que ele nunca tinha conseguido esquecer. O coração dele disparou, as mãos suaram, deu um passo atrás instintivamente, como se aquilo fosse um golpe físico. Não podia ser. Não fazia sentido. A menina o encarou-a por mais um segundo, curiosa, e depois voltou a atenção para o caderno. Mas Luan continuou ali paralisado, com a respiração descompassada e uma sensação estranha a crescer dentro do peito, algo que não sentia há muito tempo. Medo.
Virou costas e saiu dali rápido, quase tropeçando nos próprios pés. Entrou no carro, bateu com força a porta e ficou ali a apoiar a testa no volante, tentando recuperar o controlo, mas não conseguia porque aqueles olhos, ele conhecia aqueles olhos e de repente todas as muralhas que tinha construído à volta do coração começaram a rachar.
O Luan passou o resto do dia tentando convencer-se de que tinha imaginado que era apenas a exaustão, o stress, a cidade a mexer com a cabeça dele. Mas não importava quantas vezes repetisse isso para si próprio. A imagem daquela menina não lhe saía da mente. À noite, deitado na cama do hotel simples onde estava hospedado, encarou o tecto e deixou a verdade invadir.
Não era só a semelhança dos olhos que o tinha abalado, foi o que sentiu ao vê-la. algo profundo, inexplicável, como se uma parte dele, uma parte que estava adormecida, tivesse despertado de repente, como se algo ou alguém do passado ainda fosse vivo. Ele fechou os olhos, mas o sono não chegou, porque no fundo o Luan sabia, sabia que aquela menina não era uma estranha qualquer, sabia que aqueles olhos pertenciam a alguém e sabia que, quer quisesse quer não, ele tinha acabado de abrir uma porta que jurava ter trancado para sempre. E agora
não havia mais volta a dar, porque algures naquela cidade, no meio das ruas que tentou esquecer, das memórias que enterrou, ainda existia algo que pulsava, algo que ele deixou para trás, algo que talvez nunca tenha realmente partido. Luan virou-se de lado, semicerrou os olhos com força e tentou não pensar, mas o coração esse já tinha começado a recordar.
E recordações, As lembranças não pedem licença para voltar. O Luan acordou com o sol a bater diretamente no rosto. Não tinha dormido direito. A noite toda, entre sestas rasos e despertares abruptos, aqueles olhos castanhos insistiram em voltar. Levantou-se irritado consigo mesmo, passou a mão pela cara e foi direto para o chuveiro. Água fria, muito fria.
Talvez assim conseguisse lavar aquela inquietação que teimava em colar-se à pele, mas não resultou. Enquanto se vestia, olhando pelo espelho embaciado do casa de banho, Luan tentou convencer-se de que estava a ser ridículo. Era só uma criança, uma menina qualquer, numa escola qualquer, numa cidade que ele mal reconhecia mais.
Não havia razão para aquilo ter mexido tanto com ele, mas havia. E ele sabia disso. Terminou de abotoar a camisa, pegou nas chaves do carro e desceu para a receção do hotel. precisava de café forte e precisava de sair dali antes que a cabeça começasse a criar histórias que não faziam sentido. Foi quando viu a recepcionista, a dona Marlene, uma senhora dos seus 60, anos que devia conhecer cada alma daquela cidade, organizando papéis atrás do balcão.
Ela ergueu os olhos e sorriu para ele daquele jeito caloroso que só gente de cidade pequena tem. Bom dia, meu filho. Dormiu bem? Mais ou menos”, respondeu o Luan, tentando parecer casual. “Dona Marlene, posso fazer-lhe uma pergunta?” “Claro, querido.” “Pode falar.” Hesitou. Parte dele queria desistir, sair dali e esquecer tudo. Mas a outra parte, a parte que não tinha dormido a noite inteira, precisava saber.
A escola municipal ainda funciona, certo? Funciona sim. Por quê? Tá a pensar em visitar? Já visitei, na verdade, ontem à tarde. Ele coçou a nuca fingindo desinteresse. Vi lá uma menina sozinha, desenhando por baixo de uma árvore. Cabelo castanho, uns 9 ou 10 anos. Não sei. Achei o rosto dela familiar.
A Dona Marlene inclinou a cabeça pensativa. É cabelo castanho. Menina quietinha meio tímida. É isso mesmo. Ah, deve ser a Luía. Luía Ribeiro. Luan sentiu o chão mexer-se debaixo dos pés. Ribeiro. O apelido ecoou dentro dele como um grito numa gruta vazia. Ele tentou disfarçar, mas as mãos começaram a tremer.
Enfiou-as nos bolsos, obrigando um sorriso que não chegou aos olhos. Ribeiro repetiu a voz mais rouca do que pretendia. Isso. Filha da Lívia Ribeiro. Deve lembrar-se dela, né? Vocês eram da mesma turma, se não me engano. Luan não respondeu. Não conseguia, porque o nome dela, aquele nome que ele tinha passado anos a tentar apagar da memória, tinha acabado de explodir dentro do peito como uma bomba silenciosa.
Lívia, Lívia Ribeiro, a mulher que ele amou, a mulher que ele desejava com cada fibra do corpo, a mulher que perdeu ou que o abandonou, dependendo da forma como se contava a história. A mulher que, durante anos, foi a razão de ele não conseguir amar mais ninguém. “Estás bem, meu filho?”, perguntou dona Marlene, franzindo o sobrolho.
“Tô, tô sim.” Lipigarreou, tentando recuperar o controle. Lívia, não é? Há tempo que não ouço falar dela. Ah, ela vive aqui até hoje. Trabalha na câmara municipal, uma rapariga batalhadora, sabe? Criou a menina sozinha. O pai nunca apareceu, coitadinha. Mas ela dá conta do recado. É forte. A Lívia sempre foi.
O Luan sentiu mecanicamente, mas já não estava a ouvir. A sua mente tinha recuado no tempo há 10 anos. A última vez que tinha visto Lívia, a última vez que tinha sentido os lábios dela, a última vez que tinha acreditado que o amor podia ser eterno, mentira. Tudo tinha sido mentira. Ele despediu-se da dona Marlene de forma abrupta e saiu do hotel como quem foge de um incêndio.
Entrou no carro, bateu com a porta e ficou ali parado com as mãos agarradas no volante e a respiração descontrolada. Lívia, ela continuava ali na mesma cidade, vivendo, trabalhando, criando uma filha. E não sabia de nada. Não sabia que ela tinha ficado, não sabia que ela tinha tido uma criança, não sabia de nada.
Mas agora sabia o apelido da menina e sabia que aqueles olhos, aqueles olhos que o tinham feito parar no meio do pátio da escola eram iguais aos da Lívia, exatamente iguais. Uma pontada de dor atravessou o peito dele. Ou seria raiva, talvez as duas coisas ao mesmo tempo, porque a Lívia tinha seguido em frente, tinha construído uma vida, tinha tido uma filha.
E ele ele tinha passado 10 anos fugindo, trabalhando, construindo uma empresa de raiz, evitando qualquer tipo de vínculo emocional, porque depois dela nada mais tinha feito sentido. Luan encostou a cabeça ao banco e fechou os olhos. As recordações vieram como ondas, o sorriso dela, o riso, a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa, o cheiro do cabelo, o Gosto dos beijos, da forma como ela o olhava, como se fosse a única pessoa no mundo.
E depois o silêncio, a despedida fria, as palavras que nunca foram ditas, o vazio que ficou. Ele abriu os olhos, com a mandíbula presa. Não, não ia deixar que isso mexesse com ele não. Agora tinha vindo resolver o inventário, assinar papéis e ir embora. Nada mais. Lívia era passado e passado era onde devia ficar. Mas depois ele pensou na menina Luía, nos seus olhos, na idade dela.
E uma pergunta começou a crescer dentro dele, lentamente, perigosa, impossível de ignorar. Ele fez as contas mentalmente. 10 anos. A Lívia tinha uma filha de nove e talvez 10 anos. A linha do tempo batia na perfeição. Luan sentiu o coração disparar. Não, não podia ser. Ela teria contado, teria procurado ele, teria. Mas e se não tivesse? Semicerrou os olhos com força, tentando afastar o pensamento, mas era tarde demais.
A semente da dúvida tinha sido plantada, que agora não importava o quanto ele tentasse. Ela ia crescer, ia alastrar, ia consumi-lo, porque aquele nome, Lívia Ribeiro, ainda tinha sabor na boca dele, ainda ardia, ainda doía. E agora precisava de saber, precisava de a ver de novo, nem que fosse só para confirmar que o que sentia não passava de um fantasma do passado, ou para descobrir que talvez aquele fantasma nunca tinha ido embora.
Luan passou os dois dias seguintes a tentar convencer-se de que não ia procurá-la. Resolveu os últimos pormenores do inventário, assinou mais papéis, organizou documentos que pareciam não ter fim. Manteve-se ocupado, focado, racional. exatamente como tinha aprendido a ser. Mas à noite, quando o silêncio do quarto de hotel tornava-se ensurdecedor, a imagem de Lívia voltava e juntamente com ela, a menina Luía, aqueles olhos que eram o espelho dos seus olhos, a linha do tempo que fazia sentido demasiado para ser ignorada, as perguntas
que não tinham respostas. Na manhã do terceiro dia, desistiu de lutar. A Dona Marlene tinha dito que a Lívia trabalhava na câmara municipal. O prédio ficava a três quarteirões do hotel. Luan saiu cedo, vestido de forma impecável, camisa social, calças de alfaiataria, sapatos engrachados. Não era vaidade, era armadura.
Ele precisava de estar no controle. Precisava de parecer que estava no controlo. Mas quando chegou em frente ao edifício da câmara municipal e viu a fachada antiga com as suas janelas de madeira descascada e a escadaria de pedra gasta pelo tempo, Luan sentiu o estômago revirar, parou no passeio, as mãos nos bolsos e ficou ali parado durante tempo demais.
As pessoas passavam por ele, entravam e saíam do edifício, seguiam as suas vidas. E ele, imóvel, como se estivesse prestes a atravessar uma ponte que podia desabar a qualquer momento. Respira, Luan, é só uma conversa. Mas não era. E ele sabia disso. Ele subiu os degraus lentamente, empurrou a porta de vidro e entrou. O átrio era simples.
