A viola, apesar de velha e com alguns remendos, estava bem cuidada, sinal de que, mesmo em dificuldades, aquele homem respeitava o seu instrumento. Havia um pequeno autocolante na parte de trás, já desbotado, com os rostos de Leonardo e Leandro, provavelmente de há décadas. “Essa viola tem história, hein?”, comentou Leonardo, apontando para o instrumento.
“Mais de 30 anos comigo, o senhor Leonardo, foi uma oferta do meu pai. Já passou por muita coisa, mas nunca me abandonou. Diferente de tanta gente, havia uma mistura de orgulho e melancolia na sua voz. Onde aprendeu a cantar assim, Zé? O homem esboçou um leve sorriso melancólico, passando a mão pelos cabelos grisalhos e embaraçados.
Na vida, senhor Leonardo. Nasci em Catalão, interior daqui de Goiás. Comecei cantando com o meu pai nas festas de S. João da cidade. Era uma tradição lá, sabe? Depois cantei em pequenos bares por muitos anos. Cheguei a ter uma dupla com meu irmão, igual ao senhor. Leonardo sentiu outro arrepio.
As coincidências estavam a acumular-se. E o que aconteceu com a dupla? O olhar do Zé perdeu-se por um momento, fixando-se em algum ponto distante, para além da movimentada avenida. A vida aconteceu, senhor Leonardo. A bebida e uns problemas acabaram com tudo. Meu irmão mudou-se para o Mato Grosso. Dizem que está bem por lá. Eu fiquei e afundei.
Perdi a mulher, perdi os meus dois filhos que já nem querem saber de mim. Perdi a casa, o emprego, todas as hipóteses. Fui para São Paulo, tentei a minha sorte, regressei pior do que fui. Agora só tenho essa viola e essa voz. Leonardo observou o homem com atenção. Havia algo nele que recordava o seu irmão Leandro.
Talvez fosse o timbre, talvez a forma simples de falar de música como se fosse algo tão natural como respirar. Ou talvez o brilho nos olhos que aparecia quando falava de cantar. Era como se, por um breve momento, o seu irmão estivesse ali lembrando-o do que realmente importava na vida. Já tentou participar de algum programa de talentos ou algo assim? Com esta voz, o Zé abanou a cabeça, ajeitando a camisa surrada.
Quem ia dar uma oportunidade a um velho de rua como eu? Já tentei entrar nesses programas, mas nem da porta passo. Olha a minha aparência, o senhor Leonardo. E, hoje em dia, com estas músicas modernas, ninguém quer saber de sertanejo raiz, de moda de viola. É tudo sofrência, é tudo com batida eletrónica.
Nem me fale, concordou Leonardo a pensar em quantas vezes teve que se adaptar para continuar. Relevante. Mas ainda tem espaço paraa música a sério, Zé. Eu próprio estou regressando às raízes no próximo álbum. Ao redor deles, um pequeno grupo de pessoas começava a formar-se, muitos com telemóveis em mãos, filmando aquela cena inusitada.
um dos maiores nomes da música sertaneja brasileira, a conversar com um cantor de rua como se fossem velhos conhecidos. O Leonardo tirou o telemóvel do bolso e, para surpresa do Zé começou a filmá-lo. “Canta mais um pouco para mim. Pode escolher a música.” Hesitante, Zé pegou na viola, ajeitou a postura e olhou em redor, notando o pequeno grupo de pessoas que começava a formar-se.
Respirou fundo, fechou os olhos por um momento e começou a dedilhar os primeiros acordes de Pensa em Mim. Quando a sua voz se elevou na noite, mesmo os transeúntes mais apressados pararam para ouvir. Pense em mim, chore por mim, liga-me. A interpretação era crua, cheia de sentimento, como se cada palavra tivesse sido escrita especialmente para ele.
