RIVALDO: A NOJENTA TRAIÇÃO QUE DESTRUIU A FAMÍLIA

PARTE I

Bola de ouro, melhor jogador do planeta, penta campeão do mundo com o Brasil. E este mesmo tipo, vendo o pai morto atropelado por um autocarro. E ano depois vendo a esposa e a filha mais velha internada à beira da morte depois de um acidente brutal. E no meio de ver a família dele quase morrer, a pior traição de todas, assinada pela pessoa que mais amava no mundo.

 Hoje você vai-se lá saber o que aconteceu de verdade naquele acidente do Rodo Anel, como morreu o pai do Rivaldo e o que a família descobriu 30 anos depois e a traição mais repugnante que se pode fazer com uma pessoa. Mas antes, irmão, tu precisa de perceber como o Rivaldo chegou nesse ponto. O génio das favelas do Recife.

 Paulista, uma cidade da região metropolitana do Recife, estado de Pernambuco, 1972, 19 de abril, uma quarta-feira, 4 da manhã, numa casa de madeira com telhado de zinco enferrujado, numa rua de barro do bairro do Beberibe, uma mulher chamada Marlúcia Borba deu à luz o terceiro filho. O parto durou 14 hor médico. A parteira do bairro cobrou o equivalente a dois pacotes de farinha de milho e puseram no menino o nome de Vittor Borba Ferreira.

 A família inteiro já era um travaalíngua na hora do almoço, estás a ver? O pai, que se chamava Romildo, tinha de chamar o Ricardo, Rinaldo e Víor para se sentarem à mesa. Quando chegaram as duas irmã mais nova, alguns anos depois, a lista tornou-se maior ainda. Mas o pequeno Vittor, desde os primeiro dia, a família começou a chamar por um apelido que naquele bairro soava esquisito.

 Chamaram-lhe Rivaldo sem razão clara. Pegou. O Rivaldo, cresceu na pior pobreza que se possa imaginar, irmão. A casa onde viviam não tinha água canalizada. A casa de banho era um buraco no quintal. A cozinha era um fogão de barro com lenha que a mãe acendia com um trapo encharcado em querosene. Comiam arroz com farinha de mandioca de segunda a sexta-feira.

 No fim de semana, se o pai conseguisse horas extra na prefeitura, tinha frango. Se não tinha, não tinha nada. O Romildo, o pai trabalhava como funcionário público da câmara municipal do Recife. Limpava a rua, transportava lixo, fazia o que lhe mandavam. Ganhava um salário mínimo da época. Não dava para alimentar cinco filho e uma esposa, mas o Romildo era um tipo que não se entregava, fazia horas extra, vendia coisa ao fim de semana, andava 2 km até o trabalho todos os dias para não gastar com autocarro.

 E ao domingo, sem falhar, jogava à bola com os vizinhos do bairro num campinho de barro chamado Gonzagão. O Romildo era canhoto, driblava bem demais, podia ter sido jogador profissional, mas a pobreza não deu tempo, não é? Tinha um filho para alimentar. O única forma de jogar era no domingo com colega da câmara num campinho sem rede.

 O pequeno Rivaldo ia com o pai todos os domingos desde os qu ano. Sentava-se do lado do campo, olhava e quando o jogo acabava, o pai pegava-lhe pela mão e os dois voltavam para casa conversando sobre o jogo durante meia hora, sobre os golo, sobre os companheiros, sobre os adversários. Aquela caminhada semanal entre pai e filho durante 12 anos seguidos marcou o miúdo mais do que qualquer outra coisa.

 Guarda esse dado, irmão. 12 anos de caminhada, todos os domingo, pai e filho sozinho, falando sobre o futebol que o pai nunca pôde jogar profissionalmente. Porque a última caminhada dos dois juntos, sem ninguém saber, aconteceu num Domingo de Dezembro de 1988. E o que o pai lhe disse naquela última caminhada, o Rivaldo guardou como segredo durante 37 anos.

 Aos 6 anos, o Rivaldo entrou na escola primária do bairro. Era magro, mais baixo que os colega. Tinha os dentes tortos porque a família nunca teve dinheiro para levar -lo no dentista. A voz não engrossava. Aos 14 anos, ainda falava como uma criança de 10. Os colegas gozavam, afastavam-no. Os vizinhos do bairro falavam que o irmão mais velho, o Rinaldo, é que era o verdadeiro talento, o que tinha porte, o que tinha cabeça, o que ia ser jogador profissional.

 O Rivaldo era o magro, o que não servia. O esquisito. A única coisa que o Rivaldo tinha era uma bola, uma bola de plástico amarela que lhe tinham dado aos 8 anos. Aquela bola acompanhava-o em todo o lado, levava para a escola, punha debaixo da mesa à hora do almoço, dormia com ela ao lado da almofada e sempre que podia, depois da lição, ia para o Gonzagão jogar contra os miúdos mais velho.

 Aos 9 anos, passava o dia inteiro a chutar bola. Aos 12, já driblava miúdo de 17. Aos 14, o Santa O Cruz Futebol Clube, uma das equipas históricos do Recife, chamou-o para base. A família não tinha dinheiro para autocarro do treino. O pai Romildo tirava do seu próprio bolso para que o miúdo conseguisse ir três vezes por semana. Aos 15 anos, o Rivaldo era o goleador do juvenil do Santa Cruz.

 Mas os técnicos do clube estavam na dúvida. Era magrelo, era franzino, pesava 53 kg aos 16 anos. Diziam que ele não ia aguentar o futebol profissional. Diziam que era um projeto demasiado frágil. Deixaram em suspenso. Não assinaram contrato profissional com ele. Aos 16 anos, em Dezembro de 1988, um convite mudou tudo.

PARTE II

 Um olheiro do O Paulistano Futebol Clube, outra equipa da região de Pernambuco, chamou-o para fazer um teste e assinar como profissional. A data apresentação oficial ficou marcada pro 23 de Janeiro de 89. 15 dias depois, na primeira semana de janeiro, o O Rivaldo deu a notícia ao pai. O Romildo sentou-se numa cadeira de plástico na cozinha, pegou no filho pela mão e desabou em choro durante 15 minutos.

 A esposa Marlúcia, que estava a cozinhar feijão, deixou a colher e aproximou-se. O pai Romildo, sem levantar a cabeça, disse uma única frase que o Rivaldo ia recordar a vida inteira. A frase foi: “Filho, nós conseguimos, nós conseguiu, conseguimos”. No plural, estás a ver? Porque para o Romildo, a A carreira do Rivaldo era um projeto da dupla, um sonho dividido.

 Um sonho que o pai tinha trabalhado durante 12 ano, em silêncio, sem ninguém agradecer, andando 2 km para o trabalho para poupar, retirando comida do próprio prato para que o miúdo pudesse ir ao treino, aguentando piada dos vizinhos que diziam que o Rivaldo era o menos talentoso dos irmãos. À noite de janeiro de 89, quinta-feira, dia de véspera de reis no Brasil, o Romildo partiu para trabalhar 5 da manhã.

 Era um dia que para quase toda a gente era feriado, mas o Romildo tinha aceitado um turno extra na câmara municipal porque precisava do dinheiro para pagar o material desportivo que o Rivaldo ia precisar para a apresentação no paulistano. O material custava o equivalente a dois salários. O O Romildo tinha um só, faltava o outro.

 7 da noite desse dia 5 de Janeiro, o Romildo terminou o turno, saiu da câmara municipal, andou até à paragem do autocarro que ia levar ele de volta paraa Paulista. Era uma distância de 40 minutos. O ônibus passava de meia em meia hora. O Romildo sentou-se num banco do ponto para esperar. O que aconteceu nos 10 minutos seguintes, a polícia reconstruiu depois com três testemunha.

