A tinha assistido jogos da Hungria de Puscas, tinha lido relatórios sobre o sistema defensivo alemão. Sabia que o Brasil precisava de mais do que o talento para vencer. necessitava de organização, de disciplina, de jogadores que compreendessem quando atacar e quando segurar e precisava de coragem para escalar quem merecia, não quem a imprensa achava que devia jogar.
A concentração brasileira ficava no Hotel Angl, no centro de Gotemburgo, prédio antigo, cinco andares, quartos pequenos com camas de casal, papel de parede floral e cortinas pesadas. O café da manhã era servido num salão no térrio. Pão de senteio, queijo amarelo, fiambre fatiado fino, café fraco, sumo de laranja aguado.
Os jogadores comiam em silêncio, ainda se adaptando ao fuso horário. Pelé partilhava o quarto 304 com Garrincha. Garrincha tinha 24 anos, jogava no Botafogo, a era extremo-direito, tinha as pernas tortas desde criança. Problema de nascença que os médicos tinham dito que o ia impedir de jogar futebol profissional, mas Garrincha não ligava para um médico, nem para um técnico, nem para ninguém, só ligava à bola.
Pelé gostava de Garrincha porque Garrincha não o tratava como um miúdo, tratava como um igual. Chamava-lhe miúdo, mas era carinho, não era desrespeito. No primeiro dia de treino em Gotemburgo, a delegação foi para o campo do IFK Gotborg. Relvado sintético ainda não existia. O campo era de relva natural, a paragem curta, firme, estavam 14º, céu nublado, vento gelado vindo do mar.
Os jogadores treinaram com fato de treino, alguns com luvas. Pelé não usou luva, não queria parecer fraco. Vicente Feola dividiu o treino em três partes: aquecimento com corrida ligeira, exercícios de posse de bola. A jogo coletivo de 30 minutos. No jogo coletivo, Pelé foi utilizado na equipa reserva.
jogou contra Didi, Garrincha, Newton Santos, Zito. Todos os titulares, todos experientes. Pelé marcou dois golos, driblou Newton Santos no primeiro, recebeu Didino Sani e terminou no segundo. No final do treino, Feola não não disse nada, apenas anotou alguma coisa num caderno preto que trazia sempre no bolso. Nessa noite, no quarto do hotel, Pelé perguntou a Garrincha se pensava que ia jogar.
Garrincha estava deitado na cama, a fumar um cigarro, olhando para o teto. Vais jogar, miúdo, só não sei quando. E se não jogar? Garrincha deu uma longa passa, soltou a fumaça devagar e virou a cabeça para olhar para Pelé. Depois voltas para o Santos e continua a meter golo. Mas vai jogar. O Feola não é burro. Pelé não respondeu, deitou-se na cama dele.
Ara puxou o cobertor até ao pescoço e ficou olhando para o teto também. O quarto cheirava a cigarro e a madeira velha. Lá fora, o ruído do trânsito de Gotemburgo era abafado pelas janelas grossas. Três dias depois, a 8 de junho, o Brasil estreou-se contra a Áustria. Jogo às 15 horas no Ligeiro. Estádio novo. Capacidade para 50.
000 pessoas. Inaugurado do anos antes. A delegação brasileira saiu do hotel às 13 horas. Autocarro da seleção, azul e amarelo. Pelé estava sentado à janela, três filas atrás de Feola. Olhava a cidade passar, edifícios baixos, ruas limpas, as pessoas de bicicleta, mesmo com frio. Quando chegaram ao estádio, Pelé desceu do autocarro e olhou para a bancada.
Já tinha gente a entrar. Bandeiras austríacas, algumas brasileiras também, muito poucas. O balneário visitante cheirava a tinta fresca e desinfetante. As chuteiras estavam organizadas em prateleiras metálicas. Cada jogador tinha a sua marcada com fita adesiva. Pelé encontrou a dele. Tamanho 39, pele preto, fechos de metal, vestiu o equipamento branco, calção branco, meias brancas até ao joelho.
Sentou-se no banco de madeira e atou as chuteiras lentamente. Ao lado dele, Mazola já estava pronto. Mazola era avançado-centro do Palmeiras, 27 anos, 2 m de altura, forte, experiente. O Feola ia colocá-lo a titular. Uma hora antes do jogo, Feola reuniu os 11 titulares no centro do balneário. Pelé não estava entre eles. Ficou sentado no banco a ver Feola falar baixo, fazendo gestos com as mãos, explicando o posicionamento.
Didi no meio, Garrincha na direita, Zagalo na esquerda, Mazola como referência, Vavá ao lado dele. Pelé sentiu o peito apertar. Sabia que não ia jogar, mas saber tornava-o mais fácil. Quando os jogadores saíram para o aquecimento, Pelé ficou no balneário com os outros reservas, Dino Sani, Pep, Zózimo, todos sentados, todos em silêncio.
Passados 15 minutos, um auxiliar entrou e disse que podiam ir para o banco. O jogo começou. Pelé estava sentado na ponta do banco com o fato de treino azul da seleção. Mãos nos bolsos, olhos fixos no campo. O Brasil começou bem, tocando na bola, criando, mas não conseguia finalizar. A Áustria marcava forte, dois médios a fechar o meio, lateral a subir pouco, jogo truncado.
Aos 37 minutos da primeira parte, Mazola recebeu na área e foi derrubado. Penálti! Didi cobrou. Golo! 1 a 0. O banco brasileiro festejou de pé. Pelé levantou-se também, bateu palmas, gritou, mas por dentro sentia outra coisa. Sentia que podia fazer mais se estivesse em campo. O jogo terminou 3-0 pro Brasil. Mazola marcou o segundo.
Nilton Santos o terceiro. Vitória tranquila, sem sustos. Quando o árbitro apitou o final, Pelé levantou-se do banco e caminhou para o vestiário junto com os outros reservas. Não entrou em campo, não tocou na bola, não sentiu a relva, não sentiu nada. No balneário, o ambiente era de alívio.
Jogadores a tirar a camisa suada, sentada nos bancos, bebendo água, rindo, conversando. Feola entrou, cumprimentou toda a gente e saiu rápido. Tinha conferência de imprensa. Pelé foi pro casa de banho, trancou a porta, sentou-se no vaso com a tampa fechada, encostou o cabeça na parede fria de azulejo e chorou. Não chorou alto, chorou em silêncio, ombros tremendo, os olhos a arder.
Chorou porque tinha 17 anos, porque tinha viajado 18 horas de avião, porque tinha treinado todos os dias, porque tinha feito tudo bem e mesmo assim não tinha sido o suficiente. Do lado de fora, Garrincha ouviu, não entrou, não bateu à porta, ficou encostado à parede do corredor, fumando um cigarro à espera. Sabia que não adiantava dizer nada agora.
