RONALDINHO: A VERDADE VEIO À TONA

RONALDINHO: A VERDADE VEIO À TONA

97 golos pelo Barcelona, ​​2004 e 2005, eleito o melhor jogador do mundo. A imagem mais alegre do futebol mundial, o sorriso que conquistou um planeta inteiro. E esse mesmo sorriso, 20 anos depois daquela cerimónia da bola de ouro na Suíça, numa cadeia de máxima segurança paraguaia, rodeado de homens condenados por tráfico, rapto e homicídio, com um passaporte falsificado dentro do bolso que tinha rubricado sem sequer abrir a primeira página.

5 meses e meio, 173 dias e a recompensa por uma carreira inteira de mágicas no Campinou, uma conta bancária com saldo de R$ 6. Seis. O recordista de troféus brasileiro do século XX. 20 anos depois desse auge, sem sequer desconfiar do motivo, mas o Ronaldinho não foi vítima do destino, foi vítima de alguém. Alguém que dormia debaixo do mesmo tecto que ele desde criança.

 Alguém que controlou cada euro, cada dólar, cada centavo da fortuna do génio durante duas décadas inteiras. Alguém cujo nome a A imprensa brasileira teve medo de imprimir nas capas dos jornais até esse vídeo. Mas para que compreenda como o melhor do mundo tornou-se prisioneiro com R$ 6 no banco, precisamos de recuar três décadas.

 Para uma casinha de Operário no Morro de Porto Alegre, para uma piscina redonda de plástico azul comprada no camelot, para uma tarde quente de fevereiro do ano de 1989. E para um menino de 8 anos, que naquele noite, diante do corpo do pai morto, tomou uma decisão silenciosa, uma decisão que ia destruir a vida adulta dele quatro décadas mais tarde.

 Porto Alegre, capital gaúcha do Rio Grande do Sul, 21 de março de 1980. Foi nesse dia que veio ao mundo o Ronaldo de Assis Moreira. O mais novo, entre três irmãos, o pai, o senhor João, tinha defendido as cores do Esport Clube Cruzeiro a partir de Porto Alegre. Mas já não estava nos relvados. Trabalhava como soldador numa indústria, 12 horas por dia, soldando sem parar.

 A mãe, a dona Miguelina, vendia coisas na rua de manhã e à noite frequentava enfermagem. Estudava em silêncio, com o caderno apoiado no colo, enquanto os três meninos dormiam. O filho mais velho, o Roberto, já tinha 14 anos completos quando Li Ronaldinho chegou ao mundo. E aqui começa a história que a família guardou em segredo durante quatro décadas.

O Roberto, conhecido no meio do futebol como Assis, não foi apenas um irmão, foi pai, foi empresário, foi confidente. E como a própria dona Miguelina admitiu numa curta entrevista à revista Placar no ano de 2018, foi também outra coisa, uma coisa que o Ronaldinho nunca conseguiu engolir, uma coisa que a família escondeu até que não dava mais.

 Mas antes do Roberto Assis, vem o pai, o senhor João, o soldador, o homem calado, de sorriso fácil, o homem que ensinou ao pequeno Ronaldinho a sorrir sempre, mesmo doendo. Acontecesse o que acontecesse. E a gente vai chegar ao motivo, tem uma fotografia tirada no ano de 1987. O senhor João, de 39 anos, no fundo do quintal da Casa Modesta de Porto Alegre.

está sem camisola de calções surrados, sentado à beira de uma piscininha redonda de plástico azul que tinha armado no verão anterior para os filhos. Em cima das pernas, o Ronaldinho com 6 anos a rir. No peito do senhor João, uma foto antiga do Cruzeiro de Porto Alegre que tinha colado com fita den adesiva. Era uma brincadeira que ele fazia.

Dizia ao filho: “Olha, o pai jogou no Cruzeiro, viu?” E o menino caía na gargalhada de cada vez. Esta foto a dona Miguelina conserva até hoje, porque dois anos depois, nesse mesma piscina, o senhor João ia morrer. 22 de fevereiro do ano de 1989, o Ronaldinho tinha 8 anos completos. A piscina continuava a ser a mesma.

O dia tinha começado calmo. O seu O João, de 37 [música] anos, tinha chegado do serviço ainda com manchas de gracha de soldador no antebraço. Quis dar um mergulho rápido na piscina antes de comer. Foi para o quintal, mergulhou e nunca mais voltou. Um ataque cardíaco fulminante caiu de cara dentro de água.