 O Romildo se levantou-se quando viu o autocarro chegar, andou para a calçada. O autocarro marca Mercedes-Benz, ano 82, da empresa de transporte público local, vinha em velocidade normal. O motorista do autocarro, um tipo de 46 anos chamado António Carlos Pereira, depois de um dia inteiro de serviço, segundo declarou para a polícia, distraiu-se um instante para ajustar o espelho retrovisor.

 O autocarro não travou, atropelou o Romildo de frente, atirou-o 4 m de distância. O Romildo morreu no local. A cabeça bateu no lancil. O corpo ficou atirado no asfalto. 19h15, hora de ponta. Dezena de pessoa passaram pela cena nos minutos seguinte. Mas a família do Romildo em casa de Paulista não soube nessa noite, nem de madrugada, nem na manhãzinha seguinte.

 A polícia não avisou. O hospital para onde levaram o corpo não avisou. O Romildo não estava com documento nessa tarde. Tinha deixado em casa porque estava a chover e não queria que se molhasse. Na casa de Paulista, nessa noite de 5 para 6 de janeiro, a família esperou. A Marlúcia preparou o jantar 8 da noite. O Romildo não chegou.

 9 horas, a Marlúcia ligou do telefone de um vizinho que tinha linha e pediu-lhe para ligar para a prefeitura. O porteiro confirmou que o Romildo tinha saído 7 da noite. 10 horas, a Marlúcia ligou no hospital mais próximo. O recepcionista disse que não tinha qualquer Romildo registado. O Rivaldo, de 16 anos, recordou aquela noite a vida inteira.

 A mãe sentada na cadeira de plástico da cozinha, os irmãos acordados sem saber o que fazer, a bola amarela do Rivaldo num canto da sala e o rádio, um rádio Philips dos anos 70, ligado numa rádio local, dando notícia intercalada com música. 5 da manhã do dia 6 de janeiro, sexta-feira, dia de Reis, a rádio deu uma notícia local que o Rivaldo escutou de pé na cozinha, ainda sem ter dormido.

A locutora falou com voz neutra: “Atropelamento na Boa Vista, uma vítima fatal, homem adulto, sem identificação, encontrado atirado para a rua 7:15 da noite de ontem, foi levado para o Hospital Martir Rosa de Lima. A polícia pede a colaboração dos familiares para identificação. O Rivaldo olhou para a mãe, a mãe olhou para o filho.

 Nenhum dos dois disse nada, mas os dois souberam naquele momento que era o Romildo. 22 horas, viu? 22 horas demorou paraa família saber que o pai estava morto, atropelado numa rua do Recife, dentro de um saco plástico de um necrotério municipal, sem ninguém saber quem era. E aquela noite inteira, de espera silenciosa, marcou o Rivaldo de uma forma que nem a Mundial de 2002, nem a bola de ouro de 99, nem cinco época no Barcelona conseguiram apagar.

 A família foi pro Necrotério na manhã do dia 6 de janeiro. A mãe Marlúcia reconheceu o corpo. O Rivaldo entrou atrás. viu o pai estendido numa maca de metal com um lençol cobrindo até ao pescoço, com a cabeça enfaixada porque a batida no meio fio tinha sido brutal. O Rivaldo não chorou naquele momento, não chegou perto.

 Ficou a 2 m da maca, a olhar para o corpo do homem que 12 anos seguidos tinha-o levado para o Gonzagão todo domingo. Saiu do necrotério, andou até ao rua e vomitou na sarjeta durante vários minutos. O enterro foi no dia seguinte, 7 de janeiro, cemitério público de Paulista. Foram 30 pessoa. O Romildo tinha sido um tipo humilde, sem amigo famoso, sem colega importante.

 A bola amarela do Rivaldo ficou em casa num canto da sala, onde ela ficou os seis meses seguintes sem que ninguém encostasse nela. Duas semanas depois do funeral, 23 de janeiro, chegou a data da apresentação oficial do Rivaldo no Paulistano. O Rivaldo não foi. Falou para mãe que ia deixar o futebol, que ia procurar emprego na câmara municipal para substituir o salário do pai, que a família precisava dele mais do que o futebol.

 A mãe Marlúcia, uma mulher pequena, calada, religiosa, que a vida inteira tinha sido a sombra do marido, pegou no filho pelo braço naquela noite. Sentou-se na mesma cadeira de plástico da cozinha, onde o Romildo tinha chorado três semanas antes, e falou cinco palavram toda a carreira do Rivaldo. As palavras foram: “O teu pai queria isso”. Vai o Rivaldo foi.

 Três dias depois, 26 de janeiro, apresentou-se no paulistano. O clube aceitou. assinaram um contrato com ele, mas o clube tinha problema com a ficha federativa. Depois de três meses, o Rivaldo voltou a pro Santa Cruz, onde já tinha jogado anteriormente. No Santa Cruz passou as épocas de 90 e 91, treinando arduamente, ganhando peso devagar, marcando golo no juvenil.

 Em Dezembro de 92, aos 20 anos, chegou a oferta que mudou tudo. O Mogi Mirin O Sport Clube, uma equipa de São Paulo da segundona, comprou-o por um valor modesto. O Rivaldo mudou-se para Mogi Mirim. Levou consigo só duas coisas, a bola amarela do pai, que já estava murcha e ele tinha guardado durante 4 anos, e uma foto a preto e branco do Romildo no Gonzagão, a jogar pela prefeitura, tirada por um colega de trabalho ano antes.

 Em Mogimi em Março de 93, o Rivaldo conheceu uma mulher, tinha 18 anos, trabalhava numa loja de roupa do centro da cidade. era discreta, calada, religiosa, mineira de origem, de uma família católica de Belo Horizonte, que tinha-se mudado para São Paulo ano antes. Chamava-se Rosa e em seis meses de namoro, o Rivaldo apaixonou-se por ela de uma forma que só tinha sentido por uma pessoa na vida até àquele momento, o pai.

 Casaram no 14 de Abril de 94, o Rivaldo com 22 anos, a Rosa com 19. A cerimónia foi numa igrejinha católica de Mogi Mirim. Foram 40 pessoa. A mãe Marlúcia veio do Recife, os irmãos também. A bola amarela do pai Romildo, ainda guardada numa caixa por baixo da cama do Rivaldo, não foi no casamento, mas a foto a preto e branco do Gonzagão foi.

 O Rivaldo meteu-a na primeira fila da igreja, numa cadeira vazia do lado da mãe. O que veio depois foi meteórico, já viu? Palmeiras em 94, melhor marcador do Brasileirão de 94 e 95. Selecção brasileira em Dezembro de 93. Estreia-se com um golo contra o México. Jogos Olímpicos de Atlanta em 96. Deportivo La Corunha em 96.

 A filha mais velha Tamires, nascida em La Corunha em abril de 97. O Rivaldinho, o primeiro filho homem, nascido em São Paulo em Abril de 95, Barcelona em 97. Cinco época no Campinou. Bola de Ouro em 1999, melhor jogador do mundo no ano 2000. Mundial de 2002, campeão com o O Brasil, juntamente com o Ronaldo e o Ronaldinho. Três golo no torneio.

 Uma semifinal onde marcou o golo da vitória contra a Turquia. Uma final onde deu a assistência para o segundo golo do Ronaldo contra a Alemanha e 25 ano. 25 anos de carreira profissional, 265 golo em clube, 35 golo pela seleção, uma família de cinco filhos, uma esposa fiel, calada, católica e uma casa em Mogimi onde ele guardava.

