Fazia o papel do grande amor da vida dela. Os dois contracenavam todos os dias. Cenas de beijos, cenas de abraços, um romance que parava o Brasil na novela das 8. Fora da novela, foi ele quem a esfaqueou 18 vezes. 18.º Ela tinha 22 anos, atriz bailarina e filha da mulher que escrevia essa mesma novela. O Brasil todo sabe que foi ele quem a matou.
Isto saiu em cada jornal da época. Ah, pergunta que ficou no ar só. Por quê? Por que razão faria ele isso com a Daniela? É aí que entra o que ele passou anos a tentar fazer o país acreditar. Uma versão que a investigação acabou desmontando. Fica comigo. Porque esta história tem duas mulheres. A menina que o Brasil viu brilhar e perder a vida cedo demais.
E a mãe dela, que apanhou a pior dor que existe e fez dela uma coisa que nessa noite ainda protege a sua casa e a minha sem tu sequer saberes. Mas para sente o tamanho do que foi tirado desta família, primeiro precisa conhecer a Daniela Viva. Antes das câmaras, era bailarina, dançava desde menina e quem a viu nos palcos lembra-se de uma coisa só. à vontade.
A A Daniela entrava num lugar e o lugar parecia acender. Em 1992, tinha 22 anos e a vida resolveu dar tudo de uma vez. Tinha casado há pouco tempo, ainda naquela fase em que a casa cheira a tinta nova e o futuro parece demasiado grande para caber num dia só. e tinha acabado de ganhar o papel que muda uma vida inteira.
A Yasmin, na novela das 8 da Globo, de corpo e alma. Agora repara em quem escreveu esta novela. foi a mãe dela. Glória Perez, a autora mais poderosa da televisão brasileira, sentou-se para criar uma história e colocou a própria filha no coração dela. Pensa no que isso significa para uma mãe. Entregar para a filha com as suas próprias mãos o maior papel da carreira dela.
Escrever para ela no papel um grande amor. É aqui que vive a parte que até hoje é difícil de dizer em voz alta. Este grande amor que a mãe imaginou precisava de um rosto, um par romântico contracenar com a Daniela todos os dias no estúdio ou ator escalado para viver esse amor é o homem que está no seu ecrã agora.
O mesmo que longe das câmaras ia tirar-lhe a vida. Quer dizer, a mãe escreveu o amor de mentira da filha sem ter forma de saber de nada, e puseram a viver esse amor ao lado dela todos os santos dias, justo o homem que ia matá-la, a história de ficção e o pesadelo de verdade nasceram no mesmo sete.
guarda esta cruel coincidência, porque ela vai voltar lá à frente e vai doer de uma maneira que ainda nem imagina. E o mais assustador, em 1992, ninguém ali desconfiava de absolutamente nada. E para compreender a Daniela, você tem de voltar um pouco mais atrás. Antes de qualquer câmara, antes de qualquer novela, existia uma menina que escolheu a coisa mais difícil do mundo para fazer da vida. Dançar.
Quem nunca viu de perto não imagina o que é a vida de uma bailarina? É o corpo a doer todos os dias, o espelho a apontar cada erro. anos de disciplina antes de uma única noite de aplauso. A Daniela escolheu que ainda muito nova e foi atrás com uma teimosia bonita daquelas que só quem ama de verdade tem.
Ninguém vira a bailarina por acaso vira porque tem fogo dentro. E foi exatamente essa intensidade que o Brasil viu quando ela trocou o palco pela televisão. Porque a câmara não engana. Quando uma pessoa tem aquela luz, o ecrã pega. E a Daniela tinha. Bastava ela aparecer para si não conseguir olhar para outra coisa. É, guarda isso, porque vai importar lá na frente.
A Daniela era uma mulher jovem, forte, cheia de talento, com o caminho todo se abrindo. Isto faz o que aconteceu? Doer ainda mais. Era uma vida grande apagando-se no exato momento em que ia ficar maior e tinha o amor. A essa altura, a Daniela já estava casada com Raul Gazola. Dois jovens atores no início da vida adulta, construindo uma casa, sonhando os sonhos que todo o casal sonha nesta idade, os planos de ter filhos, a carreira dos dois a levantar voo junto, aquele tipo de futuro que parece que vai durar para sempre, porque quando temos 20 e poucos
anos, achamos mesmo que o tempo é infinito. E há um lado da Daniela que é fácil esquecer no meio disto tudo. Ela estava a construir o próprio nome com as próprias forças. Pensa no que é crescer sendo filha de uma mulher gigante. A Glória Perezes era já uma das maiores autoras do país. Quando se é filho de alguém, assim, toda a gente te olha pela sombra do seu pai ou da sua mãe.
As as pessoas esperam que não chegue nem perto. E quando se tenta, tem sempre alguém para dizer que só está ali por causa do apelido. A Daniela estava vencendo isso. Aos poucos, com talento de verdade, ela estava a mostrar ao Brasil quem ela era. A Daniela, uma atriz, uma bailarina, uma artista por mérito próprio, conquistando público com o trabalho dela.
Cada cena bem conseguida era um tijolo na construção de uma identidade que ia ser só dela. E isso torna a história ainda mais acutilante, porque ela foi interrompida exatamente no momento em que estava a deixar de ser a filha de alguém para se tornar alguém. estava a entrar na fase mais bonita da vida de qualquer pessoa, aquela em que a gente começa a colher o que plantou, em que o esforço de anos começa a virar reconhecimento.
