ANTÔNIO MARCOS MORREU ASSIM — E DÉBORA DUARTE FICOU 32 ANOS SEM CONSEGUIR FALAR 

 ANTÔNIO MARCOS MORREU ASSIM — E DÉBORA DUARTE FICOU 32 ANOS SEM CONSEGUIR FALAR 

Uau, um grande compositor e cantor. Grande compositor. Ah, quando me lembro Toninho, só lembro-me de António Marcos morreu assim e Débora Duarte esteve 32 anos sem conseguir falar. Era uma vulgar manhã de domingo em Alphaaville.  Um homem entrou numa padaria, pediu uma dose de whisky e saiu.

 Bateu a sua carrinha num poste, machucou o tórax com violência contra o guiador,  foi levado para o hospital. E às 21 horas desse mesmo dia, 5 de Abril de 1992, morreu. Esse homem tinha 46 anos. Esse homem tinha mais de 14 discos gravados,  filmes no currículo, novelas na televisão, espetáculos que enchiam qualquer auditório do Brasil.

Tinha uma voz que toda a geração de brasileiros dos anos 70  transportava dentro de si como uma recordação de romance, de juventude, de um  tempo que já não volta. E este homem estava a tentar relançar a carreira naquele momento. Tinha acabado de assinar um contrato com uma nova gravadora.

  Havia um projeto nas mãos que para ele era o maior sonho da vida, gravar uma versão de Imagine de John Lennon. Este homem  era António Marcos e a história da sua morte é mais complicada e mais triste do que parece à superfície. Porque o acidente na carrinha não foi o início,  foi o fim de uma longa história que começou muito antes.

 Uma história de whisky ao pequeno-almoço, de Ferrari destruído e reposto em 15 dias, de espectáculos cancelados, de filhos que ouviam na escola que o pai era bêbado, de mulheres que amaram um homem que amava mais a garrafa do que a elas. E há uma mulher nesta história que, 48 anos depois da separação, sentou-se  num podcast e disse algo que ninguém esperava.

 Débora Duarte, a atriz, a ex-mulher, a mãe da atriz Paloma Duarte, fez revelações que mudaram a forma como muita gente compreendeu essa morte. E há um pormenor sobre a morte de Vanusa, a primeira esposa, a mulher que mais amou António Marcos, que provavelmente não conhece. Um pormenor que a filha dos dois descreveu como um sinal do além.

 Fica aqui, porque esta história começa no subúrbio de São Paulo e termina de um jeito que nenhum guião de ficção escreveria melhor. Subscreve o canal Docilar Lar, deixa já o like, não vai embora. São Miguel Paulista, zona oriental de São Paulo, 8 de novembro de 1945. António Marcos. Pensamento da Silva nasceu num distrito operário de São Paulo com um nome no meio que parece invenção, mas é de registo oficial.

Pensamento.  António Marcos. Pensamento da Silva. O nome que nunca usou publicamente, mas que carregava como uma brincadeira do destino. para alguém cujos pensamentos sempre foram maiores do que o mundo à redor. Segundo dos oito filhos do Alfaiate Vicente e da costureira e poetisa Eunice, uma família numerosa, simples, das que existem em cada bairro operário de São Paulo, onde o o dinheiro é contado antes de ser gasto, onde as crianças aprendem cedo que o trabalho não é uma escolha, mas uma obrigação,

onde a arte entra pela janela como um luxo que não foi planeado, mas que chega a si próprio. era demasiado magrinho na infância, tão magro que chegou a tomar injeção de sangue de cavalo por indicação de benzedeira. Uma daquelas histórias do Brasil antigo que parecem piada, mas são memória de família guardada em décadas.

 Mas a magreza não diminuía a presença, porque António Marcos tinha algo que os magros e gordos e medianos raramente [a música] tem ao mesmo tempo. Tinha voz, uma voz que quando saiu pela boca de um adolescente de São Miguel Paulista nos anos 60 fez pessoas pararem o que estavam a fazer para ouvir. A trajetória começou de baixo, muito baixo.

