A TRAGÉDIA que MATOU DOMINGOS MONTAGNER aos 54 ANOS — Camila Estava ao Lado

A TRAGÉDIA que MATOU DOMINGOS MONTAGNER aos 54 ANOS — Camila Estava ao Lado

Aquele homem sabia nadar. Era acrobata de circo. Tinha o corpo treinado. Controlava cada músculo melhor do que quase qualquer pessoa no mundo. E mesmo assim, num intervalo de almoço, num troço de rio que parecia tranquilo, ele não conseguiu voltar para a margem. 15 de setembro de 2016, uma quinta-feira. Guarda essa data.

 Quatro horas depois de entram na água sorrindo, mergulhadores tiraram-lhe o corpo do fundo do rio, preso entre as pedras, a 18 m de profundidade. 18 m? E o que quase ninguém te contou é que no instante em que lutava para não afundar, havia pessoas a poucos metros dali. Gente que ouviu um grito de socorro e não se mexeu.

 Por um motivo tão cruel que vai custar a acreditar quando eu contar. Do lado dele, dentro de água, estava uma mulher que o Brasil inteiro conhece. Ela viu tudo, gritou até quase perder a voz e por pouco não se afogou também. Fica até o final, porque vai perceber o que tinha naquele rio capaz de vencer Domingos Montanheira, um homem que sabia nadar.

vai perceber porque é que ninguém chegou a tempo, mesmo com gente mesmo ali ao lado, e vai compreender porque é que esta morte talvez nunca devesse ter acontecido. E pode ser que esteja aí agora sozinha com a casa sossegada, o som baixo para não acordar ninguém. Se já viu alguém que amava entrar numa água, numa estrada, num quarto de hospital e não voltar da forma que devia voltar, então vai sentir esta história de um forma que pouca gente sente.

 Mas a morte foi apenas o fim desta história. A vida deste homem é muito maior do que aquela tarde no Rio. E é ela que eu te vim contar inteira. Hoje aqui comigo tu vai saber seis coisas sobre Domingos Montanheira. Seis coisas que a televisão passou a correr ou que nunca te contou direito.

 A primeira, quem era este homem antes de qualquer câmara? E porque tudo que conquistou chegou tarde demais e durou pouco tempo demais. A segunda, o tamanho exato da glória que ele alcançou já passado dos 50 anos. rápido, alto e curto. A terceira, o que de facto aconteceu naquele intervalo de almoço num rio perdido no sertão de Sergipe? E tem um pormenor sobre quem gritou por socorro nessa tarde que vai apertar o o seu coração.

 A quarta, porque um homem que sabia nadar com o corpo treinado de um acrobata de circo não conseguiu sair daquela água? A quinta, o que ficou pela metade, o que não teve tempo de terminar, faltando tão pouco. E a sexta, como a telenovela, o país e a família seguiram em frente depois desse dia. E um último pormenor, que quando se souber, já não vai conseguir tirar da cabeça.

 E já te vou avisar de uma coisa. Antes de ser o galã que parou o Brasil, este homem foi outra coisa, completamente diferente há mais de 30 anos. E quando descobrir o que ele fazia da vida antes de a fama chegar, a forma como tudo terminou vai doer-te ainda mais. Mas para que possa entender o tamanho do que se perdeu nessa tarde, preciso de te levar para o começo de tudo.

São Paulo, bairro do Tatuapé. Fevereiro de 1962. Nasce aí um menino, filho de italianos, numa casa onde desde cedo todos trabalhava. Aos 16 anos, este menino já ajudava no bar dos pais para somar dentro de casa. E ninguém que olhasse para ele naquela altura podia imaginar duas coisas.

 nem que um dia o Brasil inteiro ia chorar a sua morte, nem o estranho e belo caminho que a vida dele ia fazer antes de chegar à sua televisão. Antes de ser o galã que viu na novela, Domingos foi muita coisa. Foi o rapaz do bar dos pais no tatuapé, secando o copo e ouvindo conversa de gente grande. Foi o rapaz que descobriu cedo que o seu corpo fazia coisas que o corpo dos outros não fazia, que ele subia, girava, caía e levantava-se como se a gravidade não tivesse qualquer poder sobre ele.

 E o que fazia as pessoas pararem para olhar era precisamente isso. este domínio do próprio corpo. Foi seguindo este dom que ele foi parar ao lugar onde passaria quase a vida inteira. Um picadeiro, a lona, ​​o serradura, a luz amarela, o cheiro a circo. E aqui entra a primeira coisa que prometi-te, aquele galã maduro das novelas das ve o homem que o Brasil conheceu como ator de televisão era, antes de qualquer câmara, um palhaço de circo. Isso mesmo, palhaço.

Domingos esteve mais de 30 anos no Picadeiro antes de o país aprender o nome dele. Demorou mais de 30 anos a fama chegar até ele. Juntamente com o amigo Fernando Sampaio, criou uma dupla chamada Lam Mínima. Dois palhaços que faziam acrobacia e humor quase sem abrir a boca. E presta atenção a esta ironia, porque ela é bela e cruel ao mesmo tempo.

 O maior prémio de teatro que Domingos ganhou na vida, o prémio Shell, que recebeu interpretando um palhaço mudo num espetáculo chamado A noite dos palhaços mudos. Quer dizer, o homem que um dia ia fazer chorar o Brasil inteiro, dando voz a uma personagem, construiu a vida dele em silêncio, apenas com o corpo, apenas com o movimento.