A Adaniela nunca chegou a viver a versão adulta e plena do talento dela. Ficou apenas a promessa e talvez seja é isso que mais dói em histórias assim. Mais do que aquilo que se perdeu, dói tudo o que ainda ia acontecer e nunca aconteceu. As personagens que ela ainda ia viver, a artista madura que nunca teve tempo de se tornar, a mulher que o tempo não a deixou ser.
Porque em 1992 para a Daniela, tudo estava a correr bem ao mesmo tempo. A novela das 8. Naquela época era o lugar mais alto que o ator brasileiro podia chegar. Era o programa que parava o país. A família inteira na frente da televisão, a rua vazia. O Brasil todo vendo a mesma história na mesma hora. E ali no meio deste país inteiro, estava a Daniela.
Aos 22 anos em casa, tinha o Raul. Raul Gazola, também ator o marido com quem tinha casado havia pouco mais de dois anos. Era um casal jovem, trabalhando os dois com o que amavam daqueles que as pessoas olhavam na rua e pensavam: “Ess dois ainda vão longe.” E tinha a mãe. Toda a mãe sonha em ver a filha brilhar. A glória estava vendo.
Todos os dias, no horário mais nobre da televisão do país, a sua filha viver um papel que ela própria tinha escrito. Eram as duas no auge juntas. A mãe escrevendo, a filha a brilhar. Difícil imaginar um momento mais preenchido na vida das duas. E o pormenor que faz tudo isto pesar. Aquilo tudo era apenas o início. O que a Daniela já tinha conquistado, a maioria dos atores não conquista a vida inteira. E ela estava só a abrir a porta.
tinha 40, 50 anos de carreira pela frente, os filhos que ainda viriam, a casa que os dois ainda iam construir, papéis que ninguém tinha sequer escrito ainda. Guarda esse tamanho na cabeça, porque daqui a pouco vou ter que te contar o que aconteceu com tudo isto. E para a dor fazer sentido, precisa sentir primeiro o tamanho do que ela tinha pela frente.
Era esse o tamanho, uma vida inteira ainda por viver, cabendo numa rapariga de 22 anos numa noite de dezembro. Faltavam poucos dias para o Natal de 1992 e faltava muito pouco para esta história virar a tragédia que o Brasil nunca mais esqueceu. Há uma coisa nesta relação entre a Daniela e a mãe que quase ninguém pára para pensar e que torna tudo ainda mais delicado.
Quando a sua mãe é a autora da novela e tu és a estrela dela, vira muito mais do que um trabalho em família. É a mãe a escrever com as suas próprias mãos as palavras que a filha vai dizer para o Brasil inteiro. Cada discurso da Daniela no ecrã tinha passado pela cabeça e pelo coração da glória. Primeiro, a mãe imaginava o que a filha ia sentir, escrevia e depois sentava-se para ver a filha dar vida àquilo.
Existe forma mais bonita de duas pessoas trabalharem juntas? Difícil. Imaginem o orgulho desta mãe. Todas as noites, milhões de brasileiros entravam na história que criou para ver a filha que ela criou. As duas coisas mais importantes da sua vida, a obra e a filha, no mesmo ecrã, no mesmo horário nobre.
Para uma mãe que também é artista, não se pode sonhar com mais do que isso. E é precisamente esse o pormenor que faz com que a tragédia seja quase impossível de suportar. Porque quando a Daniela foi morto, a novela de corpo e alma ainda estava no ar. A Glória era ainda a autora daquela história. Quer dizer, a mãe perdeu a filha no meio de um trabalho que era todos os dias sobre a filha.
O país inteiro ia continuar a ligar a televisão à espera da história a seguir. E quem segurava esta história nas mãos era a mulher que tinha acabado de enterrar a própria menina. Não existe manual para tal. Ninguém se prepara. para perder um filho e muito menos para perder um filho e ter de continuar de pé, trabalhando com todo o país olhando.
Fica com ele por um segundo, porque o que esta mulher fez depois, com uma ferida deste tamanho aberta no peito, é o que transforma esta história de um crime triste numa das mais impressionantes que o Brasil já viu uma mãe protagonizar. Os últimos dias da Daniela foram dias comuns. É isso que torna tudo mais difícil de engolir. Era fim de dezembro.
O Brasil inteiro naquele clima de fim de ano, as ruas cheias, as casas enchendo-se de parente, a árvore montada na sala. A Daniela vivia o que qualquer rapariga de 20inte e poucos anos vive nessa época. Trabalho de dia, planos de Natal. a vida a correr normal. E o trabalho dela naqueles dias era gravar. A novela ia para o ar todas as noites.
Assim, a rotina era sempre a mesma: chegar ao estúdio, gravar as cenas, voltar a casa quando terminava. Às vezes de dia, por vezes já de noite. Reparara numa coisa e guarda bem, todos os dias nesse estúdio a Daniela contracenava com ele, o par romântico, o homem que na história escrito pela sua mãe fazia o grande amor da vida da Yasm.
Os dois ensaiavam juntos, trocavam falas de amor e quando a câmara desligava, ele continuava ali do lado dela, como um colega qualquer. Ninguém olhava para aquele homem e via perigo. Para todos no sete, ele era apenas mais um ator a fazer o seu trabalho. E a Daniela tratava-o como tratava qualquer outro colega.
