Christopher Cross: Ele Humilhou o Pink Floyd no Grammy e foi APAGADO pela Indústria  a

Christopher Cross: Ele Humilhou o Pink Floyd no Grammy e foi APAGADO pela Indústria  a

E se eu te disser que em 1981, um músico tímido e fora dos padrões de beleza da época realizou um feito que absolutamente ninguém na história da música tinha conseguido. Numa única noite, subiu ao palco e varreu as quatro principais categorias do Gramy: Álbum do ano, gravação do Ano, Canção do Ano e Artista Revelação.

Naquele instante, parecia que iria dominar a música pop década. Mas a mesma indústria discográfica que o coroou e o colocou no topo do mundo encarregou-se de o apagar completamente apenas alguns anos  depois. As rádios que antes tocavam os seus êxitos até à exaustão silenciaram.

 A toda poderosa e  recém-nascida MTV recusava-se terminantemente a mostrar o seu rosto na televisão  e as editoras discográficas. Elas simplesmente deixaram de retornar às suas chamadas. A pergunta que ecoa nos bastidores  do espetáculo é muito simples, mas assustadora. Como alguém vai da noite mais consagradora da história dos Grammy tocar em pequenas feiras agropecuárias de interior num espaço de tempo tão curto? Para perceber como uma das quedas mais vertiginosas da música aconteceu, precisamos de voltar no tempo, [a música] muito antes dos

prémios, dos tapetes vermelhos e das traições da indústria.   [canto]  Precisamos de voltar para a poirenta cidade de San Antônio, no Texas, no início da década de 70. Nesse tempo, Christopher Cross era ainda apenas Christopher Shepard. Criado no Texas, o músico vinha de uma família rigorosamente estruturada.

 O seu pai, Léo Joseph Geppert, foi um respeitado médico do exército dos Estados Unidos, um veterano de guerra e, posteriormente, o chefe do setor de pediatria do exército no Texas. Criado neste ambiente de bases militares, o jovem Christopher teve uma infância marcada pela disciplina, por constantes mudanças de morada e pela presença imponente e rígida da carreira do seu pai.

 A música, no entanto, surgiu cedo  como a sua verdadeira rota de fuga. Ainda muito jovem, ele desenvolveu um interesse profundo e quase obsessivo pela composição e pelo guitarra, dedicando horas a fio trancado no quarto, debruçado sobre o instrumento. Aquele violão tornou-se o centro de gravidade  do universo de Cris.

 Quando completou 20 anos de idade, a dura realidade financeira bateu à porta. Para sobreviver, ele tentava a sua sorte tocando numa banda cover local chamada  Flash. Esqueça os grandes palcos, as acústicas perfeitas e as luzes de arena. Eles se apresentavam em qualquer buraco na parede que tivesse uma tomada disponível.

  O circuito incluía bares fumados de beira de estrada no interior do Texas e os infames loes de  pistas de bowling, onde a multidão estava infinitamente mais interessada em beber cerveja barata, brigar e conversar em voz alta, do que em prestar qualquer tipo de atenção na banda que tocava no fundo do salão.

 O pagamento era, na melhor das hipóteses, um insulto à profissão. Havia noites sombrias em que toda a banda ganhava $0 para dividir entre todos os membros. Em outras piores ocasiões, não havia cachet em dinheiro e eram pagos  com algumas bebidas de graça. Os rapazes chegavam a conduzir mais de 300 km, apertados  com os seus amplificadores na traseira de uma carrinha sem ar condicionado, apenas para fazer um espectáculo que mal cobria o custo da gasolina gasta na viagem.

 Era o tipo de rotina avassaladora que destruía a paixão e a alma de qualquer músico promissor. Mas havia algo de fundamentalmente diferente em Chris. Enquanto os outros Os músicos da banda Flash estavam obsecados em tirar de ouvido as músicas famosas do rádio, apenas para agradar aos bêbados locais e garantir gorgetas, a mente dos Chris operava a uma frequência que os outros não conseguiam captar.

 Ele não ouvia apenas acordes simples batidos no violão. Ele ouvia arranjos orquestrais inteiros  a tocar dentro da sua cabeça. Ele imaginava arranjos de cordas, harmonias  vocais complexas e melodias desenhadas em camadas que soavam muito mais. como as super produções dos milionários estúdios da Califórnia, do que como a música crua de um bar de bowling tessano.

 Então, entre um set e outro, escondido nos fundos dos bares ou sentado no estacionamento, começou a escrever as suas próprias canções. Ele rabiscava letras, melodias  e ideias brutas. Os outros membros da banda não ficaram nada impressionados com aquela iniciativa. O raciocínio deles era prático e cruel.