 Depois ajudou a fundar um circo a sério, o circo Z, e foi diretor artístico, proprietário daquele mundo da lona e da serradura. O circo era a paixão da vida dele. A televisão veio muito depois, quase por acaso. E esse domínio absoluto que tinha do próprio corpo, esta força de acrobata que enganava a gravidade todos os santos dias, guarda isso bem guardado, porque lá na frente é exatamente isso que vai tornar o final desta história quase impossível de aceitar.

 Quando a televisão finalmente reparou nele, foi como se o Brasil tivesse encontrado um tesouro que esteve ali o tempo todo, debaixo do nariz de toda a gente. Em 2011, numa novela chamada Cordel Encantado, ele viveu o capitão Herculano. E aconteceu uma coisa rara. Um homem que já passava dos 45 anos, estreando-se a sério na telíia, virou de uma hora para a outra um dos rostos mais falados do país.

 As mulheres pararam para olhar, aquele tipo de galã que não tem 20 anos, que tem ruga, que tem história no olhar e uma presença que faz com que o ecrã fique pequeno de tão grande que ele era. Naquele mesmo ano ganhou o prémio de ator revelação. revelação. Imagina o peso desta palavra. Um homem de quase 50 anos a ser chamado de novidade depois de uma vida inteira de trabalho que o Brasil nunca tinha visto. O país não mais o largou.

 Veio o brado retumbante, onde nada fez menos do que um presidente da República. Veio sete vidas em 2015, o primeiro papel de protagonista dele numa telenovela. Ele no centro da história, o seu nome na abertura, parando toda a casa para ver. cada trabalho, um degrau mais e o público, que tanto tinha levado tempo para descobrir aquele rosto, agora já não conseguia imaginar a novela das vees sem ele.

 E depois, em 2016, chegou o convite que coroava tudo, o papel da vida, protagonista de uma das telenovelas mais esperadas em muito tempo, Uma enorme história sobre o sertão e sobre um rio, o rio São Francisco, o velho Chico, como o povo lhe chama com carinho. Domingos ia viver santo, o coronel Doro da história, o homem em redor de quem tudo girava.

 30 anos de lona, ​​de picadeiro, de prémio sem público famoso. E finalmente ali estava o topo, o auge inteiro chegando de uma só vez aos 54 anos. Mas havia uma coisa que ninguém sabia, nem ele, nem a Janete que assistia em casa. Nem o Brasil que se apaixonou-se pela novela, aquele rio que dava nome a tudo, aquele velho Chico que parecia apenas um cenário bonito de fundo, a ter na vida real de domingos um papel que nenhum guião jamais escreveu.

 Para que possa entender o que aconteceu depois, preciso que me sinta primeiro o tamanho do que este homem tinha conquistado, porque não era pouca coisa, Janete. A novela das ve na A televisão brasileira é o lugar mais alto que um ator pode chegar. É a história que todo o país acompanha de segunda a sábado, àquela hora em que a casa se acalma, o jantar termina e a família fica junta na frente da tela.

 E Domingos não era um ator qualquer ali dentro. Era o protagonista, o dono da história, o rosto que aparecia primeiro, o nome que abria a novela toda a noite, depois de mais de 30 anos debaixo de uma lona, ​​fazendo rir gente que nunca soube o seu nome, agora era a vez de ser o centro de tudo. E o velho Chico era uma super produção das grandes, gravada de verdade no sertão, as margens do rio São Francisco, com o enorme elenco e a poeira vermelha da catinga encrando na roupa de toda a gente.

 Domingos vivia santo, um coronel de presença pesada, dono de uma força que enchia a tela e contracenava com Camila Pitanga, uma das atrizes mais amadas do Brasil. Os dois eram o par central da história e o público se derretia por aquele romance de ficção. Toda a noite, milhões de pessoas e a janete entre elas sentavam-se para ver aquela saga de amor e de terra seca.

 Na rua, as pessoas reconheciam o coronel santo e queriam chegar perto, falar com ele, tocar-lhe no braço. As as mulheres suspiravam, os homens respeitavam. Depois de uma vida inteira no anonimato do picadeiro, Domingos finalmente estava a sentir na pele o que era ser amado por um país inteiro de uma vez só. Ele recebia tudo aquilo como uma humildade que quem o conhecia jurava ser de verdade.

 E pensa no que tudo aquilo significava para um homem como ele. Imagina passar a vida inteira a fazer arte para pequenas plateias em cidades do interior, montando e desmontando lona, ​​dormindo longe de casa, sem nunca ouvir o próprio nome na boca do país. E depois, já com os cabelos grisalhos, de repente ser parado na rua, ser pedido em foto, ser amado por pessoas que nem sequer te conhece direito.

 para muita gente, este teria subido à cabeça. Pró Domingos, parece que serviu mais como uma confirmação que tardou a chegar, a prova de que tinha valido a pena insistir todos aqueles anos naquilo em que acreditava quando mais ninguém acreditava. E aqui vem a segunda coisa que te prometi, o tamanho exato dessa glória. Presta atenção aos números, porque eles contam uma história sozinhos.

Domingos passou mais de 30 anos trabalhando longe dos holofotes, no circo, no teatro, sem o Brasil saber quem ele era. Estreou-se para valer na televisão só em 2011. E em apenas 5 anos, cinco, ele saiu de quase desconhecido para protagonista da maior novela do país aos 54 anos de idade. 5 anos para subir o que muita gente leva a vida toda e nunca alcança.

