O Brasil era um país que ouvia e Paulo Sérgio estava prestes a tornar-se uma das vozes mais ouvidas deste país. Mas há um pormenor que muda tudo. Quando Paulo finalmente conseguiu o primeiro contrato com uma editora discográfica em 1967, não foi contratado da forma que os outros cantores eram. Ele negociou uma coisa diferente, uma coisa rara para um cantor popular dos anos 60.
E foi esta negociação que ia transformar o filho de Alfaiate em muito pouco tempo num dos homens mais ricos da música brasileira. A história começa a mudar a sério em 1967. O Paulo tinha 23 anos e foi acompanhar um amigo num teste de canto na editora Caravele no Rio de Janeiro. O amigo é que ia testar.
O Paulo só foi para tocar guitarra e dar uma força, mas no meio do teste, um sujeito chamado Álvaro Menezes, caça talentos da editora, ouviu o Paulo cantar olando baixinho e parou tudo. Olhou para o dono da Caravel e disse uma frase que ficou para a história: “Este aqui vai ser um sucesso absoluto. O contrato foi assinado no próprio dia.
Mas há um pormenor que muda tudo e poucos brasileiros sabem disso. Paulo Sérgio não foi contratado apenas como cantor. Ele negociou uma coisa rara para a época. Ganhou participação societária na editora discográfica, era sócio. Quem é da indústria sabe que este quase não acontecia naquela época. cantor era contratado, recebia um cachet e pronto.
Paulo Sérgio entrou de outra forma. Entrou como dono de pedacinho do negócio e o resultado veio rápido. Em 1968, lançou um compacto com uma música que um menino de Governador Valadares tinha composto aos 16 anos de idade. A música chamava-se Última Canção. Vendeu 60.000 exemplares em três semanas. Naquela época, este tipo de número só Roberto O Carlos conseguia.
Logo depois, saiu o primeiro LP, o Paulo Sérgio volume 1. Vendeu 800.000 exemplares. Para você ter ideia do tamanho deste, anos mais tarde, numa sondagem do Jornal do Brasil, este disco foi eleito o quarto mais importante da história da música brasileira em número de êxitos simultâneos tocando na rádio o quarto de toda a história.
E depois veio a comparação que ia marcar a vida do Paulo para sempre. A voz dele era demasiado parecida com a voz de outro cantor capixaba, Roberto Carlos. Os dois tinham nascido no Espírito Santo, os dois cantavam balada romântica, os dois faziam chorar uma mulher na rádio. E começou aquela coisa de chamar a Paulo Sérgio de imitador, de cópia, de segundo Roberto Carlos.
E aqui a maioria das pessoas até hoje pensa a mesma coisa. Paulo Sérgio era um imitador e faz sentido pensar assim, porque a voz era de facto parecida. Mas há uma coisa que poucos conhecem. Quem desmentiu esta história foi o próprio Roberto Carlos. Anos mais tarde, disse com todas as letras.
Até me confundi com ele ouvindo na rádio. E não acho errado ele começar por imitar, porque eu também Comecei por imitar o João Gilberto. Pensa nisso. O rei em pessoa a dizer que Paulo O Sérgio era único. Preocupamo-nos em saber se eu imito ou não o grande ídolo Roberto Carlos. de de quem sou fã. Não me preocupo em imitar Roberto Carlos, porque cada um de nós deve realmente adquirir a sua própria personalidade, que só o tempo pode dizer: Deus deu-me esta voz, colocou-me perante o público através o disco nesta hora. Todos criam uma dúvida sobre a
a minha carreira artística e assim a coisa vai passando. Tomara a Deus um dia que eu possa realmente provar a todos e convencer que o meu ideal é levar a mensagem de paz. com muito otimismo e amor. As minhas músicas são assim um bocadinho carinhosas, todo podem notar. Em 1972 veio o salto definitivo.
Paulo assinou com a editora Copacabana o que foi descrito na época como um dos maiores contratos já feitos por um cantor brasileiro. Mudou-se para São Paulo e aí, no interior de São Paulo conheceu Raquel, filha de ricos lavradores da cidade de Castilho. Os dois casaram-se em segredo numa cerimónia simples e discreta. Em 1974, nasceu Rodrigo, o único filho do casamento oficial.
