A Nojenta Verdade Sobre Elis Regina: O Segredo Obscuro Que a Ditadura Escondeu Durante 40 Anos.

A Nojenta Verdade Sobre Elis Regina: O Segredo Obscuro Que a Ditadura Escondeu Durante 40 Anos. Sabia que a maior voz do Brasil não morreu exatamente como lhe contaram? Descubra a terrível negligência, a ambulância que nunca chegou, o relatório forjado pelo regime militar e o desespero de uma criança.

Elis Regina: a NOJENTA verdade que enterraram por 40 Anos  

19 de janeiro de 1982, 11h45 da manhã. A maior voz que o Brasil já teve da entrada num hospital de São Paulo nos braços de um homem em pânico. Tinha 36 anos e já era tarde demais. Disseram que foi overdos. Ponto final, caso encerrado em dois dias. Mas quem estava com a Elizã viu uma coisa que ninguém quis ouvir. Fica até ao fim.

Porque quando descobrir o que era e quem pôs o ponto final nesta história, nunca mais vai ouvir a voz dela do mesmo jeito. Mas antes dessa manhã, há uma coisa que precisa de entender. Porque o que aconteceu naquele apartamento não começou ali. Começou muito antes numa menina de 11 anos que cantava numa rádio de Porto Alegre e já carregava um peso que ninguém via.

 E esse peso é a chave de tudo. Ela se chamava-se Elis Regina de Carvalho Costa. Nasceu em março de 1945, no Porto Alegre, numa aldeia de operários, onde o dinheiro era curto e contado. E aqui é a primeira coisa que quase ninguém conta sobre ela. A Eli nunca foi criança de verdade. Aos 7 anos já cantava num programa de rádio.

 Aos 13, aquela menina já ajudava a pagar as contas de casa. Aos 15, ela ganhava mais do que o próprio pai. Para a mãe, a dona Er, uma mulher de pulso firme, havia uma condição para deixar a filha cantar. As notas na escola tinham de estar em dia. Assim, a menina fazia as duas coisas: cantava de noite, estudava de dia e sustentava a família no meio disto.

 Pensa no tamanho desse peso num corpo de criança. Enquanto as outras meninas brincavam, ela já era o ganhaapão da casa. aprendeu cedo que o carinho das pessoas vinha juntamente com uma conta a pagar, que ela precisava de entregar, render, ser grande. Para que tudo ficasse de pé, esta menina cresceu carregando toda a gente nas costas.

 Guarda essa imagem, porque o fim mais cruel desta história é este. A mulher que passou a vida inteira segurando os outros foi exatamente quem, numa manhã de Janeiro ficou sem ninguém para a segurar tempo. Imagine por um momento que esta mulher fosse alguém da a sua família, a sua irmã, a sua filha, a voz que tocava em sua casa toda a vida e que no final o mesmo país que ela ajudou a embalar tenha resolvido condená-la em vez de a chorar, porque é isso que vai acontecer e vai perceber porquê.

Abril de 1965, um palco de televisão em São Paulo, a TV Excelor. Uma rapariga de 20 anos, baixa, quase escondida atrás do microfone, sobe para cantar uma canção chamada Arrastão, de Edu, Lobo e Vinícius de Morais. A plateia não a conhecia bem, saiu de lá conhecendo. E o Brasil inteiro na manhã seguinte também, porque a Elise não cantou a Rastão.

 Ela viveu a música ali à frente de toda a gente. Os braços dela abriam e fechavam como se ela própria estivesse a puxar a rede de pesca para fora do mar. O corpo contava a história que a boca cantava. Ninguém tinha visto uma cantora brasileira fazer aquilo. Ela venceu o festival, levou o troféu de melhor intérprete e numa só noite noite, a menina que sustentava a família em Porto Alegre tornou-se a maior promessa da música do país.

 O que veio depois foi rápido de uma forma que assusta. Um mês depois do festival, a TV Record fechou o contrato com ela. Em maio já estreava o Fino da Bossa, um programa semanal ao lado de Jair Rodriguez. O disco que saiu daquela parceria Dois na Bossa, foi o primeiro álbum brasileiro a passar de 1 milhão de exemplares vendidos. Pensa nisso.

Um milhão de discos em 1965, num país onde a maioria das casas mal tinha o que comer. Tinha 20 anos. E há um pormenor sobre o talento dela que quase ninguém sabe e que muda a forma como escuta a voz da Elice para sempre. Ela tinha ouvido absoluto. Os músicos sabem o peso disto. Significa que ela identificava qualquer nota no ar sem instrumento nenhum para conferir.

Ela não cantava só de sentimento. Ela pensava como uma instrumentista de verdade. Trocava de tom a meio de uma música sem pestanejar. inventava a melodia em cima de ritmo quebrado daqueles que deixam músico experiente suando. Os melhores instrumentistas do país sentavam-se ao lado dela e saíam de boca aberta, porque aquilo ia muito para além de uma voz bonita.

 Era uma máquina musical que nasce uma vez por geração. Se tanto. Em poucos anos, ainda antes dos 23, ela tinha o salário mais elevado da televisão brasileira. Não, o maior salário entre as cantoras, o maior salário da televisão. Ponto. A menina da vila operária, que aos 13 anos pagava a conta de casa, era agora a artista mais bem paga do país.

