Ninguém se apercebeu da sua saída. Estava demasiado quente e havia demasiada gente para que alguém reparasse na ausência de um jornalista brasileiro magro num mar de fatos italianos. Sandro saiu do hotel Camino Real e pegou um táxi à porta. O táxi era um Volkswagen Carocha verde com os bancos traseiros gastos e um cheiro a gasolina que entrava por alguma fresta do açoalho.
Deu o endereço do hotel da seleção brasileira ao motorista que conduziu pelas ruas da Cidade do México, com aquele trânsito caótico de buzinas e autocarros lotados que caracterizava a capital nesses anos. Chegou às 5:15 da tarde, subiu diretamente ao segundo andar, onde se encontravam os quartos dos jogadores, e encontrou Brito, o defesa, no corredor. Contou tudo.
Brito ouviu sem interromper, com os braços cruzados e os olhos apertados como quem processa informação e separa o que importa do que é ruído. Depois foi até ao quarto de Piatza, que ficava ao fundo do corredor. Iatza contou a Everaldo. Everaldo desceu ao primeiro andar e contou a Rivelino, que estava na sala de televisão, a ver um programa mexicano que não entendia.
Às 5:30, cada jogador do Brasil já sabia exatamente o que Valcared tinha dito. A notícia correu pelo hotel como fogo em rastilho seco, sem que ninguém precisasse de gritar ou fazer uma reunião. Bastou a palavra irresponsável circular de boca em boca para que o clima mudasse. Não houve revolta visível, não houve gritos, houve algo mais perigoso.
Um silêncio coletivo que se instalou nos corredores do hotel como uma pressão barométrica que desce antes de uma tempestade. Ao o jantar da seleção brasileira foi servido às 19 horas no restaurante privado do hotel. Era um salão retangular com mesas cobertas por toalhas brancas engomadas, pratos de louça pesada e talheres de metal que tinham o escudo do hotel gravado nos cabos.
A luz vinha de lustres baixos que davam ao ambiente um tom amarelado e quente que contrastava com o ar condicionado que soprava demasiado forte e fazia as toalhas das mesas mais próximas das saídas de ardularem ligeiramente. Arroz, feijão, frango grelhado, salada de alface com tomate, sumo de laranja em jarras de vidro.
A comida era sempre a mesma. A cozinha do hotel preparava o ementa sob a supervisão do médico da delegação, que controlava cada ingrediente com a precisão de quem administra medicamentos, não refeições. Os jogadores comiam em mesas de seis, a falar em voz baixa, está como faziam em todas as vésperas de jogo. O tom era o de sempre.
Comentários sobre o treino da manhã, piadas discretas sobre a televisão mexicana, observações sobre a comida que ninguém fazia em voz suficientemente alta para que o médico ouvisse. Pelé não estava em nenhuma das mesas. Tinha pedido que levassem um tabuleiro ao quarto 214, um tabuleiro com arroz, frango e sumo, sem feijão, sem salada.
Um empregado de mesa do hotel subiu com o tabuleiro às 7:10. bateu à porta, entregou sem entrar e desceu. Não era a primeira vez que Pelé fazia isso durante o torneio. Nas vésperas dos jogos contra a Inglaterra e contra o Uruguai, também tinha jantado sozinho. Na véspera do jogo contra a Checoslováquia, o primeiro do torneio, tinha jantado com o grupo, mas tinha saído da mesa antes da sobremesa, sem dar explicação.
Ninguém questionava e ninguém achava estranho. O preparador físico Lídio Toledo sabia que Pelé tinha os seus rituais de concentração e que estes rituais incluíam períodos de isolamento que não deviam ser interrompidos. Não era capricho, não era arrogância, era o método que um homem que jogava desde os 15 anos tinha desenvolvido para se proteger da pressão que nenhum outro ser humano no planeta experimentava na mesma intensidade.
Lídio sabia disso porque tinha visto o que acontecia quando este método era interrompido. tinha visto em 66 em Inglaterra, quando a concentração de Pelé foi quebrada por decisões que não controlava e o resultado foi o pior torneio da sua carreira. O quarto 214 ficava no segundo andar do hotel, ao fundo de um corredor comprido com alcatifa verde escura e arandelas de parede que produziam uma luz fraca e amarelada.
O quarto era amplo para os padrões da época, com uma cama de casal, um criado mudo de madeira escura, uma poltrona de couro castanho junto à janela e um casa de banho pequena com azulejos brancos e uma banheira que Pelé não utilizava porque preferia chuveiro. A janela dava para um jardim interior com palmeiras altas e uma fonte de pedra circular que não funcionava desde que a delegação brasileira tinha chegado ao hotel.
A fonte estava seca, com folhas acumuladas no fundo e um musgo verde nas bordas que ninguém se preocupava em limpar. O Pelé comeu metade do prato. O frango estava demasiado seco, o arroz pegajoso demais e o sumo tinha um sabor a laranja que não era laranja, algum concentrado artificial que o México dos anos 70 usava em abundância.
empurrou a bandeja para o criado-mudo e ficou sentado na beira da cama, olhando para o parede à frente, a com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas na frente do rosto. Ficou assim por um tempo que ele próprio não saberia precisar, 10 minutos, talvez 15. A parede era lisa, pintada de bege claro, com uma mancha de humidade no canto superior direito, que tinha a forma de um continente que não existia.
Pelé não olhava para a mancha, olhava para um ponto fixo no centro da parede, onde não havia nada. Era o tipo de olhar que vem de dentro, que utiliza a superfície exterior apenas como apoio, enquanto a a verdadeira atenção está voltada para um lugar interno que mais ninguém pode ver. pensou nas palavras de Valcarede.