 Boy, vendedor de retalho, balconista de loja de calçado, trabalhos comuns de jovem pobre que precisa de se virar enquanto ainda não sabe exatamente para onde vai, mas que enquanto se virava não parava de cantar. Enquanto vendia calçado, cantava. Enquanto entregava recado, cantava. Sua voz garantiu-lhe um lugar no Coral Golden Gate, realizado por Georges Henry, e uma participação no programa de rádio de Albertino Nobre, onde foi nomeado A voz de ouro de São Miguel.

 A voz de ouro de São Miguel. Este apelido de rádio local dado a um rapaz que ainda se encontrava descobrir o mundo era mais profético do que qualquer um imaginava. Em 1962, cantou na Guincana Que bom na TV Record. interpretou Only You, um êxito de Elvis Presley, de quem colecionava os discos numa fascinação que diz muito sobre o tipo de artista que queria ser, aquele que vai para além do bairro, para além da cidade, para além do país.

 Em 1965, juntou-se com mais três rapazes e formaram os iguais. Mas era claro desde o início que António Marcos tinha sido feito para brilhar sozinho. A voz era demasiado grande para dividir o espaço igualitário com qualquer  outra. Em 1967, saiu o seu primeiro compacto a solo. Duas canções, a história de quem amou uma flor e perdi-te.

 O disco não bombou, mas as rádios ouviam,  os produtores ouviram e a editora RCA Victor, que estava a construir o catálogo mais forte da pop brasileira da época, ouviu. Convidado por Ramalho Neto, gravou  pela RCA como integrante do conjunto Os Iguais, que logo o deixou seguir sozinho  quando se tornou claro que ele era o que tinha valor.

 tornou-se logo solista e fez sucesso com a música Tenho Um amor melhor que o seu, de Roberto Carlos, que vendeu mais de 300.000 exemplares,  300.000 exemplares. Em 1967, num Brasil que ainda não tinha streaming, que não tinha Spotify, que não tinha algoritmo, 300.000 pessoas foram a uma loja física, pegaram dinheiro do seu bolso e compraram aquele compacto.

 E aí o Brasil começou a olhar para aquele rapaz de São Miguel Paulista de outro modo. Em 1969, no Vira Festival da MPB da TV Record, António Marcos participou interpretando Tu vais voltar. A música ficou em quarto lugar,  mas o prémio de melhor intérprete foi dele. Num festival onde a canção não ganhou, o intérprete se sagrou o melhor.

 Esta é uma distinção importante que define quem era António Marcos. Não era o compositor mais sofisticado, [a música] não era o letrista mais cerebral, era o intérprete, era o homem que pega numa canção e a faz parecer que foi escrita exatamente para aquele momento, aquela noite, aquela sala, aquela pessoa que está a ouvir e jura que a letra foi tirada do próprio coração.

 Este dom não tem escola, não tem método. Ou tem ou não tem.  E o António Marcos tinha de um forma que pouquíssimas pessoas na história da música popular brasileira tiveram. Mas antes de continuar a história da ascensão, preciso de te contar da noite que mudou tudo na vida pessoal de António Marcos. Uma noite que começou numa festa e que acabou numa cama de empregada doméstica.

 Depois do festival da MPB de 1969, alguns cantores foram festejar para a casa de António Marcos. Edit, assessora do Roberto Carlos na altura, foi à festa com uma jovem cantora que começava a fazer nome. Esta jovem cantora precisou de um maior emprestado para se refrescar na piscina. Saiu molhada, foi para um dos quartos.

 Tirei o fato de banho, fiquei nua e entrei debaixo da coberta. De repente sinto alguém a entrar. Sabia que era ele. Fizemos amor na cama da empregada. Esta é a Vanusa a contar  com aquela honestidade desconcertante que marcou todas as entrevistas que deu sobre António Marcos ao longo da vida, sem eufemismo, sem romantizar, sem esconder nada.