E Paulo, transbordando de amor de pai, compôs para ele uma das declarações mais bonitas de toda a MPB: “Quero ver-te feliz”. Nesta altura, Paulo já era contratado fixo do Silvio Santos no programa Os Galãs Cantam e Dançam. Quem viveu os anos 70, recorda: era sábado à noite, a família reunida na sala e os galãs do momento apareciam todos arranjados, dançando coreografia, cantando os êxitos da época.
Paulo Sérgio era um dos rostos certos da televisão brasileira. E aí vem o pormenor que muda tudo. Para que tenha dimensão do tamanho deste tipo, o diretor da A editora Copacabana declarou anos depois que a morte do Paulo Sérgio representou para a empresa um prejuízo de mais de 10 milhões de dólares por ano. Por ano, não, no total, por ano.
A Copacabana nessa época empregava mais de 1000 funcionários e Paulo Sérgio era um dos pilares que sustentavam o faturação dessa estrutura toda. 13 anos de carreira, 13 álbuns, mais de 10 milhões de exemplares vendidos, um Chevrolet, Camaro, Cor gelo na garagem, dois autocarros de digressão, várias casas espalhadas, lotes, uma quinta em Itapecerica da Serra, motorista particular.
Tudo isto construído por um filho de um alfaiate do interior do Espírito Santo em pouco mais de uma década. E agora surge a pergunta que ninguém faz. Para onde foi tudo isto? Porque hoje, em 26, 40 e6 anos depois da morte do Paulo Sérgio, ninguém sabe dizer onde está o Camaro. Ninguém sabe dizer onde foram parar as casas, ninguém sabe dizer para quem foram os autocarros.
desapareceu tudo como se nunca tivesse existido. Mas tem uma coisa que sobrou, uma coisa que está guardada até hoje. E o lugar onde esta coisa está guardada é tão estranho, tão fora do esperado, que quando se descobrir vai pausar o vídeo só para processar. A questão que abre este capítulo é simples e ao mesmo tempo é uma das questões mais difíceis de responder desta história inteira.
Para onde foi o património do Paulo Sérgio? Quem deu a resposta mais direta foi a A sua própria filha, Jaqueline, numa entrevista ao jornal Estado de Minas em 2014. A frase dela é curta, mas dói. Ela disse o seguinte: “Muita coisa do património do meu pai acabou por se perdendo, casas, lotes e até dois autocarros que possuía. Sumiu. Simples assim.
Não tem inventário público conhecido, não há uma casa transformada em museu, não tem placa em fachada de edifício, nem na cidade onde nasceu, lá em Alegre, no Espírito Santo, prestaram uma homenagem decente. Uma jovem de Alegre disse numa reportagem com aquela tristeza calma de quem aceitou a injustiça.
Nunca fizeram muita coisa por ele aqui. Camaro cor gelo. Aquele mesmo carro que estava estacionado na noite da pedrada evaporou. Ninguém sabe para onde foi. Sem leilão público, sem doação documentada, sem registo nenhum, os dois autocarros de digressão desapareceram. A quinta em Itapecerica da serra, onde passou os últimos anos cultivando planta e criar galinha, endereço atual desconhecido, proprietário atual desconhecido.
As outras casas, os outros lotes perdidos todos. E aqui a maioria dos pessoas pensa a mesma coisa. Ah, deve ter ficado com a família, com a ex-mulher, com os filhos. E faz sentido pensar assim. Geralmente é o que acontece. Mas no caso do Paulo Sérgio, o património do maior vendedor de baladas românticas do Brasil simplesmente evaporou.
É como se tivesse virado fumo no ar, mas há uma coisa que sobrou. E é aqui que entra esta história num território que parece um roteiro de filme. Chama-se Adelina Macedo. Ela é diarista, vive em São Paulo, nasceu na cidade de Itú, no interior de São Paulo. E em 1967, quando tinha pouco mais de 20 anos, ouviu Paulo Sérgio cantar pela primeira vez na rádio.
