Ela Fugiu Da Aldeia Inteira — E Quem Ela Encontrou No Mato A Pediu Desculpas

Amália perguntou quem estava dizendo isso. Baltazar não respondeu. O Mateus respondeu no lugar. O assunto já correu e o assunto chegou ao ouvido errado. Amália olhou para o padre Teodoro procurando ajuda. O padre não olhou de volta. Ficou com os olhos no chão. Aquilo doeu mais do  que a acusação. Baltazar levantou-se com calma e disse a frase que Amália nunca esperou ouvir  naquele lugar.

Você vai sair hoje? Amália achou que tinha mal entendido. Sair para onde? Ela perguntou. Altazar respondeu sem levantar a voz. para o mato, para a trilho velho do arroio. Você não volta esta noite. Amanhã a gente vê. A Malha levantou-se do banco assustada. Eu não fiz nada. Eu nasci aqui. A minha mãe está aqui enterrada.

Evaristo deu um passo para perto dela. Hoje não é dia de discutir. Hoje é dia de obedecer. Amália procurou olhar para os outros, procurando alguém que dissesse uma palavra a favor. Ninguém disse. Nem Baltazar, nem Mateus, nem os homens da porta. Padre Teodoro continuou calado. Baltazar abriu a porta e apontou para fora.

Vai pelo lado do pomar, não  passa na praça e vai sem parar. A malha saiu com o cesto no braço e a cabeça a rodar. No quintal, um cão ladrou e foi calado com um açubio de alguém. Ela seguiu pelo lado das casas, passando atrás de vedações e árvores baixas. Não era o trilho principal, era um caminho utilizado por quem queria evitar o olho.

Ela percebeu que aquilo era feito para toda a gente saber que ela tinha sido mandada embora, mas ninguém ver bem como. Quando chegou perto do limite da aldeia, o céu já estava mais escuro e o vento estava frio. O barulho da praça ficou para trás e entrou o barulho do mato. Grilo, folha, ramo seco. A malha parou  um segundo e olhou para trás.

Viu a torre da igreja por cima dos telhados. Viu uma janela fechar rapidamente, não viu ninguém na rua. Ela respirou fundo e entrou no trilho. O chão era irregular. Tinha raiz a atravessar, tinha pedra solta, tinha lama seca em alguns pontos. A malha andava depressa, mas sem correr para não cair.

O cesto batia no joelho, o pano ao ombro escorregava. Ela segurava tudo junto ao corpo, porque não sabia se ia precisar de comida, de roupa ou de água. Ela andou até à luz quase sumir. A mata fechava mais e o ar ficava  húmido. Em certo ponto, houviu um passo atrás. Não era passo de bicho, era passo de gente  com cadência.

A malha parou, virou e ficou olhando. Não viu ninguém, apenas o viu de novo, mais perto.  Ela deu mais dois passos e deteve outra vez. Depois ela viu uma pessoa entre as  árvores, a poucos metros parada. Era homem, não tinha arma na mão, estava  com roupa escura e cabelo apanhado. Ele deu um passo para a frente e a luz ténue do entardecer, já quase ido,  deixou-lhe o rosto visível por um instante.

A Malia reconheceu de imediato. Era o Baltazar.  Ela abriu a boca para perguntar porquê. Baltazar levantou a mão pedindo silêncio.  Ele aproximou-se devagar e falou baixo para ninguém além dela ouvir. Perdoa-me. A  malha ficou imóvel. O pedido veio seco, sem explicação, e veio no local onde  ninguém deveria estar.

Baltazar olhou para a direção da aldeia, como quem  ouve uma coisa distante, e depois voltou os olhos para ela. Não era para que possa apanhar junto com o resto. A malha  ficou com o corpo duro quando reconheceu Baltazar no meio das árvores. Ela ainda tinha o cesto no braço e sentia o ombro cansado.

O entardecer  estava a ir embora e o trilho já ficava mais escuro a cada minuto. Altazar chegou perto  sem pressa e não tentou tocar-lhe. Ele olhou primeiro para o lado da aldeia, depois  para a faixa atrás dela e só depois voltou os olhos para o rosto  de Amália.

“Eu sei que tu está zangado”, disse. “Eu aceito isso.” A Amália queria  perguntar por ele mandou-a sair. Porque ninguém falou nada. Porque o padre ficou calado. A garganta dela travou e a primeira pergunta saiu curta.  Quem decidiu isso? Baltazar respondeu sem enrolar. Foi uma decisão minha na frente de todos.

A ordem veio de fora e há pessoas aqui dentro a ajudar a ordem. A Malia apertou o cesto  contra o corpo e disse que ela não tinha feito nada. Baltazar concordou com a cabeça. “Eu sei”, falou. “Eu estou a pedir  desculpas por isso. Você não devia ter sido empurrada para aquele caminho.” Amália respirou fundo e perguntou  o que é que ele queria agora.

Baltazar apontou para a direita, para uma parte mais fechada do mato. Vem por aqui, fica  fora do trilho. Tem ouvido demais. Eles caminharam por um troço curto, desviando de raiz e pedra até chegarem perto de um ribeiro raso. A água corria  baixa e fazia um som pequeno, constante. Baltazar parou atrás de duas árvores  e mostrou um ponto de terra mais firme. “Senta-te aqui”, disse ele.

“É preciso ouvir sem levantar a voz”. >>  >> A malha sentou-se no chão e colocou o cesto ao lado. Baltazar ficou de pé, mas com o corpo virado para ambos os lados,  alternando o olhar entre o mato e a direção da aldeia. Hoje de manhã, chegou um recado. Ele começou. Veio por mão de homem armado com ordem assinada.

A ordem manda a redução sair dali e ir para outro lugar. Diz que não tem escolha. A Malália conhecia aquela conversa. Ela já tinha ouvido palavras soltas na praça, mas nunca tinha ouvido a frase  inteira. E se não sair? Ela perguntou. Baltazar respondeu com a voz baixa e firme.