 Aqui é onde uma carreira normal se tornaria conto de fada. Mas a história da Elice nunca foi conto de fada, porque juntamente com o talento vinha o resto. Foi a Eli quem abriu a porta para meia música brasileira que ouvimos até hoje. Milton Nascimento começou a ser conhecido porque a Eliz gravou e defendeu as canções dele.

 Belkior, a mesma coisa. João Bosco, Edo Lobo, tanta gente. Quando ela colocava a sua voz numa música de um compositor que ninguém conhecia, aquele compositor acordava famoso na semana seguinte. A voz dela era um carimbo. Quem ela abençoava subia, mas todo esse poder tinha um preço e quem pagava era ela própria e quem estava por perto.

 Há um lado da Eliz do fofinhos preferem não mostrar. E é impossível compreender a sua morte sem compreender esse lado. O apelido era pimentinha e não veio de gracinha. A Elisa era difícil de uma forma que machucava. Nos ensaios, ela cobrava perfeição com uma dureza que fazia músico calejado sair a chorar. Se uma nota saía torta, ela parava tudo.

 Se alguém não estava a entregar o que ela queria, ela falava na cara, sem filtro, sem dó nem piedade. O perfeccionismo dela não tinha travão e cortava para os dois lados, cortava os outros e cortava-a por dentro também. Imagina conviver com uma pessoa assim, que ria com o corpo todo, que brigava com a alma toda, que cobrava como se a vida dependesse de cada nota.

A Elisa era inteira em tudo o que fazia e gente inteira assim não sabe se proteger. Ela ia para o palco e dava o corpo, a alma, os nervos, saía de cena esgotada e regressava no dia seguinte para dar tudo de novo. Agora pensa numa coisa. uma mulher assim, intensa, sem papas na língua, que mandava num homem num meio dominado por homens num Brasil dos anos 60.

 Quantos inimigos acha que ela ia juntando pelo caminho? Muitos. Ela juntou muitos. Gente que ela humilhou num ensaio e nunca mais esqueceu. Gente que tinha inveja do tamanho dela. Gente do meio artístico que sorria na frente e falava mal por trás. A Eliz era amada pelo público e temida pelos bastidores. E essa conta, a dos bastidores, ela ia pagar mais tarde, no momento em que mais precisaria de pessoas do lado dela.

 Mas antes dos inimigos do meio, ela ia arranjar um inimigo muito maior, o país inteiro, e por causa da uma coisa que não tinha nada a ver com música. Na sua vida pessoal, a Elisa adorou com a mesma intensidade com que cantava. No final de 1967, aos 22 anos, casou com Ronaldo Bôcoli, um dos nomes fortes da boossa nova, 16 anos mais velho do que ela.

 No ano seguinte, nasceu o primeiro filho, João Marcelo. O casamento foi intenso, como tudo na vida dela e terminou do mesmo jeito, em 1972, num rompimento que deixou marcas. Dois anos depois, voltou a casar com o pianista César Camargo Mariano. Com o César, teve mais dois filhos, o Pedro em 1975 e a Maria Rita em 1977 e fez alguns dos mais belos discos da história da música brasileira.

 Guarde estes três nomes: João Marcelo, Pedro, Maria Rita, três crianças. Eles vão voltar nesta história e da forma mais dolorosa que existe. No palco, estes anos foram de pura glória. A Elis levou a voz dela paraa Europa, cantou na televisão da Inglaterra, da Holanda, da Bélgica, da Suécia. Em 1974, atravessou o oceano e gravou nos Estados Unidos um disco com Tom Jobim, o Wellenton, até hoje apontado como um dos melhores álbuns brasileiros já feitos.

 Entre 1975 e 1977, montou o espetáculo Falso Brilhante, que esteve meses em cartaz e tornou-se o maior sucesso da sua carreira. Cada coisa que ela tocava transformava-se em ouro. Por fora era uma mulher no topo absoluto. Mas foi longe dos palcos que a Eliz cometeu o erro que uma parte do Brasil decidiu nunca jamais perdoar.

Para que perceba o tamanho disso, precisa de se lembrar onde estava o país. era ditadura militar. Desde 1964, o Brasil era mandado por generais. Tinha censura na música, no jornal, no teatro. Havia gente presa por pensar diferente. Havia tortura nos porões. Tinha gente desaparecendo e nunca mais voltando a casa.

 E os artistas viviam no olho do furacão. Caetano e Gil foram presos e depois exilados. Chico Buarque foi embora do país durante algum tempo. Cantar a coisa errada podia custar caro. A Elice tinha um génio forte, mas não tinha vocação de heroína política. Ela queria cantar, queria criar, queria a sua música. E foi neste cenário tenso que aconteceu em 1969 o episódio que a ia assombrar para o resto da vida e até depois dela.

Ela acabou por cantar o hino nacional numa cerimónia oficial ligada ao governo militar. Por que razão ela fez isso? Até hoje se discute. Há quem diga que ela foi pressionada, ameaçada nos bastidores numa época em que dizer não ao regime tinha consequências. Há quem diga que foi ingenuidade, que ela não mediu o peso político daquilo.