Sabia que o miúdo precisava desabafar sozinho. 15 minutos depois, saiu Pelé. Olhos vermelhos, rosto lavado. Garrincha estava ali ainda. Atirou o cigarro para o chão, pisou em cima e olhou para o Pelé. Calma, miúdo. A sua hora vai chegar e quando chegar já ninguém te vai tirar. Pelé passou por ele sem responder.
Foi até ao banco, pegou na mochila e saiu do vestiário. No autocarro, de volta ao hotel, sentou-se sozinho na última fila. Garrincha sentou-se do outro lado do corredor, não disse nada, ficou apenas ali. Presença silenciosa. Nessa noite, o Pelé jantou pouco, sopa de legumes, pão. Não tinha fome. Subiu para o quarto cedo, depois deitou-se às 21 horas.
Garrincha chegou meia hora depois, sentou-se na cama dele, descalçou-se e disse: “Amanhã há treino o Feola vai olhar para todos de novo. Você joga no próximo. Como sabe? Porque eu vi você no treino, miúdo. Vi todo mundo no treino e é melhor que metade desta equipa titular.” Pelé não respondeu, virou-se de lado, fechou os olhos, mas não dormiu durante horas.
Três dias depois da estreia, o Brasil empatou com a Inglaterra a zero. Jogo travado, sem criatividade, sem brilho. No balneário do Leve, depois do empate, Vicente Feola sentou-se sozinho no banco, acendeu um cigarro e ficou a olhar para o chão durante 20 minutos. Os jogadores tinham saído, os auxiliares esperavam ali fora. Feola estava sozinho.
Quando saiu, chamou Paulo Amaral, o supervisor da seleção, e disse apenas: “No próximo jogo, joga o Pelé”. A Amaral tentou argumentar, disse que era demasiado novo, disse que a pressão o podia quebrar. Feola cortou. Ou confiamos nele agora, ou voltamos para casa sem copa. O jogo contra Cold Water a Inglaterra tinha sido frustrante do início ao fim.
A Inglaterra jogou como jogava sempre, fisicamente. Marcação forte, bola longa para o ataque, jogo aéreo. O Brasil tentou tocar, tentou criar, mas esbarrava numa muralha de jogadores altos, fortes, disciplinados. Mazola não conseguiu impor-se. Dida ficou isolado. Até Garrincha teve dificuldades para driblar. O lateral inglês que o marcava, um tipo chamado Don How, não dava espaço.
Toda vez que Garrincha recebia, Hi chegava junto. Não tinha falta. Era marcação limpa, mas sufocante. No banco, Pelé assistiu a tudo com as mãos entre as pernas, corpo inclinado paraa frente, olhos atentos, mas via os espaços que ninguém estava ocupando, via os passes que ninguém estava a dar, via as jogadas que podiam funcionar, mas não estavam sendo tentadas.
Aos 28 minutos da segunda parte, Feola olhou para o banco, olhou para o Pelé. Pelé devolveu o olhar. Feola segurou o olhar durante 3 segundos, depois virou para a frente de novo. Não chamou. O jogo terminou 0 a 0. Dois pontos. Ainda dava para classificar, mas o clima no balneário era pesado. Jogadores cabes baixos.
Feola entrou, não disse nada, saiu direto para a coletiva. Os jornalistas brasileiros que cobriam a Taça estavam impacientes, queriam respostas, queriam saber porque é que o Brasil não jogava bem, porque não tinha criatividade, porque parecia travado. Feola sentou-se na mesa da conferência de imprensa. Microfone na frente, gravador ligado, cadernos abertos, canetas prontas.
O seu Feola. Ah, o ataque não está funcionando. O senhor vai alterar alguma coisa para o próximo jogo? Vou. O senhor pode dizer o quê? Vou colocar quem precisa de jogar. E quem precisa de jogar? Quem está pronto? Pelé está pronto. Feola olhou para o jornalista, tirou os óculos, limpou com a ponta da camisa, colocou de volta.
No próximo jogo vocês vão ver. levantou-se e saiu. Naquela noite no Hotel Anglê, Feola chamou Paulo Amaral no seu quarto. Quarto 2011. Amaral era o supervisor, homem da CBD, a Confederação Brasileira de Desportos. Tinha 55 anos, cabelo grisalho, bigode aparado. Usava fato mesmo no calor. Amaral bateu à porta. Feola abriu. Estava de camisa branca, sem gravata.
Mangas dobradas. Suava mesmo com a janela aberta. Entra. Amaral entrou. Feola fechou a porta. Tinha uma garrafa de whisky em cima da mesinha de cabeceira. Dois copos. Feola serviu um copo e ofereceu. Amaral aceitou. Sabes porque te chamei? Sei. Você vai escalar o miúdo. Vou. Feola. Ele tem 17 anos. Nunca jogou fora do Brasil.
Nunca sentiu pressão deste tamanho? E acha que os outros estão a lidar bem com a pressão? Viu o jogo de hoje? Vi. Mas meter um miúdo numa Mundial não é decisão simples. Não é, mas é a decisão certa. Amaral bebeu o whisk de uma só vez. Colocou o copo vazio sobre a mesa, olhou para Feola. Se ele avariar, a culpa vai ser sua.
Se a gente voltar sem copa, a culpa também vai ser minha. Prefiro arriscar no talento do que perder no medo. Amaral não respondeu. Saiu do quarto. Feola ficou sozinho. Bebeu-lhe o whisky devagar, olhou pela janela. Gotemburgo era silenciosa à noite. Poucas luzes, poucas pessoas. Tudo muito organizado, muito limpo, muito diferente do Brasil.
Feola terminou o whisky, deitou-se na cama sem despir a roupa, dormiu 3 horas, acordou às 5 da manhã, não conseguiu voltar a dormir. Ficou sentado à beira da cama, pensando se tinha tomado a decisão certa. No dia seguinte, 13 de junho, véspera do jogo com o União Soviética, Feola reuniu a selecção no salão do hotel.
11 horas da manhã, todos os os jogadores, titulares e reservas. Feola ficou de pé à frente, não tinha papel na mão, não tinha notas, sabia exatamente o que ia dizer. Amanhã a gente joga contra os soviéticos. É jogo eliminatório. Quem perder vai para casa. Vou fazer alterações na equipa. Vou colocar quem eu acho que pode resolver o jogo.
Fez uma pausa, olhou em redor. Todos olhavam para ele. O Pelé joga. Silêncio. Garrincha olhou para o lado e encontrou os olhos de Pelé. Sorriu de canto de boca. Arpelé não sorriu, apenas engoliu em seco. Mazola estava sentado na segunda fileira, baixou a cabeça. Sabia que tinha perdido a vaga. Feola continuou.