 Ninguém entra num bar de beira de estrada no Texas para ouvir música original de artistas anónimos. Um dos colegas chegou a ser ríspido, atirando-lhe a verdade na cara. Eles querem os êxitos da rádio, Chris. Desista disso de escrever canções. Só toque o que  eles pedem. Mas Chris continuou a escrever. Não era uma escolha comercial, era uma necessidade física e espiritual.

 Havia uma dor latente da sua época de adolescente que precisava de exorcizar. Ele começou a moldar uma melodia incrivelmente suave ao violão. Ao contrário das lendas de que a música foi escrita dentro de uma van, o próprio Chris revelou anos mais tarde o verdadeiro significado daquela letra. Ela falava de um amigo mais velho da tua adolescência  denominado L.

 Quando as pressões da transição para a vida adulta, as cobranças e o caos do mundo pareciam demasiado grandes para o jovem Chris suportar, É o levava a navegar no seu barco. No meio das águas havia um silêncio absoluto, havia paz. Aquele barco era o seu santuário particular e aquela memória emotiva sobre encontrar um lugar calmo, um porto seguro e distante de todo o ruído do mundo, viria a tornar-se o mega hit eterno chamado Sailen.

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Mas, então, algo completamente fora da curva começou a acontecer durante as raras vezes em que testava estas músicas autorais nas apresentações da banda. As pessoas que estavam a beber na plateia começaram a aproximar-se da beira do palco para fazer pedidos. E para surpresa do resto da banda, o público não queria ouvir versões cover das rádios.

  Diziam: “Ei, toca outra vez aquela música do barco”. Para uma banda de bar perdida no imenso estado do Texas, aquele era um fenómeno inexplicável.  Músicas originais e lentas de artistas Os anónimos raramente conseguiam prender a atenção de um público embriagado de fim de noite, mas os pedidos para Sailing não paravam de chegar.

 A Cris ainda não tinha a mínima ideia da magnitude deste, mas aqueles pequenos e despretensiosos momentos de reverência dentro de bares escuros eram a faísca lenta de uma explosão histórica que estava para vir. A Cris percebeu que precisava de ajuda profissional para sair dos bares. Ele cruzou caminhos com Tin Niss, um empresário local do Texas que via o diamante em bruto naquelas canções.

 Tin conseguiu financiar algumas horas num estúdio local na cidade de Austin para que a Cris gravasse uma demo tape de alta qualidade, longe do ruído da banda cover. A ideia era enviar aquele material para a capital mundial do entretenimento,  Los Angeles. Durante meses, no final da década de 70, as fitas  demo de Christopher Cross circularam pelos escritórios das grandes editoras discográficas da Califórnia.

 O cenário musical daquela época era ditado por extremos. De um lado, as bandas de punk rock estavam cuspindo raiva e partindo guitarras nos palcos. Do outro,  a disco music dominava as tabelas com batidas eletrónicas e roupas extravagantes. O mercado exigia barulho,  suor e imagem agressiva. Literalmente, nenhum executivo da indústria na capital mundial do entretenimento parecia estar à procura de  canções polidas, calmas e absurdamente precisas de um músico texano completamente desconhecido. Até que finalmente a fita

caiu nas mãos de Michael Austin, um olheiro da Warner Brothers  Registos. Austin ficou impressionado com a maturidade das composições e levou o material para um dos figurões da produção musical da época, Michael Oarttian. O Marciano não era um produtor qualquer.  Ele possuía um ouvido clínico e já tinha trabalhado com talentos monstruosos, sendo fundamental na construção do som sofisticado de bandas como Stely D.

 Ele compreendia a arquitetura de um  arranjo musical como poucos profissionais no mundo. E no preciso segundo em que ele carregou no play e ouviu aquela demo tape, notou algo que os outros executivos surdos das outras editoras discográficas ignoraram. Apesar de ser apenas uma demo, as músicas já soavam prontas na sua estrutura.

 Era possível identificar progressões  de acordes de uma complexidade assustadora, transições fluidas e melodias que roçavam a perfeição técnica. A Warner Brothers decidiu assinar com o desconhecido texano. O Marciano foi escalado para produzir o disco e Chris foi levado para gravar nos conceituados estúdios da gravadora em Los Angeles.

 A gravadora libertou um orçamento razoável para a época. E é aqui que o som mágico da Christopher Cross ganha a explicação. O produtor não contratou músicos baratos. Ele trouxe a verdadeira tropa de elite dos músicos de estúdio de Los Angeles, a aristocracia dos bastidores. Para gravar as guitarras,  chamaram Larry Carton e o génio texano Eric Johnson, que gravou o solo estonte da faixa Minstrel Digolo  na cozinha do álbum Lendas dos Estúdios.

