A Primeira Apresentação de ROBERTO CARLOS na TV Durou 3 Minutos e Deixou Diretores Sem Reação tc

A Primeira Apresentação de ROBERTO CARLOS na TV Durou 3 Minutos e Deixou Diretores Sem Reação tc

antes de encher estádios, antes de vender mais de 140 milhões de discos, antes de se tornar o rei. Roberto Carlos era apenas um rapaz magro, de sorriso tímido, que carregava uma guitarra debaixo do braço e um sonho enorme no coração. Um rapaz que dependia de um único momento para mudar tudo. E esse momento durou apenas 3 minutos.

3 minutos que quase não aconteceram. 3 minutos que muitos dentro da televisão brasileira não queriam que acontecessem. Três minutos que deixaram os produtores sem palavras, técnicos sem reação e um estúdio inteiro suspendendo a respiração. Mas antes de lá chegar, precisou sobreviver a algo muito maior do que um palco.

 Precisou de sobreviver à dúvida, ao descaso e a crença de que ele simplesmente não era suficientemente bom. Nessa época, o Rio de Janeiro dos anos 1950 era uma cidade vibrante, cheia de sons novos a chegar de todos os lados. O rock and roll tinha explodido nos Estados Unidos e o mundo inteiro tremia ao som de Elvis Presley. No Brasil, a televisão era ainda uma novidade cara e excitante.

Pouquíssimas famílias tinham aparelho em casa. Aparecer no ecrã significava existir de uma forma que o rádio por si só não conseguia oferecer. Significava ser visto, significava ser real. Roberto Carlos chegou a esta cidade jovem, vindo de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, um menino do interior que transportava não só o violão, mas também a marca invisível de uma infância atravessada pela dor.

Aos 6 anos, tinha perdido parte da perna direita num acidente de comboio. Durante anos, andou com muletas, enquanto a família pobre não tinha como comprar uma prótese. A primeira chegou quando já tinha 15 anos. E quando este jovem com prótese chegou ao rio com o sonho de cantar, ninguém na indústria musical foi especialmente gentil com ele.

O Rio de Janeiro, desses anos tinha um ritmo próprio. A bossa nova dominava os ambientes chiques de Copacabana. As rádios preferiam o samba canção suave, os elegantes boleiros, as vozes bem comportadas. O rock era visto por muitos como uma coisa de miúdo, barulho americano sem alma, modinha passageira que não tinha vez em lugar sério, e um rapaz do campo com sotaque de saloio e estilo imitando Elvis Presley.

Para muita gente do meio artístico, aquilo parecia uma brincadeira. O Roberto estudava no supletivo para tentar garantir um futuro. Fazia um curso de dactilografia para ter um rendimento, mas a música não saía do pensamento, nunca saía. E foi dentro de uma escola, quase por acaso,  que o destino deu o primeiro sinal.

Na escola Ultra, na Praça da Bandeira, um jovem assistente de televisão chamado Octaávio I ouvia o Roberto cantar nos intervalos das aulas. Octaávio trabalhava para o apresentador Xianka de Garcia, que  comandava um programa chamado Teletour na TV Tupi. E foi ele que, ao ouvir aquela voz forte e afinada cantando Tuti Fru de Little Richard, viu ali algo que outros ainda não conseguiam ver.

O convite chegou quase como um favor, uma pequena oportunidade, sem garantias, sem holofotes, apenas uma abertura mínima numa grelha de programação que estava sempre repleta de artistas mais experientes, mais consagrados, mais aceites. Mas para Roberto Carlos, aquele convite era o mundo inteiro. E se gosta de ouvir histórias como que, contadas com emoção e respeito, se subscrevam o canal, porque ainda há muitos capítulos da vida de Roberto Carlos que continuam a tocar o coração do Brasil.

Chegou o dia da apresentação. Roberto Carlos tinha 16 anos. O estúdio da TV Tupi era um ambiente intimidante para qualquer jovem. Quanto mais para um rapaz que nunca tinha pisado num lugar assim. As câmaras pesadas, as luzes demasiado quentes, os técnicos circulando com aquela indiferença de quem já tinha visto tudo e não esperava mais surpresas.

