Luiz Gonzaga apareceu de surpresa no funeral de um desconhecido em 1977 — Em 1990 descobriram que…

PARTE I

Luís Gonzaga entrou num velório no subúrbio do Rio de Janeiro em 1977. Sentou-se na primeira fila sem cumprimentar ninguém. Ficou em silêncio durante quase uma hora e foi-se embora da mesma forma que tinha chegado, sem explicar nada a ninguém. O que aquele gesto significava só seria descoberto 13 anos depois.

 E quando a verdade veio ao de cima, revelou algo sobre Luís Gonzaga, que nenhum concerto, nenhum disco e nenhuma entrevista tinha  conseguido mostrar com aquela clareza. Era uma tarde de terça-feira em Nilópolis, um município da Baixada Fluminense, e o velório era de um homem chamado Seu Artur, reformado de 72 anos, que tinha trabalhou toda a vida numa fábrica de tecidos em São Cristóvão e que tinha morrido de causas naturais sem grande alarde, como vivem e morrem muitas pessoas que o mundo não regista em

nenhum livro. A família que estava no velório, a esposa dona Conceição, os dois filhos adultos e alguns vizinhos do bairro, ficou a olhar para o homem de chapéu de couro e gibão bordado que tinha entrado pela porta com aquele presença que  qualquer brasileiro daquele tempo reconhecia antes de ver o rosto.

 E ninguém conseguia compreender o que Luís Gonzaga estava ali a fazer. A família do seu O Artur não tinha qualquer ligação com o mundo da música que alguém pudesse lembrar. Não havia nenhum familiar que tivesse trabalhado em rádio ou gravadora. Nenhuma  história que ligasse aquela casa simples de Nilópolis ao rei do baião, de nenhuma forma visível.

 A Dona Conceição, que tinha 68 anos e estava sentada na cadeira ao lado do caixão, com aquela postura de viúva que ainda não processou completamente o que aconteceu, olhou para o homem que entrou e ficou parada durante um segundo, sem saber se o que estava a ver era real, porque havia uma diferença entre ver Luiz Gonzaga na televisão e ver Luiz Gonzaga a entrar pela porta do velório do seu marido numa terça-feira em Nilópolis.

 Os dois filhos, Carlos e Raimundo, trocaram olhares entre si com aquela expressão de quem está a ver algo que não tem explicação disponível e que não sabe se deve perguntar ou esperar. O Luís foi direto para a primeira fila, tirou o chapéu, colocou-o no colo e ficou parado olhando para o caixão com aquela quietude que não era a quietude de cortesia, de quem está no velório por obrigação.

 Era  a quietude de quem chegou com alguma coisa para depositar e está depositando em silêncio. Ninguém na sala teve a coragem de perguntar nada durante a hora que o Luiz ali ficou. Havia uma qualidade naquela presença que tornava a pergunta difícil antes de ser formulada. Não porque o Luís tivesse uma postura intimidante, mas porque havia no silêncio dele algo que dizia claramente que ele estava ali  por uma razão que era sua e que não precisava ser explicada a ninguém.

 Os vizinhos que chegaram durante aquela hora e que reconheceram Luí saíam para o corredor e voltavam com aquela expressão de quem acabou de ver algo inesperado e não sabe onde colocar. E havia no velório do seu Artur um burburinho baixo e constante de  pessoas a tentar encontrar a ligação que explicasse aquela presença sem conseguir encontrar nenhuma.

 Dona Conceição ficou a olhar para Luís durante quase toda aquela hora, com aquela atenção de viúva que está presente em tudo o que está à volta, mesmo parecendo ausente, e havia no seu rosto uma expressão  que misturava confusão com algo que se assemelhava a reconhecimento, como se houvesse alguma coisa guardada muito fundo que aquela presença estava a tentar alcançar, mas que ainda não estava a chegar.

 Quando O Luiz levantou-se para ir embora, o Carlos, que  era o filho mais velho, foi até ele com aquela coragem de filho que decide que precisa de perguntar o que a situação toda estava a pedir que alguém perguntasse. Chegou à frente de Luiz com aquele respeito de quem sabe  que está a abordar alguém importante, mas que tem uma questão que não pode deixar passar.

