MARADONA: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA
O melhor jogador do século XX, a mão de Deus, campeão do mundo, o melhor golo da história. E esse mesmo homem, morto numa cama de merda numa casa alugada do bairro do Tigre, sozinho, esquecido, sem um familiar ao lado, com um coração que pesava o dobro do normal e com duas coisas que a autópsia oficial encontrou dentro do corpo do Maradona.
Duas coisas que nenhuma televisão argentina teve coragem de publicar durante 5 anos até hoje. Hoje vai saber por morreu o melhor jogador da história sozinho numa casa destruída e o mais repugnante. Por que Maradona não morreu? mataram-no e ainda hoje, 5 anos depois, ninguém foi condenado. Mas antes de lá chegar, você precisa de perceber como o Diego chegou nesse ponto.
Porque o que aconteceu não começou em Tigre, começou 60 anos antes, numa favela a sul de Buenos Aires, [música] com um miúdo que dava pontapés numa bola de pano numa rua de terra batida e com uma mãe que não comia para que ele comesse. Vila Fiorito, província de Buenos Aires, 30 de outubro do ano de 1960. Uma favela a 15 km do centro da capital argentina, sem asfalto nas ruas, sem água canalizada nas habitações, sem luz elétrica regular.
Nesse dia, numa casa de madeira e chapa do bairro, uma família de origem humilde deu as boas-vindas ao quinto de oito filhos. Puseram-lhe o nome de Diego Armando Maradona. Pesou 3,Gg 200 ao nascer. Mas em menos de 15 anos, em cada estádio sul-americano e europeu, onde o miúdo pisasse, iam chamá-lo apenas de 10.
O pai chamava-se Diego Siior, conhecido no bairro por Xitouro. Era pescador no Rio da Prata quando dava sorte. Era operário fabril o resto do tempo. Trabalhava numa fábrica de processamento de ossos de animais do sul de Buenos Aires. Voltava para casa com cheiro a sangue seco na roupa, 12 horas por dia por 1000 pesos por semana.
A mãe chamava-se Dalma Salvadora Franco, mas na família todos a chamavam de dona Tota. A Dona Tota era dona de casa. Cozinhava com lenha na cozinha improvisada do fundo da casa. Lavava as roupa dos 10 membros da família num tanque do quintal. E quando tinha pouca comida, fazia uma coisa que o pequeno Diego só foi compreender aos 22 anos.
Aos 6 anos do Diego, a dona Tota perdeu 10 kg de peso aos 4 meses, 6 kg no primeiro mês, 4 kg nos três seguintes. O médico do bairro, um senhor chamado Dr. Can, que atendia gratuitamente as famílias pobres de Vila Fiorito, examinou a dona Tota, diagnosticou desnutrição grave, perguntou-lhe o que estava acontecendo. A dona Tota não respondeu.
O médico insistiu três vezes e a mãe do futuro melhor jogador do mundo deu para lhe uma única resposta, uma resposta de cinco palavras. As mesmas cinco palavras que o Diego repetiu, palavra por palavra, numa entrevista ao jornalista argentino Víctor Hugo Morales, no ano de 2005, a dona Tota disse ao médico: “Os meus filhos comem primeiro, doutor”.
“Os meus filhos comem primeiro, doutor”. Esta frase, este sacrifício silencioso de uma mãe que se matava à fome para alimentar oito filhos numa favela do sul de Buenos Aires foi o primeiro pilar da culpa que o Maradona ia carregar pelo resto da vida. O Diego ficou a saber anos depois, aos 22 anos, quando já jogava no Boca Juniors e ganhava mais dinheiro do que toda a família tinha verificado em quatro gerações.
E naquela tarde, na cozinha da casa que o Diego tinha comprado para os pais num bairro de classe média de Buenos Aires, o filho perguntou à mãe porque não comia com eles quando era miúdo. A dona A Tota olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas e respondeu: “Palavra por palavra”, segundo contou o próprio Diego naquela entrevista ao Víctor Hugo Morais.
A dona Tota falou sete palavras: “Uma mãe nunca tem fome, o meu amor. Uma mãe nunca tem fome, meu amor.” Nessa tarde, o Diego saiu da cozinha sem terminar o prato, caminhou até ao casa de banho da casa, trancou a porta e chorou durante 40 minutos seguidos. O Diego Maradona, que em poucos anos ia ser o melhor jogador do mundo, chorava na casa de banho da casa da mãe, porque acabava de descobrir que a mulher que tinha parido, tinha passado fome durante anos para o alimentar.
