Como um CACHACEIRO Virou o Melhor LATERAL da História do Futebol l
3 de Junho de 97, o estádio Gerland e Lyon, França, torneio amigável preparatório parao Mundial de 98. Brasil empatado a zero com a França. Aos 21 minutos da primeira parte, falta para o Brasil. A 35 m da baliza, a bola está com Roberto Carlos. A bola passa 1 metro fora da barreira, sai do enquadramento da câmara de televisão.
O guarda-redes francês Fabian Bartz nem se mexeu. Nas palavras dos próprios cientistas, ele não acreditou no que via. E depois a bola fez o impossível. Voltou, curvou-se de volta, entrou no canto direito da baliza numa trajetória que físicos do mundo inteiro passaria os 13 anos seguintes tentando explicar. Em 2010, o Journal of Physics, uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo, publicou um estudo de quatro físicos da Escola Politécnica de Paris, detalhando matematicamente como aquele remate foi possível. Este era um lateral
esquerdo, não um médio clássico, não um especialista em bola parada, um lateral de 1,68 m de altura que cresceu numa fazenda de café no interior de São Paulo, que aos 8 anos de idade trabalhava numa tecelagem, que aos 11 anos jogava o futebol numa equipa de fábrica de aguardente com adultos para escapar às pancadas dos miúdos da idade dele.
Esse cara tornou-se o melhor lateral esquerdo da história do futebol. E para compreender como um filho de lavrador do interior do interior de São Paulo conseguiu rematar uma bola de uma maneira que se transforma em matériapra para estudo científico em França, a gente precisa de voltar ao início. Antes do O Real Madrid, antes do Inter de Milão, antes do Palmeiras, antes do União São João de Araras e antes do golo contra a França, tinha um menino baixinho, troncudo, descalço, correndo atrás de uma bola de meia num campo de terra batida
rodeado por pés de café. E o que ele aprendeu naquele campo foi exatamente o que o futebol brasileiro está a perder hoje em dia. Garça, interior de São Paulo, cidade de um pouco mais de 40.000 habitantes na época, conhecida pela produção de café. 10 de Abril de 73, numa quinta chamada São José dos Bonini, nasceu Roberto Carlos da Silva Rocha. Pais agricultores Oscar e Vera.
Três irmãs, Silva, Cristiane e Gisele. O o seu nome não foi escolhido por acaso. O pai era fã do cantor Roberto Carlos, o rei. Tinha o nome da maior estrela da música brasileira. Ele não tinha nada do que a vida da maior estrela da música brasileira oferecia. A foto que ainda existe nos arquivos da cidade de Garça mostra um rapazinho de 4 5 anos cabelo cortado curto vestido com a camisa do Santos antes de um jogo do campeonato amador da cidade.
Atrás dele, o pai O Oscar jogava no time da fazenda. Quando não estava a jogar, defendia a equipa de Varza Garcense e o Roberto cresceu ali no mato atrás da bola. Mas o que ninguém imaginava é que esta rotina simples, quinta, campo de terra batida, pai amador, time de varz, era exactamente a fórmula que o Brasil utilizou para produzir os maiores craques da história e que a gente deixou de usar há mais ou menos 20 anos.
Para perceber o que este significa, Roberto Carlos não cresceu num clube, não cresceu numa escolinha, não tinha categoria de base, não tinha treinador profissional, não tinha estrutura, tinha um campo de terra, um pai amador e uma equipa de quinta. E é exatamente este o ambiente que produziu Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Ronaldinho.
Todos estes tipos começaram em campos semelhantes. Todos aprenderam o jogo no improviso, na falta de regra, no espaço aberto onde o talento decide. Hoje o menino com talento semelhante seria identificado pelos olheiros aos 9, 10 anos. seria levado para a base de algum clube grande. Aos 16 estaria a ser negociado com a Europa, aos 18 anos jogando na Premier League ou na La Liga.
Roberto Carlos só foi sair de Garça com 8 anos e não foi para um centro de formação, foi para outra coisa que mudou tudo. Em 81, a família Silva Rocha já não tinha como continuar em Garça. Mudaram para outra cidade do interior, Cordeirópolis. E o que aconteceu ao Roberto Carlos lá nos próximos 3 anos é o tipo de história que não combina com currículo de um futuro pinta campeão do mundo, mas é exatamente o que o formou.
Cordeirópolis fica no centro do estado de São Paulo, perto de Limeira, cidade de um pouco mais de 15.000 habitantes na época, conhecida por uma coisa, a cerâmica e produção de aguardente. A família Silva Rocha foi viver com os avós. Roberto O Carlos tinha 8 anos e começou a trabalhar numa tecelagem. aos 8 anos.