 E para os vocais de apoio, ninguém menos que Don Henley, o vocalista e baterista dos Eagles, J. Douder e a talentosa Valery Carter. Cris, que anos  antes tocava por uns trocos e bebida de graça, estava agora a liderar um exército dos melhores instrumentistas do mundo.  Quando chegou a hora de gravar a energética Ride Like the Wind, uma música que narrava a história de um fora-da-lei fugindo para a fronteira do México, o produtor sentiu que faltava uma potência vocal no refrão para dar aquele ar de urgência. 

O Marciano pegou no telefone e conseguiu trazer Michael McDonald, a voz  imponente e inconfundível dos Duby Irmãos. A presença vocal de McDonaldo, dando-lhe um peso e um alcance  absurdos. De seguida,  chegou a vez da jóia da coroa, Sailing. A pressão no estúdio para captar a magia daquela música era imensa.

 O Chris foi para o microfone, fechou  os olhos, procurou as memórias do barco do velho amigo e gravou a faixa vocal definitiva com uma clareza arrepiante.  A pureza da gravação impressionou todos na técnica, mas quando os engravatados e os altos executivos  da Warner Brothers finalmente sentaram-se em suas enormes cadeiras de couro para  ouvir o disco finalizado em dezembro de 79, a reacção inicial foi um doloroso banho de água fria.

 Eles acharam o som incrivelmente morno. Sim, era sofisticado, incrivelmente bem tocado, o suprassumo do que mais tarde seria designado por AOR ou adult oriented rock. Mas para a editora, aquilo simplesmente não bateria de frente com o rock de arena e a batida dançante, que dominavam as tabelas da Billboard. Sem grandes esperanças, a editora discográfica preparou um lançamento encolhido, quase burocrático.

 Mas, então, a força da a verdadeira música rompeu os corredores corporativos. No início do ano de 1980, a editora enviou o disco para as estações de rádio e a música Ride Like the Wind entrou na programação. O que se seguiu foi uma verdadeira histeria analógica pelo país. Em questão de semanas, os telefones das estações de rádio começaram a derreter.

 Eram dezenas, centenas de chamadas diárias de ouvintes alucinados a exigir  ouvir aquela música do Fora da Lei e a voz poderosa de Michael McDonaldo. Como um incêndio em floresta seca durante o verão, a faixa começou a espalhar agressivamente de Estado em estado. Os executivos da Warner Brothers, que haviam arquivado o entusiasmo pelo projeto, entraram em pânico e tiveram de correr desesperadamente para as fábricas para prensar dezenas de milhares de cópias físicas adicionais.

 Em Abril de 80, a música Ride Like the Wind furou a bolha e escalou implacavelmente até à posição de número dois na tabela americana. Bloqueada do topo absoluto apenas pelo Mega Hit Colm  da banda Blonde, que se faça justiça, era a dona do mundo naquele momento exato. Ainda assim, o segundo lugar significava que Christopher Cross estava agora a jogar na liga principal, mas segure o fôlego porque o lançamento do segundo single estava prestes a paralisar o país.

Quando Sailing foi finalmente libertada como música de trabalho no verão americano de 1980, algo que transcendia o comércio aconteceu. havia uma necessidade coletiva e silenciosa nas ruas americanas por um pouco de paz e calmaria  em plena Guerra Fria e das tensões económicas. E aquela faixa entregava exatamente uma fuga mental perfeita.

 Até ao mês de agosto, Sailen atropelou  toda a pesada concorrência e atingiu o cobiçado e solitário número um  na Billboard Hot 100. Rapidamente ela se transformou-se numa daquelas canções omnipresentes que se colam à parede de uma década. Entrava-se no supermercado, a música tocava. Ligava-se o rádio do carro a caminho do trabalho, ela estava lá.

 Ligava a televisão em programas de variedades e o dedilhado da guitarra soava. O álbum de estreia batizado simplesmente de Christopher Cross, explodiu nas vendas de uma forma assustadora. Os números rapidamente ultrapassaram a marca irreal dos 4 milhões de exemplares comercializados apenas dentro dos Estados Unidos. Para os cofres blindados da Warner  Brothers, aquele ex-músico de bar do O Texas tinha acabado de gerar uma enchurrada de dezenas de milhões de dólares.

 A vida de Chris  girou 180º e a consagração divina parecia ter uma data marcada. Na noite de 25 de fevereiro de 1981, teve lugar a 23ª edição dos Gramy Awards. O álbum de estreia do Tessano recebeu múltiplas nomeações. O Radio City Music Hall em Nova Iorque estava a abarrotar com a aristocracia da música global.

