Maguila: O INFERNO Silencioso dos Últimos Anos… 10 Anos Preso Dentro do Próprio Corpo

Lembras-te do Maguila, né? Aquele gigante de sorriso fácil, o homem que ninguém o punha no chão, que entrava na a sua sala nas tardes de domingo e fazia o Brasil inteiro rir. Agora olha para este rosto chorando. É o mesmo homem. E nos últimos anos da sua vida, este gigante acabou preso dentro do próprio corpo, num quarto de clínica, sem conseguir sequer lembrar quem tinha sido.

 10 anos de um inferno silencioso. E isso teve uma causa. Houve uma coisa que destruiu Maguila por dentro, lentamente, golpe a golpe. Uma coisa que tem a ver com o Ring e com os homens que subiram para trocar socos com ele, os mais perigosos do planeta. Hoje vou mostrar-te exatamente o que foi. E quando entender, já não vai conseguir olhar para aquele sorriso do mesmo jeito.

 Eu sei porque é que parou nesse vídeo. Viu esse rosto e recordou uma época. Domingo de tarde, a casa cheia, a televisão ligada, pessoas que talvez já nem esteja cá para sentar-se do seu lado. Então fica comigo baixinho que eu vou contar-te a história deste homem do jeito que a televisão nunca te contou. São seis coisas, seis coisas que quase ninguém sabe sobre o Maguila.

 E há uma delas, a última, que muda o sentido de todas as outras. Essa vou guardar para o final. E quando ela chegar, já não vai conseguir esquecer. Mas começa por aqui. Esse gigante que se via a rir na televisão foi um dia um menino com tanta fome em Aracaju que aos 14 anos largou tudo e tomou sozinho o caminho de São Paulo atrás de trabalho.

 O que o empurrou pro box foi a fome. E que lá na frente vai explicar tudo. que este desporto deu para ele foi muita coisa. Mas o que ele cobrou de volta anos depois em silêncio, é a parte desta história que aperta o peito. Então prepara-te. O seu nome era José Adilson Rodrigues dos Santos. Nasceu em Aracaju, Sergipe, a 11 de junho de 1928.

Filho de um estivador analfabeto, daqueles que carregavam o peso dos navios às costas por quase nada. Mas o O Brasil nunca lhe chamou José. O Brasil chamou-lhe Maguila. Aracacu, nos anos 50 era a cidade de mar, de sol forte e de pouca coisa dentro de casa. O O pai do José Adilson trabalhava no CIS e voltava todos os dias gastando corpo por um dinheiro que mal dava para comer.

 A casa era cheia de filho e curta de comida. E o menino aprendeu cedo o que é a fome de verdade. A fome física, aquele aperto na boca do estômago que acompanha a criança na escola na rua, e que não a deixa dormir. Naquela casa não havia nada que lembrasse ring, glória ou plateia. Tinha um menino demasiado grande paraa idade, num lugar demasiado pequeno para os sonhos dele.

 E aqui vem a primeira coisa que eu te prometi. O gigante que todo o Brasil via a rir na televisão, o homem que parecia ter nascido para fazer graça, carregava por baixo daquele sorriso uma história de verdadeira miséria. aos 14 anos, uma idade em que hoje um rapaz está na escola a jogar à bola.

 O José Adilson fez uma escolha que nenhuma criança devia ter de fazer. Largou Aracaju, largou tudo o que conhecia e pegou no caminho de São Paulo. Sozinho, 14 anos e sem mão para segurar. O trabalho que ele achou foi o mais pesado que existe, a construção civil. O menino que mais tarde ia derrubar campeões do mundo começou a vida a carregar saco de cimento nas costas, debaixo do sol de São Paulo, por um troco que mal enchia a barriga. Imagina a cena.

 Um adolescente recém-chegado do Nordeste, sem ninguém, com o corpo a doer ao fim do dia e a cabeça já a pensar no dia seguinte. E era apenas um rapaz, [ressonando] Janet, longe da mãe, longe dos irmãos, sem um amigo de infância por perto para partilhar o medo. São Paulo era enorme, cinzento, barulhenta, cheia de gente apressada demais para reparar no rapaz do Nordeste carregando tijolo numa obra.

 De dia, o peso do cimento nas costas, de noite, o cansaço e o silêncio de um quarto qualquer daqueles dividido com outros homens na mesma situação. E foi mais ou menos aí, sozinho, numa cidade que não era dele. E o José Adilson aprendeu a lição que ia carregar para a vida inteira. Para sobreviver, teria de ser mais forte que a fome, mais forte que o medo, mais forte do que a saudade de casa.

 O corpo já era grande. Foi a vida que ensinou-lhe a usar esse corpo como arma. Para este menino, o box começou por ser sobrevivência pura. bater para comer, subir para um ringue, porque a alternativa era o cimento, a obra, a barriga vazia. Sonho de glória veio muito depois. No início era só a necessidade empurrando.

E essa decisão a de trocar o próprio corpo por alimento e é voltar a assombrar o Maguila 50 anos depois de um forma que ninguém naquela obra poderia imaginar. Guarda isso lá na frente vai fazer todo o sentido. Foi numa academia de bairro que olharam para aquele rapaz e viram um tamanho diferente. Os ombros largos, as mãos enormes, uma força que parecia não ter fundo.

 No início, ele batia num saco de areia para descontar o cansaço da obra. Mas quem a entendia de box percebeu logo: “Aquele rapaz tinha um peso na mão que não se ensina. Já nasce com a pessoa ou não nasce? Os primeiros combates amadores vieram e com eles o primeiro sim da vida do José Adilson, que não se fez acompanhar de sofrimento.

 Ele ganhava e ganhava rápido, subia, encarava e em poucos assaltos o adversário estava no chão. O nome dele começou a correr de boca em boca no box de São Paulo. E foi aí que nasceu o apelido que o Brasil nunca mais esqueceu. Por causa do tamanho da força do jeitão, alguém o comparou com um borila grandalhão de desenho animado chamado Maguila.

