Elis Regina Disse que Luiz Gonzaga Nao Sabia Cantar – A Resposta Dele Mudou Tudo

ficou a olhar por um tempo que pareceu longo e disse uma coisa em voz baixa baixa, mas o Márcio Leal ainda estava  com o auscultador no ouvido e o rolo a rodar, e captou cada palavra com uma clareza que ele disse que nunca esqueceu enquanto viveu. Gonzaga disse: “O meu pai morreu sem me ouvir cantar numa vitrola.

Eu jurei que ia mudar isso e mudei. Mas há gente que acha que o que eu faço não é  cantar. Tudo bem, eu canto para o meu pai. Ele ouvia. O zabumbeiro Calu  não disse nada. O Zé do Norte encostou o acordeão na parede com um cuidado tão exagerado  que parecia que estava com medo de fazer barulho.

E Márcio Leal na cabine  baixou a cabeça e fingiu estar ajustando algo no painel. Ninguém falou nada.  Gonzaga bebeu a água, levantou-se, colocou a concertina nos ombros e gravou a quarta música como se a pausa não tivesse acontecido, mas ela tinha acontecido e Márcio Leal carregou aquilo durante dois anos.

Ainda não sabe o que fez com que Márcio Leal gravasse a entrevista de Elis Regina sem autorização de ninguém. Quando souber,  a história vai mudar completamente de forma. Existe um tipo de sofrimento que só quem saiu do Nordeste conhece de verdade. Não é a saudade bonita das canções de São João. É uma coisa mais pesada que fica no fundo do estômago, que aparece na hora  errada quando se está numa rua movimentada de São Paulo, num autocarro apertado, num botequim cheio de gente que fala diferente  e de repente cheira a fritura de

milho ouve uma concertina ao longe e o todo o nordeste cai em cima de si de uma  vez. Gonzaga sabia disso. Ele não só sabia ele tinha feito disso  música, shot das meninas, a volta da asa branca. Vozes da seca. Cada uma dessas músicas  era uma fotografia de uma dor que ele conhecia por dentro, que tinha vivido no corpo antes de colocar em palavra e melodia, uma dor  que precisava de acordeão e de uma voz que não tivesse vergonha de ser nordestina.

E foi exatamente essa voz, essa voz que não tinham vergonha, que eles, a Regina, aos 21 anos,  disse não ser canto. A entrevista decorreu numa tarde de quinta-feira num programa da rádio Jovem Pan  em São Paulo. Elis tinha acabado de gravar um especial de televisão  e estava a promover um novo compacto.

O entrevistador, um locutor chamado Ari Campos,  que tinha uma forma de fazer perguntas que deixava os artistas à vontade para falar demais,  perguntou-lhe sobre o panorama atual da música brasileira. Eles falaram de vários nomes com entusiasmo genuíno. Chico Buark, que  estava começando a surgir, Milton Nascimento, cuja voz ela tinha ouvido numa fita demo que circulava entre músicos de Belo Horizonte,  Caetano Veloso, que ela ainda não conhecia pessoalmente, mas que já considerava um fenómeno. E então

Ali Campos perguntou: “E Luiz Gonzaga,  ainda tem espaço para ele nesta música nova que está a chegar?” O que eles  responderam foi dito sem hesitação, sem crueldade aparente, com o tom de  quem está a ser honesta e não se apercebe do peso do que está pesando. Gonzaga  é um personagem, tem todo o respeito do mundo, mas cantar,  o que se chama cantar, ele não canta.