E desde naquela tarde de 1982, segundo contou o próprio, anos mais tarde, o O Diego começou a levar presentes sempre que podia à dona Tota. comida, roupa, jóias, casas, carros, como se conseguisse devolver com dinheiro os 10 kg que ela tinha perdido por amor. Não conseguia. E o Diego, até ao último dia da sua vida, não parou de tentar.
Mas a culpa pela mãe desnutrida não foi o mais sombrio da infância do PIB de ouro. O mais sombrio aconteceu numa data específica do ano de 1969, quando o Diego tinha 8 anos. Uma tarde num campinho de terra batida de Vila Fiorito, onde apareceu por acaso um homem de sobretudo com uma caderneta na mão.
Um homem que em menos de duas décadas ia ser o responsável pela primeira grande queda do Diego. Vamos. Março de 1969, Vila Fiorito, campinho de terra batida ao fundo do bairro. Uma pelada entre miúdos de 8 e 9 anos. O Diego, 8 anos recém completos, jogava descalço, sem chuteiras, dado para ele. Nas bancadas improvisadas, sentados em caixotes de fruta roubados do mercado do bairro, tinha cerca de 40 pais e vizinhos.
E, separado do resto, um homem vestido diferente. Calças cinzentas, camisa branca, sobretudo escuro sobre o ombro, óculos escuros e uma caderneta de couro preto na mão esquerda. O homem chamava-se Francisco Cornejo e naquele momento era o olheiro do clube Argentinos Juniors. Tinha descido até Vila Fiorito, atrás do boato de um miúdo de 12 anos que os dirigentes do clube tinham indicado para ele. Viu um miúdo de 12 anos jogar.
Não o impressionou. Estava prestes a para ir embora do campinho quando, durante o segundo tempo da pelada, o pequeno Diego, de 8 anos, descalço e com a t-shirt furada, recebeu a bola a 30 m do golo. avançou, driblou três defesas 10 anos mais velhos, driblou o guarda-redes da equipa adversária e antes que a bola tocasse a terra do Campinho, chutou para o golo.
Com a perna esquerda golo! O cornejo ficou sentado no caixote da fruta, sem mexer, sem dizer nada. Durante 15 minutos seguidos, viu o Diego jogar mais sete vezes no resto do jogo. Quatro golos, três assistências e o mais importante, segundo contou o próprio Cornejo 40 anos depois, numa entrevista pro jornalista argentino Pablo Carrosa. O que mais o impressionou não foram os golos, foi outra coisa.
Foi o modo do pequeno Diego a olhar para a bola, um jeito de olhar que o olheiro tinha visto apenas uma vez em toda a sua carreira. Num jogo do Brasil contra a Suécia do ano de 1958, na cara de um miúdo negro de 17 anos que se chamava Pelé, o cornejo desceu do caixote no final do jogo. Cam uma pergunta de seis palavras.
As mesmas seis palavras que o próprio cornejo repetiu naquela entrevista ao Carrosa do ano 2009. O cornejo perguntou ao pequeno Diego: “Queres ser jogador de futebol, PIB?” “Quer ser jogador de futebol, Pibe?” O Diego, de 8 anos, descalço, olhou para ele durante 10 segundos [música] sem responder. Depois olhou para o céu de Vila Fiorito.
Depois olhou de novo para o olheiro e respondeu segundo o próprio cornejo, com três palavras que iam marcar o destino do futebol argentino para sempre. As três palavras do Diego foram: Eu já sou, eu já sou. O corjo riu-se tirou da caderneta de couro preto uma folha em branco, anotou nela o endereço do Argentinos Juniors, disse ao miúdo para aparecer na segunda-feira seguinte, às 15 horas, com um dos progenitores.
O Diego apareceu na segunda seguinte, mas não com um dos progenitores. Apareceu com a mãe, com a dona Tota, a mãe desnutrida, a mãe que não comia, a mãe que ia entregar ao olheiro o filho mais talentoso do futebol argentino do século XX. E naquela tarde de Março de 1969, no escritório improvisado do Argentinos Juniores, a dona Tota assinou o primeiro contrato profissional da vida do pequeno Diego, sem saber ler as letras miudinhas do contrato, sem advogado, sem assessor, só com a promessa verbal do batedor de que iam cuidar do miúdo como se fosse da
família. Uma promessa que se cumpriu durante 6 anos e que se rompeu sem ninguém se aperceber numa data específica de 1975, quando apareceu na vida do Diego uma pessoa que ia [música] controlar cada decisão pessoal do PIB de ouro durante os 45 anos seguintes, uma pessoa cujo nome, nos últimos seis meses de vida do Diego apareceu nos jornais argentinos mais vezes do que o de qualquer médico.