E os produtores, claro, aqueles homens de fato que decidiam quem merecia espaço na televisão brasileira e quem não merecia. Naquele ambiente, Roberto Carlos era um rosto desconhecido, entre muitos outros rostos desconhecidos. um jovem que tinha chegado com a indicação de um assistente, não pela recomendação de um nome importante, e isso fazia toda a diferença.

Segundo relatos da época, o ambiente nos bastidores da televisão brasileira daqueles anos era marcado por uma hierarquia rígida e muita desconfiança em relação ao novo. Os diretores e Os produtores eram homens habituados a trabalhar com artistas que seguiam um padrão claro. Voz treinada, aparência impecável, repertório elegante.

E ali estava aquele rapaz a querer imitar Elvis Presley, num país onde Elvis Presley parecia ter chegado de outro planeta. Há quem diga que as reações nos bastidores antes da apresentação não eram de entusiasmo. O rock era visto por grande parte do establishment artístico como uma moda que passaria depressa.

 Coisa de jovem sem critério, ruído sem elegância. E um cantor de rock do interior, sem estúdio, sem editora, sem qualquer apoio da indústria, era visto com ainda menos seriedade. Mas o Roberto Carlos estava lá e ele estava pronto. A contagem decrescente começou. O que se sabe é que naquele pequeno espaço de tempo, perante as câmaras da TV Tupi, Roberto Carlos cantou Tuti Fruti com uma energia que não era comum naquele ambiente.

Não era a elegância estudada dos cantores de Bolero, não era a suavidade calculada dos Kruners de Bossa Nova. Era algo diferente, algo que chegava antes que qualquer explicação fosse possível. Aquele rapaz movia-se, entregava-se, cantava como se não existisse mais nada para além daquele microfone e daquela música.

E o público que assistia, mesmo pequeno, mesmo surpreendido, sentiu aquilo. Carlos Imperial, o apresentador e produtor que ficaria famoso por revelar talentos nesse período, percebeu imediatamente. Roberto Carlos a cantar Tuti Fruti, tinha uma aprovação do público que não era fingida, era real. E a provação real era a moeda mais valiosa que existia na televisão.

Mas o que aconteceu depois da apresentação guarda um sabor especial. Porque enquanto uns já começavam a perceber que tinham visto algo diferente, outros insistiam no ceticismo. Os bastidores da televisão brasileira eram assim, cheios de opiniões fortes, de egos protegidos, de apostas feitas mesmo antes de qualquer dado concreto.

E as conversas que circulavam naquele ambiente depois desses 3 minutos, segundo se conta, estavam longe de ser unânimes. Havia quem dissesse que tinha sido apenas o entusiasmo de um público jovem e facilmente impressionável. Havia quem apostasse que aquele rapaz nunca teria futuro na rádio, quanto mais na televisão.

 E havia quem já levantasse a questão que marcaria muitos anos da carreira de Roberto Carlos. O seu estilo era demasiado forte, demasiado jovem, demasiado barulhento para um país que preferia a elegância e a contenção. A televisão brasileira desse tempo era um mundo onde os critérios de sucesso eram estabelecidos por um pequeno grupo de pessoas que acreditavam saber exatamente o que o público queria ouvir.

 E um rapaz a imitar o Elvis Presley, por mais que tivesse agradado naquela tarde, não se enquadrava facilmente neste modelo. Carlos Imperial, no entanto, era diferente. Via o que os outros não viam e começou a apresentar Roberto Carlos regularmente no programa como o Elvis brasileiro. Aquele apelido vinha com uma carga dupla.

 Por um lado, era uma forma de dar ao jovem cantor uma identidade reconhecível. do outro era uma forma de o minimizar, como se ele fosse apenas uma versão local de algo que vinha do exterior, sem originalidade própria, sem voz própria. Mas Roberto Carlos aceitou aquilo como aceitava tudo, com paciência, com determinação silenciosa, assistia ao programa, cantava com o mesmo calor de sempre e conquistava o público um bocadinho de cada vez.