Zito volta para o meio. Didi fica mais recuado. Garrincha e Zagalo nas alas. Vavá e Pelé na frente. É isso. Saiu do salão. Não esperou perguntas, não abriu paraa discussão. Os jogadores ficaram sentados em silêncio durante quase um minuto. Depois começaram a levantar-se. Alguns foram cumprimentar Pelé.
Didi apertou-lhe a mão. Newton Santos deu um palmada nas costas. Zito limitou-se a acenar com a cabeça. Garrincha foi o último. Parou à frente de Pelé e disse: “Eu disse que ia chegar. Agora é contigo, miúdo.” Pelé subiu para o quarto, sentou-se na cama, olhou para as próprias mãos. Estavam a tremer, não de medo, de adrenalina, de expectativa, de tudo o que tinha segurado nas últimas duas semanas. Ia jogar.
Ah, afinalmente ia jogar. Mas, juntamente com o alívio, veio outra coisa. Veio a consciência do peso, do que significava, do que estava em jogo. Um Campeonato do Mundo, a primeira chance do Brasil, um país inteiro assistindo, esperando, cobrando. E ele tinha 17 anos. Na noite de 14 de junho, véspera do jogo contra a União Soviética, Pelé não conseguiu dormir.
Partilhou o quarto com Garrincha no Hotel anglês em Gotemburgo. Ficou deitado, a olhar para o teto, revirando-se na cama, levantando-se para beber água. Garrincha dormia profundamente, ressonando baixo. Às 4 da manhã, Pelé desistiu de dormir, sentou-se à beira da cama e ficou a olhar pela janela. A cidade estava silenciosa, as ruas vazias.
Às 6, Garrincha acordou, viu Pelé sentado e perguntou: “Não dormiu, miúdo?” Pelé abanou a cabeça. Garrincha acendeu um cigarro e disse: “Melhor assim: “Ah, vai entrar em campo com fome.” O quarto era pequeno, duas camas, um armário, uma pequena mesa entre as camas com um candeeiro. O papel dos parede tinha riscas verticais azuis e brancas. A janela dava para a rua.
Pelé estava sentado na cadeira de madeira ao lado da janela, olhando lá para fora. Gotemburgo acordava devagar. Um camião de lixo passou, um ciclista, uma mulher com um cão. Garrincha acendeu o cigarro, deu duas passas e falou: “Sabe o que vai fazer quando entrar em campo?” Jogar. Garrincha soltou uma gargalhada curta.
Isso eu sei, miúdo, mas pensou demais. Estou vendo. Pelé virou para olhar paraa Garrincha. E se eu jogar mal? Não vai jogar mal. E se eu jogar? Garrincha apagou o cigarro no cinzeiro em cima da pequena mesa, levantou-se da cama, dirigiu-se à janela, ficou ao lado de Pelé, a olhar para a rua também. Escuta aqui.
Ar, pensas que eu penso nisso? Acha que eu entro em campo a pensar no que vai acontecer se eu errar? Não, miúdo. Eu entro em campo a pensar no que vou fazer quando acertar e tu vais fazer a mesma coisa. Pelé não respondeu. Garrincha continuou. Tem 17 anos. Ninguém espera que que resolva sozinho. Ninguém espera que você carregar a equipa nas costas.
Só esperam que faça o que sempre fez. Jogar à bola. E nisso, miúdo, tu é melhor que todos os que conheço. Pelé olhou para Garrincha. Garrincha estava sério. Não era uma brincadeira, não era encorajamento vazio. Garrincha falou mais uma vez. Hoje vai marcar o seu primeiro golo em Copa do Mundo. Pode anotar.
Como sabe? Porque eu vou-te dar a bola. Às 7 horas da manhã, os dois desceram para o café. Pão de senteio, queijo, fiambre, sumo de laranja. A O Pelé comeu pouco. Garrincha comeu o prato cheio. Outros jogadores foram chegando. Didi, Newton Santos, Zito, Belini. Todos cumprimentaram Pelé. Todos sabiam que ele ia estrear-se. Às 9, teve reunião técnica.
Feola explicou o esquema tático, mostrou no quadro negro como jogava a União Soviética. Sistema fechado, dois médios-defensivos, marcação por zona, pouca criatividade, jogo físico. Feola apontou para o desenho no quadro. Eles vão tentar cansar-vos. Vão segurar a bola, vão jogar para o lado, vão fazer falta.
Não caiam no jogo deles. Quando recupera a bola, sai rápido. Garrincha, abre-se pela direita. Zagalo, à esquerda. Didi, você distribui o Pelé e o Vavá, vocês ficam soltos. Movimentem-se. Não fiquem parados à espera que a bola chegasse. Às 11 teve treino ligeiro no campo junto ao hotel. Apenas ativação, nada de desgaste.
Pelé tocou a bola com tranquilidade, fez algumas triangulações com Didi, finalizou três vezes, acertou na trave duas. Feola observou tudo de longe, não interferiu. Deixou os jogadores à vontade. Às 13 horas, almoço, massa com molho light, frango grelhado, salada. Pelé comeu meia dose, Garrincha comeu duas. Depois do almoço, tempo livre.
A maioria dos jogadores foi para o quarto descansar. Pelé tentou, deitou-se na cama, fechou os olhos, mas não conseguiu relaxar. Às 14:30 levantou-se, desceu para o hall do hotel, sentou-se numa poltrona, ficou a olhar para o movimento. Havia pouca gente, um casal de idosos, dois homens de fato, uma recepcionista a ler o jornal.
Didi desceu também. Viu Pelé sentado, foi até ele. Posso sentar-me? Pelé acenou que sim. Didi sentou-se na poltrona ao lado. Você tá nervoso? Não foi uma pergunta, foi constatação. Tô. E a Didi acendeu um cigarro, ofereceu um a Pelé. Pelé recusou. É normal. Primeira taça, primeiro jogo. Mas esquece isso. Quando entras em campo, não é uma taça, é futebol.
A mesma coisa que faz desde que era criança. A bola é igual, o golo é igual, o campo é igual. Pelé olhou para o Didi e a pressão? Didi deu uma tragada longa. A pressão existe, mas só se deixar entrar na cabeça, eu jogo da mesma forma no Maracanã cheio ou num treino vazio. Porque eu não jogo para adeptos, jogo para mim, para fazer o que sei fazer.
E tem que fazer a mesma coisa. Tem medo? Didi olhou para o tecto, pensou antes de responder: “Tenho cada vez medo de me magoar, medo de desiludir, medo de voltar ao Brasil derrotado, mas eu uso o medo. Deixo que ele me deixe mais atento, mais concentrado. Vai aprender a fazer isso também?” Não. Os dois ficaram sentados em silêncio durante mais 10 minutos.