Ele grita o sertão. Tem emoção, sim, mas técnica, a colocação de voz não existe. Aquilo é folclore. É importante  como folclore, mas não é música no sentido que estamos construindo agora. Ari Campos ficou em silêncio durante um segundo, depois  disse: “Percebo” e mudou de assunto. Márcio Leal, que estava na cabine de som daquele estúdio de rádio nessa tarde,  porque tinha arranjado emprego na Jovem Pan depois de sair do estúdio da rua Pai Sandu,  não mudou de assunto. Fez algo que nunca explicou

direito para ninguém. Ao invés de desligar o gravador, como era protocolo depois do programa,  deixou-o rodar e gravou mais 4 minutos daquela conversa já fora  do ar, já com os microfones de estúdio tecnicamente desligados, mas  captados por um microfone ambiente da cabine que continuava ativo e que ninguém se tinha lembrado de cortar.

E foi nesses 4 minutos que a Elis A Regina disse algo completamente diferente do que tinha dito no ar. O problema real estava apenas a começar. Nos 4 minutos fora do ar, Elis falou menos do que Eri Campos. O locutor, aliviado de já não estar a gravar ou acreditando  que não estava, começou a expandir o que Elis tinha dito com o à-vontade de  quem não está a ser monitorizado, e disse algo que ela não contradisse, algo que ficou suspenso no ar daquele estúdio,  como uma sentença proferida num cartório notarial.

No fundo, Gonzaga já serviu,  já deu o que tinha para dar, agora é para aposentar. Eles não concordaram com isso, mas também  não discordou. ficou quieta e este silêncio de 4 segundos que Márcio Leal captou, que estava na fita, que depois chegaria até Gonzaga numa madrugada do Recife, foi, segundo quem  estava presente quando ele ouviu aquilo, a parte que mais pesou.

Não há crítica  sobre a técnica, o silêncio. Luís Gonzaga tinha 54 anos de 1965.  tinha saído de Exu, no sertão de Pernambuco, com 17 anos e um acordeão nas costas, a tocar em feiras  livres, em casas de família, em festas de interior, onde o único  cachet era a comida e um local para dormir no chão, até chegar ao Rio de Janeiro e construir uma  carreira que nenhum homem nascido naquele sertão tinha construído antes.

era filho de Januário, o acordeonista, que não tinha deixou-o tocar quando era menino,  porque achava que a concertina era instrumento de vagabundo, e que anos depois, quando ouviu o filho na rádio pela primeira vez, chorou em silêncio num quarto  sem janela, enquanto o resto da família gritava de alegria na sala, o mesmo filho que tinha prometido ao pai que ia fazer a concertina virar respeito.

E agora aquele silêncio de  4 segundos numa gravação clandestina numa rádio de São Paulo,  dizia sem dizer: “Já deu, já foi, reforma-se”. Quando Severino  Braulio entregou a fita, eram quase 2as da manhã. Gonzaga estava num quarto de hotel barato no centro do Recife,  depois de uma apresentação numa tenda de forró, onde o pagamento tinha sido inferior ao combinado, como acontecia, com uma frequência que não devia acontecer mais com um  homem do seu porte.

O quarto cheirava bolor e cigarro de palha. Havia uma janela com persiana partida  que deixava entrar o barulho da rua misturado com o calor húmido da madrugada recifense. Gonzaga ouviu a fita duas vezes num gravador portátil  que transportava consigo desde metade dos anos 50, que tinha mais remendos do que original, mas que ele se recusava a trocar porque dizia que o som saía  mais quente nele.

Na primeira vez que ouviu, ficou quieto do princípio ao fim. Na segunda vez, quando chegou ao silêncio de 4 segundos depois de Ari Campos dizer: “É  para aposentar”, ele parou a fita. Ficou a olhar pro teto rachado por um tempo que Severino, sentado na única cadeira do quarto, descreveu depois como  uns 10 minutos, “Talvez mais.

Fui a perder a conta.”  Então, Gonzaga sentou-se na beira da cama, colocou as duas mãos espalmadas nos joelhos,  olhou para Severino e disse uma única coisa: “Amanhã cedo levas-me até uma rádio.  Qualquer rádio que me queira pô-lo no ar”, perguntou Severino. O que é que o senhor  vai fazer? Gonzaga não respondeu.