 Numa caixa debaixo da cama, o bola amarela do pai Romildo e a foto preto e branco do Gonzagão. Mas tem uma coisa que o público não sabe, uma coisa que a comunicação social brasileira nunca contou. Nessa mesma caixa, por baixo da bola amarela, tinha um terceiro objeto, um envelope fechado com quatro folhas de papel no interior.

 Uma carta manuscrita pelo pai Romildo, datada de 20 de dezembro de 88, 16 dias antes da sua morte. Uma carta que o Romildo tinha escrito ao filho Rivaldo e nunca entregue. Uma carta que a família encontrou debaixo do colchão do pai, três dias depois do enterro, e entregou ao filho fechada, selada, sem abrir. O Rivaldo nunca abriu aquela carta.

 Durante 37 anos, guardou-a selada. Mudou de casa em casa, de país em país, de continente em continente. Esteve em La Corunha, em Barcelona, ​​em Milão, em Atenas, em Tach Quente, em Mogimirim, sempre selada, sempre debaixo da cama, sempre esperando. A carta foi aberta pela primeira vez em abril de 2016, uma semana depois de uma noite que quase acabou com a família toda do Rivaldo.

Uma noite numa auto-estrada do Rodo Anel de São Paulo, quando 11 veículos embateram ao mesmo tempo e a esposa Rosa e a filha Tamires ficaram internada num hospital à beira da morte. E nessa mesma noite, na cama do hospital, o Rivaldo descobriu uma coisa no telemóvel da Rosa que mudou o casamento dele para sempre.

 O que ele descobriu nessa noite é a primeira coisa que precisa de saber para compreender tudo o que vem depois. 7 de abril de 2016, quinta-feira, 8:35 da noite. Rodo anel Mário Covas, auto-estrada periférica de São Paulo, no troço que atravessa o município de Itapevi, sentido norte.

 Chuva intensa, fraca visibilidade, trânsito intenso porque era quinta de véspera de feriado prolongado. Na faixa central, um Honda Civic branco modelo 2014. da Rosa Borba Ferreira, esposa do Rivaldo, andava a 90 à hora. Dentro estavam duas pessoas, a Rosa ao volante, 41 ano, e a Tamires Borba Ferreira, filha mais velha, de 18 anos, no banco do carona.

 Mãe e filha tinham saído de casa em Mogimi 18h45. O Rivaldo nessa noite estava na sede do Mojimir Esport Clube, onde era presidente desde o ano anterior. Tinha uma reunião com a direcção do clube, uma reunião tensa porque as finanças do Mojimir estavam em crise. A dívida acumulada do clube rondava os R$ 4 milhão deais. O salário do jogador estiveram dois meses atrasado e a comunicação social local começava a falar em falência.

 A Rosa tinha saído de casa a falar para o Rivaldo por telefone meia hora antes que ia para São Paulo com a Tamires efetuar compra. Era uma versão que o Rivaldo não questionou. Mãe e filha saíam duas, três vezes por mês a São Paulo para comer e fazer compra. Era rotina, sabe? O que o O Rivaldo não sabia? O que ele ia saber 7 horas depois numa cama do Hospital Albert Einstein de São Paulo era que a A Rosa e a Tamires não iam fazer compra naquela noite.

 Iam para um apartamento do bairro de Higienópolis, no centro de São Paulo, para uma reunião que durava em cerca de 1 hora e meia, uma reunião com duas pessoa, um advogado fiscalista de nome Marco Aurélio Viana, de 52 anos, e outro homem que a Rosa tinha contactado três semanas antes, sem avisar o Rivaldo, por indicação de uma amiga.

 20h34, no qum 27 do rodo anel, um camião de carga da marca Volvo, levando barra de aço, perdeu o controlo numa curva descendente por causa da chuva. O camião derrapou, atravessou três faixa, atravessou no meio da autoestrada e atrás do camião, em questão de segundo, 11 veículos embateram em sequência. O Honda Civic da Rosa foi o sexto, embateu num Renault Sandeiro que ia à frente e foi batido atrás por uma pick-up Toyota Hilux que vinha na faixa central a alta velocidade.

 O Civic ficou esmagado. A Rosa bateu a cabeça no volante, a Tamires bateu no airbag do Carona. As duas ficaram desacordadas durante vários minutos. Os bombeiros chegaram 91. Levaram 40 minutos para tirar a rosa do carro com a tesoura hidráulica. A Tamires tiraram antes, levaram as duas numa ambulância diferente para o Hospital Albert Einstein.

O Rivaldo recebeu a chamada 9:15. Ainda estava na sede do Mogi Mirim. Um médico do hospital explicou em 30 segundos o que tinha acontecido. O Rivaldo saiu correndo. Pediu a um assessor do clube levá-lo para São Paulo. 70 km, 1:10 de viagem. O Rivaldo chegou ao hospital 10h35 da noite. Encontrou a Rosa entubada numa sala de UCI.

 Tava viva, mas os médicos explicaram que as 6 horas seguintes eram críticas: trauma, crânio encefálico moderado, costela fraturada, hemorragia interna. A Tamir estava no quarto do lado, consciente, ferida na cara, com o braço esquerdo quebrado, mas estável, ia sobreviver sem sequela grave.

 O Rivaldo sentou-se numa cadeira do lado da cama da Rosa, pegou na mão dela e chorou durante quase uma hora, sem falar, sem se mexer, só chorando. 23h30 da noite, uma enfermeira entrou no quarto com um saco transparente. No interior tinham os objetos pessoal da rosa que tinham resgatado do automóvel: uma mala, um par de óculos, um telemóvel, Samsung Galaxy e uma agenda de couro preto pequena.

 A enfermeira deixou o saco em cima da mesa do lado da cama e foi-se embora. O Rivaldo, à meia hora seguinte, enquanto a Rosa dormia entubada, fez uma coisa que durante anos tinha prometido a ele mesmo que não ia fazer nunca. Abriu o telemóvel da esposa, sabia a senha porque a Rosa nunca tinha escondido e começou a olhar as mensagens.

 O que encontrou nas 3 horas seguintes, mensagem de WhatsApp, e-mail, foto, nota, deixou-o sem voz até às 4:00 da manhã. encontrou uma conversa inteira com um tipo chamado Carlos Henrique Solto, contabilista 57 anos, residente em Henópolis. Aquela conversa tinha começado 6 meses antes, em setembro de 2015. Eram 423 mensagens e revelavam uma coisa que o Rivaldo não esperava.

 Não era traição amorosa, não era amante. O que a Rosa estava a fazer com o Carlos Henrique solto, escondido, sem avisar o marido durante seis meses, foi preparar uma operação financeira. Uma operação para vender um apartamento de Barcelona que o Rivaldo tinha em nome dos dois, um apartamento do Passeg de Grácia que valia 4 milhões de euros.

 A Rosa tinha assinado três vezes uma autorização falsificada com a assinatura do Rivaldo, datada de janeiro de 2016, para iniciar a venda sem o avisar. O motivo, segundo as mensagens que o Rivaldo leu nessa noite, era direto. A Rosa queria salvar o património da família antes que o Mogi Mirim Esport Clube falisse e arrastasse o Rivaldo numa crise pessoal.

Sabia que o Rivaldo tinha usado dinheiro pessoal para pagar dívida do clube. Sabia que ele ia perder mais milhões se não fizesse alguma coisa e tinha decidido, sem o consultar, tirar o imóvel de Barcelona do risco, vender para um comprador em segredo e guardar aquele dinheiro numa conta em nome dos filhos.

 Mas havia mais coisa naquelas mensagens, uma coisa mais dolorosa ainda. Numa conversa de 28 de Março de 2016, 10 dias antes do acidente, a Rosa tinha escrito ao contabilista Carlos Henrique uma frase que o Rivaldo leu três vezes seguida no quarto do hospital, chorando em silêncio. A frase era: “O meu marido não compreende, acha que o problema é o dinheiro, o problema é o nosso filho e a conversa que tivemos em fevereiro. Essa é a ferida verdadeira.