 Era tudo isso. 30 anos de espera, 5 anos de subida vertiginosa e o topo absoluto finalmente debaixo dos pés dele. O que ninguém imaginava é que o destino ia deixá-lo viver esse topo por muito, muito pouco tempo. Mas toda a glória cobra um preço e há um preço que nós só vê olhando para trás. Para viver aquele coronel do sertão, o Domingos tinha que estar ali no sertão a sério, longe de São Paulo, longe de casa, no meio da natureza grandiosa de Sergipe.

 E ali de junto ao local onde gravavam, corria ele, o velho Chico, o mesmo rio que dava nome à novela. De longe, parecia apenas um postal, água, calma, beleza pura. Só que aquele rio guardava troços de corrente forte, fundões, traiçoeiros, sem qualquer placa de aviso e sem nadadores-salvadores por perto. E ninguém pensava nisso.

 Por que razão pensaria? Era apenas o rio bonito do fundo das cenas, o cenário natural da história. Lembra-se do corpo de acrobata do Domingos, daquela força que enganava a gravidade todos os dias? Pois este homem que dominava o próprio corpo melhor do que quase qualquer pessoa no mundo, nunca passou pela cabeça que aquela água ali ao lado pudesse ser perigosa para ele.

 Por fora, a vida de Domingos nesse ano de 2016 era a imagem da coisa certa. Ele tinha o papel da vida. Tinha um casamento firme com a Luciana, a mulher com quem partilhava tudo desde 2002. Tinha três filhos, tinha saúde, tinha o corpo treinado, tinha disposição para gente muito mais nova e tinha, enfim, passado tanto tempo, o reconhecimento que mereceu desde sempre.

 Era um homem que fez tudo bem e estava a colher tarde, mas colhendo o que plantou. Se se olhasse para ele naquela altura, ia pensar que esta história só podia terminar bem, que depois de tanta espera, merecia anos e anos no topo, vendo os filhos crescer, fazendo papel atrás de papel. Guarda esta sensação de que tudo estava no lugar, porque costuma ser justo quando tudo parece no lugar que a vida decide virar a página da forma mais cruel.

15 de setembro de 2016, uma quinta-feira como tantas outras. Faltavam apenas duas semanas para o último capítulo do velho Chico. E o elenco vivia aquela recta final, o clima leve de quem já vê o fim de uma longa jornada e está quase em casa. As gravações desse dia aconteciam em Canind, São Francisco, no interior do Sergipe, com o sol do sertão a castigar todos sem dó.

 Veio o intervalo do almoço. As pessoas comeram, conversaram, riram-se daquele jeito de quem trabalha juntos há meses e tornou-se uma família meio improvisada. E o calor era tanto, mas tanto, que a água do rio ali ao lado parecia um convite, um alívio, a coisa mais natural do mundo num dia daqueles. E antes de eu te contar o que aconteceu naquela água, preciso de te pedir uma coisa. De coração.

 O que vem agora é a parte mais difícil desta história toda. Se chegou até aqui comigo, deixe um comentário. Nem que seja apenas um coração, só para eu saber que estás do meu lado nessa. Subscreve o canal e ativa o sininho, porque histórias como a do Domingos merecem ser recordadas com respeito, da forma certa e não jogadas no esquecimento.

 faz isso por ele e fica comigo, porque agora entramos na parte que o Brasil inteiro nunca conseguiu esquecer. Domingos era um homem do corpo, vinha do circo, da acrobacia, tinha passado a vida inteira dominando cada músculo, cada movimento. Sabia nadar e nadava bem. Para um homem como ele, entrar naquele rio num dia quente não tinha nada de ousadia.

Era apenas um banho, um refresco no meio do trabalho, igual a tantos que já tinha tomado. E não entrou sozinho, entrou acompanhado por uma colega de elenco, alguém com quem partilhava cenas todos os santos dias, uma amiga de trabalho. Os dois foram para a água, pensando que era o gesto mais simples e inofensivo do mundo.

 O que não sabiam, o que ninguém naquele sete sabia é que aquele troço do São Francisco escondia uma corrente traiçoeira logo abaixo da superfície mansa, e quanto mais se afastavam da margem, sem se aperceberem, mais perto chegavam de uma força que não dava aviso nenhum. Agora preciso de te contar a terceira coisa que te prometi e é a mais dura de todas.

 Naquele banho de rio, no meio da tarde, a corenteza apanhou domingos. Aquele homem que dominava o próprio corpo, como pouca gente no mundo, o acrobata, o atleta, foi puxado para baixo por uma força que nem ele conseguiu vencer. A colega que estava com ele viu tudo, viu-o lutar contra a água, viu-o desaparecer e começou a gritar por socorro com toda a força que tinha no peito.

 E é aqui, Janete, que mora o pormenor mais cruel desta história inteira. Aquilo que eu te prometi lá no início, o que custa a acreditar que foi real. As pessoas que estavam por perto, na margem, ouviram os gritos dela, só que aquilo era um sete de novela. Todo mundo ali estava habituado a ver cena de drama o dia inteiro.

 E muita gente, no primeiro momento pensou que ela estava atuando, que era apenas mais uma cena a ser gravada. E demorou. Demoraram aqueles segundos terríveis para alguém entender que o desespero era verdadeiro, que não tinha ali uma câmara ligada, que era uma pessoa de carne e osso, implorando por uma vida que se estava a apagar.