Mas a este homem chegamos em poucos minutos. Antes, outra coisa, o Diego, 12 anos, era já uma figura nacional argentina. Aparecia na televisão nacional fazendo embaixadinhas com a bola durante o intervalo dos jogos profissionais. 5.000, 10.000, 15.000 1 toques sem que o bola caísse no chão.
Os argentinos não acreditavam que um miúdo de 12 anos fizesse aquilo. Mas o Diego não jogava por dinheiro, jogava para tirar a mãe de Vila Fiorito. E aquela obsessão, aquela dívida para com uma mulher que tinha perdido 10 kg por ele em 1966 foi o motor de toda a carreira do Diego e também o início silencioso da destruição.
Aos 15 anos, o Maradona estreou-se no time profissional do Argentinos Juniores. 10 dias antes de completar 16, um jogo contra os Talheres de Córdoba no estádio do bairro La Paternal de Buenos Aires. O Diego entrou no segundo tempo, encostou a bola cinco vezes, cinco, três dribles a defesas 10 anos mais velhos, uma assistência perfeita de perna esquerda e uma livre que bateu no travessão do golo adversário.
Os adeptos se levantaram-se dos lugares. Os jornalistas Os argentinos não entendiam o que estavam vendo em campo. O César Luiz Menotti, selecionador da seleção argentina naquele momento, falou duas semanas depois uma frase que se tornou histórica no futebol mundial. [música] O Menot falou: “Este PIB vai ser o melhor jogador que o mundo vai ver nunca”.
Estava certo, mas também, sem o saber, estava a prever uma tragédia. Entre 1976 e 1981, o Diego esteve cinco temporadas no Argentinos Juniors, marcou 116 golos oficiais, foi o melhor marcador do campeonato metropolitano três vezes seguidas e assinou em Fevereiro de 1981 o contrato mais caro do futebol argentino até nessa época com o Boca Juniors, 1.400.000.
Nessa época de 81, o Diego ganhou o campeonato argentino com o Boca e a imprensa europeia já falava do miúdo de Vila Fiorito como o sucessor natural do Pelé. Mas o título argentino do 81 não foi o mais importante daquela temporada. O mais importante aconteceu numa festa particular de um empresário portenho do bairro da Recoleta de Buenos Aires.
Uma festa em que o Diego participou pela primeira vez em março no ano 81. Uma festa onde apareceu apresentado por um amigo do meio envolvente do Diego, um homem que ia controlar a vida pessoal do PIB de ouro durante as quatro décadas seguintes. Um homem que em maio do ano 2020, 6 meses antes da morte do Maradona em Tigre, tinha assinado os documentos que autorizaram o internamento domiciliário do Diego naquela casa alugada do country San Andrés.
A hospitalização que ia terminar, segundo os sete Os profissionais de saúde que estão a ser julgados agora mesmo na Argentina por homicídio simples com dolo eventual, na morte solitária do melhor jogador do mundo, vamos chegar a esse homem. Porque a história toda do Diego daquela festa de Março do ano 81 até ao cama desfeita de tigre do 25 de novembro de 2020 gira em torno de uma única figura.
Uma figura que a justiça argentina até hoje continua investigando. Mas antes de chegar a essa cama desfeita do bairro do Tigre de 25 de novembro do ano 2020, há uma coisa mais que precisa de entender. Uma coisa que a maioria dos jornalistas argentinos esqueceu-se de incluir nas reportagens da morte do Diego.
Uma coisa que aconteceu 11 anos antes daquele domingo de tigre. Uma coisa que aconteceu numa praia de luxo do Uruguai [música] em janeiro do ano 2000, quando o PIB do ouro, de 39 anos, já retirado do futebol profissional, já divorciado da Cláudia Vilafan, já com a fortuna quase inteira consumida em excessos pessoais e noites sem dormir, quase morreu pela primeira vez. Vamos.
4 de janeiro do ano 2000, Punta de Oeste, Uruguai. Resorte de luxo mantra, suí presidencial do sétimo andar. Vista pro Oceano Atlântico. O Diego Armando Maradona, 39 anos acabados de completar, tinha viajou para o Uruguai três dias antes com um grupo de amigos dos arredores argentinos. A ideia era passar o feriado de Ano Novo na praia, descansar, apanhar sol e, principalmente, segundo contou depois um dos amigos numa entrevista ao jornal Argentino Clarim do ano 2003, ajudar o Diego a sair da sequência de excessos
pessoais que arrastava desde a aposentação do futebol profissional em 1997. O Diego, de 39 anos, chegou ao Resort Mantra, com 12 kg acima do peso ideal, com pressão arterial elevada, com um coração que já, segundo o último exame médico que tinha feito em Buenos Aires antes da viagem, mostrava o primeiro sinal de cardiomiopatia dilatada, a doença que 30 anos depois ia terminar com a sua vida em Tigre.
