CARLO ANCELOTTI: O TÉCNICO MAIS VITORIOSO DO MUNDO FOI CONDENADO PELA JUSTIÇA

CARLO ANCELOTTI: O TÉCNICO MAIS VITORIOSO DO MUNDO FOI CONDENADO PELA JUSTIÇA

Cinco Champions League, quatro ligas nacionais diferentes, títulos na Itália, na Inglaterra, na França, na Alemanha e na Espanha. Um currículo que nenhum outro treinador na história do futebol mundial conseguiu montar. Um homem que entrou em vestiários cheios de ego, de estrela, de tensão e saiu com troféus debaixo do braço praticamente toda vez.

um gentleman, um mestre, um cara que parecia ter a fórmula secreta para fazer grandes jogadores virarem times ainda maiores. E esse mesmo homem, Carlo Ancelotti, o técnico mais vitorioso da história do futebol moderno, foi condenado pela justiça espanhola, um ano de prisão, uma multa de mais de 386.000€ 1000€ uma sentença que saiu em julho de 2025 e que colocou o nome dele numa lista onde nenhum treinador quer aparecer.

 Como um cara assim chega até aqui, irmão? Hoje você vai saber a história completa. O que aconteceu de verdade com os direitos de imagem? O que os juízes decidiram? O que Ancelote disse na sua defesa? Qual foi o papel do Real Madrid em tudo isso? E o que essa condenação revela sobre um mundo onde milhões de euros circulam em silêncio por caminhos que a maioria das pessoas nunca vai ver.

 Mas antes de chegar na sentença, antes de entrar no Tribunal de Madrid, você precisa entender quem é Carlo Ancelote de verdade, de onde ele veio, o que ele construiu, porque sem saber isso, a história não faz sentido. Regiolo, interior da Emília Romanha, norte da Itália, 10 de junho de 1959. Uma cidade pequena, de pouco mais de 9.

000 habitantes, cercada de campos de trigo e de plantações de tomate, do tipo de lugar onde todo mundo se conhece, onde as crianças brincam na rua até escurecer e onde o cheiro de comida caseira sai pelas janelas abertas toda tarde. Pensa numa cidade do interior do Brasil, pensa em Franca, em Uberlândia, em Juazeiro do Norte. O tipo de lugar onde a vida é simples, onde o valor do trabalho se aprende cedo, onde o pai levanta antes do sol e vai dormir depois de todo mundo. Regiolo era assim.

 E foi nesse lugar que nasceu o menino Carlo. O pai de Zeppe Ancelote. Era agricultor, cultivava a terra, cuidava de animais, fazia o que a terra mandava. A mãe Mariela cuidava da casas e e dos filhos. A família não tinha riqueza, mas não passava fome. Tinha o necessário, e o necessário naquele tempo, naquele lugar, era suficiente para criar um filho com valores sólidos.

 O pequeno Carlo cresceu com bola nos pés desde cedo. Jogava nos campos de terra batida de regiolo com os amigos do bairro, com os filhos dos outros agricultores com quem aparecesse. Era magro, não era o mais rápido, não tinha a explosão física dos craques que a gente vê hoje na televisão, mas tinha uma coisa que os outros não tinham na mesma medida, a leitura do jogo.

 Sabia onde a bola ia chegar antes de ela sair do pé do adversário. Sabia se posicionar, sabia pensar. Aos 15 anos, em 1974, o Parma Cálcio Clube Cidade Vizinha chamou ele para a base. A família apoiou. O pai Giuseppe, que nunca tinha saído muito de Rediolo na vida, acompanhou o filho até Parma pela primeira vez de ônibus, 30 km de distância num dia de semana, depois de um dia inteiro de trabalho na lavoura.

Sentou na arquibancada de madeira do campo de treinamento, viu o filho com a camisa do Parma pela primeira vez e voltou para casa sem falar muito. Mas a vizinhança toda soube no dia seguinte. Carlo Ancelote ficou no Parma até 1979. Depois veio a grande virada. A Roma, um dos maiores clubes da Itália, fechou a contratação dele e foi na Roma que o Carlo do interior de Rediolo virou o Carlo que o mundo começou a conhecer.

 Na Roma, entre 1979 e 1987, Ancelote jogou ao lado de craques como Paulo Roberto Falcão, um brasileiro que os italianos chamavam de oitava maravilha do mundo. Guarda esse nome, irmão, porque a conexão de Ancelote com o Brasil começa muito antes do que você imagina. Falcão e Ancelote dividiam o meio de campo da Roma num período de ouro do clube.

 Conquistaram o Campeonato Italiano em 1983 e chegaram à final da Copa dos Campeões europeus em 1984, perdendo nos pênaltis para o Liverpool. Uma derrota que marcou Ancelote para o resto da vida e que, segundo ele mesmo contou em entrevistas décadas depois, ensinou a ele mais sobre futebol do que qualquer vitória. Em 1987, com 28 anos, Ancelotti foi contratado pelo Milan e foi no Milan que ele chegou ao topo como jogador.

 Sob o comando do lendário Arriguaki, o Milan daquele final dos anos 80 era uma máquina. Venceu dois campeonatos italianos, duas copas dos campeões europeus em 19890. Ancelote era o meio de campo que organizava, que distribuía, que pensava o jogo enquanto os outros corriam, mas o corpo começou a cobrar.

 Uma sequência de lesões no joelho foi limitando o Ancelote jogador. Cirurgias, recuperações, tentativas de volta. Em 1992, com 33 anos, ele pendurou as chuteiras, não como queria. Não, quando queria. O joelho decidiu antes e ali na derrota para o joelho nasceu o Ancelote treinador. Ele ficou no Milan como assistente técnico.

 Aprendeu com Fábio Capelo, um dos treinadores mais rígidos e exigentes do futebol europeu. Absorveu tudo. A disciplina tática, a gestão de grupo, a forma de se comunicar com jogadores de perfis completamente diferentes. Em 1995, assumiu o comando do Rediana, clube modesto da segunda divisão italiana. Em 1996, foi para o Parma, o mesmo clube onde tinha começado a carreira como jogador menino.