 A piscina tinha apenas 1 m de profundidade, mas 1 metro foi mais do que suficiente. Quem encontrou foi o próprio Ronaldinho. 8 anos. Saiu da sala porque a mãe tinha pedido para ele chamar o pai para jantar. Avistou o corpo a flutuar de bruços, berrou. A mãe correu para baixo. O irmão Roberto, já com 22, tirou o corpo da água.

 Tentaram fazer respiração boca para boca. Acionaram a ambulância. Não adiantou nada. O senhor João já estava morto mesmo antes de embater no fundo da piscina rasa. E aqui surge o primeiro pormenor que quase ninguém costuma destacar. Nessa noite mesmo, enquanto os vizinhos enchiam a salinha para apertada, enquanto os irmãos não paravam de chorar, enquanto a mãe Miguelina, viúva aos 33 anos, com três rapazes para criar, não conseguia sequer levantar-se do sofá.

O pequeno Ronaldinho fez uma coisa que ninguém tinha presenciado antes num miúdo de 8 anos. Saltou da cama do quartinho onde o tinham deixado. Desceu a escada lentamente. chegou perto do corpo do pai, que estava deitado numa mesa, coberto por um lençol branco, e começou a sorrir. Sorria, coxixava coisas para o pai morto, conversava com ele como se nada tivesse acontecido.

 A tia Lurdes, que era irmã do pai e que estava do lado do corpo, presenciou tudo. Perguntou ao sobrinho: “O meu filho, porque é que estás a sorrir?” O Ronaldinho devolveu com cinco palavras. Cinco palavras que iam marcar o miúdo até ao último segundo da carreira no futebol. Se eu chorar, o papá chora. Se eu chorar, o papá chora. 8 anos de vida.

Esta frase, este raciocínio virou a origem do sorriso eterno do Ronaldinho. O sorriso que o ia conquistar duas Taças do Mundo. O sorriso que ia fazer o Brasil inteiro sorrir junto. O sorriso que ia ser apontado como a imagem mais feliz do futebol mundial. Esse sorriso nasceu numa salinha humilde do Porto Alegre, perante o corpo de um pai morto no interior da cabeça de um menino de 8 anos, que decidiu que chorar era um ato egoísta.

Imagina ser um miúdo de 8 anos definindo uma coisa destas. Imagina sustentar esse sorriso durante quatro décadas seguidas. [música] O Ronaldinho carregou e o que veio a seguir foi pior ainda. 15 dias depois do velório, a dona Miguelina fez uma promessa. Fez ela sozinha dentro do quarto onde tinha dormido com o senhor João durante 15 anos seguidos.

 Era uma promessa dirigida ao marido morto e só veio a público numa entrevista que ela concedido em 2018. As palavras exatas, se eu segundo a memória dela, foram estas: “João, prometo-te que vou criar os três meninos, mas do mais novo, do Ronaldinho, prometo que vou cuidar como se ele fosse tudo, como se ele fosse o universo.

 Não vai faltar nada para este menino e o Roberto vai estar do lado dele. O Roberto, que é o mais velho, vai ser o pai que ele acabou de perder. O Roberto vai ser o pai. Essa resolução, essa promessa, esse fardo que a Miguelina depositou nos ombros do filho de 22 anos tornou-se a segunda base da tragédia inteira que ainda estava por vir.

 O Roberto, conhecido por Assis, aceitou, aceitou tudo, cuidou do irmão Caçula, levou-o para os campinhos de futebol, pagou os uniformes, treinou com ele no quintal de casa nas tardes, comprava as chuteiras novas, falava sobre o pai morto, contava-lhe história histórias [música] antigas do Cruzeiro a partir de Porto Alegre. Mas enquanto o Ronaldinho subia rapidíssimo, na vida dele tinha alguém a observá-lo de longe.

 Uma figura que em poucos anos ia aparecer e deixar marca para sempre. Um empresário brasileiro com ligações em pequenos bancos de Andorra. Um nome que nunca saiu nas manchetes da forma que devia ter saído e a gente chega a ele em menos de 5 minutos. O Ronaldinho descobriu a bola aos 5 anos de idade, mas aos oito já não jogava futebol comum, jogava futsal.

Cinco contra cinco, piso apertado, ritmo intenso e foi aí que aprendeu tudo. As fintas impossíveis, os dribles que deixavam três defesas no chão, o domínio perfeito da bola, a magia toda do Ronaldinho saiu de uma quadrinha de futsal de Porto Alegre. Aos 12 anos, abanou as redes 23 vezes no único jogo oficial contra outra equipa juvenil.

 23 golos numa só partida. Os treinadores do Grêmio diziam que ele não podia ser de carne e osso, que tinha um dom de extraterrestre, mas o sujeito de verdade, por detrás de cada escolha, desde aqueles 12 anos, já não era o próprio Ronaldinho. Era o Assis, o irmão, o empresário, que definia que clube, que valor, que propaganda, que entrevista dar.