Nesse período, a vida de Roberto Carlos estava dividida entre o sonho e a sobrevivência. De dia estudava, tentava manter-se, procurava oportunidades em discotecas, festas, qualquer espaço que aceitasse a sua música. À noite cantava como Kuner na discoteca do Hotel Plaza em Copacabana, tentando agradar a um público que preferia João Gilberto a energia do rock roll.

E muitas vezes a reação era morna, uma frieza educada que dói muito mais do que a rejeição aberta. Há algo de profundamente humano nesta imagem. Um jovem com uma prótese na perna, longe de casa, cantando numa discoteca de luxo para um público que fingia não o ouvir, recebendo um pequeno cachet que mal cobria o transporte.

 e voltando a casa, sem saber se o dia seguinte traria uma nova oportunidade ou mais um silêncio frio. Quem viveu essa época talvez se lembre do quanto a música brasileira estava em transformação naquele momento. O rádio era ainda o grande rei, mas a televisão começava a crescer e nesta transição havia muito pouco espaço para quem não se enquadrava nos padrões estabelecidos.

Roberto Carlos não se enquadrava e esta era, [a música] ao mesmo tempo, a sua fraqueza e a sua força maior. E há uma coisa que precisa de ser dita aqui, porque ela explica muita coisa sobre o carácter deste homem. Havia uma frase que Roberto Carlos transportava dentro de si desde há muito jovem, uma convicção que repetia para quem quisesse ouvir e também para quem não queria.

Dizia sem hesitar, vou ser um astro. Se tiver de trabalhar num banco para isso, eu trabalho, mas serei um astro. Esta frase não era arrogância, era a única armadura que tinha. Numia em não o ver, aquela certeza íntima era o que o mantinha de pé. Era o que o fazia aparecer no estúdio mesmo quando ninguém o esperava.

 Era o que o fazia continuar a cantar para plateias que quase não existiam. E por dentro daquela discoteca do Hotel Plaza, havia um pormenor que poucas as pessoas sabem. Roberto Carlos não estava sozinho em palco nessas noites. Ao seu lado, durante meses, sentado ao piano, estava o músico João Donato, um dos grandes nomes da bossa nova brasileira, um homem que tinha tocado com o que havia de melhor na música do país e que ali, naquela discoteca, ouviu noite após noite a voz de um jovem desconhecido, que não conseguia se encaixar em nenhum estilo, mas que

transportava dentro de si algo  que poucos sabiam nomear. Foi aí também, naquela discoteca que o Roberto reencontrou Carlos Imperial. Imperial chegou e soltou uma gargalhada ao ver o ex-roqueiro tentando fazer-se passar por Kruner de Bossa Nova. Era quase ridículo. Um rapaz que tinha cantado rock com a veia de Elvis Presley ali de banquinho e guitarra, imitando João Gilberto.

Mas depois de a gargalhada passar, Imperial olhou de novo e escutou de verdade. E algo naquele palco, naquela voz, naquela entrega sem disfarce, falou mais alto do que qualquer estilo. Mas esta história ainda guardava um detalhe doloroso. Num dos momentos mais reveladores deste período inicial, Roberto Carlos aproximou-se de Carlos Imperial após uma apresentação do grupo de Sputnics, do qual fazia parte, e disse algo que poucos teriam coragem de o dizer.

 olhou nos olhos do apresentador e disse que sabia imitar Elvis Presley. Era uma afirmação simples, quase uma súplica disfarçada de confiança, um jovem a pedir uma oportunidade de mostrar o que sabia fazer na única língua que conhecia. Imperial ficou interessado e deu a Roberto um momento a solo no programa. Tin Maia, que liderava o grupo, ficou furioso.

 Aquela rivalidade inicial entre os dois, que viria a marcar para sempre a história da música brasileira, começou ali, no estúdio de uma televisão que ainda não sabia muito bem o que fazer com aqueles jovens barulhentos. E é impossível não pensar no que Roberto O Carlos deve ter sentido naquele momento. A mistura de alívio e medo, a gratidão pela oportunidade e pelo peso de saber que ela poderia não se repetir.

 A solidão de ser um jovem de 16 anos longe da mãe, num estúdio de televisão onde ninguém apostava muito no seu futuro. Porque a mãe dele, a dona Laura, era o centro de tudo. Era ela quem costurava as roupas para as apresentações. Era ela quem incentivava quando a vontade de desistir chegava mais forte. Era ela que tinha colocado nas mãos do filho a convicção de que a música era um caminho real, possível, digno.