Eles vêm buscar e não vêm para conversar. Amália sentiu o estômago apertar. Ela perguntou quem eram. Altazar não deu nome de bandeira. Ele falou da forma que o povo entendia. Gente de fora com cavalo, arma e pressa. Vem com dois bosses. Um deles já passou por aqui há anos. Ele sabe onde fica cada casa. Ele sabe quem obedece e quem não obedece.

Amália olhou para as mãos de Baltazar. Ele tinha  calo de trabalho e uma cicatriz antiga no braço. Aquele homem sempre pareceu duro, mas não parecia do tipo que inventava. Então, porque me mandou para o mato? Ela perguntou. Porque não falou isso para todos? Baltazar respondeu de forma direta: “Porque há pessoas que querem usar a ordem para acertar conta e você entrou nesta conta sem saber.

” A malha franziu o sobrolho. Baltazar continuou. Sabe ler papel. Quase ninguém aqui sabe. Quem sabe sabe pouco.  Lê melhor do que muito homem velho. Isso assusta, isso ajuda e isso torna-se risco quando aparece papel de fora. Amália recordou a sacristia,  do papel sobre a mesa, das duas linhas que ela leu sem querer.

Ela não  falou isso. Baltazar falou por ela. Você viu uma parte? Ele disse: “Não precisa negar. Alguém te viu perto da  sacristia nesse dia. Depois a conversa chegou ao ouvido errado. Disseram que estava a guardar recado. Disseram que ias contar a gente de fora. Isso bastou para te apontarem. Amália sentiu a raiva subir e perguntou quem apontou.

Altazar respondeu com cuidado: Evaristo e Mateus foram os que vieram te buscar. Não decidiram sozinhos. Eles  estão a seguir uma rota. Esta rota tem dinheiro e promessa de terra. Amália ficou em silêncio durante alguns segundos e  depois perguntou do padre: “Padre Teodoro sabias?” Baltazar demorou  um pouco mais para responder.

O padre sabe de muita coisa. Ele também está  sendo apertado. Ele não quer que a redução se torne um campo de morte, mas ele tem medo de enfrentar quem está a chegar. Ele ficou calado hoje porque há gente vigiando cada palavra  dele. A malha apertou os dedos um no outro e falou baixo.

Então fui jogada para fora para não dar trabalho. Baltazar negou com a cabeça. Não, foste jogada para fora para não ser apanhada  aqui dentro. Ali levantou o olhar. Pega por quem? Baltazar apontou para o chão ao lado com um  gesto curto, pedindo calma. Há um homem que vem com a tropa. Ele perguntou por si pelo nome.

O recado  trazia uma lista de nomes que querem separar. Não é lista de santo, é lista  de pessoas que eles acham perigosa. Amália sentiu frio no braço. O meu nome estava lá. Baltazar assentiu.  Estava e tinha um motivo escrito ao lado. Sabe ler? A malha ficou sem ar durante  um instante. Baltazar falou logo a seguir para não deixar o silêncio crescer. Não tinha tempo.

Se eu defendesse  te na praça, iam segurar-te dentro de casa, iam-te amarrar, iam entregar-te de manhã cedo. precisei de te empurrar para fora com a aldeia  vendo. Isto cria a ideia de que foi expulsa por vergonha. Isto muda o tipo  de perseguição. Quem te procura não te procura em casa do padre, nem em casa do corregedor.

Eles procuram-te na trilha e a faixa  tem mais hipóteses de escapar do que uma casa cercada. Aália respirou fundo e ficou a olhar  o arroio. Ela compreendeu o plano, mas não engoliu a dor de ser tratada como culpada.  “Usaste-me?”, ela disse. Baltazar não negou. Eu usei”,  respondeu ele. “E é por isso que eu pedi desculpa”.

A Mália perguntou o que ela deveria fazer agora. Baltazar baixou o corpo, pegou numa pequena trouxa de pano do bolso e colocou  perto do cesto dela. No interior havia um pedaço de pão duro, um pouco de  carne seca e uma cabaça com água. “Vai seguir por fora do arrozio”, disse. “Vai andar até encontrar uma figueira grande perto de uma  pedra lisa.

Depois você vira para sul e chega a um rancho abandonado. Vai encontrar um homem lá antes de escurecer de vez. Amália perguntou quem era o homem. Baltazar respondeu apenas o nome: Isidoro.  Ela não conhecia. Baltazar percebeu. Ele não mora na redução. Baltazar disse. Ele conhece o caminho do rio. Ele conhece lugar de esconder.

Ele também sabe para para onde a tropa  vai olhar primeiro. Amália perguntou por Isidor ajudaria. Baltazar respondeu  sem frase bonita. Porque ele já perdeu família para este tipo de ordem e porque ele odeia o que está a chegar. Aália ficou em silêncio e depois fez outra pergunta. E vai voltar? Baltazar assentiu.

Eu volto agora.  Tenho que estar na aldeia quando a noite cair. Se eu desaparecer, eles entendem que eu te ajudei e depois não apanham só você. Amália perguntou quem eles pegariam. Baltazar olhou para o lado e respondeu com cuidado: “Apanhem pessoas que não tem força para correr. Pegam criança, apanham velho, apanham quem fica para trás.

Fazem isso para todo mundo aprender rápido. Amália sentiu  a mão tremeu e segurou firmemente a bordo do cesto. Baltazar falou então mais baixo, quase sem mexer a boca. Tem outra coisa. O recado de fora não veio só com ordem de mudança, veio com pedido de uma coisa que está na sacristia, um papel antigo, guardado.

O papel tem marcas, nomes e promessas. Tem gente aqui dentro que quer entregar este papel para ganhar vantagem. Amália lembrou-se da mesa da sacristia e do papel que ela viu. Lembrou-se também  da forma como o padre Teodoro segurou aquele papel no dia do anúncio. O padre não leu. Só dobrou e guardou. Aquilo ganhava agora sentido.

Eles vão mexer na igreja esta noite? Amália perguntou. Baltazar respondeu: “Vão. O Evaristo sabe entrar. O Mateus sabe vigiar. Tem mais dois homens com eles. Eles querem apanhar esse papel antes da tropa chegar para não deixar rasto. Amália perguntou porque o papel importava. Baltazar respondeu com o que podia sem abrir tudo.

