César Maluco: O TORCEDOR do VASCO que 3LIM1N0U mais de 20 CRIMINOSOS 

César Maluco: O TORCEDOR do VASCO que 3LIM1N0U mais de 20 CRIMINOSOS 

Nome: César de Souza Almeida, mais conhecido por César Maluco, Carioca. Nasceu em 1979, no bairro de São Cristóvão. Filho de um roupeiro do Vasco e órfão de mãe desde os 8 anos. Cresceu rodeado pelas bancadas, lutas de rua e pelo barulho constante dos comboios. Ainda adolescente, ingressou na Força Jovem, onde ganhou o apelido pela coragem de encarar qualquer pessoa em qualquer lugar, ainda mais se fosse adepto do Flamengo.

 Em 1997, após um assalto em bom sucesso, que tirou a vida ao seu melhor amigo, Carlinhos, conhecido por Bocão, César fez um juramento silencioso. Nenhum homem armado dormiria descansado depois daquilo. começou por entrar em brigas de torcidas, depois passou a caçar ladrões e criminosos pelas ruas da cidade. Para uns, era um justiceiro, para outros apenas mais um predador das madrugadas do Rio.

 Mas o verdadeiro motivo por detrás desta guerra começara bem antes, numa noite chuvosa de 1986 que nunca esqueceu. Antes de continuarmos com o vídeo, deixe um comentário dizendo de onde é e que horas são por aí. E não se esqueça de clicar no gosto. César nasceu em 1979 no coração de São Cristóvão, bairro de história antiga e ruas gastas pelo tempo.

 A casa era um barraco de madeira colado aos carris da Superia. Quando o comboio passava, tudo vibrava. A mesa, os copos, o colchão fino onde dormia. O som do ferro a cortar a madrugada era quase um relógio da vida dele. Mas o barulho não vinha só do comboio. eram sirenes, gritos, estouros distantes que com o tempo que aprendeu a identificar.

Crescer ali era viver, sabendo que a qualquer momento alguém poderia não regressar a casa. O pai, o senhor Alfredo, passava os dias em São Januário, roupeiro do Vasco, conhecia de perto a vida de jogador, mas o que mais transportava era o orgulho de vestir o filho com o manto da equipa nos dias de clássico.

 A mãe, a senhora Marisa, foi-se cedo, levada por uma pneumonia que a pobreza transformou em sentença. César tinha 8 anos quando perdeu o último pedaço de ternura que a casa guardava. A rua assumiu o papel de criar. Começou vendendo mate e cerveja nas arquibancadas. Ali, no betão quente e nos degraus apinhados, conheceu a força jovem.

 Primeiro ajudava a carregar bandeiras, depois passou a participar das brigas. Não era o mais forte, mas ninguém duvidava da coragem. Num confronto frente ao Flamengo, em 1993, defrontou um rival muito maior do que ele e derrubou o tipo sem dar um passo atrás. Foi aí que gritaram: “Este miúdo é maluco!” O nome ficou entre um jogo e outro, a vida em São Cristóvão continuava a mostrar o lado mais áspero.

Assaltos na esquina, polícia a subir o morro, gente a desaparecer de um dia para o outro. César aprendeu a mover-se pelas ruelas como se fizessem parte do corpo dele. Numa noite de tempestade, regressando para casa sozinho, acabou por ver algo que nunca contou a ninguém. Não era o momento de falar, nem de compreender.

Guardou a imagem para si, como quem engole veneno, e aprende a viver com ele. Na manhã seguinte, levantou-se cedo, seguiu a sua rotina, foi para o estádio ajudar o pai, mas por dentro algo já não era o mesmo e não voltaria a sê-lo. Carlinhos Bocão era mais do que um parceiro de torcida.

 cresceram juntos, dividindo marmita, chuteiras e até castigo. Enquanto César era fechado e observador, O Bocão falava alto, ria-se de tudo e sempre arranjava confusão. Os dois se completavam como se fossem irmãos de sangue. Nos anos 90, as viagens da Força Jovem eram um misto de festa e guerra: Autocarros lotados, bandeiras enroladas no corpo, cerveja quente e olhares atravessados ​​quando cruzavam outras claques na estrada.