Depois, o Didi apagou o cigarro, levantou-se e disse: “Descansa”. Daqui a pouco vamos para o estádio. Às 17 horas, a comitiva saiu do hotel. Autocarro azul e amarelo. Pelé estava sentado ao lado de Garrincha. Três fileiras atrás, Vavá conversava com Zagalo. Na frente, Beline, o capitão, estava quieto, a olhar pela janela. O Leve ficava a 15 minutos do hotel.
Quando chegaram, já havia adeptos nas proximidades. Bandeiras brasileiras, poucas, bandeiras soviéticas, muitas, e bandeiras suecas, a maioria. O ônibus entrou pela lateral do estádio, parou na entrada dos balneários. Jogadores desceram em fila. Pelé foi o último. Quando pisou o chão, olhou para o estádio. Enorme, concreto, moderno, imponente.
Entrou no balneário. Cheiro de linimento, cheiro a suor antigo. A as chuteiras já lá estavam, organizadas, cada uma no seu lugar. Pelé encontrou a dele, pegou nele, sentou-se no banco, começou a se trocar. À volta dele, os outros jogadores faziam o mesmo. Alguns em silêncio, alguns conversando baixinho. Garrincha assobiava uma música que Pelé não conhecia.
O Didi estava sentado de olhos fechados, respirando fundo. Feola entrou no balneário 30 minutos antes do jogo. Reuniu os 11 titulares no centro. Pelé estava entre eles. Primeira vez. Feola não fez qualquer discurso, apenas disse: “Vocês sabem o que fazer. Façam! Saiu! Os jogadores terminaram de se vestir. Amarraram as chuteiras, ajeitaram as meias, beberam água, foram para o aquecimento.
Quando Pelé saiu do túnel e pisou o relvado do leve, a primeira coisa que sentiu foi o frio. Vento gelado, céu nublado, temperatura de 12º. A segunda coisa que sentiu foi o barulho. 40.000 pessoas nas bancadas gritando, cantando, batendo palmas. Pelé olhou em redor, viu a claque, viu as bandeiras, viu os adversários do outro lado do campo.
Os jogadores soviéticos, altos, fortes, uniformes vermelhos. Garrincha apareceu ao lado dele. Vamos aquecer, moleque. Os dois correram para o meio do campo. Começaram a passar a bola. Garrincha tocava, Pelé devolvia, simples, sem pressa, apalpando o relvado, sentindo a bola. 15 minutos depois, o árbitro apitou, chamou os capitães para o sorteio.
Belini representou o Brasil. Um jogador soviético de cabelo loiro representou a URSS. Moeda pro alto. O Brasil ficou com a bola. Jogadores posicionaram-se. Pelé ficou mais adiantado ao lado de Vavá. Didi atrás, Garrincha na direita, Zagalo à esquerda, Zito e Belini no meio, Orlando e Newton Santos nas alas, Gilmar na baliza.
O árbitro olhou para o relógio, colocou o apito na boca, levantou o braço, apitou. O jogo começou. Os primeiros 15 minutos foram estudados. Brasil a tocar, o RSS marcando, ninguém arriscando, ninguém se expondo. Pelé tocou três vezes na bola, recebeu de Didi, passou para Vavá, recebeu de Garrincha, passou para Zagalo, movimentou, pediu, procurou o espaço. A marcação soviética era dura.
Dois jogadores em cima de Pelé de cada vez que recebia. Não davam tempo, não davam espaço. Pelé tentou rodar uma vez. levou o ombro, quase caiu. Árbitro não assinalou falta. Garrincha gritou da direita. Calma, miúdo, deixa a bola chegar. Pelé respirou fundo, recompôs, voltou a movimentar-se. Aos 17 minutos do segundo tempo, Didi recuperou a bola no meio-campo, olhou em frente, viu Pelé desmarcado na intermediária, tocou firme, rasteiro.
Pelé recebeu de frente para o gol. Dois marcadores a chegar. Pelé rodou, deixou um para trás, tocou para Vavá. Vavá devolveu de primeira. Pelé bateu cruzado, forte no canto esquerdo. O guarda-redes soviético nem se mexeu. A bola entrou. 2-0. Pelé ficou parado por dois segundos, como se não acreditasse, depois saiu a correr.
Foi abraçado por Garrincha, por Didi, por Newton Santos, por Vavá, por Zagalo, todos gritando, todos a rir. No banco, Vicente Feola não festejou, apenas acenou com a cabeça, acendeu outro cigarro. Nas bancadas, a pequena claque brasileira explodiu. Bandeiras, gritos, cantos. A claque soviética ficou em silêncio. Pelé voltou a correr para o meio de campo.
Coração acelerado, pernas leves, mente clara. Tinha marcado. A tinha feito o seu primeiro golo em Copa do Mundo. Tinha 17 anos e 239 dias. Era o jogador mais jovem a marcar numa Copa até àquele momento e sabia que aquele era apenas o começo. O jogo terminou 2-0. Brasil classificado. Pelé jogou os 90 minutos, tocou 38 vezes na bola, fez 14 passes certos, falhou três, criou duas ocasiões claras, marcou um golo, levou sete faltas, não se queixou de nenhuma.
Quando o árbitro apitou o final, Pelé caminhou para o balneário sem olhar para trás. Não comemorou com euforia, não acenou aos adeptos, apenas cumpriu o seu trabalho e saiu. No balneário, os jogadores festejaram, mas sem exagero. Ainda tinha muito pela frente, tinha ainda quartos de final, ainda havia uma semifinal, ainda havia quem sabe final.
Feola entrou, cumprimentou todos, parou em frente a Pelé. Bom jogo. Só isso. Nada mais. Pelé agradeceu com um aceno de cabeça. Nessa noite, no hotel, Pelé jantou com apetite, comeu tudo, arroz, carne, salada, sobremesa. Depois subiu para o quarto. Garrincha chegou meia hora depois. E aí, miúdo? Feliz? Pelé estava deitado na cama, a olhar para o teto. Feliz. Mas há mais, muito mais.
Garrincha sorriu. Agora já pegou o jeito. A partir de agora é mais fácil. Fica. Fica. Porque já provou para si, para os outros, para todo o mundo. Agora é só continuar a fazer o que sabe. Pelé não respondeu, fechou os olhos. Desta vez dormiu. Cinco dias depois, o Brasil defrontou o país de Gales nos quartos de final.
Jogo duro físico. Pelé jogou os 90 minutos de novo. Não marcou, mas assistiu para Pelé marcar o único golo da partida. Brasil 1, país de Gale Z0. Classificado para a semifinal. O adversário seria a França, seleção técnica bem treinada. Com Just Fontain, o melhor marcador da Taça, já tinha marcado nove golos em quatro jogos.