 O facto concreto é um só. Ela cantou. E uma imagem dela nessa cerimónia, a maior cantora do O Brasil, ao lado dos símbolos da ditadura, correu o país e o estrago foi imediato e foi brutal. Para uma boa parte da militância, dos estudantes, da esquerda artística, aquilo soou a traição. A mulher que admiravam tinha, aos olhos deles, ajoelhado para o regime.

Veio o cruel apelido, que pegou e grudou. Começaram a chamar-lhe a cantora da ditadura. E aqui está a parte mais injusta da história. Quem convivia com a Elice conta o oposto do rótulo. Uma mulher que sofria com o que via no país, que tinha amigos perseguidos e exilados, que era tudo menos apoiante de general, mas nada disso importou.

 A foto valeu mais que a verdade. O rótulo colou. Imagina o que é. Você passa a vida construindo o amor de um país inteiro e, de repente, por um gesto de poucos minutos, metade desse país passa a te a olhar com desprezo e tu não consegue tirar essa mancha de jeito nenhum. Ela tentou. Passou anos explicando em entrevista, dizendo que tinha sido obrigada, que era inocente politicamente, que nunca apoiou um general nenhum.

 Uma parte das pessoas acreditou e voltou para o lado dela. Outra parte cruzou os braços e nunca mais a perdoou. O Brasil tinha aberto uma conta junto da Elis, uma conta de ressentimento, de juízo moral, que ali ficou parada esperando. E é isso que eu preciso que que guarde com força antes da gente seguir. Porque esta consola não foi esquecida, ficou guardada.

 E no dia em que a Elise morresse, em vez de o país inteiro chorar a maior voz que já houve, uma parte dele ia abrir essa conta de novo, ia transformar a sua morte em sentença. Ia dizer alto e bom som que ela tinha merecido o fim que tivera. Como um país é capaz de o fazer com a própria filha mais brilhante? Segura esta questão, porque agora a gente entra na parte da história onde tudo começa a desabar. Durante anos.

 A Elice carregou aquela mancha. Em concerto, vinha a vaia de um canto da plateia. Entrevista, vinha a pergunta envenenada. Tinha gente do meio, daqueles inimigos que ela foi juntando, que alimentava a tagarelice debaixo do pano, feliz por ver a maior de todas com a imagem arranhada. Ela seguia a cantar, mas a ferida estava lá.

 Só que a Eliz não era mulher de morrer calada com um rótulo injusto nas costas. E o que ela fez para responder é uma das coisas mais corajosas da história da música brasileira. No final dos anos 70, o país começava a respirar. A ditadura dava sinais de cansaço. A luta pela amnistia ganhava força. As famílias dos exilados e dos presos políticos clamavam para que os seus pudessem voltar a casa.

 E foi nesse momento que a Eli pegou numa música de João Bosco e Aldir Blan chamada O Bêbado e a Equilibrista. A letra falava nas entrelinhas dos que tinham ido embora, dos que tinham sumido, da esperança de volta. Era uma música de resistência disfarçada de poesia para escapar à censura. E a Eliz gravou aquilo em 1979 com a alma inteira. A canção explodiu.

 Virou o hino da amnistia, o hino do regresso dos exilados, a banda sonora do regresso da liberdade ao Brasil. E aqui está o que o tempo provou e o que deita por terra a injustiça que perseguiu a Elis a vida toda. A mulher, que tinha um apelido de cantora da ditadura se tornou, com a própria voz uma das vozes mais fortes contra a ditadura.

 Sem palanque, sem bandeira de partido, apenas com uma música. Ela entregou ao povo brasileiro o hino exato de que necessitava no momento exato. E o rótulo que tentaram colar nela foi-se dissolvendo de cada vez que aquela canção passava na rádio. Mas o gesto mais arrepiante desta viragem ela guardou para o próprio enterro.

 E você só vai-se lá entender o tamanho dele lá na frente, porque há uma peça nesta história que precisa de ser plantada agora. No início dos anos 80, a Elis preparava um espectáculo chamado Saudade do Brasil, um espetáculo que contava a história recente do país, incluindo os anos de chumbo. Para este espetáculo, ela queria usar uma t-shirt.

 Uma t-shirt com a bandeira do Brasil. Só que no Lago dos dizeres, Ordem e Progresso, estava escrito o seu nome, Elise Regina. Era uma provocação, uma declaração, um país com a cara dela. A censura proibiu. Disseram que ela não podia usar aquilo no palco. Esta t-shirt proibida vai voltar a esta história e quando voltar, vai ser no instante mais comovente de tudo o que tenho para te contar.

Depois, no início de 982, este era o retrato da Eliz. Aos 36 anos, ela era de novo e mais do que nunca uma unanimidade. Tinha virado o jogo, tinha provado de que lado estava. Era a maior cantora viva do país, dona de uma obra que poucos no mundo igualavam, respeitada até por quem um dia a tinha atacado.

 Por fora era o auge da maturidade artística, por dentro era outra coisa. E é aí que a história escurece, porque enquanto a carreira brilhava, a vida pessoal da Elice tinha desabado. Em 1981, ela e César Camargo Mariano, o grande amor, o parceiro musical, o pai de dois dos seus filhos separaram-se e essa separação deixou-a num lugar que ninguém imaginava ver a furacão Eliz Regina sozinha, cansada, com a guarda em baixo.

 exato momento em que ela mais precisaria de gente à volta. Ela estava a desmontar-se por dentro, longe dos olhos do público. E é neste estado, frágil de uma forma que quase ninguém via, que a Eliz vai chegar às últimas semanas de vida. As semanas que ninguém te diz direito. Vamos entrar nelas agora.