E ali, naquele estúdio frio e indiferente, era também ela que Roberto carregava no coração. Os anos que se seguiram não foram fáceis. A televisão continuou a ser um terreno difícil. O primeiro disco editado em 1959 pela Polidor passou praticamente despercebido. Era um compacto simples, com dois sambas, João e Maria, e fora do Tom, compostos por Carlos Imperial.

O disco revelava um Roberto Carlos tentando imitar João Gilberto, seguindo os conselhos de quem achava que o caminho do sucesso passava pela bossa nova elegante e não pelo roque vigoroso que trazia dentro de si. Não teve sucesso, mas o que veio a seguir foi ainda mais difícil de engolir. Com o disco debaixo do braço e o coração cheio de esperança, Roberto Carlos saiu da editora e tomou um comboio para Lins de Vasconcelos.

Chegou a casa e deu o disco de presente para a dona Laura. Ela segurou aquele vinil nas mãos com um sorriso, só que havia um amargo pormenor naquele momento, um pormenor que poucos sabem. Roberto não pôde ouvir as gravações com a mãe porque em casa nesse dia não havia gira-discos. Aquela imagem diz tudo sobre aquele período.

E depois veio a crítica. No jornal Última Hora, o disco recebeu uma nota que Roberto Carlos nunca esqueceria. O crítico escreveu de forma fria e direta que o jovem cantor imitava João Gilberto, que faltava ali qualquer coisa,  que a bossa nova não precisava de mais um imitador. Palavras que cortam, palavras que chegam antes do sucesso e ficam muito depois do esquecimento.

Mas o pior ainda estava para vir. Roberto Carlos e Carlos Imperial foram depois de gravadora em gravadora, tentando abrir uma porta que não parava de se fechar. Foram a Chantecler, a Taça Cabana, a Continental, a RCA Victor, a Philips. E em cada uma destas visitas, a resposta era semelhante, negativa, indiferença.

E numa delas, a editora Copacabana, alguém disse algo que poderia ter encerrado tudo ali. Disseram a Roberto Carlos que devia desistir da carreira. Não estavam a ser cruéis pelo prazer de ser, estavam a ser práticos. E para eles, aquele jovem, sem o estilo certo, sem o repertório certo, sem o respaldo certo, era simplesmente mais um entre tantos que chegavam com sonhos de mais e talento a menos.

Essa era a avaliação deles. Essa era a sentença. E Roberto Carlos saiu da editora sem assinar nenhum contrato e voltou e tentou de novo. As coisas pioraram. Antes de melhorar, Roberto perdeu o emprego na Boate Plaza e quando a Boate Chique fechou as portas para ele, precisou de cantar em locais bem diferentes, bares simples, cabarés, locais onde o público não ia ouvir música, ia beber, ia conversar, ia esquecer.

E ali estava aquele rapaz com a voz mais bonita que a noite carioca tinha escutado nos últimos anos, cantando para pessoas que mal olhavam para o palco. É impossível não imaginar o peso daquilo. A humilhação silenciosa de dar o melhor de si para quem não está prestando atenção. O frio de um microfone perante uma plateia que preferia a bebida à música e ao mesmo tempo, a teimosia de continuar.

a recusa absoluta de abandonar o que havia dentro dele. Há quem tenha estudado a fundo a percurso de Roberto Carlos e chegado à mesma conclusão. Nenhum outro artista daquela geração enfrentou tantas portas fechadas e continuou a bater com a mesma determinação. Era como se ele soubesse algo que mais ninguém sabia, como se houvesse uma verdade dentro dele que nenhuma rejeição conseguia apagar.

O primeiro LP Louco por ti, editado em 1961, teve uma recepção morna. Era um disco sem nome e sem foto do artista na capa, como se o próprio Roberto Carlos não merecesse ser apresentado ao público que compraria aquele vinil. Uma raridade que o próprio nunca voltaria a mencionar com carinho. E mesmo assim ele  não parou.