A imprensa europeia começou a prestar atenção no Brasil, começou a escrever sobre Pelé, começou a perguntar quem era aquele miúdo, de onde tinha vindo, como jogava tão bem, tão jovem. Pelé não deu entrevistas. Feola proibiu. Disse que ia proteger o miúdo da pressão externa. disse que o Pelé só ia falar depois da Taça.
Na meia-final contra a França, em 24 de junho, Pelé marcou três golos. Três golos num jogo que valia um lugar na final. Três golos com 17 anos. O primeiro foi um remate de fora da área que entrou no ângulo. O segundo foi um drible em dois defesas e finalização cruzada. O terceiro foi um toque subtil após receber de Didi.
Resultado final, Brasil 5, França 2. Depois do jogo, ao selecionador francês Albert Batu disse aos jornalistas: “Este miúdo não é humano, não há como marcar alguém assim. Just Fontain, melhor marcador da Taça com 13 golos, saiu do estádio sem falar com a imprensa. No balneário francês, ninguém discutiram a tática, apenas aceitaram que tinham visto algo que estava para além do futebol que conheciam.
O jogo tinha começado equilibrado. França tocando bem, o Brasil a responder. Vavá abriu o marcador aos 2 minutos. Pontapé de fora da área. Fontana empatou aos nove. Cabeçada. 1-1. Mas aos 39 minutos, Didi lançou Pelé na direita. Pelé dominou, cortou para dentro, deixou um marcador para trás e bateu colocado. A bola entrou no ângulo superior esquerdo, 2-1.
No segundo tempo, aos 7 minutos, Pelé recebeu na intermediária, driblou dois defensores franceses e finalizou cruzado 3-1. A claque sueca, o que estava neutra até ali, começou a aplaudir. Não era torcida pelo Brasil, era reconhecimento do talento. Aos 30 minutos, Didi bateu um livre na área. A bola sobrou para Pelé. Tocou de primeira, suave no canto. 4 a 1.
Chapéu trick. Vavá ainda marcou o quinto, mas o jogo era de Pelé. Três golos, duas assistências, cinco dribles certos, zero faltas cometidas. Quando o árbitro apitou o final, a França estava eliminada. O Brasil estava na final e Pelé, aos 17 anos, tinha acabado de fazer o melhor jogo da vida dele. No balneário, os jogadores festejaram, mas com cautela.
Sabiam que ainda faltava o mais difícil, afinal contra a Suécia, em Estocolmo, em casa deles. Feola reuniu todos e disse: “Cinco dias, descansai, treinem leve, comam bem, durmam bem. Daqui a cinco dias temos a hipótese de fazer história. Pelé sentou-se no banco, atirou as chuteiras, colocou a cabeça entre as mãos, não de cansaço, de consciência. Faltava um jogo.
Um jogo para ser campeão do mundo. Um jogo para acabar com o trauma de 1950. Um jogo para provar que o Brasil podia vencer e ele, com 17 anos, seria titular. Nos dias seguintes, a pressão cresceu. Os jornais brasileiros começaram a chegar. Telefonemas de dirigentes da CBD, mensagens dos políticos. Todo mundo a querer falar, toda a gente querendo opinar, todos querendo parte da glória antecipada.
Feola bloqueou tudo, proibiu visitas, proibiu as chamadas, proibiu os jornalistas na concentração. Disse que os jogadores iam ficar isolados até à final. A delegação se mudou-se para o Hotel Forlesta, nos arredores de Estocolmo, lugar mais tranquilo, mais afastado, menos movimento. Os jogadores tinham uma rotina rígida.
Acordar às 7, café às 8, treino às 10. Almoço ao meio-dia, descanso das 13 horas às 16 horas, lanche às 16:30, tempo livre até ao jantar às 19 horas, deitar às 22 horas. Pelé seguiu tudo à risca, não saiu do hotel, não foi passear, não quis conhecer o Estoco, ficou no quarto, leu revista, jogou o baralho com Garrincha, conversou com Didi, dormiu cedo.
Na noite de 28 de junho, véspera da final, a comitiva brasileira jantou no Hotel Forl Foresta, nos arredores de Estocolmo. O clima era tenso. Ninguém falava muito. O Didi comia em silêncio. Garrincha empurrava-lhe a comida para o prato sem apetite. O Pelé bebeu um copo de leite e comeu duas fatias de pão com manteiga. Depois do jantar, Vicente Feola reuniu a equipa no salão do hotel.
Não fez discurso motivacional, apenas disse: “Amanhã vocês vão fazer o que treinaram a vida inteira. Não pensem no resultado. Pensem no passe seguinte, no movimento seguinte, no minuto seguinte. Ninguém respondeu. Todos subiram para os quartos. Pelé deitou-se às 22 horas. Desta vez dormiu. O salão do hotel tinha paredes de madeira escura, cadeiras estofadas de verde, uma lareira apagada ao canto, janelas grandes que davam para o bosque nos fundos.
Tinha pouca luz. Apenas três luminárias no teto. Os 22 jogadores da comitiva estavam sentados. Feola de pé à frente. Não havia quadro preto, não havia tática desenhada, não tinha nada. Feola tirou os óculos, limpou-os com a ponta da camisa, colocou-o de volta, olhou para cada jogador, demorou o olhar sobre cada um.
Quando chegou a Pelé, segurou por 3 segundos. Depois falou: “Amanhã vocês vão fazer o que treinaram a vida inteira. Não pensem no resultado. Pensem no passe seguinte, no movimento seguinte, no minuto seguinte. A Suécia vai ter 50.000 pessoas a gritar por eles, mas vão ter-se uns aos outros. E isso é mais forte.” Fez uma pausa.
Não quero discurso, não quero promessa, não quero grito de guerra. Quero que subam, durmam e acordem amanhã prontos para jogar futebol. É isso. Saiu do salão. Os jogadores ficaram sentados por mais um minuto. Depois começaram a levantar-se. O Didi foi o primeiro a subir. Depois Belini, depois Newton Santos. Um a um foram saindo. Pelé subiu com Garrincha.
No corredor Garrincha disse: “Amanhã vais marcar, miúdo. Eu sei. Como sabe? Porque marca sempre nos jogos grandes e não há jogo maior do que este. Pelé entrou no quarto, Garrincha entrou atrás. Os dois trocaram-se em silêncio, lavaram os dentes, deitaram-se. Garrincha apagou a luz. Pelé ficou a olhar para o teto no escuro.
Esperava voltar a ficar acordado. Esperava a insónia, esperava a ansiedade, mas não veio. 5 minutos depois, estava a dormir. Acordou às 7 da manhã. Garrincha já estava acordado, sentado à beira da cama, a fumar. Bom dia, campeão. Pelé sentou-se, esfregou os olhos. Ainda não sou. Vai ser. Os dois desceram para o café.