 O final de 1981 e o início de 1982 encontraram uma Eliz dividida em duas, em palco e em estúdio, no controlo absoluto, na vida à deriva. A separação do César tinha sido dura e foi muito para além do fim de um casamento. Foi o fim de uma parceria que tinha gerado os discos mais importantes da carreira dela.

 O homem que se sentava ao piano ao lado dela, que arranjava a sua música, que percebia o que ela queria antes de ela dizer, tinha saído da sua vida. Sobrou o silêncio de uma casa grande demais e os filhos. E a sensação para uma mulher que sustentou toda a desde os 13 anos de que desta vez não tinha ninguém a segurá-la. Aqui eu preciso de te pedir uma coisa. Esquece.

 por um momento que sabe como esta história termina. Porque para compreender o que aconteceu, precisa de ver aquela mulher como ela era naqueles dias, não como um mito, como uma pessoa cansada. Quem conviveu com a Eliz durante este período conta de uma mulher exausta, a trabalhar muito como sempre, mas sem a rede de proteção emocional que um ser humano precisa.

 Ela bebia socialmente, como muita gente do meio artístico da época. E como se sabia já nesse tempo, e a biografia confirmou décadas depois, em algumas ocasiões consumiu cocaína, mas tem um ponto que todos os que a conheceram faz questão de cravar. A eles estava longe de ser uma dependente. Sem histórico de abuso, era uma utilizadora ocasional, social, como infelizmente era comum naquele mundo da noite e do espectáculo business dos anos 80.

 E eis que surge o pormenor que torna tudo ainda mais difícil de engolir. Durante quase toda a vida, a Eli foi o que os colegas chamavam de cara lavada, careta. Ela não só não consumia drogas, como tinha verdadeira oeriza a elas. Há relatos de que ela era capaz de lutar com um amigo ou até abandonar um hotel se flagrasse alguém a fumar um cigarro de canábis perto dela. Ela perseguia quem o usava.

 A mulher que o Brasil ia chamar de viciada tinha passado a vida inteira a ser a mais durona contra as drogas de todo o meio musical. Pensa nessa ironia cruel. Logo ela, a última pessoa do mundo de quem se esperaria esse fim. O biógrafo dela resumiu numa frase que dói. A Elice foi careta a vida inteira e errou no finalzinho, uma única vez tarde demais.

E esta diferença entre uma viciada e uma pessoa que usou poucas vezes não é um pequeno detalhe. É a chave de tudo o que vai correr mal dali a umas horas. Não esquece-se dela. Chegamos então ao dia 18 de janeiro de 1982, uma segunda-feira. A Elise recebeu amigos no seu apartamento em São Paulo.

 Foi uma noite social comum daquelas que ela tinha sempre. As pessoas conversaram, beberam, riram. Aos poucos os convidados foram-se embora. A noite avançou. E em algum momento dessa madrugada, sozinha em casa com os filhos a dormir, a Eliz consumiu uma combinação que o corpo dela não estava preparado para receber.

 álcool juntamente com cocaína juntamente com tranquilizantes. Cada uma destas substâncias separada talvez o corpo aguentasse. Juntas naquela quantidade, num organismo que não era habituado, formaram uma mistura que lhe ia parar o coração. Mas isso não foi instantâneo. E é aqui que mora a parte mais cruel de toda esta história, porque havia uma janela, um intervalo de tempo em que ainda se podia salvar a Eliz Regina.

 E a Elise não morreu na hora. Ela entrou num estado em que o corpo começava a desligar-se lentamente. E nestas situações, o socorro rápido faz a diferença entre a vida e a morte. Existia tempo, existia uma hipótese real de que aquela manhã terminasse com a Eliz numa cama de hospital viva e não num necrotério.

 E o que selou o destino dela veio depois da mistura que ela tomou no que aconteceu, ou melhor, no que deixou de acontecer nos minutos seguintes. Na manhã do dia 19, o telefone do apartamento da Eles ia tocar. E o que aconteceu a partir desse toque é a parte que ao fim de 40 anos ainda dá vontade de gritar para dentro do ecrã porque dava tempo.

 Eu preciso que entenda que antes da gente continuar. Dava tempo. Terça-feira, 19 de janeiro de 1982, manhã, um apartamento na rua Dr. Melo Alves, número 688, nos jardins, em São Paulo. Lá dentro, a Elis. E na parte de baixo do prédio, três crianças que dali há pouco iam carregar uma imagem para a vida toda.

 O João Marcelo, filho do primeiro casamento, e o Pedro e a Maria Rita, os pequenos, brincando no jardim com os babá. A dada altura daquela manhã, o telefone tocou. Do outro lado da linha, o Samuel, o namorado, advogado, com quem ela namorava, há uns se meses. Começaram a conversar como em qualquer outro dia. E foi durante essa ligação banal que o Samuel percebeu que alguma coisa estava muito, muito errada.