 Apanhou o José Adilson de Aracaju, foi ficando para trás e de pé sobrou uma guila. quando se tornou profissional em 1993, já era um nome que o box brasileiro começava a repetir. E o engraçado é que o Maguila nunca foi o lutador mais técnico do mundo. O seu triunfo era a força bruta de derrubar parede, somada a uma vontade que vinha lá da fome.

 quando subia para o ringue, carregava junto uma certeza que o adversário em geral não tinha, a de que cada vitória era um passo a mais para longe da miséria. Isso dava ele uma fome de vencer fora do comum. O outro podia ser mais treinado, mais elegante de movimento. Raramente queria ganhar tanto como aquele rapaz de Aracaju.

 Nesse mesmo ano, conquistou o título brasileiro de pesos pesados. No ano seguinte, em 1984, foi mais longe no Colou argentino Juan Antonio Figueroa e arrecadou o título sul-americano. As vitórias surgiam em sequência, quase sempre da mesma forma, pelo nocout, rápido, antes que o outro compreendesse o que tinha acontecido.

 as 85 lutas que faria na vida, 61 terminariam com o adversário no chão, 43 delas antes do quinto assalto. Esse era o tamanho da força que vivia nas mãos do espão de obra. Mas é aqui, Janette, que eu preciso de plantar uma coisa na tua cabeça. Cada vez que o Maguila acertava aquele murro e o público explodia, ninguém pensava no preço daquilo.

Ninguém pensava no que cada golpe, os que ele dava e mais ainda os que ele levava tava a fazer em silêncio lá dentro da cabeça dele. O box tem uma conta, uma conta que demora décadas a chegar. A do Maguila começou a ser escrita soco a soco nestes primeiros anos de glória dos anos 80. E ninguém ia ler essa conta antes de 2010.

 Tem um homem que precisa de conhecer para perceber o tamanho que o Maguila chegou a ter. Luciano do Vale, locutor, empresário. Uma das maiores vozes que o desporto brasileiro já teve. Foi o O Luciano que olhou para o Maguila e viu ali um espetáculo de televisão. E foi ele que levou as lutas do gigante a dentro da sua casa.

 Janette nas tardes de domingo num programa que parava o país, O espectáculo do desporto na Bandeirantes. Aconteceu uma coisa rara. O box, que sempre foi desporto de poucos no Brasil, tornou-se um assunto de família. A avó, o neto, o marido na poltrona, todos paravam o domingo para ver o Maguila combater. A luta enchia o olho, mas o que fazia o Brasil voltar todas as semanas era o personagem, aquele gigante de bem com a vida, que sorria antes de bater, que dava uma entrevista engraçada, que tinha jeito de gente simples dentro de um

corpo descomunal. O país apaixonou-se e quando subia para o ringue e nocauteava o adversário em poucos assaltos, a sua sala explodia juntamente com a multidão. E e queria que te lembrasses como era aquilo. Naquele tempo, sem internet, sem telemóvel, com poucos canais para escolher, toda a família se juntava no domingo de tarde em frente a uma televisão só.

 Quando entrava o box do Maguila, a casa parava. O pai largava o jornal, a criança sentava-se no chão, a avó dava palpites da poltrona e quando o gigante acertava aquele soco e o adversário ia ao chão, toda a rua gritava junto, de janela em janela, como se o Brasil tivesse marcado um golo. O Magdila tornou-se parte da memória de domingo de milhões de famílias brasileiras.

 Parte da sua, quem sabe? É por isso é que doer agora dói tanto. A gente não está a falar de um estranho, está falando de alguém que se sentava na sua sala. Veio tudo o que vem atrás da fama, o dinheiro que o menino faminto de Aracaju nunca tinha sonhado ver. O Maggila tornou-se um dos rostos mais conhecidos da televisão brasileira.

 E o que conquistou o país foi muito para além dos murros, a graça dele. Tornou-se figura constante de auditório e de humor. Fez até um quadro de comentador de economia de brincadeira no aqui agora da SBT e marcou presença no concerto do Tom, na Record. E o povo adorava aquilo porque o Maguila não tinha frescuras nenhumas.

 Era um gigante que falava mal de propósito para fazer graça, que se ria de si próprio, que tratava o porteiro e o apresentador da mesma forma. Num país cheio de gente com pose. Uma guila chegava simples, espontâneo, do mesmo jeito no palco e na fila do pão. A Janete gostava dele pelos murros. Claro, mas gostava ainda mais porque o Maguilá parecia gente da sua própria casa.

 O peão de obra andava agora rodeado de câmara, de gente de aplauso. E uma mulher entrou nesta história para cuidar do que o Maguila sozinho. Talvez não soubesse cuidar. a esposa Irane Pinheiro, que assumiu a sua carreira e principalmente as finanças, guarda esse nome também. A Irane vai ser importante demais lá à frente.

 E aqui vem a segunda coisa que te prometi, o tamanho exato da glória deste homem. É fácil dizer, foi famoso. Eu quero que sinta o tamanho. Foram 85 combates como profissional. 77 vitórias, 61 por knockout. Sete derrotas em 17 anos de carreira. Em agosto de 1987, no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, o Magila fez uma das maiores vitórias da vida dele.

 Bateu o norte-americano James Smith, o quebra ossos, um antigo campeão mundial, numa decisão por pontos que foi muito discutida na época. Foi uma noite e tanto. O Smith era americano ex-campeão mundial, um peso pesado temido no mundo inteiro. E Ibi Birapu estava lotado. Com o Brasil a torcer como se fosse uma final de taça, o Maguila aguentou 10 assaltos de pé e levou a decisão dos juízes.

 Muita gente discordou do resultado na altura e o assunto rendeu discussão durante semanas. Mas para o Brasil, nessa noite, o placar era pormenor. O nosso gigante tinha enfrentou um campeão dos Estados Unidos e saído de cabeça erguida era o tipo de vitória que fazia adormecer o país inteiro mais orgulhoso de ser brasileiro.

 E o ponto mais alto de todos surgiu a 22 de Agosto de 1095, na cidade de Osasco aos 37 anos. Numa idade em que muito lutador já tinha pendurado as luvas, o Magla venceu o inglês Johnny Nelson e fez história. Tornou-se o primeiro brasileiro campeão mundial de pesos pesados. para um segundo e pensa nisso.