É essa a parte que dá um frio na espinha. O perigo já estava dentro do estúdio. Andava pelos mesmos corredores. Que ela dizia bom dia para ela. Esteve por perto o tempo todo e ela não tinha como saber. E aqui eu queria que parasse um segundo para pensar numa coisa que é válida para todo o mundo que está a ouvir isso.
Quantas vezes na sua vida já se despediu de alguém de uma forma comum sem pensar duas vezes? Um até mais logo. Um beijo na porta. Um depois ligo-te. A gente faz isso todos os dias. Com um filho, com o marido, com quem amamos, achando que sempre vai ter um próximo, a pensar que aquela porta vai abrir de novo daqui a umas horas. Ah, a Daniela também achava.
Naquele final de dezembro, ela era apenas uma rapariga com a vida cheia de planos, fazendo as coisas normais que fazemos sem dar valor, porque parece que se vão repetir para sempre. Ela tinha um Natal para celebrar, o ano novo a chegar, um novo casamento, uma carreira a subir, uma vida que mal tinha começado a acontecer.
Ela não tinha como saber que estava a viver os últimos dias dela. Nunca ninguém sabe. E é isso que torna esta parte da história tão pesada de contar. A Daniela estava só a viver, trabalhando, sonhando o futuro, exatamente como eu e tu fazemos agora, nesse momento, sem qualquer aviso de que alguma coisa estava mal. Só que em volta dela, longe dos seus olhos, uma coisa muito séria já estava decidida.
Você lembra-se? A justiça concluiu mais tarde que aquilo foi planeado. Quer dizer que enquanto a Daniela viveu os seus dias comuns sem desconfiar de nada, o que ia destruir tudo já estava em curso, decidido por outras pessoas. e ela continuava a sorrir sem fazer ideia. No dia 28 de dezembro de 1992, a Daniela foi trabalhar como em qualquer outro dia.
Gravou e no final da gravação saiu do estúdio. Foi a última vez que ela saiu de um trabalho, a última vez que tomou o caminho de casa. Eu vou-te contar o que se passou nesse caminho, mas vou contar da maneira que esta moça merece ser lembrada, com respeito pela vida que ela tinha e que foi interrompida quando ela só estava regressando a casa.
O que aconteceu naquele caminho de regresso? Eu vou-te contar de uma vez, sem rodeios e sem crueldade, porque a Daniela merece ser contada com respeito. Ao sair da gravação, a Daniela foi agredida, não chegou a casa. Aquela rapariga de 22 anos, que tinha saído para trabalhar num dia comum de Dezembro, foi ali morta no caminho entre o trabalho e a própria casa.
Eu não lhe vou descrever o que lhe fizeram. Não é disso que esta história precisa. E não é assim que Quero que guarde a Daniela na memória. O que precisa de sentir é outra coisa. Numa tarde qualquer, toda a aquela vida que nós acompanhámos até agora, o novo casamento, a carreira começando, a rapariga que enchia o palco de luz, tudo isto parou de uma vez.
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Acabou ali aos 22 anos. Quando o corpo dela foi encontrado, o Brasil ainda estava no clima de fim de ano, faltando poucos dias para o ano novo. E de repente o país recebeu uma das notícias mais difíceis daquela década. Daniela Perez, a estrela da novela das 8, a filha da Glória Peres, estava morta. Para ter ideia do tamanho do choque, a notícia chegou a público no dia 29 de Dezembro de 1992, o mesmo dia em que o presidente color renunciava.
O Brasil vivia um dos dias mais agitados da sua história política e mesmo assim a morte daquela rapariga de 22 anos parou o país. As pessoas choravam por ela como se chorassem por alguém da própria família, porque de certa ela era. Todas as noites ela entrava na sala de milhões de casas. Para você entender o que foi aquilo para o Brasil, tem que lembrar que a Daniela não era uma figura distante.
Era jovem, bonita, cheia de vida e estava em casa das pessoas todo o santo dia. Quando alguém assim parte e parte desta forma, o país inteiro sentiu como se aquela perda fosse pessoal. No início, muita gente simplesmente não acreditou. Era difícil demais aceitar. Como é que uma menina daquela idade, com aquele futuro todo na frente, podia ter ido embora assim, de uma hora para a outra? Não fazia sentido na cabeça de ninguém.
As pessoas liam a notícia e reliam, esperando que fosse engano, esperando que alguém viesse desmentir. Não veio e houve um pormenor que cortava o coração de quem acompanhava. Como a novela ainda estava no ar, o Brasil continuou a ver a Daniela no ecrã durante um tempo, nas cenas que ela tinha gravado antes. Imagina o que era isso, ligar a televisão e ver aquela rapariga viva, sorridente, atuando, sabendo que na vida real ela já não estava mais aqui.
Era como se o ecrã insistisse em mostrar uma vida que tinha sido interrompida lá fora. doía e encantava ao mesmo tempo. Mas talvez o mais forte de tudo tenha sido o medo que que plantou em milhões de famílias. Porque se uma coisa daquele tamanho podia acontecer com a Daniela, com toda a a luz e todo o cuidado à sua volta, assim podia acontecer com qualquer filha, com a sua, com a minha.