Para que fique claro, não estamos a falar de ajudar no serviço de casa, estamos falando de trabalho infantil real em fábrica, numa cidade brasileira de 81, onde tal era comum. Mas, hoje em dia, lógico que seria crime. O futuro maior lateral esquerdo da história do futebol passava o dia numa máquina de terceiro aos 8 anos de idade e tinha o futebol.
A noite, aos fins de semana, no tempo que sobrava. Aos 11 anos, o Roberto passou a jogar futebol pela equipa de uma fábrica de aguardente da cidade. Pera, escuta de novo. Aos 11 anos, equipa de adultos, fábrica de cachaça. Mas por que é que ele jogava com adultos e não com rapazes da idade dele? Os relatos de quem conhecia a família contam que o pai jogava na mesma equipa.
E o Roberto preferia jogar com adultos porque jogando do lado do pai, escapava à maldade dos outros. Os rapazes da idade dele batiam, faziam violência, era um mar de crianças. Os adultos respeitavam, não magoavam filho do colega de equipa e o miúdo podia jogar de Aos 11 anos, estava jogando contra adultos, com força física de adulto e era baixinho, troncudo, com 1,55 de altura.
tinha que se virar, tinha que driblar, tinha que correr mais, tinha de pensar mais depressa. E foi neste Mas havia um pormenor que ninguém imaginava ainda. Roberto Carlos não era lateral, era avançado. Nessa altura, Roberto Carlos jogava no meio campo e no ataque, nem pensava em ser lateral, era avançado. Para ele, atacar não era uma opção tática, era o jogo que aprendeu a jogar há muito tempo.
Não tinha treinador dizendo: “Mantém-te na tua posição”. Não tinha um esquema 442 com marcação à zona, tinha bola e baliza, espaço aberto. Quem corria mais atacava, quem chutava mais forte marcava golo. A primeira convocatória importante surgiu nos Jogos Abertos do Interior, jogando pela cidade de Cordeirópolis.
Roberto era estrela do equipa amadora da cidade. Os olheiros começaram a aparecer. Em 98, com 15 anos, Roberto foi para a base do União São João Desporto Clube de Araras. Esse clube havia algo raro para a época. era um dos primeiros clubes e empresas do Brasil. Tinha investimento privado, base estruturada, planeamento profissional.
Não era um clube de massas, mas era organizado. Em 90, com 16 anos de idade, foi promovido ao profissional. E aqui aconteceu o pormenor que muda tudo. O Roberto Carlos chegou à União São João como atacante. Era o que ele jogava em Cordeirópolis, era o que ele queria ser, era o que sabia fazer.
Mas na equipa profissional faltou um lateral esquerdo e o que aconteceu nesta única conversa entre ele e o técnico mudou para sempre o futebol mundial. No time profissional faltava um lateral esquerdo. O técnico olhou para o elenco e viu um miúdo de 16 anos, baixinho, troncudo, canhoto, com um pontapé muito forte e perguntou: “Você importa-se de jogar a lateral?” Ele aceitou, não tinha noção do que esta pergunta ia fazer com a vida dele.
Em duas épocas, tornou-se titular absoluto. Os olheiros começaram a aparecer, a combinação era inédita, a velocidade, a remate de atacante com a posição de lateral, subia, atacava, rematava. O O futebol brasileiro nunca tinha visto isso. Em 91, com 18 anos, foi convocado para a seleção brasileira sub-20.
O time chegou à final do Mundial sub-20 desse ano e perdeu para Portugal, mas o Roberto Carlos tornou-se um nome conhecido. Em 92, com 19, foi pro Atlético Mineiro para fazer uma digressão na Europa. Ainda não era titular, mas estava a preparar-se para entrar em um clube grande. O clube que apanhou o Roberto Carlos em 93 não foi o São Paulo, que era a equipa da moda no Brasil nessa altura, campeão do mundo em 92 e 93.
º Não foi o Corinthians, não foi o O Flamengo, foi um clube em transformação com um patrocinador internacional que tinha acabado de comprar o clube na prática. E o que aconteceu nas duas épocas seguintes consagrou o Roberto Carlos como o melhor lateral do Brasil. Palmeiras 93. O clube tinha acabado de fechar uma parceria com a Parmalat, empresa italiana de lacticínios, que injetou dinheiro como nunca antes na história do futebol brasileiro.
O time foi montado para ganhar tudo e ganhou. A Parmalat trouxe Roberto Carlos do União São João. Aos 19 anos, entrou num elenco que tinha de mundo, César Sampaio, Mazinho, Zinho e Evair. Era o equipa mais forte do Brasil. e o Roberto O Carlos explodiu. Em 93, o Palmeiras conquistou o Campeonato de São Paulo, o torneio Rio São Paulo e o Campeonato Brasileiro, tríplice coroa.