O nosso filho, a conversa de fevereiro, a ferida de verdade. Três frases que o Rivaldo leu nessa madrugada do dia 8 de abril ao lado da cama da esposa entubada e que demoraram uma semana inteira a mostrar todo o significado para o mesmo. Porque o problema não era o dinheiro do Mojimi o problema era o Rivaldinho, o primeiro filho varão, o que carregava o nome do pai.

 E a conversa de fevereiro entre o Rivaldo e o Rivaldinho, que terminou com o filho a pegar numa mala e subindo num avião paraa Roménia no dia seguinte. Mas antes de saber o que aconteceu naquela conversa de fevereiro, irmão, há uma coisa mais urgente, uma coisa que liga o que o Rivaldo descobriu nessa noite no hospital com um segredo muito mais antigo.

 Um segredo enterrado durante 27 anos. Um envelope selado debaixo da cama da casa de Mogimirm. Uma carta do pai Romildo escrita 16 dias antes da sua morte em Janeiro de 89. Uma carta que o Rivaldo decidiu abrir finalmente nessa mesma semana do acidente do Rodo anel. O que aquela carta dizia é a parte mais dorida desta história toda e a mais nojenta, porque ligava exatamente com o que ia acontecer 27 ano depois, numa madrugada de fevereiro de 2016, na casa de Mogimirim, entre o Rivaldo e o filho que carregava o seu nome. 15 de abril

de 2016, sexta-feira, 8 da noite, casa do Rivaldo, em Mogimirim. Uma semana exata depois do acidente do rodo anel. A Rosa tinha tido alta do Hospital Albert Einstein dois dias antes. Andava com dificuldade, estava com a cabeça enfaixada ainda. A Tamires descansava no quarto de cima com o braço na tipoia. O O Rivaldo nessa noite fez uma coisa que durante 27 anos se tinha recusado a fazê-lo.

desceu à cave da casa, moveu a caixa velha de madeira que estava debaixo de uma manta, tirou a bola amarela do pai, já murcha de vez, e deixou-a no chão. Tirou a foto a preto e branco do Gonzagão e por baixo da foto o envelope selado. Quatro folhas no interior, uma letra conhecida, a do pai Romildo, a data no envelope, escrito com tinta azul que o tempo tinha-se tornado roxa.

 20 de dezembro de 1988, o Rivaldo subiu para o escritório, sentou-se na secretária, acendeu a luminária e abriu o envelope pela primeira vez em 37 anos. O que o pai Romildo tinha escrito naquelas quatro folhas, 16 dias antes de morrer atropelado, era uma carta dirigida ao Rivaldo com um único assunto, os filhomem da família Borba Ferreira e um segredo que o pai carregava guardado desde 1964.

A carta começava com três palavras na primeira linha, a letra firme, as palavras pequenas, a tinta azul. As três palavras do pai Romildo eram: “Filho, se algo me acontecer”. E a partir daí, durante quatro folhas escritas dos dois lados, o Romildo contava ao filho de 16 anos uma coisa que a família nunca tinha conhecido.

 Em 1964, quando Romildo tinha 22 anos, tinha tido um primeiro filho do sexo masculino fora do casamento com a Marlúcia, um menino nascido numa favela de Olinda, vizinha do Recife, de um curto relacionamento com uma mulher chamada Aparecida Souza. O menino chamava-se Roberto e o Romildo, durante os 25 anos seguintes, mandava dinheiro para a Aparecida todos os meses em segredo, sem a Marlúcia saber quantia pequena, o equivalente a 1 kg de arroz por mês, mas sem falhar uma única vez.

A Aparecida e o Roberto viviam a 30 km de Paulista, numa casa ainda mais pobre. O Roberto, em 1988, tinha 24 anos. trabalhava como motorista de autocarro na empresa de transporte público do Recife. O Romildo não sabia disso. O Roberto era o filho perdido, o irmão mais velho secreto, o primeiro homem da família.

 O que dizia o Romildo na carta era um aviso direto para o filho Rivaldo. Avisava sobre três coisa. Primeiro, que o Roberto existia. Segundo que se acontecesse alguma coisa com o Romildo, o Rivaldo devia procurar o Roberto e a mãe Aparecida em Olinda para apoiá-los financeiramente quando ele pudesse. E terceiro, uma previsão esquisita que o Romildo tinha escrito na última folha com letra mais tremida quase no fim.

 Uma previsão sobre os filhos varão da família Borba Ferreira. O Romildo escreveu literalmente naquela última folha uma frase que o Rivaldo leu três vezes no escritório de Mojimi naquela noite de 15 de abril de 2016. A frase era: “Os homens desta família herdámos uma ferida. A ferida do pai ausente. O meu pai deixou-nos quando Tinha 4 anos.

 Eu tenho-te, mas se algo me acontecer, Rivaldo, lembra- disso. O filho do sexo masculino que tiver um dia vai sentir essa mesma ferida se lhe não fizer alguma coisa diferente do que fizeram os homens antes de si. E a ferida quando se herda volta sempre mais cedo ou mais tarde. Vai procurar-te. Não ignora-a quando chegar.

 A ferida do pai ausente. Três frase e um nome novo, Roberto. O Rivaldo terminou de ler o carta 11 da noite, dobrou, guardou na gaveta da secretária e desceu para o quarto da Rosa. Nessa mesma noite, contou à esposa, pela primeira vez em 22 anos de casamento, que a carta existia. mostrou as quatro folhas para ela.

 A Rosa leu em silêncio e quando terminou olhou para o Rivaldo e falou cinco palavra que ligavam com tudo o que tinha acontecido nos últimos seis meses. As palavras da Rosa foram, por isso o O Rivaldinho foi-se embora. Para entender porque a Rosa disse esta frase naquela noite do 15 de Abril, precisamos voltar para trás, voltar a fevereiro de 2016, dois meses antes do acidente do rodo anel.

 Uma madrugada em casa de Mogimi onde pai e filho tiveram uma conversa de 3 horas que terminou com o Rivaldinho a subir num avião para Bucareste na Roménia no dia seguinte. Aquela conversa de Fevereiro, o que falaram pai e filho naquela madrugada, o que o pai fez ao filho e o que o filho respondeu é o coração desta história, irmão. Mas ainda não é o momento.

Há uma coisa mais urgente que tu precisa de saber primeiro, porque o pai Romildo, nessa carta de 88 não escreveu apenas sobre o filho perdido e a ferida do pai ausente. Escreveu também na terceira folha um dado concreto que naquele momento o Rivaldo não compreendeu e que tomou outro significado completamente diferente 30 anos depois, em 2019, quando Rivaldinho já tinha 3 anos fora do Brasil sem voltar a falar com o pai.

 Um dado sobre o 5 de Janeiro de 89. O dia da morte do Romildo. Um dado que a polícia nunca investigou, que a família nunca suspeitou e que muda tudo o que o Brasil pensa que sabe sobre o acidente de autocarro que vitimou o pai do Rivaldo. Mas vamos por partes. Continua comigo. Na casa de Mogimi na semana seguinte ao acidente do Rodo Anel, o Rivaldo mudou.

 Notaram a Rosa, notaram os filhos menor, notaram os funcionários do clube. O Rivaldo dormia 4 horas por noite, descia à cave todos os dias, tirava a bola amarela do pai. A foto do Gonzagão, a carta, olhava durante hora, guardava de novo, subia para o escritório do Mogi Mirin Esport Clube, trabalhava em silêncio, regressava a casa, jantava sem falar e ia deitar-se.