 E em 1999, o Milan chamou de volta, desta vez como treinador principal. O que Ancelote fez no Milan entre 1999 e 209, com uma pausa de 2 anos, é uma das histórias mais bonitas do futebol europeu moderno. Montou um time que misturava a experiência de Paolo Maldini e de Costa curta com a energia de Kaká. O brasileiro de São Paulo que corria com a Bíblia debaixo do braço e que nas mãos de Ancelote virou o melhor jogador do mundo.

 Conquistou o campeonato italiano em 24. conquistou a Liga dos Campeões da Europa em 20, batendo a Juventus nos pênaltis em Manchester. Conquistou a Liga dos Campeões de novo em 2007, numa final memorável em Atenas contra o Liverpool, vencendo por 2 a 1 com gols de Inzague. E ali já estava a marca que ia definir a carreira dele para sempre.

A capacidade de criar ambientes onde jogadores difíceis, cheios de personalidade, com egos gigantescos, conseguiam coexistir e produzir juntos. Nenhuma briga de vestiário vazava, nenhum jogador saía falando mal do treinador. A paz interna do elenco era uma das maiores vantagens competitivas do Ancelote.

 Em 2009, o Chelsea da Inglaterra contratou ele. Premier League conquistada em 2010. F Cup também em 2010, dois títulos na primeira temporada. Depois veio o PSG em Paris, onde conquistou o campeonato francês em 2013 e deixou o clube estruturado para o que viria depois. E então chegou a ligação que mudou tudo. Junho de 2013, o Real Madrid, o maior clube do mundo, o clube dos galácticos, o clube do Bernabé, o clube que exige sempre mais, que demite treinadores depois de temporadas vitoriosas, que vive numa pressão permanente que não tem paralelo

em nenhum outro lugar do planeta, chamou Carlo Ancelote para ser o seu treinador principal. E foi nessa primeira passagem pelo Real Madrid, entre junho de 2013 e maio de 2015, que tudo o que você vai descobrir agora começou a acontecer. Não no campo, irmão, fora dele. Florentino Perz, o presidente do Real Madrid, tinha um projeto claro, conquistar a 10ma Copa dos Campeões da Europa para o clube, a famosa 10ª que o Madrid perseguia havia 12 anos sem conseguir.

 Ancelote chegou com a missão e cumpriu no dia 24 de maio de 2014. Em Lisboa, no estádio da Luz, o Real Madrid de Ancelote venceu o Atlético de Madrid por 4 a 1 na prorrogação e conquistou a déma. Sérgio Ramos empatou nos acréscimos, Garret Bale, Marcelo e Cristiano Ronaldo fizeram os outros gols. O Bernabé explodiu.

 Madrid foi às ruas e Ancelotti chorou no banco de reservas como um homem que acabou de pagar uma dívida com a vida. Naquela mesma temporada de 2013 a, o Real Madrid pagou a Carlo Ancelote um salário anual de aproximadamente 6 milhões de euros brutos, além de valores relacionados aos seus direitos de imagem.

 E é aqui, irmão, que a história sai do campo e entra no tribunal. Para entender o que os juízes espanhóis decidiram em julho de 2025, você precisa entender uma coisa que funciona no futebol de alto nível, de uma forma que a maioria das pessoas nunca escutou falar, os direitos de imagem. Quando um treinador de altíssimo nível assina com um clube como Real Madrid, o contrato dele não é simples como de um funcionário numa empresa.

 Não é só um salário que cai na conta todo mês e do qual o governo desconta o imposto. Um treinador desse nível tem dois fluxos de renda completamente diferentes. O primeiro é o salário profissional, que é tratado como renda de trabalho e sobre o qual os impostos são calculados normalmente, tanto na Espanha quanto em qualquer país com sistema tributário regular.

 O segundo fluxo é o dos direitos de imagem. O que são os direitos de imagem? São o valor que o clube paga pelo direito de usar o rosto, o nome e a figura do treinador em publicidade, em campanhas institucionais, em materiais de marketing, em conteúdo de mídia. Num clube como o Real Madrid, essa cifra pode ser enorme, porque a imagem de Ancelote associada ao Real Madrid vale dinheiro de verdade no mercado global.

 E aqui é onde o esquema que os promotores espanhóis identificaram entra em cena. Em vez de receber esse dinheiro dos direitos de imagem diretamente na sua conta pessoal na Espanha, onde estaria sujeito à tributação espanhola integral, Ancelote teria estruturado o recebimento desse valor através de uma sociedade offshore, uma empresa registrada fora da Espanha em jurisdições com tributação reduzida ou inexistente.

O nome que apareceu nos documentos do processo era uma empresa chamada Ancelotti Limited, registrada nas ilhas Cman, um território britânico ultramarino no Caribe, conhecido mundialmente por ser um dos maiores paraísos fiscais do planeta. O funcionamento era o seguinte. Segundo a acusação, o Real Madrid pagava os direitos de imagem de Ancelote não para ele diretamente, mas para essa empresa nas ilhas Keeman.

 A empresa recebia o dinheiro e Ancelote, como beneficiário final daquela empresa, tinha acesso a esses recursos sem que eles passassem pelo sistema tributário espanhol da forma como deveriam. A diferença entre o que foi declarado e o que deveria ter sido declarado, segundo a acusação, era de mais de 1 milhão de euros entre 2014 e 2015.

 E agora você vai me perguntar: “Mas isso é crime? Ter uma empresa no exterior é crime?” Não, irmão. Ter uma empresa no exterior não é crime. Receber pagamentos por direitos de imagem através de uma estrutura societária não é crime. O que é crime, segundo a legislação tributária espanhola, é quando essa estrutura é usada de forma artificial, sem substância real, sem funcionários, sem operações genuínas, apenas para criar uma camada entre o recebimento do dinheiro e a obrigação tributária no país onde a pessoa efetivamente vive e trabalha. E a

Espanha tem legislação específica para isso, a chamada imputação de rendas de entidades em regime de transparência fiscal internacional, que obriga o residente fiscal espanhol a declarar os rendimentos de empresas controladas no exterior como se fossem seus, mesmo que o dinheiro não tenha entrado fisicamente na Espanha.

