ANTÔNIO MARCOS MORREU NO DIA QUE NÃO ERA PRA MORRER E SUA ESPOSA FAMOSA SÓ ENTENDEU 28 ANOS DEPOIS

Ele venceu um concurso de caloiros e ganhou um apelido que carregaria com orgulho. A voz de ouro de São Miguel. No início dos anos 60, entre 19 e 60 e 1962, já aparecia a cantar, a tocar e a fazer humor no programa de Estevão Sandirard. Passou também pelo Teatro de Arena, aquele mesmo que formaria tanta gente importante da cultura brasileira.

A viragem veio com a música. Por volta de  1966, gravou o seu primeiro disco pela RCA Victor, integrando o conjunto Os Iguais, que emplacou o sucesso à partida. Logo tornou-se solista e foi abraçado por aquele movimento que agitou o Brasil nessa década, a Jovem Guarda. Foi ali que António Marcos começou a deixar de ser o menino pobre de São Miguel para se transformar no galã, que faria multidões  suspirarem.

E o primeiro grande estouro tem nome e número. Ele gravou Há um amor melhor que o seu, uma composição de Roberto Carlos e Erasmo  Carlos. E o disco vendeu mais de 300.000 cópias. Para um rapaz que pouco tempo antes recolhia caixas numa sapataria, era a prova de que o sonho estava a tornar-se realidade.

Mas o que poucos imaginavam é que o maior sucesso da sua vida não viria da sua voz, viria da sua pena. Se há uma coisa que define o génio de António Marcos, é esta ironia.  O homem que enchia auditórios com a A própria voz construiu o seu maior triunfo, escrevendo para a voz de outro. No início dos anos 70, em parceria com Mário Marcos, compôs uma canção  chamada Como estás? A música caiu nas mãos de Roberto Carlos, que a gravou no seu álbum de 1972.

O resultado foi avaçalador. Como vai? Vendeu mais de 700.000 1 exemplares e transformou-se num daqueles clássicos que atravessam gerações. Daqueles que todo o brasileiro sabe cantar olar, mesmo sem saber quem escreveu. Pois quem escreveu foi o galã de São Miguel Paulista. Esta única composição vale mais em vendas do que a maioria dos artistas  consegue na carreira inteira.

Mas António Marcos não era apenas um compositor de bastidores. Como intérprete, ele tinha presença, tinha voz e tinha um carisma que a câmara adorava. Em 1969, subiu ao palco do quinto festival da música popular brasileira da TV Record, um dos eventos mais disputados e respeitados da música do país. Interpretou a canção Tu vais voltar.

ficou em quarto lugar na competição, mas levou para casa o  que talvez valesse mais do que o troféu principal, o prémio de melhor intérprete do  festival. Nesse mesmo ano, ainda arrecadou os prémios Roquete Pinto e Chico Viola. O menino pobre estava oficialmente entre os grandes e os sucessos não pararam de chegar.

Por Volta de 1973,  ele gravou aquele que se tornaria o seu maior êxito como cantor, O Homem de Nazaré, uma composição de Cláudio Fontana. A canção foi tão longe que até ganhou versão espanhola, abrindo portas para ele fora do Brasil. Logo depois veio oração de um jovem triste do compositor Nelson Ned.

Os números desse período impressionam. Segundo o dicionário Cravo Albim, referência séria na investigação da música brasileira, os compactos de O Homem de Nazaré e de Oração de Um Jovem triste venderam 500.000 exemplares cada um. Some isto tudo e entende por naquela década. António  Marcos era um nome que a indústria discográfica tratava como ouro.

A fama, claro, não ficou só na música. Aquele rosto bonito e aquele jeito de galã foram parar à televisão e no cinema. Protagonizou a novela Toninho On The Rocks,  exibida pela TV Tupi em 1970, contracenando ao lado de um peso pesado como Raul Cortez. Antes disso, já tinha pisado os palcos do teatro em montagens  marcantes, como Arena Contra Zumbi, dirigida por Augusto Boal em 1969, e o espetáculo Hair no ano seguinte.

No cinema apareceu em produções como pais quadrados, filhos avançados e som, amor e curtição. Era um artista completo que transitava entre o disco, o pequeno ecrã, a ecrã grande e o palco com a mesma desenvoltura. Havia ainda  um pormenor que enlouquecia o público feminino. António Marcos, media 1,82 m, era considerado um dos homens mais belos da sua geração e chegou a estampar fotonovelas, aquelas revistas de  histórias românticas contadas em fotografias que faziam enorme sucesso na época.

A imprensa da época tratava-o como o galã perfeito e ele soube ocupar esse lugar com naturalidade.  Ainda assim, no meio de toda esta glória, faltava um capítulo na história dele, o capítulo do amor. E esse capítulo chegaria com o nome de uma das maiores cantoras que o Brasil já produziu, numa relação que mistura paixão, ciúme, festival de música e muito mais tarde muita dor.

