CASAGRANDE: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA tl

CASAGRANDE: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA tl

bicampeão com o Corinthians, melhor marcador da seleção nacional e campeão de Portugal. E esse mesmo tipo, anos depois, atirado para o chão, com uma seringa de substâncias enfiada no braço, enquanto o filho de 12 anos batia à porta da casa de banho chorando. O que durante 37 anos ninguém teve coragem de falar é que o Casagrande não se tornou viciado sozinho.

 Alguém colocou a primeira carreira na sua mão aos 14 anos e essa pessoa nunca pagou por isso. Fica até ao fim, irmão, porque hoje vais saber o nome que ele calou durante toda a escarreira e por essa pessoa continua viva, livre e sem o mínimo remorço. Bairro do Brás, São Paulo, ano de 1977. Uma casa de classe média baixa, chão de cerâmica, janela de ferro e um quintal nas traseiras onde o pai reparava motor de carro aos domingos.

 Nessa casa morava um miúdo de 14 anos, alto, magro, cabelo comprido até ao ombro, fanático por rock pesado, que ficava a ouvir Jenis Joplin e Jean Morrison numa vitrola emprestada. O seu nome era Walter Casagrande Júnior. Em três meses ia entrar para a base do Corinthians. Ia ser ídolo, ia ser campeão paulista, ia vestir a camisola da seleção.

 Mas antes disto tudo, numa noite de Maio de 77, alguém que vivia debaixo do mesmo teto entrou no quartinho das traseiras com um papelzinho dobrado na mão e disse ao miúdo Walter uma frase curta. Falou assim: “Isto aqui vai fazer-te ver o mundo diferente?” O Walter cheirou pela primeira vez. Tinha 14 anos.

 Não sabia que naquela madrugada tinha começado uma briga que ia durar 37 anos da sua vida. E a pessoa que estendeu aquele papelinho não era amigo de bairro, não. Não era colega de escola, era alguém do próprio sangue. A gente vai chegar a esse nome, mas ainda falta um pouco. A família Casagrande não era pobre, mas também não era rica.

 O pai, torneiro mecânico, homem de pouca conversa, trabalhador, ausente. A mãe, dona Maria, cuidava da casa, criava os três filhos, rezava o terço toda a noite. Raiz católica, mulher do interior, mineira de origem, que tinha chegado a São Paulo com 18 anos atrás de trabalho numa fábrica de tecidos. O Walter era o segundo dos filhos.

 Naquela casa acontecia coisa que a dona Maria sabia e calava-se. A aguardente do pai aos fins de semana. As brigas aos apanha os gritos quando ele regressava da fábrica. E desde o final de 76, uma coisa nova. Um primo do Walter, filho de um irmão do pai, tinha-se mudado para casa depois que os próprios pais o expulsaram.

Tinha 22 anos, tocava guitarra, sonhava em ser músico, vivia no quartinho dos fundos, dormia até às 2as da tarde, fumava erva no quintal quando ninguém estava a olhar. Pró miúdo, Walter, este primo era um deus. punha disco de rock que não conhecia, contava história de festa num bairro do centro, ensinava acorde na guitarra, era o irmão mais velho que nunca teve em casa, porque o irmão biológico, o Roberto, era 5 anos mais novo.

 48 anos depois, numa entrevista de 2017 num programa de televisão que quase ninguém viu, o Casagrande proferiu uma frase que a família nunca esclareceu. falou assim: “Eu aprendi a admirar o que não devia admirar muito cedo na minha própria casa. E a pessoa que me ensinou que continua viva, continua livre. Eu nunca cobrei-lhe nada, nunca vou cobrar.

” O jornalista perguntou de quem estava falando. O Casagrande baixou o olhar e mudou de assunto. A entrevista nunca mais foi reapresentada. Naquela mesma casa do Brás, em 77, este primo passou para o miúdo Walter, coisa muito para além de um disco de rock. Mas a gente vai chegar nessa noite.

 Primeiro precisa de entender porque que o Walter aceitou tão depressa. Porque um rapaz de 14 anos, filho de mãe católica, irmão de criança pequena, futuro jogador profissional, abriu a porta da vida dele para uma coisa que ia destruí-lo durante quase quatro décadas. A resposta tem a ver com o pai, com o silêncio do pai, com as noites em que o pai chegava bêbado da fábrica e batia na dona Maria à frente dos filhos.