Paredes brancas, chão desgastado, algumas cadeiras de plástico encostadas à parede. Uma jovem rapariga atendia no balcão de recepção. O Luan aproximou-se tentando parecer casual. Bom dia. Estou à procura da Lívia Ribeiro. Ela trabalha aqui, certo? A rapariga ergueu os olhos e sorriu. Trabalha sim.
Departamento de assistência social, segundo andar. Quer que eu avise que estás aqui? Não precisa, eu subo. Ele não esperou resposta. Virou-se e foi direto para a escada. Cada degrau parecia mais pesado que o anterior. O coração batia descompassado, as mãos suavam dentro dos bolsos. Ele não sabia o que ia dizer. Não tinha ensaiado, não tinha planeado.
Só sabia que precisava vê-la. O segundo piso era um corredor comprido com portas de ambos os lados. Placas indicavam os departamentos. Luan caminhou lentamente, lendo cada uma delas, até encontrar assistência social. Ele parou em frente à porta entreaberta, respirou fundo e empurrou. A sala era pequena, com duas mesas, armários de arquivo de metal e uma janela que dava para a rua.
Havia uma mulher sentada de costas a escrever algo no computador. Cabelos castanhos apanhados num coque frouxo, ombros delicados, a postura ereta de quem carregava o mundo sozinha. Luan sentiu o ar faltar. “Faz com licença”, disse a voz saindo mais rouca do que pretendia. Ela parou de teclar. Por um instante ficou imóvel, como se o som daquela voz tivesse congelado o tempo.
Depois, lentamente ela virou a cadeira e os olhos dele cruzaram-se. Lívia ficou pálida, os lábios entreabriram-se, mas não saiu qualquer palavra. Ela apenas o encarou, como se estivesse a ver um fantasma. um fantasma que ela tinha certeza de que nunca mais voltaria. Luan, por sua vez, sentiu como se tivesse levado um murro no estômago, porque a Lívia estava diferente, mais madura.
O rosto tinha linhas suaves que não existiam antes. Os olhos tinham uma nova profundidade, como se tivessem visto coisas que ele nunca saberia. Mas mesmo assim, mesmo com o tempo, com a distância, com tudo o que tinha acontecido, ela era ainda a mulher mais bela que já tinha visto na vida. Luan, ela sussurrou e o nome dele a sair da boca dela foi como uma lâmina atravessando o peito. Traívia. Silêncio.
Um silêncio pesado, carregado de tudo que nunca foi dito, de todas as palavras engolidas, de todos os gritos que ficaram presos na garganta. Ela se levantou-se lentamente, como se precisasse de se certificar de que aquilo era real. Cruzou os braços à frente do corpo, numa postura defensiva. Os olhos dela, aqueles mesmos olhos que tinha visto na menina, estavam cheios de emoções que não conseguia decifrar.
Medo, raiva, dor, talvez tudo ao mesmo tempo. “Que estás a fazer aqui?”, perguntou ela, a voz trémula, mas tentando soar firme. Voltei para resolver o inventário do meu pai. Ele morreu. Eu soube. Sinto muito. Luan encolheu os ombros como se aquilo não importasse. E de certa forma não importava. Mal conhecera o pai nos últimos anos.
A morte do homem tinha sido apenas mais um motivo burocrático para regressar àquela cidade. “Não vim aqui por causa disso”, disse dando um passo à frente. Lívia recuou instintivamente, as mãos a apertar os próprios braços. Luan percebeu e doeu mais do que ele esperava. Então, porquê? Ela perguntou, a voz agora mais dura.
Depois de 10 anos, Luan, 10 anos sem uma palavra, sem um telefonema, sem nada. E agora você aparece aqui do nada e vi uma menina na escola. Cortou-a, a voz saindo mais elevada do que pretendia. Cabelo castanho, olhos, olhos iguais aos seus. O rosto de A Lívia perdeu ainda mais cor. Ela desviou-se o olhar, mas o Luan viu.
Viu o pânico, viu a confirmação. Não sei do que estás falando ela murmurou, mas a voz tremeu. Lívia, não me trates como uma idiota. Ele deu mais um passo e desta vez ela não recuou, apenas o encarou, os olhos brilhando de uma forma que ele não sabia se era raiva ou desespero. A menina Luía, ela é minha filha. O silêncio que se seguiu foi brutal.
Lívia apertou os lábios. A respiração acelerada, as mãos tremiam. Ela abriu a boca, fechou, abriu de novo. Quando finalmente falou, a voz saiu num sussurro quebrado. Isto não é da sua conta. O Luan sentiu a raiva subir, uma raiva antiga, que tinha enterrado fundo, mas que agora explodia como um vulcão adormecido. Não é da a minha conta? Riu um riso amargo sem graça.
Se é minha filha, é sim da minha conta, Lívia. Não tem o direito de vir aqui e tenho todo o direito. Bateu com a mão na mesa e Lívia deu um salto, mas não desviou o olhar. Continuou a fitá-lo com aquela mistura de fúria e dor que só ela sabia ter. Escondeste-o de mim durante 10 anos. Você foi-se embora? Ela gritou de volta e desta vez a dor na voz dela era innegável.
Deixaste-me, Luan. Você saiu dessa cidade, foi atrás dos seus sonhos, da a sua vida perfeita e esqueceu-se de mim. Então não vem agora fingir que tem moral para cobrar-me qualquer coisa. Eu te esqueci-me? Deu um passo em frente, tão perto agora que conseguia sentir o perfume dela. Aquele mesmo perfume de sempre.
Pensas que eu te esqueci, Lívia? Acha que eu passei um dia sequer sem se lembrar de si? Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela não deixou cair. Mordeu o lábio inferior, aquele gesto que ele conhecia tão bem, e desviou o rosto. “Não importa mais”, sussurrou ela. “Oh, o que foi?” “Foi. Tu tens a tua vida. Eu tenho a minha e da minha filha?” A voz dela falhou, mas ela recuperou.
“A minha filha não é da sua conta.” Luan sentiu como se tivesse levado uma facada. Ele recuou. As mãos a tremer, o peito apertado. “Ela é minha filha”, repetiu, mas agora a voz saiu mais baixa, quase um pedido. Lívia, é minha filha? Lívia finalmente encarou-o de novo e nos olhos dela ele viu tudo. A verdade, o medo, a dor de 10 anos a carregar aquilo sozinha.
“Sai daqui, Luan”, disse ela a voz firme, mas com lágrimas a escorrer agora. “Vai-te embora. Volta paraa tua vida e deixa-me em paz.” Ele ficou ali parado, sem saber o que fazer. Queria gritar, queria sacudi-la, queria exigir respostas. Mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, tudo o que ele queria era abraçá-la, dizer que lamentava, que nunca a tinha querido deixar, que ela ainda importava.
Mas ele não fez nada disso, apenas virou costas e saiu. E enquanto descia a escada, com as pernas bambas e o coração despedaçado, Luan soube de uma coisa. Ele não ia embora. Não desta vez. Porque aquela menina Luía era dele. Ele sabia, sentia. E Lívia, Lívia ainda o olhava da mesma maneira, com raiva, com dor, mas também com desejo.
Isso, isso ainda estava lá vivo, pulsando. Como uma ferida que nunca tinha cicatrizado, o Luan não conseguiu sair da cidade, tentou. chegou a colocar as malas no carro, pagou a conta do hotel, ligou o motor, mas ficou ali parado, com as mãos no volante, olhando para a estrada vazia à sua frente, e simplesmente não conseguiu ir embora, porque agora sabia, não tinha ouvido as palavras da sua boca, mas tinha visto nos olhos.
tinha visto no jeito como ela recuou, na forma como desviou o olhar, na forma como a voz dela tremeu ao dizer que a filha não era da conta dele. Luía era sua filha e Lívia tinha escondido-lhe isso durante 10 anos. Ele desligou o motor, ficou ali mais alguns minutos, a cabeça encostada ao volante, respiração pesada.
A raiva era o que ele deveria estar a sentir. Raiva pura, corrosiva. Mas não era só isso. Tinha mágoa, confusão. E no fundo, no lugar que não queria admitir, tinha saudade. Saudade dela. O Luan voltou para o hotel. A Dona Marlene ergueu as sobrancelhas surpreendida, mas não fez perguntas. Ele pegou na chave do quarto de volta, subiu as escadas como um autómato e trancou-se lá dentro.
Passou o resto do dia a tentar trabalhar, abriu o portátil, respondeu a e-mails, participou numa reunião virtual, mas não se conseguia concentrar, porque toda a vez que fechava os olhos, via ela o rosto de Lívia, a forma como tinha olhado para ele, a dor, a raiva, mas também tinha outra coisa, algo que ela tentou esconder, mas que tinha visto, nem que seja por um segundo desejo.
Luan esmurrou a almofada e se levantou. Não, não podia pensar nisso. Não podia deixar que aquilo mexesse com ele. A Lívia tinha feito uma escolha, tinha escondido a existência da sua filha, tinha construído uma vida sem ele. Ele devia estar furioso, devia querer vingança, devia. Mas tudo o que ele queria era voltar a vê-la. Os dias seguintes foram uma tortura silenciosa.
Luan começou a andar pela cidade de propósito, como se estivesse a explorar, recordando os velhos tempos. Mas no fundo ele sabia o que estava a fazer. Estava à procura dela e no quarto dia encontrou. A Lívia estava no mercadinho da esquina, aquele mesmo mercadinho de sempre, com as suas prateleiras apertadas e o cheiro a pão fresco misturado com o de detergente.
Ela estava de costas, a escolher frutas e Luan sentiu o coração acelerar assim que a viu. Vestia um vestido simples, azul claro, que lhe ia até aos joelhos. O cabelo estava solto, caindo sobre os ombros. Parecia cansada, mas continuava linda. O Luan ficou parado na entrada observando. Não sabia se devia aproximar-se ou ir embora.