 César e Bocão estavam sempre à frente, não importava a dimensão da briga. Foi numa noite de domingo, depois de um clássico contra o Flamengo no Maracanã, que tudo aconteceu. O jogo terminou tenso, concorreria na saída e resolveram apanhar um autocarro até Bom Sucesso para cortar caminho. Desceram na Praça das Nações. Pouco depois das 10 da noite.

 A chuva miudinha começava a cair e o movimento na rua era quase nenhum. Três homens surgiram da esquina andando depressa. Um deles pôs a mão por baixo da camisa. Perdeu, perdeu. Passa tudo disse sem levantar a voz. César deu um passo para trás. Bocão? Não. Ele avançou, empurrou aquilo que parecia ser o líder e tentou arrancar a arma.

 Foi aí que vieram os estampidos. Um, dois, três. O som ecoou pelas paredes húmidas. O César viu o bocão cair, a boca aberta, o olhar perdido se ajoelhou, sentindo o corpo tremer e o sangue quente escorrer pela mão. O cheiro a pólvora misturava-se ao da chuva e do asfalto molhado. Os três homens correram e desapareceram nas ruas escuras.

 Ficou ali minutos que pareceram horas, com o corpo do amigo nos braços. Não chorou, não gritou, só olhou para o vazio e guardou cada detalhe. O rosto dos homens, a forma como seguravam a arma, o som da voz de quem mandou o ataque. Naquela noite não regressou a casa, deambulou pelas ruas até amanhecer, repetindo para si mesmo que aquilo não ia ficar assim.

 Era o início de uma caçada que não teria retorno. O primeiro alvo não foi por acaso. César passou meses à caça de informações sobre os três homens de bom sucesso. Dois desapareceram rapidamente, presos ou mortos por outros. Mas um deles continuava pelas ruas, fazendo exatamente o que fez com bocão, cercando gente desarmada, tomando tudo e deixando um rasto de violência.

César não foi de peito aberto. Observou durante semanas. Descobriu que o homem vivia no engenho de dentro e fazia corridas noturnas. sempre na mesma área do Mér. O bairro tinha ruas estreitas, becos com saídas duplas, perfeitos para quem sabia mover-se sem ser visto. Nessa noite, César estava de blusão preta, boné baixo, andando a pé como se fosse mais um a regressar do trabalho.

Esperou que o homem virasse uma esquina escura perto da antiga linha do carro eléctrico. Ninguém mais por perto. Dois passos rápidos, a mão firme no coldre improvisado, o ruído seco de um disparo curto. O corpo caiu sem grito, apenas o peso batendo no chão. César não olhou para trás, seguiu andando, desaparecendo na escuridão.

Foi assim que nasceu o sussurro da moto preta. Não que tivesse usado moto nesse dia, mas na semana seguinte, quando outro ladrão conhecido foi encontrado caído numa travessa da Penha, testemunhas juraram ter visto uma moto escura saindo rapidamente do local. César percebeu que o boato era útil, passou a utilizar a história a seu favor.

 Às vezes ia de moto, outras a pé, deixando sempre a dúvida. Os meses seguintes foram uma sequência calculada. Ele não atacava qualquer um, ia atrás de nomes que a própria vizinhança apontava. gente com histórico pesado, sem proteção oficial, mas que espalhava o medo. Cada vez que um deles caía, os comentários cresciam.

“Foi o maluco”, diziam em voz baixa. Mas havia um risco que César sabia que um dia teria de enfrentar. Um dos mortos era protegido de um grande nome da Penha, homem com ligações dentro e fora da cadeia. A notícia chegou rapidamente aos ouvidos errados. Nessa noite, enquanto bebia ao balcão de um boteco em São Cristóvão, um recado veio pelo empregado.

tão a chamar-te para conversar. É coisa séria. Complexo do Caju. O complexo do caju à noite tinha um silêncio estranho. Não era ausência de som. Era aquele tipo de silêncio que vinha carregado de olhos, todos invisíveis, observando cada passo. César foi sozinho, sem arma aparente, camisa simples, boné puxado, seguiu a pé pelas ruas até chegar a uma casa com luz baixa.