 E a partir dessa noite, Vanusa e António Marcos não se largaram mais. Os dois passaram a viver juntos, mas não casaram, como exigiam os padrões da época. Naquele tempo, os os artistas não podiam casar para não alimentar os sonhos dos fãs. Dois artistas famosos a viver juntos, sem poder assumir publicamente o casamento, porque o contrato de imagem exigia que os fãs mantivessem o sonho de que aquele galã estava disponível.

 Uma regra absurda que ainda existia no Brasil dos anos 70 e que fazia de cantores e atores viverem vidas duplas, a pública de solteiro desejado e a privada de homem comprometido. Mas havia um problema que a regra da indústria não resolvia. Um problema que vivia dentro de António Marcos ainda antes da fama que se havia instalado na vida daquele jovem de São Miguel Paulista  como uma sombra que a luz dos holofotes nunca conseguiu apagar. o álcool.

 Ele bebia muito e não comia. O seu café da manhã era whisky, declarou Vanusa. O pequeno-almoço era whisky. Não uma cerveja de fim de tarde, e não um drink na festa. O pequeno-almoço, o primeiro ato do dia, a refeição que é suposto ser a mais saudável,  a que dá energia para começar, era uma dose de whisky.

Isto não é comportamento de quem bebe aos fins de semana. Isto é dependência instalada, funcionando em regime de tempo inteiro, disfarçada de personalidade de artista boémio. E o O Brasil dos anos 70 tinha uma tolerância com o alcoolismo de artistas que hoje seria inimaginável. fazia parte do mito.

 O génio que bebe, o galã que exagera,  o artista que vive com uma intensidade para além do normal, porque é isso que produz a arte extraordinária. Era quase um cliché de marketing, o cantor  romântico que amava demais e bebia demais para suportar o peso dos próprios sentimentos. Mas Vanusa vivia a realidade por dentro, e a realidade por dentro não era poética.

 Devido aos desaparecimentos, a sua mulher chegou a ter de o substituir em dois espectáculos. Nunca fui tão vaiada, compara Vanusa, a esposa em palco a ser vaiada porque o marido tinha desaparecido para beber  algures. A família inteira absorvendo as consequências da uma dependência que não queria ou não conseguia enfrentar. E, então, numa manhã que Vanusa descreveu com pormenor que nunca se esquece depois de ouvir, aconteceu a cena que mudou  tudo.

 A filha mais velha, Amanda, que na época ainda era pequena, disse que não queria ir para a escola. Por quê? Porque durante o recreio as crianças gritavam que o pai dela era bêbado. Vanusa pediu a Ama que tirasse as crianças do ambiente e fez o ultimato. António Marcos é o seguinte, agora vais ter que escolher ou a bebida ou a sua família.

 Viu o que aconteceu? Daqui para frente será pior para elas. António Marcos estava a beber whisky no momento em que ela disse isso. Ele pegou na garrafa, deu um gole e falou: “Eu nunca vou deixar de beber”. Eu disse:  “Então, tem atenção que só vou dizer uma vez: levanta-te e sai”. Ele ficou  passado. “Levanta-te e sai”. E fui aumentando o tom de voz.

 E saiu e foi-se embora. Saiu e foi-se embora. Mas na a minha cabeça era um amor tão grande, filhas maravilhosas.  Ele vai deixar de beber e vai voltar. Ele nunca deixou de beber e nunca pediu para voltar. Esta frase de Vanusa transporta dentro dela toda a tragédia de amar alguém que está a destruir-se. A esperança que persiste mesmo depois do fim.

 A espera que dura mais do que deveria, porque o amor não obedece a decisões racionais. Ele nunca deixou de beber. Ele nunca pediu para voltar. E meses depois uma manchete nas bancas de todo o Brasil. Bomba. Confirmado o romance de Débora Duarte e António Marcos. Débora Duarte. Para compreender o que aquele nome significou no Brasil de 1976, é preciso entender quem era ela.

Filha da atriz Marisa Sanchez com um músico americano chamado  Douglas Duke, adotada pelo ator Lima Duarte quando a mãe casou com ele. Lima Duarte, um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, que deu a entiada o apelido artístico que ela carrega até hoje.  Débora Duarte tinha começado a trabalhar como atriz aos 5 anos. Aos 15 já fazia novelas.