 Com as manhãs seguintes, quando esse mesmo pai tomava pequeno-almoço calado, sem pedir desculpa, o Casagrande cresceu com uma ideia simples enfiada na cabeça desde os 9 anos. Homem forte não pede perdão. Homem forte aguenta. E se uma coisa está doendo por dentro, engole-se. Essa lição serviu para ele entrar no balneário do Corinthians aos 15 anos sem chorar.

 Serviu para enfrentar o defesa brutal em campo sem pestanejar. Serviu para suportar técnico duro, mas custou a vida dele. Porque o miúdo que aprendeu a aguentar tudo calado, foi exactamente o mesmo que 30 anos depois não conseguiu pedir socorro até ter quatro overdos na conta. A gente vai perceber na hora certa. Continua comigo, irmão.

 Em 78, o Walter estreou-se na base do Corinthians. Puseram-lhe apelido de casão por causa da altura. 1,87 m aos 15 anos. Atacante, cabeceava como ninguém, rápido para a cara daquele tamanho. Mas o que chamava atenção realmente não era só o físico, era o jeito. Dentro do campo era um touro. Fora dali era um miúdo tímido que mal conversava com os mais velhos.

 Andava com um walk colado ao ouvido o tempo todo. Escutava a C/DC, Led Zaplin, Rolling Stones. Os companheiros tirav sarro dele porque não gostava de samba nem de pagode. Apelidaram-no de O roqueiro do Parque de São Jorge. E no Parque de São Jorge, em 80, conheceu um gajo que ia mudar a vida dele de dois jeitos opostos.

 Sócrates, o médico, o capitão, o intelectual do futebol brasileiro, o líder da democracia corintiana, que estava prestes a começar. O Sócrates tinha 26 anos, o Casagrande tinha 17, mas entre os dois nasceu uma amizade rara, profunda de irmão. O Sócrates Lia, falava de política, citava autor que o Casagrande nunca tinha ouvido.

 E o Casagrande falava de rock com ele, apresentou a música do Dors para ele, contou as histórias do Jean Morrison a morrer aos 27 anos de overdose numa banheira em Paris. O Sócrates escutava com uma mistura de fascínio e medo. O que nem o Sócrates, nem ninguém no Corinthians sabia naqueles anos, o que nem a maioria dos companheiros de balneário desconfiou até ao final dos anos 80, é que o Casagrande já tinha 3 anos a usar cocaína quando se tornou profissional.

 Tinha estreado na equipa principal com o nariz queimado por dentro. E esse segredo que durante anos só três pessoas sabiam quase custou a sua convocatória para o Mundial de 82. Houve uma pessoa dentro do clube que cobriu-o. A gente vai saber quem foi. Entre 80 e 83, o Casagrande explodiu. Melhor marcador do Corinthians, campeão Paulista em 82 e em 83 com a equipa da Democracia Corinthiana.

 Gol importante contra o São Paulo, o Palmeiras, o Santos. dedicou um golo a Ritali no segundo jogo da Paulista de 82, o famoso golo Ritali, porque era a roqueira favorita dele. O Casagrande era pop, era roqueiro, era diferente de todos os outros no futebol brasileiro, aparecia numa revista que não era de desporto, tocava guitarra no hotel de concentração, cantava com os titãs quando subia ao palco em casa de show de São Paulo e bebia e drogava-se, mas fazia-o com um controlo de ferro.

era capaz de passar duas semanas sem encostar a nada antes de um jogo importante. Cheirava cocaína na véspera, dormia 4atro horas, jogava na manhã seguinte sem que ninguém se apercebesse, marcava golo, cabeceava como um poste, voltava para casa, tomava banho e dormia sem se lembrar do primeiro tempo da partida.

 Em outubro de 82, dia antes do Brasil contra a Itália da Taça de Espanha, uma pessoa de dentro do Corinthians apanhou-o no casa de banho do Parque São Jorge com um papelinho na mão. Essa pessoa não denunciou, não foi falar com o presidente do clube, não foi falar com o Telessantana, selecionador nacional, pegou -lhe pelo braço, atirou o papelzinho na privada, deu-lhe uma bofetada seca na cara e disse cinco palavras que o Casagrande recordou até o dia do internamento em 2007.