 Um menino que aos 14 anos carregava cimento numa obra com fome, sem ninguém no mundo, chegou a primeiro brasileiro campeão do mundo na categoria mais nobre da box, a dos pesos pesados. A categoria de Muhamad, de Mike Tyson era o homem que ninguém derrubava. Eu peço-te para guardar essa frase porque ela vai voltar.

 O homem que ninguém derrubava já estava a ser derrubado por dentro, golpe a golpe, enquanto o Brasil aplaudia de pé. Foi no meio de toda essa glória que a tal conta começou a ser cobrada numa moeda que ninguém conseguia ver. Lembra-se do preço que eu te disse lá atrás? O preço que o box guarda em silêncio, cada combate, cada murro recebido na cabeça, ia deixando uma marca invisível num local que a medicina daquela época mal entendia. Ninguém ligava os pontos.

 Como é que um homem daquele tamanho, daquela força, daquela alegria, podia estar sendo destruído por dentro precisamente pelo que o fazia ganhar. Não fazia sentido para ninguém e foi por isso que ninguém viu. Por fora, a vida do Maguila nos anos 90 parecia um conto de fadas do interior. o campeão do mundo, o queridinho da televisão, o homem que tinha saído da miséria absoluta e agora dava entrevistas a rir, ganhava dinheiro, sustentava toda a família.

 Quem olhava de fora havia um vencedor, um sujeito que tinha ganho a lotaria da vida. O que ninguém via, nem ele próprio, é que o relógio já estava a correr. Cada soco que tinha feito dele um campeão era também uma fenda num local que não tem conserto, a cabeça. Para que possa entender a fratura desta história, preciso de te levar para bem longe do Brasil, para Las Vegas, para as noites em que uma águila atravessou o oceano para enfrentar as lendas da box mundial.

 Os homens mais perigosos do planeta, bem maiores do que qualquer adversário que já tinha enfrentado aqui. Houve uma fase em que o Brasil sonhou demasiado alto. sonhou ver o gigante invencível derrubando os monstros americanos. Eu, Maguila topô, subiu no ringue contra dois dos maiores pesos pesados da história. O que aconteceu nessas noites? A televisão mostrou a todo mundo.

 O que estava por trás daquilo ninguém percebeu na hora. E antes de eu continuar, faz uma coisa por mim. Se esta história já tá a meter-se contigo, deixa o teu like aqui por baixo e inscreve-se no canal. Faz isso pelo Maguila para que mais gente que cresceu a vê-lo na televisão ache esse vídeo e lembre-o do jeito certo.

 Tá feito? Então vem comigo porque agora aperta. Primeiro veio o Evander Hoollyfield, um dos maiores pesos pesados que já pisaram um ringue que ainda ia tornar-se campeão mundial absoluto. O Maguila encarou-o e foi nocouteado de uma forma brutal. No segundo assalto, o gigante que o Brasil achava indestrutível caiu perante o mundo e não se ficou por aí.

 Em 16 de julho de 1990, no César Palace em Las Vegas, na preliminar de uma noite que tinha Mike Tyson no car principal, uma águila com 32 anos subiu para defrontar George Forman de 41. Forman, antigo campeão do mundo, uma das maiores forças que o box já viu. Imagina o tamanho daquela noite pró Maguila.

 Las Vegas, a capital mundial da box, as luzes, as câmaras do planeta inteiro, um ginásio cheio de pessoas que nunca tinham ouvido falar de um peso pesado brasileiro. Tem um lado do ring, o rapaz que tinha saído da fome de Aracaju carregando cimento. Do outro, George Forman, um nome gravado na história do desporto.

 O Brasil parou na frente da televisão de novo, igual aos domingos de antigamente, mas agora com o coração na mão, rezando para que o impossível acontecesse. Agora preciso de te contar a terceira coisa que te prometi. E ela tem duas camadas, Janete. A primeira você consegue ver. A segunda ninguém viu na hora. A que consegue ver é esta.

Nessa noite em Las Vegas, perante o mundo, o Maguila caiu. Forman nocouteou ele no segundo assalto e o Brasil, que via tudo através do ecrã do SBT, sentiu no peito o gigante de domingo à tarde. O homem que ninguém punha no chão estava ali caído do outro lado do planeta, derrubado por uma lenda americana.

 Duas vezes o nosso campeão tinha batido de frente com o topo do mundo e duas vezes o topo do mundo mostrou que ele era de carne e osso, como qualquer pessoa. Muita as pessoas naquela altura achavam que era o fim da linha para o Maguila, Perder para Hollyfield e para Foreman. Os dois no segundo assalto parecia o recado do destino de que o brasileiro não pertencia àquela primeira equipa mundial.

 Mas o Máguila não pendurou as luvas ali, voltou para o Brasil, voltou a treinar, voltou a ganhar e anos mais tarde, já com 37, ainda teve forças para erguer um cinturão mundial. O que ninguém percebeu é que cada vez que voltava pro ring, depois de mais uma pancada, o conta lá no cérebro dele só aumentava a derrota no ringue.

 Porém, é apenas a superfície desta história. A fratura de verdade está numa camada que ninguém viu na época. Cada um daqueles murros que o Maguila levou na cabeça em Las Vegas, em cada um dos outros combates, dos amadores aos profissionais, tava escrevendo uma frase lá dentro do cérebro dele, uma frase em letra miúda invisível, que ia demorar décadas para ser lida.

 E quando fosse lida, ia apagar tudo, a memória, as palavras, o sorriso, até o próprio nome. E é por isto que tudo o que admirava nesse homem muda de sentido. Agora, aquele aplauso que dava a cada nocout, o aplauso da sua sala, da minha, do Brasil inteiro, era o mesmo tempo, sem ninguém saber o som do princípio do fim dele. A glória e a doença nasceram do mesmo golpe.

 Já parou para pensar nisso? Que a coisa que faz um homem ser amado pode ser exatamente a coisa que destrói ele por dentro? O Maguila entregou o seu próprio cérebro em troca do nosso carinho e ninguém sabia o dimensão dessa conta. Nem ele, nem a adeptos, nem a televisão. É a partir daqui, destas pancadas que o Brasil festejou, que começa a nascer o Maguila dos últimos anos, o homem preso dentro do próprio corpo.