Não porque eu tivessem ofendido. Pelé já tinha ouvido coisas piores de pessoas menos importante. Pensou nelas porque representavam algo maior do que a opinião de um treinador italiano. apresentavam uma narrativa, a narrativa europeia sobre o futebol brasileiro, a narrativa de que a técnica era inferior à tática, de que a arte era inferior ao sistema, de que o talento individual era irresponsabilidade disfarçada.
Pelé conhecia esta narrativa. Convivia com ela desde 1958, quando era um rapaz de 17 anos que a Europa não levava a sério até ser tarde demais. E agora, 12 anos depois, a narrativa continuava, como se nada do que ele tivesse feito bastasse para mudá-la. Algures entre às 8 e às 8:30 da noite, Pelé tomou uma decisão. Não foi uma decisão dramática, não foi um momento de iluminação, nem de raiva.
Foi uma decisão prática, nascida da acumulação de anos de pressão, anos de expectativa, anos de palavras ouvidas e engolidas em silêncio. A decisão era simples. Ia falar, ia dizer em voz alta. Era para os jogadores que estariam com -lhe no prazo de 15 horas naquele campo, algo que nunca tinha dito. Não para motivá-los, porque aqueles homens não precisavam de motivação.
Cada um deles sabia exatamente o que estava em causa. Ia falar porque havia coisas que precisavam de ser ditas antes que fosse tarde demais, antes de o jogo começar e a hipótese de as dizer desaparecesse no barulho de 107.000 1 pessoas e no caos de uma final do Campeonato do Mundo, ia falar porque mais ninguém ia falar. Zagalo era um grande técnico, mas as suas as palavras eram táticas, eram esquemas, eram nomes e posições e instruções.
O que Pelé queria dizer não cabia em nenhum quadro tático. Carlos Alberto Torres estava deitado na cama do quarto 208, a ler uma revista Manchete de Há três semanas, quando ouviu duas pancadas na porta. Batidas curtas, secas, espaçadas. O tipo de batida que não é urgente, mas que não aceita. Espera. Carlos Alberto abandonou a revista aberta no peito, levantou-se lentamente e abriu a porta.
Encontrou Pelé no corredor de calções azuis e t-shirt branca, descalço, com os pés grandes e calejados pisando o tapete verde do hotel, como se o tapete fosse relva. Pelé não entrou. ficou no batente da porta com o ombro direito encostado ao marco e as mãos nos bolsos dos calções. Olhou para Carlos Alberto com uma expressão que o capitão conhecia.
Não era urgência, não era medo, era resolução. O tipo de expressão que Pelé tinha quando já tinha decidido algo e não ia mudar de ideias. A frase que Pelé disse naquele corredor durou menos de 15 segundos. Carlos Alberto repeti-la-ia parcialmente em entrevistas décadas depois, sempre interrompendo antes do final. E é sempre dizendo que o resto era entre ele e Pelé.
O que se sabe é que Pelé pediu algo que envolvia todos os jogadores e que precisava de acontecer naquela noite, antes de dormir, antes que o dia seguinte começasse. Não pediu autorização, pediu ajuda para organizar. A diferença é importante. Carlos Alberto ouviu em silêncio. Ficou parado à porta por alguns segundos, processando o que tinha ouvido, calculando o que significava e o que exigia.
Depois assentiu com a cabeça, um único movimento de cima para baixo, firme, sem hesitação. Pelé virou costas e caminhou pelo corredor em direção à escadaria que descia ao primeiro andar. Não olhou para trás. Os pés descalços faziam um som abafado no tapete que foi ficando mais fraco conforme se afastava. Carlos Alberto fechou a porta, alargou a revista na cama e ficou de pé no meio do quarto durante uns 2 minutos.
Olhou pela janela para o jardim interior do hotel, onde as palmeiras se moviam com uma brisa leve que não chegava aos quartos. Depois calçou os chinelos, saiu do quarto e começou a percorrer o corredor. Durante a hora seguinte, bateu em 11 portas diferentes no segundo e no terceiro piso do hotel.
Em cada porta, a conversa era breve, dois ou três minutos, no máximo. Carlos Alberto dizia o essencial: onde, quando, quem pediu, não explicava porquê, não precisava. Quando Carlos Alberto Torres batia na a sua porta às 9 da noite, na véspera do uma final de um Campeonato do Mundo e dizia que Pelé precisava de todos no balneário do Asteca, numa hora.
Ninguém fazia perguntas. Cada jogador que abria a porta ouvia, sentia-a e começava a preparar em silêncio. A Jerson foi o que demorou mais tempo a abrir a porta. Estava deitado no escuro, sem camisola, a fumar com o cinzeiro equilibrado no peito, a brasa do cigarro sendo a única luz no quarto. Quando Carlos Alberto explicou, Gerson tragou o fundo, libertou o fumo para o teto e disse apenas uma palavra que significava concordância, mas que soava como se viesse de um homem que já tinha aceite antes de ser perguntado.
Rivelino estava no quarto com Piazza, os dois a ver televisão sem som. Quando Carlos Alberto bateu, Rivelino abriu a porta já calçando os sapatos, como se tivesse pressentido que alguém ia vir. Clodoaldo, o mais novo do grupo, abriu a porta com os olhos largos de quem não sabe o que esperar e não vai perguntar.
Às 10h15 da noite, a 22 jogadores da seleção brasileira estavam sentados nos bancos de madeira do balneário visitante do Estádio Azteca. O percurso do hotel ao estádio tinha sido feito em três táxis e um pequeno autocarro que o motorista particular da delegação mexicana conseguiu arranjar sem fazer perguntas.