O Ronaldinho, ao longo da vida adulta inteiro, teve autonomia para uma única coisa, jogar à bola. Tudo o resto, quem decidia era o Assis. E o Ronaldinho confiava nele. Confiava porque era o irmão mais velho. Confiava porque a mãe tinha-lhe dito aos 8 anos que o O Roberto ia ser o pai a partir daí. Confiava porque num cantinho da cabeça continuava a ser aquele menino de 8 anos que tinha decidido não chorar para que o pai não chorasse lá em cima.

 E questionar o irmão mais velho era pro Ronaldinho atraiçoar o pai morto. Por isso, assinava o que o Assis colocava na frente dele, sem ler. Igualzinho ao Garrincha, igual ao Adriano, três pobres craques do futebol brasileiro que assinavam sem ler porque alguém da família decidia tudo por eles. Aos 17 anos, Ronaldinho fez a estreia na equipa profissional do Grêmio.

998, uma partida contra uma equipa do interior gaúcho. Entrou no segundo tempo, encostou a bola apenas três vezes, apenas três. Primeira encostada, um caninho num defesa de 30 anos. Segunda-feira, um passe de calcanhar que deixou o atacante cara a cara com o guarda-redes adversário. Terceira encostada, uma bicicleta que fez o estádio explodir de gritaria.

A multidão enlouqueceu na bancada. Os jornalistas ficaram sem saber o que escrever no caderno. Os olheiros europeus correram para o telefone, mas ele ainda vivia na casa da mãe. Ainda não tinha contrato profissional para valer. E aí surgiu a primeira proposta concreta. Não veio de um clube europeu, veio de um empresário brasileiro chamava Luís Antônio de Jesus, conhecido no meio como gaúcho.

 Um sujeito com bons contactos no futebol nacional. Ofereceu ao Ronaldinho um contrato. Eu levo-te para a Europa. Eu fecho os contratos por si. Você se preocupa apenas em jogar à bola. O Ronaldinho tinha 18 anos recém-completos. A mãe disse-lhe para ler antes de pôr assinata e assinatura. Mãe, ele percebe disso.

Ele vai ajudar-me, rubricou sem ler uma linha. Guarda esse momento. Você vai precisar dele depois. 1999, o Ronaldinho estreou-se na Copa América pela seleção brasileira. O Brasil levantou o título e vieram as primeiras ofertas de fora. Paris Saint-Germain, 20 milhões deais, uma fortuna nesse ano de 1999 para um jogador de 19 anos.

 O Assis negociou, o Assis assinou, o Ronaldinho embarcou para França e aí descobriu pela primeira vez na vida, que o futebol europeu não era sequer parecido com o brasileiro. A cobrança era brutal, a língua era complicada. A cultura estranha. Mas o mais pesado foi outra coisa. Pela primeira vez na vida, o Ronaldinho estava longe do irmão.

 O Assis tinha ficado no Brasil, visitava -lhe duas ou três vezes por mês, mas já não estava do lado dele todos os dias. E o Ronaldinho, pela primeira vez desde os 8 anos, teve de tomar decisões sozinho e nem sabia por onde começar. Em Paris, o Ronaldinho começou a sair para balada, a frequentar grupos de brasileiros que por lá viviam.

a viver como um jovem milionário de 20 anos, com dinheiro do mundo inteiro e ninguém a dizer não. Mas em 2002 aconteceu uma coisa, uma coisa que ia virar tudo. O Ronaldinho ganhou a Taça do Mundo da Coreia e do Japão pelo Brasil. A falta histórica contra, a Inglaterra que se tornou lenda. O passe pro Rivaldo na decisão, Brasil pentacampeão, Ronaldinho figura central.

 E depois veio o telefonema Barcelona, ​​o clube maior do mundo naquela época. O Joana Laaporta, recém-eleito presidente do clube catalão, queria-o como contratação número um, 30 milhões de euros. Contrato de 5 anos, a camisola 10, a 10 do Maradona. Mas aqui aparece o pormenor que vai mudar a história toda. O Barcelona também ofereceu uma coisa que pouca gente está a par, uma comissão de 5 milhões de euros pro empresário, 5 milhões pro Roberto Assis, a maior comissão que qualquer empresário brasileiro tinha embolsado na história.

O Assis stopou, mas fez uma jogada que ninguém ficou a saber. Pediu que esta comissão não caísse numa conta brasileira. Pediu que fosse depositada numa conta em Andorra. Em nome dele, em nome do Roberto de Assis Moreira, Andorra, um paisinho minúsculo, cravado nos Pirenéus, onde os bancos não passam informação pro Brasil, onde o dinheiro entra e nunca sai, onde ninguém faz pergunta nenhuma.