 A Rosa se recuperando lentamente do traumatismo craniano, não perguntou nunca sobre a carta. Sabia, sabia que o Rivaldo estava processando uma coisa enorme. Sabia que tinha de esperar. No dia 28 de maio de 2016, seis semanas depois do acidente, o Rivaldo tomou duas decisão que mudaram a vida dele no mês seguinte.

 A primeira anunciou que estava a largar a presidência do Mogi Mirim Esport Clube, devolveu o cargo à direcção sem escândalo, sem declaração pública, só uma carta de demissão de três linha. A segunda decisão manteve em segredo. Ligou para um investigador privado de São Paulo chamado Eduardo Brito, ex-polícia civil.

 Encomendou dois trabalhos para ele. Primeiro, encontrar o Irmão Roberto Borba em Olinda. Segundo, investigar de novo de raiz, a circunstância exata do atropelamento do pai Romildo. De 5 de janeiro de 1989. O Eduardo Brito aceitou, deu ao Rivaldo um prazo de 2 meses, cobrou o equivalente a R$ 25.000 adiantado e começou a investigar.

 O que o Eduardo Brito encontrou naqueles dois meses, o que descobriu nos arquivos da Câmara Municipal do Recife, nos registos do Hospital Martir Rosa de Lima, nos processo policial do 5 de Janeiro de 89, arquivado numa filial do centro do Recife, foi o que durante 27 anos ninguém da família Borba Ferreira tinha sabido e o que mudou completamente a visão do Rivaldo sobre a morte do pai.

Dois meses depois, a 29 de julho de 2016, o Eduardo Brito ligou ao Rivaldo de São Paulo, pediu uma reunião urgente. O Rivaldo viajou para São Paulo no dia seguinte. Se encontraram num escritório do bairro dos Pinheiros. O Eduardo Brito pôs em cima da mesa uma pasta castanha com 42 páginas e disse ao Rivaldo uma frase que o ex-jogador recordou mais tarde, palavra a palavra.

 O Eduardo Brito disse: “O que matou o seu pai não foi aquele autocarro. O que matou o seu pai foi outra coisa. E a pessoa que arranjou para aparecer atropelamento depois foi promovida para um cargo público no Recife. O que o Eduardo Brito entregou pro Rivaldo naquele escritório de Pinheiros no dia 30 de julho de 2016 foi uma reconstrução completa do que tinha acontecido no dia 5 de Janeiro de 89.

 Uma reconstrução que durante 27 anos ninguém tinha feito porque ninguém tinha tido interesse em fazer. O motorista do autocarro, António Carlos Pereira, não se distraiu, ajeitando o espelho retrovisor naquela noite. Esta foi a versão oficial, mas os arquivos da empresa de transporte público que o Eduardo Brito conseguiu revelavam outra coisa.

 O autocarro tinha um problema mecânico conhecido desde três semanas antes. O travão dianteiro estava gasto, tinha sido reportado duas vezes. A empresa não tinha feito o arranjo e o António Carlos Pereira tinha recebido instrução para continuar a conduzir igual até nova ordem. Mas há mais, muito mais. E aqui é o que durante 27 anos ninguém soube, irmão.

 O pai Romildo, nessa tarde do 5 de janeiro não estava parado no ponto do autocarro por acaso. Estava à espera alguém. E aquele alguém era um funcionário de nível médio da câmara municipal do Recife chamado Antônio Bezerra Filho. O Bezerra Filho era o supervisor imediato do Romildo havia 4 anos e os dois tinham uma situação em curso desde Novembro de 88.

 O Romildo tinha descoberto dois meses antes de morrer que o seu supervisor, Bezerra Filho, estava a ficar com um salário de funcionário fantasma registado na folha da câmara municipal. Uma operação de corrupção menor que movimentava cerca de 10 salário mínimo por mês. O Romildo tinha visto os papéis sem querer quando estava arrumar o arquivo em dezembro e tinha decidido denunciar.

 A denúncia ia apresentar no dia 6 de janeiro, 9 da manhã, na procuradoria pública do Recife. Tinha os documentos guardados num envelope castanho no bolso interior do Paletó. Tava guardando-os durante três semanas na gaveta de casa. Na tarde do dia 5 de janeiro, levou consigo para a prefeitura para mostrar uma última vez a um colega de confiança, o Pedro Maciel, que ia acompanhá-lo na denúncia no dia seguinte.

 O Bezerra Filho ficou a saber nessa mesma tarde. Uma secretária da autarquia, pressionada por ele dia antes para informar sobre qualquer movimento suspeito do Romildo, avisou ele 4 da tarde que o Romildo tinha mostrado o documento pro Pedro Maciel no Arquivo Central. O bezerra filho percebeu na altura que o Romildo tinha descoberto ele.

 O que aconteceu nas 3 horas seguintes, segundo o Eduardo Brito, reconstruiu com três depoimento de ex-funcionário da autarquia, que já estavam reformados em 2016 e aceitaram falar sobre a condição de anonimato, foi o seguinte: o Bezerra Filho ligou por telefone a um amigo de infância que trabalhava na empresa de transportes público.

 Esse amigo era o supervisor de manutenção da frota de autocarros. pediu um favor específico, pediu-lhe, no turno das 7 da noite, na rota do bairro do Recife para Paulista não parar o autocarro com problema de travões no ponto da Avenida Mártires. Que se visse um homem com casaco cinzento esperando, seguisse em frente, mas que se o homem subisse para a calçada não travasse.

 O amigo aceitou, ligou ao António Carlos Pereira, o motorista do autocarro naquela noite deu instrução que o Pereira nunca questionou porque vinha do seu chefe. O Pereira já tinha aviso prévio de problema de travões. E 7:15 na Avenida mártires, viu um homem com um casaco cinzento parar no passeio e dar um passo. O Pereira não travou.

 O Romildo não foi atropelado por acidente, irmão. Foi assassinado. Assassinado por um funcionário menor da câmara municipal do Recife, que três meses depois foi promovido a diretor de recursos humanos do mesmo órgão. O Bezerra Filho ocupou aquele cargo durante 18 anos. Se reformou-se com honra em 2007 e vive hoje, com 81 ano num apartamento do bairro da Boa Viagem do Recife.

 Sem nunca ninguém ter ligado os dois eventos. O motorista António Carlos Pereira morreu vítima de cancro em 1997. Antes de morrer, num internamento final no hospital do Recife, confessou toda a história a um padre que cuidava dele. O padre, pelo segredo da confissão, nunca falou. Mas o Eduardo Brito achou ele 41 ano depois, em 2016, retirou-se numa paróquia rural do interior de Pernambuco.

 O padre, agora com 79 anos, decidiu falar, não por vingança, por descanso. Contou ao Eduardo Brito o que o Pereira tinha confessado em 97. E os documentos que o Romildo ia apresentar no dia seguinte na acusação, aquele envelope castanho com a evidência da corrupção do Bezerra Filho, os documentos que trazia no bolso interno do Palitó nessa noite nunca apareceram na lista de objeto pessoal recuperado do corpo.

 A polícia não registou, o necrotério não entregou a família. Desapareceram entre a rua, o lancil e o necrotério municipal. O Bezerra Filho, segundo o Eduardo Brito reconstruiu, mandou alguém procurá-los nessa mesma noite entre os pertences do Romildo, antes da família chegar ao morgue no dia seguinte. O pai do Rivaldo morreu por ser honesto, por querer denunciar um chefe ladrão.

 E durante 27 anos, toda a família e o Rivaldo inteiro acreditaram que tinha sido um acidente de viação, até que o acidente do rodo anel da esposa e do filha abriu a caixa que ele tinha debaixo da cama, a carta, a bola. A foto e a busca que o Rivaldo finalmente aos 44 anos, teve coragem para começar. O Eduardo Brito também encontrou o irmão Roberto Borba.