Mas, então, como se sentisse o peso do seu olhar, Lívia virou a cabeça. Os olhos dele se encontraram. Ela congelou. A maçã que segurava quase escorregou da mão. Por um instante, nenhum dos dois se mexeu. Era como se todo o mercado tivesse desaparecido e só existissem eles dois. E aquele silêncio carregado e aquela tensão que nenhum dos dois sabia como quebrar. Luan deu o primeiro passo.
Devagar. A Lívia não fugiu, apenas ficou ali segurando a maçã. A respiração visivelmente acelerada. Ele aproximou-se até ficar a poucos passos dela, perto o suficiente para sentir o cheiro do perfume, esse mesmo perfume. Como ela ainda usava o mesmo perfume? Oi! Disse -lhe a voz baixa.
Oi! Ela respondeu e a voz dela saiu quase num sussurro. Silêncio de novo, mas desta vez diferente. Menos hostil. Mais frágil. Desculpa. Luan murmurou e viu a surpresa nos olhos dela por te ter pressionado daquele jeito. No seu trabalho, não foi justo. A Lívia piscou como se não esperasse aquilo. Ela baixou o olhar para a maçã na mão, rodou-a entre os dedos pensativa.
Tinha razão de estar zangado? Ela disse ainda sem olhar para ele. Eu compreendo, mas você também tinha razão. Ele deu mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre eles. Eu fui-me embora. Eu deixei-te. E isso? Isso foi real. Lívia finalmente levantou o rosto e quando os olhos dele se voltaram a encontrar, Luan viu lágrimas brilhando ali.
Ela estava a tentar ser forte, tentando manter a compostura, mas via. via as fissuras, via a dor. Não deixaste só a mim, Luan. Ela sussurrou a voz trémula. Você deixou? Você deixou-nos. E com aquelas palavras, a confirmação veio. Não de forma direta, mas estava ali nas entrelinhas, na forma como ela disse a gente. Luía era dele.
O Luan sentiu as pernas bambearem. quis estender a mão, tocar-lhe no braço, dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Apenas ficou ali travado, com o peito apertado e a garganta fechada. A Lívia limpou rapidamente os olhos com as costas da mão, deu um passo atrás e virou-se, colocando a maçã de volta na prateleira. Preciso de ir”, disse ela, a voz agora mais firme, mas ouvia o esforço que ela fazia para parecer indiferente.
“Lívia, espera!” Mas ela já estava a se afastando. Rápido, quase a correr, Luan ficou ali parado no meio do corredor de fruta, com as mãos fechadas em punhos e a respiração descontrolada. Ele queria ir atrás dela, queria segurá-la, queria obrigá-la a olhar para ele e a dizer-lhe verdade de uma vez por todas, mas não não fez nada disso.
Apenas a viu sair pela porta, desaparecer à luz da tarde, levando consigo todo o ar do local. Luan saiu do mercado como um zombie. Caminhou sem rumo pelas ruas da cidade, as mãos nos bolsos a cabeça baixa. Passou pela praça, pela igreja, pelas casas antigas, com as suas janelas de madeira. E de repente, sem planear, viu-se em frente ao portão da escola.
Eram quase 5 da tarde, hora da saída. As crianças começavam a sair, a correr, a gritar, sendo procuradas pelos pais. O Luan ficou ali encostado a um poste do outro lado da rua, observando e depois viu-a. Luía. Ela saiu lentamente, a mochila pesada nas costas, o rosto demasiado sério para uma criança.
Olhou para os lados como se procurasse alguém e então começou a caminhar sozinha. O Luan sentiu o peito apertar. Estava sozinha, indo para casa sozinha. E de repente ele compreendeu, compreendeu o peso que Lívia tinha carregado, compreendeu a solidão, compreendeu tudo o que tinha perdido. Ele não pensou, apenas atravessou a rua.
Luía! A menina parou e virou-se, os olhos arregalados. Quando o viu, franziu a testa confusa, mas não pareceu assustada, apenas curiosa. Você estava lá na escola no outro dia?” Ela disse a voz fina, mas firme. “Tava?” O Luan sorriu tentando parecer casual. Desculpa, não quis assustar-te. É que eu estudei aqui quando era criança.
Estava relembrando os velhos tempos. Luía inclinou a cabeça analisando-o. E de novo aqueles olhos, aqueles malditos olhos que eram iguais aos dele. “Conheces a minha mãe?”, ela perguntou de repente. O Luan sentiu o ar faltar. “Conheço-nos? A gente estudaram juntos. A sério?” Os olhos dela brilharam curiosos. Ela nunca fala dos tempos de escola.
É mesmo? Luía abanou a cabeça. Ela não fala muito do passado. A menina encolheu os ombros. Acho que ela fica triste. Luan engoliu em seco. Agachou-se à frente dela, ficando na altura dos olhos da menina. “Você gosta de desenhar?”, perguntou, lembrando-se do caderno que ela segurava nesse dia. O rosto de Luía iluminou-se.
Agosto, como sabe? Vi-te a desenhar embaixo da árvore. Ela sorriu, um pequeno sorriso, tímido, mas genuíno. E o Luan sentiu o coração derreter. “Eu desenho tudo”, ela disse animada agora. Árvores, animais, pessoas. A minha mãe diz que eu tenho talento. Aposto que tem mesmo. Eles ficaram ali mais alguns minutos, conversando sobre desenhos, sobre a escola, sobre coisas pequenas e simples.
E a cada palavra, a cada sorriso, o Luan sentia algo crescer dentro dele, algo que nunca tinha sentido antes, algo profundo, poderoso, assustador, amor. Ele amava aquela menina mesmo sem conhecê-la, mesmo sem lá ter estado. Ele amava e isso, isso mudava tudo. Quando Luía despediu-se finalmente e seguiu para casa, o Luan ficou ali parado na calçada, vendo-a desaparecer na esquina e de repente uma certeza tomou conta dele.
Ele não ia embora, não ia desistir, porque Luía era sua filha e Lívia, Lívia ainda o olhava daquele jeito. E o corpo, esse o corpo lembrava, recordava o toque, o cheiro, o gosto, e ele sabia que ela também se lembrava. O Luan voltou a passar a noite em claro, mas desta vez não era só angústia ou raiva que o mantinha acordado, era outra coisa.
Algo que crescia dentro dele, se espalhava, tomava conta de cada pensamento. Era a imagem de Luía sorrindo, a voz dela, a forma como falava sobre desenhos com os olhos brilhando, que acima de tudo era a certeza de que aquela menina fazia parte dele. Ele precisava de respostas, respostas de verdade, não mais indiretas, não mais olhares desviados.
Precisava de ouvir da boca de Lívia, de uma vez por todas a verdade. De manhã cedo, antes do sol nascer completamente, O Luan já estava de pé. Tomou banho, se vestiu e saiu. Não pensou muito. Não planeou o que ia dizer, apenas sabia que precisava de ir ter com ela. Ele conhecia o endereço.
Tinha perguntado discretamente para a dona Marlene na véspera, fingindo o interesse casual. A casa de Lívia ficava numa rua tranquila, afastada do centro, com árvores de ambos os lados e portões baixos. Era uma casa simples, pintada de branco, com janelas de madeira azul e um pequeno jardim em frente. O Luan parou o carro em frente ao portão e ficou ali por um tempo a observar.
A casa estava em silêncio. Era cedo. Talvez elas ainda estivessem a dormir. Talvez devesse voltar mais tarde, mas não conseguia sair dali. Não, agora foi quando a porta da frente abriu-se e Lívia apareceu. Ela vestia um roupão branco por cima da camisola, os cabelos despenteados, o rosto ainda marcado pelo sono, segurava uma chávena de café e olhava para o jardim distraída, como se estivesse a tentar reunir forças para enfrentar mais um dia.
Luan saiu do carro antes de perder a coragem. O barulho da porta batendo. Fez Lívia erguer os olhos. Quando o viu, ela gelou. A chávena quase escorregou da mão. Por um instante, pareceu que ela ia voltar correndo para dentro e trancar a porta, mas não o fez. Apenas ficou ali parada na varanda, com os olhos arregalados e a respiração visivelmente acelerada.
O Luan atravessou o portão lentamente, as mãos nos bolsos, tentando parecer menos ameaçador do que se sentia. “Desculpa aparecer assim”, disse ele a parar no meio do jardim. Eu sei que é cedo, mas eu precisava de falar consigo. Lívia apertou os lábios, os dedos brancos à volta da chávena. Ela olhou rapidamente para trás, como se verificasse se Luía estava por perto.
“Ela ainda está a dormir, Luan” disse, “Como se lesse os pensamentos dela. Como sabes onde moro?” A voz dela saiu mais fria do que ele esperava. Perguntei. Claro que perguntou. Ela soltou um riso amargo, sem graça. Você não mudou, pois não, Luan? Sempre fazendo o que quer quando quer. Ele sentiu a farpas das palavras, mas não recuou.
Eu conversei com ela ontem. Lívia empalideceu. O quê? Com Luía, à saída da escola. Só conversei, Lívia. Nada demais. dela. Ela contou-me que gosta de desenhar. Não tinha o direito. A voz dela falhou e ela colocou a chávena na mesinha ao lado da porta com força. Não tinha o direito de se aproximar da minha filha sem eu saber.
A nossa filha A voz dele saiu-lhe firme agora, sem espaço para dúvidas. Ela é minha filha também, Lívia, e tu sabes disso. Lívia fechou os olhos à respiração tremendo. Quando os voltou a abrir, estavam cheios de lágrimas. Por que razão voltou? Sussurrou a voz entrecortada. Por que razão você não podia só só estar longe? O Luan subiu os degraus da varanda, diminuindo a distância entre eles.
Ela recuou até encostar à parede, mas não desviou o olhar. E ali, com os olhos a brilhar e a respiração descontrolada, ela parecia tão vulnerável que sentiu vontade de abraçá-la, de a proteger, de pedir perdão por cada segundo que não esteve lá, porque precisava de saber. Ele respondeu. A voz baixa, mas intensa. Precisava de saber se era verdade, se ela se ela é minha e se for.
Lívia levantou o queixo desafiadora, mesmo com as lágrimas escorrendo. O que vais fazer, Luan? Vai ficar? Vai brincar à família feliz por uns dias e depois ir embora novamente. Que é isso? Não, não. Ela riu-se, mas era um riso cheio de dor. Foste embora uma vez. O que te impede de voltar a fazer isso? Eu não sabia.