Os jogadores saíram do hotel em grupos de quatro ou cinco, a intervalos de 5 minutos, pela porta lateral que dava para uma rua secundária, onde não havia jornalistas nem seguranças. Ninguém os viu sair, ninguém os viu chegar ao estádio. O portão lateral do asteca estava aberto porque havia funcionários fazendo a preparação do campo para o dia seguinte, regando o relvado, verificando as redes das balizas, testando os refletores.
Um segurança do estádio reconheceu Carlos Alberto e abriu o acesso ao balneário sem pedir explicação. Não era um treino. A não era uma reunião convocada pela comissão técnica. Zagalo não estava lá. Lídio Toledo não estava lá. Os dirigentes da CBD não estavam lá. Não havia médico, não havia massagista, não havia roupeiro, apenas os jogadores.
22 homens sentados nos bancos de madeira de um vestiário que nas próximas 15 horas seria o ponto de partida para o jogo mais importante da história do futebol brasileiro. O vestiário era um retângulo de betão de aproximadamente 15 m/8, com bancos ao longo de três paredes, cabides de ferro fixados na parede por cima dos bancos, um quadro tático vazio encostado a um canto e duas lâmpadas fluorescentes que zumbiam no tecto com aquele barulho constante que se instala no fundo da consciência e só desaparece quando alguém desliga. O chão era de cimento
pintado de cinzento, liso, frio, a com manchas de humidade nos cantos, onde o canalização passava por dentro da parede. O ar cheirava a betão molhado, a cloro do balneário ao lado que tinha sido lavado nessa tarde com água sanitária. E há algo de indefinível que todos os balneários do mundo partilham.
Um cheiro que mistura tensão, suor antigo e expectativa. A disposição dos jogadores nos bancos não foi combinada. Cada um sentou-se onde quis, onde o instinto mandou, onde o corpo parou. Gerson sentou-se no canto esquerdo, perto da porta do chuveiro, com as costas encostadas à parede e um cigarro apagado entre os dedos indicador e médio da mão direita.
Já era o terceiro cigarro que segurava sem acender desde que saíra do hotel. Jairzinho sentou-se ao lado de Gerson, com os braços cruzados sobre o peito largo e as costas encostadas à parede, as pernas esticadas para a frente, aos calcanhares no chão de cimento. Rivelino sentou-se no banco da parede oposta com os cotovelos nos joelhos e a cabeça baixa, o bigode grosso a esconder a expressão da boca.
Tostão sentou-se ao lado de Rivelino, calado como sempre, com as mãos cruzadas no colo e aqueles olhos calmos que pareciam já saber o que vinha. Olhos que tinham visto de tudo nos últimos dois anos, desde a ameaça de cegueira até à convocação que quase não aconteceu. Clodoaldo, o mais novo do grupo, 21 anos recém- completados, sentou-se na ponta do banco mais próximo da porta de entrada, com as mãos entre os joelhos, os ombros encolhidos, ocupando o menor espaço possível, como fazem os jovens quando estão entre veteranos e não querem parecer presunçosos. Brito sentou-se
ao lado de Piaza, os dois defesas juntos por hábito, por instinto de posição. Everaldo sentou-se sozinho com os cotovelos apoiados nos joelhos e os olhos fixos num ponto do chão. Carlos Alberto ficou de pé, junto da porta de entrada, com os braços cruzados e a expressão de quem já sabia o que ia acontecer, porque tinha ajudado a organizar. Era o guardião.
Estava ali para garantir que ninguém entrava e ninguém interrompesse. Pelé estava de pé, no centro da sala. Ficou de pé no centro do balneário durante quase um minuto sem dizer nada. Um minuto é muito tempo. Num silêncio partilhado por 23 pessoas. É tempo suficiente para que o zumbido das lâmpadas se torne ensurdecedor.
É tempo suficiente para que cada homem naquela sala comece a sentir o peso do que está prestes a acontecer. Pelé olhou para cada jogador, um a um, como quem verifica uma lista mental. Há como quem precisa de confirmar que todos estão presentes antes de abrir algo que não pode ser aberto duas vezes.
Os seus olhos passaram por Gerson, pararam um segundo, seguiram para Jairzinho, pararam um segundo, seguiram para Rivelino, para Tostão, para Clodoaldo, para cada um dos 22 rostos que estavam naquela sala. Era um inventário silencioso, uma contagem que não era de números, mas de presenças. Pelé vestia os mesmos calções azuis e t-shirt branca que tinha usado quando bateu à porta de Carlos Alberto.
Estava ainda descalço, os pés no cimento frio do balneário, os dedos largos e calejados de quem pisou todos os relvados do planeta. Quando finalmente falou, a primeira coisa que disse não não teve nada a ver com a Itália, nem com o jogo do dia seguinte, nem com tática, nem com marcação, nem com esquema, a nem com nada do que Zagalo teria dito.
A primeira coisa que o Pelé disse foi sobre 1966, sobre a Inglaterra. E o tom não era de discurso. Não era a voz que Pelé utilizava em conferências de imprensa. Aquela voz polida, medida, diplomática que o mundo conhecia. Não era a voz de quem fala para ser citado no jornal do dia seguinte. Era outra voz.
Uma voz que a maioria dos homens naquela sala nunca tinha ouvido. Uma voz que vinha de um lugar que Pelé mantinha fechado na maior parte do tempo. Um lugar onde guardava as coisas que não podiam ser ditas em público. Era a voz de confissão. E o tom era baixo, calmo, sem pressas, como quem conta uma história que já contou a si próprio milhares de vezes no escuro do quarto, mas que nunca deixou sair pela boca.