Mas o Diego, segundo contou o próprio amigo naquela entrevista ao Clarim, ignorou os avisos médicos e durante os primeiros três dias do ano 2000 misturaram substâncias proibidas com medicamentos para pressão arterial e com quantidades consideráveis de álcool importado. Na noite do dia 4 de janeiro, por volta das 10 da noite, o PIB de ouro entrou num quarto ao lado da suí presidencial.
pediu para o deixarem sozinho, trancou a porta e durante os 75 minutos seguintes misturou cinco substâncias químicos diferentes no organismo, sozinho, sem testemunhas, sem médicos, sem ninguém do meio envolvente conferindo o que estava a acontecer. Às 23h45 da noite, um dos amigos do Diego, preocupado com o silêncio dentro do quarto ao lado, abriu a porta sem esperar pela autorização.
Encontrou o PIB de ouro no chão do quarto. consciente, com a cara roxa, com os olhos abertos, sem pulso aparente e com uma mancha de espuma branca a sair pela boca. O amigo gritou. Outros três amigos entraram no quarto, chamaram o ambulância do resort, tentaram reanimar o Diego no chão do quarto. Impossível.
O PIB de ouro estava em coma profundo. A ambulância do Hospital Cantegril de Punta de Oeste chegou às 12h10 da madrugada do dia 5 de janeiro do ano 2000. Os paramédicos uruguaios fizeram reanimação cardiopulmonar durante 20 minutos no chão. Botaram-lhe oxigénio, injectaram adrenalina e às 12:30 da madrugada conseguiram recuperar o pulso.
Levaram o Diego de emergência para o Hospital Cantril, ligaram-no no respirador artificial e durante as 5 horas seguintes, os médicos uruguaios lutaram para manter vivo o melhor jogador do mundo. Às 5:40 da manhã do 5 de janeiro, o diretor médico do Hospital Cantegril, o Dr. Rafael Lemos, saiu para sala de espera, onde se encontravam os quatro amigos do Diego, três jornalistas argentinos que tinham chegado desde Punta Deleste durante a noite, e o mais importante, o homem da recoleta que tinha aparecido na vida do Diego 20 anos
antes naquela festa particular do bairro Recoleta. O Dr. Lemos olhou para o homem da Recoleta durante 5 segundos e falou seis palavras para ele, as mesmas seis palavras que apareceram citadas na crónica do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, publicada três meses depois no jornal Brecha de Montevidel. O Dr.
Lemos falou: “Sobreviveu, mas por pouco tempo sobreviveu.” Mas por pouco tempo, o Maradona ficou 12 dias no Hospital Cantegril de Punta de Oeste, 12 dias em coma induzido, 12 dias ligado no respirador artificial, 12 dias em que a família Dona Tota, Cláudia Vilafan, as filhas Dalma e Gianina, viajaram de Buenos Aires para o Uruguai para acompanhar o PIB do ouro, nesse que parecia, segundo os médicos uruguaios, o último momento da vida dele.
Mas o coração destruído do Diego, contra todas as previsões médicas, aguentou. E no dia 15 de janeiro do ano 2000, o PIB do ouro recuperou a consciência. A primeira coisa que o Diego falou ao recuperar a consciência, segundo contou a própria dona Tota numa entrevista ao programa argentino Mirta Legran do ano 2002, foram três palavras. Três palavras que iam marcar o resto da vida do PIB de ouro.
O Diego falou ainda com a voz entrecortada pelo respirador artificial. Quero a mamã. Quero a mamã. E a dona Tota, a mãe desnutrida de Vila Fiorito, a mulher que tinha perdeu 10 kg em 1966 por amor aos filhos, aproximou-se da cama do PIB de ouro, pegou na mão esquerda dele, beijou-lhe a testa e falou-lhe, segundo a própria entrevista, uma única frase, uma frase de cinco palavras.
A frase foi: “Estou aqui, meu amor. Estou aqui, meu amor.” Aquela cena, segundo contou a Mirta Lran anos depois numa outra entrevista, foi o último momento de verdadeira paz entre o Diego e a dona Tota, porque 13 anos depois, em novembro do ano 2011, a dona A Tota ia morrer. E o Diego, que estava naquele momento a dirigir uma equipa de futebol nos Emirados Árabes Unidos, não chegou a tempo ao velório em Buenos Aires.
E aquela ausência, segundo contou o Diego numa entrevista para o programa Estúdio Foball do ano 2015, foi uma culpa que carregou até ao último dia da sua vida em Tigre. Mas o coma de Punta de Leste do ano 2000 não foi o pior castigo do PIB de ouro. Teve uma coisa pior, uma coisa mais antiga, uma coisa mais dolorosa. Uma história que iniciou-se 15 anos antes da madrugada do 5 de Janeiro do ano 2000 numa cidade italiana específica com uma mulher italiana específica e com o filho que o Diego negou durante 31 anos seguidos.