Essa pessoa era o Dr. Adilson Monteiro Alves, o diretor de futebol do O Corinthians, o cérebro político da A democracia corintiana, o gajo que lhe salvou a carreira naquele dia. A gente vai seguir o fio, mas antes precisa de fechar a questão do começo. Continua comigo. Em 85, depois do bicampeonato paulista, depois de 3 anos de glória com a democracia corinthiana, depois da ida do Sócrates para Itália, o Casagrande tomou uma decisão que ia dar para ele 8 anos de tréguas com a cocaína.

Aceitou uma proposta do Porto em Portugal, três época, salário em dólares, apartamento de frente para o Rio Douro, companheira brasileira que mudou junto com ele. E uma coisa mais importante do que tudo isto, distância. Distância do primo, distância do bairro, distância dos companheiros que passava droga para ele, distância da noite paulista que estava a matá-lo aos poucos.

 Em Portugal, o Casagrande ficou limpo. 8 anos sem tocar na cocaína, foi ele o mesmo que falou numa entrevista de 2008. Falou assim: “Em Portugal eu era outra pessoa, sem droga, sem canábis, sem cocaína. Ganhava o campeonato português com o Porto em 86. Jogava pela selecção do Brasil e dormia bem à noite.

 A distância salvou-me, mas a distância não foi suficiente, porque a distância funciona até ao dia em que alguém te vem buscar. E foram buscar o Casagrande em 93, mas ainda faltam 8 anos. Antes de chegar, nessa noite, em Turim, precisamos de fechar a pergunta que abriu no início. Quem estendeu aquele primeiro papelinho na Casa do Brás em 77? Quem entrou no quartinho dos fundos naquela noite de maio? Quem falou aquela frase curta? Quem destruiu a vida de um miúdo de 14 anos antes dele começar a ser jogador profissional? A

gente vai saber agora, porque sem compreender este primeiro momento, não dá compreender nenhum dos que vieram depois. O nome que durante 37 anos o Casagrande calou é o do seu primo, o Edinho. Edson Casagrande, filho de um irmão do pai do Walter, nascido em 55, criado na Muca, expulso de casa aos 21 anos por roubar dinheiro da mãe para comprar cocaína.

Recebido pela dona Maria no quartinho dos fundos da Casa do Brás, no final de 76.º O Edinho era um músico frustrado, tocava guitarra elétrica, sonhava em viver da música, trabalhava de vez em quando numa oficina de automóveis do bairro para bancar o vício e desde os 18 anos usava cocaína todo o pôimpo, comprando a um fornecedor da região centro de São Paulo, uma zona conhecida nos anos 70 pela circulação aberta de droga em tasco de quinta categoria.

Quando se mudou paraa casa dos casagrande, a dona Maria fez uma única exigência. Nada de droga em casa. O Edinho prometeu. A dona Maria acreditou, mas durante seis meses, enquanto todos dormiam, o O Edinho usava dentro do quartinho dos fundos, trancado por dentro, com o ventilador ligado, para que o cheiro a tabaco misturado com cocaína não chegasse à cozinha.

 A noite do dia 14 de Maio de 77, data que o Casagrande lembrou exata no livro autobiográfico dele, apesar de ter alterado pormenor para proteger o primo, o Edinho chamou o Walter no quartinho do fundo. O miúdo estava aborrecido. Era sábado à noite. Os pais tinham saído para uma festa de família na Muca. O irmão mais novo dormia.

 O Walter entrou no quarto a pensar que o primo ia ensinar um acorde novo no violão. O Edinho fechou a porta, tirou um papelinho dobrado do bolso do trás das calças, abriu em cima da cómoda. O Casagre, no seu livro, descreve assim: Era pó branco, muito fino, brilhava por baixo da luz amarela do candeeiro. Nunca tinha visto cocaína de perto, mas eu sabia o que era.