Esse papel decide terra, decide dívida e decide culpa. Tem nome de gente grande e  tem nome de gente pequena. Tem assinatura que não foi feita com vontade. Se isso sai da redução na mão errada, a aldeia torna-se uma arma. Aália sentiu o peso daquilo, mas ainda não percebia o tamanho. Baltazar mudou o assunto para o que era urgente.

“Não vai voltar hoje”, disse. “Nem amanhã cedo. Vai ficar com Isidoro até eu mandar sinal.” Ali perguntou qual o sinal. Baltazar apontou para o próprio braço e mostrou um pano amarrado no pulso. “Se eu aparecer com pano vermelho, tu  corres para o norte”, disse. “Se eu aparecer sem pano, pode tentar voltar pelo lado do pomar depois do meio-dia.

Só depois do meio-dia”. Amália guardou a informação na cabeça. Ela estava com medo, mas a parte dela, que observava detalhes ainda funcionava. Antes de ela levantar, Baltazar olhou de novo para o direção  da aldeia. Ele ficou imóvel ouvindo. A malha também ouviu  um passo, depois outro. Não vinha de bicho, vinha de gente.

Baltazar levou o dedo à  boca, pedindo silêncio. Puxou a malha pelo braço uma única vez, sem força,  só para a tirar da vista do ribeiro. Ficaram atrás de um tronco grosso, com folhas  a cobrir parte do corpo. O homem que chegou não veio a correr, veio andando firme. A batina apareceu primeiro, escura no meio do mato.

O Padre Teodoro  parou a poucos metros e olhou diretamente para Baltazar. Fizeste  isso?”, o padre disse sem gritar. Baltazar saiu um passo de trás do tronco e respondeu baixo: “Fiz e voltava a fazer.”  O Padre Teodoro olhou para o lado e viu a malha escondida. Ele não avançou, mas  a voz dele ficou mais dura.

“Ela não pode desaparecer”, ele disse. “Se ela desaparecer, eles vão pensar que a redução está a esconder papel e pessoa.”  Baltazar respondeu: “Já acham. Eles não precisam de prova para o encontrar. O padre apertou a mão na batina  perto do peito e disse uma frase que fez a malha gelar. O homem que vem com a tropa  disse que se ela escapar, ele entra na aldeia e escolhe 10 no lugar dela.

Baltazar ficou parado por um segundo. Depois respondeu: “Ele não vai escolher 10,  ele vai escolher mais. Este tipo de ameaça cresce sempre.” >>  >> O Padre Teodoro deu um passo para a frente. “Então, quer condenar todos os para salvar uma?”,  ele perguntou. Baltazar respondeu sem levantar a voz: “Quero impedir que eles usam a aldeia para resolver interesse de meia dúzia e quero impedir que vocês  entreguem uma jovem para pagar silêncio.

” Amália ouviu vos e entendeu que Baltazar estava incluindo o padre em alguma parte do  problema. O Padre Teodoro ficou vermelho no rosto. Não sabe tudo o padre disse. Baltazar respondeu: “Eu sei suficiente. Eu  vi o recado. Vi o nome dela com motivo escrito e vi quem sorriu quando ouviu isto. O Padre Teodoro olhou para Amália e falou com firmeza:  “Amália, volta já.

Eu levo-te, eu resolvo.  Amália não se mexeu. Ela olhou para Baltazar e perguntou baixinho, sem olhar para o padre. Ele pode resolver? Baltazar respondeu.  Ele pode-te pô-lo numa sala e dizer que é proteção. Depois alguém abre a porta de madrugada e entrega-te. Padre Teodoro fez menção de reagir, mas estacou.

O silêncio tornou-se  pesada. O padre depois disse uma coisa que confirmou o pior para a malha. Eles já estão na estrada”, ele  disse. “Chegam antes do sol de amanhã”. Baltazar olhou para a Malha e  falou com rapidez, ainda sem levantar a voz. Vai agora, segue o ribeiro  e não volta para o trilho.

Se alguém te chamar pelo nome, não responde. A Malha pegou na trouxa, pegou no cesto e levantou devagar. Ela olhou uma última vez para Baltazar e antes de sair disse uma frase curta: “Se me mandaste embora para me salvar, depois salva-me até ao fim.” Baltazar assentiu. A malha saiu pelo mato,  seguindo o som baixo da água.

Atrás dela, ainda ouviu o padre  e Baltazar a falar, mas não entendeu as palavras. Ela andava depressa, cuidando para não cair. A luz do céu caiu de vez e o trilho virou sombra. Ela continuou até ver a grande figueira e a pedra lisa. Quando virou para sul, ela ouviu um estalido  seco à esquerda.

Ela parou, ouviu de novo passo curto, gente. E desta vez o passo vinha na direcção dela. A malha ficou parada quando ouviu o estalido de novo. Veio da esquerda, perto de um tronco grosso. Ela segurou o cesto com força e conteve a respiração. O som seguinte foi de passo  curto em folha seca. Era passo de gente.

Ela olhou para trás e não viu ninguém, mas o som  vinha na direção dela, sem pressas. Ela baixou-se e saiu do caminho principal, entrando num troço mais fechado, onde o mato tinha ramos baixos.  Ela não correu porque o chão tinha pedra e raiz. Ela caminhava depressa, com o corpo inclinado,  tentando fazer pouco barulho.

O arroio ainda estava perto e o som da água ajudou a cobrir um pouco os passos dela.  Há poucos metros, ela ouviu uma voz baixa a chamar: “Amália!” Foi só uma vez, sem grito. Ela reconheceu a voz de Mateus. Aquilo confirmou que o passo era de gente da aldeia e não de fora. Ela continuou andando sem responder, lembrando-se da ordem de Baltazar.

se respondesse, entregava o lugar. O som de bota encostado a pedra veio  logo depois e a Malha entendeu que havia mais de um. Ela mudou de  direção e foi para perto do ribeiro. A margem era baixa e havia um troço com barro mais firme. Ela entrou na água até à canela e seguiu pela borda, porque a água não guardava marca de passo.