A voz dele saiu mais alta do que pretendia. Ecoando na rua silenciosa. Respirou fundo, tentando se controlar. Lívia, eu não sabia que estava grávida. Se eu soubesse, teria ficado. Ela cortou-o, a voz agora dura como pedra. teria desistido dos seus sonhos, da sua empresa, da sua vida perfeita em São Paulo para ficar aqui, nesta cidade que sempre odiou? O Luan abriu a boca, mas não conseguiu responder porque tinha razão.
Naquela altura, ele queria sair dali, queria crescer, conquistar o mundo, construir algo que fosse só dele. E Lívia, Lívia ficara para trás, ou pelo menos era assim que se tinha convencido. Eu amava-te. Ela continuou. A voz agora mais baixa, mas ainda carregada de emoção. Eu amava-te, Luan, de verdade. E quando foste embora, quando simplesmente desapareceste, eu pensei que ia morrer.
Ela limpou as lágrimas com as costas da mão e depois eu Descobri que estava grávida e tive que decidir sozinha. Tive de decidir se ia procurar-te, se te ia contar, se te ia prender aqui contra a sua vontade. E eu decidi que não ia fazer isso porque tu tinha ido embora, o Luan. Você tinha feito a sua escolha e não me deu a hipótese de fazer outra. Ele retorquiu.
A voz carregada de mágoa. Chance. Lívia soltou um riso sem humor. Parce Mores. Você teve todas as hipóteses, Luan. Você podia ter ligado, podia ter voltado, podia ter perguntou como é que eu estava, mas você não não fez nada disso. Você simplesmente desapareceu porque achei que não queria mais nada comigo.
Ele deu um passo em frente, tão perto agora, que ela tinha de inclinar a cabeça para olhar para ele. Acabaste comigo, Lívia? Disse que era melhor assim, que cada um devia seguir o seu caminho, porque eu não te queria prender. Ela gritou e a voz ecoou na rua vazia. Porque eu sabia que ias embora de qualquer maneira e eu não queria ser a mulher que te segurou.
Eu não queria que me odiasse por isso. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eles ficaram ali a poucos centímetros um do outro, com a respiração acelerada e os olhos brilhando. Tanta coisa por dizer, tanta dor acumulada, tanto amor desperdiçado. “Eu nunca te odiei”, sussurrou Luan. E a sua voz estava diferente agora, mais suave, mais vulnerável.
Nem por um segundo, Lívia. Eu tentei esquecer-te. Tentei seguir em frente, mas nunca consegui. Porque você, você sempre foi a única. Lívia soltou um soluço, levando a mão à boca para abafar o som. As as lágrimas caíam agora livremente e ela não tentava mais escondê-las. Luan levantou a mão lentamente, hesitante, e tocou o rosto dela, com a ponta dos dedos suavemente, como se ela se fosse partir a qualquer momento.
A Lívia fechou os olhos ao sentir o toque e mais lágrimas escorreram. Eu sinto muito”, ele murmurou a voz rouca. “Sinto muito por ter ido embora, por não ter lutado por ti, por todos os anos que perdi.” Ela abriu os olhos e encarou-o. E ali, naquele olhar molhado, cheio de dor, mas também cheio de algo mais, Luan viu. Viu que ela ainda sentia, que ainda tinha algo entre eles, algo que o tempo não tinha conseguido apagar.
Ele inclinou-se lentamente, dando-lhe tempo para recuar, se quisesse, mas ela não recuou, apenas ficou ali, com os olhos semicerrados, a respiração presa, o coração disparado. Os seus rostos ficaram tão perto que podia sentir o hálito quente dela. Conseguia ver cada detalhe, cada pestana molhado, cada pequena marca no rosto que não conhecia.
Os lábios deles estavam a milímetros de distância. Um movimento, apenas um movimento. E Lívia virou o rosto. O beijo não aconteceu. Ela deu um passo atrás, tremendo, levando as mãos ao peito, como se tentasse segurar o seu próprio coração. Luan ficou parado com a mão ainda no ar, o peito subindo e descendo rapidamente. “Não posso”, sussurrou ela a voz quebrada. “Não assim, não. Não agora.
” Sentiu, mesmo que tudo dentro dele gritasse para a puxar de volta, para terminar o que quase tinha começado. Mas não o fez, apenas recuou, respeitando o espaço dela, respeitando as dor dela. “Desculpa”, murmurou. Lívia abanou a cabeça, as lágrimas ainda a cair. “Eu preciso, preciso pensar”, disse ela. A voz trémula.
“Preciso de tempo, Luan, eu compreendo, mas ele não ia embora. Não desta vez, porque o beijo não tinha acontecido, mas o desejo, o desejo estava ali, gritando, pulsando, e ele tinha visto nos olhos dela. Ela também queria. Os dias que se seguiram foram estranhos. O Luan não regressou a casa de Lívia, mas também não saiu da cidade.
Continuou hospedado no hotel, trabalhando remotamente, resolvendo pendências da empresa por vídeochamadas e e-mails. Mas a cabeça dele estava longe dos negócios. estava ali naquela pequena cidade, naquela mulher, naquela menina. Lívia evitou cruzar com ele, alterou os horários, as percursos, os locais que frequentava, mas numa cidade daquele tamanho era impossível esconder-se para sempre.
Eles viam-se de longe, no mercado, na praça, na rua. E de cada vez o olhar dele se encontrava por um segundo. Só um segundo, mas era o suficiente para fazer o coração de ambos disparar. E, então, no sétimo dia, algo mudou. O Luan estava a tomar café numa padaria quando ouviu o conversa na mesa ao lado.
Duas mulheres comentavam animadas a peça de teatro da escola. As crianças estavam a ensaiar há semanas e a apresentação seria no final do mês. Uma das mulheres referiram que precisavam de voluntários para ajudar com o cenário. Os figurinos a organização. O Luan não pensou duas vezes. No dia seguinte apareceu no escola.
A diretora, uma senhora de cabelos grisalhos e sorriso, gentil, o recebeu com surpresa, mas aceitou a ajuda de bom grado. Os voluntários eram raros e um homem com experiência em gestão e organização seria bem-vindo. Foi assim que Luan começou a frequentar a escola todas as tardes. ajudava a montar o cenário, organizava os horários de ensaio, coordenava as outras mães e pais voluntários e, claro, observava Luía.
A menina participava na peça, desempenhava o papel de uma narradora, um papel pequeno, mas que ela levava a sério. Luan tinha ensaiando, decorando as falas, ajustando a postura em palco improvisado do pátio. E cada vez que ela acertava numa fala ou recebia um elogio da professora, sentia o peito insuflar de orgulho, orgulho de pai.
E Luía aos poucos começou a reparar nele, no homem que estava sempre por perto, ajudando, organizando, sorrindo para ela quando os seus olhares cruzavam-se. Ela não sabia quem ele era de verdade, mas algo nela parecia reconhecê-lo, algo instintivo, algo que a fazia sorrir de volta. E depois, inevitavelmente, apareceu Lívia.
Foi numa tarde de quinta-feira. Lívia chegou à escola para ir buscar Luía depois do ensaio. Ela usava um vestido simples estampado, e os cabelos estavam apanhados num rabo de cavalo. Parecia cansada. Tinha sido um dia longo no trabalho. Mas ainda assim, quando entrou no pátio e viu ali Luan a segurar uma tábua de madeira enquanto conversava com outro voluntário.
Ela parou no meio do caminho. O coração dela falhou uma batida. A Luana viu no mesmo instante. Os seus olhos se encontraram através do pátio movimentado, cheio de crianças a correr, pais a conversar, professores dando instruções. Mas para eles tudo desapareceu. Era só ele e ela. E aquela tensão que nunca tinha desaparecido.

Lívia foi a primeira a desviar o olhar. Procurou Luía com o olhar, encontrou a menina a conversar animadamente com uma amiga e respirou fundo, tentando recuperar a compostura, mas as mãos tremiam e o coração batia demasiado depressa. Mãe! Luía correu para ela, atirando os braços para volta da cintura de Lívia.
Esta sorriu, afastando os pensamentos confusos, e acariciou os cabelos da filha. Oi, o meu amor. Como foi o ensaio? Foi ótimo. A professora disse que eu estou a melhorar. Os olhos de Luía brilhavam de entusiasmo. E olha, mãe, há um monte de gente a ajudar agora. Tem aquele rapaz ali. Ela apontou discretamente para Luan. Ele é super simpático.
Ajudou-nos a montar o castelo do cenário. Lívia sentiu o estômago revirar, olhou para Luan outra vez. Ele ainda a observava e tinha algo no olhar dele, algo intenso. Algo que dizia: “Não vou desistir”. É mesmo? Lívia forçou um sorriso tentando parecer natural. “Que giro! Conheces-lo, mãe?”, a pergunta apanhou Lívia de surpresa.
Ela hesitou, procurando as palavras certas. “Conheço a gente estudou juntos.” “A sério, que massa!” Luía sorriu e depois, antes que Lívia a pudesse impedir, a menina gritou: “Moço, moço!” Luan ergueu a cabeça. Luía acenou, chamando-o. Ele trocou algumas palavras com o voluntário ao lado, colocou a tábua no chão e caminhou até elas.
A Lívia quis sair correndo. Quis pegar Luía pela mão e arrastar a menina dali o mais possível, mas não podia, não sem levantar suspeitas. Então, ficou ali plantada no lugar com o coração na garganta e as mãos a transpirar. O Luan parou na frente delas, olhou primeiro para Luía, sorrindo. Então, Luía? Gostou do castelo? Gostei, ficou lindo.
A menina respondeu entusiasmada. Essa é minha mãe. Mãe, este é o rapaz que está ajudando na peça. A gente já se conhece. disse o Luan. Que o olhar dele deslizou para a Lívia há muito tempo. A Lívia sentiu o rosto aquecer. Ela apenas a sentiu incapaz de falar. A senhora também quer ajudar? perguntou o Luan.