Esta conta aberta em 2003 tornou-se o ponto de partida de tudo e a mãe, dona Miguelina, só descobriu a existência dela 10 anos mais tarde, por puro acaso. E vamos chegar nesse momento em poucos minutos. Tem uma gravação 38 minutos, feita por um jornalista brasileiro chamado Pelé Júnior em 2021, 2 anos depois da prisão paraguaia.

 O Ronaldinho estava numa casa de Porto Alegre, já tinha recuperado psicologicamente do trauma e falava com franqueza pela primeira vez na vida. A gravação em parte foi divulgada no Podcast do jornalista, mas 60% do conteúdo nunca chegou ao público, porque o Ronaldinho, ao longo da conversa, referiu três nomes específicos, três nomes que constam em processos judiciais em aberto até hoje.

E o jornalista, por uma questão de segurança, optou por guardar a gravação inteira. A gente vai chegar às quatro confissões que o Ronaldinho fez naquela gravação, mas ainda não. Barcelona. O Ronaldinho aterrou no Campnou com 20 quadrantos completos e começou a fazer a única coisa que sabia fazer no mundo, sorrir e jogar futebol.

 O sorriso daquele menino de 8 anos na sala humilde de Porto Alegre perante o corpo do pai morto foi o mesmo que iluminou o Camp durante seis temporadas. Gols Impossíveis, três campeonatos espanhóis, uma Liga dos Campeões e em 2005 a Bola de Ouro. Eleito é Bodor 25 anos, o topo absoluto do futebol mundial. Há um momento daqueles 6 anos que quase ninguém se lembra com a força devida.

21 de Novembro de 2005, Campnou, Real Madrid, de visita ao Barcelona. O Ronaldinho deu um show no Madrid naquele dia. Dois golos, três assistências, dribles que fizeram 98.000 adeptos do Madrid se levantarem para o aplaudir para um segundo. E pensa nisso. Os adeptos do Real Madrid, o rival histórico, aplaudindo de pé um jogador do Barcelona.

Só aconteceu com o Ronaldinho e com o Maradona, com mais ninguém na história. E quando entregaram-lhe a bola de ouro, um mês depois, na cerimónia oficial da FIFA, o Ronaldinho disse sete palavras: “Isto aqui é para o meu pai, ele está sorrindo. Isto aqui é para o meu pai, ele está a sorrir.

” A frase saiu tão rapidamente que quase ninguém pegou no ar, mas a dona Miguelina apanhou-a sentada na primeira fila da cerimónia. E naquela noite, no hotel da Suíça, a Miguelina chorou sozinha no quarto de hóspedes durante 3 horas seguidas, porque nessa mesma semana ela tinha descoberto uma coisa, uma coisa que ia esperar 13 anos antes de vir à tona.

 E a gente vai chegar a essa revelação, [música] mas primeiro tem de perceber o que aconteceu depois da bola de ouro, porque foi ali que iniciou a descida. A partir de 2006, o Ronaldinho começou a beber, não muito, não na exageração, mas todas as noites sem falta e começou a sair paraa festa durante a semana de treino.

 Começou a chegar atrasado aos treinos da manhã. O Frank Ricard, o técnico holandês, começou a preocupar-se. Ele está a chegar atrasado, alertou para direcção do clube, tá a engordar também, mas o Ronaldinho continuava jogando bem, continuava a fazer magia em campo. Assim o Barcelona tolerava até que em 2007 chegou um jogador novo ao clube, tinha 20 anos, era argentino, chamava-se Lionel Messi.

 O Messi vivia exclusivamente para a bola, treinava em dobro, comia direitinho, dormia 8 horas seguidas, não saía para a festa, não tinha vício nenhum. O Ronaldinho era exatamente o contrário disto e a diferença entre os dois começou a saltar aos olhos. Em 2008, o Pep Guardiola assumiu como novo treinador do Barcelona. A primeira atitude, a atitude dele foi chamar o Ronaldinho à sala.

 “Você tem que decidir o que quer”, falou para ele. “Ou vive como profissional ou pega no boné e vai-se embora”. O Ronaldinho não bateu boca, não se zangou, sorriu. Entendi. Duas semanas depois, o O Barcelona vendeu-o ao Milan por 21 milhões de euros, menos de metade do que tinha pago 5 anos antes para o trazer. No Milan, jogou 2 anos, mas já não era o mesmo cara.

