organizadas numa ordem quase idêntica a que Savonarola usou meio século antes. Coincidência? Com esta precisão na sequência, nem o mais generoso dos historiadores compra essa. Outra fonte pesada foi o Mirabilis Liber, o livro miraculoso, um compêndio de previsões de santos e teólogos cristãos.

 recolhidas desde o século X e finalmente publicado na França em 1522. Descobriu-se que diversas passagens das profecias parafraseiam excertos inteiros dessa obra. Nostradamos não estava [a música] a inventar o futuro do zero, estava a remisturar o passado com filtro místico e de uma forma muito, muito inteligente.

 Como é que ele usava exatamente estas fontes é motivo de debate académico até hoje. Alguns estudiosos acreditam que o processo era sistemático. Michelle a foliar volumes na biblioteca do escritório em Salon de Provenance, procurando passagens inspiradoras com método e paciência. Outros, digamos os menos simpáticos, pensam que ele simplesmente abria livros em páginas aleatórias e moldava profecias a partir do que aparecesse, tipo um bibliomancia profissional.

Abriu na página 42, tem uma frase sobre fogo e reis. Pronto, quadra nova. E o estado mental dele enquanto escrevia. Os fãs adoram imaginar Nostradamos meditando diante de chamas, entrando em transe, recebendo visões cósmicas no escritório. Mas nos poucos fragmentos de correspondência pessoal que sobreviveram, o próprio Michel disse que apenas tentava alcançar um estado de calma e tranquilidade mental antes de escrever.

 Sem transe, sem chamas místicas, sem possessão divina. Ele negou repetidamente ser profeta de qualquer tipo, o que é no mínimo irónico para um tipo cujo nome se tornou sinónimo mundial de profecia. E aqui precisamos de contexto intelectual, porque Nostradamos não escrevia num vácuo. O século X era uma época em que a revolução científica estava a gatinhar.

 Durante a sua vida, Copérnico publicou a obra que provou que a Terra girava em torno do Sol. E não o contrário. A renascença italiana estava a tornar-se espalhando-se para o norte da Europa. A A reforma protestante tinha virado a igreja de pernas para o ar. Exploradores estavam a redesenhar o mapa do mundo a cada expedição.

 Tudo estava em movimento. Cada certeza podia ser derrubada amanhã. E neste caldo de instabilidade, correntes intelectuais como o neoplatonismo e o hermetismo, movimentos que vinham lá do final do Império Romano e focavam o conhecimento esotérico, magia, astrologia e alquimia, estavam em plena moda nos círculos académicos europeus.

 Não eram maluquíes de margem, [a música] eram assuntos sérios de debate intelectual. Giordano Bruno, em Itália misturava a astrologia com protociência. Na Inglaterra Isabel, Sir Walter Rallig e John D procuravam a pedra filosofal, aquela substância que supostamente transformava qualquer coisa em ouro.

 E não, ninguém achava que ridículo. Era o estado da arte do conhecimento humano de 1500 e pouco. E Nostradamos escrevia dentro desta tradição. um médico com formação em investigação protocientífica que incorporava a astrologia, a profecia e misticismo nos seus textos. E isso era perfeitamente normal para o padrão intelectual da época.

 A nossa era científica pode olhar para isto com superioridade, mas a verdade é que esta mistura caótica de curiosidade e esoterismo foi um dos ingredientes que eventualmente produziu a revolução científica. As fronteiras entre a ciência e o misticismo no século X eram tão esbatidas quanto a caligrafia do próprio Nostradamos.

 Mas convenhamos, ninguém se lembra de Nostradamos pelo contexto intelectual em que ele escrevia. As pessoas recordam pelas supostas previsões de grandes acontecimentos históricos e é aí que a história fica realmente interessante e consideravelmente mais polémica. Uma das profecias mais impressionantes que se atribui a Nostradamos diz respeito ao grande incêndio de Londres.

 No início de Setembro de 166, um pequeno incêndio na cidade alastrou até engolir uma proporção absurdo da Londres, que ainda parecia medieval. O número de mortos foi relativamente baixo, mas a destruição física foi catastrófica. E quando o fumo baixou, os fãs de Os nostradamos fizeram o que sempre fazem.