 Os Pink Floyd com o seu monumento chamado The Wall, Bárbara Strisent, Frank Sinatra, Billy Joel, gigantes que moldaram a história. E contra todas as apostas dos críticos, a noite tornou-se o massacre solitário de Christopher Cross. Quando o apresentador abriu o envelope para o cobiçado prémio de artista revelação, o nome de Chris eou. Caminhou até ao palco trêmulo.

Minutos depois, anunciaram o prémio de gravação do ano. A vencedora foi se em seguida, para perplexidade geral, o troféu para a canção do ano. Novamente a canção sobre o barco do velho a e depois o Evereste da Indústria discográfica, o prémio de álbum do ano. A tensão no teatro era cortante, o envelope foi rasgado.

  O vencedor Christopher Cross, ele bateu Frank Sinatra, Billy Joyle, Barbara Strisant e Pink Floyd. A audiência em estado de choque levantou-se numa ovação ensurdecedora. Absolutamente nenhum artista  em toda a história da música tinha conquistou as quatro grandes categorias principais numa única cerimónia de estreia.

 O recorde de Cross ficaria intocável durante quase 40 anos até ser igualado por Billy Eish apenas em 2020. Mas preste muita atenção à ironia sombria que [a música] acompanhou este triunfo. De pé, naquele palco brilhante, com os braços cheios de troféus dourados e o mundo aos seus pés, Cris não estava sentindo apenas alegria.

 Ele estava sendo tomado  por um terror paralisante. Ele entendeu de forma dolorosa e cristalina que a partir daquele exacto milésimo de segundo, todo o e qualquer disco que gravasse, todos os nota que ele cantasse para o resto da a sua vida, seria impiedosamente comparada àquela noite mágica e inatingível. O sarrafo tinha sido colocado tão alto que o oxigénio começou a faltar.

 E como se a pressão  psicológica já não fosse suficiente para esmagar um artista, o mundo da música estava há exatos meses de sofrer uma revolução  sísmica irreversível, uma mudança brutal de paradigma visual que tornaria a sobrevivência  artística de Christopher Cross praticamente impossível.Christopher Cross Official Website | Bio

 Em agosto desse mesmo ano histórico de 1981, um novo canal por cabo entrou no ar nos Estados Unidos. O nome deste canal era MTV. E para músicos fora do padrão comercial, aquelas três letras se tornariam a sentença de morte dos seus carreiras. Até esse momento, a regra do jogo era estritamente auditiva. O sucesso dependia de forma esmagadora do rádio.

 Se o arranjo fosse primoroso e a melodia forte, a música tocava e faturava milhões. Os ouvintes em casa raramente tinham a oportunidade de ver o rosto do cantor com frequência. E francamente, a aparência não era o critério de qualidade de ninguém. A MTV rasgou esse manual de instruções no meio. Da noite para o dia, a música passou a ter olhos.

 Todo o grande hit precisava agora desesperadamente de um rosto perfeitamente esculpido para as câmaras. Roupas de alta costura, um estilo de cabelo milimetricamente desarrumado e uma atitude performativa que transpirasse perigo e sexualidade. Os vídeos promocionais baratos foram extintos, dando lugar a videoclips que eram super produções cinematográficas com narrativas visuais ousadas.

 Nessa nova arena de gladiadores estéticos, Christopher Cross esbarrou numa barreira de betão. Ele não era definitivamente o arquétipo visual exigido pela emergente geração MTV. Cris estava na casa dos 30 anos. O o seu cabelo estava visivelmente a ralear num início de calvice. Ele usava óculos graduados grossos, vestia camisolas confortáveis ​​e estava a lutar contra a  balança, sendo consideravelmente mais pesado do que os estrelas andrógenas ou saradas da pop.

Parecia um sujeito absolutamente normal, o tipo de pessoa decente e tranquila  com quem conversaria na fila de um banco comercial no Texas. Enquanto isso, a emissora estava a inundar  a mente da juventude mundial com deuses inatingíveis. Os Duran Duran gravavam clipes em iates luxuosos nas Caraíbas, rodeados de supermodelos.

 Miguel Jackson explodia os ecrãs com coreografias que desafiavam a gravidade in Billy Jean. Madona criava estéticas que provocavam a igreja e a sociedade. Prince suava com roupas de renda roxa, emulando sexo puro com a sua guitarra. Colocado no mesmo canal, junto a essa realeza visualmente agressiva, a estética comum de Christopher Cross parecia um erro de programação.

 Numa infame entrevista aos jornais da época, que acabou por definir a crueldade daquela década, um programador e executivo sénior do mercado musical foi letal na sua avaliação. Ele explicou de forma gelada que no novo mercado os jovens espectadores  queriam consumir artistas que, abre aspas, desejavam ser ou artistas que desejavam namorar.