Pão, queijo, fiambre, sumo, café. Pelé comeu devagar, mastigou bem, não tinha pressa, não tinha nervosismo, sentia calma estranha, como se já soubesse o que ia acontecer. Às 9, reunião rápida, Feola confirmou a equipa, mesmo que vinha a jogar, sem alterações, sem surpresas. Às 10, treino regenerativo, só alongamentos, caminhada leve, alguns toques de bola, nada de intenso.
Às 11, volta para o hotel. Almoço cedo, meio-dia. Massa com azeite, frango grelhado, legumes cozidos, o Pelé comeu tudo. Depois descanso. É. Pelé deitou-se, não dormiu, ficou a olhar para o teto, pensando não em tática, e não em adversário. Pensou na mãe, no pai, nos amigos de Bauru, em tudo o que tinha passado para chegar até ali. Às 14 horas começou a arranjar-se.
Vestiu o fato da delegação, gravata azul, sapato preto. Penteou o cabelo com brilhantina, olhou para o espelho, viu um rapaz de 17 anos vestido de adulto. Garrincha apareceu atrás dele no reflexo. Vamos, miúdo, tá na hora. Às 14:30, a comitiva saiu do hotel. Autocarro azul e amarelo. Pelé sentado ao lado de Garrincha. Janela.
Olhando Estou como passar, ruas cheias, pessoas a caminhar em direção ao estádio, bandeiras suecas em todo o lado, poucas brasileiras. O Rosunda Stadion ficava a norte de Estocolmo, estádio da seleção sueca, capacidade para 50.000 pessoas. Inaugurado em 1937, reformado em 1958 paraa Copa, a Apelé viu o estádio de longe, enorme, betão, imponente.
O autocarro entrou pela lateral, parou na entrada dos balneários. Jogadores desceram. Pelé foi um dos últimos. Pisou o chão, ouviu o barulho abafado da claque que já ocupava as arquibancadas. Entrou no balneário. Cheiro a tinta, cheiro a linimento, cheiro a erva molhada vindo do túnel. As chuteiras estavam organizadas, fardas penduradas, tudo pronto.
Pelece trocou devagar, tirou o fato, pendurou, vestiu as calças do uniforme, a camisola amarela, número 10. Puxou as meias até ao joelho, sentou-se no banco, pegou nas chuteiras, amarrou-as com cuidado três vezes até se sentir firme. Ao redor dele, o balneário estava em silêncio. Cada jogador no seu ritual.
Didi de olhos fechados. Garrincha assobiando baixo, Beline batendo na própria coxa, ativando a musculatura. Feola entrou 20 minutos antes do jogo, reuniu os 11 titulares, olhou para cada um, não disse nada, apenas acenou com a cabeça. Foi suficiente. Os jogadores foram pro aquecimento. Quando Pelé saiu do túnel, foi atingido por uma onda sonora. 49.
737 pessoas a gritar, a cantar, a bater palmas. Bandeiras azuis e amarelas a esvoaçar, um mar de gente. Pelé parou por um segundo, respirou fundo, depois correu para o relvado, começou a aquecer, passou a bola com Garrincha, com Didi, com Zagalo, alongou, acelerou, abrandou, sentiu o corpo pronto. 15 minutos depois, o árbitro apitou.
Sorteio. Belini representou o Brasil. A A Suécia ficou com a bola. Jogadores se posicionaram. Pelé na frente, Vavá ao lado, Didi atrás, Garrincha na direita, Zagalo na esquerda, Zito e Belini no médio, Orlando e Nilton Santos nas laterais, Gilmar na baliza. O árbitro levantou o braço, colocou o apito na boca, apitou. A final começou.
O jogo teve início às 15 horas. Nos primeiros 4 minutos, a Suécia inaugurou o marcador. Lholm recebeu na intermediária, avançou e bateu no canto de Guilmar. 1 a 0. O Rossundo Stadion explodiu. 49.737 suecos a gritar, bandeiras azuis e amarelas a esvoaçar. No banco brasileiro, Vicente Feola fechou os olhos. Nos primeiros 10 minutos, o Brasil estava a perder em casa do adversário, com a claque toda contra numa final da Taça do Mundo.
Era o pior começo possível, mas dentro de campo algo mudou. Didi pegou na bola no meio, olhou para Pelé e acenou com a cabeça. Pelé compreendeu. A resposta ia começar. Lidholm tinha recebido a bola de um lateral pela esquerda. dominou, avançou 5 m, olhou para a baliza, bateu de direita. A bola passou por Zito, passou por Belini, de passou por Gilmar e entrou no canto direito baixo.
1-0. 4 minutos de jogo, o Rossunda explodiu. 50.000 suecos de pé, gritando, saltando, abraçando. A Suécia estava ganhando em casa na final do Brasil. No banco brasileiro, Feola fechou os olhos. Amaral, o supervisor, baixou a cabeça. Os reservas ficaram mudos. Dentro de campo, os jogadores brasileiros entreolharam-se.
Gilmar apanhou a bola no fundo da rede, rematou de volta para o meio-coampo. Belini gritou algo que ninguém percebeu bem. Zito bateu palmas pedindo concentração, mas Pelé olhou para Didi e Didi olhou de volta. Não trocaram palavras, apenas um aceno de cabeça. Entendimento silencioso. A resposta ia chegar. Nos minutos seguintes, o Brasil começou a tocar na bola com mais calma, sem desespero, sem pressas.
Gilmar pro Beline, Belini para o Zito, Zito para o Didi. Didi a abrir para o Garrincha, Garrincha avançando, cruzando, Suécia a cortar. A claque sueca cantava. fazia barulho, pressionava, mas o Brasil não se deixou abalar. Aos 6 minutos, Garrincha recebeu na direita, driblou o lateral sueco e cruzou o rasteiro na área.
Vavá chegou finalizando de primeira, a bola entrou no canto, 1-1. O silêncio abateu-se sobre o Rosunda. A claque sueca ficou muda. Pela primeira vez no jogo, o Brasil respirou. Vavá não festejou com euforia. apenas levantou o braço e voltou a correr para o meio de campo. O Didi gritou algo em português que ninguém percebia, mas o tom era claro.
Agora o jogo começou a sério. Aos 32 minutos, Vavá fez o segundo. Brasil 2, Suécia 1. O que veio depois foi a consagração de um miúdo que a Suécia ainda não sabia quem era. O golo de Vavá tinha vindo num contra-ataque rápido. Garrincha na direita, cruzamento rasteiro, Vavá a chegar. Finalização de primeira, sem hipóteses para o goleiro. 1 a 1.