Em 94, repetiu: Campeonato de São Paulo, Campeonato Brasileiro, bicampeão brasileiro consecutivo. Em 185 jogos pelo Palmeiras, Roberto consolidou o estilo que se tornaria a sua marca. subia o ataque com a velocidade de ponta, finalizava fora da área com a perna esquerda absurda e mesmo assim conseguia voltar para defender.
O treinador Vanderley O Luxemburgo deu liberdade total e descobriu que tinha um lateral que mudava jogos. Em 95, Roberto saiu do O Brasil, bicampeão brasileiro pelo Palmeiras, convocado regular da seleção, tinha 22 anos. E o importante pormenor que vai virar a chave desta história inteira é que saiu com a identidade brasileira completamente formada, diferente do que aconteceria com os miúdos de hoje em dia.
E a primeira paragem na Europa quase acabou com a carreira dele antes de começar. O Inter de Milão venceu a corrida para a contratação, pagou o equivalente a 7 milhões de dólares, uma fortuna na época. E o Roberto Carlos foi a segunda contratação mais cara do Inter naquela janela, ficando apenas atrás do inglês Paul Eines.
Aos 22 anos, com a malandragem da fábrica de aguardente, dois títulos brasileiros e uma identidade definida, Roberto Carlos partiu para a Europa. E aí veio uma decisão que quase acabou com a carreira dele mesmo antes de começar. O técnico que apanhou o Roberto na Interveia que ficou para a história como uma das piores leituras táticas do futebol moderno, mas que ironicamente fez do Roberto Carlos o jogador que veio a ser.
Época de 956, Roberto Carlos chegou ao Inter de Milão com a expectativa de virar o lateral titular do Inter. O clube tinha acabado de ser comprado por Máximo Morati, que prometia investimento pesado para reerguer a equipa. O treinador era Roy Rodison, inglês, conhecido pela disciplina tática. E o Rodson olhou para Roberto Carlos e tomou uma decisão que entraria para a história.
Escalou-o como ponta esquerda. Ponta esquerda. Roberto Carlos, o tipo que tinha acabado de ser bicampeão brasileiro com um lateral esquerdo, o tipo que combinava ataque com defesa como ninguém na história. Rodinson resolveu que não sabia defender e atirou-o para a frente. Resultado, 34 jogos, sete golos. Números bons para um extremo, de facto, péssimos para um lateral e principalmente longe da posição em que era genial.
A relação com Rodson Azedou. E o que o Roberto Carlos disse sobre esta passagem anos depois em entrevistas é tão duro que parece desabafo. As frases ficaram registadas na imprensa internacional e mostram que o que aconteceu na O Inter não foi azar, foi sabotagem. Entrevistas posteriores, Roberto Carlos foi enfático para a Sky Sport, disse: “Quando estive no Inter, fui raptado por Rodson. Ele tirou-me tudo.
Não sabia de futebol. Em outra entrevista para a revista For, ele ainda foi mais direto. O Rodson destruiu-me. Quando aceitei a proposta do Inter, pensei: “Vou jogar com o Back Camp na frente e vou têm um excelente protagonismo em duas ou três épocas vou ser o melhor lateral esquerdo do mundo.
Mas Roy Hodson me destruiu. A história poderia ter terminado ali. Roberto Carlos a virar mais um brasileiro que não resultou na Itália, regressando ao Brasil, desaparecendo do mapa do futebol mundial. Mas tinha um tipo a observar de longe que enxergou o que Rodson não viu. Este gajo era o treinador do maior rival do Inter no campeonato italiano dessa época.
Tinha acabado de ganhar o escudeto. E quando ele descobriu que o Inter estava considerando vender o Roberto, fez uma coisa que parece exagerar, mas que a história revelou-se uma das decisões mais inteligentes da história das transferências de futebol. O gajo era Fábio Capelo, tinha acabado de vencer o série A italiana com o Milan.
ganhando o título italiano por cinco vezes num período de 6 anos e tinha sido contratado pelo Real Madrid para época de 9697. E a história de como o Capelo tirou Roberto do Inter para o Real Madrid em menos de 24 horas é a história de um dos golpes mais rápidos do futebol europeu. Capelo contou à Sky Sports anos depois. Não acreditei.
Quando Giovani O Brantini chegou e disse-me que ia vender o Roberto Carlos, perguntei-me: “Como que o Inter vai vender o Roberto Carlos?” Como não acreditei, mandaram-me um fax com um preço já definido e não era uma continha inquestionável. Por isso, liguei para o presidente do Real Madrid, Lourenzo Sans, na altura, e falei para ele ir imediatamente para Milão.