 Com 20 e poucos era uma das atrizes mais respeitadas do Brasil. Com a seriedade artística que advém de crescer dentro do teatro, de conviver com os grandes desde a infância. O encontro de António Marcos com a Débora não foi acidental.  Protagonizou a novela O profeta da TV Tupi em 1977 e cantou a canção Tema de Abertura.

 a personagem principal feminina da telenovela, Débora Duarte. Mas antes  disso, em 1976, quando Vanusa tinha acabado de pedir para ele sair, António Marcos e Débora já estavam juntos. A notícia na capa da revista Amiga foi uma bomba que caiu diretamente em cima de Vanusa. Quando eu vi-o e à Débora Duarte na capa da revista Amiga, chorei três dias debaixo do meu edredão.

 Três dias debaixo do edredon. Esta é a medida do impacto. Não um choro de hora, três dias inteiros de luto pelo amor que tinha acabado de anunciar publicamente que tinha encontrado outra, que havia algo que tornava tudo ainda mais difícil. Vanusa admirava Débora Duarte como atriz. Declarou-o em entrevistas. Disse que era uma atriz maravilhosa, o que não impediu que o clima entre as duas fosse de gelo durante anos.

 Vanusa disse ter tido contacto amigável com outras companheiras de António Marcos, mas não com a atriz. A frieza manteve-se até no velório do cantor. Eu estava do lado do caixão. Ela chegou, deu-lhe um beijo, nem olhou para a minha cara e foi-se embora, relatou no velório. As duas mulheres que mais amaram aquele homem, uma ao lado do caixão, chegando a outra, beijando-o e indo embora sem olhar.

 Esse é o retrato de uma história de amor que teve tantas camadas. que nem a morte conseguiu simplificar. Com Débora Duarte, António O Marcos viveu a fase mais brilhante e mais instável da carreira ao mesmo tempo. Juntos, os dois apresentaram o programa Rosa e Azul na TV Bandeirantes. Protagonizaram a novela Cara a Cara na mesma emissora.

 Novela que tinha no elenco Fernanda Montenegro, David Cardoso e Luís Gustavo, uma equipa de peso que mostrava o nível do projeto. O casal chegou a gravar um compacto com as músicas da novela. Meses depois, o casal mostrou a sua residência no Morumbi, na capa de um especial da revista Amiga, Os ídolos da TV e as Suas Casas Fabulosas.

 A mansão tinha piscina, campo de futebol society, veludo nos sofás e um bar de aço escovado. Um bar de aço escovado dentro da mansão de um alcoólico. Em 1977 nasceu Paloma Duarte, a filha de ambos, que carregaria o apelido da mãe Paloma Duarte e que viria a ser, décadas depois uma das atrizes mais reconhecidas da televisão brasileira.

 Mas António Marcos, dentro de toda aquela vida de mansão e bar de aço escovado, estava afundando. No início dos anos 80, se separou-se de Débora e António Marcos entrou em parafuso,  como o próprio declarou. Pensou em largar tudo para ser empregado de mesa em Amesterdão. Ser empregado de mesa em Amsterdam.

 Essa frase diz tudo. O homem que tinha tido mansão no Morumbi, que tinha estampado capa de revista, que tinha cantado nos palcos mais importantes do país, este homem, no início dos anos 80, estava pensando em desaparecer para a Europa e servir à mesa numa cidade estrangeira onde ninguém soubesse o seu nome.

 Este é o tipo de desespero que o alcoolismo produz. Não a vontade de morrer necessariamente, mas a vontade de deixar de ser quem se é. de escapar ao peso da própria história, de recomeçar do zero num lugar onde o passado não te alcança.  Não foi para Amesterdão, ficou. E as décadas de 80 foram uma montanha russa de internamentos, tentativas de recuperação, pequenos retornos à carreira e novos afundamentos.