Correram para os livros e apontaram o dedo para uma quadra específica. A quadra dizia: “O sangue dos justos cometerá uma falha em Londres, queimado por relâmpagos de 236. A antiga senhora cairá do seu lugar alto. Vários da mesma seita serão mortos.” A interpretação 236 somaria 66. O ano do incêndio, Londres em chamas? Está ali no texto.

 Prova irrefutável, certo? Bom, mais ou menos. Não houve relâmpago nenhum no grande incêndio. O fogo começou na oficina de um padeiro, o que é consideravelmente menos dramático do que uma descarga elétrica divina. Quase ninguém morreu, ao contrário dos vários da mesma seita que Nostradamos prometeu. E a tal antiga senhora não tem referência óbvia a nada que estivesse a acontecer na política inglesa da época.

 Mas pormenores, certo? Quando você quer que a profecia funcione, os detalhes são apenas sugestões. Ainda assim, [a música] o grande incêndio turbinou a reputação de Nostradamos no final do século X7. Porque a lógica humana funciona assim: se uma previsão vaga acerta meio ponto, ela transforma-se em prova. Se erra 10 pontos, ela transforma-se em metáfora.

Como as profecias cobriam uma geografia enorme, havia inevitavelmente um foco especial em França. E não surpreende que Os leitores entusiastas têm encontraram previsões para praticamente todo o acontecimento importante da história francesa. O caso mais famoso, a Revolução Francesa, e a Ascensão de Napoleão Bonaparte.

Existe uma série de quarteirões numa das centúrias que prevê um tempo de grande conflito e discórdia civil, seguido da ascensão de um novo governante. Nostradamos escreveu: “De um nome que nunca foi ostentado por um rei francês. Nunca houve um raio tão terrível. A Itália, a Espanha e os ingleses tremem. E isto encaixa em Napoleão como uma luva costurada à medida.

[música] Vinha de uma família corça de classe média, mais italiana do que francesa, que nunca esteve perto de governar nada. As guerras dele envolveram exatamente Inglaterra, Itália e Espanha. A Península Ibérica tornou-se um dos palcos centrais das guerras napoleónicas. Impressionante, sim, mas o cético com o mínimo de pulso levantaria um ponto justo.

 Tempos de conflito civil quase produzem sempre novas dinastias. é meio que o guião padrão das revoluções. E Itália, Espanha e Inglaterra, sendo os vizinhos mais próximos de França, seriam naturalmente os primeiros a entrar em guerra com ela. Nostradamos não precisava de poderes sobrenaturais para esta previsão, [a música] precisava de um mapa.

 Outra grande figura que supostamente aparece nas profecias é Adolf Hitler. Uma quadra diz: “Das profundezas da Europa Ocidental, nascerá de gente pobre uma criança, que pela sua língua, seduzirá um grande número de pessoas. A sua fama se espalhará para o Oriente. A sessão mais ampla descreve opressões infames vilãs perversas e menciona uma dama adulterina que os entusiastas interpretam como referência codificada ao nazismo.

 A passagem termina com a Terra tornando-se um horrível negro no semblante como resultado das ações deste indivíduo. Outras quadras estão associadas ao curso geral da Segunda Guerra Mundial. Uma sessão sobre um grande mastim a ser expulso de uma cidade e depois surpreendido por uma aliança inesperada, lida como a expulsão da Inglaterra da França em 1940 e o improvável pacto entre a Alemanha nazi e a Rússia soviética entre 39 e 41.

 Possível, claro, mas grande mastim expulso de cidade também poderia descrever um cão a fugir do pet shop. Afinal, o contexto é tudo. Também se acredita que Nostradamos previu os Os bombardeamentos nucleares de Hiroshima e Nagasak em agosto de 1945. As passagens são, e aqui sou generoso, extremamente ténues. Nostradamos escreveu: “Dentro de duas cidades haverá flagelos como nunca se viu.

 E na mesma quadra prevê a fome dentro da peste.” Alguns interpretam esta última frase como uma referência à doença da radiação. O problema? Duas cidades é uma referência literária que remonta ao Antigo Testamento. Nostradamos não inventou a expressão, reciclou-a de uma tradição milenar e o assassinato de JFK. 18 anos depois de Hiroshima, quando Kennedy foi baleado em Dallas, os fãs apontaram para a quadra que diz: “Do alto o mal cairá sobre o grande homem”.