 Vivia em Olinda, 52 anos, em 2016. Casado, três filhos, trabalhava como mecânico numa oficina da região. A mãe Aparecida Souza tinha faleceu de enfarte em 2003, sem voltar a saber nada do Romildo. Desde o dia do atropelamento, o Rivaldo viajou para o Recife em agosto de 2016. Conheceu o Roberto num café do centro de Olinda. Conversaram 5 hor.

 O Roberto sabia quem era o pai biológico desde os 20 anos. A mãe tinha contado, mas nunca tinha procurado o Romildo, nunca tinha apareceu em casa de paulista por respeito pela família legítima, por orgulho, por medo. O Roberto era parecido fisicamente com o Romildo. Tinha a mesma testa, o mesmo olho, o mesmo modo de falar pausado.

 O Rivaldo chorou naquele café, os dois choraram. E no final do encontro, o Rivaldo ofereceu pro Roberto o equivalente a 20 anos de carinho não recebido numa única transferência bancária. Um apartamento no Recife, um fundo para os filhos, uma viagem a Mogi Mirim para conhecer a Rosa e os irmãos.

 O Roberto aceitou apenas uma coisa, a viagem para Mogimi o resto recusou com educação. Falou para o Rivaldo uma frase que o Rivaldo recordou depois com carinho. Falou: “Irmão, o que é que me deve não é dinheiro, é tempo e este não dá para devolver mais. Em setembro de 2016, o Roberto Borba deslocou-se a Mogi Mirim.

 Passou quatro dias na casa do Rivaldo e da Rosa. Conheceu a Tamires ainda com o braço na tipoia. Conheceu o gémeo Rebeca e João Víor. Conheceu o Isaac, mas não conheceu o filho mais homem velho, o Rivaldinho. Porque o Rivaldinho, em setembro de 2016, já tinha s meses sem pisar a casa de O Mogimirim, vivia em Bucareste, jogava no Dínamo e não tinha respondido a nenhuma chamada do pai Rivaldo desde a conversa de fevereiro.

 Aqui entra o terceiro fio, irmão. Aqui entra que os media brasileira, os biógrafos, os companheiros de seleção, os jornalistas desportivos nunca contaram. Aqui entra a parte mais dorida, a mais nojenta. A que liga exatamente com a carta do pai Romildo, escrita 30 anos antes. A ferida do pai ausente volta. A ferida que se herda e volta sempre e volta no jeito mais cruel possível.

 Porque a conversa de fevereiro de 2016 entre o Rivaldo e o Rivaldinho, aquela madrugada de 3 hor na casa de Mogimirim, não foi uma luta sobre futebol, não foi sobre dinheiro, não foi sobre uma mulher, foi sobre uma coisa que o Rivaldo tinha feito durante 18 anos seguidos, sem a sua mulher saber, sem os outros filhos desconfiarem, sem a media intuir.

 Uma coisa que o primeiro filho varão, o Rivaldinho, descobriu sem querer nessa mesma tarde de fevereiro e que confrontou o pai uma da madrugada com cinco palavras que o Rivaldo até ao dia de hoje não consegue repetir numa entrevista pública. Vai saber agora e vai perceber porque é que quando o Rivaldo abriu a carta do pai Romildo em abril de 2016 e leu a frase “A ferida quando seierda volta sempre”, entendeu que a ferida não tinha saltado uma geração.

 A ferida tinha-se repetido exatamente, com os mesmo passo, com a mesma cobardia, com o mesmo silêncio e com um filho homem perdido, que agora vivia a 10.000 km, jogando numa liga menor da Europa Oriental, sem querer falar com o pai que tinha-o traído. Para perceber o que aconteceu na madrugada do dia 13 de fevereiro de 2016 na casa de Mogimirim, precisamos de voltar três meses para trás, para novembro de 2015.

 E para um pormenor que durante ano ninguém da família percebeu. Em novembro de 2015, o Rivaldo tinha 43 anos, demorava 2 anos retirado do futebol profissional. Era presidente do Mogimir Esport Clube desde fevereiro de 2014. O clube estava em crise financeira, as dívidas cresciam toda a semana e o Rivaldo tinha começado em silêncio a usar dinheiro pessoal para cobrir a folha de pagamento de um jogador que estava sem receber a via mês.

 A Rosa sabia alguma coisa, mas não sabia quanto. O Rivaldinho, o filho mais velho homem, tinha 20 anos. Tinha assinado em agosto de 2015 com o Boa Vista do Rio de Janeiro, depois de uma passagem pelo Mogimi onde tinha partilhado o relvado com o pai. Em 2015, vivia sozinho num apartamento do Botafogo, mas passava o fim de semana em Mogimirim com a família.

 Uma tarde de novembro, o Rivaldinho chegou a casa de Mogimi sem avisar. Era um sábado, 15 horas. O O Rivaldo não estava. A Rosa tinha saído com a Tamires para São Paulo. Só estavam em casa os gémeos Rebeca e João Víor, de 12 anos, e o Isaac, o Caçula, de nove. O O Rivaldinho subiu para o escritório do pai no andar de cima para deixar uns papel do clube que o pai lhe tinha pedido rever.

 E depois aconteceu uma coisa que mudou a história. Na secretária do Rivaldo, aberto, ligado, ligado, tava o portátil do pai. O Rivaldinho sentou-se, mexeu no rato para apagar o ecrã e viu na lateral direita uma notificação de e-mail que tinha acabado de chegar, uma mensagem de um banco com sede em Andorra. Assunto: confirmação de transferência mensal.

 O Rivaldinho abriu o e-mail por curiosidade. Era uma transferência mensal programada de 3.500 € feita a partir de uma conta em nome de Rivaldo Víor Borba Ferreira numa instituição bancária de Andorra para uma conta na Holanda, na cidade de Ainoven, em nome de uma mulher chamada Enek Visser. A transferência tinha sido feita automaticamente todos os meses, sem falhar nenhuma, desde Fevereiro de 1998, quase 18 anos seguidos.

 O Rivaldinho ficou a olhar para tela durante vários minutos. Depois abriu a pasta do e-mail, desceu pelas mensagens anteriores, encontrou 219 mensagem, tudo de banco, tudo confirmação, tudo pelo mesmo valor, tudo para o mesmo nome. Aek Visser, Einoven, Holanda. O Rivaldinho abriu o Google no browser do pai, escreveu o nome, pesquisou, encontrou um perfil de Facebook meio fechado de uma mulher Holandesa de 43 anos, loira, olho azul, professora de yoga numa academia de Aindoven.

 Nas foto pública, aparecia sorrindo com um cão labrador em parque perto do estádio do PSV a Indoven. E numa das fotos, uma das mais antigas que o algoritmo deixava ver, datado de 2008, aparecia a ANEC com um menino loiro com cerca de 10 anos. A foto tinha uma legenda por baixo em holandês, que o Rivaldinho copiou e traduziu com um tradutor do navegador.

 A legenda em português dizia: “Com o meu pequeno Jonas, que a cada ano se assemelha mais ao pai”. O Rivaldinho pesquisou o Jonas Viser no mesmo Facebook. Encontrou o perfil de um rapaz de 18 anos, loiro, com os olhos escuros, que não combinavam com os da mãe, com postura ereta, 1,85 m de altura.