 E quem estava do lado dele em todas estas viagens, em todas as estas noites, era a Irane, a esposa que tornou-se empresária, que cuidava do dinheiro, que organizava a vida do gigante. A mulher que ia ver anos depois, o homem com quem construiu tudo começar a apagar-se mesmo à frente dela. devagarzinho. Era como se ela já carregasse calada o pressentimento de que cuidar daquele homem seria a missão da vida dela.

 E foi mais ou menos quando o Brasil pensava que já conhecia a toda a história do Maguila, o auge, as derrotas gloriosas, a reforma de um campeão que veio a notícia que mudou tudo. notícia que ninguém, nem no pior pesadelo, esperava ouvir sobre aquele gigante alegre. Para chegar até ela, eu preciso primeiro de te levar para o período mais escuro desta história.

 O fundo do poço. Vem comigo. Quando um mutador pendura as luvas, o silêncio começa a entrar em tudo. Primeiro no ringue, depois na agenda, depois na casa. O Maguila se reformou-se no ano 2000 depois de 17 anos de carreira e foi sentindo isso na pele. As manchetes diminuíram, os convites rarearam, o telefone que antes não parava foi tocando menos a casa que vivia cheia de assessor e de jornalista.

foi ficando mais quieta. E para um homem que viveu toda a vida dentro do aplauso, o silêncio assusta. Sem o Anel, o Maguila tentou de tudo para continuar perto do Brasil, que o amava. Apareceu num programa de auditório, fez graça em quadro de humor. Em 2009, já com mais de 50 anos, até lançou um disco de samba.

 O vida de campeão, com direito a uma regravação de Deixa a vida levar-me do Zéca Pagodinho. Em 2010, tentou a política, candidatou-se a deputado federal e teve aí menos de 3.000 votos no fim da lista, longe de qualquer chance. Cada uma destas tentativas era o mesmo homem dizendo à sua maneira uma coisa só. Por favor, não te esqueças de mim.

Mas o Brasil tinha uma novidade nova para ver toda a semana e foi esquecendo um pouquinho a cada ano. E essa é uma dor que pouca gente fala, mas que a Janete conhece. A dor de ter sido importante e de ir tornando-se invisível. O Maguila tinha enchido o ginásio, tinha parado o país, tinha sido capa de revista.

 Agora era o senhor grande que muita gente nova olhava sem reconhecer. O mundo girou, chegou gente nova à televisão e o gigante de domingo de tarde foi-se tornando assunto de se lembra dele? Doía. doaá mais do que qualquer murro que ele já tinha levado no ringue. E aqui preciso que guarde uma coisa, porque ela vai voltar no final deste vídeo e quando voltar vai arrepiar-te.

 O Maguila vivia da palavra, da piada, da história bem contada, daquela maneira de falar que fazia rir o Brasil. Depois de as mãos deixaram de lutar, a voz e o riso viraram-se a ferramenta dele. Guarda isso? A palavra era o que tinha sobrado para o Maguila, porque a doença que já caminhava calada lá dentro da cabeça dele ia visar exatamente nisso, no silêncio que ia cair sobre o homem mais ruidoso da televisão brasileira.

 Mas isto é o final. A gente ainda não chegou lá. Por enquanto, o que tem é um homem grande numa casa mais sossegada, lidando com uma coisa que ele nem sequer tinha nome para dar. As pequenas confusões do dia a dia, a palavra que desaparecia bem na hora de usar, o nome que escapava, a história que começava a contar, e no meio dela perdia o fio.

 No início dava para disfarçar com uma piada. E disfarçava porque era bom nisso. Mas quem com ele convivia dentro de casa ia percebendo tinha alguma coisa diferente, alguma coisa mais funda do que a idade a chegar. E é aqui que a gente vê quem fica e quem desaparece. Aquela multidão de domingo à tarde, a claque que gritava o seu nome no concerto do desporto, essa já não estava por perto nos dias difíceis.

 Ninguém aplaude o campeão quando se esquece onde guardou as chaves. Quem ficou foi a Irane, lembra-se dela? E os filhos? A família que o Maguila sustentou toda a vida começava devagarinho a ter de cuidar dele. O homem mais forte do Brasil ia necessitar de cuidados. E ainda ninguém dizia-o em voz alta. E tem um momento dessa época que resume o Maguila inteiro.

 Em 2012, num programa de televisão, com a doença já a avançar dentro dele, perguntaram sobre a luta dos sonhos que nunca conseguiu fazer contra o Mike Tyson, o homem mais temido do box. Eu, Magila, com aquele humor que era a sua alma, respondeu: “Queria lutar com ele, pedi para marcar. Só que cada vez que agendávamos, ele era preso. Pára, escuta de novo.

 Esse era o Maguilá. Com a memória já a começar a falhar, com as palavras a começarem já a desaparecer, o seu instinto ainda era fazer rir. O dom estava ali intacto à frente das câmaras. Foi uma das últimas vezes que o Brasil viu aquele homem por inteiro. E é por isso que dói tanto saber o que veio a seguir.

 E esse fundo do poço tinha um sabor diferente de todos os os outros que o Maguila já tinha provado. A miséria da infância doía de um jeito. A derrota em Las Vegas de outro. O que vinha agora era mais cruel que os dois. Um homem ainda vivo, ainda sorrindo em frente da câmara, enquanto por dentro alguma coisa ia apagando lentamente tudo o que o fazia ser ele, e ninguém tinha ainda uma palavra para dar a esse inimigo.

 Até ao dia em que os médicos abriram a boca e disseram um nome. E aqui vem a quarta coisa que eu prometi-te, o dia em que tudo mudou. Foi por volta de 2010 que os médicos finalmente puseram um nome no que estava acontecendo com Maguila e o primeiro nome que deram foi errado. Disseram que era doença de Alzheimer. A família se agarrou nesse nome.

 Tentou compreender, tentou cuidar. Com o tempo veio o verdadeiro diagnóstico e ele era ainda mais cruel porque tinha uma origem. O magila tinha demência pugilística, encefalopatia traumática crónica. Em português. Claro, Janette era o box. eram os milhares de murros que aquela cabeça levou em 17 anos de carreira, cobrando a conta com juros, uma doença que não tem cura, que não tem volta e que vai lentamente apagando a pessoa de dentro para fora.