O encontro decorreu  onde as grandes histórias da música daquela época costumavam começar, nos bastidores de um festival. Foi em 1968, no quinto festival da Record, e também nos corredores da editora RCA, que António Marcos cruzou o caminho de uma jovem cantora de voz poderosa e temperamento ainda mais forte. O nome dela era Vanusa.

Os dois eram, cada um à sua maneira, estrelas em ascensão. E o que nasceu  ali não foi um romance discreto de bastidor. Foi uma das paixões mais faladas da música brasileira. O relacionamento engatou rápido e intenso. Em 1974, no dia 15 de maio, nasceu no Rio de Janeiro a filha do casal Areta Marcos, que mais tarde seguiria os passos dos pais e tornar-se-ia cantora e apresentadora.

Antes dela já tinha chegado a outra filha, Amanda. O casamento foi oficializado em 1972 e durante alguns anos formaram um daqueles casais que o público acompanhava com fascínio. Dois artistas bonitos, talentosos e famosos vivendo sob o mesmo tecto. Chegaram mesmo a gravar juntos em dueto, uma versão da canção italiana Torneró, lançada no Brasil como Volte Amor.

Mas debaixo do glamur já crescia uma sombra. E essa sombra tinha nome, álcool. Décadas mais tarde, com a serenidade de quem já tinha feito as pazes com o passado, Vanusa falou abertamente sobre  como era a convivência. Numa dessas declarações, foi clara ao separar o homem do vício. Disse que António Marcos, todo mundo sabia,  era alcólatra, mas que enquanto bebia nunca a agrediu.

Pelo contrário, ela descreveu-o como um verdadeiro gentleman, um homem que mandava flores. Esta é a imagem que ela fez questão de preservar, a do amor cavalheiro, mesmo perante tudo o que veio depois. O problema  é que o amor por si só não dava conta da bebida. A relação foi desgastando-se e chegou o momento em que Vanusa encostou o marido à parede.

Segundo o relato do próprio, ela disse a ele que teria de escolher ou a bebida ou a família. A resposta que ela ouviu é daquelas que ficam a ecoar para sempre. Respondeu com uma sinceridade quase  cruel que nunca iria parar de beber. Nessa frase  estava escrito o destino do casamento e talvez o destino da vida dele.

A separação veio por volta de 1975  e o fim do casamento ainda guardava uma ferida a mais. Pouco depois, António Marcos envolveu-se com outra mulher famosa, a atriz Débora Duarte, filha do grande ator Lima Duarte. Os dois tinham se aproximado contracenando  e o romance acabou estampado nas revistas da época. Vanusa nunca escondeu o quanto aquilo a magoou.

Em depoimento,  contou que quando viu o ex-marido e Débora Duarte, juntos na capa da revista Amiga,  chorou durante três dias debaixo do próprio Edredon. É uma imagem dolorosamente humana, a da artista poderosa em palco, que em casa se desmancha como qualquer pessoa perante um coração partido. O casamento de António Marcos com Débora Duarte aconteceu entre 1976 e 1980.

Desta união nasceu uma filha que o tempo encarregaria de tornar muito conhecida do público brasileiro, a atriz Paloma Duarte. Mais tarde ainda viriam outros relacionamentos e outros filhos, espalhando pelo Brasil uma descendência de gente ligada à arte. Mas no centro da toda esta história sentimental é a figura de Vanusa, que se mantém como a grande testemunha, a mulher que amou, que sofreu, que se separou e que mesmo assim, anos mais tarde ainda chamaria António Marcos de o homem que ela mais  amou na vida.

Só que enquanto a vida amorosa seguia agitada, a carreira começava a dar sinais de que algo estava muito errado. O ídolo intocável dos anos 70 estava prestes a viver uma queda que ninguém imaginava possível. A queda de António Marcos não foi um tropeção, foi um desmoronamento lento,  acompanhado de perto por quem o admirava e doloroso de assistir.

O mesmo  homem que vendia centenas de milhares de discos, que enchia auditórios e estampava capas de revista, começou a desaparecer dos holofotes ao longo dos anos 80 e o motivo era aquele mesmo que já tinha destruído o seu casamento com Vanusa. O álcool, agora acompanhado também do uso de drogas.

A bebida, que antes era um pormenor sussurrado nos bastidores, passou a comandar a sua vida. As internamentos em clínicas começaram a tornar parte da rotina. O artista que parecia ter tudo foi perdendo um a um os contratos, o dinheiro e o prestígio. Numa entrevista à revista Contigo, o próprio António Marcos fez uma confissão que revela bem o tamanho da armadilha em que tinha caído.