 Lá dentro, o ar cheirava a cigarro e a café requentado. Sentado numa cadeira de plástico, um homem com cerca de 50 anos, pele marcada e olhar pesado. Era conhecido como Velho Dimas, figura respeitada na Penha e com a mão em negócios que iam desde o contrabando a acertos de dívida. “Tu andaste a mexer naquilo que não é teu”, disse Dimas sem levantar a voz.

 Estou a limpar a minha área”, respondeu César, olhando firme. O silêncio durou alguns segundos, só quebrado pelo som longínquo de um comboio passando. Dimas encostou-se ao encosto da cadeira, cruzou os braços e soltou um meio sorriso. “A tua área não acaba no Meyer. Aqui é a Penha e um dos que tu derrubou era meu aliado. Quero saber se isto foi recado ou acaso.

” César não desviou o olhar. Foi cobrança. Nada pessoal contigo. O velho avaliou a resposta, tragou lentamente o cigarro e soltou o fumo. Então é o seguinte, tu não mexas nos meus, eu não me meto contigo, mas já que gostas de caçar, há um nome que talvez te interesse. Era o início de um jogo novo. Dimas queria eliminar César, queria usá-lo.

 Passou o nome de um ladrão que andava atravessando o caminho de todo. César aceitou sem responder muito, mas entendeu que aquela parceria podia ser útil. A partir daí, começou a circular pela penha com mais cuidado. Conhecia as ruelas, os becos que pareciam não ter saída, mas levavam a outros pontos, os olheiros com rádio na mão.

 Ele não se misturava, não vendia, não participava de reunião, só entrava, fazia o serviço e desaparecia. Foi neste período que César aprendeu a regra não escrita. Em território de facção, não é quem a tira melhor que sobrevive, é quem sabe com quem pode falar e com quem nunca deve cruzar palavra.

 Esta convivência forçada acabou por levar César a contactos inesperados. Um deles vestia farda durante o dia e roupa civil à noite. A ligação entre os dois mudaria o rumo da a sua guerra. O polícia chamava-se Fábio Rocha, cabo da PM, colocado num batalhão da zona norte, rosto comum o bastante passar despercebido e língua afiada para negociar no submundo.

 Conheceu César numa dessas entradas controladas na Penha quando foi buscar informação sobre um assalto à ourivesaria. Não demorou a perceber que o maluco não era só claques, era um homem que sabia onde encontrar pessoas que a polícia não conseguia alcançar. O acordo começou simples. O Fábio passava nomes que interessavam ao batalhão, ladrões, receptadores, desafetos de oficiais.

 Em troca, César recebia cobertura. Rondas desviadas da zona onde ele se encontrava, avisos sobre as operações e, principalmente, o acesso a armas que não vinham de boca de fumo. Era um jogo perigoso. No papel, Fábio era lei. Na prática, ajudava um caçador urbano a seguir a sua lista. E César sabia que quanto mais entrasse neste mundo, mais difícil seria sair.

 Mas a vantagem era clara. Agora podia mover-se por bairros como Ramos, Olaria e Caju, sem esbarrar em blitz inesperada. Com essa liberdade, a lista de César cresceu rapidamente. Não eram apenas os nomes que ele queria por conta própria, eram também os pedidos que vinham fardados. Alguns desses alvos eram bem mais pesados ​​que um ladrão de esquina, gente com escolta armada, com casa vigiada por câmara, com telefone agrafado.

 Numa noite abafada de Agosto, César recebeu um envelope por baixo da porta. No interior, uma foto e um endereço. O bilhete dizia apenas: “Trata como prioridade”. Era o Fábio a testar até onde o maluco ia. O alvo, no entanto, tinha mais proteção do que parecia. César passou dias a estudar a rotina e descobriu que no fim de semana o homem frequentava um bar na barreira do Vasco.

Área sensível, cheia de adeptos rivais e vizinha do estádio. Era uma jogada arriscada, mas também pessoal. Não havia lugar onde César se sentisse mais seguro do que perto da sua claque. O que não sabia é que nessa noite o bar estaria lotado por causa de um clássico e que a violência não ia ficar restrita às bancadas.