 Quando a ficha caiu e a equipa correu, Domingos já tinha desaparecido nas águas do velho Chico. Tudo o que admirava nesse homem, a força, o talento, o domínio absoluto do corpo, muda de sentido neste instante, porque toda aquela força e toda aquela preparação de uma vida inteira não foram capazes de o salvar de um rio num dia de trabalho comum.

 E foi a a partir daí que tudo mudou, não só para família dele, não só para o elenco da novela, mas para o Brasil inteiro. Porque quando a notícia se espalhou, cada pessoa que assistia ao velho Chico sentiu como se tivesse perdido alguém da própria casa. E ficou no ar uma pergunta que até hoje aperta o peito de quem pensa nesse dia.

 O que será que passou pela cabeça daquela mulher sozinha no meio do rio, gritando, vendo o amigo desaparecer na água e apercebendo-se, segundo após segundo, que ninguém vinha, porque achavam que ela estava a fingir? Que peso é aquele para carregar pelo resto da vida? Essa mulher era Camila Pitanga, a atriz que fazia par com ele na novela A colega de Todos os Dias, a Amiga.Camila Pitanga desabafa ao relembrar morte de Domingos Montagner |  Celebridades | iG

E aqui preciso de ser muito claro com te, porque em cima dela despejaram durante anos uma maldade que ela nunca mereceu. A Camila não teve culpa de nada. A Camila foi a pessoa que estava ao lado, que tentou, que gritou até quase perder a voz e que quase morreu junto naquela água.

 Ela própria precisou de ser resgatada por um barco já sem forças, à beira de afogar-se também. Imagina o que é? ser a última pessoa a ver alguém com vida, querer salvar, esticar a mão e não conseguir. O que dizia aquele grito dela no meio do rio era a coisa mais humana que existe. Era um pedido para que ficasse, para que alguém viesse, para que aquilo não fosse real. E ninguém veio a tempo.

 E nessa mesma tarde, enquanto o o desespero tomava conta das margens do São Francisco, enquanto os barcos e mergulhadores iniciavam uma busca contra o relógio, a vida seguia tranquila em todo o resto do país. Em São Paulo, numa casa onde uma mulher e três filhos esperavam o pai regressar de mais um dia de trabalho, o telefone ainda não tinha tocado. Eles ainda não sabiam.

 O Brasil ainda não sabia. Durante algumas horas, milhões de pessoas continuaram a vida normal, comentando o coronel santo, sem fazer a mínima ideia de que o homem por trás daquela personagem já tinha entrado na parte mais escura desta história. E é precisamente para dentro dessas horas que a gente vai agora. As horas que vieram depois daquele grito foram as mais longas que aquele sete já tinha vivido.

 De repente, o que era um dia de trabalho tornou-se uma operação de desespero. Barcos a cortar a água por todo o lado, mergulhadores a descer no rio escuro, desaparecendo na profundeza e voltando à tona sem nada nas mãos. bombeiros, pescadores da região, gente do elenco parada na margem, de mão na boca, sem saber o que fazer.

 E o rio, aquele velho Chico imenso e silencioso, não devolvia resposta nenhuma. A superfície voltava a ficar lisa, calma, indiferente, como se nada ali tivesse acontecido, como se tivesse engolido um homem e fechado a porta atrás dele. O tempo começou a pesar de uma maneira que dói só de imaginar. Passou uma hora.

 A esperança era ainda grande. Toda a gente achava que ia dar tudo certo, que ele ia aparecer a nadar, dizendo que se tinha assustado à toa. Passou a segunda hora, os rostos na margem foram-se alterando. Passou a terceira e quando se aproximou a quarta hora, aquele silêncio que ninguém queria admitir já tinha tomado conta de todo o mundo. 4 horas janete.

 4 horas é tempo de mais debaixo de água para qualquer ser humano que exista. E no fundo do peito, um a um, foram entendendo que que o rio já sabia desde o início. A operação de resgate só crescia. Chegaram mais barcos, mais mergulhadores, equipas que conheciam aquele rio palmo a palmo. Desciam quase às cegas naquela água turva, tatiando o fundo, lutando contra a mesma corrente que tinha levado domingos.

 E enquanto o sol começava a baixar no sertão, pintando o céu de laranja por cima de uma cena de pesadelo, cada minuto que passava tornava tudo mais difícil. A esperança não morre de uma vez, Janete. Ela vai minguando devagar, igual a uma vela chegando ao fim. E toda a gente ali lá no fundo já sentia a chama a tremer. Enquanto a busca continuava, quero que pare e guarde uma coisa comigo.

Pensa em tudo o que este homem tinha sido na vida. Um palhaço. Um homem que escolheu lá no início de tudo dedicar a existência inteira a fazer os outros rirem. que pintava o rosto, vestia o nariz vermelho, subia para o picadeiro só para arrancar gargalhadas a quem precisava de esquecer os próprios problemas por uma noite.

 A vida do Domingos foi sobre o riso. Guarda isso bem guardado, porque esse pormenor vai voltar lá no final desta história e quando regressar, ele vai explicar-te uma coisa sobre esse homem que muda absolutamente tudo. O sujeito que viveu para fazer o Brasil rir estava prestes a transformar-se no maior choro da televisão brasileira desse ano. E nem sonhava com isso.

Longe dali, em São Paulo, numa casa comum, a Luciana tocava a vida normal daquele dia. A esposa do Domingos, a A sua companheira desde 2002, mãe dos seus três filhos, uma tarde igual a tantas outras. E então o telefone tocou. Já recebeu uma ligação destas, Janete? Daquelas em que mesmo antes de atender, o coração já avisa que há alguma coisa muito errada.