O frio subiu pela perna, mas ela manteve o ritmo, olhando para o chão para não tropeçar. Atrás, as vozes baixas continuaram. Não eram muitas  palavras, eram comandos curtos. Por aqui, ela entrou no ribeiro vedação mais em baixo. A Malha sentiu o coração acelerar. Ela sabia que se eles descessem pelo ribeiro acabariam encontrando-a.

Ela precisava de sair dali sem abertura  faixa. Ela olhou para a margem e viu um troço de erva mais alto e um amontoado de pedra. Entrou por detrás das pedras e ficou agachada. com a água a tocar na barra do vestido. O cesto estava molhado por baixo, mas ela não o largou.  Os passos chegaram perto. Ela viu sombra de perna passando do outro lado do ribeiro a poucos  metros.

Alguém parou, escutou e depois voltou a andar. Mateus falou baixo. Ela sabe esconder.  Procura o rancho. Evaristo respondeu com irritação contida. Se ela chegar ao rancho, ela  desaparece. A Malia sentiram o medo apertar porque sabiam do rancho. Baltazar tinha falado de Isidoro e  agora os homens também falavam.

Ela entendeu que a rede era maior do que ela imaginava. Ela ficou imóvel e esperou. Os passos  seguiram um pouco mais e o som diminuiu. Quando ela se mexeu para sair, um galho estalou ao lado dela. A malha  travou. Não foi ela que o fez. Veio do mato atrás a menos de dois passos.

Ela virou-se devagar e viu um homem agachado, com a mão levantada  pedindo silêncio. Era alto, magro, com cabelo apanhado e  roupa simples escura, sem enfeite. O rosto estava limpo e o olhar era firme. Ele não parecia com os homens da aldeia. Ele falou baixo, perto o suficiente  para ela ouvir. Você é a menina que lê.

A malha não respondeu.  O homem apontou para o cesto e para o mato à frente, indicando que ela deveria sair dali. Depois apontou para o ribeiro,  mostrando que não era seguro ficar perto da água. Ele falou de novo, sem levantar a voz: “Eu sou Isidoro. O Baltazar mandou-me apanhar antes deles.

”  A malha engoliu em seco. O nome era o mesmo. Ela assentiu com a cabeça e seguiu.  Isidoro foi primeiro, abrindo caminho com o braço, desviando ramo sem quebrar. Caminhava rápido, mas com  cuidado. A malha vinha atrás, pisando onde ele pisava. Em poucos minutos, deixaram o ribeiro para trás e entraram  num trecho mais alto, com piso mais seco.

A luz do céu já tinha desaparecido  quase toda. O pouco que restava vinha do lado do horizonte.  Isidoro parou e escutou. Aália viu-o também. Um assobio curto veio do lado de trás, longe e depois outro. Isidoro virou o rosto e falou com rapidez:  “Eles estão se chamando. Eles estão a fechar o caminho do rancho”.

Amália perguntou com voz baixa: “Porque é que eles estão atrás  de mim?” Isidoro não respondeu na hora. Ele apenas puxou o braço dela com cuidado e acelerou o passo. Depois de um trecho  de mata mais fechada, apontou para um buraco de cerca antiga e fez passar a malha por baixo. Do outro  lado, havia campo baixo e uma linha de árvores mais adiante.

O rancho ficava ali perto, mas ainda não dava para ver. Eles caminharam mais alguns minutos e chegaram a uma construção simples em madeira, velha, com telhado baixo e porta torta. Isidoro fez entrar a malha sem acender luz. No interior o chão era de terra batida e havia um banco, um canto com palha e um pote de barro  vazio.

Isidoro fechou a porta e travou com um pedaço de madeira. Foi até à parede do fundo e levantou uma tábua  solta. Tirou de lá uma pequena lamparina e um fósforo velho. Acendeu-se com cuidado, fazendo uma luz fraca que não vazava muito. A malha respirou melhor, mas ainda assim  tremia.

Sabe o que está a acontecer?”, perguntou ela. Isidoro colocou a lamparina no chão, longe da janela, e falou: “Baixo: “Eu sei o suficiente e eu sei que foste colocada no meio de uma luta que não é tua”. Amália perguntou se Baltazar estava do lado dela. Isidoro ficou em silêncio por um instante e depois respondeu com frieza controlada: “Baltazar  está a tentar salvar a redução.

Ele vai fazer coisa que você não vai gostar.” Amia sentiu o rosto aquecer. Ele deitou-me fora. Ela disse, humilhou-me na frente de todos. Isidor  assentiu e pediu desculpas. Ele disse: Ele não pediu por bondade, ele pediu porque sabe que fez errado consigo. A Aliha perguntou o que queria dizer. Isidoro baixou-se e puxou debaixo da palha um pedaço de couro dobrado.

No interior havia um papel pequeno amassado com marcas de tinta. Não abriu por completo perto da luz. Apenas mostrou a parte de cima, onde havia uma linha curta. Amália olhou e reconheceu o próprio nome escrito com letra de fora, mais dura do que a letra dos padres. Abaixo do nome existiam duas palavras que ela entendeu: entregar antes do sol.

A malha ficou com a boca seca. Ela olhou para Isidoro. Quem escreveu isso? Isidoro respondeu: “Foi recado que saiu de casa do corregedor e foi levado por Mateus para encontrar os homens da estrada. Aália sentiu o chão desaparecer por um instante.  Isidoro continuou: “Peguei neste papel porque segui o Mateus ontem de longe. Ouvi-o falar o teu nome.

Eu ouvi ele dizer que você serve para ler o que vão trazer e para calar o resto.” Ele disse-o sem vergonha.  Amália tentou negar com a cabeça, mas não encontrou palavra. Baltazar sabe?”, ela perguntou. Isidoro respondeu  com cuidado. Baltazar sabe que o teu nome está no meio. Ele sabe que o querem fora da aldeia antes da chegada da tropa.

Ele não disse tudo porque se dissesse alguém  dentro da casa dele ia correr para avisar. O pedido de desculpas  foi o que ele conseguiu dar-lhe sem entregar o plano. A Malha ficou sentada no chão do rancho, com a mão a apertar a bainha do vestido, tentando organizar as ideias. Se aquele papel era real, então a  expulsão não era apenas boato de sacristia, fazia parte de uma entrega planeada.