Toda a mãe e todo o pai que assistiu àquela notícia olhou para os próprios filhos com o coração apertado naquela noite. E é exatamente este aperto que lá à frente vai dar sentido a tudo o que a glória decidiu fazer, porque a sua luta nasceu desse mesmo medo que talvez esteja sentindo agora.
Agorá, pensa na mãe, na glória, a mulher que tinha escrito com as próprias mãos o maior papel da vida da filha, que via esta filha brilhar todas as noites na televisão. Essa mãe recebeu a pior notícia que uma mãe pode receber de uma forma que nenhuma mãe deveria receber poucos dias antes do Natal. E o Raul, o jovem marido, casado havia do anos, que tinha planeado uma vida inteira com ela e que de uma hora para outra ficou sem chão.
E tem uma figura nesta história que costuma ficar na sombra, mas que viveu essa perda de uma forma que merece ser lembrada. O Raul, o marido da Daniela. A gente fala muito da mãe e com razão, porque a dor de uma mãe é uma coisa que não cabe em palavra nenhuma. Mas pensa também no Raul Gazola, um homem jovem, ator como ela, que tinha casado há pouco tempo e que estava no início de tudo.
Os dois estavam a montar uma vida juntos do forma que todo o casal novo faz, sonhando alto, lutando por disparates, planejando amanhã como se o amanhã estivesse garantido. E de um dia para o outro, este amanhã todo desabou. O homem que tinha saído de casa casado, regressou viúvo, sem sequer ter passado dos 30.
Quem já perdeu um companheiro sabe que não existe nome porque acordar do lado vazio da cama. Para ele foi isso com uma agravante cruel. Perdeu a esposa pelas mãos de outra pessoa e ainda teve de viver tudo aquilo com o Brasil inteiro, olhando, comentando, opinando sobre a vida mais íntima dele. Eu trago o Raul aqui por um motivo, para que se lembre que uma morte assim não tira uma vida só.
Ela esvazia uma casa, desaparece com uma cadeira em cima da mesa, apaga uma metade de um casal. A Daniela era muito mais do que uma estrela na televisão. Era a mulher de alguém, a filha de alguém, a alegria de uma casa que ficou em silêncio para sempre. E é por gente como o Raul, como a Glória, como todas as famílias que passam por este longe dos holofotes.
Que a luta que vem a seguir faz tanto sentido. E aqui eu queria falar de uma coisa que toda a mãe e todo o pai que me está a ouvir entende no fundo da alma, mesmo sem nunca ter passado por isso. Existe uma ordem que a gente espera da vida. Os pais vêm primeiro, os filhos vêm depois. E na conta natural das coisas são os filhos que um dia enterram os pais.
É triste, mas é o caminho certo. É assim que deve ser. Quando esta ordem se inverte, quando é a mãe que tem de enterrar a filha, quebra-se alguma coisa que não tem reparação. Vai contra tudo o que a gente sente que é justo. A mãe carregou aquela filha durante meses. Cuidou de febre a meio da noite. Viu os primeiros passos, o primeiro dia de aulas, o primeiro amor.
Formou dia após dia uma pessoa inteira. E depois, do nada tem que ver essa pessoa partir antes dela. Não existe palavra na nossa língua para isso. Quando alguém perde os pais, torna-se órfão. Quando alguém perde o marido ou a esposa, torna-se viúvo. Mas para a mãe que perde um filho, não temos nome, porque é uma dor que a humanidade nem teve coragem de nomear.
Foi esta dor sem nome que a glória recebeu naquele fim de dezembro. E é olhando para este tamanho de dor que nós compreendemos porque o que ela fez depois é tão impressionante, porque ela transformou a coisa mais devastadora que pode acontecer com uma mãe em algo que cuida de outras mães, apanhou o pior da vida e devolveu-o ao mundo o melhor que conseguiu.
Esse é o coração desta história. Antes do julgamento, antes de qualquer manchete, há uma família que perdeu uma menina, uma mãe que perdeu a filha, um marido que perdeu a mulher, tudo num dia em que ela só tinha ido trabalhar. E enquanto a família se afundava na dor, uma pergunta começou a tomar conta do Brasil inteiro.
Uma questão que parecia impossível de responder naquele momento. Quem teria coragem para fazer uma coisa dessas? Com a Daniela, a resposta ia chocar o país de uma forma que ninguém estava preparado para sentir. Nos primeiros dias, o Brasil não tinha resposta, só tinha perguntas. A polícia começou a investigar e todo o país acompanhava cada novidade através do jornal.
Quem? Quem tinha feito aquilo com uma rapariga de 22 anos que não tinha inimigo nenhum? Querida por todos os que trabalhava com ela? Não fazia sentido. Uma estrela em ascensão, recém-casada, sem envolvimento, com nada de perigoso. As as pessoas iam dormir a pensar nisso e acordavam a pensar na mesma coisa.
E enquanto decorria a investigação, aconteceu uma coisa que costuma acontecer com casos destes no Brasil. O caso tornou-se assunto nacional. Em todo o local onde havia gente a conversar, a A Daniela estava na conversa. no mercado, no salão, na fila do banco, na mesa do almoço de domingo.
Todo o mundo tinha uma opinião, uma teoria, um palpite sobre o que poderia ter acontecido. E eu preciso de te pedir aqui uma coisa, porque é importante para a forma que a gente vai contar o resto desta história. Eu não quero que acompanhe isso como se fosse um caso de polícia para resolver um puzzle frio. Porque por detrás de cada manchete daquela época, atrás de cada chamada de jornal, tinha uma família real a viver a pior fase da vida.