O que disse Pelé sobre o Mundial de 1966 não era novidade para nenhum dos jogadores que lá tinham estado. Agerson tinha estado, Carlos Alberto tinha estado. Jairzinho, demasiado jovem para ser titular mais presente na delegação, tinha visto de perto. Mas o que Pelé estava a fazer não era contar factos que todos conheciam, era dar a estes factos um peso que nunca tinham recebido em voz alta.
Falou sobre o jogo contra Portugal na fase de grupos em Goodson Park, Liverpool. Falou sobre a primeira entrada de Morais, o lateral português, no primeiro tempo, uma entrada por trás no joelho direito que fez Pelé cair como se tivesse sido baleado. Falou sobre como se levantou, como tentou continuar, pois o joelho inchou durante o jogo e como cada passo a partir daquele momento era uma negociação entre a vontade de jogar e a dor que subia pela perna como uma corrente elétrica.
Falou sobre a segunda entrada de Morais. No segundo tempo, quando Pelé jama conseguia correr e o árbitro inglês George McCabe não assinalou falta, não marcou na primeira vez e não marcou na segunda. Pelé descreveu o momento com uma precisão que só quem carregava a dor durante 4 anos consegue ter.
Descreveu o som do impacto, o estalido da caneleira batendo no osso. A forma como o joelho dobrou para dentro num ângulo que os joelhos não devem dobrar. falou sobre o momento em que saiu do campo a coxear, apoiado em dois membros da equipa técnica, e olhou para a bancada de Goodson Park. 50.000 ingleses de pé a aplaudir.
Não por respeito. Pelé disse isto com uma claridade que cortava. Não por respeito, por alívio. O alívio de quem vê o maior obstáculo ser removido do caminho. O alívio de quem sabe que sem Pelé o O Brasil é uma equipa mortal e com Pelé é algo que não tem explicação tática. Os ingleses aplaudiram porque a ameaça tinha passado e Pelé ouviu aquele aplauso como que realmente era.
Falou sobre o voo de regresso ao Brasil depois da eliminação. O avião da delegação brasileira atravessou o Atlântico em silêncio. Não o silêncio de quem dorme, o silêncio de quem não tem nada para dizer, porque as palavras não chegam ao dimensão da derrota. Falou sobre a vergonha que ninguém conseguia nomear. Uma vergonha que não era só de ter perdido, mas de ter sido retirado do jogo por violência consentida, por um sistema que permitia que o melhor jogador do mundo fosse caçado sem proteção.
E quando chegou a parte em que descreveu o momento em que disse a si próprio que nunca mais jogaria um Campeonato do Mundo, a voz dele mudou. Não partiu. Pelé não era um homem que chorava à frente dos outros. Não tremeu. La Pelé não era um homem que mostrava fraqueza. Mesmo entre iguais.
A voz endureceu como metal que arrefece depois de ser moldado, como algo que era líquido e vulnerável e que se transformou em sólido e impenetrável. A voz tornou-se mais grave, mais lenta, mais deliberada, como se cada palavra custasse energia e ele estivesse escolhendo quais gastar. E nesse momento, todo o balneário entendeu que o que estavam a ouvir não era uma palestra.
Não era um discurso de capitão, nem de líder, nem de estrela. Era uma conta. Uma conta que Pelé estava cobrando ao destino. Uma dívida de 4 anos que acumulou juros em cada treino, em cada jogo, em cada noite em que ele deitava-se na cama e pensava no aplauso dos ingleses em Goodisson Park. Quando Pelé fez a primeira pausa longa, o silêncio no balneário era tão espesso que parecia ter densidade. Gerson acendeu o cigarro.
O som do fósforo a raspar na caixa e coou nas paredes de betão como um estalido seco que fez três ou quatro jogadores virarem a cabeça na direcção do som. A chama iluminou o rosto de Gesson por um segundo, revelando uma expressão que era difícil de ler. Os olhos estavam apertados, não por causa do fumo, mas por concentração.
A boca estava fechada numa linha reta. Gerson tragou fundo a ponta do cigarro brilhando laranja na penumbra do canto do balneário e soltou o fumo devagar pela boca e pelo nariz, ao mesmo tempo. Um hábito de fumador inveterado que não se preocupa-se em ser elegante. Ficou a olhar para Pelé com uma expressão que misturava respeito e algo mais dura que respeito.
Algo que estava mais perto do reconhecimento entre iguais. Há o reconhecimento de que o que Pelé estava a dizer era verdade e que a verdade quando dita naquela intensidade exige silêncio como resposta. Gerson era um homem que não se impressionava facilmente. tinha a língua mais afiada do futebol brasileiro, uma opinião formada sobre cada jogador, cada treinador, cada dirigente e cada jornalista que se cruzava o seu caminho, e a disponibilidade para dizer esta opinião sem filtro nem cerimónia.
Era o tipo de homem que podia elogiar e destruir na mesma frase, que podia fazer um colega de equipa sentir-se o melhor do mundo num minuto e o pior no minuto seguinte, dependendo do estado de espírito e da necessidade. Os jogadores mais jovens tinham medo da língua de Gerson. Os jornalistas evitavam perguntas abertas que dessem margem para respostas demolidoras.