  E disse com uma voz que tentava ser firme, mas que tinha dentro de si a incerteza de quem não sabe o que vai ouvir. Com todo o respeito, o Sr. conhecia o meu pai? O Luís ficou parado olhando para Carlos por um momento, com aquela calma de sempre, colocou o chapéu de couro na cabeça e depois disse com aquela voz tranquila que não deixava dúvida de que era tudo o que ia ser dito.

PARTE II

Conheci  há muito tempo e saiu pela porta sem acrescentar mais nada, deixando Carlos parado no meio do velório com uma resposta que não respondia nada e que ao mesmo tempo, era a resposta mais pesada que ele poderia ter recebido. A família do senhor Artur passou os anos seguintes a tentar perceber o que tinha acontecido naquela tarde, conversando entre si, tentando lembrar se o pai tinha mencionado o Luiz Gonzaga em alguma conversa, se havia alguma ligação que tinham deixado passar, se havia alguma história que o seu

Artur tinha levado para o túmulo sem contar. A Dona Conceição ficava quieta quando o assunto vinha à tona, com aquela expressão de quem está a tentar alcançar algo que está na memória, mas que não está a vir.  E às vezes dizia que o senhor Artur tinha vivido no Rio de Janeiro desde o final dos anos 30, que tinha chegado da Paraíba jovem e sem dinheiro, que tinha passado os primeiros anos a trabalhar de qualquer coisa antes de entrar na fábrica, mas nunca tinha falado de nenhum músico  famoso,

de nenhuma forma que a família pudesse lembrar. A resposta só chegaria 13 anos depois. Quando Luís Gonzaga morreu em Agosto de 1989 e um jornalista encontrou entre os pertences do cantor um caderno com notas pessoais que ninguém  sabia que existia. O caderno era pequeno, de capa preta, com as páginas amarelecidas pelo tempo  e a letra de Luís em cada página, com aquele caligrafia de quem aprendeu a escrever tarde e que, por isso mesmo, escreve com um cuidado específico que quem aprendeu cedo não tem. O jornalista que encontrou

o caderno entre os pertences de Luís depois da morte era Marcos Vieira, um repórter cultural do Rio de Janeiro, que tinha sido encarregado de catalogar o material pessoal do cantor juntamente com o família e que tinha aberto o caderno esperando encontrar letras de músicas inéditas ou notas de concertos e tinha encontrado outra coisa.

 Havia no caderno registos de datas, locais e nomes escritos sem ordem aparente, como alguém que está a tentar não perder o fio de alguma coisa que está a tentar encontrar ao longo de anos. E num excerto que Marcos leu e releu várias vezes antes de compreender o que estava a ver, havia um nome repetido em diferentes datas, ao longo de décadas, com uma consistência que não era casual, era a consistência de uma busca.

 O nome era Artur Ferreira da Silva e ao lado do nome, numa das últimas entradas, existia um endereço em Nilópolis e uma data de 1977 com duas palavras escritas por baixo: “Fui tarde.” Marcos foi a Nilópolis com aquela determinação de jornalista que encontrou um fio e não se vai soltar antes de saber onde termina. e encontrou Carlos, que ainda vivia no bairro, e que abriu a porta com aquela expressão de quem não está à espera de ninguém, mas que reconhece imediatamente que o que está a chegar tem peso.

 O Marcos mostrou o caderno, mostrou a página com o nome do pai,  mostrou as datas e o Carlos ficou parado a olhar para aquelas páginas por um longo momento, sem dizer nada,  porque havia naquele caderno a resposta a uma questão que tinha ficado sem resposta durante 13 anos e que chegava agora de uma forma que ele não tinha previsto.

 Então o Marcos contou o que tinha encontrado nas outras páginas do caderno, porque havia, antes do nome do senhor Artur, toda uma história escrita em fragmentos que Luís tinha registado ao longo dos anos como alguém  que precisa de um lugar para guardar o que não pode ser dito em voz alta.

 E esta história começava em 1939, no bairro do Mang, no Rio de Janeiro, quando Luís tinha 26 anos e estava dormindo em cortiços e tocando nos bares da zona portuária com o dinheiro que mal fechava o aluguer da semana. O Luís tinha escrito no caderno que havia uma noite de 1939, em que tinha saído do bar sem receber o cachet, porque o proprietário tinha fechado as portas sem pagar, e que tinha chegado ao cortiço sem dinheiro nenhum e sem comida desde amanhã, e que tinha ficado parado no passeio sem saber o que fazer, porque a concertina que transportava era a única

coisa que havia no mundo. E havia uma parte dele que estava a considerar vender aquela concertina para ter dinheiro suficiente para o dia seguinte. Havia num excerto do caderno a descrição daquele momento com uma precisão que dizia que O Luís tinha guardado  cada detalhe.