 Deixa-me te explicar o que é esta doença, Janete. Porque é importante para si sentir o dimensão do que aconteceu. Toda vez que um lutador leva um forte golpe na cabeça, o cérebro balança lá dentro do crâno, batendo nas paredes do osso. Um golpe, o corpo aguenta. Dois, tr, ele se recupera. Mas milhares de golpes, ao longo de quase 20 anos de carreira, vão deixando um estrago que não aparece por fora e que não há volta a dar.

 Os os médicos têm um nome para isso. Demência pugilística ou encefalopatia traumática crónica. A mesma família de lesão que marcou outros grandes nomes da box mundo. Aa é uma lesão física no cérebro causada pela repetição dos golpes. O Maguila adoeceu porque foi campeão. Essa é a parte que não cabe na cabeça da gente.

 E a consequência foi a mais perversa que se podia imaginar para esse homem em especial. Pensa comigo, o Box já tinha cobrado o corpo dele anos antes. Agora a doença vinha tirar a última coisa que tinha sobrado. Porque o Maguila, depois dos ringues, vivia de quê? da palavra, do carisma, da memória das histórias que contava, do humor que fazia o Brasil rir.

 E a demência pugilística mira justamente aí, na memória, na fala, no jeito de ser. A doença foi tirando as lembranças do Maguila e depois começou a tirar o próprio Maguila, o homem que vivia de falar foi pouco a pouco sendo emudecido por dentro. Para um instante comigo aqui, não tem o que dizer agora. Imagina o gigante que entrava na sua sala todo domingo, o homem que ninguém derrubava.

aquele sorriso enorme. Agora pensa nele sentado numa cadeira, num quarto silencioso, procurando uma palavra simples que não vem, tentando reconhecer um rosto que ele devia conhecer. A casa quieta, o tempo passando devagar, deixa essa imagem ficar um pouco aí. Foi assim, longe das câmeras que o Maguila passou a viver, sem plateia.

 sem aplauso. Só ele e uma doença que não fazia barulho nenhum. E você talvez se pergunte como ninguém viu isso chegando? Como é que o Brasil inteiro torceu por aquele homem? Aplaudiu cada nocout e ninguém parou para pensar no preço. A resposta é simples e é dura. Na época em que o Maguila lutava, quase ninguém falava disso.

 O mundo do box sabia que pancada na cabeça fazia mal, mas ninguém média o tamanho do estrago. O máguila acabou virando um dos rostos que ensinaram o Brasil a entender essa doença, pagando com a própria mente pela lição. Quando a notícia começou a aparecer, o Brasil reagiu do jeito que reage com quem ama, com surpresa, com tristeza e com aquele aperto de quem percebe tarde demais que tinha esquecido de alguém.

 De repente, o país lembrou do Maguila. Lembrou bem na hora em que o gigante já estava diferente. É dentro de casa. A Irane e os filhos enfrentavam a parte que não aparece na televisão, o dia a dia de cuidar de um homem enorme que ia precisando de mais ajuda a cada mês que passava. E essa é uma das partes mais pesadas dessa história, Janete.

Porque quem cuida também sofre calado. A Iran. Os filhos viam todo dia o homem, que tinha sido o mais forte do Brasil, precisar de ajuda para coisas que antes fazia sozinho. Viam o brilho daquele olhar ir ficando mais distante e precisavam ser fortes, sorrir, dar bom dia, mesmo sabendo que cada dia trazia um pedacinho a menos de uma guila que eles conheciam.

 Não tem manual para isso e ninguém se prepara para ver alguém que ama desaparecer devagar sem ir embora, antes da última parte dessa história que é a mais forte de todas. Deixa eu te pedir uma coisa, se você tá sentindo isso aqui comigo, comenta aqui embaixo o nome de uma pessoa com quem você assistiu Magla Mutar. Pode ser quem já se foi, pode ser quem ainda tá do seu lado.

 Faz isso por ele e se inscreve no canal, porque o que vem agora é o que muda tudo. E tem uma coisa que continuou acontecendo. Mesmo com o Magila já doente, as imagens antigas dele ainda passavam de vez em quando na televisão. Maguila, jovem, forte, sorrindo, noca adversário sob aplausos. O Brasil ainda havia aquele homem na tela, só que aquele homem na vida real deixado de existir.

 E é para esses últimos anos os de verdade que eu vou te levar agora. Mesmo com o diagnóstico, uma águila não sumiu de uma vez. A família e os amigos tentaram, enquanto deu, manter ele perto da vida que ele amava. De vez em quando aparecia um convite, uma homenagem, um evento de box e lá ia o Maguila ainda sorrindo, ainda tentando ser aquele homem que o Brasil conhecia.

 Quem olhava de perto via a diferença. O sorriso continuava, mas por trás dele já tinha menos do Maguila ali. As respostas vinham mais devagar. O olhar às vezes se perdia. Era como se ele estivesse cada vez mais longe, mesmo estando bem na sua frente. Como o tempo, as aparições foram ficando raras. A família, com razão, passou a proteger o Maguila das câmeras.

 Tem uma crueldade especial em ver um homem que viveu de imagem ser exposto justo quando já não controla mais a própria imagem. Então o Brasil foi vendo cada vez menos uma guila, quanto menos via, mais ele virava a lembrança. Aquele gigante alegre congelado no tempo, parado para sempre na melhor versão dele. Nos domingos de tarde, o país foi percebendo a gravidade de um jeito calado, sem manchete e sem escândalo.

 Foi naquele jeito com que a gente percebe que um parente querido envelheceu. De repente, numa foto, num vídeo, você vê e o peito aperta. As pessoas viam uma guila numa aparição e ficavam quietas. Aquele gigante que fazia toda a gente gargalhar dava agora era uma vontade de chorar e ninguém sabia bem o que dizer. Foi mais ou menos aí que o Brasil fez o que o Brasil costuma fazer. começou a dar valor.

Quando viu que o Maguila estava a se apagando, o país lembrou-se de tudo o que ele tinha sido. Lembra-o dos domingos, das risos, do orgulho de ter tido um campeão mundial de pesos pesados saiu da pobreza do Nordeste. O carinho que tinha arrefecido nos anos de esquecimento voltou morno, atrasado, mas voltou.