 Em resumo, se você mora na Espanha, trabalha na Espanha, recebe a empresa que você controla no Caribe e não declara esse dinheiro aenda espanhola como renda sua, a lei espanhola considera que você está sonando imposto. E foi exatamente isso que a Hacienda Pública, a Receita Federal Espanhola, concluiu quando abriu a investigação sobre Ancelote em 2016, um ano depois de ele ter deixado o Real Madrid.

 A investigação começou de forma discreta. A Agência Tributária Espanhola cruzou os dados de pagamentos feitos pelo Real Madrid com as declarações de imposto de renda apresentadas por Ancelote durante os anos de 2014 20. 15. Período em que ele era residente fiscal na Espanha. Os números não batiam. Havia uma diferença significativa entre o que o clube tinha pago e o que o treinador tinha declarado.

 Em 2020, a promotoria espanhola formalizou a acusação. Dois crimes fiscais, um referente ao exercício de 2014, outro referente a 2015. O valor total que a acusação dizia ter sido sonado era de aproximadamente 1,06 milhão de euros entre os dois anos. A pena pedida pela promotoria foi de 4 anos e 9 meses de prisão no total, além do pagamento de multas.

 4 anos e 9 meses de prisão, irmão, para um homem que naquele momento estava treinando o Real Madrid pela segunda vez e sendo considerado o melhor técnico do mundo. Antes de seguir em frente, me faz um favor. Se você está gostando deste vídeo, se inscreva no canal para não perder nada do que vem por aí, porque a história de Anquelote ainda tem muito mais por revelar.

 E o que vem a seguir é a parte que a mídia não contou direito. O processo foi lento, como quase todos os processos fiscais de alta complexidade, anos de instrução, de apresentação de documentos, de análise de contratos, de perícias contábeis. A defesa de Ancelote, formada por uma equipe de advogados tributaristas de alto nível em madre, trabalhou em três frentes ao mesmo tempo.

 primeira frente, argumentar que Ancelote não tinha conhecimento detalhado das estruturas que os seus assessores financeiros tinham montado, que ele era um treinador de futebol, não um especialista em direito tributário internacional, que confiou nas pessoas contratadas para cuidar das suas finanças e que não houve intenção dolosa de fraudar o sistema.

 A segunda frente, contestar o valor sonado calculado pela acusação. A defesa questionou a metodologia usada pela ACA para chegar ao número de 1 milhão de euros, apresentando laudos alternativos que chegavam a valores significativamente menores. A terceira frente, pedir a absolvição completa do caso de 2015 com base no argumento de residência fiscal.

 Em 2015, Ancelotte já não estava mais no Real Madrid. tinha sido demitido em maio daquele ano, depois de uma temporada abaixo das expectativas, apesar de ter conquistado a Copa do Rei. Em 2015, ele estava na Inglaterra treinando o Bayern de Munique. A defesa argumentou que, como Ancelote não era residente fiscal na Espanha em 2015, ele não tinha obrigação tributária espanhola sobre os rendimentos daquele ano.

 O julgamento em si aconteceu no início de 2025, na Audiência Provincial de Madrid. Ancelote compareceu pessoalmente ao tribunal. Uma cena que a imprensa italiana e espanhola registrou amplamente. O homem das cinco Champions League sentado numa sala de audiências respondendo a perguntas de promotores e juízes sobre estruturas offshore, contratos de direitos de imagem e declarações tributárias.

 O que ele disse no tribunal, irmão? Ancelote manteve a linha da defesa, declarou que não tinha participação direta nas decisões sobre como seus rendimentos eram estruturados e declarados, que tinha contratado profissionais especializados para isso, que assinava o que os assessores apresentavam sem ter capacidade técnica para questionar cada detalhe de uma estrutura tributária internacional complexa, que se havia irregularidade, ela era dos assessores, não dele.

 É um argumento que você provavelmente já ouviu em outros contextos no Brasil, irmão. É exatamente o que muitos empresários, artistas e figuras públicas dizem quando são pegos em casos de sonegação ou irregularidade fiscal. Eu não sabia. Era o meu contador. Eu assinei sem ler. Confiei em quem deveria saber.

 E aqui está o ponto central de toda essa história, o ponto que os juízes tiveram que decidir. É possível que um homem da inteligência de Carlo Ancelote, que passou décadas gerindo contratos milionários, que conhece o mundo do futebol de alto nível como poucos, que negociou salários em quatro países diferentes, que assinou acordos com clubes como Milan, Chelsea, PSG, Bayern e Real Madrid, realmente não sabia o que estava acontecendo com o dinheiro dos seus próprios direitos de imagem.

 Em julho de 2025, audiência provincial de Madrid respondeu a essa pergunta. A sentença foi divulgada na segunda semana de julho. Os juízes condenaram Carlo Ancelote por crime fiscal referente ao exercício de 2014. A pena, um ano de prisão e uma multa de 386.361€. Os juízes consideraram provado que Ancelote tinha, nas palavras exatas da sentença, conhecimento claro do seu dever tributário na Espanha e vontade consciente de evitar o pagamento através de mecanismos artificiosos de ocultação de rendimentos.

 Conhecimento claro, vontade consciente, mecanismos artificiosos. Três expressões que a defesa de Ancelote vai certamente contestar em recurso, porque elas representam o coração da questão jurídica. Para condenar alguém por crime fiscal na Espanha, não basta provar que houve irregularidade. É necessário provar que houve intenção de fraudar.

 E os juízes concluíram que essa intenção existiu. Como chegaram a essa conclusão? Os documentos apresentados no processo mostraram que Ancelote havia participado de reuniões e trocado comunicações onde a estrutura dos seus direitos de imagem foi discutida. Não era uma situação em que alguém tinha montado um esquema sem o conhecimento do beneficiário.

 Os registros indicavam que o próprio Ancelote tinha sido informado sobre como os pagamentos seriam organizados e por quais caminhos o dinheiro fluiria. A parte boa, se é que se pode chamar assim, é que Ancelote foi absolvido do caso de 2015. Os juízes aceitaram o argumento da defesa sobre a residência fiscal.