 E infelizmente  para Warner Brothers, Christopher Cross não era objeto de nenhum destes dois desejos. As revistas musicais e as As rádios mais agressivas perceberam a viragem da maré e o cheiro a sangue. Piadas impiedosas sobre a sua aparência física começaram a surgir. Um artista de génio absoluto que acabara de limpar os prémios da Academia de Gravação estava a ser tratado como uma figura datada e desconfortável de se assistir.

Mas antes que a indústria musical baseada na imagem pudesse enterrar o Golden Boy sob pilhas de laca e maquilhagem néon, o seu talento puro e avaçalador provou o seu valor no lugar onde a MTV não tinha jurisdição, o cinema. Ainda a colher os louros do sucesso estrondoso e dos Grammy, foi convidado a participar num colaboração dos sonhos para compor a música tema de uma nova comédia romântica milionária de Hollywood chamada Arthur, o milionário sedutor, que contava com o ator Dley Moore no papel principal. A Cris viajou para Nova Iorque e

juntou-se a um verdadeiro conselho de deuses da composição. O lendário maestro Bert Bakarak, a genial letrista Caroly Berager e o artista Peter Allen. Eles precisavam de uma música que traduzisse a boémia solitária e melancólica do personagem principal preso em Nova Iorque. Acontece que Peter Allen tinha uma linha antiga que costumava cantar.

 Quando fica-se preso entre a lua e a cidade de Nova Iorque, Chris Cross ouviu que  e os quatro mestres costuraram a magia juntos. Assim nasceu  o hino eterno Arthur’s Best That you Can do.   Quando a música foi lançada juntamente com o filme, o resultado não foi apenas um sucesso, foi um ataque nuclear às rádios de baladas de todo o globo terrestre.

 A canção esmagou a parada da Billboard, estacionando no cobiçado número um durante três semanas ininterruptas no Outono de 81. Mas o golpe de misericórdia nos críticos que troçavam  de Cris ocorreu em Março do ano de 1982, durante a cerimónia dos Óscares. Quando o envelope de melhor canção original foi aberto, o nome de Christopher Cross e dos seus parceiros de composição foi anunciado.

 Cris subiu ao palco mais prestigiado do planeta e recebeu a estatueta dourada do cinema. Pense no tamanho assustador e irreal deste feito durante apenas 10 segundos. Num intervalo de menos de 3 anos completos,  o miúdo tesso, que ganhava algumas notas amassadas a tocar rock cover em pistas de bowling imundas, exibia agora na lareira da sua casa cinco gramofones dourados dos Grammy e uma estatueta do Óscar de Hollywood.

 No papel dos contratos comerciais, a sua carreira era blindado, um navio de guerra indestrutível atravessando as águas do showbsiness. Mais longe das câmaras da cerimónia de premiação, dentro das sombrias e geladas salas de reunião da gravadora, a terrível e sufocante pressão para manter as engrenagens de lucro a girar estava começando a causar fissuras fatais na estrutura da sua carreira.

 A Warner Brothers farejava a urgência.  Exigiam que o novo álbum completo de estúdio fosse entregue de imediato. A ordem era simples e impossível. Façam outro disco que venda 4 milhões de cópias. Mas o conselho de administração da gravador estava rachado ao meio. Metade dos engravatados defendia a ideia conservadora de fazer um álbum fotocópia do primeiro, cheio de suaves baladas para garantir a audiência adulta fiel.

 A outra metade, aterrorizada com a força visual esmagadora das novas bandas inglesas, exigia que Cris modernizasse drasticamente a sua sonoridade, injetasse teclados e sintetizadores pesados ​​e criasse uma estética agressiva  para conseguir implorar por alguns segundos de atenção na programação da MTV.

Pressionado, estafado e tentando agradar a dois senhores diferentes, Christopher Cross mergulhou nos estúdios durante quase dois longos anos para gravar o seu segundo disco. A tensão interna era  insuportável. Depois de gastar fortunas e refazer caminhos, o aguardado álbum, Another Page chegou às prateleiras no início de 1983.

Surpreendentemente, o disco não foi um fracasso criativo. O primeiro single de trabalho, a dançante e enérgica Allright, foi um hitusto, alcançando a 12ª posição na Billboard Hot 100.  Mas a verdadeira bomba do álbum viria de uma canção carregada de uma das histórias de bastidores mais trágicas e verdadeiras de toda a indústria.

 O álbum trazia uma balada incrivelmente delicada chamada Think of Laura.  A letra falava com uma doçura angustiante sobre a fragilidade da vida. Durante anos, milhões de pessoas acharam que a música era apenas mais uma letra romântica. O que quase ninguém sabia era a origem sombria e real daqueles versos. A Cris namorava com uma mulher chamada Pid.