 Jogador juvenil de um clube de futebol da região de Einjoven. No perfil tinha uma foto do rapaz num campo. E na postura do corpo, na posição dos ombros, no jeito do rosto, o O Rivaldinho reconheceu uma coisa que não necessitava de exame de ADN para confirmar. reconheceu o pai, de 20 anos mais novo, mas a mesma cara. O Rivaldinho fechou o ecrã, saiu do escritório, desceu a escada, subiu para o carro dele, conduziu 45 minutos sem falar, chegou a um parque de São Paulo, sentou-se num banco e chorou durante 3 horas. Naquela noite de sábado de

Novembro, o Rivaldinho não voltou paraa casa de Mogi Mirim, dirigiu-se até ao apartamento dele de Botafogo, no Rio. Chegou uma da madrugada de domingo e durante os três meses seguintes não disse nada, nem à mãe, nem às irmã, nem para o pai, nada. O que o Rivaldinho fez naqueles três meses, entre novembro de 2015 e fevereiro de 2016, foi investigar por conta própria.

 Contactou por mensagem privada, em inglês um amigo holandês do futebol juvenil do PSV, que tinha conhecido ano antes quando o pai ainda vivia em Ainduven. pediu informação sobre a Anek Vier, sobre o filho Jonas, sobre quando a Anek tinha chegado a Aindoven, sobre quem era o pai legalmente registado do menino. O amigo, depois de três semanas pesquisando, enviou a informação.

 A Anicer tinha sido empregada de mesa num restaurante de Aindoven nos anos 90. Em 1997, durante a passagem do Rivaldo pelo PSV, antes de ir para o Deportivo La Corunha, tinha trabalhado no restaurante onde o elenco jantava duas vezes por semana. A Anik tinha 24 anos nessa altura, era discreta, falava inglês e tinha tido um relacionamento curto com um jogador brasileiro da equipa durante 3s meses.

 O nome do jogador não estava nos registos público, mas o filho Jonas tinha nascido no 28 de Setembro de 1997. e no registo civil holandês constava como filho de pai desconhecido. O Rivaldinho fez as contas. O pai dele tinha saído do PSV em Julho de 1996, mas tinha regressado em Einoven em dezembro desse mesmo ano, durante o feriado de Natal, numa viagem de três semanas com o elenco do Deportivo La Corunha, que disputou um amigável contra o PSV.

 Tinha lido isto numa entrevista antiga do pai numa revista de futebol holandesa. E um cálculo de gestação de 9 meses a partir de Dezembro de 96 dava exactamente Setembro de 97, a data de nascimento do Jonas. O Rivaldinho tinha nascido em 29 de de Abril de 95, tinha 20 anos em fevereiro de 2016 e tinha acabado de descobrir que tinha um irmão holandês de 18 anos, 8 meses mais novo do que o própria irmã Tamires, que o pai tinha sustentado financeiramente durante 18 anos seguidos, sem a família toda saber. No dia 12 de fevereiro de 2016,

sexta-feira, o Rivaldinho viajou do Rio para São Paulo e de São Paulo para Mogi Mirim. Chegou a casa da família 7 da noite, cumprimentou a mãe, jantou com os irmãos, esperou que toda a família fosse dormir e uma da madrugada do dia 13 de fevereiro, sábado, bateu à porta do gabinete do pai Rivaldo, onde o pai estava a rever o papel do Mogimi conversa entre o O Rivaldo e o Rivaldinho naquela madrugada do dia 13 de fevereiro de 2016 teve a duração de 3:20, começou 1 da madrugada e terminou 4:20.

Mais ninguém na casa de Mogimir escutou nada. As paredes do escritório estavam isolados com painel acústico que o Rivaldo tinha instalado ano antes e mãe e irmão dormiam noutro andar. O Rivaldinho entrou no escritório, fechou a porta, sentou-se na cadeira da frente da secretária e pôs ao pai em cima da mesa duas folhas impressa.

 A primeira era uma captura de ecrã do e-mail do banco de Andorra. A segunda uma foto pública do Jonas Vser a jogar à bola num campo de Aindoven sem dizer uma palavra. O Rivaldo olhou paraas duas folhas, olhou pro filho e ficou em silêncio durante vários minutos. Depois levantou-se, caminhou até à janela do escritório, deu as costas ao Rivaldinho e começou a falar.

contou ao filho naquela madrugada o que durante 18 anos tinha calado a Rosa, para a família, para os companheiros do Barcelona, ​​para os companheiros da seleção brasileira, para todos. Contou que em dezembro de 1996, durante a viagem do Deportivo La Corunha para Indoven, tinha regressado no restaurante onde costumava jantar quando jogava no PSV.

 Tinha encontrado a Anicer. Tinham passado três noites junto. Quando o Rivaldo regressou a La Corunha, deu a história por encerrada. Mas a Anne, que lhe escreveu três meses depois uma carta, estava grávida. Pedia só uma coisa, que ele a apoiasse financeiramente, que ela não ia aparecer nunca, que o menino ia nascer como filho de pai desconhecido, que ela ia criar ele sozinha, mas que precisava de ajuda.

O Rivaldo aceitou, começou a transferir dinheiro para ela de uma conta pessoal em Andorra, que tinha aberto ano antes a Rosa saber. 500€ por mês no início. 3.000 quando Jonas fez 10 anos. 3.500 a a partir dos 15. E nunca em 18 anos tinha deixado de enviar o dinheiro. Nunca em 18 anos tinha viajado paraa Indovem para vê-lo. Nunca tinha enviado uma carta.

Nunca tinha feito uma chamada. Só dinheiro. Todos os meses sem falhar, sem cumprimento. O Rivaldinho escutou a confissão inteira sem interromper. Quando o pai terminou, o Rivaldinho se levantou-se, caminhou até ao meio do escritório e disse ao pai dele cinco palavra que durante os 10 anos seguintes o Rivaldo não foi capaz de repetir em nenhuma entrevista.

 As cinco palavras do Rivaldinho foram: “És igual ao teu pai”. E foi-se embora: “És igual ao teu pai”. Cinco palavras que recortaram 30 anos de história familiar numa única frase. Porque a ferida do pai ausente, a ferida sobre a qual o avô Romildo tinha escrito naquela carta de 88 não tinha saltado uma geração, tinha-se repetido.

 O Romildo tinha tido um filho perdido em Olinda, que sustentou durante 25 anos, sem que a família legítima o soubesse. O Rivaldo tinha tido um filho perdido em Aindoven, que sustentou durante 18 anos sem que a família legítima soubesse. A mesma cobardia, o mesmo silêncio, a mesma ausência, a mesma carteira aberta no lugar de um pai presente.

 O O Rivaldinho subiu para o quarto, fez uma mala. 6 da manhã de sábado, saiu da casa de Mojimi, dirigiu-se para Guarulhos, apanhou o primeiro voo que encontrou para a Europa, aterrou em Frankfurt 8 da noite e no dia seguinte assinou pelo Dínamo de Bucareste, na Roménia, um contrato modesto que o seu agente tinha oferecido três semanas antes e que ele estava a pensar em recusar.

 Pro Rivaldinho não importava o Dínamo, não importava a Roménia, não importava o futebol naquele momento. A única coisa que interessava era meter 10.000 1000 km entre ele e o pai o mais depressa possível, tal como o pai tinha feito 18 anos antes com um filho recém-nascido em Aindoven.

 Mas a história não se fica por aqui, irmão, porque na noite de 13 de fevereiro de 2016, depois do Rivaldinho para ir embora, o Rivaldo desceu para a cave da casa pela primeira vez em ano. moveu a velha caixa de madeira, onde guardava as coisas do pai Romildo, tirou a bola amarela, a foto do Gonzagão e o envelope selado com a carta e ficou 4 hor sentado no chão da cave, chorando sozinho, a olhar para o envelope sem abrir.

Nessa madrugada, o Rivaldo tentou abrir a carta do pai pela primeira vez em 27 anos. segurou nas mãos, ficou paralisado, guardou-o de novo, não teve coragem e subiu para o escritório a continuar a rever o papel do Mogimi até amanhecer. Dois meses depois, aconteceu o acidente do Rodo anel, a Rosa e a Tamires à beira da morte.