A dirigentes negociavam com ele como quem negoceia com alguém que pode explodir a qualquer momento. Mas nessa noite não disse uma palavra. ficou a fumar no canto do vestiário com a cinza do cigarro crescendo entre os dedos, como uma coluna de areia cinzenta que se equilibrava contra a gravidade. Ouvindo Pelé falar sobre coisas que ele próprio tinha vivido, que ele próprio tinha sentido no corpo e na cabeça, mas que nunca tinha ouvido ninguém descrever com aquela precisão, com aquela nudez, com aquela ausência total de proteção.
O silêncio dos outros 20 jogadores era tão denso que se ouvia o barulho quase imperceptível da cinza a cair no chão de cimento, quando Gerson finalmente bateu o cigarro no banco de madeira, deixando uma marca escura na superfície que provavelmente ficou ali durante anos. A a segunda parte do que Pelé disse nessa noite mudou de registo.
Saiu da Inglaterra de 66 e veio para o México de 70. saiu da dor pessoal e veio para a responsabilidade coletiva. A transição foi suave, quase imperceptível, como se uma porta se fechase atrás dele e outra se abrisse à frente. E de repente, o balneário não esteve mais em Goodson Park em 1966, mas no estádio Azteca em 1970, há menos de 14 horas do jogo.
Pelé falou sobre o que significava vestir aquela camisola amarela naquele momento específico da história do Brasil. Não falou de política, não mencionou o governo militar, não mencionou o AI5, não mencionou a censura, nem a repressão que todos sabiam que existia, mas que ninguém dentro do futebol nomeava em voz elevada, especialmente não na véspera de uma final de um Campeonato do Mundo.
A Pelé não era um homem de discursos políticos, nunca foi nem ia ser nessa noite. O que fez foi algo diferente e, de certa forma, mais devastador do que qualquer discurso político poderia ter sido. Falou sobre as mães. Falou sobre a mãe de Clodoaldo, a dona Maria, que trabalhava como lavadeira em Santos, que lavava roupa no tanque de cimento do quintal de casa, seis dias por semana, e que tinha ido a casa de Pelé numa tarde de quinta-feira, dois anos antes, quando Clodoaldo foi convocado pela primeira vez. para a seleção sub-23.
A Dona Maria não foi pedir nada para si, foi pedir a Pelé que cuidasse do menino, que olhasse por ele, que não deixasse o futebol grande engolir um rapaz que ainda não sabia o peso do que estava carregando. Pelé descreveu a cena com pormenores que ninguém esperava. descreveu o vestido florido que a dona Maria usava, limpo e passado, mas desbotado pelo sol e pelo sabão.
Descreveu as mãos dela, mãos ásperas de lavadeira com os dedos inchados nas articulações, apertando a bolsa contra o corpo como quem segura algo frágil. descreveu a voz dela baixa e firme, de mulher que não pede favores, mas que também não tem demasiado orgulho para pedir quando o assunto é o filho. Pelé disse que fez a promessa naquela tarde e que a promessa ainda estava de pé.
Quando Pelé mencionou o nome da dona Maria no meio do balneário, Clodoaldo baixou a cabeça, não de vergonha, de algo que estava entre o reconhecimento e a a dor de ouvir o nome da mãe pronunciado naquele contexto, naquele lugar, perante daqueles homens, na véspera do jogo mais importante de todos. Ficou a olhar para o chão de cimento sem conseguir levantar os olhos.
As mãos entre os joelhos apertaram uma contra a outra. Ma os ombros encolheram mais 1 cm. Tinha 21 anos. Era o mais novo da delegação e a cada segundo que passava naquele vestiário, o peso de estar ali ficava mais evidente. Pelé falou sobre a mãe de Jairzinho, dona Iracema, que vendia quentinhas no subúrbio do Rio de Janeiro, num bairro onde as ruas não tinham asfalto e a água chegava em camião cisterna duas vezes por semana.
disse que a dona Iracema tinha rezado novena durante os nove dias que antecederam a convocação do filho para a Mundial de 70 e que quando a convocatória saiu no jornal, ela caminhou até ao igreja do bairro e ficou de joelhos diante do altar durante 20 minutos sem dizer nada, só chorando em silêncio, porque a oração já tinha sido feita e o que restava era agradecer.
Jairzinho, sentado ao lado de Gerson, não se mexeu, não baixou a cabeça como Clodoaldo. Ficou parado com os braços cruzados e o maxilar preso, olhando para Pelé com uma intensidade que endurecia o ar circundante. O maxilar tremia ligeiramente, um tremor quase invisível que só quem estivesse prestando muita atenção notaria.
Pelé falou sobre a dona Celeste, a própria mãe, que cada vez que viajava para jogar pela seleção, ficava de pé à porta da casa em Santos, na rua do bairro, onde Pelé tinha comprado a casa para Blafamília até o carro desaparecer na esquina. disse que a dona Celeste nunca pediu que ele parasse de jogar, nunca pediu que ele recusasse a convocação, nunca queixaram-se das ausências, das viagens, dos meses longe de casa, mas ficava de pé na porta sempre.
E o Pelé disse que cada vez que olhava pelo retrovisor e via a mãe parada na porta, diminuindo no espelho à medida que o carro se afastava, sentia uma coisa que não tinha nome. Há uma coisa que estava entre a gratidão e a culpa, entre o orgulho e o medo de não voltar, ou de voltar diferente, ou de voltar sem ter feito o suficiente.
A segunda parte do que Pelé disse durou mais do que a primeira. falou devagar, com pausas longas entre frases, pausas que ninguém tentou preencher. Falou sobre a responsabilidade de representar pessoas que não tinham voz, que não tinham poder, que não tinham nada mais do que uma equipa de futebol que jogava do outro lado do mundo e que era naquele momento a única coisa no país que fazia as pessoas sentirem algo parecido com o orgulho.