 A colega de faculdade de Pageid e a sua melhor amiga chamava-se Laura Carter. Num dia absolutamente normal, enquanto estava sentada no banco de trás do carro do seu pai numa avenida nos Estados Unidos, Laura foi atingida em cheio no peito por uma bala perdida, resultante de um tiroteio cruzado entre gangues rivais. A jovem morreu tragicamente no banco do automóvel.

Devastado com o luto desesperador do seu namorada Page, Christopher escreveu Think of Laura como uma canção de conforto pessoal para tentar trazer um pouco de paz perante a aleatoriedade violenta da vida. A música nunca teve a intenção comercial inicial de ser um mega hit de rádio. No entanto, o destino interveio de forma bizarra.

 Naquela mesma época, a principal e mais popular novela dos Estados Unidos, General Hospital, Hospital Geral, que parava o país nas tardes de televisão, estava no ápice do drama das personagens Luke e Laura. Os produtores de TV precisavam de uma música para assinalar a ausência angustiante da personagem Laura nas telas.

 Ouviram o disco de Cross e pegaram no Think of Laura. O sucesso da novela arrastou a música para o nono lugar na Billboard.  O Texas mais uma vez tinha conquistado a América. Mas a crueldade implacável da indústria é que Christopher Cross não estava a ser julgado pela qualidade das as suas obras ou comparado com outros artistas comuns.

 Ele estava a ser colocado na balança contra a sombra do o seu próprio fantasma de 1981. O seu álbum de estreia tinha derretido os stocks, vendendo 4 milhões de cópias sem esforço. Another Page, apesar dos hits, patinou e sofreu violentamente para arrastar 800.000 cópias vendidas nas lojas. Para qualquer músico, vender quase 1 milhão de exemplares era a consagração.

 Mas nas folhas de Departamento Financeiro da Warner Brothers, a queda foi classificada a portas fechadas como um fracasso de investimento e um alerta vermelho gravíssimo. O verdadeiro estrago financeiro começou a surgir nas turnês. Em 81, Cris atraía multidões ensandecidas para as maiores arenas do país.

 Em finais de 83, aquelas multidões formadas por jovens simplesmente evaporaram, hipnotizadas pelos astros do videoclipe. Envergonhados, os Os empresários de digressão tiveram que começar a baixar o estatuto de cross, transferindo as suas apresentações de enormes estádios  desportivos para pequenos e modestos teatros de província.

 A venda antecipada de bilhetes despencou. Até 1984, Christopher Cross já tinha acumulado uma fortuna considerável, graças ao enorme sucesso do seu álbum de estreia e aos royalties multimilionários gerados por êxitos omnipresentes, como Arthur St. Ele tinha comprado casas, propriedades no Texas e viveu o conforto desmedido e justificava que era totalmente compatível com o seu estrondoso sucesso de vendas.

 No entanto, com a mudança estética abrupta e radical da indústria musical na era MTV e a acentuada queda livre da sua popularidade na comunicação social de massa a partir de meados dos anos 80, a a sua principal fonte de rendimento nas turnês diminuiu drasticamente, como acontece  com todos os artistas que sofrem ascensões meteóricas, grande parte dessa receita foi também pesadamente dilacerada e drenada pelo implacável leão dos impostos governamentais elevados dos Estados Unidos, além de custos altíssimos de gestão de escritórios e comissões

profissionais. Embora o músico nunca tenha de facto falido ou entrado em colapso financeiro absoluto, a verdade nua e crua é que teve de apertar drasticamente os travões da sua conta bancária e ajustar o seu estilo de vida para uma realidade significativamente menos extravagante e na babesca do que durante a época em que passeava com Gramies pelas ruas de Nova Iorque.

 Há registos fiáveis ​​da indústria de que num intervalo assustador de poucos anos, o rendimento anual astronómico gerado apenas por digressões e novos discos despenhou-se para uma fração perigosa do que costumava faturar. Em 1985, a editora discográfica e os agentes exigiram uma última cartada vital para tentar salvar a viabilidade comercial do mesmo.

 Ele entrou em estúdio e lançou o seu terceiro álbum, que ostentava um título perigosamente profético, Every Turn of o Mundo. A editora discográfica despejou fortunas na produção, forçando crise os músicos de estúdio a utilizarem camadas pesadíssimas de sintetizadores plásticos e baterias programadas para tentar, de forma totalmente artificial e engessada modernizar o som orgânico do músico texano à força.

 O resultado criativo foi um disco estranho que soava como um artista de fato, tentando desesperadamente usar as roupas coloridas de um adolescente. O público virou costas imediatamente. Comercial e artisticamente, o disco afundou-se nas lojas como uma âncora pesada, sem deixar nenhum rasto de sucesso. As vendas ao todo o mundo não conseguiram nem sequer ultrapassar a irrisória e humilhante marca das 100.