A mesma quadra continua. Um inocente morto será acusado do ato. Impressionante. Só se já aceitar de antemão que Kennedy era o grande homem e que o seu assassino Lee Harvey Oswald era inocente. A profecia não funciona sozinha. Ela precisa que traga as as suas próprias suposições, tipo um kit de montar de conspirações.

As peças vêm separadas e a montagem é pela sua conta. Mas a profecia mais cinematográfica de todas, 11 de Setembro de 2001. E é difícil não perceber porquê. A quadra relevante diz: “Dois pássaros de aço cairão do céu sobre a metrópole. O céu arderá a 45º de latitude. O fogo aproxima-se da grande cidade nova.

 Imediatamente uma chama enorme e espalhada salta. Em meses, rios fluirão com sangue. Os mortos vivos vaguearão pela terra por pouco tempo. Dois pássaros de aço a cair do céu numa grande cidade. Chama espalhada a saltar. Rios de sangue em meses. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão semanas depois e depois o Iraque. é assustadoramente específico e é exatamente o tipo de passagem que faz com que as pessoas fechem o livro, olharem para o tecto e murmurarem: “Ok, este gajo sabia de alguma coisa e tem coisa mais recente.” Muitos apontaram uma

quadra associada a 2022, porque eles desaprovam o seu divórcio. Um homem que mais tarde consideram indigno. O povo forçará a saída do rei das ilhas. Um homem o substituirá que nunca esperou ser rei. A interpretação o divórcio do príncipe Carlos com a princesa Diana, o sentimento público negativo contra ele, a sua ascensão como rei Carlos I e a possibilidade de que seria forçado a abdicar em favor não de William, o herdeiro designado, mas de Harry, o filho mais novo que nunca esperou ser rei. Basicamente, Nostradamos prevendo o

guião de um reality show da família real britânica, com 450 anos de antecedência. Outras quadras foram associadas à guerra na Ucrânia desde 2022 e até às consequências das alterações climáticas, com passagem sobre o sol ficando tão quente que o Mar Negro ferveria e habitantes do Mediterrâneo morreriam de fome.

 E o futuro? Os presságios são mistos. A NASA e Elon Manski provavelmente não vão gostar de saber que Nostradamos foi pessimista quanto Marte, afirmando que a luz de Marte se apagará. Ele também pareceu prever uma grande guerra em 2023, mas de apenas 7 meses. E a quadra mais perturbadora de todas. Tão alto subirá o alqueire de trigo que o homem comerá o seu semelhante.

Nostradamos prevendo o canibalismo por crise alimentar, tipo The Walking Dead, mas com profecias renascentistas em vez de zombies. As previsões dele sobre o futuro definitivamente não são para quem tem tendência para compras por pânico. Mas aqui precisamos de parar e fazer a pergunta que ninguém quer ouvir e a imprecisão.

 Porque as profecias não são vagas por acidente, são vagas por design. Nostradamos escrevia numa época em que ser acusado de profeta ou praticante de magia obscura podia resultar numa acusação de heresia, uma experiência que já tinha vivido nos anos 30 e não queria repetir. Obrigado. Então, misturou deliberadamente línguas nas quadras francês, provençal, italiano, latim e grego, tudo junto no mesmo texto como uma salada linguística concebida para confundir qualquer inquisidor que tentasse perceber o que estava a dizer. Além disso, os nomes e

palavras específicas podiam ser interpretados de formas completamente diferentes. O exemplo clássico, a referência a hister numa das quadras. Gerações de entusiastas juraram que era uma previsão da ascensão de Adolf Hitler. Arrepiante, certo? Até descobrir que Hister era simplesmente o nome utilizado no século X para a parte inferior do rio Danúbio.

 De repente, a profecia sobre o Furer vira uma observação geográfica sobre hidrografia europeia. Menos arrepiante, consideravelmente menos. O mesmo problema aparece com a referência a Rousseau, que os analistas associaram ao filósofo suíço do séc. XVII. Mas Rousseau [a música] era um apelido tão comum na provença do século X como Silva é no Brasil.

 Ou seja, na verdade, Nostradamos podia estar a falar do vizinho dele e as datas. Para uma obra que se propunha prever o futuro, as profecias são impressionantemente económicas em cronologia. Para o período compreendido entre 1588 e o ano de 3797, Nostradamos fornece exatamente nove datas específicas.

