A ferida estava aberta, exposta e sangrando há exatos vinte e quatro anos. Para o povo brasileiro, o futebol transcende a mera prática esportiva; ele é um elemento identitário, uma religião cujo templo máximo é o campo e cuja liturgia se consuma no grito de gol. Desde o apogeu celestial de 1970, quando o mundo se curvou diante da majestade de Pelé, da elegância de Jairzinho, da inteligência de Tostão e de uma companhia de virtuosos sob o sol escaldante do México, o Brasil havia esquecido o sabor inebriante de levantar a taça da Copa do Mundo. Aquela conquista definitiva, que imortalizou a posse da Taça Jules Rimet, parecia ter lançado uma maldição dourada sobre as gerações seguintes.
Não se tratava de uma escassez de talento bruto. Pelo contrário. O solo brasileiro continuava a brotar diamantes lapidados. A mágica e poética geração de 1982, orquestrada por gênios como Zico, Sócrates e Falcão, é amplamente reverenciada por historiadores e puristas do esporte como, possivelmente, a seleção mais exuberante, técnica e bonita que já desfilou em um gramado. Contudo, aquele time dos sonhos foi engolido pela tragédia do Sarriá, voltando para casa de mãos vazias e corações partidos. O trauma se repetiu com tons dramáticos no deserto mexicano em 1986, em uma dolorosa eliminação por pênaltis. Em 1990, nos gramados italianos, a frustração atingiu níveis alarmantes com uma campanha apática, burocrática e uma eliminação precoce diante dos maiores rivais sul-americanos. O Brasil, a nação do futebol arte, parecia inexoravelmente amaldiçoado a viver de glórias passadas. O peso da história estava esmagando o presente.
Foi nesse cenário de terra arrasada, pessimismo crônico e desconfiança generalizada que Carlos Alberto Parreira foi alçado ao posto de comandante da Seleção Brasileira para as traiçoeiras eliminatórias da Copa do Mundo de 1994. A situação não oferecia motivos para otimismo. A pressão da imprensa era sufocante, e a paciência do torcedor havia evaporado. Parreira, um estudioso meticuloso do jogo, diagnosticou que o romantismo tático havia custado caro demais ao país nas últimas duas décadas. Ele trouxe na bagagem uma filosofia de trabalho radicalmente diferente daquela que o brasileiro estava acostumado a aplaudir. Chega de jogo bonito pelo simples prazer da estética. O pragmatismo seria a nova lei.
O novo treinador ansiava por equilíbrio, solidez e previsibilidade. Seu esquema tático era desenhado com uma rigidez matemática: ele exigia, de forma inegociável, oito jogadores posicionados cirurgicamente atrás da linha da bola sempre que o time estivesse se defendendo. O coração pulsante dessa muralha defensiva era formado por dois volantes de contenção implacáveis, Dunga e Mauro Silva, que operavam como cães de guarda à frente da zaga. Anos mais tarde, o próprio Parreira detalharia a espinha dorsal do seu pensamento com uma franqueza calculada: “Eu fazia questão de ter oito atrás da linha da bola. Isso para mim era fundamental. Perdeu a bola, recompõe a defesa. Ficam apenas os dois atacantes lá na frente e a gente sai no contra-ataque. Simples assim”.
Era um Brasil tático, pragmático, gélido e calculista. Uma equipe moldada para não perder, antes de pensar em encantar. Como era de se esperar em um país intoxicado pela nostalgia do “jogo bonito”, a imprensa esportiva fuzilava o esquema diariamente. O torcedor, nas arquibancadas e nos botecos, torcia o nariz com desdém. E, para jogar gasolina na fogueira da crise, o homem que possuía o dom divino de resolver qualquer partida lá na frente, o talento mais puro e letal daquela geração, estava sumariamente banido do grupo.
Romário, o atacante de apenas um metro e sessenta e oito centímetros de altura, que odiava os rigores do treinamento físico e vivia sob suas próprias regras, havia entrado em rota de colisão direta com a comissão técnica. Em dezembro de 1992, após um episódio de insatisfação pública por ter sido relegado ao banco de reservas em um amistoso, a corda arrebentou. A disciplina militar de Parreira e de seu coordenador técnico não tolerava insubordinações. O camisa 11 foi afastado. Exilado.