Foi assim. De um lado da linha, uma voz tentando encontrar palavras para dizer o que não tem palavra. Do outro, uma mulher e três filhos, cujo inteiro ia se partir ao meio em questão de segundos. O pai não ia voltar para casa. O homem que tinha saído de manhã para mais um dia de trabalho, como em qualquer outro dia, não ia atravessar aquela porta nunca mais.

 A notícia quebrou as barreiras daquele sete e espalhou-se pelo Brasil como fogo em erva seca. Em poucas horas, o país inteiro já sabia. As as pessoas largavam o que estavam a fazer, ligavam a televisão, recusavam-se a acreditar. Domingos montanheir, o santo do velho Chico, não pode ser. Tinha pessoas que o tinham acabado de ver na novela na noite anterior, vivo, forte, sorrindo no ecrã. E agora isto.

 Camila, resgatada com vida, mas arrasada por dentro, transportava nos ouvidos o eco do próprio grito, aquele mesmo grito que demoraram tanto tempo a levar a sério. O elenco que minutos antes se ria junto na hora do almoço, agora abraçava-se e chorava à beira do rio. A família de trabalho que ali tinha e a família que o esperava em casa, despedaçadas as duas no mesmo dia.

 No meio daquele turbilhão, a estação onde ele trabalhava soltou um pequeno comunicado destas notas que a gente lê e fica sem chão. Falaram do amor e da admiração por aquele companheiro tão querido. poucas palavras, mas atrás de cada uma delas tinha um plateau inteiro de luto, uma novela órfã do próprio protagonista e um país que ainda nem sequer tinha começado a compreender o tamanho do que acabava de perder.

 Fica um instante neste silêncio comigo, porque há perda que não cabe em comunicado nenhum. Aquela noite caiu sobre o Brasil diferente de todas as outras. Em milhões de casas, pessoas que nunca tinha trocado uma palavra com O Domingos foi dormir com um aperto no peito, como se tivesse perdido um parente de sangue.

 A novela que enchia os corações toda a noite, de repente, tinha um vazio no centro dela que coisa nenhuma ia conseguir preencher. Esse foi o fundo do poço desta história. O instante em que um dia comum de trabalho, um simples banho de rio no intervalo do almoço, cobrou o preço mais alto que existe neste mundo. E ainda faltava o Brasil descobrir nos dias seguintes o que é que exatamente aquele rio tinha feito e porquê.

 É disso que eu vou contar-te agora. E aqui vem a quarta coisa que te prometi. O dia em que tudo mudou de vez e a verdade sobre aquele rio finalmente veio à tona. Lembram-se que lá no comecinho já te falei dos 18 m de profundidade? Pois agora vai entender o que aquilo significa de verdade. Depois de cerca de 4 horas de busca angustiante, foi a esta profundidade que os mergulhadores encontraram domingos.

preso entre as pedras no fundo do São Francisco. A corrente não só puxou aquele homem, ela arrastou-o para um lugar de onde não havia retorno. O laudo do Instituto de Medicina Legal foi direto e frio, como estes documentos sempre são, morte por asfixia mecânica provocada por afogamento. Semas depois, a Polícia Civil concluiu o inquérito.

 Tinha sido um acidente, um afogamento acidental num troço de rio que, segundo a própria investigação, não tinha sinalização de perigo, nem nadadores-salvadores por perto. E no fim, ninguém foi responsabilizado. Foi a natureza, o acaso e um lugar que ninguém se tinha preocupado em tornar seguro. Há uma camada nesta história que é quase impossível de engolir.

Domingos era acrobata. Era um homem do circo que passou mais de 30 anos treinando o corpo, controlando cada muscular, desafiando a gravidade para ganhar a vida. Se existia uma pessoa no mundo que sabia o que o corpo dela podia e não podia fazer, era ele. E mesmo assim, num dia de folga, num banho rápido para espantar o calor, foi precisamente o corpo, a coisa que ele mais dominava na vida inteira, que não deu conta daquela água.

 E nada disto importou na hora. o auge, a preparação, o talento, a força de uma vida. A morte chegou no intervalo de um almoço e levou tudo da forma mais banal que existe. Deixa-me parar aqui um instante consigo, porque há coisa que a gente precisa de deixar pousar antes de seguir em frente. Respira comigo. Pensa nesse homem ainda de manhã, acordando, tomando café, indo trabalhar feliz no melhor momento da sua vida, sem a mínima ideia de que aquele ia ser o último dia.

 Pensa na novela que continuava a ser gravada, nas cenas que já tinha feito e que ainda iam para o ar depois, ele aparecendo no ecrã vivo, sorrindo, semanas depois de ter partido. Pensa na casa em São Paulo, no silêncio que ali se instalou de uma hora para a outra naquela cadeira que já não ia ser ocupada na mesa.

Algumas perdas não têm pressa. Elas se instalam-se devagar e vão doendo de mansinho, um dia depois do outro. Aí vem aquela pergunta que não cala. Por que com ele? Porquê daquele jeito? Um homem trabalhador que tinha esperado pela vida inteira pela hipótese que finalmente chegou, levado embora mesmo na hora em que tudo ia correr bem.

 Não tem resposta para isso, Janete. Sei que não tem, mas talvez seja exatamente isso que esta história tem para nos deixar, que a vida não deve favores a ninguém, que o brilho da fama, o dinheiro, o reconhecimento que tarda em chegar, nada disso levanta a muralha contra o acaso. fundo, por baixo do figurino de coronel e do nariz de palhaço, o Domingos era tão frágil perante um rio quanto qualquer um de nós seria num dia destes.