E então a Colúmbia abriu uma brecha. O diretor artístico Roberto Corte Real decidiu apostar não com entusiasmo imediato, com cautela,  com o cuidado de quem não quer errar, mas também não quer perder algo que talvez valha a pena. Ouviu Roberto Carlos cantar e disse que o contrato iria continuar, que haveria uma nova oportunidade.

Mas a verdade é que a Colúmbia naquele momento tinha outro cantor como estrela principal do rock, um nome mais estabelecido, mais aceite,  mais confortável para a editora, Sérgio Murilo. E enquanto Sérgio Murilo esteve no topo, Roberto Carlos ficou em segundo plano, aguardando, existindo nas margens de uma indústria que ainda não sabia muito bem o que fazer com ele.

Mas a sorte também faz parte das histórias grandes. E Sérgio Murilo e a gravadora começaram a desentender-se. As quezílias foram ficando maiores até que Murilo foi posto de lado. E o espaço que ficou vazio era exatamente do tamanho de Roberto Carlos. De repente, aquele rapaz que tinha sido ignorado, rejeitado, mandado desistir, passou a ser o principal apostador de rock da editora.

Não porque tivessem mudado de opinião sobre ele, mas porque as circunstâncias obrigaram-nos a enxergar o que sempre esteve ali. Há quem diga que a teimosia de Roberto Carlos neste período era quase irracional. Tudo indicava que o caminho não levaria a lugar algum. Os discos não vendiam. A televisão tolerava-o mais do que o abraçava.

A indústria musical brasileira preferia outros nomes e, no entanto, ele continuava aparecendo, continuava a cantar, continuava a acreditar naquilo que só conseguia ouvir dentro de si. E depois veio o Erasmo Carlos. Aquela parceria que mudaria tudo começou de uma forma tão simples como uma letra de música.

 O Roberto precisava da letra de Hound Dog de Elvis Presley para uma apresentação. Alguém lhe disse que um rapaz chamado Erasmo Esteves tinha a letra transcrita em casa. Foramse encontrar e o que começou por ser uma troca de favor entre dois jovens apaixonados pelo Rock transformou-se na dupla mais importante da música popular brasileira.

Juntos, Roberto e Erasmo encontraram a linguagem que faltava. Não era a bossa nova requintada, não era o rock americano puro, era algo de novo, brasileiro, cheio de energia e, ao mesmo tempo, capaz de tocar o coração. Era uma voz que falava diretamente para quem ouvia, sem intermediários, sem distância. E quando Splish Splash chegou em 1963, algo mudou.

 A música que Roberto e Erasmo criaram juntos chegou às rádios e às vitrolas dos lares brasileiros com uma força diferente. Era impossível não mexer o corpo, era impossível não sorrir. E aquele público que a televisão dizia não existir, aquele público jovem e sedento de uma música que fosse sua, mostrou que existia. Existia muito. A televisão percebeu que a rádio já havia sentido, mas nem todo o Brasil se rendeu de uma vez.

Porque enquanto o público jovem enlouquecia com a Jovem Guarda, a A crítica musical brasileira decidiu ir na direção contrária. Os jornalistas especializados, os intelectuais da música, os defensores da Bossa Nova e da MPB, olharam para o que Roberto Carlos estava a fazer e decidiram que não era arte, era ruído, era alienação, era a mediocridade com guitarra elétrica.

Existe até um livro que analisa exatamente isso. Um investigador passou anos a estudar como a imprensa brasileira tratou Roberto Carlos ao longo da sua carreira e o título que ele escolheu para o livro de estudo. Apenas três palavras que resumem décadas de relação entre o rei e os seus críticos. Querem acabar comigo? Porque era isso mesmo que tentavam, não com violência, com palavras.

Com teorias, com a autoridade de quem acredita que o gosto musical é uma questão de inteligência. E Roberto Carlos, na visão deles, era a prova de que o Brasil estava a regredir. Mas o público não leu aqueles artigos nem leu e não se importou, porque havia algo naquela música que chegava antes de qualquer análise intelectual, chegava ao corpo, chegava ao coração, chegava à memória afetiva de quem ouvia.