E havia algo na voz dele, algo provocador, algo que dizia que ele sabia exatamente o que estava a fazer. A gente precisa sempre de mais voluntários. Eu eu trabalho até tarde. Lívia conseguiu responder, a voz saindo mais fraca do que gostaria. Entendo. Ele esboçou um pequeno sorriso, mas os olhos dele não se desviaram dos dela.
Mas se mudar de ideias, nós estamos aqui toda a tarde. Luía puxou a mão de Lívia. Vamos, mãe. Tenho fome. Vamos, sim. Lívia despediu-se rapidamente, quase arrastando Luía dali, mas enquanto caminhava em direção ao portão, sentiu o olhar de Luan colado às costas, e algo dentro dela, algo que ela tentava controlar há dias, começou a ceder.
Nas semanas seguintes, os encontros se tornaram inevitáveis. A Lívia não conseguiu mais evitá-lo. O Luan estava sempre lá na escola, nos ensaios, ajudando, sorrindo, falando com Luía, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E Lívia aos poucos começou a baixar a guarda. Eles conversavam, pequenas trocas de palavras no início, comentários sobre a peça, sobre o cenário, sobre o tempo.
Nada profundo, nada perigoso, mas cada conversa era um passo a mais. Cada olhar, um toque invisível, cada sorriso, uma fenda na armadura que ela tinha construído. E depois veio a noite do evento beneficente. A escola organizou uma festa para angariar fundos para a peça, comida, música, jogos. O Luan estava lá ajudando na organização.
A Lívia também foi trazida por Luía, que insistiu que a mãe precisava de sair mais de casa. A noite estava agradável. A Lívia conversou com outras mães, comeu algo, tentou relaxar, mas o tempo todo esteve consciente da presença de Luan. Ele estava do outro lado do pátio, ajudando a servir bebidas, mas cada vez que ela olhava, também estava a olhar.
Quando o evento terminou, Lívia preparou-se para ir embora. Luía já estava cansada, quase dormindo em pé. Ela levou a filha até ao automóvel, ajustou o cinto de segurança e estava prestes a entrar quando ouviu o voz dele. Lívia, ela virou-se. Luan estava parado a poucos metros, as mãos nos bolsos, o rosto iluminado pela luz fraca do poste.
“Deixa-me levar-vos para casa”, disse. “Pareces cansada. Eu estou bem. Consigo conduzir. Eu sei que consegue.” Deu um passo à frente. Mas deixa-me ajudar, por favor. Havia algo na sua voz, algo gentil, algo que fez ceder as defesas de Lívia mais um pouco. Ela olhou para Luía, já adormecida no banco de trás, olhou para o carro dela, voltou a olhar para Luan e assentiu.
O percurso até à casa de Lívia foi silencioso. O Luan conduzia devagar, respeitando o cansaço de Luía, que dormia profundamente no banco de trás. Lívia ia para junto dele, olhando pela janela, tentando ignorar a proximidade, tentando ignorar o cheiro do perfume dele, a presença dele, a forma como as mãos dele seguravam o volante com firmeza.
Quando chegaram, o Luan estacionou em frente ao portão e desligou o motor. O silêncio dentro do carro era denso, pesado, carregado. “Obrigada”, sussurrou Lívia sem olhar para ele. “De nada.” Ela abriu a porta, mas antes de sair, sentiu a mão dele tocar-lhe levemente no braço. Só um toque, rápido, suave, mas foi o suficiente para fazer com que a pele dela arrepiar inteira.
Lívia, ele disse a voz rouca. Precisamos conversar de verdade, sobre tudo. Ela fechou os olhos à respiração tremendo. Eu sei quando? Eu não sei, Luan. Ela finalmente encarou-o e nos seus olhos havia medo e desejo. Eu não sei se consigo. Consegue? Ele apertou-lhe levemente o braço. E eu vou esperar o tempo que for necessário.
Lívia assentiu, sentindo as lágrimas queimarem. Saiu do carro, apanhou Luía no colo e entrou em casa sem olhar para trás. Mas dentro do peito, o coração gritava, porque a cada dia, a cada olhar, a cada toque acidental, ela sentia a resistência diminuir e começava a ter medo, não dele, mas de si própria. Luía sempre foi uma menina curiosa, observadora, o tipo de criança que prestava atenção a pormenores que os Os adultos achavam que passavam despercebidos.
E nas últimas semanas ela tinha percebido algo, algo na forma como a mãe olhava para aquele homem, aquele voluntário da escola que aparecia todo dia, que lhe sorria, que ajudava com o cenário. Havia ali algo, algo que Luía não compreendia completamente, mas sentia, como se o ar ficasse diferente quando os dois estavam no mesmo lugar, como se houvesse uma história que ninguém lhe tinha contado.
E Luía queria saber. Foi assim que numa tarde de sábado, enquanto a Lívia estava no trabalho e ela ficou em casa com o vizinha, a Luía resolveu procurar. Não sabia bem o quê. Apenas sentia que havia algo, algo escondido. Algo importante. Começou pelo quarto da mãe, abriu a gaveta da cómoda, aquela que Lívia mantinha sempre fechada.
Tinha roupas velhas, alguns lenços, uma caixinha de jóias que quase nunca era usada. Luía remexeu com cuidado, sem fazer confusão. E depois, no fundo da gaveta, debaixo de um cachicol de lã, encontrou uma caixa de sapatos velha, desbotada, atada com um cordel. O coração de Luía acelerou. Ela olhou para trás, certificando-se de que a vizinha ainda estava na sala a ver televisão, e depois, com as mãos a tremerem ligeiramente, desatou o cordel e abriu a caixa.
Cartas, dezenas delas, envelopes amarelecidos pelo tempo, alguns abertos, outros ainda selados, e em todos eles a mesma letra, firme, bonita, masculina. Luía pegou numa das cartas e começou a ler. Lívia, eu sei que disseste que era melhor assim. que cada um devia seguir o seu caminho. Mas não consigo deixar de pensar em si.
Não consigo esquecer a forma como sorri, o forma como me olha. Eu vou embora amanhã, mas queria que o soubesse. Eu amo-te e sempre te vou amar. Luan. Luía sentiu o chão mexer debaixo dos pés. Luan. O nome estava ali, escrito, real. Ela pegou noutra carta e outra e mais outra. Todas eram dele.
Umas curtas, outras longas, umas doces, outras desesperadas, todas dirigidas à sua mãe. Todas falando de amor, de saudade, de promessas que nunca foram cumpridas. E então no fundo da caixa, Luía encontrou uma foto. Era uma foto antiga, desbotada. Nela, a sua mãe estava sorridente, mais jovem, mais leve. E ao lado dela, com o braço à volta dos ombros dela, estava ele, o Luan, o voluntário da escola.
O homem que sorria para ela, o homem que a sua mãe evitava olhar durante muito tempo. Luía sentiu as lágrimas arderem porque de repente tudo fazia sentido. Os olhares, a forma como ele a tratava, o forma como a sua mãe ficava tensa quando ele estava por perto e a pergunta que ela nunca o tinha feito. A questão sobre o pai que nunca conhecera, tinha agora uma resposta.
Era ele, tinha de ser ele. Quando a Lívia chegou a casa naquela noite, encontrou a casa em silêncio. A vizinha já tinha ido embora. Luía estava fechada no quarto. A Lívia bateu à porta preocupada. Luía, está tudo bem, meu amor. Silêncio. Luía abre a porta. Mais silêncio. E então a voz da menina é abafada, trémula. Você mentiu-me.
O coração de Lívia parou. O que é que você tá a falar, filha? Encontrei as cartas, mãe. Eu encontrei tudo. Lívia sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés. Apoiou a testa na porta, fechando os olhos, tentando controlar a respiração. Luía, por favor, abre a porta. A gente precisa conversar. Você mentiu.
A voz da menina saiu num grito misturado com soluços. Disseste que o meu pai tinha ido embora, que ele não queria saber de nós. Mas escreveu. Ele escreveu um monte de cartas. E nunca me disseste, Luía. E ele está aqui. Ele está aqui na cidade. Eu sei que é ele. Eu sei. Lívia sentiu as lágrimas escorrerem.
Encostou a mão à porta, como se pudesse tocar na filha através da madeira. Abri a porta, meu amor. Por favor, deixa-me explicar-te. Mas Luía não abriu. E a Lívia ficou ali ao lado de fora, com o coração despedaçado, ouvindo o choro da filha através da porta. Lívia não sabia o que fazer. ligou para o Luan, as mãos tremiam tanto que quase derrubou o telemóvel. Atendeu no segundo toque.
A Lívia, ela sabe. A voz dela saiu num sussurro desesperado. Luía descobriu, encontrou as cartas. Ela sabe tudo, Luan. Houve uma pausa do outro lado. E então? Eu vou aí. Não, não pode. Mas ele já tinha desligado. 15 minutos depois, Luan estava à porta da casa de Lívia. Ela abriu antes mesmo de ele bater. Os os olhos dela estavam vermelhos, o rosto manchado de lágrimas.
Ela não abre a porta do quarto. Lívia disse a voz quebrada. Não quer falar comigo, não quer sair. Não sei o que fazer, Luan, não sei. Puxou-a para um abraço. Instintivamente, sem pensar, e Lívia não resistiu. Apenas se deixou amparar, enterrando o rosto no peito dele, soluçando. A gente vai resolver isso murmurou. acariciando-lhe os cabelos.
Juntos vamos resolver. Eles tentaram conversar com Luía durante horas. Bateram à porta, chamaram, imploraram, mas a menina não respondeu. Até que já passava das 10 da noite, ouviram o barulho da janela a ser aberta. Lívia correu para o quarto, seguida de Luan. A janela estava aberta e Luía não estava lá.
Não, não, não, não. A Lívia entrou em pânico. Ela fugiu. Meu Deus, ela fugiu. Luan assegurou pelos ombros, olhando-a nos olhos. Respira. Respira, Lívia. A gente vai encontrá-la. Ela não pode ter ido longe. Onde é que ela costuma ir quando está chateada? Eu não sei. A praça, talvez. Ou ou a escola. Vamos. Vem. Eles saíram a correr. Procuraram na praça.
Nada. Foram até à escola. Nada. percorreram as ruas chamando o nome de Luía, cada vez mais desesperados. Lívia tremia inteira, as lágrimas não paravam de cair. Luan segurava-lhe a mão com força, tentando passar segurança, mas por dentro também estava apavorado. Foi quando viram a luz na igreja. A porta estava entreaberta.