 Tinha visto em filme, tinha ouvido em música. O Edinho preparou duas carreiras com um cartão de plástico, deu uma nota enrolada para o miúdo e falou aquela frase curta. Falou assim: “Isto aqui vai fazer-te ver o mundo diferente?” O O Walter cheirou, o Edinho cheirou depois. O miúdo sentiu primeiro uma queimadura no nariz, depois uma luz que desceu pela garganta, depois uma euforia que durou 40 minutos.

 Depois uma queda pesada, escura, triste, que durou três dias. Mas a primeira euforia, aquela primeira vez, marcou o cérebro dele de uma forma que ele não ia conseguir quebrar até completar 52 anos. Quase quatro décadas depois. A dona Maria descobriu meses depois, no finais de 77, encontrou um papelinho branco no bolso das calças do Edinho enquanto lavava a roupa.

Encarou o sobrinho nessa mesma noite. O Edinho chorou. Implorou-lhe para não contar ao pai do Walter, implorou para ela não o expulsar de casa. Prometeu que eu ia parar. A dona Maria acreditou nele pela segunda vez, mas fez uma coisa pior do que acreditar. Não contou ao marido, não contou ao pai do Walter e, principalmente, não perguntou ao filho de 15 anos que já jogava na formação do Corinthians se também tinha utilizado, por medo da resposta e por medo do apelido, por medo do que iam dizer.

O Edinho ficou na casa até Março de 78. Foi viver por conta dele num quarto de pensão no centro de São Paulo. Durante estes meses extra de convivência, o Walter continuou a consumir cocaína com ele, escondido uma ou duas vezes por semana. A mãe sabia e calou-se. O Edinho tem hoje 70 anos.

 Vive numa casa modesta de Limeira, no interior de São Paulo, com a segunda esposa. Tem três filhos. Trabalhou até aos 65 anos numa oficina pequena de um instrumento musical. tá limpo das drogas desde 95, segundo o próprio falou numa entrevista para um programa local de Limeira em 2018. Nessa entrevista, quando perguntaram pelo primo famoso, o Edinho disse apenas uma frase.

Falou: “Eu e o Walter damo-nos bem. Ele percebeu tudo. Ele perdoou-me faz tempo. O jornalista não perguntou porque precisava de ser perdoado, mas a primeira carreira de cocaína aos 14 anos foi só o início. O que de verdade destruiu o Casagrande não foi aquele primeiro papelinho no quartinho dos fundos.

 Foi o que aconteceu 30 anos depois, numa madrugada de Março de 2007, no apartamento da zona ocidental de São Paulo, quando Massimi, o filho de 12 anos, entrou na casa de banho e achou-o caído no chão, sem respirar, com a seringa cravada no braço esquerdo. O que este miúdo fez naquela madrugada? as ligação que fez e as que não fez, as decisão que tomou com 12 anos nas costas e, principalmente, o que deixou escrito numa folha de caderno antes de ir embora ao amanhecer com a mãe, foi o que finalmente obrigou o Casagrande a se internar. E a Folha ainda hoje existe. O

Casagrande guardou, mostrou uma única vez, em particular para uma jornalista da revista 451 em 2024. O que estava escrito naquelas quatro linha liga-se diretamente com outra história que aconteceu 20 anos antes numa cidade italiana chamada Turin. As duas coisas são a mesma coisa são a mesma. A gente vai perceber porquê.

Portugal 85. O Casagrande chegou ao aeroporto do Porto numa terça-feira às 9 da manhã com uma mala de desporto, a esposa daquela época, um violão Gibson em segunda mão comprado numa loja de penhor de São Paulo e uma promessa silenciosa que não fez a ninguém. A promessa era simples. Em Portugal ele ia parar.

 Em Portugal ninguém ia saber de nada. Em Portugal o miúdo de 14 anos do quartinho do BR ia ficar enterrado e durante um tempo funcionou. O Casagrande esteve 8 anos limpo, sem cocaína, sem canábis, sem nada mais forte do que um copo de vinho tinto no jantar. Foi ele próprio que contou numa entrevista para o programa Altas Horas de 2008, falou textualmente: “Em Itália foi 8 anos sem droga.

