Os bastidores das grandes cidades frequentemente escondem tramas que superam a ficção em termos de frieza e planejamento. No bairro da Savassi, uma das regiões mais nobres, valorizadas e movimentadas de Belo Horizonte, o que inicialmente foi tratado pelas autoridades e pela opinião pública como uma dolorosa fatalidade pessoal transformou-se, após uma investigação minuciosa, em uma das histórias mais revoltantes de ganância, manipulação e violência doméstica registradas no estado de Minas Gerais. No centro dessa tragédia está Giovanna Neves Santana Rocha, uma jovem estudante de psicologia de apenas 22 anos, cuja vida foi interrompida de forma brutal dentro de seu próprio apartamento.
Giovanna era descrita por amigos e colegas de faculdade como uma pessoa afetuosa, cheia de sonhos e que havia escolhido a psicologia justamente pelo desejo genuíno de ajudar o próximo a superar dores e traumas emocionais. Essa aspiração carregava uma carga de sensibilidade profunda, já que a própria jovem enfrentava seus próprios desafios psicológicos, lidando com uma saúde mental vulnerável. Esse quadro de fragilidade acentuou-se drasticamente após a perda recente de seu pai, cujo falecimento provocou um abalo emocional profundo na jovem. No mesmo período, o término de um relacionamento amoroso anterior aumentou ainda mais o seu estado de solidão e carência afetiva, tornando-a o alvo ideal para a aproximação de indivíduos com intenções duvidosas.
Em busca de novos vínculos e tentando reconstruir sua vida social, Giovanna começou a utilizar um aplicativo de relacionamentos de grande alcance. Foi por meio dessa plataforma digital que ela conheceu Adalto Martins Gomes, um homem de 45 anos que apresentava um perfil social e profissional aparentemente impecável. Formado em engenharia e atuando como servidor público federal vinculado ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), Adalto exibia a imagem de um homem maduro, estabilizado e protetor. Apesar de ainda constar legalmente como casado em seus registros civis e de possuir quatro filhos de um matrimônio anterior, ele se apresentava formalmente como um homem totalmente separado e livre para assumir um novo compromisso amoroso.

O relacionamento entre a jovem universitária e o servidor público avançou com uma velocidade incomum, chamando a atenção de pessoas próximas. Em pouquíssimas semanas de convivência, Adalto adotou uma estratégia de inserção gradual e agressiva no cotidiano de Giovanna. Sem receber um convite formal ou planejado para morar no local, ele começou a transportar seus pertences pessoais de forma fragmentada para o apartamento da namorada. Roupas, calçados, itens de higiene e documentos foram levados aos poucos até que, em curto espaço de tempo, ele havia se instalado em definitivo no imóvel sem que a jovem oferecesse resistência devido à forte dependência psicológica e vulnerabilidade emocional que desenvolvera.
O interesse de Adalto, no entanto, ia muito além do afeto pela jovem. O apartamento onde o casal residia na Savassi era fruto de uma herança legítima deixada pelo falecido pai de Giovanna, sendo o imóvel avaliado em quase um milhão de reais. Além do patrimônio imobiliário, a estudante tinha direito a uma quantia em dinheiro depositada em sua conta bancária, totalizando um espólio financeiro muito expressivo. Assim que se estabeleceu no local, as atitudes do engenheiro demonstraram uma pressa incomum em assumir o controle dos bens da parceira. De forma unilateral, ele transferiu a titularidade da conta de energia elétrica do apartamento para o seu próprio nome e, em um movimento ainda mais audacioso, procurou o escritório de advocacia responsável pelo inventário da família de Giovanna. Na ocasião, o advogado responsável estranhou a postura de Adalto, que sugeriu de forma incisiva a substituição do profissional jurídico que cuidava dos bens da jovem, demonstrando uma ingerência direta em assuntos que não lhe diziam respeito.
Enquanto o controle financeiro avançava, o comportamento de Giovanna sofria modificações severas. Relatos de amigas íntimas e familiares apontam que a estudante começou a se isolar de seu círculo social tradicional. Ela já não saía com a mesma frequência, mudou sua forma de se vestir e passou a demonstrar uma submissão psicológica extrema em relação às decisões e vontades de Adalto. O isolamento provocado pelo parceiro reduziu a rede de apoio da jovem, deixando-a ainda mais exposta e desprotegida dentro do próprio lar.