Por agoniantes 268 dias, o Brasil jogou dezoito partidas sem o seu maior artilheiro. E a ausência do baixinho foi sentida de forma traumática. A engrenagem pragmática de Parreira mostrava falhas graves na hora de decidir. O ápice do desespero ocorreu nas alturas da Bolívia, em La Paz, onde a Seleção Brasileira sofreu sua primeira e histórica derrota em eliminatórias para Copas do Mundo. O fantasma de uma desclassificação inédita e humilhante deixou de ser um pesadelo distante para se tornar uma possibilidade assustadora e real. A classificação para o Mundial dos Estados Unidos estava por um fio extremamente frágil.
A nação clamava por Romário. A imprensa exigia Romário. Os muros das cidades eram pichados com o nome de Romário. Diante do abismo iminente, Parreira foi forçado a ceder à pressão popular e ao clamor da própria necessidade de sobrevivência esportiva. O calendário marcava o dia 19 de setembro de 1993. O palco não poderia ser mais mítico e intimidador: o Estádio do Maracanã. Os registros oficiais da FIFA documentam que mais de cem mil pessoas se espremeram naquele monumental caldeirão de concreto, embora testemunhas oculares e jornalistas da época jurem, até hoje, que o número real de almas presentes era vastamente superior.
O Brasil precisava obrigatoriamente vencer o duro e tradicional selecionado do Uruguai para carimbar o passaporte rumo à Copa do Mundo. A tensão era palpável, cortando o ar denso da tarde carioca. E lá estava ele. Finalmente convocado, finalmente reintegrado, vestindo a icônica camisa de número 11. Romário pisou no gramado com o semblante indecifrável, exibindo aquele olhar frio de predador que já antevê o destino da presa.
O jogo foi tenso, amarrado, um verdadeiro teste para os cardíacos. Mas os últimos vinte minutos daquela partida foram reservados para uma exibição de gala que entraria para a antologia do esporte mundial. O baixinho destruiu, pulverizou e humilhou a rígida defesa uruguaia. O primeiro ato dessa redenção veio pelos ares — ironicamente, para um homem tão baixo. Após um cruzamento milimétrico vindo da direita, dos pés de Bebeto, Romário emergiu entre os zagueiros e aplicou uma cabeçada fulminante. O Maracanã explodiu em um rugido ensurdecedor. O segundo ato foi uma obra-prima de frieza e técnica. Lançado em profundidade, ele correu livre, encarou o gigantesco goleiro Siboldi, aplicou-lhe um drible desmoralizante e, com um leve e displicente toque para o gol vazio, selou o destino. Brasil 2, Uruguai 0.
O passaporte estava carimbado. Naquele exato instante, Romário transcendeu a condição de um mero jogador voltando de uma punição disciplinar. Ele se transformou na prova viva, inquestionável e insofismável de que o peso de seus gols superava, com folga, qualquer cartilha de comportamento ou regra de conduta imposta por treinadores. O talento genialmente indomável havia subjugado a burocracia tática. Carlos Alberto Parreira, homem inteligente que era, compreendeu perfeitamente a mensagem vinda das arquibancadas e dos gramados. A Seleção Brasileira pertencia a Romário.

Enquanto isso, do outro lado do Oceano Atlântico, a lenda do baixinho crescia a proporções mitológicas. Com a pesada camisa do Barcelona, na deslumbrante temporada europeia de 1993 e 1994, ele alcançou o ápice de sua forma física e técnica sob o comando do visionário treinador holandês Johan Cruyff. Romário aterrorizou as defesas espanholas, balançando as redes adversárias incríveis trinta vezes na Liga Espanhola, sagrando-se o artilheiro absoluto da competição e peça-chave na conquista do quarto título nacional consecutivo do clube catalão. Cruyff, uma lenda viva que moldou o futebol moderno e que havia visto e praticado tudo o que o esporte tinha a oferecer, não economizava nas reverências ao seu pupilo. Foi o mestre holandês quem cunhou a definição definitiva sobre o brasileiro: “Ele é o gênio da grande área”. Cruyff foi além, declarando publicamente que Romário era o jogador mais fantástico e letal que ele já tivera o privilégio de treinar em toda a sua vitoriosa carreira à beira do campo.