Pensa na glória, na glória de verdade, longe das câmaras. Pensa nela acordar de manhã nos primeiros dias depois de perder a filha e tendo de encarar o mundo. O telefone sem descanso. A imprensa atrás de pormenores de uma dor que era só dela. Não tem como medir o peso deste. E para ela e pro Raul, a verdade é que nenhuma resposta da investigação ia corrigir nada.
Descobrir quem o fez não traz ninguém de volta. Saber como aconteceu não enche o lugar vazio à mesa de jantar. Ah, pergunta que o Brasil fazia. O famoso quem para a família era quase um pormenor perante a única coisa que importava de verdade. A Daniela já não estava ali e não ia voltar.
É por isso que mesmo no meio de toda a investigação, quero que o que fique consigo seja a imagem desta família tentando respirar dentro de um pesadelo. Segura essa imagem, porque ela vai dar peso a tudo o que vem agora. E aqui preciso que guarde um pormenor, por ele vai bater forte daqui a pouco. A resposta que a investigação ia encontrar tava perto demais, perto de uma forma que ninguém imaginava.
O perigo tinha vindo de dentro, de dentro do mundo dela, do trabalho dela, do set onde passava os dias. Mas antes de eu chegar a essa resposta, preciso de te apresentar a mulher que vai mudar esta história inteira. E ela não vai mudar da maneira que está à espera. Porque enquanto o Brasil chorava e perguntava quem, havia uma pessoa naquela família a viver a dor mais profunda de todas e mesmo assim começando a tomar uma decisão, uma decisão que quase ninguém, no meio de um luto daquele tamanho, teria forças para tomar. A Glória Pérez tinha acabado de
perder a filha. Podia ter feito o que qualquer mãe destruída faria, fechar-se, desaparecer do mundo, deixar a justiça seguir o caminho dela sozinha. Ninguém ia julgar. Só que houve uma coisa dentro da glória que se recusou a deixar aquilo virá apenas mais um caso. Mais uma manchete que o Brasil ia comentar uma semana e depois esquecer.
Ela olhou para a própria dor e, em vez de se afundar de vez, começou bem devagar a transformar aquilo em outra coisa. Guarda essa mãe, guarda esta decisão dela, porque lá no fim desta história, o que a glória fez com a A própria dor vai surpreendê-lo e vai mexer consigo de um jeito que você ainda nem imagina. Agora prometo-te uma coisa, o final desta mãe não é o final que está à espera.
Mas isso fica para o fim. Por enquanto, a gente volta à pergunta que o Brasil inteiro estava a fazer e para o dia em que o país recebeu finalmente a resposta. O dia em que se descobriu quem tinha feito aquilo com a Daniela e porque esse nome foi o soco mais duro de toda esta história. O dia em que o Brasil descobriu quem tinha matado a Daniela foi um dos mais difíceis de digerir de toda esta história.
O país esperava o nome de um desconhecido, de um assaltante, de alguém de fora, de alguém que ela nunca tinha visto na vida. O nome que veio foi outro. Era ele, Guilherme de Pádua, o ator que contracenava com a Daniela todos os dias. O homem que na novela escrita pela A mãe dela fazia o par romântico da Yasmin, o mesmo que abriu este vídeo.
Pensa no tamanho disto. A Daniela passava os dias ao lado deste homem, ensaiava com ele, gravava cenas de amor com ele, confiava nele como se confia num colega de trabalho. E era precisamente ele, e não foi só ele. Então, esposa dele, Paula Tomás, participou no crime. Os dois seriam levados à justiça e condenados.
Agora chegamos à parte que dá título a este vídeo, naquilo que ele tentou esconder e na resposta a aquele porquê que ficou no ar lá no começo. Quando tudo veio ao de cima, o Guilherme tentou sustentar uma versão, tentou fazer o país acreditar que aquilo tinha sido uma coisa do momento, um descontrolo, algo que escapou das mãos no calor da hora.
tentou contar o crime de uma forma que diminuísse o que realmente tinha acontecido. A investigação foi por baixo desta versão e o que ela encontrou era muito pior. A justiça concluiu que aquele crime tinha sido premeditado, planeado, pensado com antecedência. E esta palavra premeditação altera o peso de tudo. Ela diz que a morte da Daniela foi uma decisão tomada antes, com o tempo, com a cabeça fria.
Foi exatamente isso que ele passou anos tentando esconder do Brasil, que aquilo tinha sido escolhido. Agora preciso ser honesta consigo, porque esta história merece a verdade contada com cuidado. O que levou o Guilherme a fazer aquilo? O motivo profundo, o porquê de tudo, isto nunca teve uma resposta única e fechada.
Ao longo dos anos, surgiram várias versões. Cada lado contou a sua. E ainda hoje as pessoas discutem qual seria o verdadeiro motivo. Eu não vou cravar-lhe um motivo só, como se fosse verdade absoluta, porque ninguém entra na cabeça de outra pessoa com certeza total. O que ficou estabelecido pela justiça, e isto é um facto, é que houve premeditação, o resto é debate e vai continuar a ser.