 A calçada húmida, o frio de Agosto no Rio, a concertina a pesar nas costas com aquele peso de coisa que não tem um preço, mas que também não paga aluguel. E depois a descrição de um homem que tinha passado pela calçada, visto Luís parado com aquela postura de quem não sabe para onde ir e tinha parado sem ser chamado.

 O homem era seu, Artur, que tinha 24  anos nesse mês de agosto de 1939, tinha chegado da Paraíba há se meses, trabalhava num armazém do Porto e ganhava pouco, mas o suficiente para ter alguma coisa a sobrar no fim do dia. O seu O Artur tinha olhado para o Luís e questionado se estava bem. E o Luís tinha respondido com aquela honestidade de quem está demasiado cansado para montar a defesa normal e tinha dito que não estava, que estava sem dinheiro e sem comida.

 O seu Artur tinha ficado em silêncio por um momento e depois tinha tirado do bolso o dinheiro que tinha, que não era muito, mas que era o suficiente para uma refeição e para o aluguer da noite, e tinha dado para Luís, sem pedir nada em troca, sem perguntar o nome, sem fazer discurso, com aquela naturalidade de nordestino, que encontra outro nordestino em dificuldade numa grande cidade e faz o que qualquer nordestino deveria fazer.

 Os dois tinham ficado a conversar por um tempo naquela calçada do mangal, dois paraibanos e pernambucanos longe de casa, numa cidade que não tinha parado para receber qualquer dos dois. E quando se despediram, Luís tinha perguntado o nome e o senhor Artur tinha dito. E Luís tinha guardado aquele nome dentro da cabeça com aquela firmeza de quem sabe que está a guardar algo que vai querer encontrar de volta um dia.

O Carlos ficou a ouvir tudo  aquilo, sentado na mesma sala onde o caixão do pai tinha estado 13 anos  antes. E havia no seu rosto, enquanto Marcos contava a história, uma expressão que foi mudando progressivamente, a confusão do início dando lugar a algo mais calmo e mais pesado, o entendimento de quem está recebendo uma informação que reescreve uma história que pensava conhecer.

Luiz Gonzaga tinha passado décadas tentando encontrar o seu Artur. Tinha anotado cada pista que aparecia, cada rumor de alguém que talvez soubesse do paradeiro. E quando finalmente tinha encontrado o endereço em Nilópolis e ido até lá, tinha descoberto que o senhor Artur tinha morrido três dias antes.

 Tinha ido ao velório porque era o único local que ainda estava disponível. Tinha sentado na primeira fila porque era onde queria estar. tinha ficado em silêncio, porque não havia palavras que chegassem no lugar certo naquele momento e tinha ido embora com aquele fardo de quem  passou décadas à procura de alguém para dizer obrigado e chegou três dias tarde.

 Carlos ficou em silêncio durante um longo tempo depois de Marcos ter terminado de contar e depois foi até ao quarto da mãe que tinha 82 anos e ainda vivia na mesma casa de Nilópolis e sentou-se do lado dela na cama e contou o que tinha ouvido. A Dona Conceição ouviu tudo com aquela quietude de quem está muito velha para se surpreender com qualquer coisa, mas que ainda consegue ser alcançada pelo que é verdadeiro.

 E quando Carlos terminou, ela ficou em silêncio durante um momento e depois disse que o senhor Artur tinha mencionado uma vez há décadas um acordeonista pernambucano que tinha encontrado numa calçada da Manga noite de 1939 e que tinha dito que aquele rapaz ia ser alguém um dia, porque havia na forma que  ele segurava a concertina algo que não se coadunava com a situação em que estava.

 A Dona Conceição disse que o seu Artur nunca tinha ligado o nome daquele rapaz ao Luís Gonzaga que se tornou famoso. Porque quando o rapaz da calçada virou o rei do baião, tinha passado tempo suficiente e a vida tinha seguido com aquela velocidade que não  deixa espaço para estar a ligar pontos do passado. Havia no rosto da dona Conceição, enquanto contava isto, uma expressão que não era surpresa, era algo mais parecido com o reconhecimento, como se  a história que estava ouvindo fechasse um círculo que tinha ficado aberto sem que ela soubesse.