E Evaristo e Mateus não estavam procurando-a para trazer de volta. Estavam à procura para levar para fora. Isidoro  voltou a guardar o papel e falou baixo. Agora ouve, eles não vão desistir hoje. Eles vão  tentar abrir este rancho. Eles não querem briga. Eles querem apanhá-lo andando.

Amália perguntou se havia outro caminho. Isidoro apontou para trás do rancho. Tem um buraco no fundo que dá num corredor de mato baixo. Você sai  e entra num pedaço de pedra. Depois desce-se para o lado do rio maior.  Eu levo-te até lá. Antes de se mexerem, ouviram um som na madeira da parede. Não foi  pancada forte, foi toque curto, como alguém a testar.

Depois veio um açubio baixo. Isidoro apagou a lamparina com o dedo molhado e puxou a malha para o canto. Ficaram no escuro. Amália ouviu passo perto da porta. Uma voz  baixa falou do lado de fora. Isidoro, abre. A gente só quer conversar. Era a voz de Mateus. Isidoro  não respondeu. A voz voltou um pouco mais dura.

A gente sabe que você está aí. Não vai segurar essa moça contra  toda a gente. A Malha ouviu outro passo, mas arrastado. Era Evaristo. Ele falou baixo também.  Se a esconderes, viras inimigo da aldeia e inimigo da aldeia não tem lugar quando a tropa chega. Isidoro  continuou em silêncio. Aália sentiu a mão dele apertar-lhe o braço dela, pedindo calma. Ela respirou.

Devagar, a  porta recebeu um empurrão. A trava segurou. O empurrão veio de novo, mais forte.  O pedaço de madeira rangiu. Isidoro puxou a malha para o fundo, onde se encontrava a tábua solta. Tirou rápido e mostrou a saída estreita. “Vai primeiro”, ele disse sem som alto. A malha passou. Do outro lado, ela caiu num troço de mato baixo, com cheiro forte a terra.

Isidoro veio a seguir e colocou a tábua de volta, deixando o buraco escondido. Eles andaram  baixados por alguns metros. Atrás, a porta do rancho cedeu finalmente e bateu. A malha ouviu passos lá dentro  e ouviu uma frase de Evaristo irritada. Ela saiu, procura o fundo. Isidoro puxou a malha para a esquerda, indo para a parte de pedra.

Eles subiram um troço curto e do alto viram uma linha fraca de luz ao longe na direção da aldeia. Não era fogo, era candeeiro em movimento, mais do que uma. Era gente a passear perto das casas. Isidoro parou e olhou para aquela direção. Eles já começaram, disse. Amália  perguntou o que tinham começado. Isidoro respondeu com uma frase curta: “A igreja”. Aália compreendeu na hora.

O papel guardado na sacristia era o alvo. Ela lembrou o discurso de Baltazar sobre os homens entrando de noite. Lembrou-se também do medo do padre de desaparecer com ela e causar reação do exterior. Tudo estava ligado. Eles continuaram a descer em direção ao rio maior, mas a malha não parava de olhar para trás.

Ela sentia que enquanto ela fugia, alguém estava a abrir porta na igreja e mexendo em coisa que não devia. E ela sentia que o pedido de  desculpas de Baltazar tinha maior peso do que o orgulho ferido. Tinha um peso de decisão difícil. Quando chegaram perto do rio maior, Isidoro parou num ponto onde o chão era mais firme.

Ele olhou para a Malha e falou com clareza: “Se voltares agora, cais na mão deles.  Se ficares comigo, pode viver para contar o que foi feito. Mas há uma coisa que você precisa de aceitar.”  Amália perguntou: “O quê? Isidoro respondeu: “A aldeia não o expulsou por medo de você.

Expulsou porque alguém prometeu que sem ti lá dentro o resto seria poupado.” Isto foi dito com estas palavras. A malha ficou imóvel. Ela tentou encontrar justificação, mas não achou. Isidoro continuou sem aumentar a voz. E agora, para não perder o resto, vão tentar entregar um papel a os homens da estrada. Se esse papel  sair, a aldeia vai ficar nas mãos deles durante muitos anos.

Amália sentiu o peito apertar  e olhou para a direção da aldeia mais uma vez. A luz em movimento ainda estava lá indo e voltando. Ela pensou em Baltazar, no padre, nas crianças que ela via na praça, nas mulheres que desviavam o olhar. Ela não sabia quem era a vítima, quem era o cúmplice e quem estava a usar todo mundo.

Isidoro colocou a mão no ombro dela e falou uma frase curta: “Firme. Eu vou levar-te para um lugar seguro. Depois decide se volta. Mas quando voltar, você não volta para pedir perdão,  voltas para cobrar a verdade. A malha respirou fundo e assentiu.  Seguiram pela margem do rio, sem luz, apenas guiados pelo som da água e pelo cuidado de não cair.

Atrás, do lado da aldeia, o sino da igreja tocou uma vez,  fora de horas, um toque curto, errado, e logo a seguir veio o outro som mais  seco, de madeira a bater, como porta sendo fechada com força. O sino tocou  uma vez e parou. Não foi toque de missa e não foi toque de morte.

Foi apenas um aviso curto, fora de horas, que  muita gente ouviu e fingiu que não ouviu. A malha estava com Isidoro perto do rio maior, quando esse som chegou fraco, vindo da  direção da aldeia. Isidoro olhou para ela e não precisou de explicar. Ele já tinha dito que iam mexer na igreja. O toque  era sinal de porta forçada por dentro, de gente a entrar onde não devia.

Isidoro puxou a malha pelo  braço, subiram pela margem, indo em silêncio, com o corpo baixo, usando a linha de árvores para esconder o caminho. A noite já  tinha fechado e o céu estava escuro. A aldeia aparecia ao longe, com poucos  pontos de luz nas janelas, mas havia uma luz mais viva perto da igreja, luz de candeeiro, andando  de um lado para o outro.