 Engordou mais 5 kg, começou a faltar aos treinos. A imprensa italiana caiu-lhe de pau em cima. O álcool tornou-se público. As festas em Milão saíram em todas as capas dos jornais esportivos. E em 2011 o Milan rescindiu a custo zero. Ronaldinho, 31 anos completos, sem clube no horizonte. O melhor jogador do mundo, se anos antes já não tinha lugar no futebol europeu. Voltou para o Brasil.

 Flamengo primeiro, o Atlético Mineiro depois, uma Taça dos Libertadores com o Galo em 2013, mas já não era nem sombra do que tinha sido. Era uma recordação a andar dentro de campo. E enquanto o Ronaldinho jogava nos clubes brasileiros, recebendo uma fracção do que ganhava na Europa, o dinheiro continuava a pingar em Andorra.

Cada contrato, cada anúncio, cada premiação passava primeiro pelas contas que o Assis administrava e a partir daí uma fatia considerável ia parar a Andorra. Enquanto Ronaldinho disputava o Mineiro em 2013, a dona Miguelina estava em Porto Alegre, sozinha em casa, a cuidar da netinha doente.

 Uma tarde, no final de novembro desse ano, o Roberto Assis chegou a casa da mãe com um envelope na mão, pediu-lhe para rubricar uns papéis. falou que era paraa proteção fiscal do irmão, coisa burocrática, segundo ele. A Miguelina assinou, mas antes do filho ir embora, o Assis tenha acabado por esquecer o envelope em cima da mesa por descuido, distraiu-se com uma mensagem no telemóvel, saiu para o quintal para fumar e a Miguelina abriu o envelope.

 Foi isso que ela viu lá dentro, uma correspondência do banco de Andorra confirmando os saldos. Conta número 1, 72 milhões de euros. Conta número 2, 18 milhões de euros. Conta número 3, 9 milhões de euros. Soma total, 99 milhões de euros, em nome de Roberto Assis. Sem o Ronaldinho ter ideia, a Miguelina fechou o envelope, devolveu para cima da mesa.

 Quando A Assisa entrou de novo, não comentou nada, despachou-o com um beijo no rosto. E nessa noite, a Miguelina chorou durante 6 horas seguidas sozinha, no mesmo quarto onde tinha chorado o seu João 24 anos antes. E aqui chega a parte que liga na história toda. A Miguelina, que sabia da verdade desde 2013, não soltou uma palavra ao Ronaldinho.

 Durante 7 anos não comentou nada. Por quê? Porque tinha medo. Medo de quebrar a ligação entre os dois irmãos. Medo de pisar em cima da promessa que tinha feito ao senhor João em 1989, quando jurou que o Roberto ia ser o pai do mais novo. Medo principalmente de que o Ronaldinho, ao tomar conhecimento do verdade, perdesse o sorriso.

 Aquele sorriso que o menino tinha construído aos 8 anos diante do corpo do pai morto, decidindo que chorar era um ato egoísta. A Miguelina preferiu carregar aquela verdade por si só durante 7 anos inteiros, até que o peso se tornou insuportável. Em 2015, o Ronaldinho retirou-se oficialmente do futebol, sem despedida nenhuma, sem jogo de homenagem, simplesmente deixou de jogar à bola.

 E aí começou a parte mais escura. 30 pessoas a depender financeiramente dele. Irmão, mãe, criados domésticos, seguranças, [música] condutores, amigos que viviam dentro da sua casa, conhecidos antigos que pediam empréstimo e nunca devolviam um tostão. Chegou um momento em que o Ronaldinho já não tinha ideia de quantas pessoas trabalhavam para ele.

 Assinava cheque sem sequer perguntar para que era. Entre 2015 e [música] 2019, o Ronaldinho perdeu praticamente toda a linha fortuna. Ele tinha embolsou mais de 100 milhões de dólares ao longo da carreira. 100 milhões. Aos 39 anos, tinha uma dívida de 11 milhões com o governo brasileiro. 11 milhões em imposto não liquidado. As autoridades fiscais confiscaram 57 imóveis dele, bloquearam todas as contas bancárias.

o passaporte. O Ronaldinho não podia mais nem sair do Brasil. E foi nesse momento que apareceu alguém com uma solução milagrosa. Vilme. Sousa Lira, empresário brasileiro, Conexões no Paraguai, ofereceu ao Ronaldinho um projeto bonito em assunção. “Vamos abrir uma fundação para crianças carentes”, disse-lhe.

 “A gente precisa apenas da sua imagem pública. A gente paga bem e ainda dá um jeito à história do passaporte aprendido. O Ronaldinho, desesperado para trabalhar com alguma coisa, disse que topava. Só assina aqui, eu trato do resto e o Ronaldinho assinou sem ler, como sempre fazia. O que ele tinha assinado era um pedido de residência paraguaia.