000 cópias totais. Para a máquina corporativa e impiedosa da Warner Brothers, a relação com o artista tinha chegado ao seu fim utilitário. O próprio Christopher sentia profundamente o desânimo dos bastidores. Segundo o artista, tinha a perceção cristalina de que deveria ter feito as as suas malas, saído pela porta da frente e deixou a editora definitivamente após o vexame comercial de 1985.

Mas os pesados ​​contratos de gaveta são correntes de ferro. Ele foi mantido legalmente refém, obrigado contratualmente a entregar mais um álbum de estúdio completo para a editora discográfica antes de poder ser libertado. Esse álbum fúnebre e obrigatório foi Back of My Mind, lançado sorrateiramente no ano de 1988, sem qualquer tipo de fanfarra, o disco chegou às lojas já sob um clima frio de velório, com o apoio promocional da gravador quase totalmente reduzido a pó.

 Numa entrevista amarga e reveladora dada anos mais tarde,  Cris foi sincero sobre o declínio da sua antiga casa. A Warner perdeu totalmente o interesse. Naquele momento crítico, eu Senti fisicamente que deveria deixar a gravadora e seguir o meu rumo, mas eles não me deixaram ir embora, seguraram o o meu contrato e por essa altura dos acontecimentos, o carinho deles por mim já tinha desaparecido por completo.

 A grandes meios de comunicação e as revistas especializadas de mexericos adoram inventar lendas trágicas de astros falhados bebendo no fundo do poço. Mas a realidade de Christopher Cross naqueles anos finais da década de 80 foi muito mais inusitada e verdadeira do que qualquer ficção mentirosa. Enquanto a  indústria engravatada tratava-o com o desprezo silencioso destinado a uma velha relíquia  empoeirada e a MTV continuava a enterrar o seu legado por baixo de novos vídeos espalhafatos.

Christopher Cross simplesmente trocou de paixão. Frustrado com as traições corporativas e a pressão absurda pelas vendas e dono de uma considerável fortuna acumulada nos anos dourados, ele decidiu despejar a sua adrenalina numa das atividades mais perigosas do planeta, o automobilismo profissional. Ele não era apenas um músico a brincar em autódromos de fim de semana.

 Ele investiu dinheiro pesado, tornou-se coproprietário de equipas automobilísticas de topo e chegou a disputar posição no asfalto lado a lado com feras das pistas, incluindo o lendário ator de cinema Paul Newman. Enquanto as grandes editoras discográficas achavam que estava em casa deprimido e esquecido pelo mundo, estava a 300 km/h em pistas americanas, arriscando a própria vida e esvaziando a mente dos problemas de Los Angeles.

 Mas a chama da música, o talento de escrever melodias imbatíveis nunca se apagou. No final da década e atravessando inteiramente os anos 90, regressou aos estúdios de forma independente ou por selos mais pequenos. Ele compreendeu com profunda sabedoria que já não era um artista do topo da tabela da Billboard.

 E em vez de se afogar no ressentimento que destrói tantos dos seus colegas de geração que caíram no buraco do ostracismo, ele apenas aceitou a realidade do momento com a cabeça erguida e seguiu em frente. Atravessou o mundo durante décadas, fazendo longas digressões na Alemanha, no Japão e nas Américas. Lançou vários álbuns que,  embora não tenham atingido as cifras multimilionárias dos seus dois primeiros discos, possuíam um refinamento de estúdio de alta qualidade, mantendo viva a base de fãs leais que amavam o seu

trabalho orgânico. Não havia hordas de papará escondidos nos arbustos ou capas glamorosas na Rolling Stone, mas havia a a dignidade intocável e o ofício sagrado do músico operário. E o tempo, como dizem os antigos, é o único juiz que nunca erra o seu veredicto relativamente à arte.

 Com o passar veloz dos anos e a chegada definitiva do novo milénio, algo incrivelmente maravilhoso e inesperado aconteceu nas entranhas da cultura pop contemporânea. Um movimento de monumental reavaliação crítica teve início em 2005, impulsionado por uma série de comédia na internet criada pelo argumentista JD Risnar. que cunhou e popularizou o termo Yat Rock, uma brincadeira satírica sobre a vida de músicos na Califórnia.

 A série ironizava figuras como Michael McDonald, Kenny Loggins e, claro, Christopher Cross. Mas a brincadeira saiu completamente do controlo dos seus criadores. Os jovens que começaram a ver os episódios da web e a rir da moda foleira da época, decidiram pesquisar e ouvir as músicas reais daqueles artistas nas recém-criadas plataformas de streaming.