Vamos. 1984. O Diego Maradona, 24 anos recém completos, tinha sido transferido do Barcelona para o Napoli por uma cifra recorde naquele momento. 13 milhões de dólares, a transferência mais cara da história do futebol mundial. O Diogo assinou contrato por sete temporadas com o clube italiano e instalou-se com a mulher Cláudia Vilafan e a filha mais velha Dalma de Meses, numa mansão do bairro elegante Posilipo de Nápolis.
Mas a vida pública do PIB de ouro como ídolo absoluto de Nápolis escondia, segundo contaram vários biógrafos italianos nos anos posteriores, uma vida secreta, intensa, uma vida que incluía. Segundo as próprias palavras do Diego numa entrevista à Rede italiana Média 7 do ano 2017, as mulheres que apareciam nos hotéis onde a concentração do Napoli ficava hospedada antes dos jogos.
Uma dessas mulheres chamava-se Cristiana Sinagra, uma jovem napolitana de 22 anos, estudante universitária, bonita, inteligente e segundo os registos oficiais do Hospital Cardarelli de Nápolis, grávida do Diego desde Outubro do ano de 1985. No dia 20 de setembro do ano de 1986, 9 meses depois daquele encontro privado num hotel de Nápolis, a Cristiana Sinagra deu à luz um rapaz no Hospital Cardarelli. Pesou 3,400 ao nascer.
Botou nele um nome específico, pôs o nome Diego, Diego Armando Sinagra. E na lacuna do pai da certidão de nascimento, escreveu três palavras. Três palavras que iam desencadear 31 anos de processos judiciais, escândalos públicos e silêncios carregados de dor. As três palavras que a Cristiana Sinagra escreveu na certidão foram: Diego Armando Maradona.
Diogo Armando Maradona. Mas o PIB do ouro, casado com a Cláudia Vilafan, desde novembro de 1984, pai legítimo da pequena Dalma de 1 ano e médio, ídolo absoluto do Nápoles e da Argentina, fez nesse mês de Setembro de 86 uma coisa que ia marcar a vida do Diego Júnior durante as três décadas seguintes.
O Diego Senior reuniu com os advogados do Nápoles num escritório do bairro Posilipo. assinou uma declaração juramentada onde negava todo o contacto íntimo com a Cristiana Sinagra e não reconheceu oficialmente o pequeno Diego Júnior sem o ter conhecido nunca, sem tê-lo abraçado nunca, sem ter olhado para a cara dele uma única vez.
A Cristiana Sinagra, sozinha, sem ajuda económica, sem reconhecimento legal do pai, criou o pequeno Diego Júnior durante os 14 anos seguintes. Morava num apartamento modesto do bairro do Vomero de Nápolis. trabalhava como secretária numa empresa local e cada vez que o Napoli jogava em casa no estádio de São Paulo, levava o pequeno Diego Júnior para as bancadas para que o miúdo visse de longe, sem saber que era o pai, o Pibe de Ouro marcar golos impossíveis.
O pequeno Diego Júnior, segundo contou mesmo anos depois, numa entrevista pro jornal italiano Corrier e Deaceira do ano de 2018, soube que o seu pai era o Maradona aos 7 anos. A mãe Cristiana falou-lhe a verdade num domingo de novembro do ano de 1993. Mostrou-lhe fotos do Diego, explicou porque tinha o mesmo nome.
Disse-lhe que o pai, por motivos pessoais complexos, não conseguia reconhecê-lo oficialmente, mas que algum dia, segundo prometeu a mãe pro pequeno Diego Júnior, iam conseguir estar juntos. Aquele dia só chegou ao ano 2016, 31 anos após o nascimento do miúdo no hospital Cardarelli. Quando Diego Júnior, já com 30 anos, casado com dois filhos próprios, conseguiu, depois de seis processos judiciais diferentes nos tribunais italianos, uma ordem judicial que obrigava o PIB de Ouro a fazer o teste de ADN.
O exame feito numa clínica privada do bairro Recoleta de Buenos Aires, em Março do ano 2016, confirmou o que o mundo inteiro tinha suspeitado durante 30 anos, 99,99% de probabilidade. O Diego Armando Sinagra, de 30 anos, era o filho biológico do PIB de ouro e o Maradona, pai legítimo desde 1986, tinha negado o miúdo durante três décadas inteiras.