 O O Rivaldo descobriu no telemóvel da Rosa a operação financeira secreta para vender o apartamento de Barcelona e a frase enigmática sobre o Rivaldinho. E uma semana depois, já com a Rosa em casa se recuperando, o Rivaldo abriu finalmente a carta do pai Romildo, leu as quatro folha, encontrou o irmão Roberto, investigou a morte do pai e entendeu em três meses que toda a vida tinha estado replicando sem saber o mesmo silêncio masculino que tinha herdado.

Hoje, em maio de 2026, o Rivaldo conta com 54 anos. Vive numa casa mais pequena, num bairro menos conhecido do interior de S. Paulo. Vendeu a propriedade de Mogi Mirim em 2018. Vendeu o apartamento do Passegue de Grácia de Barcelona em 2019, desta vez com a autorização legítima da Rosa e usou parte do dinheiro para liquidar definitivamente as dívidas do O Mogi Mirim Esport Clube antes de se afastar da direção.

 A Rosa continua do lado dele. A conversa entre os dois sobre a Anic Vier e o Jonas decorreu em julho de 2016, três meses depois do acidente do Rodo anel, na mesma cozinha de Mogimirim, onde o Rivaldo tinha aberto a carta do pai. A Rosa escutou em silêncio durante 1 hora e meia. Quando o Rivaldo terminou, ela levantou-se, subiu para o quarto, não desceu até ao dia seguinte e quando voltou, disse ao Rivaldo só uma coisa, disse: “Eu fico, mas o Jonas precisamos de conhecer e isso não é facultativo”.

 O Rivaldo viajou lá para Joven em setembro de 2016, conheceu o Jonas Visser. Conversaram 3 horas num café do centro da cidade. O O Jonas, de 18 anos, falou com o Rivaldo em inglês uma frase que lembrava a frase do irmão Roberto em Olinda mês antes. O Jonas disse: “Eu não preciso de ti como pai, isso já passou, mas a partir de agora, se quiser, podemos ser dois homens que se conhecem”.

 E é isso, dois homens que se conhecem. O Jonas continua a jogar numa liga regional dos Países Baixo, sem grande ambição, contente com a vida simples dele em Aindoven. Fala com o Rivaldo por vídeochamada uma vez por mês. Visitou o Mogimirin uma vez em 2019, onde conheceu os irmãos brasileiro menos um, menos o Rivaldinho.

 Porque o Rivaldinho até ao dia de hoje não quis conhecer o Jonas. O Rivaldinho tem hoje 31 anos, joga numa liga asiática, mudou de equipa sete vezes daqui a 10 anos, sempre longe. Polónia, Roménia, Bulgária, Roménia de novo, China, Tailândia, fala com a mãe Rosa por telefone de 15 em 15 dias, visita Mojimirim apenas uma vez por ano no Natal.

 E nestas visitas anuais, pai e filho se cumprimentam com um aperto de mão e um abraço curto. Não conversam, não almoçam juntos sozinho, não falam do Jonas, não falam da conversa de fevereiro de 2016, não falam de nada. O Rivaldo, numa entrevista à Folha de São Paulo, em março de 2023, foi questionado por o Rivaldinho tinha ido tão longe para jogar depois de 2016.

 A resposta do Rivaldo, gravada em áudio, palavra por palavra, foi esta: “O meu filho está no caminho dele. Tomou uma decisão que eu respeito e um dia os dois vão poder conversar sobre as coisas importantes. Até esse dia chegar, a única coisa que posso fazer é esperar por ele sem pressionar, sem cobrar, esperar. Igual o meu pai, sem saber, esperou por mim durante 27 anos, até ter coragem para abrir a carta dele.

 Quando o jornalista perguntou o que dizia a carta, o Rivaldo respondeu apenas uma frase, uma frase que fechou a entrevista. O Rivaldo disse, dizia que a ferida do pai ausente sempre volta e que quando volta precisamos ter a coragem de não continuar a repetir ela. Já repeti uma vez, vou tentar não repetir de novo. Essa não é a história de um jogador que ganhou uma bola de ouro e um Campeonato do Mundo, irmão.

É a história de três geração de homem da mesma família que transportaram a mesma ferida em silêncio. Um avô que morreu assassinado por querer denunciar um chefe corrupto, um pai que saiu 5 da manhã da sua casa para nunca mais voltar. Um filho de 16 anos que perdeu o pai precisamente quando precisava dele para iniciar a carreira.

 Esse mesmo filho, 30 anos depois, deixando um filho próprio sem pai em Aindoven, sustentando ele só com um depósito bancário mensal de Andorra. E um neto, o Rivaldinho, descobrindo tudo isto aos 20 anos, levantando-se da mesa e subindo para um avião para o outro lado do mundo para não repetir o ciclo. Três geração.

 Uma mesma ferida, diferente forma de fugir. E uma única questão que atravessa a história inteira. A pergunta que o pai Romildo deixou escrita em 88. A pergunta que o Rivaldinho fez em fevereiro de 2016. A pergunta que tu, pá, que tás a ver este vídeo da casa, talvez se tenha feito alguma vez sobre o seu próprio pai ou sobre si como pai.

 A questão é esta, viu? Quanto do que sofremos vem do que calaram os homens que vieram antes de nós? Quanto do que nós faz com os filhos da gente, vem do que fizeram connosco, sem ninguém ter coragem para falar? Quantos filhos crescem acreditando que um depósito bancário mensal a mesma coisa que ter um pai? Quantos pai morrem acreditando que sustentar os filhos com dinheiro compensa 20 anos de ausência emocional? Há milhão de rivaldos no mundo, irmão.

Homem que tiveram um pai ausente, que passaram a vida a desejá-lo sem receber nada em troca e que acabaram por repetir exatamente o mesmo silêncio com os próprio filho. Sem querer, sem pensar, por inércia, por medo, pela ferida que herda-se e ninguém se atreve a curar. Se esta história fez-te pensar no teu pai, liga-lhe hoje.

 Se te fez pensar no seu filho, abraça-o esta noite. Se te fez pensar num irmão que te afastaste sem motivo claro, escreve-lhe esse fim de semana: “A ferida que se herda só quebra-se quando um homem uma única vez decide fazer alguma coisa diferente do que fizeram os homens antes dele.” O Rivaldo fê-lo aos 44 anos. Tarde, mas fez.

 O pai, Romildo, tentou aos 46, denunciando uma corrupção que custou a vida dele. O seu filho, Rivaldinho, tentou aos 20, subindo para um avião para não seguir o padrão. Três geração partindo a ferida de três maneiras diferente. Nenhum perfeito, mas os três tentando. Esta é a verdadeira história por detrás do génio das favelas do Recife. Esta é a verdade que nenhum biógrafo, nenhum jornalista desportivo, nenhum ex-companheiro do Barcelona ou da seleção brasileira contou nunca, porque era mais fácil falar da bola de ouro, do golo contra a Bélgica em 2002, do volley

contra o Olimpiacos. Era mais fácil falar do rival do público do que do rival do privado. Subscreve o canal Estrelas Caídas para conhecer as histórias real dos ídolo que você conheceu, as verdade que os media nunca contou, a cicatriz que o grande herói do desporto carregaram em silêncio enquanto aplaudia.

 E partilha este vídeo com alguém da sua família, com um pai, com um filho, com um irmão que se afastou antes que seja tarde. Igual foi tarde para o Romildo, igual foi quase tarde para o Rivaldo, igual pode ser tarde para todos. Se a gente não tiver coragem de fazer a chamada que anda a adiar, faz ano.

 

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