 Para conseguir esta residência, necessitava de um passaporte paraguaio. O Wilmonde virou-se para providenciar. O passaporte era falsificado, os documentos eram falsos, tudo era forjado, [música] mas o Ronaldinho não sabia ou não quis saber ou decidiu não fazer pergunta. 4 de março de 2020. Aeroporto internacional Sílvio Petirossi, Assunção, Paraguai.

O Ronaldinho, 40 anos acabados de completar, desembarcou num avião privado junto com o irmão Roberto. Iam apresentar a tal fundação para as crianças. Passaram pela imigração paraguaia, mostraram os passaportes paraguaios recém emitidos. O agente olhou para os documentos, franziu o sobrolho, chamou o supervisor.

 Tinha alguma coisa estranha. Os passaportes tinham um selo oficial, tinham foto, tinham todas as informações corretas, mas os números de série não batiam certo com a base de dados oficial. Alguém tinha falsificado os documentos utilizando selos roubados. O O Ronaldinho olhou para o irmão, perguntou o que estava a rolar.

 O Roberto Assisa abriu um sorriso e disse que estava tudo certo, que era um qualquer trâmite burocrático, que era para esperar um bocadinho. Esperaram 3 horas inteiras e no dia seguinte os dois foram formalmente indiciados por uso de documento falsificado. 5 de março foram levados pra agrupação especializada da Polícia Nacional, uma cadeia de máxima segurança nos arredores da capital paraguaia.

 A agrupação especializada não é cadeia comum, não. É onde estão trancados os criminosos mais perigosos de todo o Paraguai. Os traficantes de cocaína, sequestradores, assassinos e o Ronaldinho. A primeira noite não pregou olho, ficou sentado no catre com as costas coladas à parede, olhando fixamente para porta, ouvindo gritarias em Guarani, que não percebia uma palavra.

 Achei que iam matar-me”, confessou meses depois. Na gravação do Pelé Júnior, o Ronaldinho conta exatamente o que aconteceu naquela primeira noite. Eu olhei para o Roberto no calaboço e perguntei: “Irmão, o que aconteceu connosco?” E ele olhou para mim e respondeu: “Não fazia ideia de que o passaporte era falso, mas eu fitando-o nos olhos, soube que ele estava a mentir.

 Pela primeira vez em 40 anos, soube que o meu irmão estava mentindo-me. E, nessa noite, naquela cama de cadeia no Paraguai, eu chorei da maneira que não tinha chorado desde a morte do meu pai. Chorei porque Compreendi que o sorriso da minha vida inteira tinha sido construído em cima de uma mentira. Mas o que veio depois [música] dentro daquela cadeia? Quase ninguém ficou a saber.

 Na segunda noite, um preso brasileiro chegou perto dele. Sossega, mano. Aqui ninguém vai mexer consigo. Você é lenda. Os outros presos reconheceram quem ele era e, em vez de atacar, deram proteção. É o Ronaldinho. Passavam o recado de cela em cela. É o mago, ninguém encosta nele. E depois o Ronaldinho fez uma coisa que ninguém esperava.

 Depois de duas semanas naquele local, organizou um campeonato de futebol. Sim, um campeonato de futebol dentro da cadeia paraguaia, com traficantes, assassinos e sequestradores disputando contra o Ronaldinho. Duas equipas 10 contra 10, uma quadra improvisada no meio do pátio. Os agentes fazendo o papel de árbitros, os presos fazendo papel de claque.

 O Ronaldinho jogava com o sorriso de sempre, aplicava caninho, aplicava rabo de vaca. Os presos gritavam como se estivessem no campnou. Foi a coisa mais surreal que vi na vida”, comentou um agente anos depois numa entrevista. O Ronaldinho, o melhor do mundo, fazendo magia dentro de uma cadeia paraguaia.

 O time do Ronaldinho ganhou o torneio. O prémio foi um leitão assado. O Ronaldinho partilhou o leitão com toda a gente. Presos, agentes, advogados, toda a gente se alimentou. Tem uma filmagem do Ronaldinho dentro daquela cadeia. Nunca foi publicada oficialmente, mas corre na internet. É um vídeo de 40 segundos. O Ronaldinho está sentado na cela sozinho.

 A câmera está escondida. Ele não se apercebe que está a ser filmado. [música] Ele não está sorrindo. Tem a cabeça enterrada nas duas mãos, os ombros descaídos. Respira fundo. Uma vez, duas vezes, três vezes. E depois levanta aqui na cabeça. Olha para o espelho rachado que tinha na parede.