Mas a notícia do ADN não se ficou por aqui. O que aconteceu três meses depois, em junho do ano de 2016, surpreendeu a imprensa italiana inteira. O Diogo Siior, de 65 anos, deslocou-se a Anápolis, pediu uma reunião privada com o Cristiana Sinagra e com o Diego Júnior. E num restaurante do bairro Posilipo almoçou com o filho que tinha negado durante 31 anos e com a mãe do filho.
A Cristiana, segundo contaram os Os jornalistas italianos que cobriram o encontro, chorou durante a refeição inteira. O Diego Júnior, segundo declarou anos depois ao jornal italiano La República do ano 2021, recebeu nessa tarde o pai dele com uma única frase, uma frase de seis palavras que o PIB de Ouro repetiu numa entrevista pro programa argentino Animales Sueltos do ano 2017.
O Diego Júnior disse ao Diego Sior: “3 anos são muitos, papá. 31 anos são muitos, papá.” O PIB do ouro, 65 anos, não respondeu. Levantou-se da cadeira do restaurante, abraçou o filho durante dois minutos inteiros e chorou no ombro do miúdo italiano que carregava o mesmo nome dele, o mesmo nome que ele tinha negado durante três décadas.
Mas a reconciliação de junho do ano 2016 não foi completa. O Diego Júnior continuou pedindo ao pai durante os 4 anos seguintes duas coisas concretas. A primeira, conhecer as irmãs argentinas, a Dalma e a Gianina. A segunda, ser reconhecido oficialmente como herdeiro legítimo. Mas o PIB do ouro, segundo contaram depois os advogados das redondezas do Diego, [a música] evitou as duas coisas durante os 4 anos seguintes, até novembro do ano 2020, quando o Diego Júnior ficou a saber pelas notícias italianas que o pai tinha sido operado
por um hematoma subdural numa clínica de Buenos Aires, o Diego Júnior ligou para Argentina por quatro vezes no 5 de novembro de 2020. Nenhuma das chamadas foi atendida. E 20 dias depois, no 25 de novembro do ano 2020, o Diego Júnior soube pelas notícias italianas da morte do pai numa cama desfeita de uma casa alugada do bairro do Tigre, sem ter conseguido despedir-se, sem ter Conseguiu dizer ao pai as duas palavras que carregava 34 anos querendo falar.
As duas palavras [música] que apareceram numa entrevista que o Diego Júnior deu ao jornal italiano La Gazeta delo Esport três dias depois da morte do pai. As duas palavras do miúdo italiano foram: “Perdoo-te. Perdoo-te”, mas o pai já não conseguia escutar. O pai, naquele momento do dia 25 de novembro de 2020, estava a ser levado do bairro do Tigre pro necrotério judicial do Hospital de San Fernando paraa autópsia oficial.
uma autópsia que ia revelar duas coisas que nenhuma televisão argentina teve a coragem de publicar durante os 5 anos seguintes. A gente vai chegar a estas duas coisas, porque as duas coisas que a autópsia oficial do PIB de Ouro revelou nessa tarde do dia 25 de novembro de 2020 são a chave da história inteira do Diego. Mas a negação do filho italiano durante 31 anos não foi o pior pecado do PIB de ouro.
Teve uma coisa pior, uma coisa que aconteceu 5 anos depois do coma do Uruguai. Uma coisa que aconteceu numa casa da Avenida Segurola do bairro Devoto de Buenos Aires, uma tarde comum do ano 2005, quando o Diego, já com 45 anos, já com 4 anos depois daquele coma de Punta de Oeste, já sem a fortuna que tinha acumulado em 40 anos de carreira profissional, recebeu um homem específico na casa.
Um homem que ia controlar cada decisão pessoal do PIB de Ouro durante os 15 anos seguintes. [música] O mesmo homem que assinou em maio do ano 2020 os documentos que autorizaram o internamento domiciliário do Diego naquela casa alugada do Country San Andres. A hospitalização que terminou seis meses depois na morte solitária do PIB de ouro.
[música] Vamos. Porque hoje vai saber porque o Maradona não morreu naquela cama desfeita do dia 25 de novembro de 2020. deixaram-no morrer e ainda hoje, 5 anos depois, ninguém foi condenado. 25 de novembro do ano 2020, casa do país San Andrês, bairro do Tigre, província de Buenos Aires, 10h50 da manhã. O Diogo Armando Maradona, de 60 anos, estava há 11 dias internado naquela casa alugada.
11 dias numa hospitalização domiciliária que a equipa médica encabeçada pelo neurocirurgião Leopoldo Luke e pela A psiquiatra Agostina Kachov tinha autorizado três dias depois da cirurgia cerebral do 3 de Novembro uma cirurgia para tirar um hematoma subdural do lado esquerdo do cérebro uma cirurgia que segundo os peritos médicos argentinos consultados durante o julgamento que iniciou-se em março do ano 2025 não tinha sido seguida do protocolo de recuperação adequado.