O Rossunda ficou em silêncio. Um silêncio pesado, 50.000 pessoas caladas processando, tentando compreender. No Banco Brasileiro, os reservas levantaram-se, gritaram, festejaram. Feola não se mexeu, apenas tirou os óculos, limpou, colocou de volta. O jogo continuou. Brasil a crescer, Suécia a tentar responder, mas sem a mesma confiança.
O empate tinha tirado a euforia, tinha colocado dúvida. Aos 32 minutos, Didi recuperou a bola no meio, tocou para Zagalo na esquerda. Zagalo avançou, cruzou para a área, Vavá apareceu de novo, cabeceamento firme, golo! 2 a 1, Brasil na frente. Desta vez o Rossunda não se calou, vaiou. 50.
000 pessoas a vaiar, a protestar, não acreditando. No banco brasileiro, ambos os jogadores explodiram. Feola levantou-se, bateu palmas, acenou aos jogadores em campo, pela primeira vez deixou a emoção aparecer. Os 3 minutos até ao intervalo foram intensos. Suécia pressionando, Brasil segurando. Falta, canto. Finalização. Gilmar defendendo, defesas a cortar, meio de campo fechando.
Quando o árbitro apitou o intervalo, o marcador estava em 2-1. Brasil vencendo na casa da Suécia. Na final da Mundial, os jogadores caminharam para o balneário, suados, cansados, mas confiantes. Pelé tinha tocado 14 vezes na bola no primeiro tempo. Não tinha marcado, mas tinha participado, tinha-se movimentado, tinha criado espaço, tinha aberto o jogo.
No balneário, Feola não mudou nada. Disse apenas mais 45 minutos. Continuem a fazer o que estão fazendo. Não recuem. Não tenham medo. Joguem. Os jogadores beberam água, descansaram, respiraram. 15 minutos depois voltaram para o campo. O segundo começou o tempo e foi aí que Pelé entrou para a história. Aos 10 minutos do segundo tempo, Newton Santos avançou pela esquerda e cruzou para a área.
Pelé dominou a bola no peito, deixou-a ressaltar. rodou e rematou de voleio por cima do guarda-redes Svenson. A bola entrou 3-1. O Rossunda ficou em silêncio absoluto. Pelé caiu de joelhos e foi abraçado por Garrincha. Aos 20 minutos, Zagalo cruzou da esquerda. Pelé subiu sozinho, cabeceou firme e a bola entrou ao canto.
4-1. Carl Venson, o guarda-redes sueco, ficou parado com as mãos na cintura, olhando para o chão. Tinha levado dois golos em 10 minutos de um miúdo de 17 anos numa final de um Campeonato do Mundo. Não havia defesa possível, não havia resposta. A, o primeiro golo aconteceu assim.
Newton Santos recuperou a bola no campo de defesa, avançou pela esquerda sem pressas. Passou por um jogador, passou por outro, chegou perto da área, olhou para o meio, viu o Pelé se movimentando, cruzou alto. Pelé estava de costas para a baliza, viu a bola a vir, esperou, dominou no peito. A bola ricou uma vez. Pelé rodopiou.
O guarda-redes Svenson saiu da baliza, mas Pelé não deixou a bola cair. Rematou de voleio por cima de Svenson. A bola subiu, passou sobre o guarda-redes, desceu, entrou na baliza. 3 a 1. O Rosunda ficou em silêncio. Silêncio absoluto, chocado. 50.000 pessoas sem acreditar no que tinham acabado de ver. Pelé caiu de joelhos.
Não foi comemoração, foi a libertação. Garrincha chegou primeiro, puxou-o para cima, abraçou. O Didi chegou, o Vavá chegou, O Zagalo chegou. Todos em cima de Pelé, todos a gritar. Ah, no banco brasileiro, os jogadores saltaram, gritaram, abraçaram-se uns aos outros. Feola sorriu. Primeira vez em toda a Copa. Pelé voltou para o meio-campo, coração batendo forte, pernas a tremer, não de cansaço, de adrenalina.
10 minutos depois, aos 20 do segundo tempo, veio o segundo. Zagalo recebeu na esquerda, avançou, olhou para o meio, viu Pelé a pedir na área, cruzou alto. Pelé estava marcado por dois defesas, mas subiu entre os dois, saltou mais alto, cabeceou firme, a bola entrou no canto direito, 4-1. Desta vez Pelé festejou, correu, saltou, gritou, foi abraçado por todos de novo.
Carlos Svenson, o guarda-redes sueco, ficou parado, mãos na cintura, a olhar para o chão. Tinha sofreu dois golos em 10 minutos de um miúdo de 17 anos numa final da Taça do Mundo em casa à frente de 50.000 suecos. A não havia defesa possível, não havia resposta, não havia explicação. A A Suécia ainda marcou um. Simonson.
Aos 35 minutos, 4-2, mas foi consolação, orgulho. Não mudou nada. Aos 40 minutos, Zagalo marcou o quinto. Pelé deu assistência, tocou para Zagalo na esquerda. Zagalo avançou e finalizou 5 a do Os últimos 5 minutos foram eternos. Pelé não queria que acabasse. Queria continuar a jogar, queria continuar sentindo aquilo, a sensação de dominar, de controlar, de ser campeão.
Mas o árbitro olhou para o relógio, levantou o braço, levou o apito à boca, apitou, final, Brasil 5, Suécia 2, campeão do mundo. Quando o árbitro apitou para o final, o marcador assinalava Brasil 5, Suécia 2. Pelé caiu de joelhos no meio-campo e começou a chorar. Não foi choro de alegria, foi choro de libertação, de tudo que tinha segurado, do medo, ah, da pressão, da responsabilidade de carregar um país inteiro às costas com 17 anos.
Didi ajoelhou-se ao lado dele e colocou a mão no ombro dele. Garrincha sentou-se do outro lado. Os três ficaram ali no centro do Rosunda, enquanto a claque sueca aplaudia em silêncio. Depois, Pelé levantou-se, limpou a cara com a camisa e caminhou para o balneário. Tinha 17 anos e 249 dias.
era campeão do mundo e nunca mais seria tratado como um miúdo. Pelé caiu de joelhos, com as mãos na cara, os ombros a tremer, chorava, chorava sem controlo, chorava tudo o que tinha seguro nas últimas três semanas. O medo de não ser convocado, o medo de não jogar, o medo de desiludir, o medo de não estar pronto. Tudo saiu. O Didi viu, deixou de comemorar. Foi ter com Pelé.
ajoelhou-se ao lado, colocou a mão no ombro dele, não disse nada, apenas ficou ali. Garrincha chegou logo a seguir, sentou-se do outro lado, colocou o braço à volta de Pelé. Os três ficaram ali no centro do Rossunda, enquanto à volta deles Os jogadores brasileiros comemoravam, saltavam, gritavam, choravam também.