 A gente se lembra do tamanho dos nossos ídolos mesmo na altura em que já estão indo embora. Começaram a aparecer as homenagens, programas recordando as lutas dele, gente do desporto falando com respeito do que o Maguila tinha representado para a box brasileiro. Vídeos antigos a tornarem-se virais, com milhares de comentários de pessoas emocionada lembrando os domingos de infância.

 O Brasil estava, da forma atrapalhado e tardio de sempre, tentando devolver ao Maguila um pouco do carinho que tinha dado ao país inteiro. Pena que a essa altura já não tinha mais como receber esse carinho da forma que merecia. O caso do Maguila tinha companhia triste no mundo da box. O desporto guarda uma lista de campeões que pagaram caro lá à frente pelas pancadas que levaram.

 Grandes nomes lendas mundiais que terminaram a vida marcados no corpo e na cabeça pelo que fizeram no anel. O Maguila entrou para esta lista da forma mais dolorosa de todas, como o gigante brasileiro que o país viu adoecer quase em tempo real. E tem uma parte do seu legado que pouca gente conhece, mas que diz tudo sobre quem ele era por dentro.

Lembra-se do menino faminto de Aracagu? Pois aquele menino, quando ficou rico e famoso, não se esqueceu de onde tinha vindo. O Maguila criou uma ONG Amanhã melhor para ensinar box a crianças e jovens pobres, crianças como ele tinha sido. Ele pegou na única coisa que tinha tirou-o da miséria, o box, e tentou usar isso para tirar outras crianças da mesma fome que conheceu.

 Esse era o Maguila que as câmaras nem sempre mostravam. Um homem que tendo tido tão pouco no início, passou a vida a querer dar. E depois vem a quinta coisa que eu te prometi. A Q ficou sem solução e ela tem a ver precisamente com isso, com o tamanho do coração desse homem e com o preço que esse coração cobrou-lhe.

 O Maguila não deu apenas a crianças desconhecidas, deu para todos ao redor. Quando o dinheiro começou a entrar, o rapaz que tinha passado fome quis garantir que ninguém da sua família passasse nunca mais. Sustentou irmão, sustentou tio, sustentou sobrinho, comprou presente, abriu a mão, espalhou a fortuna que tinha suado para ganhar.

 Boa parte das economias que a Irane tinha juntado com cuidados ao longo dos anos. foi embora assim, em presente, em ajuda, em generosidade para toda a família. E tem uma coisa bonita e triste ao mesmo tempo nesta generosidade toda. O Maguila ajudava porque sabia na pele o que era não ter. Cada presente que ele dava, cada conta de um familiar que pagava era o menino de Aracaju, garantindo que ninguém perto dele ia sentir a fome que ele sentiu.

 Para ele, dar tornou-se um maneira de amar. E à Janete, que também já cuidou da família toda a vida, compreende isto sem precisar de explicação. E é aqui que mora a parte que aperta. Pensa no tamanho disso, Janete. O homem que foi campeão do mundo, o homem que ganhou rios de dinheiro com o próprio corpo. O homem que sustentou meio mundo.

 Esse homem terminou a vida a precisar que cuidassem dele, necessitando de ajuda para as coisas mais simples, dependendo do cuidado dos outros. Ele que tinha passado a vida inteira a cuidar de todos. Não houve roubo nesta história, nemum vilão para culpar. O que aconteceu com Maguila foi mais humano e mais triste.

 Deu o corpo ao desporto e o dinheiro à família. E no fim sobrou para ele a conta inteira, a fragilidade, a dependência, o silêncio de quem um dia mandou em tudo. Para, deixa isso assentar por um segundo. Um homem que deu tudo e que no fim precisou que tudo voltasse para ele. E pode se perguntar, será que se arrependia? Será que nos momentos em que ainda pensava com clareza, olhava para trás e achava que tinha dado demais? Ninguém pode responder a isso por ele.

 O que a gente sabe é que o Maguila nunca foi homem de se queixar da vida. Foi homem de sorrir, de fazer graça, de seguir em frente. E talvez tenha sido esse o último presente que deu a todo o mundo, o de nunca pesar a mão sobre quem ajudou, nem mesmo quando os papéis se inverteram e foi ele que passou a precisar.

 E foi com tudo isto nas costas, a doença a avançar, o dinheiro curto, a fama virada em saudade que o Maguila entrou nos últimos anos de vida dele. Os anos que dão título a este vídeo, os anos do inferno silencioso. É para lá que nós vamos agora e é lá que está a sexta coisa que te prometi. A que muda tudo. A partir de 2017, o Maguila passou a viver numa clínica na cidade de Ito, no interior de São Paulo.

Já não era possível cuidar dele só dentro de casa. A doença tinha avançado ao ponto dele necessitar de acompanhamento médico todos os dias o tempo inteiro, 24 horas. E aqui, Janete, que te peço para respirar fundo, porque essa é a parte que dá nome a este vídeo. Os últimos anos do Maguila, o inferno silencioso.

E eu chamo-lhe silencioso de propósito. Este inferno passava-se todo por dentro, sem grito e sem público. Por fora era só um homem grande, quieto, sentado numa cadeira. Por dentro, a doença ia desligando, um a um, os interruptores que faziam dele quem ele era. O que a doença foi fazendo com ele está registado. E cada item é uma facada.

Quando se lembra de quem era uma guila, a memória que já vinha falhando foi-se apagando mais. A fala, a fala, Janete, que era a ferramenta mais preciosa que lhe tinha sobrado. Foi tornando-se cada vez mais difícil até quase sumir. A coordenação daquele corpo de gigante foi-se perdendo. a confusão, a dificuldade de reconhecer pessoas e lugares, as dores de cabeça que não davam trégoa, dias de uma tristeza funda.

 Mungu ali estava maltratando uma guila. O que acontecia era mais difícil de aceitar. A própria mente dele estava a tornar-se uma casa onde as portas fechavam-se, uma a uma, e não abriam mais. E lembra-se da primeira coisa que eu te contei lá no início daquele rapaz de 14 anos que apanhou sozinho o caminho de São Paulo para fugir à fome? Olha onde este caminho foi terminar.