Não disse isto com palavras grandiosas, disse com exemplos concretos, disse com nomes, com rostos, com histórias que cada jogador daquela sala conhecia na própria vida. Cada um deles tinha uma dona Maria, uma dona Iracema, uma dona celeste. Cada um deles tinha alguém parado à porta. Pelé falou durante aproximadamente 20 minutos. Nenhum jogador interrompeu.
Nenhum jogador saiu. Nenhum jogador olhou para o relógio que estava pendurado na parede por cima da porta do chuveiro. Um relógio redondo em plástico branco com ponteiros pretos que marcava 10,35. Ninguém olhou porque ninguém queria saber a hora. A hora não importava. O que importava estava ali a acontecer naquele retângulo de betão entre aqueles bancos de madeira, sob aqueles lâmpadas fluorescentes que zumbiam como se estivessem a acompanhar a frequência de algo que ultrapassava a eletricidade.
Quando chegou ao fim, Pelé baixou o tom de voz quase até ao sussurro. Não precisava de falar alto. O vestiário era suficientemente pequeno para que cada respiração fosse audível. Aos jogadores nas extremidades dos bancos inclinaram o corpo ligeiramente para a frente, não conscientemente, não de propósito, mas porque o corpo responde ao som que diminui, aproximando-se da fonte como uma planta inclina-se para a luz.
A última coisa que Pelé disse não foi uma frase motivacional, não foi um grito de guerra, não foi uma promessa de vitória, nem uma ameaça de consequência. Foi uma frase curta, direta, dita num tom que estava entre a afirmação e a advertência, uma sentença que continha, ao mesmo tempo, uma declaração sobre quem eram e uma descrição precisa do que aconteceria se não estivessem à altura daquele momento, não do que aconteceria ao marcador, não do que aconteceria à classificação, do que lhes aconteceria, a cada um
deles, ao que carregariam pelo do resto da vida. A sentença durou menos de 10 segundos. A e quando terminou, o silêncio que se instalou no balneário era tão completo que se ouvia a água pingando num cano atrás da parede do chuveiro. Um pingo a cada três ou 4 segundos. Um som que antes era invisível, coberto pelas vozes e pelo zumbido e pela respiração coletiva, e que agora preenchia o balneário como se fosse a única coisa que existia.
Pelé ficou de pé por mais alguns segundos, não olhou para ninguém, olhou para o chão de cimento cinzento, para um ponto entre os próprios pés descalços, como se verificasse se tinha dito tudo o que precisava de dizer, e confirmasse que sim, que não faltava nada, que a conta estava feita.
Depois caminhou até à porta e saiu sem olhar para trás. Os seus pés descalços faziam um som suave no corredor de betão que conduzia ao túnel dos jogadores e depois o som desapareceu. A Carlos Alberto foi o segundo a sair. Desencostou da parede ao lado da porta, descruzou os braços lentamente, olhou para os jogadores que restavam no balneário e saiu sem dizer nada. Depois, Gerson.
Gerson apagou o cigarro no banco de madeira, levantou com a calma de sempre e saiu arrastando os chinelos no cimento com um barulho que ecoou no corredor vazio. Depois os outros, um a um, a intervalos de segundos que pareceram minutos, como homens a sair de uma missa que não precisava de padre. Cada um levantava, caminhava até à porta e desaparecia no corredor, sem dizer nada ao que ficava.
Clodoaldo foi o penúltimo a sair. Levantou-se do banco com as pernas que pareciam mais pesadas do que quando sentou. caminhou até à porta e parou no batente por um segundo, olhando para trás, para o balneário vazio, para os bancos de madeira, para as marcas de cigarro, para a poça de humidade no canto, para as lâmpadas que continuavam zumbindo como se nada tivesse acontecido.
Depois saiu o Tostão foi o último. ficou sentado sozinho durante quase 2 minutos depois de todos saírem, olhando para o chão, pensando em algo que nunca contou a ninguém. Depois levantou-se, desligou a luz do balneário e saiu às escuras. O regresso ao hotel foi feito no mesmo esquema da ida. Grupos pequenos, táxis separados, porta lateral.
Os jogadores entraram no hotel em silêncio e foram para os quartos. Ninguém parou no átrio, ninguém pediu um copo de água no bar, ninguém ligou a televisão. O hotel da seleção brasileira ficou em silêncio às 11 da noite, pois se todos tivessem adormecido ao mesmo tempo, mas nenhum deles adormeceu logo. Cada um ficou no seu quarto, processando o que tinha ouvido, a cada um à sua maneira.
Gerson fumou mais três cigarros deitado no escuro antes de adormecer. Carlos Alberto ficou sentado na poltrona do quarto, olhando para a janela até meia-noite. Clodoaldo deitou-se na cama e ficou a olhar para o teto com os olhos abertos durante uma hora, a pensar na mãe a lavar roupa no tanque de cimento em Santos, enquanto estava do outro lado do continente, dentro de um estádio de betão, ouvir o maior jogador do mundo falar sobre ela como se a conhecesse, porque a conhecia.
Pelé voltou ao quarto 214, sentou-se na borda da cama na mesma posição em que estava antes de sair, com os cotovelos nos joelhos e as mãos entrelaçadas na frente do rosto, e ficou assim durante um tempo. Depois deitou-se, puxou o lençol até ao peito e fechou os olhos. Dormiu. Dormiu como um homem que tinha tirado algo de dentro de si que precisava de sair e que agora podia descansar porque o peso tinha sido dividido entre 23 pares de ombros.