Pegou na concertina que estava encostada à parede, a galota de botão, a que chamava a velha, que tinha desde o final dos anos 40 e que tinha mais quilómetros do que a maioria dos camiões de retirante  que atravessaram o Nordeste no mesmo período e começou a tocar baixinho, quase sem  premir os botões, como se estivesse a falar com o instrumento em vez de lhe tocar. Era asa branca.

Não cantou a letra.  Só a melodia. Muito devagar, no silêncio daquele quarto que cheirava a tempo passado.  Severino ficou calado. O ventilador de teto girava com um barulho de esforço e a concertina de Gonzaga continuou a falar no escuro até que as duas vozes, a do instrumento e a da madrugada, se misturaram e ficaram na mesma.

Ainda não sabes o que Gonzaga disse naquela rádio no dia seguinte, mas o que disse e como disse,  ia começar uma corrente de eventos que nenhum dos envolvidos tinha planeado e que nenhum deles ia conseguir parar. A rádio foi a rádio Tamandaré, no centro do Recife, que entrava no ar às 6 da manhã com música nordestina e notícias do interior.

O locutor da manhã, um homem chamado Dedé Camilo,  que apresentava o programa A voz do sertão, há 14  anos, sem perder um único dia, recebeu Gonzaga à porta às 5:45, com uma expressão que misturava surpresa e o tipo de orgulho quieto que sentimos quando algo grande aparece sem avisar.

Não era todo dia em que o rei do baião aparecia numa rádio do Recife antes do amanhecer,  sem assessoria, sem produtor, sozinho e com uma concertina velha no ombro.  Gonzaga entrou, sentou-se em frente do microfone com a concertina no colo  e pediu uma coisa invulgar. Queria que o programa fosse para o ar sem apresentação  especial, sem fanfarra.

Queria entrar no ar como se fosse uma qualquer manhã de Recife, como  se fosse apenas mais um homem de Exu, que tinha uma concertina e um microfone à frente. Dedé Camilo não percebeu muito bem o que Gonzaga estava planeamento, mas concordou. Às 6:02 da manhã, Gonzaga entrou no ar. Não falou sobre Elis Regina, não falou sobre a entrevista da Jovem Pan, não falou sobre  técnica vocal, sobre a bossa nova, sobre o futuro da música ou sobre o passado do baião.

Não disse nada  que pudesse soar como defesa ou como queixa ou como a resposta de um homem ferido que precisava de se explicar.  O que ele fez foi tocar três músicas seguidas em direto, sem intervalo,  sem um único segundo de silêncio entre o fim de uma e o início da outra. Asa Branca, depois A vida do Viajante,  depois Vozes da Seca, três músicas que qualquer ouvinte do Nordeste sabia de cor, que qualquer  retirante acordado nessa madrugada, ouvindo rádio num quarto de cortiço em São  Paulo ou numa cozinha de

casa de taip em Caruaru, reconheceria nos primeiros três acordes,  sem precisar de ver o nome de quem estava tocando. músicas que não eram só música, eram documentos, eram atestados de existência de uma gente que o Brasil das grandes cidades preferia não ver. Quando terminou a terceira música,  aí sim ele falou, com aquela voz que arrastava o R e engolia o fim das palavras,  com aquela pronúncia que não escondia de onde tinha vindo, nem sequer tentava disfarçar o que era.

“Eu sei que há pessoas que acham que eu não sei cantar. Pode ser verdade. Não me formei-me em nenhuma  escola de música. Não aprendi a colocação de voz com ninguém. Aprendi com o meu pai, Januário, que também não aprendeu na escola  nenhuma. aprendeu com a necessidade e com o amor pelo instrumento.