 Era dia de clássico em São Januário, Vasco e Flamengo, bancadas pulsando, bandeiras a ondular, o cheiro de churrasco misturando-se com o de cerveja barata. César estava lá, como sempre, com a força jovem na linha da frente. Mas naquela tarde a claque era só disfarce. O alvo da foto que o Fábio tinha mandado estava no estádio, misturado à multidão, rindo com dois seguranças ao lado.

 O jogo foi tenso, entradas duras, provocações nas bancadas. Do outro lado, a claque rival respondia com cânticos que eram mais ameaças do que música. César não tirou os olhos do homem, esperou pelo apito final e a confusão que se formava sempre à saída. Na barreira do Vasco, o fluxo de pessoas dividia-se entre quem ia beber e quem ia correr.

 Uma briga entre claques rebentou na esquina da rua Ricardo Machado. Garrafas a voar, gritos, gente empurrando. Foi o momento perfeito. César aproximou-se pela lateral, mão no bolso, passo calmo. Dois tiros abafados, quase engolidos pelo barulho da confusão. O alvo tombou no lancil, sangue a escorrer até à sargeta, mas algo correu mal.

 Os seguranças reagiram, puxou da arma e disparou sem olhar para onde. A bala atingiu um adepto que não tinha nada a ver com a história. O ruído mudou de tom. Já não eram só gritos de briga, era pânico. A PM entrou pesado, caveirões a subir à rua, tropas de choque abrindo caminho a cacetete e bomba de efeito moral.

 César misturou-se à multidão, atravessou um beco e desapareceu antes que as barreiras se fechem. Mas o recado tinha sido dado. No dia seguinte, a morte do adepto inocente tornou-se manchete. Fotos desfocadas, especulação sobre o confronto armado. Nenhuma menção ao alvo real. Só que, nos bastidores, um homem começou a prestar mais atenção nele.

 O detetive André Moura, perito em crime sem testemunha e com faro para quem se esconde atrás de lenda. E ao contrário dos outros, Moura não tinha medo de ir atrás do maluco. A resposta não tardou. Dois meses depois do episódio na barreira do Vasco, César regressou de madrugada para casa e encontrou a porta semiaberta. Não havia sinal de arrombamento, mas o silêncio lá dentro era pesado.

 No quarto, o amigo que partilhava o barraco com ele, Léo Cabelinho, estava caído no chão. Respiração fraca, manchas escuras no peito. Ainda tentou falar, mas só conseguiu soltar um murmúrio antes de apagar de vez. O Cabelinho não tinha nada a ver com o jogo de César. Era parceiro de infância, ajudava a vender bilhetes falsos e cuidava de um depósito improvisado, onde César guardava motos e algumas armas.

 Aquele ataque não era recado velado, era um corte direto nas raízes. Na mesma noite, César foi até ao Penha. O velho Dimas já sabia, disse apenas. Foi retaliação. Gente que tu mexeu lá atrás, agora usando outro nome para se aproximarem e não vão parar. Os dias seguintes foram de silêncio e espera César desapareceu sem dar satisfações para a claque, para os contactos da PM ou pros aliados de boca.

 Ficou num quarto alugado em ramos, só saindo à noite para procurar informação. A raiva crescia, mas não deixava margem para erro. Quando voltou a aparecer, foi sob a forma de um recado. Um homem que trabalhava como olheiro para os responsáveis ​​pelo ataque foi encontrado no pátio abandonado de uma antiga fábrica de São Cristóvão, sem sinais de tiro, mas com o corpo marcado, de forma a que todos percebessem de onde vinha a cobrança.

 Não foi por impulso, foi calculado, meticuloso, como um aviso de que a caçada estava aberta. O O detetive André Moura, que já investigava César, percebeu que a escalada de violência tinha mudado de tom. Não era mais uma série de acertos pontuais, era uma guerra particular, com perdas pessoais e ataques de volta. Moura começou a aproximar-se de gente da claque, tentar mapear os passos do maluco.