 Nove, em quase 1000 quarteirões. É como escrever um calendário e esquecer-se de colocar os meses. O próprio Nostradamos justificou isto com uma explicação sobre o tempo cíclico. A ideia de que os acontecimentos se repetem, que as guerras, os desastres e as oscilações políticas têm uma qualidade intemporal que liga egípcios, gregos, romanos e tudo o que viria mais tarde.

 É uma explicação filosófica elegante. Também é um jeito muito bonito de dizer: “Não coloquei datas porque sem datas ninguém pode provar que errei”. E aqui vem um pormenor que os fãs preferem não mencionar. As profecias não foram bem recebidas quando saíram. A primeira publicação em Lyon em 155 gerou mais suspeita do que admiração.

A linguagem esotérica e os presságios de destruição fizeram muita gente a pensar que Nostradamos era praticante de magia negra ou ocultista. A Michelle ficou tão preocupada com a reação que possivelmente queimou alguns dos textos mais polémicos que guardava no escritório em sal, tipo alguém a apagar o histórico do browser, mas com fogo real e documentos de verdade.

 Ainda assim, os editores concordaram em continuar a publicar novas centúrias nos anos seguintes. As vendas melhoraram, edições adicionais saíram em Paris e o projeto foi crescendo. Nostradamos planeava completar 10 centúrias com 1000 quadras no total, mas a morte chegou antes da conclusão. Em 1568 foi publicado o primeiro volume completo com 942 quarteirões, menos 58 do que o plano original.

Especula-se que um pequeno número de quadras acrescentadas nessa edição póstuma sejam obra de outro escritor, mas a esmagadora maioria é indiscutivelmente de Nostradamos, que as profecias não foram a única coisa que produziu nos anos finais. Entre outras obras, escreveu um texto sobre os hieróglifos egípcios chamado Orus Apolo, 182 epigramas em verso sobre o sistema de símbolos e pictogramas utilizado como linguagem escrita no Egito faraónico entre o terceiro e o primeiro milénios antes de Cristo.

Porque quando se é Nostradamos, nem o tempo livre é normal. Enquanto outras as pessoas descansam, jogam às cartas, tomam vinho, Nostradamos descodifica as civilizações mortas, afinal cada um com os seus próprios passatempos. Esse texto se baseava-se quase inteiramente na hieroglífica de Orápolo de Mantia, um estudioso grego que viveu no O Egito do século V depois de Cristo, quando o Império Romano do Oriente ainda dominava a região e Alexandria era ainda um dos grandes centros intelectuais do mundo, embora já na fase

glória em declínio. Nostradamos trabalhou provavelmente a a partir de uma tradução do grego pro latim feita por um académico francês chamado Jean Mersier, acrescentando aqui e ali os seus próprios comentários, porque Nostradamos era fisicamente incapaz de ler qualquer coisa sem opinar. O pormenor fascinante: Na França do século X, os hieróglifos egípcios eram um mistério absoluto.

 Ninguém fazia a mínima ideia do que aqueles símbolos significavam. A tradução só aconteceria no século XIX, quando as tropas de Napoleão encontraram a pedra de Roseta no Egito. Mas é no mínimo poético que um homem obsecado com linguagem esotérica e conhecimento secreto tenha se interessado precisamente por uma escrita antiga que ninguém conseguia decifrar.

Nostradamos era atraído por mistérios como traça por lâmpada, com resultados igualmente previsíveis. E os hieróglifos não foram a única produção paralela dele. Coerente com a sua longa carreira como boticário e médico da peste, Nostradamos publicou em 155 uma obra sobre cosméticos e medicamentos, referida carinhosamente como um livro de receitas.

 E não era metáfora. O texto incluía literalmente receitas de conservas ao lado de fórmulas medicinais. Porque no século X a linha entre farmácia, cozinha e salão de beleza era tão fina como papel de seda. Tudo vinha da natureza, tudo utilizava os mesmos ingredientes. E a diferença entre um medicamento, uma maquilhagem e um jantar era basicamente a intenção de quem misturava.