É dessa época mágica na Catalunha que nasce uma das histórias mais folclóricas e saborosas da crônica esportiva. Segundo a lenda, às vésperas do Carnaval, Romário teria batido à porta do escritório de Cruyff exigindo alguns dias de folga para cruzar o oceano e cair na folia no Rio de Janeiro. O técnico, conhecendo a fome de bola do atacante, propôs um desafio insano: se ele marcasse dois gols na dificílima partida do dia seguinte, ganharia as passagens e os dias extras de descanso. A história, repetida à exaustão em mesas de bar e programas de televisão, possui inúmeras versões e os detalhes invariavelmente mudam dependendo do entusiasmo do narrador. Os registros frios dos números mostram que o brasileiro raramente deixava o campo antes dos noventa minutos naquela temporada brutal. Mas esse é exatamente o tipo de narrativa fantástica que apenas um personagem como Romário consegue protagonizar. Verdade absoluta ou lenda urbana aumentada? Pouco importa. Com ele, a fronteira entre o real e o místico sempre foi lindamente embaçada.
Junho de 1994. O mundo voltava seus olhos para os Estados Unidos da América, sede do maior evento esportivo do planeta. A Copa do Mundo em solo norte-americano reservava um adversário silencioso e implacável para todas as seleções: um calor absurdo, opressor e sufocante. Em cidades como Orlando e Dallas, os termômetros rompiam a barreira dos quarenta graus Celsius com uma facilidade assustadora, transformando os gramados em verdadeiras fornalhas a céu aberto.
A delegação brasileira montou seu quartel-general na pacata cidadezinha de Los Gatos, encravada nas colinas da Califórnia. O Hotel Villa Felice, com sua atmosfera bucólica e sensação de isolamento do mundo exterior, foi a fortaleza escolhida a dedo. Longe do circo midiático enlouquecedor, das câmeras incessantes e da pressão ininterrupta, Parreira conseguiu engendrar o ambiente de blindagem perfeito para manter o grupo hiperfocado na missão.
Mas os bastidores dessa concentração revelam que o triunfo brasileiro não foi forjado apenas no talento bruto e na disciplina tática. Havia uma ciência silenciosa operando a favor da Amarelinha. O fato histórico de o Brasil não ter sucumbido fisicamente ao calor derretedor daquele torneio tem um nome e sobrenome nos bastidores: Turíbio Leite de Barros. O fisiologista da equipe implementou um protocolo de hidratação revolucionário, que era considerado uma inovação de vanguarda absoluta para a medicina esportiva da época. Os atletas eram obrigados, por prescrição médica rígida, a ingerir entre 150 e 300 mililitros de água a cada quinze minutos, rigorosamente, independentemente de sentirem sede ou não. À primeira vista, uma medida simples. No entanto, estudos científicos posteriores comprovaram que essa hidratação milimétrica e forçada foi capaz de manter a temperatura corporal dos jogadores brasileiros quase meio grau Celsius abaixo dos índices normais durante as partidas. Enquanto as potências europeias literalmente murchavam, derretiam e se arrastavam sob o sol da Califórnia e do Texas, os brasileiros continuavam correndo, incansáveis, até o apito final.
O retiro em Los Gatos também foi palco de estratégias psicológicas que beiravam o cômico. Ciente do espírito boêmio, aventureiro e rebelde do seu craque maior, Parreira armou um plano para tentar domar a fera. A comissão técnica determinou que Romário dividiria o quarto no hotel com ninguém menos que Dunga. O volante capitão, conhecido mundialmente por sua carranca inabalável, seu estilo durão, disciplinador e metódico, foi escalado não apenas como companheiro de quarto, mas como um autêntico cão de guarda. A teoria era simples: sob os olhos vigilantes do capitão rabugento, o baixinho não ousaria quebrar as regras de recolhimento.
A prática, contudo, provou que a astúcia carioca era indomável. Anos depois da glória, com aquele sorriso de canto de boca que se tornou sua marca registrada, Romário revelou a falha no plano infalível de Parreira. Dunga, dedicado ao extremo, tentava cumprir sua função de vigia, mas seu cansaço físico era tamanho que ele desabava de sono cedo demais. O atacante apenas aguardava pacientemente, no escuro, o som dos primeiros roncos pesados do capitão. Quando a respiração de Dunga denunciava o sono profundo, Romário levantava sorrateiramente, abria a porta da frente e saía, flanando tranquilo pelas noites californianas, burlando o sistema com a mesma facilidade com que driblava zagueiros grandalhões.