A voz da eles começou a mudar a meio da conversa. As palavras foram ficando arrastadas, pastosas, como se ela estivesse com muito sono ou muito longe. As frases saíam a meio, sem terminar. E depois, no meio de uma palavra, veio o pior dos sons, o silêncio. A linha não caiu. A Eliz simplesmente deixou de responder.

 Imagina o desespero do outro lado. O Samuel gritando o nome dela para o telemóvel. Elis. Alô. Nada. Desligou e discou de novo. O coração na boca deu ocupado. O telefone dela tinha ficado fora do gancho. Ele ligou outra vez. Ocupado. De novo. Ocupado. Cada tentativa batendo no mesmo muro, enquanto a cabeça dele já imaginava o que poderia estar a acontecer naquele quarto.

 Cada segundo que passava ali, sem ninguém entrar naquele quarto, era menos um segundo da janela que ainda podia salvar a Elis. E ninguém ainda sabia disso. O Samuel não esperou mais, largou tudo e foi para a rua Dr. Melo Alves. Chegados ao apartamento, encontrou as crianças mais pequenas ainda a brincar, sem ideia do que estava a acontecer, à espera que a mãe acorde.

 A porta do quarto da Elise estava trancada. Ele bateu. Chamou, nenhuma resposta a partir de dentro. Foi aí que o Samuel fez a coisa mais terrível que um homem pode precisar de fazer. procurou o João O Marcelo, o filho mais velho da Elice, um rapaz de 11 anos. E os dois juntos, o namorado e o filho criança, obrigaram a porta trancada daquele quarto.

 Pensa nisso por um segundo. Um menino de 11 anos a ajudar a arrombar a porta atrás da qual estava a sua mãe. Tem imagem mais cruel do que esta? A porta cedeu e o que viram foi a Elizda no chão entre a cama e a estante. Imóvel. O telefone pendurado fora do gancho do lado dela, ainda a apitar o sinal de ocupado que o Samuel tinha escutado dezenas de vezes.

 O corpo dela estava ali, mas a Eli, a força da natureza, o furacão, a maior voz do Brasil, não reagia a nada. O Samuel afastou o menino. Não era cena para um filho ver. Entrou, fechou a porta, ajoelhou-se e sacudiu a Elice pelo nome. Sacudiu de novo, ela não se mexia. As mãos dela já estavam frias, embora o corpo ainda guardasse calor.

 E ali naquele chão, o Samuel compreendeu que estava sozinho numa corrida contra o tempo e que cada minuto ia valer uma vida. Segundo o relato reunido na biografia de Júlio Maria naquela manhã, antes de mais desabar, uma voz sumida e arrastada ainda teria gemido atrás daquela porta um fiapo de som. Samuel.

 Samuel, o nome dele, se for verdade, é como se no último fio de consciência ela tivesse chamava precisamente a pessoa que estava do outro lado da linha, demasiado longe para chegar a tempo. A Elisa ainda estava ali a apagar, mas ali e agora começava a parte que transforma uma tragédia em revolta. Porque socorrer a Eliz dependia de uma única coisa, que a ajuda chegasse depressa.

 E foi exatamente isso que não aconteceu. Com a Elice caída no chão, o Samuel fez o que qualquer faria. Pediu socorro, chamou o médico da cantora, chamou uma ambulância pro hospital das clínicas, fez o que o mundo manda fazer numa emergência, ligar e esperar que a ajuda chegue. A ajuda não chegou. Leia de novo, devagar, porque é nesta frase que mora a tragédia.

 A ajuda não chegou, os minutos foram passando. O Samuel tentando reanimar Elise, gritando o nome dela, fazendo o que conseguia. E a ambulância não vinha. Não vinha. O relógio andava e do lado de fora não tinha sirene nenhuma se aproximando. Numa emergência destas, em que o corpo está a desligar devagar, cada minuto perdido é menos um pedaço de hipótese.

 E ali se perdiam minutos preciosos, esperando um socorro que parecia ter esquecido que existia uma vida em jogo. O Samuel entendeu que se continuasse à espera ia ver a Elise morrer ali mesmo, caída em casa. Então tomou a decisão que ninguém deveria precisar tomar. Ia levá-la com as próprias mãos.

 E aqui a cena fica de cortar o coração. A secretária da Eliz, a Celina, desceu a correr para a entrada de serviço do prédio, gritando por um táxi na rua. Quem parou foi um motorista português, o Manuel num Volkswagen Carocha branco. Marcha-atrás, subiu para a calçada. O Samuel desceu com a Eliz nos braços, mal coberta por uma manta.

 O porteiro do prédio ajudou a transportar o corpo já frio para dentro do carro. A maior cantora do Brasil, um nome que enchia teatros e vendia milhões de discos, sendo levada para morrer no banco de trás de um táxi. Porque a ambulância nunca veio. Pára e pensa no tamanho disso. E há o pormenor que magoa ainda mais. No instante em que colocaram a Elis no carro, as crianças viram.

 O Pedro e a Maria Rita, pequenininhos. Brincavam no jardim do térrio com a ama e viram a mãe a ser carregada inerte para o interior de um táxi. O João Marcelo, o mais velho, já tinha presenciado a confusão toda lá em cima. Os três filhos da Eliz, num só dia, perderam a infância juntamente com a mãe. O Carocha do Manuel partiu veloz pela cidade com Samuel no banco da frente.