Não era uma luz só, eram três, talvez quatro. E isso não era normal naquele horário. Eles chegaram  perto do pomar junto ao fora, onde as árvores baixas faziam sombra. Isidoro apontou para a malha ficar atrás  de um tronco e ele foi dois passos em frente para olhar melhor. Aália viu a porta lateral do igreja aberta só o suficiente  para alguém passar.

Viu também um homem parado no canto do adro vigiando com o corpo virado para a rua.  O forma de segurar o ombro e a forma de virar a cabeça eram de Mateus. Ele não estava sozinho. Havia outro homem mais perto da porta a entrar e a sair, levando coisa nas mãos coberta por pano. Esse outro era Evaristo.  Isidoro fez sinal à Malha para não avançar.

Ele levou-a para um ponto mais alto, atrás de uma cerca velha, de onde se podia ver a lateral da sacristia.  A janela era pequena, mas havia uma fenda entre a madeira e a parede, e pela fresta ouvia-se melhor. A malha prendeu a respiração. O som que vinha lá de dentro  era de mobiliário arrastando e de chave a mexer em metal.

Uma voz baixa falou primeiro, controlada, mais seca do que a Malha  esperava. Era o padre Teodoro. Fecha isso direito. Ele disse, se alguém  ver, já não seguro. Outra voz respondeu apressada, sem respeito. Era Evaristo. Já devia  ter feito isso antes. Ele disse: “A tropa está na estrada e o senhor ainda quer cuidado.

” O Padre Teodoro respondeu com raiva contida: “Eu não quero cuidados. Eu quero tempo. Vocês prometeram trazer o  que eu pedi e vocês só trouxeram confusão.” Mateus entrou na conversa da porta a falar baixo. Ela fugiu. Ele disse, “Mas nós achamos. A rapariga não vai longe. Amália sentiu  o peito apertar quando ouviu o moça. Não era dúvida, era ela.

Era o nome dela sem ser dito. Padre Teodoro soltou uma frase que nunca imaginou ouvir dele. Ela precisa de estar aqui quando eles chegarem. Ele disse. O homem do recado não veio buscar apenas o papel, veio buscar alguém que leia o papel para -lo na hora. Evaristo respondeu: “Eu disse que era melhor prender antes.

” Ele disse. Altazar atrapalhou. O padre ficou em silêncio por um instante e depois disse: “Baltazar ainda vai fazer o que eu mandar. Ele tem medo. Ele tem motivo.” Aália olhou para Isidoro e Isidoro ficou com o rosto duro. Ele já sabia que o padre estava no centro da pressão. Agora a Malha também sabia. O padre não estava só com medo, estava  organizando.

Dentro da sacristia, ouviu-se um estalido de madeira e o som de algo pesado a ser colocado sobre uma mesa. A malha não via o objeto, mas pelo som e pela forma como Evaristo resmungou, parecia coisa guardada há muito tempo. É isso. Evaristo  falou. Agora falta o outro. O Padre Teodoro respondeu rapidamente: “O outro está comigo.

Eu não deixo com vós.” Mateus respondeu: “Então abre logo, padre. A gente tem de ir para a entrada da aldeia antes de clarear.” Isidoro puxou a malha para trás porque a porta lateral da igreja rangeu. Evaristo saiu com um grande pano nos braços e atravessou o adro em direção ao fundo, indo para a sombra do pomar. Mateus acompanhou com passo curto.

Eles iam esconder aquilo fora da igreja. Até a tropa chegar, Isidoro esperou que os dois sumirem e depois levou a malha mais perto da janela da sacristia para ouvir o resto. A voz do padre voltou agora falar com alguém que parecia estar no mesmo lugar. Você veio mesmo? Padre Teodoro disse. Amália ouviu um passo mais pesado e reconheceu esse ritmo.

Era Baltazar. A voz de Baltazar  saiu baixa e firme. “Eu vim porque eu não confio em ti sozinho com isso”, disse. O Padre Teodoro respondeu: “Não confia em ninguém, isso é seu defeito.” Baltazar disse: “Confio no que eu vejo e hoje vi uma coisa. Eu vi homens a usar a aldeia para fazer negócio.

O Padre Teodoro falou sem levantar a voz: “Negócio não, saída. Se eu não fizer isso,  eles entram e fazem escolha no meio da praça. Eu estou a evitar a morte. Baltazar respondeu rápido: “Está a escolher quem cai primeiro.”  Houve silêncio. Amália sentiu um frio na barriga porque entendeu que Baltazar tinha  razão.

O plano do padre era entregar uma pessoa para proteger o resto e essa pessoa era ela. Padre Teodoro falou: “Mais duro: “Eu  vou entregar o que tenho e tu vais entregar o que falta”. Baltazar  respondeu: “Eu não vou entregar a malha.” O Padre Teodoro respondeu com um tom curto: “Já entregou. O seu nome já saiu da aldeia.

O seu homem levou o recado.  O recado voltou com resposta. Agora só falta trazer. A Malia sentiu a garganta travar. Isidoro segurou-lhe o braço para ela não se mover. Ela queria entrar, abrir a porta,  gritar, mas sabia que isso acabava mal. Ela ficou quieta a ouvir.  Baltazar falou de uma forma que parecia doer.

“Fiz isto para ganhar tempo.” disse ele. Eu escrevi o nome dela porque eu precisava que eles acreditassem  que eu estava do lado deles. Eu precisava de tirar o foco do resto. Padre Teodoro respondeu: “Então, acaba, traga-a  e eu fecho o acordo.” Baltazar falou com raiva contida: “Eu não vou trazer. Eu mudei.

Eu vi o que querem”. O Padre Teodoro respondeu com frieza:  “Já não mandas. Se não trazem, entram e levam 10. Eu já disse-lhe.” Baltazar respondeu: “Eu sei e prefiro que me apanhem”. Neste instante,  um som diferente veio do lado de fora da igreja. Não era um sino, era cavalo,  casco a bater no chão duro mais de um.