Mas  quero dizer uma coisa para esta gente e quero dizer também para quem está a ouvir agora de manhã cedo, antes de ir trabalhar ou antes  de lembrar que não tem trabalho. Eu não canto para impressionar, nunca cantei para isso. Eu canto para que se lembrem que existem, porque há muito brasileiro que está a ser esquecido todo dia.

gente do nordeste que saiu da seca, que andou légua e légua, que chegou às  grandes cidades e desapareceu no meio da multidão como se nunca tivesse tido nome. E enquanto eu tiver acordeão e voz, seja essa voz boa, seja ela má,  vou cantar este esquecimento até que alguém o ouça verdadeiramente.

Uma pausa curta, pesada, como pedra de rio.  E se um dia aparecer alguém que canta melhor do que eu e que faz a mesma coisa que lembra quem está a ser esquecido, que coloca a voz no lugar do pessoas que não têm voz, eu paro logo e aplaudo de pé, sem  inveja, sem mágoa, com muito orgulho.

Foi isso, sem citar nome nenhum,  sem atacar ninguém, sem pedir que ninguém tomasse partido. Dedé Camilo, que estava do outro lado do vidro com os olhos vermelhos, premiu o botão do intervalo comercial com a mão que tremia ligeiramente e ficou quieto  durante algum tempo, sem conseguir dizer nada.

Mas aqui está a parte que completa tudo, a parte que responde à  pergunta que tu estava a carregar desde que a fita foi mencionada pela primeira vez. Márcio Leal estava a ouvir a rádio Tamandaré naquela manhã. Estava  em São Paulo, no apartamento que partilhava com outros dois funcionários da Jovem Pan, tomando café antes de ir trabalhar, com um pequeno rádio de pilhas em cima da mesinha da cozinha, quando ouviu Gonzaga falar:  “Eu canto para que vocês lembrem-se que existem”.

ficou parado com a chávena na mão por um tempo que não soube medir. Depois pousou a chávena, pegou  o telefone, ligou para a jovem Pan, pediu para falar com Ari Campos  e disse que precisava de entregar uma fita. A fita com os 4 minutos fora do ar, a fita  com o silêncio de eles.

Ari Campos recusou com uma firmeza que não deixava  espaço paraa negociação. Disse que não ia fazer nada com aquilo, que a conversa tinha sido off the record,  que colocar aquilo no ar ia criar um problema desnecessário que não beneficiava ninguém. E desligou.  Mas o Márcio Leal não tinha ligado a Ari Campos com intenção de o convencer.

Tinha ligado por protocolo,  por uma última verificação de consciência, porque o que ele ia fazer a seguir já estava  decidido desde o momento em que ouviu Gonzaga no rádio de pilha da cozinha. Ele entregou a fita ao eles, Regina, directamente, sem intermédio, sem bilhete explicativo, apenas a fita, com um pedaço de papel colado na caixa  onde estava escrito o número do bloco e do minuto, onde começava a parte fora do ar.

Eles, Regina, ouviu a fita no mesmo dia  num leitor de cassetes da sala do apartamento dela em São Paulo. Ouviu ela própria ser gravada sem saber. ouviu o silêncio de 4 segundos  depois de Ari Campos dizer: “É para se aposentar”. E ouviu porque Márcio Leal tinha gravado também o troço da Rádio Tamandaré,  captado no rádio do automóvel enquanto conduzia pelo centro do Recife.

Naquela manhã, ouviu Gonzaga dizer: “Eu canto para que se lembrem que existem  com aquela voz que não tinha vergonha de nada. O que ele sentiu quando ouviu aquilo só ela sabia. Mas o que ela fez depois? Isto Márcio Leal soube. Dois dias depois, recebeu uma carta  não enviada pelo correio, entregue em mão por um menino que trabalhava como office-boy na estação e que  disse só que uma rapariga pediu para entregar.

A carta era curta, escrita à mão com uma letra que ia ficando mais irregular no final das linhas, como quem escreve mais depressa do que o pensamento quer. Sem cabeçalho, sem data, sem assinatura completa, só  L no final, em letras mais pequenas. A carta dizia: “Eu disse uma coisa que não devia ter dito daquela maneira.