O Luan empurrou devagar e lá dentro, sentada num dos bancos da frente, estava Luía. sozinha, pequena, encolhida, chorando em silêncio. Lívia soltou um soluço de alívio e correu para a filha. Caiu de joelhos à frente dela, segurando o rosto da menina entre as mãos. Meu amor, assustaste-me tanto, tanto. Lívia chorava, as palavras saindo misturadas com soluços.
Não faz mais isso, por favor. Já não me faz isso. Você mentiu, mãe. Luía repetiu a voz pequena quebrada. Você mentiu sobre ele. Lívia fechou os olhos, as lágrimas a escorrerem-lhe. Eu sei, eu sei, meu amor. E eu sinto muito, sinto mesmo muito. Luía olhou por cima do ombro da mãe. Luan estava parado alguns passos atrás, com as mãos nos bolsos, o rosto tenso.
Os olhos da menina encontraram os dele e pela primeira vez ela viu. Viu a semelhança, viu a verdade. “És o meu pai?”, ela perguntou a voz trémula. O Luan sentiu o ar faltar. Ele ajoelhou também, ficando à altura dos olhos dela, e assentiu. A voz dele saiu rouca. Eu sou a Luía. Por que foi embora? A pergunta foi como uma faca.
Luan engoliu em seco, as palavras presas na garganta. Eu Eu não sabia que existias. Eu juro, se eu soubesse, parou porque não conseguia continuar, porque as lágrimas estavam vindo e ele não conseguia segurá-las. E se soubesse, teria ficado. Eu nunca teria ido embora. Luía olhou para ele durante muito tempo e depois devagar ela estendeu a mão, tocou-lhe no rosto como se estivesse a confirmar que ele era real.
“Vais embora outra vez?”, ela sussurrou. “Não.” A voz dele saiu firme agora. Nunca mais. Eu prometo. E pela primeira vez, Luía deixou as lágrimas caírem completamente, atirou-se nos braços dele e Luan segurou com força, como se a quisesse proteger de todo o mal do mundo. Lívia observava a cena, a chorar, o coração partido e remendado ao mesmo tempo.
E depois Luan estendeu o braço, chamando-a. Lívia hesitou por apenas um segundo antes de se jogar também. Os três ficaram ali abraçados no silêncio da igreja. fazia, chorando, perdoando-se, encontrando-se. Quando finalmente se separaram, Luan e Lívia entreolharam-se e, sem pensar, sem planear, aproximaram-se e se beijaram.
Foi um beijo molhado de lágrimas, carregado de dor, de alívio, de tudo o que foi negado, de tudo o que ainda poderia ser. Quando se separaram, Luía olhava para eles e, pela primeira vez em muito tempo, ela sorriu. Um sorriso pequeno, frágil, mas real. Os dias que se seguiram àela noite foram estranhos, não maus propriamente, mas estranhos, como se todos estivessem aprendendo a respirar de novo, aprendendo a existir nesta nova realidade onde a verdade tinha sido revelada e já não havia como voltar atrás. Luía começou a falar com Luan, não
muito no início. Respostas curtas, olhares desconfiados, mas aos poucos a a curiosidade venceu a mágoa. Ela fazia perguntas. sobre onde vivia, o que fazia, porque tinha ido embora. Que Luan respondia a tudo com honestidade, sem tentar justificar-se ou minimizar os erros, apenas a verdade, crua, dolorosa. E Luía, mesmo ainda magoada, começou a compreender, começou a ver que talvez não houvesse vilões naquela história, apenas pessoas que tinham tomado decisões erradas, pessoas que se tinham perdido e que agora tentavam reencontrar-se.
Mas entre o Luan e a Lívia, as coisas eram mais complicadas. O beijo tinha acontecido e agora nenhum dos dois conseguia esquecer. O Luan sentia o sabor dos lábios dela cada vez que fechava os olhos. Lívia sentia o toque das mãos dele na pele, mesmo quando estava sozinha. Era como se aquele momento na igreja tivesse aberto uma porta que estava trancada há 10 anos e agora não havia como fechá-la de novo.
Mas Lívia estava com medo. Medo de se entregar, medo de acreditar, medo de que se ela deixasse o Luan entrar de novo, ele pudesse partir mais uma vez. E desta vez ela sabia que não iria sobreviver, porque não era só ela agora, era também Luía. E ela não podia arriscar o coração da filha. Então fez o que achava que precisava de fazer. Afastou-se.
Luan apercebeu-se da mudança quase imediatamente. A Lívia deixou de atender as chamadas dele. Quando ele aparecia na escola, ela arranjava desculpas para sair mais cedo. Quando se cruzavam na rua, ela desviava-se o olhar e apressava o passo. Era como se ela estivesse a construir muros de novo, mais altos, mais grossos, mais difíceis de derrubar.
E isso doía, doía mais do que o Luan achava que seria possível. Ele tentou respeitar o espaço dela, tentou compreender, mas a cada dia que passava a frustração crescia porque se tinham beijado, tinham-se abraçado, tinham por alguns minutos sido uma família. E agora A Lívia estava a fugir de novo. Foi dona Marlene quem, sem saber acendeu o rastilho.
Clan estava no lobby do hotel, a verificar e-mails no telemóvel quando ouviu a conversa. A Dona Marlene falava com outra hóspede sobre a pobre Lívia, que tinha criado a filha sozinha durante tanto tempo e que agora tinha de lidar com o pai da menina a voltar e a estragar tudo de novo.
“Tadinha”, dizia a outra mulher abanando a cabeça. “Ela mal conseguiu seguir em frente nestes anos todos. E agora que o homem regressa, ela não sabe se confia. Imaginem a confusão que deve est na cabeça dela. Luan fechou o telemóvel com força, levantou-se e saiu do hotel sem dizer palavra. Entrou no carro e conduziu sem rumo durante algum tempo, tentando acalmar a raiva que fervilhava dentro dele, mas não conseguia, porque não era só raiva, era dor, era frustração, era a sensação de estar a ser empurrado para longe de novo. E desta vez, não por
distância ou circunstância, mas por escolha. pela escolha dela. Naquela noite, a Lívia estava a lavar louça quando ouviu a campainha tocar. Já era tarde. Luía estava no quarto a fazer lição de casa. Ela secou as mãos no pano de prato, franzindo o sobrolho, e foi até ao porta.
Quando abriu, o Luan estava lá e não parecia calmo. A gente precisa conversar, disse a voz firme. Luan, agora não é uma boa altura. Não me importa. Deu um passo à frente e Lívia recuou instintivamente. Você tá-me evitando, Lívia? E quero saber por mim não te estou a evitar. Não. Ele riu-se, mas era um riso sem humor. Você não atende as minhas chamadas. Desvia-se de mim na rua.
Arranja desculpas para não estar onde eu tô. Se isto não é evitar, então o que é? Lívia cruzou os braços à frente do corpo, numa postura defensiva. Eu só Eu preciso de tempo, Luan. Tempo. Ele repetiu a palavra como se fosse venenosa. Quanto tempo mais, Lívia? 10 anos não foram suficientes. Não é justo. A voz dela saiu mais alta agora.
Você não pode simplesmente aparecer aqui e exigir que eu case o que você o quê? Ele cortou-a dando mais um passo. Eles estavam demasiado perto agora. Perigosamente perto. Que sinta o que sentiu na igreja. Que você admita que ainda há algo entre nós. Não há nada entre nós. Mas a voz dela tremeu e os dois souberam que era mentira. Tem sim.
Luan baixou a voz, mas a intensidade continuava ali. Você sabe que tem. Eu sei que tem. E você está com medo. Eu compreendo. Mas fingir que não existe não vai fazer desaparecer. Lívia, eu não posso fazer isso, Luan. As as lágrimas começaram a brilhar nos olhos dela. Não me posso entregar de novo e correr o risco de ti, de eu o quê? Ir embora.
Ele segurou-lhe os ombros, obrigando-a a olhar-lhe nos olhos. Eu não vou embora. Quantas vezes preciso dizer isso para você acreditar? Você disse isso antes. Ela gritou e as lágrimas finalmente caíram. Você disse que me amava, que íamos ficar juntos. E no dia seguinte estava indo embora. Porque me mandou ir? Ele gritou de volta.
Você terminou comigo, Lívia. Disse que era melhor assim, porque eu não te queria prender, mas eu queria ficar preso. A voz dele falhou e ele largou-lhe os ombros, passando as mãos pelo cabelo, frustrado. Eu queria ficar contigo, mas tu não deu-me escolha. E agora? Agora você tá fazendo a mesma coisa outra vez. Tá me afastando-se e eu já não sei que fazer.
Lívia cobriu o rosto com as mãos, a soluçar. O Luan ficou ali parado, com o peito a subir e a descer rapidamente, tentando controlar as emoções. “Tenho medo”, sussurrou ela a voz abafada pelas mãos. “Tenho tanto medo, Luan.” “Eu também.” Ele aproximou-se devagar. “Eu também tenho medo, Lívia. Medo de estragar tudo. Medo de não ser o pai que Luía precisa.
Medo de não ser o homem que merece. Mas não vou deixar que o medo me empeça de tentar. Lá baixou as mãos, olhando para ele com os olhos vermelhos e molhados. E se não resultar? E se der? Tocou-lhe no rosto com a ponta dos dedos, como tinha feito anteriormente. E se a gente for feliz, Lívia? E se essa for a a nossa segunda oportunidade? Ela fechou os olhos ao sentir o toque, mas não se afastou.
E por alguns segundos eles ficaram assim, em silêncio, com a distância de uma respiração, com o coração disparado, e depois ela deu um passo atrás. “Preciso pensar”, ela sussurrou. “Eu não consigo fazer isso agora.” Luan assentiu, mesmo que cada fibra do seu corpo gritasse para não desistir, recuou, meteu as mãos nos bolsos e deu um passo em direção à porta. “Está bom.