Antes mesmo que a bola ganhasse vida nos gramados americanos, Romário convocou os holofotes para si e fez uma declaração pública que entraria para os anais da audácia esportiva. Com o peito estufado, cravou diante dos microfones do planeta inteiro: “Esta Copa será do Romário. O Maradona poderá até jogar bem, mas o brilho desta Copa ninguém vai tirar de mim”. Como se a promessa egocêntrica não fosse pressão suficiente, ele adicionou uma camada de responsabilidade quase masoquista: “Se acontecer um resultado negativo com a Seleção, o maior culpado sou eu”. Era um pacto de sangue com a história. Que outro atleta de alto rendimento, em sã consciência, no auge da tensão mundial e carregando o peso de vinte e quatro anos de fracassos de um país inteiro nas costas, assumiria o fardo da tragédia de forma tão escancarada, de peito aberto?
Quando os jogos começaram, a promessa se transformou em profecia. Na fase de grupos, o Brasil demonstrou uma solidez irretocável. A estreia foi uma vitória burocrática e segura por 2 a 0 contra a forte equipe da Rússia, coroada com um gol de Romário abrindo os caminhos. Na sequência, um atropelo sonoro por 3 a 0 sobre o surpreendente time de Camarões, com a rede balançando através de Romário, o zagueiro Márcio Santos e o parceiro Bebeto. No terceiro confronto, um tenso empate em 1 a 1 contra a duríssima e perigosa Suécia, onde, mais uma vez, o instinto assassino de Romário salvou o time da derrota. O criticado sistema pragmático de Carlos Alberto Parreira funcionava com a precisão de um relógio suíço: a defesa verde-amarela não sofreu um único gol com a bola rolando em jogo corrido na primeira fase.
O mata-mata trouxe o verdadeiro teste de fogo. Nas oitavas de final, o adversário era o pior possível sob as circunstâncias dadas. O dia era 4 de julho, feriado sagrado da independência americana, e os Estados Unidos jogavam em casa, empurrados por um estádio fervilhante que desejava ver o império do futebol cair em solo ianque. Para transformar o cenário em um pesadelo, o elegante lateral Leonardo perdeu a cabeça de forma chocante e foi expulso após desferir uma violenta cotovelada que fraturou o crânio do americano Tab Ramos.
O Brasil jogaria o resto do jogo com um homem a menos, debaixo de um calor sufocante e contra o país anfitrião. Faltando angustiantes quinze minutos para o fim do tempo regulamentar, a genialidade resolveu operar o milagre. Romário pegou a bola, arrancou de forma vertiginosa pelo meio, esfarelou a marcação americana com uma sequência de toques curtos que desmontaram a linha defensiva e, quando todos no estádio esperavam o chute egoísta e consagrador de quem havia prometido a taça, ele surpreendeu. Com a visão periférica de um mestre enxadrista, ele rolou a bola açucarada para Bebeto, que vinha na corrida pela direita. O camisa 7 bateu rasteiro, cruzado, vencendo o goleiro Tony Meola. Gol do Brasil. Um a zero dramático. Na comemoração emocional, Bebeto olhou nos olhos de Romário, apontou o dedo e declarou uma frase que ecoou na televisão brasileira: “Eu te amo, meu irmão”.
As quartas de final reservaram o encontro que os analistas apontam como o confronto mais espetacular e vistoso do Brasil naquele torneio. O duelo épico contra a brilhante Seleção da Holanda terminou com uma vitória suada por 3 a 2. Foi Romário quem abriu a contagem, mostrando seu faro predatório habitual. Minutos depois, em um lance de profunda inteligência tática, ele recuou propositalmente do impedimento fingindo total desinteresse pela jogada, o que confundiu e congelou a experiente defesa holandesa. O clarão deixado por essa movimentação invisível abriu a avenida perfeita para que Bebeto disparasse, driblasse o goleiro Ed de Goey e empurrasse para as redes, marcando o segundo tento brasileiro.

Foi nesse exato milissegundo que o mundo presenciou a comemoração esportiva mais icônica e imitada do final do século vinte. Romário correu em direção à linha lateral, logo foi acompanhado por Bebeto e pelo meio-campista Mazinho. Em sincronia perfeita, os três formaram uma linha, balançaram os braços lateralmente de forma ritmada, embalando um bebê invisível em homenagem ao pequeno Matheus, filho recém-nascido de Bebeto. O lateral Branco, em um chute de falta violentíssimo, um míssil teleguiado que por pouco não arrancou a cabeça de Romário no meio do caminho, fecharia a fatura em um jogo inesquecível.