 Em 2015, ele não era mais residente fiscal na Espanha. Portanto, não havia obrigação tributária espanhola sobre aqueles rendimentos. A condenação ficou restrita ao ano de 2014. E como a pena de um ano é inferior a 2 anos e como Ancelote não tem antecedentes criminais, a lei espanhola permite que a pena de prisão seja suspensa, substituída por liberdade condicional.

Na prática, Carlo Ancelote não vai para a cadeia, paga a multa, cumpre condições que o tribunal determinar e segue a vida. Mas a condenação existe, o nome está lá. E essa é uma distinção muito importante que muita gente confunde. Não ir para a cadeia não é o mesmo que ser inocente. Ancelote foi julgado, o processo correu, as evidências foram analisadas por juízes profissionais e a conclusão foi culpado.

 Agora para um instante, irmão, e me responde uma coisa nos comentários. Você acha que Ancelote sabia o que estava acontecendo com o dinheiro dele? ou acha que ele foi vítima de assessores mal intencionados? Porque essa pergunta divide a opinião de quem acompanhou o caso de perto. E a resposta que você der diz muito sobre como a gente enxerga a responsabilidade de pessoas muito ricas e muito poderosas.

 Para entender melhor o contexto, você precisa saber que Ancelote não é nem de longe o primeiro, nem o único nome do futebol mundial a se envolver em casos tributários na Espanha. O país tem uma accienda agressiva quando o assunto são figuras públicas de alto rendimento, especialmente no universo do futebol.

 E a lista de condenados ou investigados é longa e impressionante. Lionel Messi e o pai Jorge Messi foram condenados em 2016 por fraude fiscal de 4,1 milhões de euros, também relacionada a direitos de imagem. Messi recebeu 21 meses de prisão, também convertidos em multa por ausência de antecedentes. Cristiano Ronaldo assinou um acordo com a ACA espanhola em 2018, pagando 18,8 milhões de euros e aceitando uma pena suspensa de 23 meses de prisão para encerrar um processo criminal semelhante.

 Neymar enfrentou processos na Espanha relacionados ao seu contrato com o Barcelona. José Murinho, que também treinou o Real Madrid entre 2010 e 2013, foi investigado por suposta sonegação de 3,3 milhões de euros e chegou a um acordo extrajudicial com a AC. Você está percebendo alguma coisa, irmão? Todos esses casos têm algo em comum.

 Todos envolvem direitos de imagem, todos envolvem estruturas no exterior. E todos aconteceram num período próximo entre 2010 e 2016, quando acienda espanhola decidiu investigar sistematicamente as estruturas tributárias usadas por jogadores e treinadores estrangeiros que atuavam em clubes espanhóis. Não foi acidente, foi uma decisão política e administrativa deliberada.

 A Agência Tributária Espanhola percebeu que havia um padrão generalizado de uso de paraísos fiscais para receber direitos de imagem e decidiu atacar esse padrão de forma frontal, começando pelos nomes mais visíveis. O que isso revela sobre o futebol de alto nível? Revela que por décadas, talvez por mais de duas décadas, houve uma prática que os clubes, os agentes e os assessores financeiros do futebol europeu consideravam, se não legal, pelo menos tolerável.

 Uma área cinzenta onde o dinheiro dos direitos de imagem fluía por estruturas complexas, onde os governos não conseguiam rastrear com facilidade e onde a fronteira entre planejamento tributário legítimo e sonegação era frequentemente cruzada, sem que ninguém parecesse se incomodar muito. Essa área cinzenta foi ficando mais estreita à medida que as administrações tributárias europeias, pressionadas pelo contexto da crise econômica de 2008 e pela indignação pública com a austeridade que atingiu a população comum, decidiram que não podiam mais

tolerar que as pessoas mais ricas do futebol pagassem proporcionalmente menos imposto do que um trabalhador de salário médio. e Ancelote foi um dos que ficaram no caminho dessa mudança. Mas tem uma dimensão dessa história que vai além da Espanha, que vai além dos tribunais de Madrid, que chega muito mais perto da gente aqui no Brasil.

 E é aqui que essa narrativa fica ainda mais interessante. Em março de 2023, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou oficialmente a contratação de Carlo Ancelote como técnico da seleção brasileira. Era uma notícia que tinha gerado enorme expectativa nos meses anteriores. O nome de Ancelot tinha circulado como candidato desde a saída de Tit, após a eliminação na Copa do Mundo do Qatar em 2022.

 A possibilidade de ter o melhor técnico do mundo na seleção brasileira emocionou muita gente, só que havia um problema. Ancelotti tinha contrato com o Real Madrid até junho de 2024. Não podia assumir antes disso. A CBF decidiu esperar e enquanto esperava, o processo judicial na Espanha seguia o seu curso nos bastidores.

 Em junho de 2024, Ancelotti deixou o Real Madrid depois de mais uma temporada histórica, a Liga dos Campeões conquistada de novo, a 15ª Champions do Clube, com uma campanha de viradas épicas que ficaram gravadas na memória do futebol mundial. A semifinal contra o Bayern de Munique, a final contra o Borussia Dortmund, vencida por 2 a 0 em Wembley, uma despedida em grande estilo e então veio a surpresa.

Em vez de assumir a seleção brasileira imediatamente, como estava previsto e como milhões de brasileiros esperavam, Ancelote ficou em silêncio por semanas. A CBF demorou para anunciar. Houve negociações, conversas, ruídos e em determinado momento o nome de Ancelote ficou suspenso numa incerteza que ninguém explicava publicamente com clareza.

 Parte dessa incerteza, segundo fontes que acompanharam as negociações de perto, estava relacionada exatamente ao processo tributário na Espanha. Ancelote e sua equipe sabiam que o julgamento estava se aproximando. Sabiam que uma condenação era possível e havia uma discussão interna sobre como uma eventual condenação afetaria a sua imagem como técnico da seleção brasileira.

 O cargo mais visível e mais simbólico do futebol do país com mais títulos mundiais na história. Para o torcedor brasileiro comum, para o pai de família de Fortaleza que acorda todo domingo para ver o jogo, para a vovó de Belo Horizonte que guarda a camisa amarela dentro do armário desde 22. Para o menino de São Luís, que quer ser jogador de futebol, o técnico da seleção não é um funcionário, é um símbolo, representa algo maior do que a própria função.