 Ajeita o cabelo, endireita as costas. E sorri não para a câmara, não para os presos, não para os agentes, sorri para si mesmo. Isto é o que quase ninguém entende sobre ele. O Ronaldinho não sorria para enganar o mundo, sorria para lembrar para ele próprio quem ele realmente era. 25 de agosto de 2020, 173 dias depois do começo da prisão, o O Ronaldinho e o Roberto foram libertados pela justiça paraguaia.

Pagaram uma multa de 90.000 dólares cada um. Quando o Ronaldinho voltou ao Brasil, descobriu que a conta à ordem dele aqui no Brasil tinha um saldo de exactamente 6€. Seis. A justiça brasileira tinha bloqueado tudo por causa das dívidas fiscais acumuladas durante anos. Dívidas que o Ronaldinho não fazia ideia de que existiam.

 Dívidas que o Roberto Assis tinha empilhado durante anos sem pagar imposto. Mas ainda falta a parte mais escura. A questão que liga toda a história. Quem destruiu o génio brasileiro? Não foi o Roberto Assis. O Roberto só geriu o dinheiro do irmão como um avarento. Mas o Ronaldinho confiava nele porque a mãe lhe tinha pedido. Não foi o álcool.

 O álcool foi apenas o meio. Não foi o Paraguai. O Paraguai foi apenas o lugar onde a mentira veio à tona. Então, quem foi realmente? A resposta do Ronaldinho na gravação é esta: quem destruiu o Ronaldinho foi uma promessa. A promessa que a minha mãe Miguelina fez para o meu pai João em Fevereiro de 1989 à frente do corpo dele. A promessa de que o Roberto ia ser o pai que tinha perdido.

E eu durante toda a vida, respeitei essa promessa. Respeitei o irmão da forma que respeitava o pai morto. E questioná-lo, contrariá-lo, cobrar ele, era para mim a mesma coisa que cuspir na lápide do meu pai. Por isso eu não o fiz, até quando já era tarde demais. A culpa não é do Roberto. O Roberto só se aproveitou.

 A culpa é daquele menino de 8 anos que prometeu não chorar. Destruí-me porque não deixei a verdade chegar aos meus olhos. Eu me destruí. Esta frase é a chave de tudo. O Ronaldinho caiu por causa de uma promessa familiar. Uma promessa feita pela mãe diante do corpo do pai morto. Uma promessa que o menino Ronaldinho engoliu como se fosse responsabilidade dele e que cumpriu até à destruição completa.

Mas há uma última coisa, uma coisa que quase ninguém está a par. Tem um caderno de capa azul pequenino. A dona Miguelina guardou-o na gaveta da mesa de cabeceira desde novembro de 2013. tem 31 páginas escritas à mão. Em cada página, anotações feitas a lápis com a letra cuidadosa de uma mulher que tinha sido enfermeira.

 Na primeira página, o título: Coisas que o meu filho precisa de saber antes que seja tarde. Nas páginas seguintes, datas, valores, contas bancárias, contratos detalhados, todas as coisas que o Roberto Assis tinha feito sem o Ronaldinho ficar sabendo. 23 itens concretos relacionados. Em agosto de 2024, a dona Miguelina morreu, 79 anos completos.

Cancro do pâncreas. Nos últimos dias de vida, deitada numa cama do hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, chamou o Ronaldinho para ficar do lado dela, entregou-lhe o caderno azul nas mãos, disse uma frase só: “Filho, perdão por não ter dado este antes. Eu queria proteger-te, mas tu já é homem feito.

 Agora decide o que vai fazer com a verdade.” E morreu três dias depois. O Ronaldinho leu o caderno todo, demorou uma noite toda a terminar, chorou e no final fez uma coisa que a mãe nem sequer esperava. Não processou o irmão, não levou a história à imprensa, não não publicou nada do conteúdo do caderno, guardou-o na gaveta da mesa de cabeceira dele, tal como a mãe tinha guardado durante 11 anos.

 E falou para um amigo próximo num boteco de Porto Alegre uma frase que o amigo gravou no telemóvel sem o Ronaldinho se aperceber. A frase foi esta: “A minha mãe carregou isto sozinha durante 11 anos para me proteger. Se eu agora destruo o meu irmão, destruo o sacrifício que a a minha mãe fez. Prefiro carregar a verdade” e morrer a sorrir, igualzinho aprendi aos 8 anos de idade.

 Mas há uma coisa que o Ronaldinho fez em 2022 que quase ninguém conta. Voltou ao Paraguai. Sim, voltou para o mesmo país que tirou seis meses inteiros da sua vida. Convidaram ele para um evento de beneficência em prol das crianças de rua. Ele poderia ter recusado, poderia ter enviado um representante no lugar deste.