 Em 1991, António Marcos tomou uma decisão que revelou o tipo de artista que ainda habitava dentro daquele homem devastado. Quis gravar uma versão de Imagine de John Lennon. Não foi uma escolha aleatória. Lennon tinha sido assassinado em 1980 e, Imagine, tinha-se tornado na década seguinte um hino universal de paz e humanidade.

 Uma música que transcende género, língua, fronteira, que ouve em qualquer canto do mundo e reconhece imediatamente, que transporta dentro de si um sonho tão simples e tão impossível, ao mesmo tempo que faz qualquer pessoa sentir algo. E António Marcos, com a voz que tinha, com aquela capacidade de interpretar que o tornava diferente de qualquer outro cantor, queria pegar nesta música e entregá-la em português para o Brasil.

Assinou o contrato com a editora Esfinge. As gravações estavam a ser preparadas e depois Yokoono vetou. A viúva de Lennon vetou a versão, o que, aliado à falência da gravadora esfinge, impediu o lançamento do disco. O sonho do relançamento afundou antes de chegar ao estúdio. Dois reveses ao mesmo tempo, o veto da viúva e a falência da gravadora.

 O homem que queria renascer viu a porta fechar-se mais uma vez. E foi neste contexto de sonho bloqueado,  de carreira que tentava, mas não descolava, de um corpo que transportava décadas de alcoolismo, que chegou amanhã do dia 5 de Abril de 1992. Alphaville, uma padaria, uma dose de whisky, o pequeno-almoço de António Marcos, como tantos outros cafés da manhã da sua vida adulta.

 Na manhã do no dia 5 de abril de 1992, foi a uma padaria em Alpaville, pediu uma dose de whisky e ao sair bateu o seu carrinha num poste, machucando o tórax violentamente contra o guiador. Era Ana Paula quem estava com ele nos últimos anos, a filha de Nice Rossi, primeira mulher do seu amigo Roberto Carlos, a mulher que tinha ficado ao lado dele  quando muitos já tinham desistido.

 Ana Paula internou-o no Hospital Osvaldo Cruz e por volta das 20s, António Marcos faleceu 46 anos, insuficiência hepática, consequência direta de décadas de alcoolismo, agravada pelo trauma físico do acidente. O corpo de um homem que tinha sido destruído por dentro ao longo de anos,  foi finalmente destruído por fora nessa manhã.

 E aqui está o elemento que o título promete e que agora vai compreender em toda a sua profundidade. António Marcos não morreu simplesmente de alcoolismo. Morreu por uma série de coincidências,  de escolhas, de uma manhã específica em que uma padaria, uma dose de whisky, um poste e uma carrinha estavam todos no mesmo lugar ao mesmo tempo.

 O acidente foi o gatilho final de um processo que durava há décadas, mas sem aquela manhã específica, naquele dia específico, com aquela sequência específica de eventos, talvez o alcoolismo ainda o fosse levar, mas não naquele dia, não naquele modo. Era um dia que, em circunstâncias ligeiramente diferentes, não teria sido o dia da morte.

 E foi exatamente isso que Débora Duarte, a ex-mulher, a mãe de Paloma, demorou décadas para conseguir processar completamente. Em setembro de 2024, Débora Duarte sentou-se no podcast Papagaio falante com Sérgio Malandro e Renato Rabelo. O episódio intitulado Impacto da Morte de António Marcos, Débora Duarte, registou uma conversa que, para quem acompanha a carreira da atriz foi uma abertura rara.

Débora Duarte  é conhecida por guardar a vida privada, por não dar entrevistas sobre o que não quer falar, por ter aquela postura de quem cresceu dentro do teatro, onde a arte é o que importa e a vida pessoal fica nos bastidores. E  ali no podcast ela falou sobre o impacto daquela morte 32 anos depois. 32 anos.

 falou sobre como a separação deles no início dos anos 80 foi violenta para ela. Sobre como o casamento, que parecia ter tudo, a mansão, o programa de televisão, o novela, a filha, foi-se desmoronando ao mesmo tempo em que a dependência dele avançava. Sobre como há coisas que só o tempo, e por vezes uma conversa num podcast décadas depois conseguem colocar em palavras.