A final do Campeonato do Mundo de 1970 teve início às 12 horas do dia 21 de junho no Estádio Azteca, perante 107.412 espectadores. A temperatura era de 28º. O ar rar efeito da altitude fazia com que os pulmões trabalharem mais do que o normal em cada arrancada, em cada sprint, em cada disputa de bola.
O sol estava a pino, sem nuvens, sem piedade, batendo no relvado verde com uma intensidade que fazia tremer o ar acima da erva, como se o campo estivesse em chamas invisíveis. As sombras eram curtas, quase inexistentes, e a luz era tão forte que as camisolas amarelas do Brasil pareciam brilhar como se fossem feitas de outro material.
A Itália entrou em campo com o catenáxio que Valcared tinha prometido na conferência de imprensa. Quatro na defesa com Burgnit a marcar Pelé, Rosato como líbero, Faquete na lateral esquerda. O sistema era uma fortaleza. tinham eliminado o México e a Alemanha com ele. Tinham concedido apenas três golos em cinco jogos. Valcareg acreditava no sistema como um engenheiro acredita numa ponte.
Os cálculos estão certos, os materiais são sólidos, a estrutura vai aguentar. O Brasil entrou com algo que não tinha nome tático. Não era o 424 clássico, não era o 433 que Zagalo tinha ajustado durante o torneio. Era algo que incluía estas formações, mas que as ultrapassava. Era uma urgência silenciosa que nenhuma câmara conseguiu explicar e que nenhum jornalista conseguiu descrever adequadamente nos dias seguintes.
Aos jogadores brasileiros entraram no campo do asteca com uma expressão que não era de confiança nem de tensão, era de resolução. A expressão de homens que já passaram pelo medo, já passaram pela dúvida, já passaram por tudo o que antecede o momento decisivo e que agora estão do outro lado, no lugar onde só resta fazer.
Cada um deles transportava dentro de si o que tinha ouvido na noite anterior. Não como motivação. A motivação é uma coisa que se gasta. O que transportavam era outra coisa. Era convicção transformada em combustível. Pelé marcou o primeiro golo de cabeça aos 18 minutos. O cruzamento veio de Rivelino pela esquerda.
Uma bola alta que cortou a área italiana com uma trajetória curva que se ia afastando do golo. Burgnit acompanhou Pelé na corrida. Os dois subiram ao mesmo tempo. Burgnit posição, tinha o corpo, a tinha a vantagem que o sistema defensivo italiano garantia. Mas Pelé subiu mais alto, não um pouco mais alto, muito mais alto.
Subiu como se a gravidade tivesse decidido por um segundo que não se aplicava àquele homem naquele momento. A cabeçada foi seca, forte, dirigida para baixo, para o canto esquerdo de Albertos que se jogou, mas chegou tarde. A bola bateu no chão antes de entrar na rede e o estádio explodiu. Pelé não gritou. não saiu correndo em desespero.
Levantou o punho direito no ar, um gesto contido, quase sóbrio, que durou dois segundos antes de ser engolido pelos abraços dos companheiros que vieram a correr de todos os lados. Naquele gesto, naqueles 2 segundos, estava tudo. Goodson Park, o aplauso dos ingleses, o joelho de Morais, o avião em silêncio, a promessa de nunca mais a mãe à porta.
ao balneário na noite anterior. Tudo comprimido num punho fechado, levantado contra o céu do México. A Itália empatou aos 37 minutos com um golo de Boninna, que aproveitou uma falha na saída de bola de Clodoaldo. O estádio dividiu-se. Os italianos nas bancadas gritaram. Os brasileiros ficaram em silêncio por um momento, mas dentro de campo nenhum jogador do Brasil entrou em pânico, nenhum rosto mudou, nenhum ombro caiu.
Clodoaldo, que cometeu o erro, olhou para Pelé. Pelé olhou de volta e fez um gesto com a cabeça, um gesto mínimo, quase invisível, que significava segue. Clodoaldo seguiu. No segundo tempo, o O Brasil destruiu a Itália com uma combinação de técnica, velocidade e propósito que o futebol nunca tinha visto junta na mesma intensidade.
Gerson marcou o segundo golo aos 66 minutos, com um remate de canhota de fora da área que atravessou todo o campo visual de Albertos antes de entrar no ângulo. Gerson pontapeou como um homem que sabe exatamente onde a bola vai parar, porque já viu aquele golo mil vezes na própria cabeça. Quando a bola entrou, Gerson apontou para o lado esquerdo do peito com o indicador direito, e não para o escudo da camisa.
para algo por baixo do escudo, algo que não tinha nome, mas que todo o mundo naquele balneário na noite anterior teria reconhecido. Jairzinho fez o terceiro aos 71 minutos, recebendo de Pelé à entrada da área e terminando com o pé direito num ângulo que desafiava a geometria. Era o sétimo jogo consecutivo de Jairzinho, marcando um golo na Copa de 70, um recorde que nunca foi igualado.
Quando a bola entrou, o Jairzinho correu para a lateral com os punhos cerrados e gritou algo que as câmaras não captaram, mas que Gerson, que estava a 10 m, ouviu e sorriu. A única vez que Gerson sorriu nesse jogo. E Carlos Alberto, aos 86 minutos, concluiu a obra. O lance começou com Tostão a receber na intermédio e tocando para Brito.