Não sobre a técnica. Sobre a técnica. Eu Continuo a achar que tinha razão e não vou fingir que não.  Mas sobre o que é cantar e para que serve sobre isso, eu errei. Errei feio.  Se você souber como chegar até ele, ajuda-me. Márcio Lealu aquela carta três vezes, dobrou-a, guardou  no bolso da camisa e ficou com ela no bolso durante dois dias antes de fazer qualquer coisa.

Então  ajudou. Em março de 1966, numa pequena editora do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, que gravava tanto samba como forró, sem fazer distinção de género ou de prestígio, sem preocupar-se com o que  estava na moda em São Paulo, eles, Regina e Luís Gonzaga, estiveram no mesmo local ao mesmo tempo pela primeira vez.

Não foi uma gravação conjunta, não foi um dueto planeado por editora, foi um encontro de 35 minutos  que aconteceu porque Márcio Leal organizou, porque Gonzaga aceitou sem perguntar muito  e porque eles aceitaram sem saber muito bem o que estava a aceitar, só sabendo que precisava de aceitar,  Gonzaga chegou primeiro.

Estava com a concertina, como sempre.  sentou-se numa cadeira no meio da sala de gravação vazia, onde não existia qualquer equipamento montado, apenas o cheiro de madeira velha e cigarro que impregna  toda a sala de gravação antiga do Brasil. A mesma postura de sempre, chapéu de couro ligeiramente inclinado,  as mãos grandes pousadas nos joelhos, com a calma de quem já esperou muita coisa na vida, e aprendeu que a espera não altera o que vai chegar.

Elis chegou 6 minutos depois, entrou pela porta, viu o Gonzaga sentado  no meio da sala, parou por um segundo, um segundo que Márcio Leal, no canto com um pequeno gravador,  que nenhum dos dois tinha percebido, disse que foi o segundo mais longo que ele já testemunhou,  sem que nada acontecesse de fora.

Então, ela foi até ele, ficou parada à sua frente  e disse: “Sem rodeios nenhuns: “Eu sei que o Senhor ouviu o que eu disse. não devia ter dito daquela maneira.  Gonzaga olhou para ela por um longo momento. Uma pausa de consideração do tipo que se aprende quando se cresceu num lugar onde as palavras custam  caro e o silêncio que precede uma resposta faz parte da resposta.

Depois disse com uma voz tão calma que parecia que tinha ensaiado aquilo toda a vida, mas sem a cadência de quem  ensaiou. Menina, você tem uma voz que nunca vou ter. Isso sabe. Eu sei  também. Mas há uma coisa que ainda vai aprender, porque é nova e novo aprende. Cantar  não é só a voz, é de onde vem a voz.

A minha vem de um lugar que dói, de um lugar que a maioria das pessoas prefere não olhar. E esse lugar não precisa de técnica, precisa de verdade. Técnica  é instrumento. Verdade é o que faz valer o instrumento alguma coisa. Eles ficaram em silêncio por um momento que também durou mais do que os silêncios  comuns.

Depois fez algo que Márcio Leal disse que não esperava. Ela  puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Gonzaga, não à frente, ao lado, e disse com voz  que tinha perdido todo o verniz de artista consagrada. Então ensina-me a sentir isso. Gonzaga olhou para ela. Uma expressão que Márcio Leal descreveu como  a cara de um homem que acabou de compreender que o mundo ainda pode surpreender. Não respondeu com palavras.