Capelo completou noutra entrevista. Só o O Inter não se apercebeu do jogador que Roberto O Carlos era. Disseram que não sabia defender e deixaram-no sair. Não queria acreditar. E foi exatamente o que aconteceu. O presidente do Real Madrid apanhou um avião para Milão, fechou o negócio para ter um Raul.
Em 2002 e 2003 foi eleito pela UEFA como o melhor lateral esquerdo da Europa e pela seleção brasileira, 125 jogos, 11 golos, penta campeão do mundo. A Taça que ele ganhou foi a última que o Brasil ganhou Há 24 anos. Em todos estes 11 anos no Real Madrid, em todos os 125 jogos pela seleção, em todos os títulos, em todos os os recordes, havia um lance que se tornaria a marca registada do Roberto Carlos.
Não era assistência, não era cruzamento, foi coisa que ele aprendeu a fazer naquela fábrica de aguardente em Corderópolis, pontapear a bola com a força que ninguém entendia. E o golo que virou estudo de física é apenas uma das 38 vezes que fez o impossível em campo. Volta para a baliza contra a França. 3 de junho de 97.
º A bola posicionada a 35 m da baliza, Roberto toma uma distância de aproximadamente 10 passos. Os físicos da Escola Politécnica de Paris, Guilam Dé e Christoph Clanet estudaram este pontapé durante anos. O resultado publicado no O Journal of Physics em 2010 é a explicação mais detalhada que existe. Roberto rematou a bola com o lado externo do pé esquerdo, aplicando uma rotação que gerou o efeito Magnus.
Fenômeno físico que acontece quando uma bola em rotação interage com o ar, criando diferenças de pressão que alteram a trajetória. A bola atingiu a velocidade superior a 100 km/h. Quanto mais a bola viajava no ar, mais a curvatura aumentava. O estudo descobriu uma coisa contrainttuitiva. Se o remate fosse mais fraco, uma distância menor, só veríamos a primeira parte da curva.
Como o remate foi vigoroso e a distância foi considerável, deu para ver a curvatura aumentando até ao impossível. Esse gajo que tinha aprendido a chutar com uma força absurda, jogando contra adultos numa fábrica de aguardente, fez na vida adulto um pontapé que precisou de 13 anos e quatro físicos de França para serem explicado. E não foi o único.
A carreira dele inteira foi acumulando este tipo de lance. 38 golos de livre no total, centenas de remates a longa distância quando Mas a parte mais importante desta história inteira não está na baliza, está em como é que ele chegou a esse golo e é exatamente o oposto do que está a acontecer com o futebol brasileiro nos últimos 20 anos.
O Roberto Carlos sai do Brasil em 95, tinha 22 anos, era bicampeão brasileiro pelo Palmeiras, convocado regular da seleção e identidade formada. toda a malandragem, toda a velocidade, toda a finalização que criou a sua identidade desde cedo e por isso ganhou tudo. Agora vamos comparar com a geração que vai para o Mundial de 2026.
Entre que saiu do Brasil aos 16 anos, Stevan deixou aos 17, Vin Júnior saiu aos 18, Rodrigo também aos 17. Os melhores miúdos da nova geração brasileira partem para Europa antes de terem a sua identidade própria, antes de aprenderem a jogar como brasileiros adultos. e voltam a seleção formatados pelo sistema europeu, reprogramados.
O Brasil exporta hoje 1113 jogadores por ano, recebe 1,2 mil milhões de dólares por isso, é campeão mundial de exportação e não ganha Taça do Mundo desde 2002, desde o Campeonato do Roberto Carlos. Não é coincidência. A história do lavrador da Garça, que tornou-se o melhor lateral da história do futebol, não é apenas uma história de superação individual.
É a prova viva de que o Brasil quando segura o jogador até a maturidade produz gente única, insubstituível, que faz um pontapé, que vira estudo da física. O que está errado com futebol brasileiro nos últimos 20 anos não é a base. A base continua a produzir gente como Roberto Carlos, mas a engrenagem de venda precoce tirou estes miúdos o tempo que o Roberto Carlos teve em Garça, em Cordeirópolis, em Araras, no Palmeiras.
Não é a Europa que destrói o futebol brasileiro, é o Brasil que entrega o material em bruto mesmo antes de ser moldado. E a questão que fica é simples. Os miúdos que vão à Copa do Mundo em junho, Hendrick, Estevan e os que ainda vem, vão ter hipótese de virar o próximo Roberto Carlos ou vão ser só mais um lateral europeu a falar português? Em junho a gente descobre.
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