Mas há uma coisa que não depende de motivo nenhum para doer. Seja qual for o porquê, o resultado é o mesmo. Uma moça de 22 anos teve a vida ceifada pelo homem que fingia ser o seu grande amor na frente das câmaras. E foi planeado. Imagina agora a glória a receber isso. Descobrir que a filha foi morta já é a pior dor do mundo.
Descobrir que veio de alguém de dentro do próprio mundo da telenovela, um homem que partilhava os sets com a filha todos os dias. É uma dor que tem nome apenas para quem viveu. E quando este nome veio à tona, aconteceu uma coisa estranha e perturbadora com o Brasil inteiro. Milhões de pessoas tinham passado meses a ver na televisão aquele casal de mentira.
Tinham torcido, sorrido, emocionado com as cenas românticas entre as duas personagens. Fazia parte da rotina das famílias. vera aqueles dois juntos no ecrã. E de repente todas estas cenas mudaram de cor. Imagina o que era para quem acompanhava a novela. Lembrar aquelas imagens depois de saber a verdade. O que antes parecia romance tornou-se uma coisa difícil de olhar.
Cada cena de carinho, cada abraço gravado passou a ter um peso que ninguém aguentava. Era a mesma imagem de antes, mas agora ela contava outra história, uma história que dava repio. E há um pormenor nisto que mexe fundo connosco, porque significa que durante todo aquele tempo um homem foi capaz de fingir amor perante as câmaras de um jeito convincente, o bastante para emocionar um país inteiro.
A gente confia no que vê no ecrã. A gente acredita na emoção de um ator e descobrir que por detrás daquela atuação de amor existia alguém capaz do que ele fez, abala uma coisa básica que nós nem pensa. A confiança de que a pessoa que parece bondoso é bondoso de verdade. Foi esse o tamanho do choque.
O choque ia do crime. Era também a sensação de que o Brasil tinha sido enganado juntamente, de que todos tínhamos aplaudido sem saber uma mentira ensaiada todas as tardes num estúdio. E talvez seja por isto que mais de 30 anos depois este caso ainda incomoda tanto, porque ele baralhou a fronteira entre o que é de mentira e o que é realmente e mostrou que às vezes o perigo sabe sorrir para câmara.
E é exatamente aí que a história da glória começa a transformar-se noutra coisa, porque de toda esta dor, a glória tirou força. A partir daí, a pergunta deixava de ser: “Quem a fez? Passava a ser outra, bem mais difícil. O Brasil ia conseguir fazer justiça pela Daniela? Guarda essa pergunta, porque a resposta tem uma parte que ainda hoje revolta o país e outra que lá no fim te vai emocionar de um jeito que não se espera.
Mas a justiça no Brasil raramente é rápida. E neste caso, ela demorou de uma forma que dói só de lembrar. O crime aconteceu no final de 1992. E o julgamento, o de verdade, o que é colocar os dois perante um jurri, só veio anos depois. 5 anos. 5 anos a glória esperou com a ferida ainda aberta para ver os responsáveis pela morte da filha sentados no banco dos réus.
Para uma mãe, cada um destes anos deve ter pesado como 10. Imagina acordar todos os dias sabendo que quem tirou a vida à sua filha ainda nem sequer tinha sido julgado. Imagina ter de reviver tudo, repetir os mesmos depoimentos, esperar sem fim, enquanto o resto do mundo seguia em frente. A glória viveu isso e não viveu calada.
E aqui é onde a Glória Perez começa a tornar-se uma figura diferente de tudo o que o Brasil estava habituado a ver. A maioria das pessoas no lugar dela ia querer desaparecer, ia querer chorar longe dos olhos do país, se proteger, esconder-se da exposição. A glória tornou o caminho mais difícil. Ela decidiu aparecer, decidiu falar, pôs a cara, a dor e o nome dela à frente do Brasil inteiro e cobrou em voz alta uma coisa que parecia simples e que no nosso país nem sempre acontece.
Que houvesse justiça de verdade. Pensa na coragem que que exige. Acabou de perder a sua filha. está no meio do pior luto que existe. E mesmo assim levanta todo o dia e vai a público lutar, sabendo que vai ter de ouvir de novo o nome de quem fez aquilo, ver as fotos, encarar os detalhes. A glória escolheu encarar tudo isso de frente e fazia-o por uma coisa maior do que a vingança, uma coisa que te vou mostrar no fim e que vai emocionar-te.
E teve o momento mais duro de todos, sentar-se numa sala de tribunal. Imagina o que é para uma mãe estar no mesmo ambiente que as pessoas responsáveis pela morte da filha, respirar o mesmo ar, ouvir as versões, as defesas, as explicações. Cada palavra ali dita reabria uma ferida que nunca tinha fechado. E a glória estava lá inteira.
de cabeça erguida pela Daniela. Há gente que se quebra perante uma dor destas e há gente que do meio dos cacos decide levantar-se mais forte. A glória foi a segunda e o O Brasil ia descobrir com o tempo até que ponto essa força podia chegar. Em 1997, finalmente os dois foram a Juri Popular, Guilherme de Pádua e Paula Thomas foram julgados por aquilo que fizeram com a Daniela. E os dois foram condenados.
O O Brasil acompanhou cada minuto. Pra Glória, para o Raul, para todos os que tinha chorado a Daniela, parecia que finalmente alguma justiça estava a ser feita. parecia, porque aqui vem a parte que até hoje revolta quem conhece esta história. Os dois foram condenados, sim, mas ficaram presos durante um tempo que para muita gente foi demasiado pequena diante do tamanho do que tinham feito.
