A análise recente do jornalista Luis Nassif sobre a dinâmica do bolsonarismo oferece um ponto de partida crucial para compreendermos esse fenômeno. Para Nassif, o bolsonarismo não opera apenas como um partido ou um projeto de poder comum; ele se comporta como uma tribo fechada. Essa organização, comparável a contextos cinematográficos onde grupos familiares isolados mantêm seus próprios códigos de conduta independentemente do mundo exterior, explica por que as críticas externas, longe de enfraquecer o núcleo, acabam por fortalecê-lo. É o efeito “fechamento de fileiras”: quando a tribo é atacada, o indivíduo perdoa o que o “seu” faz, porque a lealdade ao grupo é a prioridade absoluta.
A Anatomia do Bolsonarismo como Identidade
Ao examinarmos o comportamento do eleitor que compõe a base do ex-presidente, percebemos que o bolsonarismo transcendeu a política para se tornar uma questão de pertencimento. Quando observamos os senhores que, durante meses, mantiveram vigílias em frente a quartéis, não víamos apenas apoiadores de uma causa política; víamos pessoas encontrando afinidade e significado. O quartel não era apenas um ponto de protesto, mas um espaço de sociabilidade, onde o “nós contra eles” era reforçado diariamente.
Essa estrutura tribal é a explicação para a falha crônica da chamada “terceira via”. Políticos tradicionais, como Romeu Zema ou Ronaldo Caiado, têm tentado ocupar o vácuo que o bolsonarismo, em tese, poderia deixar devido ao desgaste de figuras como Flávio Bolsonaro. No entanto, o eleitor de direita no Brasil atual não busca um administrador ou um gestor eficiente; ele busca a personificação da sua própria revolta. Para essa parcela do eleitorado, os nomes da direita tradicional parecem “mornos” ou artificiais, enquanto a família Bolsonaro representa a “autenticidade” — mesmo que essa autenticidade venha acompanhada de constantes crises e questionamentos legais.
A Herança da Guerra Fria e a Construção do Antilulismo
Para entender como chegamos a esse estado de polarização extrema, é necessário olhar para trás. O antilulismo e o anticomunismo, que hoje são combustíveis essenciais para o bolsonarismo, não nasceram com a eleição de 2018. Eles são herdeiros diretos de uma construção iniciada muito antes, enraizada na mentalidade da Guerra Fria.
Historicamente, o anticomunismo foi a ferramenta preferida da direita para deslegitimar qualquer movimento progressista. Desde a década de 1950, essa retórica foi utilizada para perseguir adversários, rotulando qualquer política social ou sindical como uma ameaça à “família e à propriedade”. O Partido dos Trabalhadores (PT), apesar de sua trajetória marcada pela social-democracia e pela busca pelo centro político, acabou sendo o alvo perfeito para essa estratégia.
A polarização entre o PSDB e o PT, que dominou as eleições entre 1994 e 2014, foi o laboratório dessa tática. Para que um lado pudesse se autoproclamar o “verdadeiro progressista”, ele precisava demonizar o outro, criando um abismo moral. Foi nesse cenário que figuras como José Serra, em 2010, deram início a uma sofisticação na comunicação digital e na criação de narrativas, utilizando perfis falsos e influenciadores para espalhar o medo. A política brasileira tornou-se uma guerra de narrativas onde o terreno da verdade foi abandonado em favor do terreno da “baixaria” e da destruição da imagem do adversário.
A Falência do Sistema Político Tradicional
O desmonte do sistema político tradicional, acelerado pela Operação Lava-Jato, criou o vácuo que o bolsonarismo ocupou. O PSDB, outrora o grande protagonista da oposição, perdeu sua ossatura social-democrata ao se ver capturado por lideranças que, ao invés de oferecerem um projeto para o país, mergulharam de cabeça no golpismo e na radicalização. Como bem observou Fernando Henrique Cardoso na época, “sabemos como começa, mas não sabemos como acaba”.