Às 11:18 daquela manhã do dia 25 de novembro de 2020, segundo o relatório oficial da autópsia do PIB de Ouro, são as 11 horas mais polémicas do futebol argentino moderno. 11 horas em que o Diego Maradona, segundo os sete Os profissionais de saúde que estão a ser julgados agora mesmo por homicídio simples, com dolo eventual, deveria ter estado sob vigilância médica permanente.
11 horas em que, segundo os mesmos sete profissionais, o Diego ficou sozinho, sem enfermeira ao lado, sem médico perto, sem oxigénio disponível, sem desfibrilhador à mão, sem telefone carregado. Às 11h19 da manhã, o enfermeira do turno da noite, a Gisela Madrid, saiu do quarto do Diego depois de lhe aplicar a medicação matinal.
fechou a porta, saiu para o quintal da casa e, segundo declarou ela própria no julgamento, não voltou a entrar no quarto durante as 2 horas seguintes. A enfermeira do turno da manhã, a da Rihanana Madrid, não apareceu nesse dia no trabalho e o substituto designado pela empresa de saúde domiciliária, segundo os registos telefónicos publicados durante o julgamento, chegou em casa do tigre às 12:35 da tarde, 1:16 depois do Diego ter ficado sozinho.
Às 11:42 da manhã, segundo o relatório oficial da autópsia, o coração do PIB de ouro entrou em arritmia ventricular grave, o coração que pesava 500 g, o dobro do normal, o coração destruído durante décadas de excessos pessoais e noites sem dormir, o coração que tinha aguentado o coma do ano 2000 em Punta de Leste.
O coração que tinha chorado pela mãe subnutrida de Vila Fiorito, o coração que tinha abraçado o filho italiano negado durante 31 anos. Aquele coração às 11:42 da manhã do dia 25 de novembro de 2020 deixou de bater. Às 12:16 do meio-dia, 34 minutos após a arritmia mortal, a enfermeira Gisela Madrid voltou ao quarto do Diego.
Encontrou ele na cama desfeita, de barriga para cima, os olhos abertos, a pele pálida, a boca entreaberta, sem pulso, sem respiração, sem movimento. Diego Armando Maradona, o melhor jogador do século XX, tinha morreu sozinho numa casa alugada do bairro do Tigre. E aqui, segundo os sete Os profissionais de saúde que estão a ser julgados agora mesmo na Argentina, está a primeira coisa que a autópsia oficial revelou, uma coisa que nenhuma televisão argentina teve a coragem de publicar durante 5 anos e que só apareceu na causa judicial pública em março do ano
- A primeira coisa foi essa. O coração do PIB de ouro quando entrou em arritmia ventricular grave às 11:42 da manhã do 25 de novembro de 2020 poderia ter sido reanimado se tivesse tido um médico do lado, se tivesse tido oxigénio disponível, se tivesse tido um desfibrilhador à mão, se a enfermeira não tivesse saído para o quintal, se o substituto designado tivesse chegado a tempo, o PIB de ouro não morreu de morte natural, morreu por abandono médico.
E os sete profissionais que assinaram o autorização da hospitalização domiciliária em maio do ano 2020 sabiam, segundo os peritos médicos consultados durante o julgamento, que o pessoal do Diego exigia uma unidade de tratamento intensivo profissional. Não uma casa alugada do Country San Andrés, e não uma enfermeira do turno noturno que saía para fumar no quintal, não uma equipa médica que não atendia as chamadas do Diego durante a madrugada.
A segunda coisa que a autópsia oficial revelou é ainda mais sombria. Segundo o exame toxicológico realizado pelo perito bioquímico Ezequiel Ventose, as amostras de sangue, urina e saliva do PIB de ouro foram analisadas em quatro tubos diferentes. E contra todas as expectativas da imprensa argentina, os quatro tubos deram resultado negativo.