A semifinal trouxe de volta a pedreira escandinava: a Suécia. O roteiro era tenso. O Brasil sufocava, atacava por todos os lados, mas o placar estava trancado, soldado, fossilizado no 0 a 0. O goleiro Thomas Ravelli operava milagres seguidos. Faltavam menos de quinze minutos para o temido fim do tempo normal. E mais uma vez, o destino exigiu a intervenção divina do seu escolhido. Jorginho cruzou a bola para a grande área sueca, uma floresta de zagueiros gigantes, verdadeiros vikings de quase dois metros de altura. No meio daquela imensidão loira, o homem de 1,68 m encontrou o seu espaço. Romário voou, ganhando dos defensores na antecipação e na impulsão pura, testando a bola para o fundo do gol, botando o Brasil na sua primeira final de Copa do Mundo em mais de duas décadas. O gigante havia sido salvo pelo menor em campo.
Mergulhando nos arquivos das universidades e nos relatórios de performance dessa Copa, surge um dado técnico fascinante sobre as armas do camisa 11. Romário era o mestre incontestável daquilo que os campinhos de várzea e as quadras de salão do Brasil convencionaram chamar de “bico”. Aquele chute de ponta de chuteira, seco, direto, executado sem a necessidade estética de armar muito o corpo e em curtíssimo espaço.
Para o leigo, o “bico” soa como um recurso rústico, quase desengonçado de quem não sabe bater na bola com o peito do pé. Porém, pesquisadores especializados que esmiuçaram a biomecânica minuciosa do movimento descobriram a genialidade oculta por trás do gesto rústico. A técnica peculiar permite que o atleta gere uma velocidade angular do quadril quase vinte por cento maior do que em um chute tradicional e ortodoxo. Além da potência gerada em frações de segundo, o “bico” possui uma vantagem tática brutal: como praticamente não exige movimento preparatório ou alavanca da perna para trás, o goleiro fica impossibilitado de ler a intenção corporal do atacante. Quando o arqueiro percebe o impacto, a bola já está no meio do caminho, cortando o vento em velocidade assustadora. Era uma arma letal, invisível aos olhos destreinados, que Romário empunhava e usava mais e melhor do que qualquer outro ser humano calçando chuteiras em sua época.
O relógio da história marcou, finalmente, o dia 17 de julho. O palco supremo era o grandioso Estádio Rose Bowl, na cidade de Pasadena, cercada por palmeiras na ensolarada e escaldante Califórnia. Mais de noventa e quatro mil espectadores pagantes derreteram sob um sol inclemente de 38 graus para testemunhar o choque de titãs entre os dois maiores vencedores do esporte. De um lado, o Brasil pragmático, apoiado na mágica de Romário e Bebeto e na fúria contida de Dunga. Do outro lado, a nobreza e a tradição gigantesca da Seleção da Itália, escudada por defensores lendários do quilate de Franco Baresi e Paolo Maldini, e conduzida pelo talento celestial de Roberto Baggio.
Foram cento e vinte minutos de um jogo taticamente perfeito, hermético, angustiante, truncado e estressante. O calor exauriu as pernas e corroeu as mentes. Nenhum gol. As redes do Rose Bowl permaneceram intactas. Aquela seria a primeira vez em toda a história das Copas do Mundo que o troféu máximo seria decidido na cruel, solitária e imprevisível loteria da disputa de pênaltis. O ar no estádio parecia ter acabado.
Na marca da cal, os gigantes tombaram. O intocável Baresi bateu e isolou a bola. O brasileiro Márcio Santos, que fizera uma Copa primorosa, encontrou as mãos do lendário Gianluca Pagliuca. A disputa seguiu ponto a ponto, caminhando no fio de uma navalha enferrujada. O Brasil estava na frente no placar. Foi quando Roberto Baggio caminhou em direção à marca fatal. Ele era o Bola de Ouro, o Melhor Jogador do Mundo no ano anterior, o homem de rabo de cavalo que havia carregado uma Itália esfacelada e cambaleante nas costas durante todo o torneio, marcando gols impossíveis nas oitavas, nas quartas e nas semifinais.
O silêncio engoliu Pasadena. Baggio bateu. A bola subiu, ganhou altura e sumiu no céu azul da Califórnia, passando muito por cima do travessão do goleiro Taffarel. O jogo acabou. O jejum acabou. O grito reprimido por gerações rasgou as gargantas.