O velório foi um daqueles momentos que ficam gravados na memória de um país. Domingos foi sepultado no cemitério da quarta paragem em São Paulo, e gente de todo o canto apareceu para se despedir. colegas de circo, de teatro, de televisão, pessoas que tinham rodado o Brasil com ele em três décadas de estrada.

 E o Brasil comum, que só conhecia o coronel Santo da Telinha, chorou junto dentro de casa, como se estivesse a perder alguém da própria família. Estávamos em setembro de 2016 e por alguns dias o país inteiro parou para lamentar um homem que a maioria nunca tinha visto pessoalmente. Esse era o tamanho do que tinha construído, caladinho, sem ninguém dar por isso.

 E se esta história está a mexer com você do mesmo jeito que mexeste comigo, peço-te mais uma vez, deixa aqui um comentário por baixo contando se acompanhava o velho Chico. Se se lembra do dia em que soube desta notícia, partilha este vídeo com alguém que também sentiu essa perda lá em 2016. E se ainda não subscreveu o canal, faz isso agora, porque é assim, lembrando que a gente mantém viva a memória de gente como domingos.

 Mas esta história não termina no velório, porque por detrás de toda esta tragédia ficou uma coisa inacabada, uma ferida aberta que dói de um modo diferente. Você lembra-se que faltavam apenas duas semanas para o fim da novela? Pois é, o homem que esperou 30 anos para chegar ao topo não chegou a ver o fim do trabalho mais importante da vida dele.

 E é sobre tudo aquilo que ficou pela metade que eu vou-te contar agora. Imagina a cena. Duas semanas pro final de uma das maiores telenovelas do país. E o homem no centro de tudo, o protagonista, já não está ali. O que a A equipa do Velho Chico fez nos dias seguintes é uma das coisas mais difíceis que um grupo de artistas pode ser obrigado a fazer.

 Eles voltaram, voltaram para o sete, para o mesmo sertão, para perto do mesmo rio, com o coração aos bocados para terminar a novela. Tinham um país inteiro à espera do desfecho e tinham de entregar, mesmo com os olhos inchados de tanto chorar. Atores que eram amigos do Domingos necessitaram de gravar cenas fingindo uma normalidade que já não existia.

 Cada take era um murro no estômago. Cada intervalo alguém a chorar num canto e ninguém ali tinha tido tempo sequer de respirar direito. Em casa, Janete, acontecia uma coisa estranha e dolorosa ao mesmo tempo. A novela continuou no ar. Quer dizer, durante semanas depois da morte dele, o Brasil ainda viu o Domingos da tela vivo, sorrindo, fazendo o coronel santo com aquela presença enorme, porque aquelas cenas já tinham sido gravadas antes.

 Você consegue imaginar o que era aquilo? sentar-se no sofá, ligar a televisão e ver em rede nacional um homem que sabia que já tinha partido, andando, falando, amando na história, como se nada tivesse acontecido. O país assistiu em silêncio, com um nó na garganta, a uma despedida em câmara lenta que durou semanas.

 Foi nesses dias que muita gente parou para descobrir de verdade quem tinha sido aquele homem, porque enquanto foi vivo, o O Brasil via apenas o galã da novela, o rosto bonito de 50 e poucos anos que parecia ter surgido do nada. Foi quando ele se foi, que o país correu atrás da história completa e aí descobriram o circo, descobriram o palhaço, descobriram os 30 anos de picadeiro, o prémio de teatro, a vida inteira dedicada a uma arte que quase ninguém para para valorizar.

 entenderam que aquele galã instantâneo era, na verdade, o artista que tinha ralado toda a vida. O reconhecimento que mereceu por décadas chegou inteiro só quando ele já já não podia ouvir. E quando o último capítulo do velho Chico foi finalmente para o ar, o Brasil assistiu com o coração apertado.

 A novela, que tinha começado como uma grande saga do sertão, terminava agora carregando uma tragédia de verdade que tinha acontecido fora da ficção, na vida real. Cada cena do coronel Santo ganhava um sentido que os autores nunca tinham planeado. O público fazia mais do que ver o fim de uma história. Estava a despedir-se em silêncio de um homem a sério.

 E talvez nunca na história da televisão brasileira um final de novela tenha sido assistido com tanto silêncio dentro de tantas casas ao mesmo tempo. Homenagens começaram a brotar de todos os cantos. O mundo do circo, que o tinha visto nascer como artista chorou um dos seus. Atores, encenadores, gente do teatro, fizeram fila para contar histórias de um homem generoso, brincalhão, apaixonado peloício, e começou a formar-se ali, no meio da dor, uma coisa que ia durar muito mais do que a tristeza, o legado.

Lembram-se do menino do tatuapé que secava copo no bar dos pais? Lembra-se do palhaço que ganhou um prémio sem dizer uma palavra, só com o corpo? Pois esse mesmo homem virou-se de uma hora para outra um símbolo, o exemplo vivo de que nunca é tarde para realizar um sonho, de que dá para esperar a vida inteira e, no entanto, brilhar.

 Escolas de circo, grupos de teatro passaram a recordá-lo como inspiração. O nome Domingos Montanher deixou de ser apenas o nome de um ator de novela e tornou-se o nome de uma história de persistência. E depois vem a quinta coisa que eu te prometi, talvez a mais cruel de todas, porque o que aconteceu naquele rio já foi terrível, mas a dor que realmente dura é outra.