 A Eliz deu entrada nas urgências do Hospital das Clínicas por volta das 11:30 da manhã. Os médicos saltaram para cima dela, fizeram tudo o que a medicina daquela época permitia fazer. Massagem, tentativa de reanimação, a luta dos profissionais para trazer de volta alguém que já ia. Foi tudo muito rápido.

 Lembrou-se quem lá estava? 15, 20 minutos de batalha. Então o médico aproximou-se das pessoas que esperavam com aquela cara que ninguém quer ver e disse a frase mais curta e mais definitiva do mundo. Ela não aguentou. Ao meio-dia daquela Terça-feira, dia 19 de Janeiro de 1982, Eliz Regina foi declarada morta e os médicos que a receberam foram claros sobre uma coisa: a Elise chegou tarde demais. Tarde demais.

 Os sinais mostravam que ela tinha chegado aos cuidados deles depois da hora em que ainda dava para fazer alguma coisa. A mesma demora que tirou a ambulância da equação, a espera que empurrou o Samuel pro táxi, tinha consumido exactamente a janela temporal que separava a Eliz da vida. A questão que fica e que nunca vai ter resposta é simples e terrível.

Se a ajuda tivesse chegado depressa, a Elise estaria viva. Mas a crueldade desta história não terminou na morte dela. Na verdade, em certo sentido, ela só começou aí, porque o que vinha a seguir, o papel que ia ser escrito sobre esta morte e a forma como o país ia reagir a ele é a parte que a família da Eliz nunca, nunca conseguiu aceitar.

Dois dias depois da morte, a 21 de janeiro de 1982, saiu o relatório do Instituto de Medicina Legal. E o Brasil inteiro leu em letra de jornal o que tinha calado a voz da pimentinha: intoxicação por bebida alcoólica e cocaína, overdose. A palavra estava ali oficial, carimbada, definitiva.

 E foi aí que aconteceu uma coisa que diz mais sobre o Brasil daquela época do que sobre a Eliz. Em vez de chorar, uma parte do país apontou o dedo. Lembra-se daquela conta que o Brasil tinha aberto com a Eliz lá atrás por causa da política? Pois é, chegou a hora de cobrarem. Estávamos em 1982, uma sociedade conservadora ainda sob a ditadura.

 E a notícia de que a maior cantora do país, uma mulher independente, separada de dois casamentos, mãe de três filhos, tinha morreu com cocaína no corpo. Foi como atirar carne para os leões. A revista Veja estampou na capa um título que resume toda a crueldade do momento, o amargo brilho do pó. E nas páginas de dentro, em vez de homenagem, vieram as contradições, a tagarelice, o julgamento moral de uma vida inteira reduzida aquela última madrugada.

 De repente, não se falava da artista que tinha vendido milhões de discos, que tinha revolucionado a música brasileira, que tinha dado voz aos exilados. Falava-se da viciada, da mulher que se destruiu, da que deu mau exemplo. O mesmo país que ela embalou a vida toda decidiu que ela tinha tido o fim que merecia. Imagina ser filho desta mulher, ter 11, 6, 4 anos de idade, acabar de perder a mãe e ligar a televisão ou abrir a revista para ver o país inteiro a chamar-lhe do pior que existe.

 Que tipo de crueldade é essa? E é exatamente por causa desta injustiça, desta pressa do país em condenar, que muita gente próxima da Eliz não engoliu a história contada, porque havia coisas nesse relatório e em quem assinou aquele relatório que não fechavam. E quando descobrir quem foi o homem que pôs a assinatura no documento que selou a versão oficial do morte da Eliz, vai perceber porque essa dúvida nunca mais desapareceu.

O nome deste homem já tinha aparecido antes na história mais negra do Brasil e não foi numa história bonita. O laudo da morte de Elise Regina foi assinado pelo diretor do Instituto de Medicina Legal de São Paulo na época. O seu nome era Harry Shibata. E para compreender por esse nome fez a família e os amigos da Eliz ficarem de orelha em riste, precisa saber quem era Harry Shibata.

 6 anos antes, em 1975, foi Harry Shibata quem assinou o relatório do jornalista Vladimir Herzog. O laudo que dizia que o Herzog se tinha suicidado. Só que o Brasil inteiro sabe hoje, e uma boa parte já desconfiava na altura em que o Herzog não se suicidou. Ele foi morto sobortura nas instalações do regime militar.

 Shibata assinou aquele atestado de suicídio sem sequer ter visto o corpo direito. E não foi só o Herzog. O nome dele está ligado a outra alas relatórios que maquilharam mortes por tortura durante a ditadura. Em 1980, 2 anos antes da morte da Elice, esse mesmo Harry Shibata, tinha o registo de médico caado, considerado culpado de falsificar relatórios de necrópsia para encobrir torturas.

 foi condecorado pelo exército por colaborar com o regime. E foi esse o homem com este exato historial que pôs a assinatura no documento que definiu pro Brasil inteiro como a Eliz Regina tinha morrido. Agora já entende porque a família nunca olhou para aquele papel da mesma forma que o resto do país. E tinha mais um pormenor, um pormenor cruel que deitava lenha nessa desconfiança.