 Enquanto isso, César recebia de Fábio Rocha um novo nome, um ladrão perigoso, mas que aparecia rodeado de escolta discreta. Junto do bilhete, uma frase curta. Este mexe com gente grande. Se é para ir, vai para matar. Era a deixa para uma nova fase da caçada. Os alvos já não eram só dele, e cada nome acarretava consequências maiores. No fundo falso de uma gaveta velha, César guardava o que mais importava, um caderno de capa preta, gasto, com marcas de humidade e páginas amareladas pelo tempo.

 Não era diário, nem contabilidade, eram nomes, uns completos, outros apenas apelidos. Ao lado de cada um, datas e locais, todos riscados com um traço firme de caneta azul. Todos menos um. O caderno não era conhecido por ninguém da claque, nem por Dimas, nem por Fábio Rocha. Era um mapa da sua guerra. Desde o primeiro homem caído no Meer até ao mais recente na Penha.

 Mais de 20 nomes, a maioria deles ligados a crimes que nunca tiveram solução oficial. Mas havia um nome que nunca saiu da ponta do lápis, sem apelido, escrito por extenso, com letras grandes, Ademir Cardoso, ao lado, apenas uma data incompleta, Novembro de 1986 e nada mais. César olhava para aquele nome como quem enfrenta um destino adiado.

 Aquela era a raiz de tudo, o fio que ligava a noite chuvosa da infância ao caminho que tinha seguido. Só que Ademir não aparecia num bar, não andava de moto, não bebia num botequim, era um fantasma. Foi Fábio Rocha quem, sem saber, deu a primeira pista. Numa conversa casual, falou sobre um ex-segurança que agora trabalhava na zona portuária, cuidando de telheiros e navios cargueiros.

 O alcunha do homem era mão seca, mas o registo de nascimento dizia outro nome. Quando César ouviu, o estômago ficou preso. O problema é que Mão Seca não vivia sozinho. Trabalhava rodeado de gente armada numa área controlada por um grupo que não era facção de morro, mas tão perigoso como os contrabandistas e atravessadores do porto.

 Entrar ali sem ser convidado era pedir para não sair. Mesmo assim, César começou a montar o caminho. Não tinha pressa. seguiu a rotina do homem durante semanas, anotando cada paragem, cada horário, cada rosto que o acompanhava. O nome no caderno não era apenas mais um, era o ponto final que esperava escrever há quase 20 anos, e desta vez não haveria volta a dar.

 O porto do rio tinha um cheiro muito próprio, mistura de marezia, óleo queimado e ferrugem. O vento que vinha da baía de Guanabara transportava o sal, mas também trazia o som metálico das correntes batendo nos mastros e o eco dos guindastes. Era neste cenário que Ademir Cardoso, o mão seca, circulava todos os dias, sem imaginar que alguém o observava de longe.

 Há semanas, César já conhecia cada passo dele. chegava cedo ao porto, pouco depois das 6 horas da manhã. Entrava pelo portão de carga, tomava um café num tasco improvisado dentro do barracão quatro e depois passava o dia supervisionando camiões e contentores. Não era uma função oficial. Ademir era segurança apenas no papel. Na prática, ele cuidava para que certos carregamentos entrassem e saíssem sem ser registado.

 A vigilância não era pesada, mas era constante. Dois homens estavam sempre a poucos metros, revesando entre vigiar o movimento e fumar à sombra dos contentores. Todos armados, mas discreto. A entrada no porto era controlado por torniquetes e seguranças uniformizado, o que tornava impossível simplesmente aparecer por lá sem um motivo.

 César sabia que não poderia atacar no porto. Precisava de pegar a Demir num ângulo morto, longe do mar, dos guindastes e dos olhares. Foi aí que decidiu seguir os seus passos para além do trabalho. Na primeira semana de vigilância externa, descobriu dois hábitos fixos. Um. Todas as quartas-feiras, Ademir ia ao Bom Sucesso visitar uma mulher que vivia num sobrado junto à Praça das Nações, a mesma praça onde há anos Carlinhos Bocão tinha caído.