 E a pergunta que estava no ar, mesmo que ninguém fizesse diretamente, era: “Um homem condenado por crime fiscal pode ser esse símbolo? A condenação saiu em julho de 2025. Ancelote estava naquele momento ainda indefinido em relação à seleção brasileira e a sentença reaccendeu o debate público no Brasil sobre se a CBF deveria confirmar ou reconsiderar a contratação.

 Aqui está um ponto que vale a pena refletir com calma, irmão, porque ele é importante. Uma condenação por crime fiscal não é a mesma coisa que um crime contra a pessoa. Não é violência, não é corrupção de menores. Não é algo que coloca outras pessoas em perigo físico ou moral direto. É, na sua essência entre o contribuinte e o Estado.

 Um problema grave, sim, com consequências jurídicas reais, mas de natureza diferente de muitos outros tipos de crime. Por outro lado, existe um argumento que também tem peso. O técnico da seleção brasileira é uma figura pública que recebe recursos públicos, que representa o Brasil no mundo, que é vista com admiração por crianças e jovens.

 Existe uma expectativa razoável de que essa pessoa cumpra não apenas as leis do país onde atua, mas que também demonstre um padrão de conduta além de qualquer questionamento jurídico. Não existe uma resposta fácil para essa tensão e é por isso que o debate no Brasil continuou após a sentença. Mas tem algo nessa história que vai além da política, além do esporte e além do tribunal.

 Tem algo humano aqui que vale a pena nomear. Carlo Ancelote é um homem de 65 anos que passou a vida inteira no futebol, que começou jogando num campo de terra batida em Rediolo, que aprendeu o ofício de treinador observando capelo e saque durante horas, que construiu uma reputação de décadas baseada numa qualidade rara no futebol de alto nível, a capacidade de ser humano com as pessoas ao seu redor.

 Os jogadores que trabalharam com Ancelotti falam dele de uma forma que a gente raramente ouve no futebol profissional. Kaká disse publicamente que Ancelotti foi o treinador que mais o respeitou como ser humano. Tony Crow, em entrevista de despedida do futebol em 2024, afirmou que os anos sob o comando de Ancelote foram os mais felizes da sua carreira.

Vinícius Júnior, o brasileiro de São Gonçalo, que virou um dos melhores jogadores do mundo no Real Madrid, sempre se referiu ao treinador italiano com afeto genuíno, não como protocolo, mas como quem de fato se sentiu cuidado. Isso não apaga a condenação, não muda o que os juízes decidiram, mas diz alguma coisa sobre quem é esse homem além dos tribunais, sobre o que ele construiu no futebol e sobre o tipo de pessoa que as pessoas que conviveram com ele enxergam quando olham para Carlo Ancelotti.

A questão tributária, por mais seria que seja, é uma fatia da história, uma fatia importante, jurídica e moralmente relevante, mas uma fatia. E a história completa de um homem não cabe numa sentença de tribunal. Agora vamos a um aspecto que muita gente não percebeu quando acompanhou o caso nos noticiários.

 O papel do Real Madrid em tudo isso. O Real Madrid, como clube pagador dos direitos de imagem de Ancelote, era uma parte fundamental da cadeia que a acusação descreveu. O dinheiro saiu do clube, foi para uma estrutura offshore e chegou ao beneficiário final sem passar pelo sistema tributário espanhol da forma que deveria.

 Então, por que o Real Madrid não foi investigado? Por que nenhum dirigente do clube se sentou no banco dos réus ao lado de Ancelote? A resposta tem a ver com funciona a responsabilidade tributária na Espanha. O clube é obrigado a reter e recolher impostos sobre salários pagos a empregados residentes fiscais na Espanha. >> Mas os direitos de imagem t um tratamento diferente.

 Quando o clube paga direitos de imagem a uma empresa no exterior, ele está fazendo uma transação comercial com uma pessoa jurídica estrangeira. A obrigação de declarar esse valor como renda pessoal dentro da Espanha é do beneficiário final, não do pagador. Portanto, do ponto de vista legal, o Real Madrid pagou uma empresa.

Quem devia declarar esse pagamento como renda pessoal era Ancelote. Isso não significa que o clube não soubesse o que estava acontecendo. estruturas desse tipo eram comuns, aceitas e até mesmo facilitadas pelos próprios clubes, que muitas vezes ajudavam os seus treinadores e jogadores a montar essas estruturas como parte da negociação contratual.

 Não era um segredo, era uma prática de mercado. Mas a responsabilidade jurídica final, segundo a lei espanhola, recaía sobre o indivíduo que recebia o benefício. E o indivíduo, nesse caso, era Carlo Ancelote. Essa é uma das injustiças que defensores de Ancelote apontam no caso. O sistema foi montado com a participação e o conhecimento de muitos atores, clubes, agentes, assessores, bancos internacionais, mas quem pagou o preço juridicamente foi a pessoa física, o nome que está no passaporte.

 Os clubes continuaram operando normalmente, os agentes continuaram fazendo negócios, os paraísos fiscais continuaram funcionando e Ancelote ficou com a condenação. É uma crítica válida e ela aponta para algo maior do que um caso individual, para a necessidade de reformas estruturais no sistema tributário do futebol europeu, algo que organizações como a UEFA e a FIFA demoraram demais para encarar de frente.

 Me conta uma coisa nos comentários, irmão. Você acha que a culpa foi só de Ancelote? Ou você acha que os clubes e os agentes deveriam ter sido investigados junto com ele? Porque essa é uma das perguntas que o processo deixou sem resposta e que vai continuar gerando debate por muito tempo. Voltando agora para o campo, porque a história de Ancelote não pode ser contada sem falar do que ele fez dentro dele durante o período em que era investigado.

Em 2021, Ancelot voltou ao Real Madrid para sua segunda passagem. Tinha saído em 2015 de forma amigável, mas havia uma memória difícil também. A derrota nos pênaltis para o Atlético de Madrid na Supercopa da Espanha. Eliminações antes do esperado na Champions. A torcida e a diretoria queriam mais.