 O O namorado da Elice, o Samuel, que tentou salvá-la, era advogado. E segundo relataram pessoas próximas como o compositor e do lobo, o Samuel tinha ligação com processos movidos contra a União, contra o Estado, precisamente por causa de mortes da ditadura, incluindo o caso Herzog, o mesmo caso de Shibata. Para quem queria ver um ajuste de contas, estava lá tudo.

 O médico legista do regime assinando o relatório da namorada de um advogado que processava o regime. As peças encaixavam de uma forma perturbador. Então, foi isso? A Eliz foi morta? Aqui preciso de ser muito honesto consigo, porque merece a verdade e não a versão que daria mais cliques. Não não existe qualquer prova de que a Eliz Regina tenha sido assassinada. Nenhuma.

O que existe é uma combinação de coisas que deixou uma dúvida no ar e nunca mais saiu. Uma morte súbita de uma mulher sem histórico de adição, um relatório rápido e a assinatura bem por baixo desse laudo de um homem que já tinha mentido em relatórios a serviço da ditadura. Suma isso a demora criminosa do socorro e tem o terreno perfeito paraa suspeita crescer.

O próprio biógrafo da Eliz, o Júlio Maria, que teve acesso ao inquérito, minimiza a tese da conspiração. Amigos como Nelson Mota dizem que foi um acidente puro, que a mistura de álcool e cocaína fez o coração dela parar e que se isso matasse toda a gente, metade da MPB teria morrido junto.

 Essa é ainda hoje a explicação mais aceite, um acidente trágico, evitável, com socorro que falhou. Mas a verdade mais profunda a que o tempo revelou é que o Brasil nunca vai ter a certeza absoluta do que aconteceu naquele quarto. E a culpa disso não é da família que duvidou. A culpa é de um sistema que colocou um falsificador de relatórios da ditadura no comando do instituto que ia explicar a morte da maior artista do país.

 Quando quem assina a verdade oficial é alguém que já mentiu oficialmente, a verdade morre juntamente com a vítima. Foi esse o veneno que a ditadura deixou. Ela tirou do Brasil até o direito de ter a certeza de como a Eliz morreu. E enquanto o país discutia o laudo, o escândalo e a suspeita, três crianças enterravam a mãe.

 É para elas que precisamos de olhar agora, porque a parte mais bonita e mais de cortar o coração desta história inteira ainda está por vir. Décadas depois da morte, quando o biógrafo Júlio Maria foi reconstruir a vida da Elice, o filho dela, o Pedro, mostrou uma coisa que tinha ficado guardada na família.

cadernetas, uma agenda, as notas pessoais da Eliz e o que estava escrito aí muda completamente a forma como a as pessoas entendem aquela madrugada de janeiro. que nas páginas daquela agenda não havia despedida nenhuma, não havia tristeza de quem se estava a entregar, havia o contrário, havia planos, projetos pro ano de 1982, ideias de disco, de concerto, de digressão, coisas que ela queria fazer, sítios onde queria cantar, sonhos anotados com a letra dela, marcados para acontecer nos meses seguintes. Entende o que este

significa? A eles não estava de saída da vida. Ela estava cheia dela. Uma mulher que planeia o ano inteiro não é uma mulher que quer morrer, é uma mulher que tem pressa de viver. Aquelas anotações são a prova mais forte de que a morte da Eliz foi um acidente brutal e estúpido, e não um fim anunciado.Um furação chamado Elis Regina - Harper's Bazaar » Moda, beleza e estilo de  vida em um só site

 Ela tinha acabado de sair de uma separação dura. estava num momento frágil e tropeçou uma única vez num lugar onde nunca tinha pisado. Mas a cabeça dela no papel estava voltada inteira para o futuro, um futuro que ela não chegou a viver. E é é isso que transforma a história da Eliz de triste e insuportável. Ninguém se apagou aos poucos ali cansado da vida.

 O que se perdeu foi uma mulher de 36 anos no auge da voz com a agenda cheia de planos. arrancada do mundo numa madrugada por um acidente que talvez o socorro pudesse ter desfeito. Tudo o que estava escrito naquelas páginas virou pó juntamente com ela. A Eli deixou os planos no papel e deixou três filhos no mundo. É com eles e com o último gesto dela que esta história precisa de terminar.

 Apesar de tudo o que escreveram nas revistas, apesar do dedo apontado por uma parte do país, quando o corpo da E Lis foi velado no teatro Bandeirantes em São Paulo, aconteceu uma coisa que desmentiu todos os os julgamentos de uma só vez. O povo veio, veio em multidão. Milhares e milhares de pessoas numa fila que não acabava atravessaram aquele teatro para dizer adeus.

 No dia seguinte, um cortejo tomou as ruas do centro de São Paulo a caminho do cemitério do Morumbi, com a multidão a cantar as músicas dela pelo caminho. Os escândalos das revistas não seguraram o amor do povo. As pessoas comuns, as que ouviam a Eliz na rádio, as que choraram com a voz dela, estas sabiam exatamente quem ela era e foram lá aos milhares provar isso.

 Mas o gesto mais forte daquele adeus não veio da multidão, veio do corpo da própria Elice. E é agora que aquela t-shirt que pedi-lhe para guardar a volta, recorda-se da t-shirt que a censura tinha proibido a Elis de usar em palco? A bandeira do Brasil com o seu nome Regina, escrito no lugar de Ordem e Progresso, pois foi exatamente com este t-shirt que foi enterrada.

