O cenário político brasileiro tem se assemelhado cada vez mais a um teatro do absurdo, onde as cortinas se abrem diariamente para revelar uma inversão de valores que desafia a lógica, a moralidade e o bom senso do cidadão comum. Defender figuras que há muito tempo perderam o capital político e o respeito popular não é uma tarefa fácil. Nomes que outrora ocupavam posições de inquestionável poder e influência hoje protagonizam cenas de constrangimento público que beiram o cômico, não fosse o impacto trágico que suas ações – e omissões – têm sobre o futuro do Brasil. O que temos testemunhado recentemente nas ruas de Brasília, nos tribunais e nos discursos oficiais é um retrato fiel de um sistema que parece governar de costas para a população, priorizando narrativas ideológicas e a proteção de interesses escusos em detrimento da verdadeira segurança e prosperidade nacional.
O primeiro ato desse espetáculo deprimente foi protagonizado pelo deputado federal Lindbergh Farias. Para compreender a gravidade da situação, é preciso lembrar que a própria presença de Lindbergh no Congresso Nacional já é motivo de intensos debates e questionamentos, visto que sua cadeira foi garantida graças a uma canetada, uma liminar judicial, e não pelo peso avassalador do voto popular. Quando um político que depende de injunções jurídicas para se manter no poder é confrontado pela realidade, a reação instintiva costuma ser a fuga. E foi exatamente isso que ocorreu nos arredores da Câmara dos Deputados. Ao ser abordado por um repórter independente e corajoso, que trazia questionamentos espinhosos e absolutamente necessários sobre a redução da maioridade penal e denúncias de improbidade administrativa, Lindbergh encenou uma das manobras mais velhas e desgastadas do manual de sobrevivência política: fingiu estar em uma ligação telefônica.
A cena, devidamente registrada em vídeo, é de um constrangimento ímpar. O jornalista indaga: “Deputado, a favor da redução da maioridade penal? O que o senhor tem a dizer em relação à improbidade administrativa?”. Imediatamente, o aparelho celular é levado ao ouvido. Não há diálogo do outro lado da linha, não há urgência real, apenas o silêncio covarde de quem se recusa a prestar contas àqueles que, em teoria, representa. É a personificação do distanciamento entre a classe política e o povo. A cara não arde, a vergonha não bate. Contudo, se falta coragem para debater propostas essenciais para a segurança pública frente às câmeras, sobra audácia para utilizar o Supremo Tribunal Federal (STF) como ferramenta de perseguição política.
Em um movimento que escancara o desespero e a hipocrisia, Lindbergh Farias acionou o STF após as recentes decisões do governo dos Estados Unidos — impulsionadas pela nova administração de Donald Trump e figuras como Marco Rubio — que visam classificar e combater com rigor as grandes facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O objetivo do petista? Tentar fazer com que a medida internacional de combate ao narcotráfico seja considerada um processo contra o deputado Eduardo Bolsonaro, de quem Lindbergh parece nutrir uma obsessão política, possivelmente motivada pela frustração de jamais conseguir alcançar o mesmo nível de articulação e influência internacional. A tentativa de criminalizar a oposição por apoiar o endurecimento contra o crime organizado é um sintoma alarmante de uma doença moral que assola a política nacional.
Este episódio nos leva diretamente ao segundo e talvez mais grave ato desta tragédia: a falsa e seletiva defesa da soberania nacional. A deputada e presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, e o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, assumiram as linhas de frente para criticar ferozmente a pressão norte-americana sobre as facções criminosas. Gleisi, com sua retórica inflamada habitual, chegou a classificar a família Bolsonaro e seus aliados como “traidores da pátria” por celebrarem a ingerência dos Estados Unidos no combate ao crime no Brasil. Haddad fez coro, atacando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Flávio Bolsonaro, acusando-os de apoiar uma relação de subserviência do Brasil diante de Washington.
A narrativa da “soberania ofendida” seria até comovente se não fosse tão carregada de hipocrisia. A memória do brasileiro pode ser curta para alguns detalhes, mas a internet não esquece. Onde estava a preocupação de Gleisi Hoffmann com a soberania nacional e a não interferência estrangeira quando o então ex-presidente Lula estava preso em Curitiba? Naquela época, a mesma deputada não hesitou em gravar vídeos direcionados à rede de televisão Al Jazeera, clamando por apoio internacional, apelando ao mundo árabe e a grupos com ramificações complexas no Oriente Médio para que intervissem na política interna brasileira e fizessem pressão pela libertação de seu líder. Convocou forças externas para intervir na justiça do Brasil, mas agora, quando a maior potência do mundo decide fechar o cerco contra terroristas e narcotraficantes que escravizam e aterrorizam a população brasileira, o discurso muda radicalmente. De repente, a ajuda internacional vira crime de lesa-pátria.
A verdade inconveniente que a esquerda brasileira tenta esconder sob o manto do nacionalismo de fachada é que, para eles, parece que o combate rigoroso ao crime organizado não é uma prioridade, mas sim um incômodo. Dar o nome que quiserem — terrorismo, máfia, facção, cartel — não muda o fato essencial: crime é crime e precisa ser combatido com força máxima, seja com inteligência interna ou com cooperação internacional. Fernando Haddad e a cúpula do partido transitam em carros blindados, cercados por seguranças fortemente armados 24 horas por dia, pagos com o dinheiro dos impostos. Para eles, o Brasil pode parecer uma maravilha, um palco para debates teóricos sobre imperialismo. Enquanto isso, o povo trabalhador, o cidadão que pega ônibus de madrugada, fica completamente à mercê do crime organizado, vivendo sob o terror constante de balas perdidas, assaltos e a tirania do tráfico de drogas em suas comunidades. Rejeitar o combate global às facções sob a desculpa de proteger a soberania é, na prática, proteger os algozes do povo brasileiro.