 Ela não tinha conseguido, nos anos imediatamente após a morte dar dimensão ao que sentia. Era complexo demais. Havia amor genuíno e havia mágoa genuína. Havia uma filha que cresceu sem o pai e que precisava que a mãe se mantivesse de pé. Havia uma carreira a continuar porque a vida não pára pelo luto.

 E havia a culpa invisível que os ex-companheiros de toxicodependentes frequentemente carregam.  A pergunta que nunca tem resposta. Teria havido algo de diferente que eu pudesse ter feito?  Esta culpa, segundo especialistas em toxicodependência, é uma das marcas mais persistentes em quem amou alguém com este tipo de doença.

 Você sabe racionalmente que não era sua responsabilidade salvar, que a a dependência é uma doença que o próprio dependente precisa de escolher tratar, que não se podia beber menos por ele,  não podia querer a sobriedade por ele. Mas o coração não obedece a racionalizações. Débora Duarte carregou tudo isto durante 32 anos e em 2024 encontrou finalmente o espaço para falar.

 O título diz: “28 anos depois e a conta fechava para o momento em que Débora começou a pronunciar-se mais abertamente sobre esta história anos antes do podcast de 2024. O facto é que passaram décadas antes que ela conseguisse articular publicamente o impacto dessa morte. E há uma última parte desta história que precisa de ser contada, uma parte que não é sobre António Marcos diretamente, mas que lança sobretudo uma luz que vai para além do que qualquer argumentista inventaria.

 Em 8 de novembro de 2020, Vanusa morreu, 73 anos, insuficiência respiratória, numa lar de idosos em Santos, no litoral de São Paulo, onde tinha passado os últimos anos a lutar  contra uma doença degenerativa que produzia sinais de demência e períodos graves de depressão. Vanusa morreu no dia 8 de novembro de 2020.

 O dia 8 de novembro é o dia do aniversário de António Marcos, filha da cantora Vanusa. Areta Marcos se manifestou sobre a morte da mãe. Ao publicar uma foto antiga dos pais, ela disse que a mãe partiu no dia do aniversário de António Marcos. O amor é impossível. Hoje é o aniversário do meu pai, António Marcos. Ele veio buscar a minha mãe para viverem juntos na eternidade.

A vida é arte, escreveu. Ele veio buscar a minha mãe para viverem juntos na eternidade. Areta Marcos, a filha dos dois, perante a morte da mãe no aniversário do pai morto há 28 anos, só conseguiu processar aquela coincidência de uma forma, como encontro. Como um homem que tinha saído de casa numa manhã de 1975, quando Vanusa disse: “Levanta-te e sai”.

 e nunca mais voltou, mas que 28 anos depois de morrer, apareceu no seu aniversário para a levar junto. Acredita ou não acredita nessas coisas? Isto é íntimo de cada um. Mas há algo nesta coincidência que vai para além da razão, que aquelas duas pessoas que se amaram tanto e se destruíram tanto, que produziram música e filhas e histórias que o Brasil inteiro cantou, que elas foram encontrar um final de história no mesmo dia.

 Uma última curiosidade. Vanusa morreu no dia 8 de novembro de 2020, exatamente a data de nascimento de António Marcos. O amor é impossível, a a vida é arte. Após a morte do cantor, um exame de ADN comprovou a paternidade de mais um menino, Manuel Marcos, que passou a ser o primogénito da Prol. Assim, após a trajetória de um típico romântico, deixou cinco filhos, quatro ex-mulheres, 14 discos e centenas de canções, cinco filhos, quatro mulheres, 14 discos e uma canção Como vai você que o Roberto Carlos regravou e

que se tornou um dos maiores sucessos da carreira do rei. Uma música que António Marcos compôs e que ficou muito mais famosa na voz de outro cantor do que na sua  própria. Esta é uma das ironias menores, mais significativas da história de António Marcos, ter sido autor de algo que se tornou maior do que ele na voz de um amigo.