Negativo paraa cocaína, negativo para canábis, negativo para éxtase, negativo para anfetaminas. Negativo para álcool. O PIB de ouro, nas 24 horas antes de morrer, não tinha consumido uma única substância proibida. Diego Armando Maradona, o homem que a A imprensa argentina tinha acusado durante 40 anos de ser vítima dos próprios excessos pessoais, morreu limpo, sem drogas, sem álcool, sem nada, apenas com os efeitos acumulados de décadas anteriores e com o coração destruído que necessitava, segundo os peritos médicos argentinos, cuidados médicos permanentes
que naquela manhã do dia 25 de novembro de 2020 simplesmente não existiu. Mataram ele, deixaram-no morrer. E segundo a investigação judicial, que começou em [música] março do ano 2025 e ainda não terminou, os responsáveis são os sete profissionais de saúde que assinaram o autorização da hospitalização domiciliária e, principalmente, o homem da Recoleta, o homem que apareceu na vida do Diego em 1981, o homem que controlou as decisões pessoais do PIB do ouro durante 40 anos seguidos. O homem que decidiu em Maio do
ano 2020 que o melhor jogador do mundo ia recuperar de uma cirurgia cerebral numa casa alugada de tigre em vez de uma unidade de tratamento intensivo profissional. Este homem até hoje não foi condenado e segundo os advogados da A família do Diego, provavelmente nunca vai ser. Hoje, nesse mesmo momento, enquanto te conto esta história, o Diego Armando Maradona está há 5 anos morto, sepultado no cemitério do Jardim Bela Vista, do bairro da Bela Vista de Buenos Aires, num túmulo simples de mármore branco, sem epitáfio, sem
[música] estátua, sem nada, apenas o nome: Diego Armando Maradona. 30 de outubro de 1960, 25 de novembro do ano 2020. Mas a história do PIB de Ouro não terminou naquela cama desfeita do 25 de Novembro de 2020. A história continua nos tribunais argentinos, nos processos judiciais contra os sete profissionais da saúde, nos recursos que os advogados da família apresentaram em fevereiro do ano de 2026.
Nas entrevistas que o Diego Júnior, hoje com 39 anos, continua a dar para imprensa italiana cada vez que um juiz argentino dita uma resolução sobre o caso do pai. E nas palavras da dona Tota, já falecido há 15 anos, que o PIB de ouro repetiu em cada entrevista que deu durante os últimos anos da sua vida. Uma mãe nunca tem fome, meu amor.
Essas sete palavras da dona Tota, ditas numa cozinha de um bairro de classe média de Buenos Aires numa tarde de 1982, são a única coisa que o Diego deixou como herança verdadeira para o filho italiano de Nápolis, pro filho argentino de Buenos Aires, para a filha mais velha Dalma, à filha mais nova Gianina, pros netos que o PIB de ouro nunca conseguiu ver crescer e pros 40 milhões de argentinos que nesse dia 25 de novembro de 2020 saíram à rua para chorar o melhor jogador do século XX.
Uma mãe nunca tem fome, meu amor. E o Diego, segundo contou a própria filha Dalma numa entrevista para o programa Argentino Telenoche do ano 2022, repetiu aquelas sete palavras da dona Tota toda a noite durante os últimos seis meses de vida dele. sentado na cama da casa alugada do Country San Andrés antes de dormir, com os olhos fechados, como se rezasse, como se esperasse naquele último troço da vida adulta [música] que a mãe desnutrida de Vila Fiorito voltasse a aparecer no quarto para o alimentar, para o abraçar, para devolver para
ele, pela última vez os 10 kg que ela tinha perdido por amor em 1966. Não voltou. A dona Tota tinha morrido 13 anos antes e o Diego, o PIB de ouro, o melhor jogador do século XX, morreu sozinho numa cama desfeita, numa casa arrendada do bairro do Tigre, sem a mãe do lado, sem o filho italiano ao lado, sem ninguém ao lado, apenas com o coração destruído que pesava 500 g, e com a culpa silenciosa que tinha carregado durante 60 anos seguidos, a culpa de não ter conseguido devolver com dinheiro os 10 kg que a mãe tinha perdido. por amor
não conseguia. O Diego tentou a vida inteiro e naquela tarde do 25 de novembro de 2020, deixou finalmente de tentar. Se esta história te tocou em alguma fibra, se o fez pensar em alguém da própria vida que tenha pago um preço injusto pelas decisões dos outros, liga nessa mesma noite. Não amanhã, não próximo fim de semana, hoje, porque há milhões de Diegos no mundo.
Homens que travaram batalhas que ninguém viu. Homens que carregaram culpas que ninguém entendeu. Homens que terminaram depois de tudo sozinhos numa cama desfeita de uma casa arrendada. [música] Liga ao teu pai, ao teu irmão, ao teu filho, para o teu amigo de juventude. Liga para essa pessoa que também em algum momento da vida deixou-lhe um sacrifício silencioso que nunca conseguiu devolver.
Liga enquanto ainda dá tempo, subscreve o canal, porque na próxima semana vamos contar a história do avançado paraguaio, que levou dois tiros na cabeça dentro de uma discoteca da cidade do México numa noite do ano 2010 e que até hoje, 16 anos depois, continua à procura da pessoa que apertou o gatilho. O seu nome é Salvador Cabanhas.
E a verdade sobre aquela noite do barbar de Polanco vai doer-te mais do que a do PIB de ouro.