Disse que a pessoa bebe, usa tóxico e pensa que o seu poder de criação está mais aguçado, mas concluiu com uma só palavra: palhaçada. era o ídolo reconhecendo em voz alta  que a ideia de que o vício alimentava a arte não passava de uma mentira que ele mesmo tinha acreditado. Há um outro relato que talvez explique a raiz daquela dor toda.

Quando perguntavam à Vanusa por ele bebia tanto, ela costumava repetir uma resposta que ouvia  dele. António Marcos dizia que não era deste planeta, que o mundo era demasiado cruel e demasiado desigual para ele. Por trás do galã sorridente das fotonovelas, havia um homem sensível e atormentado, que parecia não encontrar lugar confortável no próprio sucesso.

E quanto maior for a fama, mais funda parecia ficar esta inquietação. O declínio também o tirou geograficamente do centro das atenções.  Foi viver para Mairiporã. na região metropolitana de São Paulo, longe do brilho que um dia o rodeou, as As dificuldades financeiras chegaram a um ponto que comoove. Segundo o produtor António Luiz, que o conhecia de perto, houve momentos em que o cantor simplesmente não tinha o que comer.

O mesmo homem que faturava fortunas com discos vivia agora a penúria. Num gesto que diz muito sobre o que os dois um dia tinham vivido, Vanusa, já casada com o diretor Augusto César Vanuti, ajudou a organizar um concerto de beneficência para socorrer o ex-marido. O amor tinha acabado como casamento, mas sobrou como solidariedade.

Ainda assim, António Marcos não desistiu de sonhar com a reviravolta. No início dos anos 90, em 1991, estava a preparar um plano para relançar a carreira. A ideia era ousada gravar uma versão portuguesa de Imagine, o hino de John  Lennon. Mas o destino, que já tinha sido tão duro com ele, reservou mais um golpe.

A viúva de Lenon, Yoko vetou a versão e a editora que bancaria o projeto, a esfinge, faliu. O disco que poderia reerguer o artista  nunca saiu. Foi mais uma porta a bater na cara de um homem que já não tinha muitas forças para continuar a empurrar. Por essa altura, ainda fazia uma temporada a cantar numa casa noturna Paulista, denominado Inverno e Verão, tentando manter-se de pé com o que restava da voz e do nome.

Mas o corpo castigado por anos de abuso já cobrava a conta. O fígado, em particular, estava sendo devastado pela bebida. O que vinha  pela frente já não era uma má fase da carreira. Era o capítulo final de uma vida demasiado intensa, breve demais, que se aproximava do seu desfecho em São Paulo. O fim chegou no no dia 5 de abril de 1992 em São Paulo.

Morreu António Marcos nessa data com apenas 46 anos de idade. A causa confirmada e registada foi insuficiência hepática, ou seja, a falência do fígado, consequência direta de anos e anos de alcoolismo. Não foi uma doença misteriosa, nem um acidente repentino.  Foi o desfecho previsível e ainda assim doloroso de uma batalha que ele próprio tinha confessado não querer ganhar quando disse a Vanusa que nunca deixaria de beber.

Nessa noite, internado no Hospital Osvaldo Cruz, o galã, que um dia foi à voz de ouro de São Miguel, despediu-se. Ao seu lado estava Ana Paula, a companheira dos seus últimos anos de vida. Foi sepultado no cemitério Parque dos Giraçóis, na capital paulista. A morte de António Marcos encerrou uma trajetória que tem tudo o que uma grande história brasileira costuma ter.

O menino pobre que se tornou ídolo, o compositor que entregou a Roberto Carlos um dos maiores êxitos da música nacional, o galã que fez o país suspirar e o homem que no auge derrubado pelos próprios fantasmas.  Restaram as canções, ficaram os filhos artistas, como a cantora Areta Marcos e a atriz Paloma Duarte. E restou sobretudo à memória de uma mulher que nunca o esqueceu, porque a  história dele e de Vanusa ainda guardava a última volta.

E é aqui  que a coincidência arrepia. Vanusa, a mulher que lhe chamou o homem que mais amou, que chorou três dias debaixo do edredão e que organizou um espectáculo para o socorrer quando nada tinha, morreu muitos anos depois, no dia 8 de novembro  de 2020. E o dia 8 de novembro era exatamente a data de aniversário de António Marcos.

A filha dos dois, Areta, encontrou nesta coincidência um consolo demasiado bonito para ser ignorado. Ela escreveu que nesse dia o pai tinha vindo buscar a mãe para que os dois pudessem, finalmente, viver juntos na eternidade. Dois artistas que a vida separou, reunidos pela mais improvável das datas. Se esta história te tocou, retribui com um gesto simples.

 

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