Numa cama de clínica em nío, mais de 60 anos depois, dentro de um corpo que tinha conquistado o mundo e de uma mente que já não se conseguia lembrar que tinha conquistado coisa nenhuma. O início e o fim desta história estão amarrados pelo mesmo fio. O esforço desesperado de um menino para nunca mais passar necessidade e o preço impossível que esse esforço foi cobrar-lhe lá na frente.

 Mas eu não quero que feche este vídeo só com a tristeza no peito. Há uma luz no meio desta parte escura e é importante que veja. Nos últimos anos, o Brasil voltou a pro Maguila devagar, com um carinho diferente do barulho dos domingos antigos. Um carinho de quem reconhece tarde o tamanho do que teve. Reportagem atrás de reportagem foi recontando a história dele com respeito, sem deboche, sem aquele tom de mexericos que os fracos usam com os caídos.

 Na internet, as pessoas começaram a resgatar os vídeos antigos, as gargalhadas, os nocouts, as participações engraçadas. Como esse homem fazia falta! Escreviam: que bom sujeito, que gigante de coração! O ídolo esquecido voltou a ser amado justo na altura em que ele próprio já não tinha como saber isso.

 E houve gente que ficou até ao fim. Teve a Irane, a esposa que um dia foi empresária da sua carreira, e acabou por ser a cuidadora dele. Tiveram os filhos, tiveram os amigos da box, os companheiros de uma vida, as pessoas que conheciam o Maguila de verdade, o homem por trás da personagem, ficaram do lado dele quando já não tinha máquina fotográfica, nem palco, nem aplauso.

 Quando sobrou apenas o amor, sem público para ver. É fácil amar o campeão no auge. Difícil é amar o homem depois de o campeão se ter ido e ficou apenas a fragilidade. E essa gente amou. Eu não te vou enganar, Janete. Final feliz dos de cinema não houve. A doença não tem cura e ela seguiu o caminho dela até ao fim, sem dó nenhuma.

O que houve foi dignidade. Teve gente segurando a mão dele. Houve um país que mesmo atrasado lembrou-se de agradecer. E para uma vida que foi tão dura no início e no fim, isso já é muito. Isso já é quase tudo o que se pode pedir. E assim foram passando os anos dentro da clínica de Itu.

 Vistos de fora, todos pareciam iguais. o silêncio, o cuidado, a rotina, a doença fazendo o seu trabalho bem devagar. Mas dentro daquele silêncio vivia um homem que um dia tinha sido o mais barulhento, o mais alegre, o mais cheio de vida de toda a televisão brasileira. O contraste entre o Maguila daqueles últimos anos e o Maguila dos domingos de tarde, talvez seja a coisa mais cruel desta história inteira.

 Como se duas pessoas completamente diferentes partilhassem o mesmo nome e o mesmo corpo, o gigante que ninguém no mundo derrubou em 85 lutas e o homem que o próprio desporto foi derrubando por dentro. em silêncio ao longo de mais de uma década. E em todos estes anos houve uma pessoa que não lhe largou a mão, a Irane, a mulher que um dia organizou a agenda do campeão, que cuidou da fortuna, que viajou pelo mundo ao lado do gigante, terminou sentada ao lado de uma cama, cuidando do homem que já não sabia direito quem ela era. Há amor que se

mede no auge e no aplauso na festa. E há amor que só aparece de verdade no silêncio de um quarto de clínica, quando ninguém está a ver e não tem mais nada para ganhar. O amor da Irane foi deste segundo tipo. E antes de eu te contar o fim, queria que olhasse para uma coisa só, para as mãos dele, aquelas mãos enormes do Maguila.

 para um bocadinho aí no escuro da sua sala e pensa em tudo o que essas mãos fizeram. Foram elas que carregaram saco de cimento numa obra de São Paulo, quando era um menino de 14 anos com a barriga vazia. Foram elas que se tornaram armas e nocoutearam adversário atrás de adversário. 61 vezes ao todo, foram elas que ergueram.

 Lá em Osasco, em 1995, o cinturão de primeiro brasileiro campeão mundial de pesos pesados. Foram elas que assinaram cheque paraa família inteira, que abraçaram criança pobre na ON, que cumprimentaram gente simples na rua e gente famosa nos palcos. As mãos do Maguila ganharam o mundo e foram essas mesmas mãos que, no fim descansaram quietas numa cama de clínica em Ito, porque a cabeça que elas castigaram e que apanhou de volta acabou fechando Maguila dentro de si mesmo.

Tudo nesta história passa por aquelas mãos. O início na pobreza, o auge na glória, o fim no silêncio. O Maguila faleceu no dia 24 de outubro de 2024, em São Paulo aos 66 anos. A causa foi a doença que a Box lhe plantou, golpe a golpe, ao longo de uma vida inteira. A demência pugilística pensa na ironia. O gigante que ninguém conseguiu derrubar em 85 combates profissionais.

 O homem que encarou Hollyfield, que encarou Forman, que ficou de pé perante o que havia de mais perigoso na box mundial. Esse homem foi derrubado no fim, sem que ninguém precisasse de subir no ringue. O que tirou Maguila do chão foi a acumulação silenciosa de tudo aquilo que venceu, murro a soco, ano após ano, uma conta que começou a ser escrita nos anos 80 e foi paga por inteiro nesse dia de outubro.

Deixou a Irane, a companheira de uma vida inteira, a mulher que esteve do princípio ao fim, e deixou três filhos, Edmilson, Adenilson e Adilson Júnior, os filhos do gigante, que cresceram a ver o pai ser amado e aplaudido pelo Brasil e que depois viveram a parte mais difícil de toda esta história. de perto, dia após dia, ano após ano, esse mesmo pai ir-se apagando à frente deles.

 Eu não vou colocar palavra nenhuma na boca destes filhos. A dor de um filho que perde o pai lentamente, dois dedinhos por dia ao longo de anos. Não cabe numa frase que eu pudesse inventar. Então eu prefiro dizer-te só uma coisa, simples e verdadeira. Eles estavam lá até ao último dia. Eles estavam lá. E agora, Janete? Esta é a sexta coisa que eu prometi-te. A que muda tudo.