pegou na galota, colocou-a nos ombros e começou  a tocar asa branca baixinho, devagar, no mesmo ritmo quieto daquela madrugada do Recife, quando Severino  Braulho estava sentado na cadeira e o ventilador rodava pesado no teto. E eles, a Regina, com 22 anos, a voz mais tecnicamente perfeita do Brasil naquele momento, cantou em conjunto, sem partitura,  sem arranjo, sem ensaio, com a voz baixa, quase só para  dentro, como quem está a aprender a rezar numa língua que nunca ouviu antes, mas que

reconhece de algum lugar que não sabe nomear.  Márcio Lealha o microfone ligado. Ele tinha sempre o microfone ligado. A gravação existe. 31 segundos de Asa Branca, cantada por Elis Regina e Luís Gonzaga juntos numa sala vazia da Lapa  em março de 1966, sem público,  sem câmara, sem nenhum planeamento, além de dois artistas num mesmo espaço,  tentando compreender-se um ao outro através do único idioma.

que os dois partilhavam de verdade, 31 segundos onde a voz treinada e a voz do sertão encontram-se numa melodia que qualquer pessoa que cresceu ouvir rádio nos anos 50 conhece de cor e onde ficam juntas, sem ter de provar nada para ninguém. Esta gravação nunca foi publicada.  Está numa fita guardada num sítio que só duas pessoas sabem.

Uma delas é um sobrinho de Márcio Leal, investigador de música popular em São Paulo,  que a ouviu uma única vez e disse que é a coisa mais bela e mais estranha que já escutou na vida bonita  pelo que é, estranha pelo que representa. A outra é uma investigadora que trabalha com o acervo sonoro de rádios antigas do Rio e que prometeu não revelar o paradeiro enquanto os herdeiros dos mesmos  não autorizarem a divulgação.

Mas ela existe. 31 segundos. Asa branca, uma sala vazia, dois artistas  maiores do que qualquer discussão sobre técnica. Escreve aqui em baixo: “Você acha que esta gravação um dia vai ser lançada? E se lançar,  você estaria pronto para ouvir? Luís Gonzaga não lhes respondeu, a Regina nos jornais, não deu conferência de imprensa, não gravou nenhum disco para provar que sabia  cantar.

A resposta dele foi subir a um estúdio de rádio numa manhã fria do Recife  e fazer o que sempre fez cantar para quem estava a ser esquecido, sem pedir licença para ninguém.  A resposta de Gonzaga foi a mesma coisa que a vida toda dele tinha sido:ença, insistência, a teimosia  nordestina de continuar a existir em voz elevada quando tudo à volta sugere que é hora de calar.

A crítica de não o destruíram, fizeram exatamente o contrário, revelou em voz alta algo que Quem cresceu a ouvir Gonzaga na rádio, quem  carregou o sertão dentro do peito, mesmo vivendo longe dali? Quem chorou a ouvir asa branca? sem conseguir explicar porquê  chorava, já sabia sem precisar de explicação.

Que existe um tipo de cantar que não cabe em régua nenhuma, que há uma  voz que não precisa ser bonita para ser verdadeira, e que o O Nordeste produziu um artista que não cabia na régua de ninguém, porque ele mesmo era a  régua. Elis, Regina entendeu isso numa sala vazia da Lapa em Março de 1966  e cantou Asa Branca ao lado do rei do baião com a voz baixa de quem está a aprender algo que nenhuma escola do mundo ia ensinar.

Se você carrega o sertão ao peito e nunca esqueceu o que Gonzaga representou, se inscreve no canal,  porque as histórias que ficam guardadas no fundo desta memória nordestina não acabam aqui. O que acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada.  Há um episódio que aconteceu alguns anos depois dessa noite, quando Luís Gonzaga estava num dos momentos mais difíceis da sua carreira, lutando  contra o esquecimento e contra dívidas que não deviam existir em nome

de um homem daquele tamanho. E um sem-abrigo parou-o na calçada de uma cidade do interior, pedindo 10 cruzeiros. O que Gonzaga fez naquele momento não foi o que qualquer pessoa esperaria.  Foi algo menor do que isso e muito maior do que isso. Algo que as pessoas  presentes naquela calçada contaram durante décadas com a voz embargada.

Esta história está aqui no canal. Um sem-abrigo pediu  10 cruzeiros a Luís Gonzaga. O que ele fez emocionou a todos. M.

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