A peça proibida pela ditadura tornou-se a mortalha dela. Pensa no tamanho desta imagem. A mulher que apelidaram de cantora da ditadura foi sepultada envergando o símbolo proibido pela ditadura. O Brasil, que tentou marcá-la como colaboradora, teve de assistir a ela ser sepultada como aquilo que sempre foi de verdade.

 Uma mulher que era a cara do país, livre, indomável, com o próprio nome no lugar do lema oficial. Foi a última resposta da Elice, calada, deitada e ainda assim que mais alta que todos os que a julgaram. E se acha que esta história não podia ficar mais comovente, espera, porque tem uma carta. Uma carta que ficou guardada durante quase 20 anos.

 A Elise não morreu pobre de legado. Ela deixou 30 e tal discos que são património da música brasileira. deixou Águas de Março, o bêbado e a equilibrista, como os nossos pais, canções que tocam até hoje e que vão tocar para sempre. Deixou o caminho aberto para todas as cantoras que vieram depois, mas o seu legado mais precioso tinha nome e eram três: João Marcelo, Pedro e Maria Rita.

 E aqui a história dá uma volta que parece um guião de cinema, mas é verdade. A Maria Rita, aquela menina pequenina que brincava no jardim no dia em que a mãe foi levada, cresceu e tornou-se uma das maiores cantoras do Brasil, com uma voz que faz o país inteiro lembrar-se da mãe. O Pedro Mariano também seguiu a música, também canta lindamente.

 E o João Marcelo, o rapaz de 11 anos, que ajudou a arrombar aquela porta, tornou-se produtor musical. e passou a vida a tentar manter a memória da mãe viva. E foi precisamente o João Marcelo quem guardou, sem saber, o objeto mais precioso desta história inteira. Quando ainda era bebé, com cerca de um ano de idade, o Eli sentou-se e escreveu uma carta ao filho.

 Uma carta para ser lida apenas quando ele crescesse. Lá à frente, quando se tornasse adulto. Ela guardou. E a vida seguiu e veio a separação. E veio aquela manhã de janeiro. E a Elise morreu sem nunca poder entregar aquela carta com as próprias mãos. O João Marcelo só foi ler as palavras que a mãe tinha escrito para -lo décadas depois.

 já adulto durante a produção de um livro sobre a sua vida. Imagina isso. Um homem feito que perdeu a mãe aos 11 anos, que toda a vida ouviu as pessoas perguntarem: “Ainda lembra-se dela?” Finalmente ler no papel com a letra dela o que a mãe lhe quis dizer antes de qualquer tragédia, antes de qualquer relatório, antes de qualquer julgamento, a voz da mãe chegando até ele da única maneira que ainda era possível por escrito do passado.

 Ele lhe contou mais tarde que o maior receio da A sua vida sempre foi que a mãe fosse esquecida, que as pessoas deixassem de lembrar dela. E é por isso que ele escreveu sobre ela, falou sobre ela, lutou para que o nome dela não desaparecesse e os três filhos fizeram juntos uma escolha que diz tudo sobre o amor que tinham por ela.

 Quando a biografia mais completa da Eliz foi escrita, com tudo no interior, incluindo as páginas mais duras, as que falavam das drogas, da noite final, dos erros, leram. Sofreram com muita coisa ali e não pediram para cortar uma única linha. Deixaram a verdade inteira ser contada, a bonita e a dolorosa, porque compreenderam que a mãe deles era demasiado grande para caber apenas na parte fácil da história.

Pensa em tudo o que percorremos até aqui. a menina de Porto Alegre, que aos 13 anos sustentava a casa, a mulher que tornou-se a maior voz do país, a artista injustamente marcada que respondeu cantando a liberdade. A mãe que morreu no chão das casas à espera de um socorro que demorou demasiado tempo, a morte rodeada de um relatório que ninguém de dentro acreditou, assinado pela mão errada.

 E no fim de tudo, um filho a ler uma carta 20 anos atrasada. A Eliz Regina passou a vida inteira a carregar os outros nas costas desde menina. E quando chegou a hora dela, no momento em que ela precisou que alguém a carregasse de volta, o socorro não chegou a tempo e o país preferiu julgá-la a chorá-la.

 Mas o tempo, que é mais justo que as manchetes, colocou cada coisa no lugar. Hoje ninguém se lembra dos cruéis títulos das revistas de 1982. Hoje o que toca na rádio é a voz dela. O que fica é o amor de quem a ouve e de três filhos que nunca a esqueceram. Talvez seja esta a lição mais dura deste história.

 A gente quase nunca dá para estas vozes, para as pessoas que nos embalam toda a vida, o cuidado que elas dão-nos. A gente julga rápido e cuida devagar. E quando se apercebe, às vezes já é tarde demais para ligar, para abraçar, para dizer o que precisava de ser dito. Então, se essa história mexeu contigo, faz uma coisa por mim hoje.

 Pega no telefone e liga para aquela pessoa que sempre cuidou de você e que se anda a esquecer de retribuir. Liga enquanto é tempo, porque a Elisa ensinou da forma mais doloroso que o tempo para dizer eu te amo é sempre agora.

 

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