Depois veio voz de homem de fora,  firme e alta, chamando alguém pelo cargo, e não pelo nome. Corregedor, abra agora. Baltazar  não respondeu. O Padre Teodoro foi até à porta da sacristia e abriu. A malha se encolheu atrás da vedação, porque agora havia gente a chegar de verdade. Dois homens entraram pelo adro com lamparinas e mais dois ficaram à sombra, segurando a rédia.

Um deles tinha roupa de viagem e capa curta. O outro tinha o chapéu duro e  um codre preso à cintura. Não era roupa da aldeia, era roupa de tropa.  O homem da capa falou primeiro, a voz era seca. “Onde está o pacote?”, perguntou. O Padre Teodoro respondeu,  tentando manter calma. “Está aqui, cumpri.” O homem olhou para Baltazar e depois olhou de volta para o padre.

“E a rapariga?”, ele perguntou: “Aquilê?” Padre Teodoro  respondeu. Ela foi expulsa ao entardecer. Está no mato. Baltazar vai trazer. Baltazar deu um passo em frente. Ela não volta, disse. O homem da capa ficou parado por um segundo e depois falou com calma. Então você  escolheu por todos, disse. Eu falei 10.

O Padre Teodoro tentou intervir, mas a voz do homem cortou a dele. Padre, fica fora. Eu falo com ele. Aália sentiu o corpo tremer. Isidoro puxou-a para trás e fez-lhe sinal para recuar. Começaram a sair pelo pomar, mantendo a distância, mas a malha pisou folha seca e fez um som curto. Um dos homens na sombra virou a cabeça na hora. “Ali”, disse ele .

Isidoro puxou a malha com força suficiente para ela não cair e eles correram por um curto trecho, desviando-se de tronco e cerca. Atrás ouviu-se passo rápido e lamparina a abanar. Não houve disparo e não houve grito. Houve perseguição em silêncio, da forma que gente treinada faz quando quer apanhar vivo.

Amália e Isidoro passaram pelo lado do pomar e foram para a parte de trás das casas, onde o chão era mais irregular. Isidoro conhecia o caminho e puxava a malha pelos pontos mais firmes. Mesmo assim, ouviram o som de uma bota chegando perto. Um homem apareceu no frente deles, saindo de trás de um muro baixo.  Era o Baltazar. Ele levantou o braço e parou a meio do caminho, bloqueando a passagem do perseguidor. Vai.

Baltazar falou baixo para Amália, sem a olhar por muito tempo. Agora Amália parou um segundo porque precisava de compreender. Baltazar meteu a mão por dentro da camisola e  tirou um pequeno papel dobrado. Colocou-o na mão de Amália. Isso tem o seu nome. Ele disse, eu fui eu que escrevi. Perdoa-me. Aália abriu a boca e não encontrou frase.

Ela olhou para o papel, olhou para Baltazar e viu no rosto dele um medo que ela nunca tinha visto. Não era medo de morrer, era medo de ter condenado alguém. Isidoro puxou a malha novamente, mas a malha ainda ficou presa por um instante. Baltazar então disse mais uma frase rápida, direta, com a voz baixa: “Se te apanharem, eles apanham o resto depois.

Eu errei cedo, eu arranjo agora”. O homem da tropa chegou a dois passos com a lamparina na mão. Baltazar abriu os braços, impedindo a passagem. O homem mandou-o sair. Baltazar não saiu. Isidoro puxou a malha pelo ombro e escaparam por um corredor estreito entre duas vedações. Enquanto corriam, a Malha ainda ouviu  a voz do homem da capa de longe falando com Baltazar.

Vai pagar por isso? A Malha não ouviu resposta.  Só ouviu passos a afastarem-se e o som de cavalo a ser puxado. Ela e Isidoro saíram da aldeia  pela parte baixa, perto do rio, e só pararam quando o barulho se tornou distante. A malha estava ofegante e com as mãos a tremer. Ela abriu o papel que Baltazar deu e viu o seu nome escrito com letra firme, junto de uma ordem curta  que ela compreendeu sem esforço.

A ordem não mandava proteger, mandava  entregar. Isidoro olhou para o papel e falou baixo, com raiva e tristeza ao mesmo tempo. “Agora já sabe porque é que ele pediu desculpa no mato?”, disse.  “Não foi pela expulsão, foi porque ele já te tinha vendido antes de te salvar”. Ali segurou o papel e olhou para a direção da aldeia.

>>  >> A igreja estava novamente escura, mas ela sabia que lá dentro havia um acordo feito e um pacote a mudar de mão. Ela também sabia  que Baltazar tinha ficado para trás sozinho entre o que ele tinha feito e o que tentou  desfazer. Isidoro encostou a mão ao braço dela e disse uma última coisa com a voz baixa e firme.

Se a gente não levar isso a alguém maior  do que eles, amanhã esta aldeia vai acordar sem escolha nenhuma. Amália e Isidoro seguiram pelo  rio até o chão ficar mais firme e o barulho da aldeia desaparecer de vez. Eles andaram sem  parar até ao início da madrugada. Quando o corpo de Amália cansou, Isidoro encontrou um ponto mais  alto, com árvores baixas e erva, onde dava para se esconder sem ficar perto de trilho.

Eles se sentaram-se no chão, beberam um pouco de água e dividiram a comida seca que Isidoro  carregava. A malha não conseguia engolir corretamente. O papel dobrado que Baltazar lhe colocou na mão parecia pesar mais do que o cesto  inteiro. Isidoro pediu que ela guardasse o papel dentro da roupa, perto do corpo, para não se molhar e  para não cair.

Aália fez isso e ficou em silêncio. Ela pensava no rosto de Baltazar, bloqueando a  passagem, na forma como falou: “Eu arranjo agora”. E na frase que Isidoro tinha dito depois. >>  >> Baltazar não tinha pedido desculpa por tê-la mandado embora. Ele tinha pedido desculpa porque  tinha escrito o nome dela para entregar.

Quando o céu começou a clarear, Isidoro levou a malha para mais longe,  evitando o caminho da aldeia. Ele disse que o homem da tropa não ia procurar muito fora do primeiro raio,  porque tinha pressa e tinha outra missão. A outra missão não era a pessoa, era o papel  que estava na igreja. No meio da manhã, encontraram um peão de passagem, levando dois animais  por uma picada.