O erro do craque italiano ganharia, com o passar dos anos, uma dimensão poética e espiritual profunda. Em entrevistas doloridas concedidas muito tempo depois, Baggio abriria o coração sobre aquele fatídico segundo: “Acho que foi o Senna que puxou aquela bola para o alto. Acredito que foi ele que fez o Brasil vencer”. Ayrton Senna, o maior herói do esporte nacional, o tricampeão mundial de Fórmula 1, havia falecido de forma trágica e brutal em uma curva do circuito de Ímola apenas dois meses antes da Copa. O país ainda vestia luto fechado, com o coração em pedaços pela perda do seu ídolo dominical. E naquele gramado do Rose Bowl, Senna estava espiritualmente presente de uma forma inegável. Nos momentos frenéticos e caóticos de celebração em campo, sob o suor e as lágrimas do tetracampeonato, os jogadores abriram e ergueram orgulhosamente uma gigantesca faixa que resumia a alma do país: “Senna, aceleramos juntos. O Tetra é nosso”. A comoção foi irrefreável, rompendo a barreira do esporte para entrar no campo da espiritualidade e da cicatrização de uma nação ferida.
Quando as cortinas do maior espetáculo da Terra se fecharam, os números frios confirmaram o que os olhos do mundo inteiro já sabiam. Romário terminou a competição como o vice-artilheiro máximo, com cinco gols anotados, atrás apenas do búlgaro Hristo Stoichkov e do russo Oleg Salenko, que estufaram as redes seis vezes. Mas o reconhecimento individual coroou a sua jornada. O baixinho levou para casa a Bola de Ouro, entregue pela FIFA ao melhor e mais valioso jogador do torneio. Mais tarde, ele seria ungido como o Melhor Jogador do Mundo pela entidade.
A dependência do Brasil em relação aos seus craques da frente ficou escancarada nas estatísticas: dos parcos e suados onze gols marcados pela Seleção Brasileira em toda a jornada nos Estados Unidos, impressionantes cinco foram de autoria de Romário, e três saíram dos pés de Bebeto. A dupla, sozinha, foi responsável por mais de setenta por cento de toda a produção ofensiva da equipe campeã. E há um dado histórico que transcende a racionalidade e resume o que essa parceria significou: em vinte e três partidas oficiais disputadas com Romário e Bebeto jogando lado a lado no ataque, a Seleção Brasileira nunca conheceu o amargor da derrota. Foram dezessete vitórias inquestionáveis, seis empates e nenhuma derrota. A dupla foi a perfeição estatística que calou os teóricos do futebol.
Ao longo das últimas décadas, os debates fervorosos em mesas redondas e rodas de amigos invariavelmente desaguam na mesma e eterna pergunta provocativa: afinal de contas, Romário ganhou a Copa do Mundo de 1994 sozinho?
Foi o próprio camisa 11, em toda a sua sinceridade desconcertante, quem ofereceu a resposta mais madura e honesta para essa lenda urbana. Quando repórteres pontuaram a ele que o tão sonhado título foi sacramentado não por uma defesa heroica de Taffarel na última cobrança, mas sim pelo trágico pênalti isolado por Roberto Baggio, Romário ponderou com rara humildade: “Se fosse o Taffarel que tivesse pego aquela última bola, o grupo talvez não tivesse tido tanto reconhecimento da crítica como teve. A falha do Baggio jogou o foco na conquista do coletivo”.
O gênio da grande área sabia intimamente que ninguém, absolutamente ninguém, conquista o troféu mais cobiçado do planeta sozinho. Sem a barreira de chumbo de Mauro Silva e Dunga, sem o talento inestimável de Bebeto, sem as defesas importantes de Taffarel, o barco teria afundado. Mas, na engrenagem implacável da história, todo grande time campeão precisa desesperadamente de um pilar central. Alguém que puxe o grupo para fora da mediocridade, que tenha a coragem insana de assumir a responsabilidade total nos momentos em que as pernas de todos os outros tremem. Alguém que tenha a prepotência de falar e a competência genial de fazer exatamente aquilo que prometeu.
A Copa do Mundo de 1994 foi a Copa do coletivo pragmático de Parreira, sim. Mas foi, acima de tudo e para a eternidade, a Copa de Romário. Com o troféu de ouro maciço nos braços, perante os flashes de todos os fotógrafos do mundo, ele não hesitou em selar a sua lenda, olhando para as câmeras e sentenciando: “Eu disse. Eu cumpri. Sou tetra e o melhor do mundo”.
Trinta longos anos se passaram desde aquela tarde escaldante na Califórnia. Historiadores debatem, jogadores surgem e desaparecem, lendas envelhecem. Mas, até hoje, no altar sagrado do futebol brasileiro, absolutamente ninguém ousou levantar a voz para provar que ele estava errado.