E ali, naquele momento, ela tomou uma decisão que ia definir o resto da vida dela. Ela decidiu que ia dedicar a vida inteira àquele cantor e dedicou de verdade. Mudou-se para São Paulo apenas para acompanhar a carreira do ídolo. colheu a profissão de diarista precisamente porque o horário flexível permitia que ela seguisse o Paulo nas digressões pelo Brasil.
Ia a um concerto, esperava à porta dos teatros, guardava cada recorte de jornal, cada revista, cada foto. E aqui vem o pormenor que faz qualquer pessoa parar para pensar. Adelina nunca se casou, nunca. Os namorados que apareciam na vida dela ficavam com ciúmes do Paulo Sérgio. Ela escolheu o ídolo, adotou informalmente o seu apelido e passou a chamar-se Adelina Macedo.
Mais tarde, adotou uma filha de criação e batizou a menina de Jaqueline, em homenagem à verdadeira filha do Paulo Sérgio, que ela nunca tinha visto pessoalmente. Nesta cena por um segundo, uma mulher do interior de São Paulo, diarista, sem nunca ter trocado uma palavra íntima com o cantor, escolheu construir a vida inteira à volta da imagem dele.
Casa, profissão, amor, filha, tudo girando ao redor do Paulo Sérgio. E hoje, em 2026, num quarto da casa dela, em São Paulo, está guardado o único museu de Paulo Sérgio que existe no Brasil. Não é um museu oficial, não tem NIF, não tem visita guiada, é o quarto da Adelina e o que tem dentro deste quarto vai deixar-te sem palavras.
A última bota que Paulo Sérgio calçou em vida está lá. A bota que tirou pela última vez, antes do AVC, antes do circo, antes da pedrada, está guardada num quarto de uma diarista de São Paulo. O certificado de óbito original do cantor, o documento oficial assinado pelo médico no dia da morte, também está lá. Fotografias pessoais, revistas e jornais de época, recortes amarelados, objetos íntimos, quase seis décadas de coleção.
Praticamente tudo que era do Paulo Sérgio está comigo. Ela disse numa entrevista de 2014 com uma simplicidade que dói de ouvir. E aqui é o tipo de história que divide as opiniões na hora. Há quem olhe para Adelina e veja o amor verdadeiro, a devoção absoluta, fidelidade que poucos têm coragem de viver. Há quem veja uma vida inteira dedicada a alguém que nem sabia direito que ela existia.
Eu não vou julgar nenhum dos dois lados. Cada um pensa o que quiser. Mas o facto é esse. Sem a Adelina, possivelmente nem essa bota existiria mais. Possivelmente nem o certificado de óbito estava preservado. Possivelmente o Paulo Sérgio teria evaporado da memória material desse país. Do mesmo modo que o Camaro evaporou.
Enquanto a família perdia casa, lote, carro e autocarro, uma diarista do interior, sem dinheiro, sem fama, sem ninguém a pedir nada, guardava cada pedacinho do ídolo num quarto qualquer de São Paulo por amor, só por amor. Mas enquanto Adelina dedicava cada cêntimo da vida dela à memória do cantor, os últimos anos do Paulo Sérgio tomavam um rumo bem diferente, porque por detrás dos discos de ouro, do contrato milionário e do Camaro Corelo, havia um homem que estava a ficar cada vez mais sozinho.
E esta solidão ia desembocar numa noite que mudou tudo. Em 1978, após 6 anos de casamento, Paulo O Sérgio separou-se da Raquel. O motivo apontado pelos amigos próximos era um só, ciúme. As fãs não davam sossego ao casal, nem de dia nem de noite. Telefonema no apartamento. Mulher à espera à porta do hotel.
Bilhete debaixo da maçaneta. Era o tipo de assédio que destruiu muito casamento de famoso na década de 70 e com Paulo Sérgio não foi diferente. Depois do desquit, ele fez uma coisa que ninguém esperava. Comprou uma quinta em Itapecerica da Serra, na grande São Paulo, e simplesmente desapareceu. Largou os holofotes, convidou os pais para viverem com ele, começou a criar galinha, a cultivar planta, plantar hortaliça.