Uma das primeiras receitas do livro, óleo de nós moscada. Exatamente o ingrediente usado igualmente para medicamento, maquilhagem e tempero de alimentos, tipo um joker renascentista da cozinha farmácia Cosmetologia. Noutras partes do texto, Nostradamos ensinava a branquear os dentes e como preparar afrodisíacos.

 Afinal, nada soa tão médico sério do século X como um capítulo sobre higiene oral, seguido de uma receita para apimentar a vida conjugal. Na mesma altura, também trabalhava numa tradução comentada do protréptico, um texto médico do antigo Galeno escrito há mais de 1000 anos antes.

 O que é claro é que, embora Nostradamos seja hoje lembrado exclusivamente pelas profecias, o gajo era uma fábrica de produção intelectual nos anos 50 do século X. Ele escrevia sobre profecias, medicina, cosméticos, hieróglifos e conservas. tudo ao mesmo tempo. Era o equivalente renascentista de ter 30 separadores abertas no browser e achar que está dando conta de todas.

 E toda esta produção académica catapultou a fama de Nostradamos para muito além do que ele tinha alcançado como médico da peste. E eventualmente a reputação dele chegou onde toda a reputação francesa ambiciosa queria chegar, a corte real em Paris. Em 1533, o herdeiro do trono francês, o príncipe Francisco, tinha casado com Catarina de Médice, descendente daquela família florentina, que basicamente inventou o conceito de influência política através de dinheiro obsceno.

Quando Francisco se tornou rei, em 1547, Catarina tornou-se rainha com sorte e Catarina trouxe consigo da Itália uma paixão tipicamente renascentista, astrologia e almanaques. Em 155, ela deparou-se com o Almanaque de Nostradamos e uma das quadras insinuava uma ameaça à família real.

Catarina fez o que qualquer rainha sensata faria. convocou o autor a Paris imediatamente. Michel achou compreensivelmente que ia morrer, mas foi recebido com carinho e a partir daí, a Catarina passou a corresponder-se regularmente com ele, procurando aconselhamento sobre o futuro.

 Nostradamos tinha virado o astrólogo e consultor estratégico de plantão da coroa francesa. E depois veio o acontecimento que cimentou a fé da Catarina para sempre. Em 1559, o marido morreu num acidente de justa. Um pedaço de lança partiu-se e penetrou pelo olho até ao cérebro. Uma morte horrível e bizarra. E os fãs de Nostradamos apontaram imediatamente para uma quadra escrita anos antes: “O leão jovem superará o mais velho”.

 e que este aconteceria através de alguém ser perfurado no olho. A coincidência era demasiado boa para ser ignorada e Catarina não ignorou. Com a morte do marido, ela tornou-se efetivamente regente dos filhos, ainda demasiado jovens para governar. E sob o patrocínio dela, Nostradamos foi promovido a conselheiro real e médico ordinário do jovem rei Carlos I.

Isto significava pensão adicional e, mais importante, a proteção contra qualquer acusação de heresia ou magia negra. Nostradamos tinha conseguido o equivalente renascentista de um contrato vitalício com cláusula de imunidade, nada ma-boticário expulso de Montpelier. A prosperidade crescente tornou-se evidente quando ele e a mulher investiram num projeto de engenharia, um canal de 25 km desenhado por Adam de Crapon para trazer água do rio de Rans até Salon de Provenance, irrigando uma região castigada por secas de

verão. Os Nostredame tinham uma participação de um 13avos no empreendimento que correu tão bem que o canal foi estendido até ao rio Rodano ao Norte e quase até ao litoral do Mediterrâneo a Sul. Nostradamos, profeta, médico, escritor e agora investidor imobiliário hidráulico. Entre as pensões acumuladas, os royalties dos livros e os investimentos, a família Nostredam vivia confortavelmente em salon de Provence.

Embora confortavelmente, significa que ele, a esposa e seis filhos continuavam na mesma casinha de sempre. A casa existe até hoje e o tamanho da mesma sugere que, apesar de toda a a fama, a existência dos Nostredame era mais classe média estável do que celebridade renascentista, tipo um youtuber com 1 milhão de subscritores que ainda vive no apartamento de um quarto.

Na década de 1560, a saúde de Michel começou a falhar. O problema principal era a gota, um tipo de artrite que se manifesta em crises periódicas de inflamação dolorosa nas articulações. O profeta, que previu o destino de nações, não conseguiu prever que o seu próprio corpo ia declarar guerra contra ele.