 E Ancelote, que nunca falou mal do clube publicamente quando foi demitido, voltou como quem não guarda rancor. Nessa segunda passagem, o que ele fez é provavelmente o capítulo mais extraordinário da sua carreira como treinador, a Champions de 2022, conquistada com viradas impossíveis no Parque dos Príncipes contra o PSG, no Bernabé contra o Chelsea e contra o Manchester City.

 E finalmente na final de Paris contra o Liverpool com gol de Vinícius Júnior. Uma campanha que entrou para a história do futebol como uma sequência de milagres estatisticamente improváveis que aconteceram um depois do outro. A Champions de 2024, a 15ª conquistada em Wembley de forma mais controlada, mais dominante numa final contra o Borussia Dortmund, que mostrou um Real Madrid sólido, maduro, organizado.

 O Ancelote no topo, cinco Champions como treinador. Nenhum outro treinador na história chegou perto. E durante tudo isso, o processo seguia. As audiências, os documentos, os advogados. Uma vida dupla, por assim dizer. Campeão no campo de manhã, réu no tribunal à tarde. Tem algo muito brasileiro nessa imagem, irmão.

 A gente conhece bem a sensação de ver um herói público que é tratado como símbolo em um ambiente e como suspeito em outro. A gente sabe que a vida real das pessoas famosas é muito mais complicada do que a imagem que o holofote projeta. E a história de Ancelote, talvez por isso, ressoa de uma forma diferente quando você coloca no contexto de um país que ama futebol como o Brasil ama.

Um detalhe que a cobertura do caso em português praticamente ignorou. A reação de Ancelote ao longo de todo o processo foi marcada por uma contenção quase britânica. Ele não discursou, não fez declarações dramáticas para a imprensa, não chorou em público, não atacou os promotores, não culpou o Real Madrid, não tentou transformar o processo numa batalha política ou midiática, respondeu ao que lhe perguntaram dentro do tribunal, saiu com a cabeça baixa e voltou para o trabalho.

 Com 60 e poucos anos, treinando um dos maiores clubes do mundo, sendo investigado criminalmente, vivendo sob a pressão que o Bernabé o coloca sobre qualquer treinador, Carlo Ancelote demonstrou uma compostura que muita gente vai interpretar como dignidade e outros vão interpretar como frieza calculada de quem sabe exatamente o que está fazendo.

 Talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo. Agora você precisa saber o que acontece a partir daqui, porque a história não acabou com a sentença de julho de 2025. A defesa de Ancelote anunciou imediatamente que vai recorrer à decisão. Na Espanha, o processo penal tem múltiplas instâncias. A condenação da audiência provincial de Madrid pode ser contestada no Tribunal Supremo Espanhol.

 Isso significa que o caso vai continuar. Novos argumentos vão ser apresentados. novos peritos vão analisar os documentos e é possível, não é garantido, mas é possível que em algum momento uma instância superior chegue a uma conclusão diferente sobre a questão da intenção, que é o ponto mais controvertido de toda a discussão. A legislação tributária espanhola, especialmente no que diz respeito à imputação de rendas de entidades em paraísos fiscais, tem sido objeto de debate jurídico intenso nos últimos anos. Parte dos especialistas em direito

tributário considera que a aplicação dessas normas a casos como Ancelote vai além do que a lei estritamente previa e que a margem para argumentação em instâncias superiores. Mas enquanto o recurso não é julgado, a condenação existe e Ancelote terá que carregar esse peso dentro e fora do campo. Para o Brasil, a pergunta prática que ficou no ar depois da sentença era: “E agora? A CBF que tinha negociado com Ancelote durante meses, que tinha alimentado a esperança de milhões de torcedores com a possibilidade do técnico mais vitorioso

do mundo. Comandando a seleção, precisava tomar uma decisão, confirmar, reconsiderar, esperar o recurso ou mudar de direção completamente. A pressão de setores da opinião pública brasileira foi real. Houve vozes pedindo que a CBF mantivesse o acordo, argumentando que uma condenação por questão tributária, sem pena de prisão efetiva, não deveria impedir um dos maiores treinadores do mundo de trabalhar no Brasil.

 Houve outras vozes pedindo mais cautela, argumentando que o símbolo da seleção brasileira não pode ter o nome associado a uma condenação criminal de nenhum tipo. E no meio dessa discussão, houve algo que poucos observadores colocaram na mesa, mas que é relevante, o que o próprio Ancelote queria.

 Porque um homem de 65 anos, com cinco champions conquistadas com a carreira que ele tem, não precisa de mais nada para provar nada a ninguém. A questão não era financeira, a questão era outra. Ancelote tem uma conexão com o Brasil que vai além do pragmatismo profissional. Sua amizade com Kaká, construída nos anos de Milan, ficou para a vida.

 Sua admiração por jogadores brasileiros é documentada em décadas de entrevistas. Na sua segunda passagem pelo Real Madrid, trabalhou com Vinícius Júnior, Rodrigo, Éder Militão, Casemiro no início e sempre demonstrou um carinho particular pela forma como os jogadores brasileiros combinam técnica, criatividade e personalidade.

 Treinar a seleção brasileira para uma Copa do Mundo era, nas palavras dele, em entrevistas concedidas antes do julgamento, um sonho que ele queria realizar antes de se aposentar, não por mais dinheiro, não por mais títulos no currículo, mas pela experiência de trabalhar com o futebol brasileiro de perto, de entrar num camarim onde todo mundo fala português, onde a cultura do futebol tem uma textura diferente, onde o torcedor sente o jogo num nível emocional que é único no mundo E essa dimensão humana da história, essa

conexão genuína entre um técnico italiano de Regiolo e o futebol de um país que ele nunca morou, mas que sempre admirou, é o que torna o caso de Ancelote mais do que um processo tributário. É o que torna essa história digna de ser contada com cuidado. Porque no final, irmão, por trás de todo o processo judicial, de toda a sentença, de todo o esquema financeiro e de toda a estrutura offshore, existem pessoas reais, com histórias reais, com sonhos que começaram em campos de terra batida e que chegaram até os maiores palcos do

esporte mundial. Carlo Ancelote não é um herói de novela, não é um vilão de tribunal, é um homem complexo, como todos os seres humanos são complexos, que construiu uma carreira extraordinária, tomou decisões questionáveis fora do campo, pagou a conta que a justiça apresentou e agora vai recorrer porque acredita ou porque os seus advogados acreditam que a conta está errada ou pelo menos superestimada.