E nenhuma crítica de jornal conseguia apagar isso. Décadas depois, os investigadores revisitariam aquela fase da Jovem Guarda e chegariam à conclusão que o público já tinha chegado lá atrás, que aqueles discos eram grandes, que Roberto Carlos tinha criado com Erasmo, a linguagem do poperno brasileiro antes de qualquer outro soubesse que isso era possível.

Mas essa conclusão chegou tarde demais para amenizar o que viveu naquele período. E em 1965, quando Roberto Carlos Erasmo e Vanderleia inauguraram o programa Jovem Guarda na TV Record de São Paulo, ficou claro para todos que aqueles 3 minutos do jovem rapaz na TV Tupi não tinham sido um acidente. Não tinham sido sorte de uma tarde.

Tinham sido o primeiro passo de algo que o Brasil inteiro estava à espera sem saber. É mais pequeno que o Cardinal 1. Cardinal é maior do que o programa Jovem Guarda se tornou um fenómeno. Um movimento cultural que agitou o Brasil de uma ponta a outra. Uma geração inteira de jovens encontrou aí a sua música, a sua moda, a sua forma de ver o mundo.

E no centro de tudo isto estava aquele rapaz tímido do interior do Espírito Santo, que tinha pedido 3 minutos de uma televisão que mal acreditava nele. Sabe o que o programa Jovem Guarda chegou a fazer nas tardes de domingo? 3 milhões de telespectadores só em São Paulo. Transmitido por Videotape para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife.

Aqueles eram os números de um Brasil que tinha escolhido o Roberto Carlos. Não porque alguém mandou, não porque a crítica aprovou, mas porque aquela voz tinha chegado antes de qualquer argumentação e instalado dentro de cada ouvinte uma coisa simples e irreversível. a certeza de que aquela música era deles. E os diretores que antes duvidavam, os produtores que tinham erguido o nariz para aquele rapaz do interior.

 Segundo se conta, muitos deles pediam agora audiência com o mesmo jovem que anos antes tinha chegado pela porta dos fundos com uma indicação de assistente. Em 1966, Chakrinha colocou uma coroa na cabeça de Roberto Carlos na TV Exelcior e declarou para o Brasil inteiro que era o rei da juventude. A sua própria mãe, a dona Laura, estava lá para colocar a coroa no filho.

 A mesma mãe que tinha costurado as roupas para as primeiras apresentações. A mesma mãe que tinha empurrado suavemente um menino tímido para cantar na rádio de Cachoeiro de Itapemirim, quando tinha apenas 9 anos. É impossível não imaginar o que aquele momento significou para ela. E é impossível não pensar nos homens que, anos antes, nos bastidores daquele estúdio da TV Tupi tinham duvidado, minimizado, apostado que aquele rapaz não teria futuro, porque a história guardou os nomes certos e esqueceu-se dos outros.

Roberto Carlos seguiu em frente. O rei que o Brasil hoje conhece começou ali naqueles 3 minutos que quase não aconteceram, naquela voz que cantou com tudo o que tinha para um estúdio que não estava preparado para a receber naquele coração de menino que havia sobreviveu a um comboio, a pobreza, a distância de casa, ao cepticismo do mundo, e que mesmo assim chegou perante de uma câmara de televisão e cantou como se aquele fosse o último momento da sua vida.

Porque talvez naquele dia aquele fosse mesmo. E o Brasil ainda não sabia, mas estava prestes a descobrir quem era aquele rapaz. Décadas depois, mais de 140 milhões de discos vendidos, mais de 50 especiais de Natal na televisão brasileira, estádios lotados em todos os continentes e uma canção chamada Amigo, que fez Erasmo Carlos chorar quando ouviu pela primeira vez.

Tudo isto nasceu ali naquela tarde, naqueles 3 minutos. O homem que virou o rei começou por ser um menino que pediu uma oportunidade e cantou como se soubesse que todo o Brasil estava à espera dele. Estava. E se esta história mexeu consigo, não pode perder aqui no canal este outro capítulo da vida de Roberto Carlos.

 Ele não sabia que era o Roberto Carlos. O showman desafiou uma pessoa aleatória da plateia. Uma história cheia de surpresa, emoção e um momento que o próprio rei nunca esqueceu.

 

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