 Ele ainda teve um último embate com as autoridades da igreja no início dos anos 60, quando foi brevemente preso em Marinh por não ter obtido permissão eclesiástica antes de publicar um almanaque. Não era acusação de heresia ou ocultismo, [a música] era burocracia. Ou seja, o profeta do apocalipse foi preso por falta de carimbo.

 Num país mergulhando em guerras religiosas que durariam quatro décadas, a igreja estava paranóica com qualquer publicação não autorizada e Nostradamos, apesar de toda a proteção real, esqueceu-se de preencher o formulário. Em meados da década de 60, a gota evoluiu paraa edema, retenção severa de líquidos que causava inchaço generalizado e comprometia gravemente a mobilidade.

No verão de 1566, Michel estava debilitado ao ponto de colocar os assuntos legais e financeiros em ordem através do testamento. Os bens que deixou paraa esposa e filhos eram substanciais, embora não luxuosos. Ele faleceu pouco depois, na noite do primeiro de julho de 1566 ou nas primeiras horas do dia 2.

 A história contada depois de que terá dito ao secretário particular na noite anterior que não o encontraria vivo ao nascer do sol parece conveniente demais para ser verdade, mas convenhamos, [a música] era exactamente o tipo de saída dramática que vendia livros e provavelmente não prejudicou em nada as vendas da primeira edição completa das profecias quando ela apareceu dois anos depois.

 Marketing póstumo de primeira linha. E o túmulo dele teve uma vida depois da morte tão estranha como o próprio Nostradamos. Quando morreu, foi sepultado de pé na igreja dos cordeli de Salon de Provence, porque aparentemente nem na morte o homem aceitava deitar-se como uma pessoa normal. ali ficou por mais de 130 anos até que no ano de 1700, o conselho municipal decidiu mover o corpo para uma cripta mais proeminente e durante o processo encontraram um colar no esqueleto com a inscrição 1700, que era o ano presente. Sim, o

ano exato da esumação, gravado no pescoço do tipo que estava ali desde 156. Os habitantes da cidade, compreensivelmente aterrorizados, enterraram de novo o corpo o mais possível, como quem fecha a porta do armário depois de ver algo a mexer lá dentro. Descansou por mais 91 anos, até que em 1791, um grupo de soldados bêbados da Revolução Francesa invadiu o túmulo, porque afinal nada representa tão bem liberdade, igualdade e fraternidade quanto vandalizar a sepultura de um profeta do século X depois de umas

garrafas de vinho. O presidente da Câmara da cidade interveio então e convenceu os soldados de que Nostradamos não tinha sido nobre, o que era tecnicamente verdade e na lógica revolucionária, razão suficiente para deixar o morto em paz. Mas a história não acaba aí.

 Nostradamos, numa das suas quadras, tinha escrito que o mal virá para o homem que abrir o túmulo e os soldados que profanaram o túmulo foram aparentemente atacados por forças contra revolucionárias. Não muito longe de Salomon e mortos. Todos eles. É o tipo de coincidência que faz historiadores coçarem a cabeça e os fãs de Nostradamos sorrirem com aquela expressão insuportável de “Eu avisei”.

Mesmo morto, o tipo continuava acertando, ou pelo menos continuava parecendo que acertava. O que convenhamos, sempre foi o seu verdadeiro talento. Ao longo dos séculos, a reputação de Nostradamos oscilou como um pêndulo. Por grande parte do tempo, desde a sua morte, a receção foi positiva.

 Para pessoas, vivendo as calamidades das guerras religiosas dos séc. e 17, aquelas quadras sobre reinos passando por desastre após desastre batiam demasiado perto de casa para serem ignoradas. O grande incêndio de Londres turbinou a sua fama no final do século X7 e as edições das profecias nunca pararam de sair, mais de 200 desde o século X, em dezenas de idiomas.

 É um dos livros mais vendidos dos últimos 500 anos. Um feito notável para um panfleto de versinhos vagos escrito por um antigo boticário da Provença. As vendas dispararam sempre durante crises, porque aparentemente em momentos de pânico, a humanidade sempre faz duas coisas: armazena comida e procura profecias. No século XX, a fama de Nostradamos atingiu o pico.