Essa leniência com a criminalidade não é um fenômeno novo ou um acidente de percurso; é uma característica enraizada historicamente no discurso de suas principais lideranças. Recentemente, um vídeo de 2022 resgatado nas redes sociais trouxe à tona uma declaração de Luiz Inácio Lula da Silva que ilustra perfeitamente essa mentalidade distorcida. O vídeo refere-se a um dos episódios mais traumáticos e emblemáticos da crônica policial brasileira: o sequestro do empresário Abílio Diniz em 1989. Diniz, um dos maiores empregadores do país, foi mantido em cativeiro sob condições sub-humanas por um grupo de terroristas sul-americanos. Foi um crime hediondo, de cárcere privado e tortura psicológica intensa.

No entanto, ao relembrar o caso em uma entrevista, Lula utilizou palavras que causam calafrios e indignação profunda em qualquer pessoa de bem. Ele se referiu aos criminosos internacionais condenados como “rapazes”, jovens que apenas “cometeram um erro”. A banalização da barbárie é assustadora. Um sequestro brutal e arquitetado financeiramente para financiar guerrilhas é reduzido a um mero “erro de juventude”. Mais grave ainda foi a confissão de como o poder político operou para favorecer esses criminosos. Lula narrou, com orgulho, como procurou o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Justiça Renan Calheiros para interceder pelos sequestradores, que haviam entrado em greve de fome. Ele apelou para a “democracia”, sugerindo que FHC passaria para a história de forma negativa se permitisse que aqueles “jovens” morressem na prisão.
O relato culmina com Lula indo pessoalmente à cadeia no dia 31 de dezembro para negociar com os sequestradores, garantindo que, se encerrassem a greve de fome, seriam libertados e perdoados. E assim foi feito. A mensagem transmitida à sociedade brasileira desde 1989 é devastadora: dependendo de quem você é e das suas conexões políticas, crimes ediondos podem ser relativizados e o Estado se dobrará para garantir a sua impunidade. Como um país pode prosperar quando a sua autoridade máxima exibe publicamente empatia por sequestradores, enquanto ignora as maiores atrocidades sofridas pelas vítimas? Imaginar autoridades americanas, que tratam o terrorismo com tolerância zero, assistindo a um vídeo desse líder defendendo sequestradores explica perfeitamente por que há tanta desconfiança internacional sobre o real comprometimento do Brasil no combate ao crime.
Se o passado revela a semente da leniência, o presente escancara os frutos podres dessa árvore. E é no terceiro e último ato deste show de horrores que encontramos o limite do surrealismo. Com o aumento da pressão americana e as investidas contra as finanças do PCC e do Comando Vermelho, operações de inteligência e contrainteligência registraram um efeito prático e imediato no mercado ilegal: o aumento do preço das drogas, especificamente da cocaína. Pela lógica, qualquer cidadão que deseja o fim da violência celebraria o fato de que o insumo criminoso está mais difícil e caro de ser comercializado, indicando um golpe logístico nas facções.
Entretanto, nos círculos de poder e nos salões da elite intelectual, a reação foi exatamente a oposta. Durante uma discussão pública, uma desembargadora de justiça — cargo de altíssima relevância e poder no país — acompanhada de figuras influentes, expressou que não via com bons olhos a interferência dos Estados Unidos. O motivo? O combate dificultou a logística e, consequentemente, “o pó branco subiu”. O comentário foi endossado e ecoado de forma lamentável por comentaristas e figuras associadas a altos escalões da economia nacional (como relatado sobre a figura apelidada de “Chiqueita”, ligada ao alto escalão do Banco Central).
Elas classificaram a situação como “esclarecedora e angustiante”. Angustiante! Uma palavra pesada, que carrega dor e aflição. Para o cidadão comum, angustiante é não saber se o filho vai voltar vivo da escola porque a rua está dominada por traficantes. Angustiante é ter o comércio assaltado pela terceira vez no mês para financiar o vício alheio. Angustiante é trabalhar o mês inteiro e ver o salário dilacerado pela inflação real dos alimentos. Mas, para uma parcela anestesiada da elite política e judiciária, a angústia reside na inflação do “pó branco”. O fato de magistrados e comentaristas demonstrarem tamanha preocupação pública com a dinâmica de preços do mercado de entorpecentes, tratando a eficácia policial como um problema econômico a ser lamentado, é o ápice da degradação moral das nossas instituições.
Fica evidente, através de cada palavra proferida e de cada atitude evitada, que a nação está dividida não apenas por ideologia, mas por percepções de realidade completamente distintas. De um lado, há um povo exausto, que anseia por ordem, justiça e pelo direito sagrado de andar nas ruas em paz. Do outro, há um estamento burocrático e político que foge da imprensa, que romantiza criminosos violentos, que se esconde atrás de uma falsa soberania para blindar organizações criminosas e que chora o encarecimento da droga nas rodadas de alta sociedade.
Enquanto essas pessoas continuarem a governar, a legislar e a julgar, guiadas por bússolas morais quebradas, o Brasil patinará na lama da insegurança. A fuga de Lindbergh Farias não é apenas a covardia de um deputado perante um microfone; é a fuga de todo um sistema perante a responsabilidade. Os aplausos ao perdão de sequestradores não são apenas uma lembrança do passado; são o alicerce filosófico que permite que o PCC se torne uma multinacional do crime no presente. E a angústia com o preço da cocaína não é apenas um deslize verbal; é o retrato escarrado de uma elite que perdeu completamente a vergonha e a conexão com o sofrimento humano. O Brasil clama por limpeza e por verdade, pois a tolerância com o intolerável já nos custou vidas demais.