A claque sueca aplaudia. Não era sarcasmo, era o reconhecimento. 50.000 suecos de pé, a bater palmas, homenageando o campeão, respeitando o adversário. Pelé levantou-se lentamente, limpou o rosto com a camisa, olhou em redor, viu Belini levantando a taça, viu Gilmar a correr para o meio-campo, viu Newton Santos de joelhos também.
viu toda a gente vivendo o mesmo momento, o momento que iam recordar para o resto da vida. Caminhou pro vestiário devagar, ainda a processar, ainda a tentar acreditar. No balneário, o caos. Jogadores a gritar, a cantar, aos saltos, dirigentes abraçando, massagista a chorar. A Feola sentado no canto, a fumar, a sorrir. Pelé entrou, foi abraçado por todos, um a um.
Zito, Pep, Dino Sani, Mazola, todos os reservas, todos os titulares, todos. Depois, silêncio. Feola levantou-se, olhou para todos, disse apenas. Vocês fizeram história, saiu. Os jogadores ficaram ali em silêncio, processando, compreendendo, aceitando. Pelé sentou-se no banco, tirou as chuteiras, colocou-as no chão, olhou para elas. Chuteiras sujas de relva.
chuteiras que tinham marcado dois golos numa final de um Campeonato do Mundo. Garrincha sentou-se ao lado. Eu disse, miúdo. Falei que ia marcar. Pelé olhou para Garrincha, sorriu. Primeiro sorriso desde o apito final. Você disse: “E eu estava certo, estava.” Os dois ficaram sentados em silêncio, cansados, felizes, campeões.
Nessa noite houve festa, jantar oficial, discursos, brindes, música, dança. A Pelé participou em tudo, mas com distanciamento, como se estivesse assistindo de fora, como se ainda não conseguisse acreditar completamente. às 23 horas subiu para o quarto, deitou-se na cama, de farda ainda, não tinha força para tirar.
Garrincha entrou, viu Pelé deitado, cansado, miúdo, muito. Garrincha sentou-se na cama dele, acendeu um cigarro. Sabe o que fez hoje, não é? Ganhei uma Taça. Não, você mudou tudo. Você mostrou ao mundo inteiro que o Brasil não é só samba e improviso, que sabemos jogar, que a gente pode ser campeão. E você fez isso com 17 anos.
Pelé não respondeu, fechou os olhos, pensou no pai, na mãe, nos amigos, em Bauru, em Santos, em tudo o que tinha passado para ali chegar. E percebeu que Garrincha tinha razão, tinha mudado tudo. Nos dias seguintes, a delegação voltou a para o Brasil, vou longo, três escalas. A chegaram ao Rio de Janeiro a 2 de julho. O aeroporto estava lotado.
Milhares de pessoas, faixas, bandeiras, gritos, foguetes, festa. Pelé desceu do avião, foi cercado, abraçado, levantado, carregado. Era um herói, era um campeão, era ídolo. Mas dentro dele algo tinha mudado. Já não era miúdo, não podia mais ser. tinha vivido pressão que a maioria dos homens nunca viveria.
Tinha carregado responsabilidade que não deveria existir em ombros de 17 anos e tinha vencido. Nos meses seguintes, a a vida dele mudou. Ofertas de clubes europeus, contratos de publicidade, convites para eventos. Todo o mundo queria um pedaço de Pelé. Mas Pelé não mudou. Continuou a treinar, continuou a jogar, continuou a ser quem sempre foi, porque sabia que aquela Taça tinha sido apenas o começo.
Tinha muito mais pela frente, muito mais para provar, há muito mais para conquistar e ia marcar um golo de cada vez, um jogo de cada vez, até não conseguir mais. Passaram os anos, Pelé jogou outras duas taças, ganhou mais duas, tricampeão, único na história. Marcou mais de 1000 golos, jogou em mais de 90 países, tornou-se uma lenda viva.
Mas sempre que perguntavam qual tinha sido o jogo mais importante, a resposta era a mesma. Estocolmo, 29 de junho de 1958, final do Campeonato do Mundo, Brasil 5, Suécia 2. Porque ali, com 17 anos, tinha provou a si mesmo que estava pronto, que podia carregar o peso, que podia ser o maior. E foi. Carvenson, o guarda-redes sueco que sofreu dois golos de Pelé nesse dia, nunca esqueceu.
anos depois, em entrevista disse: “Vi muitos avançados na minha carreira, bons, ótimos, mas o Pelé era diferente. Não era só talento, era inteligência, era calma, era certeza. Ele sabia que ia marcar antes mesmo de receber a bola e quando sabia acontecia. Nunca vi nada igual.” Vicente Feola, o técnico que apostou no miúdo quando mais ninguém apostaria, também nunca esqueceu.
Disse uma vez: “A decisão mais difícil que tomei na vida foi escalar Pelé nessa taça, mas foi também a mais certa. Tinha 17 anos, mas jogava como se tivesse 30 e carregava responsabilidade como se tivesse vivido três vidas. Nunca me vou arrepender de ter confiado nele. Garrincha, o colega de quarto, de campo, de história, disse poucas palavras sobre aquele mundial, mas as que disse ficaram.
O miúdo chorou antes de jogar. Chorou porque queria tanto que doía. E quando alguém que era assim, com esta fome, nada segura. Eu sabia que ele ia fazer história, só não sabia que ia ser tão cedo. Didi, o maestro do meio-campo, a homem que prestou as assistências, que comandou o jogo, que protegeu Pelé dentro de campo, disse: “Pelé chegou o miúdo, saiu homem e tivemos o privilégio de estar junto nesta passagem.
O Brasil nunca mais foi o mesmo depois de 1958. ganhou respeito, ganhou credibilidade, ganhou o direito de ser chamado de potência. E tudo começou naquele dia 29 de junho com um rapaz de 17 anos que chorou no balneário, que não dormiu na véspera, que teve medo, que teve dúvida, mas que quando entrou em campo fez o que nasceu para fazer, jogar à bola.
E nisso ninguém era melhor. Hoje, quando vemos Pelé sendo chamado de rei, de maior de todos os tempos, de lenda, é fácil esquecer que tudo começou com um miúdo. Um miúdo que podia ter partido, que podia ter falhado, que podia ter ficado no banco, mas não ficou. E por isso o o futebol nunca mais foi o mesmo. A a história não termina com justiça, não termina com alívio, termina com a consciência de que a grandeza tem um preço.
E Pelé pagou esse preço cedo. Pagou com pressão, com expectativa, com responsabilidade que nenhum miúdo de 17 anos deveria carregar, mas pagou e venceu. E por isso, 29 de junho de 1958, não é só a data em que o Brasil ganhou a sua primeira taça, é a data em que Pelé tornou-se Pelé e o mundo nunca mais esqueceu. Não.