 é pensar em tudo o que ainda estava para vir e que nunca chegou a acontecer. Domingos morreu com a vida pela metade, no sentido mais literal que existe. Faltavam duas semanas para o último capítulo do velho Chico. Duas semanas. Ele não viu o fim do trabalho mais importante da carreira dele. Não assistiu ao desfecho do personagem que ia coroar 30 anos de estrada.

A produção teve de reescrever as pressas, no meio do luto, o destino do protagonista, porque o ator que lhe dava vida não existia mais. E a novela foi apenas o início do que ficou a meio. A carreira inteira parou a meio do caminho. Pensa bem, ele tinha acabado de chegar ao topo. Passou 30 anos a plantar e só agora começava a colher.

 Vinham mais papéis, mais histórias, mais anos de glória que merecia e que nunca vai ter. E o mais pesado de tudo, três filhos que cresceram sem o pai a partir desse dia e uma esposa que perdeu o companheiro de 14 anos no meio de uma tarde qualquer. Repara que o que ficou sem resolver nesta história é diferente. Noutras vidas, o que sobra é uma briga antiga, uma reconciliação que não veio a tempo.Camila Pitanga desabafa ao relembrar morte de Domingos Montagner |  Celebridades | O Dia

 A vida do Domingos, o que ficou sem resolver foi o futuro inteiro, tudo que ainda estava para vir e que um intervalo de almoço apagou-se de uma vez só. Fica um instante em silêncio comigo pensando nisso. 5 segundos. Porque cada um destes 5 segundos vale por todos os anos que não teve. Tem uma imagem que ficou daquelas que a gente não consegue mais tirar da cabeça.

 Nas últimas semanas da novela, depois de já tinha partido, o Brasil ainda havia o coronel santo no ecrã. A última grande aparição pública de Domingos para milhões de pessoas foi interpretando outra pessoa, dando vida a um personagem, fazendo exatamente aquilo que mais amava no mundo. Tem uma beleza estranha e triste nisso.

 O homem despediu-se do país, sem saber que estava a despedir-se, atuando no auge da arte dele. E fica a questão no ar, será que algures lá dentro ele chegou a sentir? Será que nesse último dia passou-lhe pela cabeça que estava deixando tudo no melhor momento? A gente nunca vai saber. Só sabe que ele se foi fazendo o que nasceu para fazer.

 Agora, para fechar esta história da forma que ela merece, preciso de te levar até hoje, até o que resta de Domingos Montaier no coração do Brasil quase 10 anos depois dessa tarde. Porque o tempo passou. A novela acabou. O choque foi virando saudade. E aquele pormenor que te pedi para guardar lá atrás sobre o homem que viveu para fazer rir está prestes a voltar atrás e explicar-te uma última coisa, a coisa que muda tudo.

 Hoje, quase 10 anos depois daquela tarde no rio São Francisco, Domingos Montagher não é uma memória que o Brasil deixou apagar. Muito pelo contrário, o tempo fez uma coisa bonita com a história dele, tirou um pouco do peso do choque e deixou no lugar uma admiração que só faz crescer. E o país voltou às atenções precisamente para aquilo que ele sempre foi de verdade lá no início, antes de qualquer câmara.

 Lembra-se da primeira coisa que te contei? que o galã das novelas do fundo era um palhaço de circo, pois é exatamente o circo que mantém o seu nome mais vivo. O circo Zani, que ajudou a fundar e dirigiu com tanto amor, continuou a existir, continuou a correr o país, continuou fazendo aquilo que mais amava na vida. arrancar o riso às pessoas.

Jovens artistas que nem sequer chegaram a conhecer o Domingos crescem hoje ouvindo falar dele como um mestre. O homem que esperou toda a vida para ser reconhecido virou no final das contas exemplo para quem ainda está a começar. E quem com ele conviveu faz questão de repetir sempre a mesma coisa. Domingos era um homem sem vedetismo, generoso, brincalhão, daqueles raros que não esquecem de onde vieram, que mesmo depois de se tornar protagonista da novela das, continuou de coração ligado ao circo, a lona, ​​a origem do mesmo, com

orgulho. Num meio onde muita gente sobe e esquece o caminho que fez, subiu carregando picadeiro às costas. Talvez seja por isso que a saudade dele quase 10 anos depois continue tão viva. Porque não sentimos falta só do artista que foi. A gente sente falta do ser humano que ele foi. O carinho do público nunca se foi embora.

 Cada vez que o velho Chico é reprisado, cada vez que surge uma cena do coronel santo, as redes enchem-se de gente lembrando, repetindo a mesma coisa como ele fazia. falta como aquele homem era bom no que fazia. A novela inteira ganhou uma camada extra de emoção, porque quem assiste hoje já sabe o que aconteceu e cada aparição dele no ecrã carrega esse peso silencioso.

Mas não te vou enganar com um final cor-de-rosa, Janete, porque esta história tem uma ferida que nunca cicatrizou direito. Camila Pitanga, a mulher que estava ao lado dele naquele rio, que gritou e quase se afogou junto. Carregou durante anos uma dor dupla, a dor de ter perdido o amigo à frente dos próprios olhos, sem poder fazer nada, e a dor injusta de se ter tornado alvo de boatos cruéis, de maldades inventadas por gente que não estava lá e resolveu transformar a tragédia dela em boatos.