O que a direita tradicional não calculou é que, ao flertar com a extrema-direita para tentar retomar o poder, ela acabaria devorada por ela. Valdemar Costa Neto e outros caciques do Partido Liberal (PL) podem até acreditar que estão no controle, utilizando o nome Bolsonaro apenas para “fazer bancada”, mas a realidade é que eles se tornaram reféns de uma força que não conseguem controlar. O eleitor não quer o PL por ser o PL; ele quer o PL porque é o “partido do Bolsonaro”.
O Papel da Inteligência Artificial e a Narrativa Digital
Um dos pontos mais críticos levantados sobre o futuro da política brasileira é a capacidade de gerar narrativas através de meios digitais. O “partido digital” da extrema-direita é hoje uma das máquinas de comunicação mais eficientes do país. Mesmo quando não existem provas de ilicitudes, a criação de marolas — o fato de “estar sendo investigado” — é suficiente para alimentar o sentimento de perseguição da base.
Se qualquer CPI for instaurada, ou se novas denúncias surgirem, a capacidade desse aparato de inverter o jogo e transformar o culpado em vítima é imediata. A inteligência artificial e a disseminação de desinformação não são mais apenas ferramentas de campanha; são a estrutura de sustentação desse tribalismo. Eles não precisam de fatos, precisam de emoção. E, como vimos, a relação afetiva entre o eleitor e o líder é blindada contra qualquer racionalidade.
O Desafio dos Meios de Comunicação e da Sociedade

O que resta para o futuro? Se o bolsonarismo é, de fato, uma tribo, o desafio para os meios de comunicação e para a sociedade civil é entender como dialogar com esse público sem cair na armadilha da polarização cega. Espera-se que a mídia atue com mais inteligência, evitando cair na armadilha de apenas noticiar o escândalo sem explicar a estrutura que o sustenta.
É urgente perceber a ameaça que o tribalismo político representa para a democracia. Quando a política deixa de ser um debate sobre o bem público e passa a ser uma luta entre tribos, o espaço para a negociação, o compromisso e o desenvolvimento social encolhe. O Brasil vive um dilema: como oferecer uma alternativa a esse modelo sem que o eleitor se sinta atacado em sua própria identidade?
Considerações Finais
O cenário político brasileiro, ao longo dos próximos anos, será marcado por essa tensão constante. A ideia de um “Lula 4” ou de uma estabilização da economia são, naturalmente, pontos importantes, mas eles enfrentam um obstáculo sociológico que não se resolve com números de PIB ou melhora nos índices de emprego. O bolsonarismo, ao se organizar como uma tribo, criou um sistema de proteção contra a realidade.
Enquanto a direita tradicional continuar acreditando que conseguirá substituir os Bolsonaro por quadros técnicos como Zema ou Caiado, ela continuará perdendo. Eles ignoram que a força do clã não reside no intelecto ou na gestão, mas no instinto de pertencimento. Para mudar esse jogo, é preciso ir além da superfície da política e compreender as raízes dessa paixão coletiva que, para o bem ou para o mal, define o Brasil de 2026.
A história mostra que movimentos baseados exclusivamente em laços tribais podem ser resilientes por um longo período, mas também que eles tendem a isolar o país do debate global e da modernidade. O futuro do Brasil, portanto, depende de conseguirmos furar essa bolha, não pelo ataque, mas pela reconstrução de um projeto de país que ofereça ao cidadão algo maior do que a simples lealdade a uma família. Até lá, a maré do bolsonarismo continuará alta, alimentada pelo medo do “outro” e pelo conforto de pertencer a uma tribo que, mesmo quando erra, se recusa a pedir desculpas.
A política, em essência, deveria ser o exercício de construir pontes. No Brasil, infelizmente, o que vemos é a construção de muralhas tribais. Superar essas muralhas será o grande trabalho das próximas gerações, exigindo não apenas estratégia, mas a coragem de confrontar a própria natureza da nossa polarização. Resta saber se o país terá a maturidade necessária para esse processo antes que as estruturas democráticas sofram danos irreversíveis. A água vai continuar a rolar, e as narrativas só tendem a ficar mais sofisticadas; cabe ao eleitor decidir se quer continuar sendo parte de uma tribo ou se deseja, enfim, voltar a ser um cidadão.