O desfecho trágico dessa dinâmica de controle ocorreu quando o corpo de Giovanna foi encontrado sem vida em seu quarto. A descoberta foi feita por Ludmila Aparecida Dias, uma amiga de longa data com quem a estudante havia combinado um almoço. Diante do não comparecimento de Giovanna e do silêncio absoluto em chamadas telefônicas e mensagens de texto, Ludmila utilizou uma cópia da chave do apartamento para averiguar a situação. Ao entrar no imóvel, deparou-se com o cenário fatídico. Próximo ao corpo da universitária, foram espalhadas intencionalmente diversas caixas de medicamentos e cartelas vazias de sedativos fortes, incluindo morfina. Devido ao histórico de acompanhamento psicológico da vítima, a cena induziu as autoridades policiais e os peritos iniciais a acreditarem que a jovem havia atentado contra a própria vida em um momento de desespero emocional.
Adalto, que havia saído do prédio no início da manhã sob o pretexto de retornar ao trabalho após o término de um período de férias, passou a adotar uma postura calculada para consolidar a narrativa de suicídio. Ele enviou áudios e mensagens em tom de desespero para amigos de Giovanna, chorando copiosamente e afirmando que a dor pela perda “revelava-se tão intensa que chegava a doer na alma”. Nessas gravações, o servidor público forneceu detalhes excessivos sobre a noite anterior, alegando que a namorada havia ingerido cerca de sete cartelas de morfina misturadas com bebidas alcoólicas e que ele havia dormido ao seu lado em posição de “conchinha”, saindo de mansinho pela manhã sem perceber que ela estava morta ou agonizando.

Contudo, a suposta postura de luto ruiu rapidamente diante das ações práticas do engenheiro. Apenas dois dias após o falecimento da estudante, Adalto ingressou com uma ação judicial de urgência para o reconhecimento de união estável pós-morte, com o claro intuito de se habilitar como herdeiro legal do patrimônio milionário da jovem, apesar de o relacionamento ter durado apenas quatro meses. Adicionalmente, ele começou a pressionar e ditar textos para amigas da vítima, exigindo que elas assinassem declarações ou e-mails falsos que comprovassem que ele sustentava a casa e mantinha uma convivência marital pública e duradoura com Giovanna. Em conversas telefônicas, o suspeito chegou a afirmar categoricamente a terceiros que o apartamento lhe pertencia por direito e que brigaria na justiça por cada centavo da herança.
A investigação policial ganhou novos rumos à medida que as contradições nos depoimentos de Adalto tornaram-se evidentes. Para a amiga que encontrou o corpo, ele afirmou que a jovem havia bebido excessivamente; para outras testemunhas, declarou que ela não havia consumido álcool. Além disso, vizinhos do edifício relataram que, poucos dias após a morte da estudante, o engenheiro continuou residindo no imóvel e passou a receber outras mulheres no local, demonstrando total ausência de remorso ou tristeza. A situação escalou quando a mãe de Giovanna, acompanhada de um advogado, utilizou uma chave reserva para retirar documentos pessoais e lembranças da filha do apartamento. Ao tomar conhecimento do fato, Adalto registrou uma ocorrência policial por invasão de domicílio e processou a ex-sogra, alegando furto de bens e afirmando que havia proibido a portaria do prédio de permitir a entrada de qualquer familiar em sua ausência.
A reviravolta definitiva e científica do caso ocorreu com a emissão do laudo oficial da necropsia realizada pelo Instituto Médico Legal. Os exames periciais constataram que a causa da morte de Giovanna Rocha não foi intoxicação exógena por medicamentos ou overdose de morfina, mas sim asfixia mecânica por sufocação direta. Os peritos criminais identificaram que as vias aéreas da jovem — nariz e boca — foram obstruídas de forma violenta, utilizando as mãos ou um anteparo como um travesseiro, o que caracterizava uma morte violenta por homicídio. O cenário de caixas de remédios espalhadas havia sido integralmente forjado pelo agressor para enganar a perícia técnica e garantir a impunidade do crime.
Diante da robustez das evidências científicas e do comportamento criminoso do suspeito, o Poder Judiciário decretou a prisão preventiva de Adalto Martins Gomes. Ele foi detido pelos investigadores da Polícia Civil exatamente no apartamento que tentava usurpar na Savassi. Durante o ato da prisão e nos interrogatórios formais subsequentes, o engenheiro optou por exercer o seu direito constitucional ao silêncio, recusando-se a responder às perguntas dos delegados. Os responsáveis pela condução do inquérito descreveram o indiciado como um indivíduo de inteligência acima da média, extremamente detalhista, frio e dotado de alta capacidade de manipulação psicológica. O caso segue sendo tratado pelas autoridades policiais como feminicídio qualificado por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima, com o planejamento voltado exclusivamente para a apropriação indébita de uma fortuna familiar. A sociedade mineira e os familiares da estudante permanecem mobilizados, aguardando o encerramento do inquérito e o julgamento final perante o Tribunal do Júri, buscando uma condenação exemplar que possa trazer um senso mínimo de justiça diante de tamanha brutalidade.