Não era apenas técnica, era alma, era vida transformada em música. A gravação durou apenas um minuto, mas foi o suficiente. O Leonardo conhecia talento quando o via, vivia disso há décadas e sabia que tinha algo de especial ali, algo genuíno que não podia ser fabricado em estúdio ou ensinado. Era o tipo de voz que tocava as pessoas, que fazia parar o tempo, que contava histórias para além das letras.
Incrível, Zé. Simplesmente incrível. Leonardo não escondia a emoção na voz. Sabe, durante toda a minha carreira, eu procurei vozes assim, vozes que transportam verdade. O Zé baixou a cabeça, claramente emocionado com o reconhecimento de um dos os seus ídolos. O senhor não sabe o que significa para mim.
ouvir isso de quem sempre admirei. O Leonardo olhou para o homem que tem à sua frente, um talento perdido, quase esquecido, que poderia ter tido um destino muito diferente se a vida lhe tivesse oferecido outras oportunidades. Quantos outros zés haveria pelo Brasil com os seus sonhos engavetados, os seus talentos escondidos sob as camadas da dificuldade? “Zé, eu Quero fazer-te um convite”, disse guardando o telemóvel.
Aceita vir comigo até ao meu estúdio? Quero que algumas pessoas te ouçam. Pessoas que podem fazer a diferença. Os olhos do homem se encheram-se de lágrimas. Por um momento, pareceu desconfiar, como se aquilo fosse algum tipo de brincadeira cruel. Tal desconfiança era compreensível. A vida provavelmente lhe tinha ensinado a duvidar de ofertas demasiado generosas.
O senhor está mesmo a falar sério. Não é partida nem nada. O Zé olhou em volta como se procurasse câmaras escondidas. Mais sério que uma proposta de casamento. Rio Leonardo colocando a mão no ombro do homem. E chama-me só Leonardo, por favor. Vamos. Prometo que no mínimo você vai ter uma boa refeição e uma oportunidade de mostrar o seu talento para quem entende do assunto.
Uma pequena multidão já se formava com pessoas a tirar fotos e filmando a cena insólita. Alguns já começavam a especular nas redes sociais o que estaria o famoso cantor a fazer com aquele homem em situação de sem-abrigo. Hashtags como Pa Leonardo e Homendigo e Kemele queremos começavam a surgir no Twitter. E este vídeo que o Sr. gravou? Perguntou o Zé preocupado.
Só para mostrar ao pessoal do estúdio. Não vou publicar sem a sua autorização. Fique tranquilo. Leonardo fez sinal ao seu segurança, que se aproximou. Marcos, este é o Zé. Ele vai connosco para o estúdio. Com as mãos trémulas, o Zé recolheu a sua viola e o pouco dinheiro do chapéu, guardando-o cuidadosamente no bolso rasgado das calças.
É pouco, mas é honesto, disse, como que se justificando. Guarde com orgulho respondeu o Leonardo. É o início da sua nova história. Enquanto caminhavam para o carro, rodeados de curiosos que tentavam perceber o que estava a acontecer, trocaram olhares. O de Leonardo, curioso e esperançoso, o do Zé, ainda incrédulo, como se a qualquer momento fosse acordar daquele sonho. Improvável.
Obrigado! Sussurrou o Zé quando entraram no carro. Mesmo que não dê em nada. Obrigado por ouvir-me. Leonardo sorriu pensando em como o destino trabalhava de formas misteriosas. Algo me diz que vai dar em muita coisa, Zé. muita coisa mesmo. O que nenhum dos dois imaginava era que aquele encontro casual mudaria para sempre o rumo das suas vidas e que em breve o Brasil inteiro conheceria a história do mendigo com voz de ouro numa das maiores histórias de superação e recomeço que o país já tinha visto.
O carro de Leonardo atraía olhares por por onde passava, mas desta vez a atenção não era apenas pelo veículo luxuoso ou pela presença do famoso cantor, era pelo contraste. Ao lado do artista sertanejo conhecido em todo o Brasil, sentava-se um homem visivelmente em situação de rua, com a sua viola gasta ao colo, observando a cidade com olhos maravilhados como uma criança na sua primeira viagem.