E o que descobriram não foi uma piada. Eles descobriram melodias complexas, um nível de virtuosismo nos instrumentos que as bandas de rock da época invejavam silenciosamente. Harmonias vocais intocáveis ​​e uma sofisticação de produção que os Os produtores musicais modernos sonham em alcançar.  O que começou como um meme hilariante na internet ressignificou toda a carreira de Christopher, o estilo suave e polido da viragem da década de 70, que havia sido cobardemente execrado, humilhado e ridicularizado pelos cruéis críticos

musicais como sendo  uma música de elevador desalmada, sofreu uma reabilitação histórica espetacular. Produtores modernos, grandes estrelas do hip hop, que utilizam os samplers, cortes das suas músicas  e amantes de vinil passaram a idolatrar publicamente o som puro de Christopher Cross.

 Ele voltou a ser agradável. O ostracismo forçado acabou. Contudo, a vida joga sempre dados pesados ​​e implacáveis ​​nos momentos de maior acalmia. Em 2020, durante o pico aterrador da pandemia global, um susto colossal atingiu a comunidade musical. Christopher Cross contraiu o agressivo vírus da Covid-19. O caso não foi brando.

 A sua condição foi-se agravando vertiginosamente, dia após dia, com complicações silenciosas assustadoras. No meio da batalha desesperada no hospital contra o vírus respiratório, o cantor e mestre do violão recebeu a pior e mais angustiante notícia que um ser humano pode ouvir. Devido a uma rara e violenta reação do próprio organismo à infecção por COVID, ele tinha desenvolvido uma terrível e progressiva doença neurológica denominada síndrome de Guilha Barrer.

 A condição implacável fez com que o seu próprio sistema imunitário atacasse de forma indiscriminada a bainha dos seus nervos motores, resultando numa assustadora paralisia quase total que tomou conta das suas pernas. Inutilizou temporariamente as suas mãos que há décadas tocavam guitarra com mestria e paralisou os músculos do seu próprio rosto.

 Foi uma descida ao inferno físico. Cross passou um doloroso e lento período de total isolamento hospitalizado, lutando para sobreviver. Quando finalmente a fase aguda da doença cedeu o controlo, teve de enfrentar uma humilhante e extenuante maratona de fisioterapia diária para conseguir recuperar a capacidade básica de andar e de segurar um instrumento nas mãos novamente.

 A sua recuperação pessoal foi um teste severo de vontade inabalável, exigindo que o homem, que já tinha dominado o palco das maiores entregas de prémios do planeta, reaprendesse, literalmente a dar o seu primeiro passo sozinho. Ele teve de lidar durante meses  com dores crónicas lancinantes de danos neurais profundos e uma fraqueza constante que lhe drenava a alma.

 Numa corajosa entrevista no ano seguinte, ele revelou ao público a extensão do seu pesadelo. Relatou que, por uma graça do destino, os movimentos dos seus dedos tinham recuperado o suficiente, permitindo que a música voltasse a fluir para as cordas da guitarra. Mas as suas pernas, infelizmente, continuavam a apresentam graves problemas de mobilidade, obrigando-o a adotar definitivamente o uso de uma bengala para conseguir caminhar.

 Hoje, firme, resiliente e incrivelmente grato por estar vivo com mais de 70 anos de idade, Christopher Cross recusa-se categoricamente a pendurar as chuteiras e a palheta de forma silenciosa. Inclusive, e digo isto com muito orgulho, nós aqui da produção do Rock Doc tivemos o privilégio absoluto e o enorme prazer de assistir e vibrar num espectáculo lotado dele, numa casa de espetáculos deslumbrante e com o público cantando em total sintonia.

 Ele carrega consigo o peso sombrio e a enorme leveza luminosa de uma história absolutamente ímpar na bagagem secreta da música mundial. E a verdade incontestável que destrói qualquer teoria de marketing é que, não importa a idade que tenha, sempre que pisa o velho estrado de madeira iluminada do palco e acomoda com carinho as velhas cordas vibrantes da a sua guitarra elétrica ou do seu violão acústico perfeitamente amaciado, a mágica antiga das madrugadas dos estúdios da Califórnia acontece de forma assustadora. Se esta descida visceral,

honesta e implacável aos bastidores espinhosos do absurdo preço cobrado pelo estrelato  precoce da música, despertou a sua curiosidade pela arte orgânica que tanto gosta de ouvir nos auscultadores, [a música] faça parte do nosso canal, é totalmente gratuito. Basta clicar e inscrever-se agora mesmo. Desta forma, fortalece a nossa comunidade e ajuda-nos diretamente a entregar vídeos incríveis e com apurações profundas, como este para si todas as semana.

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