Marcos publicou a história no jornal com aquele cuidado de jornalista que percebe que tem nas mãos algo que pertence a mais pessoas do que as que estão na sala. E a repercussão que veio depois foi diferente da repercussão normal das histórias sobre Luiz Gonzaga, porque não era sobre a música, nem sobre a carreira, era sobre o homem, sobre a memória que tinha guardado por décadas num caderno de capa preta, sobre a busca que tinha demorado anos, sobre o velório de terça-feira em Nilópolis, que ninguém tinha compreendido e que de repente

tinha uma explicação que dizia tudo sobre quem era Luís Gonzaga quando ninguém estava a olhar. A família do seu O Artur recebeu cartas de pessoas de todo o o Brasil nos meses seguintes. Nordestinos que tinham lido a história e que reconheciam nela algo  que tinham vivido, a solidariedade silenciosa entre pessoas longe de casa, que não necessita de nome nem de registo para ser real.

 E havia nestas  cartas uma forma de homenagem tanto a Luís como ao senhor Artur, que nenhum dos dois tinha planeado e que chegou depois que os dois já tinham ido embora. Carlos guardou o caderno que o Marcos tinha trazido depois de xerocado e devolvido à família de Luís numa gaveta ao lado de uma fotografia do pai.

 E cada  vez que alguém perguntava sobre a história do velório, contava do princípio ao fim, sem saltar nenhuma parte, porque havia nessa história um ensinamento que ele sentia que era da sua responsabilidade não deixarse ​​perder. O que aquela tarde de 1977 em Nilópolis revelava era algo que a trajetória de Luiz Gonzaga inteira confirmava, mas que raramente ficava visível desta forma, que  gratidão de verdade não tem prazo de validade e não necessita de audiência para ser real.

 O senhor Artur tinha dado ao Luís Gonzaga numa calçada do Mang em 1939 o equivalente a um dia de trabalho, sem saber quem era o rapaz, sem pedir nada em troca, com aquela naturalidade de nordestino, que encontra outro nordestino a precisar e faz o que pode. E Luís tinha guardado aquilo por  décadas num caderno de capa preta.

 tinha procurado o nome durante anos, tinha ido a um velório em Nilópolis numa terça-feira para se sentar na primeira fila de um homem que o mundo não tinha registado em nenhum lugar importante e tinha ficado ali em silêncio por uma hora, porque era a única forma que ainda estava disponível para dizer o que queria dizer.

 Havia neste gesto uma coerência com tudo o que Luiz Gonzaga tinha sido ao longo da vida. A crença de que as pessoas simples que fazem coisas simples no momento certo merecem ser lembradas com a mesma seriedade com que se recorda qualquer coisa grande. Esta história nos ensina que os gestos que parecem pequenos no momento em que são feitos podem ser exatamente o que muda o rumo de uma vida e que  quem os faz raramente sabe o tamanho do que está fazendo.

 O senhor Artur deu dinheiro a um desconhecido numa calçada numa noite de 1939 e foi para casa sem saber que tinha impedido que o rei do baião vendesse a acordeão naquela noite, sem saber que havia naquele rapaz algo que dependia de atravessar aquela noite com a concertina nas costas para se tornar naquilo que se tornou.

 E Luís passou décadas a carregar aquilo sem que ninguém soubesse. Não para fazer espetáculo da gratidão, mas porque havia naquela memória uma verdade que não conseguia largar. a verdade de que estava vivo musicalmente, porque um desconhecido da Paraíba tinha parado numa calçada molhada e feito o que podia. Há pessoas na sua vida que fizeram algo semelhante ao que o seu Artur fez, que chegaram num momento difícil e fizeram o que puderam sem saber o tamanho do que estavam a fazer.

 E a questão que esta história deixa é simples: “Sabe quem são estas pessoas?” E elas sabem que se lembra? Se esta história o tocou de alguma forma, deixa o teu like aqui em baixo e se subscreva o canal para não perder os próximos vídeos. São histórias como esta que fazemos questão de trazer para -lhe com cuidado e respeito por quem viveu cada uma delas.

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