Brito devolveu a Clodoaldo, que driblou três italianos no meio-coampo com uma sequência de dribles que parecia impossível para um médio-defensivo de 21 anos, jogando a final de um Campeonato do Mundo a 2.240 m de altitude, aos 86 minutos de jogo, Clodoaldo tocou para Rivelino. Rivelino olhou para a bura esquerda.
viu o que queria ver e tocou para o Jairzinho na ponta direita. Jairzinho avançou até à linha de fundo, cruzou o rasteiro para o meio da área e Carlos Alberto apareceu correndo pela direita, vindo de trás, o da posição de lateral, com toda a velocidade que as suas pernas ainda tinham, e bateu de primeira. O remate cruzou a área como um raio horizontal e entrou no canto esquerdo do Albertos com uma violência que fez com que o rede balançar como se tivesse sido atingida por uma rajada de vento.
O gol mais bonito da história das Taças do Mundo. O golo que define o futebol até hoje. Brasil 4, Itália 1. Quando o apito final suou, o Estádio Azteca transformou-se numa coisa que não tinha precedente. 107.000 pessoas de pé. O relvado invadido por adeptos que furaram as barreiras de segurança como se não existissem.
Pelé foi erguido nos ombros, primeiro por Jairzinho, depois por adeptos que nunca tinha visto e nunca mais veria. foi carregado pelo campo como um rei transportado pelo seu povo. A com os braços abertos e o rosto voltado para o céu do México, aquele céu azul sem nuvens que brilhava por cima dele, como se o mundo inteiro estivesse assistindo e aprovando.
O mundo viu os golos, viu a festa, viu a taça Julis Rimé, sendo levantada por Carlos Alberto, enquanto Pelé sorria ao lado com uma expressão que era de alívio tanto quanto de alegria. Viu as imagens em cores que deram a volta ao planeta e que definiram a estética do futebol para as gerações seguintes. Mas não viu o que tinha acontecido na noite anterior.
não viu os 22 homens sentados em bancos de madeira num vestiário em betão. Não viu o Pelé descalço no centro daquela sala. Não viu Gerson a acender o cigarro no silêncio. Não viu o Clodoaldo a baixar a cabeça quando ouviu o nome da mãe. Não viu Tostão sentado sozinho no escuro depois que todos saíram. não ouviu a última frase de menos de 10 segundos que nenhum dos 22 jogadores nunca repetiu por inteiro.
Passaram os anos e aquele balneário do Azteca continuou lá. O estádio foi renovado, ampliado, modernizado. O betão recebeu novas camadas de tinta. Os bancos de madeira foram trocados. As lâmpadas fluorescentes que zumbiam no teto foram substituídas por painéis LED que não fazem barulho nenhum. O cano que pingava atrás da parede foi reparado ou substituído, ou simplesmente deixou de existir nas remodelações que mudaram a planta do local.
Nada do que existe hoje naquele vestiário recorda o que existia naquela noite de 20 de junho de 1970. As paredes são as mesmas, talvez o chão por baixo das camadas de piso novo. Há talvez ainda seja o mesmo cimento cinzento, onde os pés descalços de Pelé ficaram parados durante 20 minutos enquanto dizia coisas que mais ninguém pode repetir com exatidão.
Os homens que estiveram naquela sala foram envelhecendo um a um, como envelhecem todos os homens, transportando consigo as memórias que escolheram guardar e as que não conseguiram esquecer. Alguns deram entrevistas ao longo das décadas e mencionaram aquela noite de passagem, como quem menciona um sonho que teve e do qual se recorda apenas a sensação, e não os detalhes.
Outros nunca falaram. Gerson levou as suas memórias consigo quando partiu. Carlos Alberto levou as dele. Cada um que partiu levou um pedaço dessa noite e os pedaços que restam tornaram-se mais difíceis de juntar com o tempo. E como cacos de um espelho que se partiu e que ninguém tentou colar, porque o reflexo que mostrava era demasiado forte para ser visto de novo por inteiro.
Pelé continuou a jogar depois dessa Taça, regressou ao Santos, continuou a viajar pelo mundo, continuou marcando golos, continuou a carregar o peso de ser quem era num país que precisava dele de formas que iam muito para além do futebol. Continuou a viver com o peso do que disse e do que não disse, das promessas que fez e das que não pôde cumprir, das mães que ficaram à porta e dos filhos que partiram sem saber se voltariam iguais.
Hoje, quando ligamos a televisão e vemos o futebol em alta definição com 10 câmaras e replay imediato e microfones em cada canto do campo e entrevistas no intervalo e análise tática em tempo real. Ah, é fácil esquecer que houve um tempo em que as coisas mais importantes aconteciam em locais que ninguém filmava.
Vestiários em betão com lâmpadas que zumbiam, corredores de hotel com alcatifa gasto, portas que se abriam às 9 da noite para conversas que duravam 15 segundos e mudavam tudo. É fácil esquecer que houve um tempo em que 22 os homens podiam reunir-se na véspera do jogo mais importante do mundo, sem que ninguém soubesse, sem que ninguém filmasse, sem que ninguém contasse, e que o que se passava ali dentro ficava ali dentro.
para sempre, protegido pelo único tipo de sigilo que ainda funcionava naquela época, a palavra de homens que sabiam guardar o que precisava de ser guardado. A história não termina com o resultado de 4 a 1, não termina com a taça levantada, nem com Pelé aos ombros da multidão. termina com 22 homens que voltaram as as suas vidas carregando algo que nunca mais largaram, algo que estava entre o o orgulho e a dor, entre a memória e o esquecimento, entre o que foi dito em voz alta naquele balneário e o que cada um ouviu em silêncio dentro de si.
termina com uma frase de menos de 10 segundos que ninguém repetiu e que ninguém se esqueceu e termina com a certeza de que algumas histórias não precisam ser contadas por inteiro para serem verdadeiras. Basta que alguém saiba que aconteceram. M.