 Ninguém ia condenar esta atitude, mas foi. Aterrou em assunção. Passou pelo mesmo aeroporto onde tinha sido detido. Visitou a fundação, jogou à bola com o miúdos e depois fez uma coisa que ninguém imaginava. pediu para visitar a cadeia, voltou para agrupar especializada, a mesma cadeia onde tinha passado 32 dias, onde tinha chorado nessa primeira noite, onde tinha organizado o ringo campeonato.

Os agentes não acreditavam no que estavam a ver. Porque é que ele quer voltar aqui? Para dizer obrigado, entrou no pátio. Os presos rodearam-no na hora. Alguns eram os mesmos que tinham estado com ele dois anos antes, outros novos que conheciam a história. “Vocês ensinaram-me uma coisa, falou para todos eles.

 Ensinaram-me que não importa onde está, não importa o que fez, pode sempre escolher como viver aquele momento. Você pode ficar amargurado ou pode procurar a felicidade.” Jogou à bola com eles igualzinho dois anos antes e quando foi embora lhes tenha deixado algumas coisas. Bolas de futebol, camisolas autografadas e uma frase escrita na parede do pátio.

A liberdade está dentro da cabeça. Ninguém lho pode tirar. Hoje o Ronaldinho tem 45 anos completos, está reconciliado com o irmão Roberto. A justiça paraguaia já encerrou o caso, mas a dívida fiscal aqui no Brasil continua firme. Ele vendeu três apartamentos para liquidar uma parte. Dá entrevistas de vez em quando, joga futebol amigável com os amigos.

 visita a comunidade onde nasceu, em Porto Alegre, todos os mês. Distribui brinquedos para as crianças pobres da região, continua sorridente, mas já não é o mesmo sorriso de antigamente. Há uma frase que o Ronaldinho repetiu durante toda a vida: “O dinheiro vai e volta”. Quando ganhava milhões mensais, quando perdia, quando não estava nem aí.

 Na cadeia paraguaia, ele compreendeu o sentido completo desta frase. O dinheiro vai e volta. A fama vai e volta. Os troféus são guardados na montra. Mas a forma como vive a vida, a forma como trata as pessoas à volta, o sorriso que escolhe ter quando acorda de manhã, isso fica para sempre. Há milhões de homens assim, nesse preciso momento, espalhados pelo mundo.

 Homens que transportam segredos de família para não destruir promessas feitas a entes queridos que já partiram. Homens que sorriem na cara de toda a gente enquanto se despedaçam por dentro. Homens que perdoam o irmão, o pai, a esposa, amigo, porque quebrar o laço familiar pesa mais do que carregar a traição em silêncio. Homens que aprenderam ainda na infância que chorar é egoísmo, que sentir é fraqueza, que sorrir é a única forma de dignidade que um homem pode ter.

Estes homens têm o coração demasiado grande para um mundo que não ensinou nenhum homem a chorar. O Ronaldinho é um deles, o Adriano era outro, o Garrincha também o era. E amanhã, no próximo episódio, nós vai contar a história de um quarto. Um homem que ganhou três campeonatos do mundo de Fórmula 1. Um homem que viu um colega morrer dentro da pista.

Um homem que ao volante de um Williams atravessou a curva de tamburelo a 300 km/h em direção a um muro de betão. O seu nome é Lenda. O nome dele vibra no coração do Brasil até hoje. Mas a verdade sobre a morte do Atiron Sen nunca te contada da forma certa. Se a história do Ronaldinho o fez pensar em alguém da sua vida, liga hoje, não amanhã.

Hoje mesmo liga ao teu irmão, ao teu pai, para o seu filho, para o seu amigo de infância. Liga, mesmo que ele responda mal no telefone, mesmo que ele diga que não não precisa de nada, liga assim mesmo. Porque a maior tragédia do Ronaldinho não foi a prisão paraguaia, foi que durante 40 anos seguidos, ninguém na A sua família teve coragem de falar a verdade sobre o irmão que amava.

 E a verdade dita no momento certo podia ter poupado 30 anos de mentira. Se você conhece alguém que transporta um segredo de família parecido com este, fala para essa pessoa hoje. Conta a verdade a ela. Mais vale a dor de saber do que a dor de descobrir mais tarde, porque o o dinheiro vai e volta, a fama vai e volta.

 Mas a forma como decidiu viver a vida, esta fica para sempre. E se esta história te tocou em alguma fibra, inscreve-se no canal, porque a próxima história vai doer ainda mais.

 

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