Ficou quase um ano e meio sem gravar novo disco, quase um ano e meio sem dar entrevista, quase um ano e meio fora da televisão. Os mais íntimos dizem que estava triste. Sentia a falta do filho Rodrigo, que ficou a viver com a mãe. Numa entrevista da altura, soltou uma frase que assustou os amigos. Disse que pretendia parar de cantar quando completasse 40 anos. 40.º Ele tinha 34 na altura.
Tava planeiam aposentar-se cedo, viver no sítio, longe de tudo. E quem conviveu com ele descreve um homem que não combinava com a imagem do astro. Era simples, quase tímido. Uma fã chegou a contar que quando ia visitar o Paulo à quinta, ele próprio ia até à cozinha, tirava a panela do fogão e colocava-a na mesa.
Servia o almoço, sem auxiliar, sem cozinheira, sem cerimónias. era um tipo comum que tinha uma voz extraordinária. Só isso. E aqui é o tipo de personagem que o brasileiro dos 40 aos 50 anos conhece de algum lugar. Aquele tio que conquistou tudo na vida, mas nunca pareceu feliz. Aquele vizinho rico que vivia sozinho no maior sobrado da rua. Aquela tristeza calada de quem tem fila de pessoas à espera de um autógrafo na rua.
Mas não há ninguém na cama na hora de dormir. A solidão de quem brilhou demais e queimou-se no próprio brilho. Mas tem um pormenor que muda tudo. Foi nesse estado emocional meio recolhido, meio desencantado, que Paulo Sérgio acordou num qualquer domingo de julho de 1980, sem fazer a mínima ideia de que aquele era o último dia da sua vida.
Dia 27 de Julho de 1980 começou normal. De manhã, o Paulo foi gravar um programa de televisão na TV Bandeirantes. O programa era O Clube do O Bolinha, apresentado pelo Bolinha, um dos rostos mais conhecidos da TV brasileira da época. Quem viveu aqueles anos recorda o Bolinha, programa de auditório animado, repleto de música e brincadeira.
Paulo apareceu, cantou em playback duas canções do Disco Novo. O que mais queres de mim e coroação? Sorriu para as câmaras, conversou com o Bolinha e foi-se embora. Saindo do Teatro Bandeirantes, na Avenida Brigadeiro Luís António, em São Paulo, encontrou o que encontrava sempre à saída de qualquer programa. Uma multidão de fãs rodeando o carro. Era a rotina.
Paulo geralmente parava, dava um autógrafo, pousava paraa foto, ouvia uma palavra ou outra de carinho e seguia. Só que nesse dia, no meio dos fãs, havia uma mulher diferente. O nome dela era Oneida. E Oneida começou a hostilizar o Paulo à frente de toda a gente. Falava da ex-mulher Raquel, falava de coisas íntimas que ela dizia saber sobre o casamento dele, soltava palavrões.
Paulo tentou ignorar. Entrou no carro, fechou a porta, ligou o motor e foi aí que Oneida apanhou uma pedra do chão e disparou. A pedra voou, acertou em cheio no pára-brisas do Chevrolet Camaro, corelo e rebentou o vidro. Paulo, completamente fora de si naquele momento, saiu do carro e correu atrás da mulher. Ela fugiu.
Os amigos seguraram o cantor, conseguiram acalmá-lo e convenceram a deixar para lá. tinha mais dois espectáculos para fazer nessa noite. Não dava para perder, mas alguma coisa tinha mudado dentro do corpo dele. Logo depois desse episódio de raiva intensa, Paulo começou a sentir uma forte dor de cabeça. Não era uma dor de cabeça comum, era diferente.
Era aquela dor profunda, pulsante, que avisa que alguma coisa séria está acontecendo. Tomou dois analgésicos de uma vez, cerrou os dentes e foi para o primeiro concerto. O primeiro era num circo em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Paulo conseguiu cantar mal com a cabeça a latejar, mas conseguiu. Terminou o espetáculo, recebeu uma palma do público, foi para o camarim respirar e seguiu para o segundo compromisso da noite, outro circo, este em Itapecerica da Serra, o circo Rosemir.