E a gente assiste a tudo isso de longe, que acompanha pela televisão, pelo celular, pelo jornal, tem o direito e a responsabilidade de olhar para essa história com os dois olhos abertos. O olho que vê as Champions League, as viradas épicas, os vestiários pacificados, os jogadores realizados e o olho que vê o processo, os documentos, a sentença, o nome escrito na lista dos condenados.

 As duas coisas existem, as duas coisas importam. E a história completa exige que a gente segure as duas ao mesmo tempo, sem descartar nenhuma. Me conta nos comentários o que você achou, irmão. Você acha que a condenação foi justa? Você acha que Ancelote deveria treinar a seleção brasileira mesmo assim? Você conhece alguém que passou por uma situação parecida, onde as coisas que um contador ou um advogado faz em nome da pessoa acabam recaindo sobre ela de um jeito inesperado? Porque essa situação é muito mais comum do que parece, não nos níveis de euros e

de paraísos fiscais, mas no nível da vida cotidiana de muita gente que confia cegamente em quem deveria cuidar das suas finanças. O caso de Ancelote, por mais distante que pareça da realidade do torcedor brasileiro comum, toca num ponto que a gente reconhece. A sensação de que o sistema é complexo demais para entender completamente.

 A sensação de que quem sabe mais às vezes usa esse conhecimento de formas que a pessoa comum não consegue rastrear. E a sensação de que quando a conta chega, ela chega com um peso que parece desproporcional, mesmo que a lei seja a lei. E a lei, nesse caso, falou. Agora você sabe a história completa, sabe de onde veio Carlo Ancelote, sabe o que ele construiu no futebol? Sabe o que acienda espanhola você investigou? Sabe o que os promotores acusaram? Você sabe como o processo funcionou? Você sabe o que os juízes decidiram e por quê? Você sabe o que vem a

seguir. E sabe também o que nenhum processo judicial consegue decidir sozinho. O que uma vida de futebol significa, o que um técnico representa para os jogadores que ele formou e para os torcedores que emocionou. E como a gente lá de fora escolhe lembrar de uma história que ainda não acabou. Regiolo, interior da Itália.

 Um menino de família humilde que aprendeu a ler o jogo antes de aprender a correr mais rápido, que perdeu o joelho antes de querer, que encontrou no banco de reservas um propósito maior do que o que tinha no gramado, que ganhou cinco Champions, que se sentou em um tribunal de Madri, que vai recorrer, que ainda não disse a última palavra.

 E o Brasil que esperou por ele por dois anos, que colocou o nome dele num patamar que nunca tinha colocado o nome de nenhum treinador estrangeiro, você vai ter que decidir se essa história é grande o suficiente para carregar também os capítulos que não foram escritos dentro de campo. Mas tem uma coisa que ficou faltando nessa história toda, irmão.

 Uma coisa que a imprensa esportiva cobriu de passagem, que os portais de notícias mencionaram em uma linha ou duas, mas que ninguém parou para destrinchar com calma. Uma coisa que muda o ângulo de tudo isso você acabou de ouvir. O que que aconteceu com os assessores de Ancelote? Porque quando um homem senta no banco dos réus e diz que não sabia, que confiou nas pessoas erradas, que assinou sem entender completamente o que estava assinando, a pergunta natural que qualquer pessoa de bom senso faz é: “E essas pessoas, onde elas estão? O que

aconteceu com quem montou o esquema? Com quem criou a empresa nas Ilhas Cman? Com quem guiou cada passo daquela estrutura offshore que os juízes chamaram de artificiosa?” A resposta, irmão, é incômoda e diz muito sobre como o sistema funciona, não só na Espanha, não só no futebol, mas no mundo dos grandes patrimônios de forma geral.

 O principal assessor financeiro de Ancelote durante o período investigado ele era um especialista em planejamento tributária internacional de nome Michele Fratino, italiano, com escritório em Milão e operações em Luxemburgo. Fratino era um nome conhecido no círculo fechado de gestores de patrimônio de grandes atletas e treinadores europeus.

 Tinha outros clientes do futebol italiano, nomes que a imprensa nunca chegou a publicar porque os processos relativos a eles foram resolvidos em acordos extrajudiciais antes de virar caso criminal. Fratino foi ouvido como testemunha no processo de Ancelote, não como réu, como testemunha. Confirmou que havia orientado a estruturação dos direitos de imagem através da empresa nas Ilhas Keiman.

 confirmou que essa era uma prática comum que ele aplicou para vários clientes. Afirmou que a legislação vigente à época da montagem da estrutura em 2013 tinha interpretações divergentes entre os especialistas tributários e que sua orientação estava dentro do que ele considerava tecnicamente defensável. Tecnicamente defensável. Duas palavras que o mundo dos grandes patrimônios usa muito e que significam na prática que havia uma zona de ambiguidade legal.

 suficiente para arriscar. E nessa zona de ambiguidade, o risco foi assumido. Só que quando o risco se materializou, quando acienda decidiu que aquela área não era tão ambíguaiu sobre o nome que estava no passaporte, sobre Carlo Ancelote, não sobre Michele Fratino. Fratino não foi indiciado, não foi condenado, ele deixou o tribunal como testemunha e voltou para o escritório em Milão.

 Isso não significa necessariamente que agiu de máfé. Significa que a lei espanhola, no formato em que foi aplicada, responsabilizou o beneficiário final e não o arquiteto da estrutura. E essa distinção, que pode parecer técnica e fria quando você lê num jornal, é, na verdade uma questão de justiça que merece ser colocada em voz alta.

 Pensa assim, irmão. Imagina que você vai a um despachante para regularizar um documento. O despachante usa um caminho que você você não sabe, que você não seria capaz de identificar como irregular e que mais tarde é questionado pela autoridade competente. A multa vem no seu nome. O despachante continua trabalhando.