” Parou no batente, olhando para ela uma última vez. Mas não vou desistir, Lívia. Não desta vez. Eu vou esperar. Mas não por muito tempo. E então ele saiu. A Lívia ficou ali parada na sala vazia, com as lágrimas a escorrer e o coração despedaçado, porque ela queria Deus como ela se queria entregar. Queria correr atrás dele, queria puxá-lo de volta e dizer que sim, que podiam tentar, que ela ainda o amava.
Mas o medo era maior, o medo de acreditar, de sonhar, de amar de novo. E então ela se permitiu chorar, chorar por tudo o que foi, por tudo o que podia ser, por tudo que ela estava a desperdiçar por puro medo. Na escola, as coisas também mudaram. A cidade começou a falar. As pequenas cidades sempre falam. Comentários em sussurros, olhares de lado.
Algumas mães afastaram-se de Lívia, outras julgavam-na sem dizer nada. E Lívia sentia, sentia o peso dos olhares, das especulações, da vergonha. Luía também percebeu. As outras crianças faziam perguntas. Algumas eram cruéis, mesmo sem intenção. Porque é que o seu pai só apareceu agora? A sua mãe escondeu-o dele? Ele não o queria? E cada pergunta era uma ferida nova.
Lívia tentou proteger a filha, tentou explicar, mas como explicar algo que ela mesma ainda não compreendia completamente? Como dizer a uma criança de 10 anos que o amor é complicado, que as pessoas erram, que por vezes não há certo ou errado, apenas escolhas dolorosas. Luan também sentiu a mudança, os olhares na rua, os comentários velados, ouvia e doía, mas não tanto como ver Lívia se afastando cada vez mais, não tanto quanto ver Luía confusa, dividida entre a alegria de ter um pai e a mágoa de ele não ter estado lá antes, e a paixão que
tinha crescido entre ele e Lívia, aquela paixão que tinha explodido naquele beijo na igreja, estava agora sufocada, engolida pela vergonha. pelo medo, pela pressão, mas ainda estava ali a pulsar, esperando, como uma brasa enterrada nas cinzas, esperando apenas uma rajada de vento para voltar a arder.
As semanas se arrastaram-se como anos. Lívia continuou se afastando. O Luan continuou à espera e Luía, no meio de tudo, tentava perceber o que significava ter um pai que apareceu do nada e uma mãe que parecia estar a desmoronar por dentro. A peça da escola se aproximava. Os ensaios finais estavam a acontecer quase todos os dias.
Luan continuava a ajudar, mas agora o clima era diferente, menos leve, mais tenso. Ele e a Lívia mal se falavam. Quando precisavam de trocar alguma palavra por causa de Luía, eram apenas formalidades. Educação fria, distância segura, mas os olhares ainda aconteciam. rápidos, roubados, carregados de tudo que não era dito.
E depois, três dias antes da atuação, Luan teve uma ideia. Ele passou a tarde toda planeamento, fez chamadas, organizou pormenores, conversou com a diretora da escola e quando tudo estava pronto, respirou fundo e torceu para que aquilo funcionasse. Na manhã seguinte, a escola amanheceu diferente. Havia uma faixa enorme no portão de entrada com os dizeres: Homenagem ao Senr.
Ribeiro, em memória de quem construiu esta escola com amor, o avô de Luía, o pai de Lívia, o homem que tinha sido carpinteiro e tinha ajudado a construir parte do edifício da escola há décadas, um homem querido na cidade, um homem que Luía nunca tinha conhecido porque tinha morreu quando ela era muito pequena, mas um homem cuja memória Lívia guardava com carinho.
O Luan tinha descoberto a história a conversar com a dona Marlene e tinha decidido que aquela seria a sua forma de mostrar à Lívia e à Luía, que ele estava ali não para destruir, mas para construir, para honrar, para fazer parte. Quando Lívia chegou à escola nessa manhã e viu a faixa, parou no meio do passeio. As pernas quase falharam.
Ela leu as palavras de novo e de novo, até que a visão ficou toldada pelas lágrimas. Mãe! Luía puxou a mão dela preocupada. Está tudo bem. Lívia apenas a sentiu incapaz de falar. Ela entrou no pátio da escola e viu que havia mais. Fotos antigas do pai dela trabalhando na construção do edifício, emolduradas e expostas num mural improvisado.
Testemunhos de pessoas que o tinham conhecido, histórias que Luía nunca tinha ouvido falar do avô que nunca conheceu. E no centro de tudo havia uma placa. Este evento foi organizado pelo Luan Mendes em homenagem ao Senr. José Ribeiro e em reconhecimento de tudo o que que construiu para esta comunidade. Lívia tapou a boca com a mão, as lágrimas a cair livremente agora.
E foi quando o viu. O Luan estava no canto do pátio a conversar com a diretora, ajustando alguns últimos pormenores. Quando os seus olhos se cruzaram, ele parou. Havia medo no olhar dele, medo de que ela não gostasse, de que achasse invasivo, de que se afastasse ainda mais. Mas, então, Lívia sorriu através das lágrimas, ela sorriu e o Luan sentiu o peito aliviar.
O evento decorreu durante o intervalo. Todas as crianças, professores, pais e voluntários se reuniram no pátio. A diretora fez um discurso emocionado sobre o Senr. Ribeiro e o seu contributo para SU escola. Pessoas da comunidade partilharam histórias e depois a diretora convidou Luía ao centro. A menina estava nervosa.
Lívia segurou a mão dela a dar força e Luía caminhou até a frente com as pernas trémulas e o coração acelerado. “Eu nunca conheci o meu avô”, começou ela. A voz fina, mas firme. Mas a minha mãe fala sempre dele, diz sempre que era um homem bom, que trabalhava muito, que ajudava toda a gente. E e fico feliz por saber que ele ajudou a construir este lugar, porque eu gosto daqui e sei que ele ficaria orgulhoso. Houve aplausos.
A Lívia estava a chorar, abraçada com outras mães. Luan estava no fundo a observar. E então Luía olhou para ele e fez algo que ninguém esperava. Ela caminhou até ao Luan. lentamente, com os olhos a brilhar, e quando chegou perto dele, parou. Os dois se encararam. O pátio inteiro ficou em silêncio.
“Obrigada”, sussurrou Luía, “por fazer isto, pelo meu avô e e pela minha mãe.” Luan ajoelhou-se ficando na altura dela. Ele não confiava na própria voz para responder. Assim, apenas a sentiu. E foi quando Luía deu o passo final. Ela atirou-se para os braços dele, abraçou-o com força e sussurrou tão baixo que só ele ouviu.
Obrigada por voltar, pai. O Luan sentiu o mundo parar. As lágrimas vieram sem aviso. Ele abraçou a filha com força, enterrando o rosto nos cabelos dela, sentindo o coração explodir de uma forma que ele nunca tinha sentido antes. “Eu amo-te, Luía”, sussurrou a voz entrecortada. Eu amo-te tanto. E ali no meio do pátio da escola, com dezenas de pessoas assistindo, pai e filha abraçaram-se pela primeira vez, a sério, sem medo, sem reservas, apenas amor.
Lívia assistia à cena de longe, as mãos no peito, as lágrimas a escorrer sem parar, porque ela via, via a forma como o Luan segurava Luía, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, como se ele nunca mais a fosse deixar ir. E naquele momento, algo dentro de Lívia cedeu. A última muralha, a última resistência, porque ela percebeu que não estava só protegendo o próprio coração, estava impedindo Luía de ter um pai.
Estava impedindo o Luan de ser o que ele claramente queria ser e estava a se impedindo de viver o que o seu coração ainda gritava. O amor, quando o evento terminou e as pessoas começaram a dispersar, o Luan procurou pela Lívia, a encontrou perto do mural. Olhando as fotos do pai, tocando levemente nos rostos nas imagens antigas.
Lívia, ele chamou baixinho. Ela virou-se e quando os olhos dele cruzaram-se, algo era diferente. As muralhas tinham caído, a distância tinha diminuído e, pela primeira vez em semanas, ela não se desviou o olhar. “Obrigada”, disse ela à voz embargada, “por fazer isso, por por honrar o meu pai, por fazer com que o Luía se sentisse orgulhosa dele.
Por por vocês, Luan completou. Eu fiz por vocês. Lívia mordeu o lábio, as lágrimas a regressarem. Ela deu um passo em frente e outro até ficar perto dele, tão perto que conseguia sentir o calor do corpo dele. “Eu sinto muito”, sussurrou ela. “Ei, sinto muito por te ter empurrado para longe, por ter tido medo, por por não ter acreditado em si.
Tinha razão de ter medo.” Disse, tocando no rosto dela com delicadeza. Eu dei-te motivos para isso, mas juro, Lívia, juro pela vida da nossa filha que não lhe vou desiludir de novo. Eu sei. Ela cobriu a mão dele com a dela, mantendo o toque. Eu sei, Luan. E eu quero tentar. Tentar de verdade, sem medo, sem fugir. Tem a certeza? Ela sentiu, sorrindo através das lágrimas. Tenho.
O Luan não esperou mais, puxou-a para si e a beijou. ali mesmo no meio do pátio da escola, havendo ainda algumas pessoas por perto. E desta vez Lívia não recuou, não fugiu, apenas se entregou, correspondeu, deixou que o beijo dissesse tudo o que as palavras não conseguiam. Quando se separaram, ambos estavam sem ar, com os rostos colados, os olhos fechados.
“Eu nunca deixei de te amar”, sussurrou. “Eu também não.” Ela abriu os olhos, encarando-o. “Nem por um dia, Luan. Ficaram ali por mais um tempo, abraçados, deixando o mundo girar ao redor deles. E quando finalmente se separaram, viram Luía a observar de longe, com um sorriso no rosto, um sorriso de aprovação, de esperança, de alívio.
E, nesse momento, os três souberam, souberam que tinha valido a a pena, a dor, a espera, o medo, porque agora, pela primeira vez, eram o que sempre deveriam ter sido, uma família. Nessa noite, o Luan jantou na casa de Lívia pela primeira vez. Luía fez questão de lhe mostrar cada canto da casa, os seus desenhos, os seus brinquedos, os seus livros favoritos.
