No vasto e emocionante palco do futebol brasileiro, poucos personagens conseguem carregar uma aura tão singular quanto Edson Ataliba Cândido. Rápido, habilidoso e dono de uma presença marcante, ele não foi apenas um atacante; foi o protagonista de uma época dourada, um jogador que escreveu seu nome na história com atuações decisivas e uma personalidade que conquistou torcidas por onde passou. Para a Fiel, ele é sinônimo de garra e de uma era que transcendeu o esporte, tornando-se o símbolo maior de liberdade, união e coragem: a Democracia Corintiana. Quando o apito final anunciou o fim de sua trajetória dentro de campo, uma pergunta começou a ecoar em todos os cantos do Brasil: “Onde está Ataliba?”. A resposta, como tudo na vida deste craque, é fascinante e repleta de paixão.
O Início: Entre os Jornais e a Várzea

Nascido em São Paulo, em 9 de julho de 1956, a vida de Ataliba não foi marcada por caminhos fáceis ou facilidades. Crescendo no bairro da Vila Maria, ele conheceu a dura realidade desde cedo, trabalhando como entregador de jornais enquanto conciliava os estudos e o sonho de ser jogador de futebol. Seus pais, Maria e Joaquim, acompanharam os primeiros passos do filho, que tentou ingressar nas categorias de base do Corinthians em 1969, mas acabou sendo dispensado duas vezes. Longe de desistir, Ataliba encontrou na várzea a sua verdadeira escola. Atuando por equipes como Diplomata e Botafogo da Penha, ele forjou o estilo de jogo que o consagraria: veloz, driblador e com um faro de gol apurado.
O divisor de águas veio em 1974, quando, a convite de um amigo, chegou ao Juventus da Mooca. Ali, o ajudante geral que ganhava apenas o suficiente para ajudar nas despesas de casa passou a receber uma ajuda de custo que o permitiu focar totalmente no futebol. Treinado por nomes como Clóves Nori e Brida, ele começou a mostrar ao mundo que era um diamante bruto, capaz de desequilibrar qualquer partida.
O “Moleque Travesso” e o Carrasco Alvinegro
No Juventus, Ataliba consolidou-se no elenco profissional. Sua estreia contra o 15 de Piracicaba, na histórica Rua Javari, foi o prelúdio de uma carreira meteórica. Em um empate em 1 a 1, ele marcou o gol do Juventus e nunca mais deixou a titularidade. No entanto, havia uma curiosidade irônica: Ataliba era um verdadeiro carrasco do Corinthians. Em 12 partidas disputadas contra o Timão vestindo a camisa do Juventus, ele marcou impressionantes nove gols. Essa eficiência mortal chamou a atenção da diretoria alvinegra, que, em 1982, decidiu que seria muito melhor tê-lo a seu favor do que contra.
A Era de Ouro: Democracia e Títulos
Contratado pelo Corinthians em 1982, Ataliba encontrou o ambiente perfeito para o seu estilo de jogo. Sua velocidade foi uma peça fundamental na conquista do Campeonato Paulista daquele ano, em uma final emocionante contra o São Paulo. Embora não tenha balançado as redes na finalíssima, ele foi o autor de uma jogada genial que resultou no terceiro gol, marcado por Casagrande. O drible que deixou dois defensores são-paulinos trombando tornou-se um clássico da história do clube, simbolizando a criatividade de um time que jogava por música.
Ataliba enquadrava-se perfeitamente na “segunda divisão” do bloco da Democracia Corintiana, ao lado de nomes como Birubiru, Zenon, Zé Maria e Eduardo Amorim. Em 1983, conquistou o bicampeonato paulista, vivendo o ápice de sua parceria com Sócrates, Casagrande e Zenon. Ao todo, foram 136 jogos pelo Timão, com 25 gols marcados e uma série de momentos que até hoje ressoam na memória dos torcedores. O gol mais bonito de sua carreira, uma bicicleta antológica na goleada de 10 a 1 sobre o Tiradentes, ainda é lembrado como um dos lances mais plásticos já vistos no Estádio do Canindé.