Nunca andei num carro destes confessou o Zé, passando a mão pelo banco em pele. Parece que estou a sonhar. Leonardo observava o homem com curiosidade. Há quanto tempo está nas ruas, Zé? Vai fazer 4 anos agora”, respondeu, olhando pela janela. Antes disso, ainda conseguia alugar um quartinho numa pensão ali perto do terminal Praça da Bíblia, mas quando a dona aumentou a renda, não consegui mais pagar.
Depois fui ficando por aí, de favor em favor, até que o favor acabou. O carro entrou numa área mais nobre da cidade, onde o estúdio de Leonardo estava localizado. Era um edifício moderno, com segurança na porta e vidros espelhados. Do lado de fora, ninguém imaginaria que ali algumas das músicas mais populares do país ganhavam vida. “Chegámos”, anunciou Leonardo.
“Vou-te apresentar algumas pessoas. É, são boas pessoas que percebem de música, mas antes disso, vamos comer qualquer coisa. Deve estar com fome. O olhar de A gratidão do Zé era evidente. Há tempo que não como direito. Dentro do estúdio, a equipa de Leonardo recebeu o visitante com curiosidade e um certo espanto.
O produtor Marcelo Faria, um homem na casa dos 50 anos, conhecido pelo seu ouvido apurado, foi o primeiro a aproximar-se. “Léo, quem é o seu amigo?”, perguntou, estendendo a mão ao Zé, que a apertou timidamente. Ess é o Zé da viola. Um talento que encontrei na rua, Marcelo. Quero que o ouça depois do jantar. Enquanto comiam na sala de descanso do estúdio, o Zé começou a sentir-se mais à vontade.
A comida era simples, sandes, fruta e refrigerante. Mas para alguém habituado a alimentar-se de sobras e doações, era um banquete. “Então teve uma dupla com o seu irmão?”, perguntou Leonardo, interessado em conhecer mais sobre a história daquele homem. O Zé assentiu bebendo um gole de refrigerante. Eu e o meu irmão José Augusto éramos o duo Zé em Augusto.
Tivemos o nosso momentinho de fama lá em Catalão e região. Chegamos a gravar algumas cassetes. Vendíamos depois dos espectáculos. E porque acabou? O olhar de O Zé escureceu. Foi em 98. Tínhamos um espectáculo importante em Caldas Novas. Podia ser a nossa grande oportunidade. Mas eu eu bebi demais na noite anterior.
Cheguei atrasado, bêbado. Fiz papel de parvo no palco. Era uma apresentação para um proprietário de uma gravadora de Goiânia. Augusto nunca perdoou-me. Brigamos feio. Ele foi embora para o Mato Grosso. Arrumou outro trabalho, outra vida. Leonardo ouvia atentamente. A história era dolorosamente familiar no meio sertanejo.
Quantos talentos não se perderam pelo álcool, pelas drogas, pela escolhas erradas feitas no momento errado. Tentou o contato com ele depois? Muitas vezes. Ele não quis mais saber. Não o culpo. Eu estraguei tudo. Depois disso, a bebida só piorou. Perdi o emprego na loja de materiais de construção onde trabalhava. A minha esposa me deixou, levou os nossos dois filhos.
Tentei reerguer-me algumas vezes, mas voltava sempre para o mesmo buraco. Zé fez uma pausa, respirando fundo. Agora já faz uns três anos que estou sóbrio. Tarde demais para muita coisa, mas pelo posso cantar sem envergonhar ninguém. O produtor Marcelo, que ouvia a conversa em silêncio, trocou um olhar significativo com o Leonardo.