E foi nesse picadeiro de Itapecerica que aconteceu a cena que abriu este vídeo. Paulo Sérgio subiu ao palco, começou a cantar pro público que o tinha esperado a noite inteiro e depois de cinco músicas, o O corpo dele simplesmente deixou de obedecer. Levou a mão à fronte, empalideceu, pediu desculpa à plateia, prometeu que voltava outro dia para terminar o espetáculo e saiu cambaleando em direção ao camarim.
Uma bailarina que estava lá nos bastidores, chamada Suelle, viu de perto o que aconteceu. Ela contou depois, numa entrevista que O Paulo chegou ao camarim já balbuciando, babando, sem conseguir formar uma frase. Ela deu-lhe mais dois comprimidos. Não adiantou. Paulo desabou. foi levado à pressa para o biospital Piratininga, de aí transferido paraa UCI do Hospital São Paulo.
O diagnóstico veio rápido e cruel: Derrame cerebral hemorrágico, coma profundo. Os médicos não deram esperança. Na segunda-feira de manhã, o chefe da equipa médica chamou a família e disse a frase mais difícil que um médico precisa de dizer: “As probabilidades de sobrevivência são mínimas, quase nulas”. Na terça-feira, 29 de julho de 1980, às 20h30, Paulo Sérgio de Macedo morreu. Tinha 36 anos.
A Rede Globo interrompeu a programação para dar a notícia. O velório foi no cemitério de Vila Mariana, em São Paulo. Apareceram amigos de carreira que ficaram até ao fim. Jerry Adriane, Benito de Paula, o O Bolinha, que tinha feito o último programa dele dois dias antes. Roberto Carlos não pôde ir, mas mandou uma coroa de flores com uma frase escrita à mão que ficou para a história da música brasileira.
A frase era esta: “O meu coração está de luto, pois morreu o meu grande ídolo.” O homem que durante 12 anos foi chamado de rival do Paulo Sérgio, chamava-o, no momento da despedida de ídolo. No dia seguinte, a pedido dos pais, o corpo foi levado de São Paulo para o Rio de Janeiro. E aqui aconteceu uma coisa que mostra o tamanho do que o Paulo significava para o Brasil.
A A Rede Globo acompanhou o cortejo do helicóptero em direto, transmitindo a viagem inteira à televisão brasileira. No cemitério do Caju, mais de 100.000 pessoas tinham-se reunido para dar o último adeus. 100.000. O caixão baixou a sepultura ao som de Última Canção, a música que tinha lançado a carreira do menino de Alegre 13 anos antes.
Mas se acha que a tragédia da família Macedo termina aqui com a morte do pai aos 36 anos, preciso de te avisar uma coisa. O que aconteceu aos filhos do Paulo Sérgio depois é, em alguns casos, ainda mais doloroso do que a própria morte dele. E uma das três crianças que deixou no mundo, nunca, em momento nenhum da curta vida que teve, conseguiu sequer encostar o dedo no rosto do próprio pai.
Paulo Sérgio deixou três filhos no mundo, três crianças de três mulheres diferentes e cada uma das três histórias é mais difícil de contar do que a outra. A primeira filha chamava-se Paula Mara. Nasceu em 1970, quando Paulo ainda começava a rebentar nas rádios. A mãe era uma mulher chamada Odelis.
E aqui já começa a parte dura. Paulo nunca foi um pai presente para a Paula. Não criou, não acompanhou. A menina cresceu longe do pai famoso, viveu uma vida discreta e faleceu precocemente em abril de 2011, sem nunca ter tido a relação que merecia. A segunda filha chama-se Jaqueline, nasceu em 1971. A mãe era a cantora Marlene Cavalcante.
E a história da Jaqueline é a mais difícil de todas, porque Paulo Sérgio nunca, em momento algum da sua vida, conheceu pessoalmente essa filha. Nunca. Quem registou a Jaqueline lá no cartório foi a avó, a dona Hilda, mãe do Paulo. A A mãe da menina, a Marlene, teve de acionar a justiça para conseguir receber pensão de alimentos.