Ela teve de viver com as duas coisas ao mesmo tempo, o verdadeiro trauma e a mentira dos outros. Nem toda a história acaba com todos em paz. Tem ferida que só aprendemos a carregar. Os anos foram passando da forma que os anos passam. A esposa e os filhos do Domingos seguiram a vida bem longe dos holofotes, preservando a memória dele e a sua maneira, com a descrição de quem prefere recordar em silêncio a expor a dor.

 O Brasil ganhou outras telenovelas, outros galãs, outras tragédias para comentar. Mas de tempos a tempos, numa entrevista, numa homenagem, numa reprise, o rosto do Domingos regressa e volta sempre da mesma maneira, sorrindo, como se o tempo tivesse escolhido ficar com os seus sorrisos e deixar o último mergulho lá atrás, onde ele não magoa mais.

 Aos poucos, quando o país recorda dele, o que lhe vem primeiro à cabeça foi mudando. Hoje vem o circo, vêm os personagens, vem tudo o que ele construiu numa vida inteira de trabalho. A morte foi ficando lá para o fim da lista. E isso do fundo é a mais bela vitória que um homem pode ter depois de partir. Tem o rio também, o velho Chico, esse mesmo rio que deu o nome à novela, que serviu de cenário para o auge da sua vida e que num único instante virou o lugar onde tudo terminou.

 O São Francisco continua ali correndo manso na superfície, lindo como sempre foi, guardando os próprios segredos lá no fundo. As águas que levaram o Domingos seguem o curso delas até hoje, indiferentes da forma como a natureza sempre o é. Há gente da região que ainda aponta o excerto e conta a história para os mais novos.

 O rio não mudou nada. Quem mudou fomos nós que aprendemos da pior maneira possível que até a beleza mais calma pode esconder uma força que não vemos. Talvez a despedida mais bonita tenha sido aquela que o próprio Brasil construiu sem ninguém combinar. Quando a notícia se espalhou, em todo o lado se acendeu uma vela.

 Do mundo do circo, os artistas prestaram homenagens com o nariz vermelho, aquele mesmo nariz de palhaço que vestiu a vida inteira. Era a turma dele a dizer a Deus do único jeito que sabia dizer, com arte. O acrobata que enganava a gravidade tinha caído e a A turma do picadeiro fez questão de levantá-lo de novo na memória do jeito que ele teria gostado.

em casa, longe de toda esta agitação, ficou a Luciana, a mulher que partilhou 14 anos de vida com ele, que construiu uma família com ele e que, de repente teve que aprender a ser pai e mãe ao mesmo tempo aos três filhos que os dois criaram juntos. Não me cabe a mim contar a dor dela, Janete.

 Esta dor é dela e é sagrado, mas dá para imaginar o tamanho. Uma casa que esperava um homem que não voltou, um lugar menos preenchido em cada aniversário, em cada Natal que veio depois. E três crianças a aprender cedo demais que a vida é, por vezes, dura sem nenhuma explicação. Ela seguiu por eles, ela seguiu em frente.

 E esta é também uma forma de coragem que pouca gente vê. E agora chega a sexta coisa que te prometi, a que muda tudo. Lembras-te que lá atrás eu te pedi para guardar uma coisa bem guardada que este homem tinha passado a vida inteira a fazer as pessoas rir? Que era, antes de mais, um palhaço? Pois presta atenção ao regresso que a vida deu.

 O homem que dedicou 30 anos a arrancar gargalhadas, que ganhou o maior prémio da sua vida, fazendo justamente um palhaço mudo, que escolheu como missão fazer sorrir o próximo, terminou a história fazendo o Brasil inteiro chorar. E olha a ironia, Janete. Chorar interpretando uma personagem chamado Santo, Santo dos Anjos, o palhaço que se tornou santo na memória de um país.

Esta é a verdade de hoje. O que sobrou do Domingos é muito maior do que o rio que o levou. O seu legado é a prova viva de que um homem pode ralar a vida inteiro no anonimato, esperar até quase os 50 anos e mesmo assim atingir o próprio sonho. É a história de alguém que provou com a sua vida que nunca nunca é tarde demais.

 E essa é uma verdade que qualquer pessoa que um dia já pensava que tinha passado da hora de ser feliz, qualquer pessoa que já pensou que o melhor da vida tinha ficado para trás, entende lá no fundo do peito, sem precisar de explicação nenhuma. Fecha os olhos um instante e guarda essa imagem comigo. Um homem de barba sorridente, parado no meio do sertão, com o rio a brilhar atrás dele e a vida inteira ainda pela frente.

 O topo durou pouco, mas foi a sério. E é assim, sorridente, que ele merece ser recordado. Há mais de 30 anos que Domingos Montanier fez rir as pessoas debaixo de uma lona, ​​longe de qualquer holofote. Durante uns poucos anos, brilhou na maior ecrã do país e num intervalo de almoço, num rio do sertão, tudo isto tornou-se saudade.

 Se chegou até aqui comigo, se esta história mexeu com o seu coração, faz uma coisa por mim. Não guarda-a só para si. Manda para alguém que também chorou com o velho Chico, paraa sua irmã, para sua amiga, para o seu marido, para quem cresceu a ver a novela das. Porque há gente que merece ser recordada pelo que viveu de verdade e não só pela forma triste como partiu.

 Subscreve o canal, ativa o sininho e fica comigo que amanhã eu volto aqui mesmo com outra história destas para te contar baixinho, só para você. M.

 

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