Isidoro falou com ele durante poucos segundos e depois voltou a a malha. Entraram antes do sol, Isidoro disse. Pegaram no pacote do padre, levaram também duas trouxas de pano da sacristia e levaram Baltazar amarrado no cavalo. A Malha sentiu a boca secar. “Levaram mais alguém?”, ela perguntou. Isidoro respondeu: “Levaram O Evaristo e o Mateus também.

Não foi por punição, foi para não sobrar testemunha solta. A malha ficou parada, tentando entender. Se levaram Evaristo e Mateus,  portanto não era uma aliança de longo prazo, era o uso e o descarte. Isidoro confirmou sem dizer estas palavras. Eles usaram os dois para abrir porta e encontrar coisa”, disse.

Depois levaram consigo para controlar. Amália perguntou do padre. Isidoro disse que padre Teodoro ficou. Isso pareceu estranho, porque o padre tinha sido o primeiro a negociar. Isidoro explicou o  que o peão ouviu na estrada. O homem da capa falou com o padre na porta, disse que o padre cumpriu a parte dele.

Disse que o padre ia estar quieto e manter a aldeia a caminhar até à ordem nova sair no papel. E disse que se o padre falasse demais voltavam. Amia fechou os olhos por um instante.  Ela compreendeu que a aldeia não tinha sido salva, tinha sido colocada de joelho.  Isidoro, pediu então a Malia que mostrasse o papel. Ela abriu com cuidado e leu em voz baixa.

Era uma instrução curta assinada por Baltazar com o seu nome e uma ordem direta de entrega à tropa antes do sol. No canto havia uma pequena anotação que a Malha não tinha percebido antes, feita com outra letra mais fina. Era a letra de padre, era a letra de alguém habituado a copiar,  não era a letra de Baltazar.

A anotação dizia: “A rapariga lê e reconhece nomes, não pode ficar”. Amália sentiu o calor subir no rosto. Isidor olhou-o para o papel e ficou com o maxilar duro. “Então foi isso?”, disse.  O padre não o queria fora só para entregar. Ele queria-o fora para não ler o resto. Amália perguntou: “Que resto?” Isidoro respondeu apontando para o que faltava.

O pacote do padre não era só ordem de mudança, tinha  anexos, tinha lista de famílias e tinha lista de coisas que iam ser  tomadas. O padre sabia e ele precisava de alguém que lesse depressa para o homem da tropa na hora. Você era útil por um motivo e perigosa por outro. A Mália ficou alguns segundos sem voz.

Ela compreendeu porque o padre chamou-a para o mato e disse: “Ela não pode desaparecer. Ele precisava dela viva,  mas não precisava dela livre. E ela compreendeu porque Baltazar pediu desculpas. Baltazar tinha feito a parte suja para ganhar tempo.  Depois viu que a parte suja não terminava nela, terminava no resto da aldeia.

Isidoro disse que existia uma  saída. Não era saída para salvar tudo naquele dia, mas era saída para impedir que  aquilo transformava-se em silêncio permanente. “Vai levar esse papel para quem tem o poder de cobrar  outro papel”, disse. “Vamos até ao povoado maior e vai procurar o escrivão da comarca.

Você lê na frente dele,  conta-se do que se viu e do que ouviu e assino como testemunha”. Amália perguntou se isso ia funcionar.  Isidoro foi direto. Funciona por vezes, mas sem isso não funciona nunca. Eles caminharam o resto do dia e chegaram ao fim da tarde  num povoado de passagem, maior do que a redução, com mais comércio e mais  gente de fora.

Isidoro conhecia uma casa onde um homem guardava recados e recebia um viajante. Ali a malha lavou a cara,  comeu um pouco e descansou as pernas. Na manhã seguinte, foram ter com o escrivão. O escrivão ouviu desconfiado no início, porque muita gente inventa coisa para se  vingar.

Mas quando colocou o papel em cima da mesa e leu a anotação do canto em voz alta, o homem mudou o rosto.  Ele pediu à Amália para repetir devagar e pediu a Isidoro para dizer nomes, horários  e direção da estrada. Ele não prometeu justiça rápida, mas prometeu registar. E registo é o que tira  o caso da boca do povo e coloca na mão de alguém que precisa de responder.

Antes de sair, a Amália pediu uma coisa. Pediu para escrever uma carta simples, sem ataque, só  com factos, para ser entregue ao padre Teodoro por mensageiro. Ela ditou e o escrivão escreveu.  A carta dizia que ela sabia que a letra do canto era dele, que ela sabia que o seu nome era usado duas vezes e que ela tinha registado tudo no final. Ela não praguejou e não ameaçou.

Ela apenas escreveu uma frase curta:  “O Senhor expulsou-me para eu desaparecer. Eu Fiquei viva para lembrar.” Isidoro levou a Malha até à beira da estrada e disse que ela não tinha de voltar para a aldeia naquele momento.  Mas a Malha olhou para a direção do caminho e disse que voltava quando fosse  seguro, não para pedir lugar, mas para procurar quem ficou sem voz.

E quando ela pensou  de novo no pedido de desculpas no mato, ela entendeu a revira volta  inteira. A aldeia não expulsou a malha porque era o problema. Ela expulsou porque alguém com cargo assinou uma entrega e usou o aldeia como moeda. Baltazar pediu desculpas porque ele fazia parte da entrega e ele pediu no mato porque dentro da aldeia ainda fingia obediência.

O pedido era verdadeiro, mas veio tarde. A única coisa que deu para ele fazer no fim foi ficar no caminho e comprar tempo com o próprio corpo. Se chegou até aqui, guarda esse detalhe. Quando alguém lhe manda sair em silêncio, nem sempre é porque se merece. Às vezes  é porque alguém está a tentar salvar a própria pele.

E é por isso que a verdade só aparece quando alguém escreve e alguém lê. Antes de eu encerrar, inscreve-se no canal e deixa o like, porque isso faz-me ajuda a continuar a trazer esses relatos do dossier do tempo. E comenta aqui debaixo de que cidade está a ver, porque adoro saber até onde o dossier do tempo está a alcançar.

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