O cantor não pagava espontaneamente. Em 2014, numa entrevista ao estado de Minas, Jaqueline soltou uma frase que rebenta o coração de qualquer pai e de qualquer filho que esteja ouvindo isso. Ela disse o seguinte: “Eu não consigo compreender como é que um pai não quer conhecer a sua própria filha, mas eu Não o julgo e apesar dos pesares, sou alucinada com o papá.
Pensa nessa contradição. Ela ama um homem que nunca olhou para ela. Ama porque é pai, ama porque é sangue, ama porque é a única forma que ela encontrou de manter um pedacinho dele dentro do peito. E tem um pormenor que magoa ainda mais. Quando Paulo Sérgio faleceu em julho de 1980, Jaqueline tinha apenas 8 anos de idade.
Ela nunca tinha visto o pai pessoalmente, nenhuma vez. Quando soube da notícia, foi ao velório, no Rio de Janeiro, e olhou pela primeira vez na sua vida pro rosto do pai. Só que o pai estava dentro de um caixão. A frase que ela disse depois ficou marcada: “Nunca mais vou ver o meu pai de pé.
A única vez que o vi foi dentro do caixão. Pausa nesta cena”. Uma menina de 8 anos a caminhar até ao caixão, olhando para dentro e reconhecendo naquele rosto morto o homem que ela tinha visto toda a vida em capa de disco e foto de revista. Esse foi o único encontro. A terceira criança era o Rodrigo, nascido em 1974, único filho do casamento oficial com a Raquel, o filho do papel, o herdeiro do nome. O Rodrigo era a alegria do Paulo.
Foi para ele que o pai compôs aquela música linda chamada Quero ver-te feliz, que vocês conhecem. E aqui a história torna-se ainda mais cruel. Apenas 6 meses depois da morte do pai, com 6 anos de idade, o Rodrigo recebeu-se um diagnóstico que mudou tudo, a esclerose múltipla, uma doença degenerativa, sem cura, que ataca o sistema nervoso e vai destruindo o corpo com o passar dos anos.
O menino perdeu o pai e ganhou uma doença grave no espaço de se meses. E como se isso já não fosse pesado o suficiente, a família do Rodrigo descobriu uma coisa que ninguém estava esperando. O património do Paulo Sérgio tinha-se evaporado, as casas sumidas, os lotes perdidos, os autocarros ninguém sabia mais onde. Camaro desaparecido. A criança doente necessitava de tratamento caro e o dinheiro que lá deveria estar para cuidar dela simplesmente não existia mais.
Mas tem uma parte bonita nessa história. Os amigos do Paulo Sérgio uniram-se para salvar o filho dele. Lançaram no final dos anos 80 um disco chamado Paulo Sérgio e Amigos, utilizando uma tecnologia da época para juntar a voz do Paulo, já morto, com cantores vivos. Gravaram juntos o Antônio Marcos, o Chitãozinho e Chororó, o Vanderlei Cardoso, o Jerry e a Adriane, A Perla, o Jair Rodriguez e o auge do disco foi uma cena que faz qualquer pessoa chorar.
O Rodrigo, com 12 anos de idade, gravou um dueto com a voz do pai morto, cantando Quero ver-te feliz. Exatamente. A música que o Paulo tinha composto para ele quando era bebé, pai e filho a cantar juntos. 12 anos depois da morte do pai, todos os artistas cederam os direitos de autor pra criança. O disco vendeu mais de 2 milhões de cópias.
E o Rodrigo, o Rodrigo virou-se mágico profissional. adotou o nome artístico de Paulo Sérgio Júnior. Lutou contra a esclerose múltipla durante 36 anos. Casou com uma mulher chamada Joelma. Não teve filhos. E em 2016, depois de 106 dias internado num hospital em São Paulo, morreu. Tinha 42 anos. Foi sepultado no cemitério do Caju, exatamente ao lado do pai.
Pai e filho enterrados lado a lado, depois de uma vida inteira separados. E aqui tem que ficar uma observação sem julgamento, porque esta história não tem bom rapaz nem vilão. Há quem olhe paraa trajetória do Paulo Sérgio como pai e diga que foi irresponsável, omisso, ausente com as duas filhas que teve fora do casamento.