 Dois, de 15 em 15 dias ia sozinho ao Jacarezinho para uma reunião num bar de esquina. A visita a Bom O sucesso mexia com César mais do que ele queria admitir. Passar pela Praça das Nações era como abrir um álbum de fotografias que nunca foi guardado. As fachadas mudaram, alguns bares fecharam, mas o chão de pedra irregular e o poste torto no canto da praça continuavam ali, como se nada tivesse acontecido.

 Numa dessas quartas-feiras, César posicionou-se cedo de moto, duas ruas acima, seguiu Ademir de longe, observando-o entrar no sobrado e ficar pouco mais de meia hora lá dentro. Quando saiu, desceu pela praça, parou para conversar com um vendedor ambulante e seguiu para apanhar um táxi. Nada de espaço para um ataque seguro.

 No Jacarezinho, a história era diferente. O bar que Ademir frequentava era pequeno, paredes amareladas pelo fumo, sempre com dois ou três homens a jogar dominó e bebendo cerveja. Aí César viu algo que não esperava. O velho, de mão seca, era tratado com respeito, quase deferência. As pessoas mais novas baixavam a cabeça quando ele passava.

 Isto não era normal para um simples atravessador de carga. Foi nessa noite que César decidiu mudar a estratégia. Não seria um ataque rápido, seria uma caçada lenta, mas certeira. Ele queria que Ademir soubesse que estava a ser observado, que sentisse o peso da presença do mesmo antes do golpe final. Começou a aparecer em locais próximos, mas sem se aproximar demasiado.

Um dia estava na padaria do outro lado da rua do sobrado de bom sucesso. Em outra semana, sentado num banco da praça, tomando um café num copo de plástico, observando no jacarezinho, ficou encostado a um poste, conversando com um conhecido dos adeptos que morava na área, sempre no campo de visão de Ademir.

 O recado foi dado uma noite no porto. Ademir parou junto ao portão antes de entrar, olhou para os lados e ficou alguns segundos parado, como se tentasse identificar algo. César viu de longe, escondido atrás de um camião estacionado, e soube que o alvo já estava a sentir a pressão. Mas este tipo de jogo tinha risco. E o risco veio na forma de uma mota com dois homens que passou demasiado devagar por ele numa rua do Caju. Não houve disparo, apenas o olhar.

Mas César compreendeu que o cerco também podia fechar-se contra ele. Era tempo de encurtar a distância. planeou o ataque para um sábado de chuva miudinha, quando sabia que o Ademir iria ao Jacarezinho. O bairro, nesses dias, ficava com menos movimento e a neblina misturada com fumo de churrasquinho criava um cenário perfeito para desaparecer depois.

O César chegou cedo, observou o bar de longe, anotou quem entrava e saía. Quando Ademir apareceu, estava sozinho de casaco escuro e boné. Entrou no bar e pediu uma cerveja. César esperou 10 minutos antes de se aproximar. Não foi armado como sempre. Desta vez trouxe uma pistola pequena, fácil de esconder. Entrou no bar como um cliente qualquer, pediu uma água, ficou de costas para o alvo. O clima estava carregado.

 A TV no canto passava um jogo da Série B. Ninguém parecia prestar atenção. Quando Ademir levantou-se para ir à casa de banho, César moveu-se, atravessou o corredor estreito, entrou atrás dele e trancou a porta. Não houve grito, apenas o som abafado de dois tiros, caindo depois o corpo lentamente, como se o peso demorasse a perceber que já não tinha dono.

 César saiu pela porta lateral do bar, que dava para um beco estreito e desapareceu na chuva. A moto preta estava a três quarteirões dali. Nesse momento, o último nome do caderno estava prestes a ser riscado, mas a história de como aquele nome tinha ali chegado ainda precisava de ser contada. A chuva caía fina, mas insistente, transformando o asfalto em espelho e lavando as paredes já descascadas do jacarezinho.

 A moto preta estava estacionada num beco escuro, motor ainda quente. Dentro do casaco, o caderno de capa preta pesava mais do que qualquer arma. O último nome tinha agora um risco atravessado, mas riscar não significava acabar. César seguiu a pé até um barracão abandonado no Caju, onde sabia que ninguém o procuraria nessa noite.