 Quando o Maguila morreu, o seu corpo foi velado num local de muito peso, a Assembleia Legislativa de São Paulo, num velório aberto ao público, aberto a qualquer pessoa entrar em fila e despedir-se. E e e e e e é, quero que pare e sinta o tamanho do que isso significa. O mesmo Brasil que gritava nas tardes de domingo.

 O mesmo Brasil que aplaudia de pé cada noca do Maguila. O mesmo aplauso que, sem ninguém saber, sem ninguém ter culpa de nada, foi ajudando a adoecer aquele homem. Um golpe celebrado de cada vez. Esse mesmo Brasil foi no fim em fila, calado. Dar o último a Deus. As pessoas que um dia torceram pelos socos foram décadas depois chorar o homem que aqueles mesmos murros calaram.

 O público que sem querer ajudou a escrever a tragédia foi exatamente o mesmo que veio despedir-se dela de cabeça baixa. Tem coisa mais humana e mais triste do que isso. Gente de todos os cantos foi até lá se despedir. Funk tinha crescido a vê-lo. Gente do desporto, gente que nunca tinha trocado uma palavra com Maguila, mas que sentia que lhe devia uma última homenagem.

 O Maguila entrou na vida do brasileiro pela porta da alegria num tempo em que precisávamos de alegria e mesmo quem não acompanhava box sabia quem era. Aquele sorriso ficou guardado na memória de um país inteiro. Depois do velório, o Maguila foi sepultado em São Paulo, a mesma cidade que o recebeu aos 14 anos como um menino faminto carregando mala de pobre e que se despediu dele mais de 60 anos depois como um dos maiores ídolos que o desporto brasileiro já teve, a cidade do princípio e do fim da história.

 E lembra-se do que te pedi para guardar lá pelo minuto 20 e tal? Eu disse-te que o Maguila vivia da palavra, do riso, da história bem contada à frente das câmaras, que a voz tinha virado a ferramenta dele depois de as mãos deixaram de lutar. E avisei-te que a doença ia visar exatamente nisso, no silêncio que ia cair sobre o homem mais ruidoso da televisão brasileira.

 Foi precisamente o que aconteceu. O homem que fez rir todo o Brasil terminou os anos dele calado, sem conseguir contar mais nenhuma história. E o mais arrepiante de tudo foi neste silêncio dele que o país finalmente encontrou a própria voz para dizer alto e bom som o quanto amava aquele homem. Ele calou-se e só aí a gente gritou.

 A gente grita sempre tarde. E tem um último pormenor nesta história, o mais forte de todos. Depois da morte do Maguila, foi lançou uma série contando a vida inteira dele. Quatro episódios na Global Play dirigidos por Rafael Pirro. Uma série feita com cuidado, com respeito, para que as novas gerações soubessem quem foi este gigante.

 E o nome que escolheram para esta série resume 50 anos de vida numa só frase. A série se chama Prefiro ficar louco a morrer de fome. Quatro episódios para contar uma vida que daria 10. A série mostrou o Maguila campeão, o Maguila engraçado, o Maguila pai e também uma guila dos últimos anos, sem maquilhar a dor e sem perder o respeito por ele.

 Foi como o Brasil a pedir desculpa do jeito que dava por se ter esquecido um pouco de um homem que deu tanto e a muita gente nova que nem sequer era nascida quando ele lutava. Foi a primeira vez que entendeu porque os pais e os avós falavam daquele gigante com tanto carinho na voz. Para tudo. Lé de novo comigo devagar.

 Prefiro ficar louco a morrer de fome. É isso. Ao pé da letra que aconteceu com a vida do Maguila do primeiro ao último capítulo. Aos 14 anos, com fome a sério, aquela fome de menino pobre de Aracacô, que não deixa dormir, ele fez uma escolha. escolheu o Ring para não morrer de necessidade e o Ring cumpriu a parte dele do trato.

 A partir desse dia, o Maguila nunca mais passou fome na vida, mas cobrou o preço exato à letra daquela frase. O Máguila escolheu não morrer de fome e o box em troca foi levando a mente dele lentamente até ao fim. Entregou a cabeça por um prato de comida que faltou para uma criança em Aracaju 60 anos antes. Pagou a dívida da fome para com a própria lembrança de quem era.

 E é por isso, Janete, que esta história mexe connosco tão fundo. No fundo, ela fala de uma coisa muito maior que box, que fama, que dinheiro ou cinturão. fala de uma verdade que qualquer pessoa que já envelheceu, que já viu o seu próprio corpo começar a trair, que já cuidou de alguém perdendo-se aos pouquinhos, que já passou uma noite sozinha numa casa silenciosa, entende que ninguém explique.

 O brilho não salva ninguém. O homem mais forte do Brasil também partiu. E no fim de tudo, o que pesa mesmo é uma coisa só. Quem ficou a segurar a sua mão depois de a glória já se tinha ido embora? Fica com esta imagem na cabeça antes de eu ir. O enorme sorriso do Maguila, parado para sempre num domingo à tarde, lá no auge, quando tudo ainda era possível, este sorriso foi verdadeiro.

 O silêncio do fim também foi. O Maguila viveu nas duas pontas e talvez seja só isso que a vida faz com os mais fortes. Mostra no fim que ninguém é demasiado grande para quebrar. Ele entrou na sua sala como gigante que ninguém derrubava. Saiu dela como um homem que o próprio desporto foi derrubando por dentro ao longo dos anos.

Entre uma ponta e a outra coube uma vida inteira de força, de generosidade, sem conta e de um preço que ninguém viu chegando. Se chegou até aqui comigo, se esta história mexeu consigo, faz uma última coisa por mim. Não guarda só para si. Envia esse vídeo para alguém que também cresceu a ver o Magila nas tardes de domingo paraa sua irmã, paraa sua amiga, pro seu marido, pro seu filho.

 Porque há gente que merece ser recordada pelo que realmente viveu, pelo coração que teve, pela vida que levou. Subscreve o canal e ativa o sininho, porque amanhã, à mesma hora, eu Tenho outra história para te contar e esta vai apertar-te o peito. é sobre outro gigante da nossa televisão, o Gulberato, sobre a fortuna que deixou, a querela de herança que rasgou a família depois que ele se foi e o homem que surgiu praticamente do nada para reivindicar a a sua parte de tudo.

 Você não vai querer perder. Fica comigo.

 

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