Em 1999, os dois já estavam em liberdade. Tinham passado cerca de 7 anos presos e aí estavam de volta. a rua. Eu vou ser cuidadosa com os números aqui, porque ao longo dos anos e dos recursos, as informação sobre o tempo exato de pena variam de fonte para fonte. O que ficou claro para a história é o essencial. Condenados num júri popular e libertados em 1999 passados cerca de 7 anos.
7 anos pela vida de uma rapariga de 22. Agora coloca-se no lugar da glória. Mais uma vez. Lutou 5 anos para ver um julgamento, estás a ver? A condenação. E pouco tempo depois vê os dois a andar livres de novo, refazendo a vida, enquanto a a sua filha não vai voltar nunca. Que mãe consegue achar que isto é justiça? A glória não encontrou.

E essa ferida, a sensação de que a conta nunca foi paga de verdade, nunca cicatrizou nela até hoje. Mas aqui é onde a glória peres se separa de quase toda a gente, porque uma dor deste tamanho, uma revolta deste tamanho quebraria a maioria das pessoas, faria a maioria desistir calar-se. Com a glória, aconteceu o contrário.
Ela pegou toda esta revolta e transformou em combustível. Em vez de deixar a injustiça enterrar a memória da filha, decidiu fazer dessa memória uma coisa que ia proteger outras filhas, outras mães, o Brasil inteiro. E é isso que te prometi contar desde o início, o que esta mãe fez com a pior dor do mundo? A parte que te vai emocionar.
Guarda o fôlego porque é agora. Lembra-se da decisão que eu lhe pedi para guardar lá atrás? Aquela que a glória começou a tomar no meio do luto. Agora já te posso contar naquilo que ela deu. A glória Perez sabia de uma verdade dura. A filha não voltava mais. Nada no mundo ia mudar isso. E mesmo assim, em vez de se entregar a esta verdade, ela decidiu lutar por uma coisa maior do que a própria dor.
Ela olhou para um país onde crimes como o que lhe tirou a filha muitas vezes ficavam impunes ou eram tratados como se não fossem tão graves. E decidiu mudar isso. Fê-lo por causa das próximas. pelas filhas das outras mães, a glória juntou-se ao povo brasileiro e mobilizou todo o país. Recolheu assinatura por assinatura, mais de 1 milhão de assinaturas e levou ao Congresso uma exigência que o homicídio qualificado passasse a ser tratado como um crime ediondo, um dos crimes mais graves que existem na lei, com punição mais dura. E
ela conseguiu. A mobilização da glória ajudou a mudar a lei brasileira. E eu queria que pensasse no que é que significa realmente, porque é uma coisa demasiado rara para passar batido. Quase toda a dor morre juntamente com quem a sente. A pessoa sofre, chora e com o tempo aquilo vai ficando só dela guardado lá dentro do tamanho do peito de uma só pessoa.
É assim. com a maioria de nós. O que a Glória fez foi diferente. Ela pegou numa dor que cabia no peito de uma mãe e fazia esta dor crescer até se tornar do tamanho de um país inteiro. Transformou o sofrimento dela em alguma coisa que trabalha todos os dias para que outras mães não passem pelo que ela passou.
E tem uma beleza triste nisto que eu mal consigo explicar, porque a maior parte das pessoas que são protegidas por esta luta nunca vão saber o nome da Daniela Peres. Não vão imaginar que existia uma rapariga de 20 e poucos anos que dançava, que brilhou numa novela e que partiu cedo demais.
Nem vão desconfiar que uma mãe atravessou o inferno para que a vida delas ficasse um pouco mais segura. Elas só vão viver tranquilas, sem nunca imaginar de onde veio um pedaço desta tranquilidade. E talvez seja esse o amor de mãe levado ao limite. Proteger em silêncio, gente que nunca vai conhecer, pessoas que nem vão saber que você existiu, só porque não quer que mais ninguém sinta a dor que você sentiu. para uma mãe que perdeu tudo.
Talvez seja essa a única consolação possível desse mundo. Saber que a partida da filha não foi à tua, que ela serviu para proteger, que de alguma forma a Daniela continua a salvar pessoas, mesmo sem estar aqui. Agora pára, respira e compreende o tamanho do que esta mãe fez. cada família brasileira que hoje é um pouco mais protegida por causa desta lei.
Cada caso que hoje é tratado com a seriedade que merece, transporta dentro de si um pedacinho da Daniela Perez, a rapariga que dançava, a rapariga de 22 anos que saiu para trabalhar e não voltou. A dor da mãe dela tornou-se escudo para um país inteiro, incluindo para si, inclusive para a sua família nessa noite, agora, sem que sequer saiba.
Foi isso que eu prometi-te lá no início, as duas mulheres desta história, a menina que o Brasil viu brilhar e a mãe dela. E olha onde chegámos. A glória seguiu a vida sendo uma das maiores autoras que a televisão brasileira já teve. Chegou a ganhar um M internacional, continuou colocando nas suas histórias as causas que importam e nunca deixou de falar contra a impuridade.