E há quem olhe e diga que ele foi um homem do seu tempo, um tipo dos anos 60 e 70 que viveu o que conseguiu viver com as ferramentas emocionais que tinha. Eu não vou dizer quem tem razão. A verdade provavelmente está no meio. A única coisa certo é que três crianças cresceram com pedaços em falta dentro do peito.
E é neste ponto, depois de tudo isto, que a gente precisa de parar e fazer uma pergunta. Uma questão que a história do Paulo Sérgio levanta-se de uma forma que poucas histórias da música brasileira conseguem levantar-se. Paulo Sérgio vendeu mais de 10 milhões de discos em vida. Hoje, mais de 45 anos depois da morte, ele tem mais de meio milhão de pessoas ouvindo-o todos os meses no Spotify.
Meio milhão. Para um tipo que morreu em 1980 num género musical que muita gente diz que já ninguém ouve. Todos os dias 2 de novembro, o cemitério do Caju recebe milhares de fãs a levar flor para o túmulo dele. Ruas em várias cidades brasileiras ostentam o nome dele. E é aí que nós chega ao ponto que dá sentido à história inteira.
Porque os luxos abandonados pelo Paulo Sérgio, quando olha-se de perto, não são só os luxos materiais, não é só o Camaro Corelo que sumiu. Não são só os dois autocarros que viraram pó. Não são só as casas e os lotes que escorregaram entre os dedos da família. Há aí outro luxo. E esse outro luxo é mais caro do que qualquer coisa que acumulou no auge da sua carreira.
O luxo abandonado pelo Paulo Sérgio foi o tempo. O tempo de ser pai presente das três crianças que ele trouxe ao mundo. O tempo de conhecer a Jaqueline, nem que fosse por uma única tarde, num único almoço, num único abraço. O tempo de ver o Rodrigo crescer, mesmo doente, mesmo lutando contra a esclerose múltipla.
O tempo de envelhecer ao lado dos pais que tanto amava na quinta em Itapecerica. o tempo de chegar aos 50, aos 60, aos 70 anos e olhar para trás e poder dizer para si próprio: “Valeu a pena. Foi uma boa vida”. Paulo Sérgio não teve este tempo. Foi silenciado por um acidente vascular cerebral aos 36 anos numa terça-feira de julho, depois de uma noite estranha em que uma fã enlouquecida atirou uma pedra ao pára-brisas do seu carro, como se o destino tivesse usado aquela cena.
para marcar com um som de vidro a rebentar o exato momento em que tudo começou a desabar. E talvez seja por isso que a música dele continua a tocar em 2026 em algum rádio AM perdido no interior do Brasil. Porque quando ouvimos Última Canção hoje, não estamos só ouvir uma balada romântica antiga. A as pessoas estão a ouvir o eco de um homem que cantou tudo o que pôde no tempo curto que teve e que deixou para trás muito mais coisa do que aquilo que conseguiu levar.
O património material evaporou-se, as casas perderam-se, o camaro desapareceu, os autocarros viraram pó, mas a voz essa ninguém conseguiu calar. nem o AVC, nem o esquecimento, nem o tempo. E enquanto tiver brasileiro a ouvir rádio, numa triste noite de domingo, Paulo Sérgio vai estar vivo de alguma forma.
Agora, me conta uma coisa com sinceridade. Na sua opinião, Paulo Sérgio merecia ter sido recordado do mesmo jeito que o Roberto Carlos? Opção um. Sim, ele foi tão grande quanto e o tempo foi injusto com ele. Opção dois, não. O Roberto teve uma carreira muito maior e a comparação não cabe. Escreve lá em baixo.
Eu leio cada comentário. Pode acreditar. Se você gostou deste vídeo, deixe o seu like, se subscreve aqui no canal, ativa o sininho para não perder os próximos. E olhe, no próximo desenterrando, vamos contar a história de outro cantor brasileiro dos anos 70, que morreu jovem, deixou uma fortuna que ninguém imaginava e cuja família entrou numa querela silenciosa que durou décadas.
Você não vai acreditar de quem se trata. Te espero por lá. Um abraço e até à próxima.