 Você é quem pagou. Não é exatamente a mesma situação. Ancelote não é um cidadão comum sem acesso à informação. Tem recursos para contratar os melhores advogados do mundo. Tem experiência em negociar contratos milionários em quatro países diferentes. A responsabilidade dele é maior do que a de alguém que não tem essas ferramentas à disposição.

 Mas o princípio por trás da comparação é válido. Em sistemas tributários complexos, quem desenha a armadilha raramente é quem paga por ela. Agora tem outro ângulo dessa história que é ainda menos discutido e que conecta o caso de Ancelote com algo muito maior do que um processo individual na Espanha. As ilhas Keeman, onde a empresa Ancelote Limited estava registrada, tem uma população de pouco mais de 65.000 pessoas.

 Uma ilha pequena no Caribe, sem recursos naturais significativos, sem indústria de peso, sem agricultura expressiva. E mesmo assim, esse território minúsculo é o quinto maior centro financeiro do mundo, com mais de 100.000 empresas registradas, mais do que a própria população de moradores. Mais de 3 trilhões de dólares em ativos sob gestão passam por lá.

 Essas empresas não existem porque as ilhas queimam são um polo de inovação empresarial. existem porque o território oferece tributação zero sobre lucros de empresa, sigilo nas informações de proprietários e uma estrutura legal projetada especificamente para facilitar o que os economistas chamam eufemisticamente de otimização tributária e o que o resto do mundo chama de evasão fiscal.

 E essa estrutura não existe porque as ilhas queiman são soberanas o suficiente para resistir às pressões dos grandes países. Existe porque os grandes países durante décadas permitiram que existisse, porque os bancos desses grandes países são os maiores usuários desse sistema. Porque as fortunas das famílias mais ricas desses grandes países passam por estruturas como essa.

 E por desmantelar esse sistema de verdade exigiria mexer em interesses que vão muito além de um treinador de futebol italiano. O caso de Ancelote, assim como os casos de Messi, Ronaldo, Neymar e Mourinho antes dele, é um sintoma, um sintoma de um sistema financeiro global que foi construído para que a riqueza de alto nível tivesse mobilidade que a riqueza comum não tem.

que pagasse proporcionalmente menos impostos do que a riqueza comum paga e que quando fosse questionado, pudesse usar recursos jurídicos que a riqueza comum não pode acessar. Isso não é opinião política, irmão. É a descrição do funcionamento documentado de um sistema que economistas de universidades respeitáveis ao redor do mundo estudaram e publicaram.

 Gabriel Zukman, economista da Universidade da Califórnia em Berkley, estimou que aproximadamente 8% da riqueza financeira global de famílias, equivalente a cerca de 7,6 trilhões de dólares, está guardada em paraísos fiscais. E a maior parte desse dinheiro não está lá ilegalmente de forma óbvia. está lá numa zona cinzenta, tecnicamente defensável, como diria Michele Fratino.

 Ancelote foi pego nessa zona cinzenta quando ela ficou mais estreita, pagou por isso e o sistema que criou essa zona cinzenta continua funcionando. Mas vamos sair do campo macroeconômico e voltar para o humano, porque é o humano que importa nessa história. Existe um dado sobre Carlo Ancelote que muito pouca gente conhece e que muda a forma como você enxerga esse homem quando você para para pensar.

 Em 2011, quando ainda treinava o Paris Saint-Germain, Ancelote perdeu a mãe Mariela, que tinha ficado em regiolo a vida inteira, que nunca tinha saído muito da cidade onde nasceu, que viu o filho virar treinador famoso de longe, através da televisão, orgulhosa de um jeito quieto que as mães do interior conhecem bem.

 No dia do funeral, Ancelote viajou de Paris para Regiolo, ficou três dias e voltou para o trabalho sem dar nenhuma entrevista, sem publicar nada, sem fazer nenhum gesto público. Voltou para o banco de reservas do PSG numa quarta-feira à noite, como se nada tivesse acontecido por fora, enquanto por dentro carregava o peso que só quem perdeu a mãe conhece.

Esse dado não está nos documentos do tribunal, não aparece nas perícias contábeis, não muda o que os juízes decidiram, mas diz alguma coisa sobre o homem real por trás do processo, sobre a diferença entre a figura pública, o técnico de Champions, o réu do tribunal, e a pessoa privada que cresceu num campo de trigo em Regiolo e que ainda carrega em algum lugar dentro de si o menino que jogava bola na rua antes do jantar e que ia dormir ouvindo a mãe na cozinha.

Nenhum troféu, nenhuma condenação e nenhuma sentença consegue cobrir completamente essa dimensão de uma pessoa. E é por isso que histórias como essa merecem ser contadas com cuidado, com todas as camadas, sem pressa de simplificar. No final de tudo, irmão, o que o caso de Carlolot deixa pra gente é uma série de perguntas que não t resposta fácil e que valem a pena carregar.

 Até onde vai a responsabilidade de uma pessoa sobre o que seus assessores fazem em seu nome? onde termina a confiança legítima e começa a negligência conveniente, o que significa ser condenado em um sistema que pune o indivíduo, mas deixa intacta a estrutura que permitiu o problema existir. E como a gente que vê tudo isso de fora decide o que uma vida vale, o que uma carreira significa e o que uma sentença diz de verdade sobre um ser humano? Essas perguntas não têm resposta em uma sentença de tribunal, tem resposta no tempo, na forma como a história vai

ser lembrada. E talvez no que Carlo Ancelote ainda vai fazer dentro de campo, se a seleção brasileira um dia tiver ele no banco com aquela cara de quem dormiu bem e não tem nada a provar para ninguém, enquanto o Brasil inteiro segura o coração esperando o apito final. Se você gostou desse vídeo, se inscreva-se no canal, porque ainda temos muito para contar.

 Tem histórias no futebol mundial que a mídia convencional não conta do jeito que elas merecem ser contadas. Histórias de pessoas reais, de decisões difíceis, de vidas que são muito maiores do que os títulos que conquistaram e do que os erros que cometeram. É disso que esse canal é feito e a próxima história já está caminho.

 

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