A filha virou a missão da vida dela e o que foi feito do Guilherme depois disto tudo? Essa parte também diz muito. Depois de cumprir o seu tempo e sair da prisão, o O Guilherme tentou recomeçar. reconstruiu uma vida longe dos palcos e das câmaras que um dia o tornaram conhecido. Chegou a tornar-se pastor evangélico em Belo Horizonte e passou a viver um quotidiano completamente diferente daquele jovem ator do início dos anos 90, ao longo das décadas seguintes.
Ele falou sobre o caso mais do que uma vez. Tento, à maneira dele, virar a página, apresentar uma imagem nova, deixar para trás o homem que o Brasil conheceu nesse mês de Dezembro de 1992. E aqui é onde fechamos o sentido do título desse vídeo. Porque por mais que ele tentasse, por mais anos que passassem, havia uma coisa que ele nunca conseguiu alterar, os factos.
O que ficou registado? O que concluiu a justiça? Pensa nisso. Teve décadas para contar a história da forma que queria, décadas para construir uma versão mais confortável de si próprio. Mas a verdade dos autos não se altera com o tempo. É enquanto tentava amenizar e reescrever o próprio passado. Do outro lado, tinha uma mãe que fazia questão de manter a memória da filha viva e de não deixar o país esquecer o que de facto aconteceu.
Era uma disputa silenciosa que durou anos. De um lado, alguém querendo suavizar a própria história. Do outro, uma mãe a garantir que ela era recordada do jeito certo. E é importante você saber quem ganhou esta disputa. A verdade venceu, a memória da Daniela permaneceu e a glória no fim teve a última palavra. E aqui fecha o arco mais cruel e mais bonito desta história toda.
O homem que passou anos a tentar esconder o que fez, que tentou contar uma versão mais fácil. Morreu em 2022. A a versão dele acabou com ele. A luta da glória, a memória da Daniela, a lei que nasceu dessa dor, tudo isso continuou aqui vivo, protegendo as pessoas todos os dias. Ele tentou esconder. Ela fez questão de mostrar e foi ela que ganhou no fim da única maneira que importava, transformando a perda da filha em proteção para todas as outras.
E quando junta-se as duas pontas dessa história, percebe uma coisa bonita no meio de tanta tristeza. O homem que tirou a vida à Daniela queria no fundo que aquilo terminasse ali, que a história morresse com ela, que o nome dela se tornasse apenas mais uma manchete velha, daquelas que o tempo apaga. Foi o contrário que aconteceu hoje.
O nome da Daniela Perez está mais vivo do que muita gente que continua a respirar. Ele é recordado, falado, ensinado. E está para sempre ligado ao nome da sua mãe, num laço que ninguém consegue desfazer. Mãe e filha juntas na memória do país, uma como o motivo e a outra como a força. Pensa na ironia.
Quem quis apagar a Daniela acabou por ajudar sem querer a torná-la inesquecível, porque foi a brutalidade daquilo que acordou uma mãe gigante. E foi esta mãe que garantiu que a filha nunca fosse esquecida. A Daniela tornou-se um símbolo, símbolo de uma vida que merecia ter sido longa e de uma luta que nasceu para que outras vidas têm a chance que não teve.
Poucas as pessoas, vivas ou não, deixam uma marca tão funda no país. E ela deixou aos 22 anos, sem sequer ter tido tempo para saber o tamanho do que se ia tornar. Hoje, mais de 30 anos depois, a história da Daniela continua viva na memória do Brasil. Em 2022, saiu um documentário sobre o caso Pacto Brutal.
E uma geração inteira, que era criança em 1992, ou que ainda nem tinha nascido, descobriu quem foi a Daniela Perez e o que lhe fizeram. A dor voltou a ecrã e o país recordou sobre a Paula Thomas, a mulher que foi condenada juntamente com ele, ficou o registo do que a justiça decidiu. Com o tempo, ela refez a vida, mudou de nome e formou-se, e em determinado momento, recorreu à justiça pedindo uma coisa chamada direito ao esquecimento.
Queria, na prática, que a história deixasse de ligar o nome dela ao caso que o Brasil se esquecesse. O pedido foi negado pelo Supremo Tribunal de Justiça. Pensa na força simbólica deste. A própria justiça do país disse que este história não pode ser apagada, que a memória da Daniela não é o inconveniente que alguém possa pedir para apagar.
Ela faz parte da história do Brasil e vai continuar a fazer. E talvez seja esse o final mais justo possível para uma história sem final feliz. Porque a A Daniela não vai voltar. A glória vai carregar essa ausência até ao último dia dela. Mas o nome da Daniela é muito mais do que o nome de uma vítima.
é o nome de uma menina que o país inteiro amou e de uma lei que protege outras raparigas até hoje. E isso já ninguém consegue tirar dela. Se chegou até aqui comigo, eu queria pedir-te uma coisa simples. Deixa um comentário com o nome da Daniela Pérez. faz isso por ela para que o nome dela continue a aparecer, continue a ser lido, continue vivo.
É o a nossa maneira de dizer que a gente não esqueceu. Este história tocou-te? Se em algum momento pensou na sua própria filha ou na sua própria mãe, inscreve-se no canal. Aqui contamos essas histórias com o respeito que elas merecem, sem pressas e sem sensacionalismo. Há muita gente que brilhou e que o tempo tentou apagar e que merece ser recordada do mesmo modo, porque no fundo esta sempre foi a história de uma mãe e de uma filha.
E disso qualquer mãe compreende, sem precisar de explicação nenhuma. Obrigada por ter ficado comigo até aqui e até à próxima.