E Luan prestou atenção em cada detalhe, como se estivesse a gravar tudo na memória. Depois do jantar, a Luía foi dormir e o Luan e Lívia ficaram na varanda, sentados lado a lado, olhando para o céu estrelado. “Eu vou ficar”, disse Luan, quebrando o silêncio. “Ou vender a minha parte da empresa ou passar para alguém, ainda não sei, mas vou ficar aqui com vocês.
” Lívia olhou-o, os olhos arregalados. Tem a certeza? A sua vida é em São Paulo, Luan, a sua empresa. A minha vida é aqui. Ele segurou-lhe a mão. Onde vocês estão? O resto, o resto a gente resolve. Ela sorriu. Um sorriso completo, verdadeiro, e inclinou-se, encostando a cabeça no ombro dele. “Tão, bem-vindo a casa”, sussurrou ela.
E pela primeira vez em 10 anos, Luan sentiu que tinha realmente um lugar onde pertencia. Os dias que se seguiram foram de uma leveza que nenhum deles lembrava ter sentido antes. O Luan passou a frequentar a casa de Lívia, como se sempre tivesse feito parte daquele espaço. Ajudava ao jantar, brincava com Luía, lia-lhe histórias antes de dormir.
E aos poucos as peças de uma família que nunca tinha existido começaram a encaixar. Mas havia algo ainda não resolvido entre ele e Lívia, algo que pairava. no ar sempre que ficavam sozinhos. Uma tensão não má, não desconfortável, mas intensa, elétrica, como se ambos estivessem à espera do momento certo para finalmente se permitirem viver o que tinha sido interrompido 10 anos atrás.
O Luan sabia que não podia apressar. A Lívia tinha-se aberto, tinha dado o primeiro passo, mas ele compreendia que ela ainda precisava de tempo. Tempo para confiar completamente, tempo para acreditar que aquilo era real, que ele não ia desaparecer outra vez. Então ele decidiu fazer algo diferente, algo que mostrasse-lhe que não era só desejo, não era só paixão, era amor.
Amor verdadeiro, do tipo que espera, do tipo que constrói, do tipo que fica. Era uma sexta-feira à noite. A peça da escola tinha sido um sucesso absoluto. Luía tinha brilhado no palco. Que agora, depois de dias intensos, finalmente havia uma pausa, um alento. O Luan passou todo o dia a preparar tudo, conversou com a vizinha, que adorou a ideia, e se ofereceu-se para ficar com Luía durante a noite.
comprou velas, flores, preparou o varanda da casa de Lívia, aquela mesma varanda onde anos atrás se tinham despedido pela última vez. Quando Lívia chegou do trabalho, encontrou Luía já pronta, com uma pequena mochila às costas, sorrindo de orelha a orelha. Mãe, eu vou dormir hoje em casa da dona Marta. A menina saltava de excitação. O Luan organizou tudo. Lívia piscou os olhos confusa.
O quê, Luía? Eu não. Confia em mim. Luan apareceu à porta com um sorriso pequeno, mas significativo. Só por hoje ela vai estar em segurança, eu prometo. E você? Você merece uma noite para si. Lívia olhou para ele, depois para Luía, depois de volta para ele e depois entendeu. Não era apenas uma noite livre, era um convite, um gesto, uma promessa.
“Está bom”, sussurrou ela ainda processando. Luía deu um beijo rápido na mãe e saiu a correr com a vizinha acenando animadamente. E então, de repente a casa ficou em silêncio. Só os dois. Luan estendeu a mão. Vem, quero mostrar-te uma coisa. Lívia hesitou por apenas um segundo antes de colocar a mão na dele.
Guiou-a até a varanda dos fundos e quando ela viu, o coração parou. A varanda estava transformada. Velas espalhadas por todo o canto. Flores, margaridas, as suas preferidas, em pequenos vasos. Uma mesa simples, mas arrumada com cuidado, com pratos, taças de vinho e uma refeição caseira que ele mesmo tinha preparado.

E, acima de tudo, luzes de Natal penduradas nas traves do teto, criando um céu estrelado artificial que brilhava suavemente na penumbra. “Luan”, a voz dela saiu num sussurro embargado. “Você fez tudo isso?” “Fiz”. Virou-se para ela, ainda a segurar a mão dela. Porque eu queria que soubesse que isto aqui, nós não se trata apenas de consertar o passado, trata-se de construir algo novo, algo melhor. As lágrimas vieram inevitáveis.
Lívia tapou a boca com a mão livre, tentando conter a emoção, mas não conseguiu. Apenas se deixou levar. Luana puxou lentamente para perto da mesa, puxou a cadeira para ela e ajudou-a a se sentar. Depois serviu o vinho, colocou a comida nos pratos e sentou-se em frente a ela. Comeram devagar, conversaram sobre coisas pequenas, sobre Luía, sobre a peça, sobre os planos para o futuro.
Mas todo o tempo havia aquela corrente invisível entre eles, aquela tensão que crescia, que pulsava. Quando terminaram de comer, o Luan levantou-se e estendeu a mão de novo. “Dança comigo?” Lívia riu-se, surpresa. Não tem música. Tem sim. Pegou no telemóvel, apertou o play e uma música suave começou a tocar. Uma música antiga, a música deles.
A mesma que passava na rádio nessa noite, Há 10 anos, quando tinham dançado pela primeira vez. A Lívia sentiu o coração apertar. Ela colocou a mão na dele e levantou-se. Ele puxou-a para perto, colocando a outra mão na cintura dela, e começaram a dançar lentamente, colados com a brisa suave da noite, acariciando-lhes os rostos.
Eu lembro-me dessa música. Ela sussurrou a cabeça encostada ao peito dele. Eu também. Ele beijou-lhe o topo da cabeça. Eu lembro-me de tudo, Lívia. Cada momento, cada sorriso, cada conversa. Ela fechou os olhos, deixando as lágrimas escorrer em silêncio, porque ela também se lembrava de tudo.
E agora, a dançar ali na varanda onde se tinham despedido, ela sentia que finalmente estavam a reencontrar-se de verdade. A música terminou, mas não se soltaram. ficaram ali abraçados, com a respiração sincronizada e os corações batendo no mesmo ritmo. E depois Luan recuou ligeiramente, o suficiente para olhar nos olhos dela.
Lívia, preciso dizer-te uma coisa. O quê? Eu amo-te. A a voz dele saiu firme, sem hesitação. Sempre te amei desde o primeiro dia. E eu sei que estraguei tudo. Sei que magoei-te, mas quero passar o resto da minha vida a compensar isso. Quero fazer-te feliz. Quero ser o homem que merece, o pai que o Luía merece. E eu quero.
Ele hesitou procurando as palavras certas. Eu quero que nós ter a chance que nunca tivemos. A Lívia não conseguia falar. apenas olhava para ele, com os olhos a brilhar, o coração a explodir. “Eu também te amo.” Ela sussurrou finalmente. Nunca parei. Nem por um segundo. O Luan sorriu, um sorriso completo, verdadeiro. E então, lentamente inclinou-se e beijou-a.
Mas desta vez era diferente. Não era um beijo desesperado, não era um beijo roubado, era um beijo cheio de promessas, de recomeços, de tudo o que ainda estava para vir. Quando se separaram, Luan tocou-lhe na testa com a dele, os olhos fechados. Ah, fica comigo sussurrou. Hoje, amanhã, sempre. Sim. Ela abriu os olhos, fitando-o.
Lan, fico. Ele pegou-lhe ao colo e ela soltou um riso surpreendido, agarrando-se ao pescoço dele. Ele carregou-a para dentro de casa, subindo as escadas lentamente, como se estivesse a transportar algo sagrado. E quando chegaram ao quarto, colocou-a delicadamente na cama. “Tem a certeza?”, perguntou, ajoelhado ao lado dela, tocando-lhe no rosto com reverência.
[Música] Se não tiver pronta, eu estou. Ela puxou-o para perto, beijando-o de novo. Eu estou pronta, Luan. E ali naquela noite amaram-se. Não como dois estranhos a redescobrir corpos esquecidos, mas como duas almas que finalmente tinham encontrado o caminho de volta uma para a outra. Foi intenso, foi eterno, foi cheio de lágrimas e sorrisos e sussurros de amor.
Eles se entregaram completamente, sem medo, sem reservas, apenas amor puro, verdadeiro, do tipo que sobrevive ao tempo e à tempestades. Quando finalmente se deitaram-se, exaustos e completos, Lívia encostou a cabeça no peito do Luan. Ele envolveu-a nos braços, beijando os cabelos dela. “Obrigada”, sussurrou ela. “Porquê?” por não ter desistido, por ter regressado, por ter lutado por nós.
Ele apertou-a contra o peito. Eu ia sempre voltar, Lívia, sempre. Eles ficaram ali em silêncio, ouvindo a respiração um do outro. E pela primeira vez em 10 anos, ambos dormiram em paz, completos, inteiros. Na manhã seguinte, Luía voltou para casa. Quando entrou e viu o Luan e Lívia na cozinha a preparar café juntos, sorrindo, roubando beijos rápidos quando pensavam que ela não estava a olhar, a menina sorriu.
Então ela disse, apoiando-se no umbral da porta, com os braços cruzados, imitando uma adulta. Vocês são namorados agora? Luan e Lívia entreolharam-se e riram. O Luan se baixou, ficando à altura dela. Mais do que isso, disse, nós somos uma família. Os três, se quiser, claro. Luía fingiu pensar por um momento e depois lançou os braços em volta dos dois.
Eu quero. Quero muito. E ali, na cozinha simples daquela pequena casa, os três se abraçaram. Finalmente completos, finalmente juntos. Porque algumas as histórias não são sobre finais felizes instantâneos. São sobre pessoas que erram, que se perdem, que se magoam, mas que mesmo assim encontram coragem para tentar de novo, para acreditar de novo, para amar de novo.
Luan e Lívia não tiveram um final de conto de fadas, tiveram algo melhor. Tiveram um recomeço real, feito de escolhas conscientes, de perdão, de amor que foi testado e sobreviveu. E no final, talvez seja disso que o amor verdadeiro se trata. Não de nunca cair, mas de se levantar sempre, voltar sempre, escolher sempre, de novo e de novo ficar.
Porque algumas histórias não acabam, apenas esperam o momento certo para recomeçar. [Música] [Música]