 Como se recorda, os escritos dele foram apontados como previsões de Hitler, das bombas nucleares do assassinato de Kennedy e até do 11 de Setembro. Charlatães surfaram a onda. Autores de livros sobre Nostradamos afirmavam comunicar com ele do além túmulo através da hipnose, o que é o tipo de alegação que deveria vir com um selo de Estou a fazer-te de otário? Muitos livros do séc.

refletiam a onda de interesse em ocultismo e magia negra que atingiu o auge entre as décadas de 60 e 80. Os detalhes da vida de Nostradamos foram exagerados ou inteiramente fabricados. Só mais recentemente, a partir dos anos 90, é que um realismo mais sóbrio instalou-se com estudos académicos tentando desmontar a imagem do profeta genuíno e destacar o que sempre ali esteve, a natureza vaga e inespecífica das previsões.

 Hoje, Nostradamos é uma figura gigante na cultura popular e profundamente desconhecida ao mesmo tempo. Quase ninguém se sentou a ler as profecias de verdade, mas quase toda a gente sabe quem é o profeta francês do séc. X. O seu nome evoca a imagem de um vidente antigo que previa ciclos intermináveis ​​de destruição, o que é, convenhamos, um branding excepcional para quem morreu em 156.

 A marca Nostradamos na cultura popular é absurdamente ampla. Dezenas de bestsellers, centenas de documentários e programas de TV. Vários filmes foram feitos sobre ele, incluindo uma curta nomeado ao Oscar em 1941 e um documentário de longa narrado por Orson Wells em 1981, com o título deliciosamente dramático de O homem que viu o amanhã.

Mais recentemente, apareceu como personagem na franquia do jogo Assassin’s Creed, onde o jogador precisa de resolver enigmas em Paris supostamente criados por Nostradamos. De profeta renascentista, a personagem de videojogos. Eu adoro. E o que sabemos de verdade sobre Michel de Nostredame? A história da vida dele é menos examinada do que as profecias.

 E com razão, já que existem buracos enormes na biografia, sobretudo nos primeiros anos. O que talvez seja mais impressionante é que não tinha formação nenhuma em astrologia. A sua profissão real durante a maior parte da vida foi medicina, médico da peste especificamente, [a música] e a reputação que construiu no sul de França vinha menos de algum dom místico e mais de uma abordagem de bom senso pro saneamento, o que, para sermos justos, já era revolucionário numa época em que o tratamento padrão era drenar o

sangue do doente e esperar pelo melhor. O trabalho como médico da peste fez três coisas por ele. Primeiro, deu dinheiro suficiente para que ele pudesse dedicar-se à escrita nas décadas de 50 e 60. Segundo, levou-o a viajar extensivamente e conhecer intelectuais que alargaram o seu repertório literário.

[música] E em terceiro lugar, e talvez mais importante, uma vida inteira a lidar com a morte e devastação, imbuiu Nostradamos com um sentido profundo de mal presságio, de pavor, de obsessão com destruição. E essa obsessão é a característica mais definidora das profecias.

 Quem pega no livro não encontra otimismo, encontra um catálogo interminável de morte, fogo, fome, seca, praga e colapso, página após página de desgraça rimada. E isso, mais do que qualquer suposto dom profético, é o que manteve a obra viva durante quase cinco séculos. Porque se Nostradamos tivesse escrito centenas de quadras sobre a construção de embarcações ou confecção de vestidos, ninguém se lembraria o nome dele.

 Mas a destruição, a destruição nunca sai de moda. A combinação de linguagem vaga, temas apocalípticos e ausência de datas [a música] criou a fórmula perfeita, um texto que qualquer geração em qualquer época pode abrir e encontrar evidências de que Nostradamos previu a catástrofe da vez. É um espelho profético. Vê nele o que já está à procura.

E esse talvez seja o verdadeiro legado de Michel de Nostredame. Não as profecias em si, mas a prova de que a humanidade em qualquer século, em qualquer crise, vai sempre procurar alguém que diga que já sabia, que já tinha avisado, que escreveu em versinhos de quatro linhas há 500 anos que tudo isso ia acontecer.

Nostradamos não previu o futuro. Ele compreendeu a natureza humana e que, convenhamos, é um tipo de profecia muito mais assustadora.

 

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