Sentou-se num caixote, tirou o caderno do bolso e abriu na primeira página os nomes, as datas, as moradas e lá no topo da lista o primeiro registo. Ademir Cardoso, Novembro de 1986. A memória voltou inteira, sem pedir licença. Rio de Janeiro, novembro de 1986. O César tinha 7 anos. A mãe Marisa ainda estava viva.

 Viviam no mesmo barraco colado aos carris em São Cristóvão. Era noite de tempestade. O pai não tinha voltado do trabalho no Vasco e a mãe o mandou buscar água à bica comunitária, duas ruas abaixo. O menino desceu a correr, com o balde pequeno na mão, desviando-se das poças. A meio do caminho, parou ao ouvir vozes altas.

 Na esquina, perto de um poste torto, três homens discutiam. Um deles mais alto empurrava um homem magro contra a parede. A discussão virou pancada. César reconheceu o magro. Era um vizinho que por vezes ajudava a mãe a carregar compras. De repente, um quarto homem surgiu da sombra. Alto, magro, com um casaco que brilhava sob a luz fraca.

Segurava uma pistola. O menino viu o movimento rápido e frio, um disparo no peito do vizinho. O corpo caiu e o som da chuva engoliu o Bac. Os outros riram-se baixo, tiraram algo do bolso da vítima e começaram a afastar-se. Antes de sumirem, o homem do casaco olhou para trás. O olhar cruzou-o do menino que estava parado, encolhido atrás de uma pilha de tijolos.

 Não disse nada, não correu, apenas olhou como quem grava um rosto para sempre. Nessa noite, César voltou para casa sem a água. Não contou nada para a mãe, mas o rosto daquele homem, Ademir Cardoso, ficou gravado com a nitidez de um corte. Ele não sabia o nome na altura, mas sabia que aquele olhar tinha marcado uma dívida que um dia precisaria de ser cobrada.

 O tempo passou, a mãe morreu, o pai fechou-se no trabalho e o César cresceu com aquela cena escondida na memória. Foi só anos depois, já dentro da claque, que ouviu a alcunha Mão Seca, em conversas de bar, e reconheceu a forma de andar, a postura. demorou ainda mais tempo a confirmar o nome verdadeiro. Quando confirmou, abriu o caderno e escreveu como primeiro registo, muito antes de Bocão cair em bom sucesso.

 De volta a 2005, sentado no barracão, César fechou o caderno. A promessa estava cumprida, ou pelo menos era isso que ele queria acreditar, mas o silêncio em redor parecia demasiado pesado para um fim. No dia seguinte, o detetive André Moura soube da morte de Mão Seca ainda antes de a perícia chegar. Não havia testemunhas, mas a execução tinha assinatura.

 Moura já não caçava provas, caçava fantasmas e o maior deles utilizava boné baixo e circulava por estádios como se fizesse parte da paisagem. Dimas, lá da Penha, também recebeu a notícia e não gostou. Mão seca era peça de um jogo maior no porto e a queda do mesmo mexia com interesses que iam muito para além das vielas.

 Pela primeira vez, Dimas não sabia se manter César vivo ainda era vantagem. E Fábio Rocha, o cabo da PM, entendeu que o parceiro de caçadas agora tinha cruzado uma linha que não interessava a farda. Não era mais eliminar ladrões ou alvos convenientes, era o ajuste pessoal e isso atraía a atenção demais. Nessa noite, César andou pelas ruas de São Cristóvão como quem revisita um filme antigo.

 Passou pela linha do comboio, pelo tasco onde vendeu mate pela primeira vez, pela esquina onde ganhou o apelido. Chegou à Praça das Nações, ficou alguns minutos parado, observando o poste torto ainda de pé. Chovia de novo, fino, como em 1986. Não havia multidão, nem aplausos, nem manchetes. Apenas um homem sozinho, com um caderno no bolso e a estranha sensação de que, ao cortar o último fio tinha acendido outros.

 O ciclo parecia completo, mas ciclos no Rio nunca fecham por muito tempo. Se esta história aprendeu você até aqui, subscreve o canal, deixa o gostei e partilhe para mais gente conhecer.

 

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