O Tricampeonato Inédito
Em 1984, Ataliba tomou uma decisão que marcaria seu nome na história de forma ainda mais notável. Após deixar o Corinthians, ele aceitou o convite do padrinho de seu filho, o lendário Serginho Chulapa, para atuar no Santos. Com o título paulista conquistado pelo Peixe naquele ano, Ataliba atingiu um feito raro: tornou-se tricampeão estadual consecutivo por equipes diferentes, um recorde que poucos jogadores na história do futebol brasileiro podem ostentar. A conquista coroou a versatilidade de um jogador que provou ser capaz de brilhar em qualquer cenário.
A Vida Pós-Campos: O Legado de um Gago Imbatível
Após passagens pelo Santa Cruz e pelo Santo André, Ataliba encerrou sua carreira profissional no início dos anos 90. Longe dos holofotes, ele manteve sua conexão com o futebol, aventurando-se na carreira de técnico e supervisor. Com um sorriso constante no rosto e sua inconfundível gagueira — sobre a qual ele brinca dizendo que “falava melhor com a bola nos pés do que com a boca” —, Ataliba sempre foi uma figura carismática e querida por todos que cruzaram seu caminho.
Hoje, vivendo em São Paulo, ele permanece ativo. Ataliba é uma presença constante nos jogos do Corinthians Masters, preservando o vínculo com o manto alvinegro que ajudou a eternizar. Em 2023, durante a estreia dos novos uniformes do Corinthians, ele foi homenageado, recebendo o reconhecimento que todo ídolo merece: a gratidão de uma torcida que nunca esquece quem foi fundamental na construção de sua glória.
Além de sua vida no Master, ele continuou atuando nos bastidores do futebol, exercendo a função de treinador em clubes como o Atlético de Adema, que posteriormente tornou-se Clube Atlético Desportivo Ribeirão Pires. Para Ataliba, o futebol nunca foi apenas uma profissão, foi um estilo de vida, uma maneira de se expressar e de se conectar com as pessoas.

Por que Ataliba é Eterno?
A história de Ataliba é muito mais do que números, gols ou títulos. É a história de um menino que, contra todas as expectativas, transformou o suor de sua infância em arte pura nos gramados. Ele personificou o futebol raiz, o atacante que sabia exatamente quando acelerar, quando driblar e quando servir o companheiro. Na Democracia Corintiana, ele foi a engrenagem que fazia tudo funcionar, o jogador que não se intimidava com os grandes jogos e que tinha a audácia necessária para brilhar nos momentos mais decisivos.
Muitos jogadores passam pelo futebol sem deixar rastro, mas Ataliba deixou uma marca profunda. Ele é o testemunho vivo de um tempo onde o futebol era jogado com alma, onde a camisa pesava e onde a relação entre ídolo e torcedor era baseada na entrega total. Ele continua entre nós, levando uma vida tranquila, mas sempre pronto para calçar as chuteiras se for preciso defender o nome do Timão ou lembrar a todos o que significa ser um verdadeiro jogador.
Ao relembrar a trajetória de Ataliba, recordamos a nós mesmos por que amamos tanto este esporte. Ele nos lembra de tempos de ouro, de lances de mestre e de uma época em que o futebol era a maior paixão de uma nação. Ataliba é, sem dúvida, uma das figuras mais autênticas e apaixonadas que o nosso futebol já produziu, e enquanto houver um torcedor corintiano — ou um fã de futebol raiz — vivo, o nome de Ataliba será pronunciado com respeito, carinho e uma saudade que o tempo jamais poderá apagar. O “Gago” que brilhava nos gramados continua, aos 69 anos, sendo um gigante, e sua história, longe de chegar ao fim, continua a inspirar quem acredita que a paixão é o motor de tudo.
Hoje, Ataliba não é apenas um ex-jogador; ele é uma lenda viva, um pedaço da história que caminha entre nós. Ele nos ensina que, depois do apito final, a vida segue e que o legado de um craque não se mede apenas pelos títulos na estante, mas pela forma como ele tocou a vida das pessoas. Ataliba tocou a nossa. Ele nos fez sorrir, vibrar e acreditar. E por isso, muito obrigado, Ataliba. O seu futebol, a sua velocidade e, principalmente, a sua autenticidade, são partes indissociáveis da nossa identidade. Que o seu caminho continue sendo iluminado, e que possamos, sempre que possível, olhar para trás e dizer com orgulho: “Eu vi Ataliba jogar”.