Ambos conheciam bem aquela história. Era quase um cliché no meio musical, mas nem por que menos real ou dolorosa. Terminada a refeição, foram para a sala de gravação. O Zé olhava maravilhado para os equipamentos, para a acústica perfeita, para os instrumentos de primeira linha organizados cuidadosamente. Nunca vi nada assim”, confessou, tocando reverentemente um violão apoiado num suporte.
“Vamos ver o que consegue fazer, Zé”, disse Marcelo, ajustando alguns comandos na mesa de som. “Fique à vontade para escolher qualquer instrumento.” O Zé hesitou, olhando para sua velha viola. “Posso usar a minha? Estamos juntos há tanto tempo. Leonardo sorriu. Claro que pode. A música não está no instrumento, está em quem toca. Posicionando-se em frente ao microfone, O Zé parecia outra pessoa.
O nervosismo deu lugar a uma confiança tranquila, como se ali fosse o seu lugar natural. ajustou a viola, fechou os olhos por um momento e começou a dedilhar uma introdução lenta, melancólica. Quando a sua voz preencheu o estúdio a cantar Chico Mineiro, um clássico do sertanejo de raiz, Leonardo e Marcelo trocaram olhares impressionados.
A voz do Zé, já impressionante na rua, ganhava novas dimensões naquele ambiente controlado. Era grave, afinada, com uma rouquidão que transmitia verdade em cada nota. “Meu Deus”, sussurrou Marcelo. “De onde é que saiu este gajo?” O Leonardo não respondeu. Estava absorto na música, quase hipnotizado.
Algo naquela voz o transportava no tempo para os anos de estrada com Leandro, para as raízes que por vezes ficavam esquecidas no meio do sucesso e às adaptações ao mercado. Quando o Zé terminou, houve um momento de silêncio reverente no estúdio. Até os técnicos de som, normalmente impassíveis após anos a ver artistas famosos, pareciam tocados.
E então? Perguntou o Zé inseguro perante o silêncio. Foi muito mau? Leonardo aproximou-se com os olhos marejados. Zé, isso foi extraordinário. Tem o dom, o verdadeiro dom. Marcelo concordou entusiasmado. Leonardo, precisamos gravar isso propriamente. Esse homem tem uma voz única. Gravar? O Zé parecia não acreditar. O senhor quer gravar-me? Cantando.
Leonardo colocou a mão no ombro do homem. Não, Zé, quero muito mais do que isso. Tenho uma proposta para si. Enquanto explicava a sua ideia, Leonardo podia ver a incredulidade nos olhos dos Zé, dando lugar à esperança, uma emoção que aquele homem provavelmente não sentia há muito tempo. Era como assistir alguém a voltar à vida depois de anos adormecido.
Não sei se mereço isto disse o Zé com a voz embargada. Depois de tudo o que fiz, de todos os que desiludi, todos merecem uma segunda oportunidade, Zé. respondeu Leonardo, pensando nas suas próprias batalhas, nos seus próprios erros. A vida é cheia de altos e baixos. O que importa é o que fazemos quando temos a hipótese de subir novamente.
Nessa noite, enquanto o Zé dormia num dos quartos do estúdio, o primeiro lugar confortável e seguro em anos, Leonardo publicou nas suas redes sociais um pequeno excerto do vídeo que tinha gravado na rua acompanhado de uma mensagem. Hoje a música surpreendeu-me numa calçada de Goiânia. Uma voz do povo, uma voz da alma. Em breve vocês conhecerão esta história que me tocou profundamente. Aguardem.
O vídeo mostrando apenas 15 segundos do Zé cantando boate azul já acumulava milhares de visualizações nos primeiros minutos. A curiosidade estava plantada. Leonardo sorriu ao pensar em como a vida dava voltas. Talvez aquele encontro tivesse sido um presente não só para Zé, mas para ele próprio, um lembrete do poder transformador da música e das segundas oportunidades, que começara como um encontro casual num semáforo, estava prestes a transformar-se em uma história que comoveria todo o Brasil. Não.