 Hoje, em São Miguel Paulista foi fundada a Casa de Cultura António Marcos São Miguel,  o bairro onde tudo começou, onde o filho do Alfaiate vendia calçado e cantarolava antes de saber que seria cantor, guarda o seu nome numa placa. E em 2006, a sua filha Areta Marcos lançou o CD e DVD Areta Marcos ao vivo, homenagem aos 60 anos de António Marcos.

 A filha, mantendo viva a voz do pai, que nunca chegou a completar os 60 anos que ela estava a homenagear. António Marcos não era perfeito. Longe disso, era um homem que amou de verdade e magoou de verdade, que cantava sobre o romantismo, enquanto o romantismo da própria vida se dissolvia numa garrafa de whisky, que tinha uma generosidade absurda.

 dava dinheiro aos mendigos, presenteava os fãs, mandava flores às mulheres que tinha magoado, ao mesmo tempo que não conseguia dar às filhas o básico de um pai presente e sóbrio. Era a contradição na forma humana, aquela contradição específica que o alcoolismo produz nas pessoas que consome, o excesso de sentimento coexistindo com a incapacidade de administrar o  próprio sentimento.

o amor genuíno, coesistindo com a destituição de qualquer disciplina necessária para sustentar esse amor no dia a dia. E havia algo que ele queria que nunca conseguiu, aquela versão de Imagine-se que Yokoono vetou, aquele último sonho de relançamento que a falência da gravadora enterrou juntamente com o veto.

António Marcos morreu a querer gravar uma canção sobre um mundo sem divisões, sem guerra, sem ganância, onde as as pessoas vivem em paz. queria pegar aquela letra de Lennon e entregá-la em português para um Brasil que necessitava de esperança. Não conseguiu. Que essa impossibilidade de um homem que cantava sobre o amor não conseguir amarrar a própria vida, de alguém que sonhava com imagine não conseguir imaginar uma versão sóbria e funcional de si mesmo.

Esta impossibilidade é o coração  trágico desta história toda. Antes de ir, diz-me uma coisa. Você conhecia esta parte da história de Antônio Marcos, a da padaria do whisky, do poste do Alphaville? Sabia da coincidência da morte de Vanusa no aniversário dele? Sabia do sonho de gravar Imagine que a Yoko barrou? E a questão mais difícil, a que não tem resposta fácil.

 Acha que Antônio Poderia Marcos ter-se salvo a si mesmo? Que havia uma versão diferente possível daquela vida? Ou o alcoolismo era grande demais? Estava instalado demasiado fundo e o fim seria o mesmo de uma maneira ou de outro? Deixa nos comentários. Por que histórias como esta merecem ser conversadas, não só assistidas? Aperta o like se chegou até ao fim.

 Se subscreve o canal Docilar Lar. Liga o sino de notificações. António Marcos. A voz de ouro de S. Miguel, que se tornou  o ídolo do Brasil inteiro, que amou quatro mulheres e magoou a todas, que teve cinco filhos e foi pai de poucos, que queriam gravar Imagine e morreu sem o conseguir, que numa manhã de Abril de 1992 dirigiu-se a uma padaria, pediu um whisky e não voltou, que a mulher com quem mais tinha amado viveu até aos 73 anos, adoeceu, perdeu a memória  aos poucos. e morreu no dia do seu aniversário

dele. Ele veio buscar a minha mãe para viverem juntos na eternidade. A vida é arte. Até ao próximo. Roteiro produzido para narração em vídeo do canal Docilar Lar. Baseado em informações verificadas de Wikipédia, TV História, o Antagónico,  Meio Norte, Dourados News, Prom, Rolling Stone Brasil, Metrópoles, Terra, Santa Portal, Pleno News, Câmara dos Deputados, Rádio Câmara, Pure People, EBC Rádios e Caras Brasil.

 As declarações citadas foram extraídas de entrevistas públicas concedidas pelas próprias pessoas mencionadas.

 

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