Eu pensava que já estava curado, pensava que o problema tinha ficado para trás. E enquanto pensei isso, vivi bem. Engano puro, mas engano que funcionava. O que o Casagrande não disse naquela entrevista, o que também não contou no livro Casagrande e os seus demónios, publicado em 2013, é que durante estes 8 anos, Limpo teve dois episódios que quase o derrubaram.

 Um em Portugal em 87, outro em Itália em 91. Nos dois casos, alguém o segurou antes da queda e nos dois casos, a pessoa que segurou era brasileira. No Porto, o Casagrande explodiu, ganhou o campeonato português na época de 8586. Jogou numa equipa dirigida pelo Arthur Jorge, que dois anos depois ia ganhar a Taça dos Campeão da Europa.

Marcou um golo importante no estádio das Antas. A torcida almava-o, era o brasileiro rocker diferente e intenso. E o Telê Santana, selecionador nacional brasileira, convocou-o para a Copa do México de 86. O Casagrande viajou com o Brasil para o México, não foi titular fixo, mas entrou em jogo importante.

 Estava no banco no dia em que o Sócrates perdeu o penálti contra a Fagera França em Guadalajara. Viu o amigo Sócrates sentado no círculo central chorando sem som durante 4 minutos. E aquela imagem, segundo Cas o Casagrande contou anos mais tarde, deixou alguma coisa dentro dele que ele não conseguiu explicar.

 O que ele também não sabia naquele momento é que o Sócrates já estava no segundo ano de cocaína pesada, que tinha voltado a usar depois do Mundial de 82, em circunstância que só o Casagrande chegou a conhecer. Vamos tocar nesse assunto, mas não agora. Agora precisa de seguir o caminho do Casagrande, porque cada minuto de Itália porta.

 Em 89, depois de três temporadas em Portugal, o Casagrande assinou pelo áscole de Itália. Série A, defesa duríssima, marcação homem a homem, campo lento, pesado. O Casagrande se adaptou, fez bom número e no ano seguinte, em 90, o Torino comprou-o. Equipa grande, histórico, cidade industrial do norte, estádio de Lealp inaugurado há pouco tempo.

 O Casagrande chegou ao Torino com 27 anos, com o segundo casamento com dois filhos pequeno do primeiro casamento que viajavam para o ver em cada férias escolar. A família parecia estável, a carreira parecia intacta, as drogas parecia um fantasma velho enterrado numa casa de São Paulo que já não existia mais porque tinham demolido em 84 para construir um edifício de três pisos.

 Mas no Torino, dentro do departamento médico do clube, havia um tipo que ia destruir tudo. A gente vai chegar a ele, mas antes precisa de perceber o que aconteceu em 91 em Roma, porque este episódio explica tudo e o que veio depois. Março de 91, o Torino jogava uma partida importante em Roma contra Alázio. O Casagrande viajou com plantel na sexta-feira.

 Concentraram-se num hotel cinco estrela do centro de Roma. Na noite de sábado, depois do jantar com a equipa, o Casagrande desceu ao bar do hotel para tomar um café antes de subir para dormir. Naquele bar estava sentado numa mesa do canto um tipo que ele reconheceu de cara. Era o Sócrates, o amigo, o médico, o capitão do Brasil, o intelectual do Corinthians.

O Sócrates já estava reformado do futebol há 3 anos. Morava entre São Paulo e Florença. Tinha feito duas viagens a Itália nesse mês a trabalho como comentador desportivo da Hai. Estava em Roma porque ia comentar o mesmo jogo do dia seguinte. E naquela mesa do canto, em frente a um whisky duplo e um maço de cigarros quase vazio, o Sócrates levantou a mão para cumprimentar. O Casagrande chegou perto.

Sentaram-se, conversaram meia hora. Depois o Sócrates perguntou qualquer coisa em voz baixa. Perguntou se tinha. O Casagrande compreendeu na hora do que ele estava a falar, disse que não tinha e que também não usava desde Portugal. O Sócrates olhou para ele durante vários segundos, sem julgamento, sem surpresa.

Depois disse quatro palavras que o Casagrande lembrou até à noite da internação. Em 2007 disse assim: “Você tem sorte.” Eu não bar do hotel de Roma, o Casagrande quase pediu ao Sócrates para dividir com ele. Confessou-o ele próprio numa conversa privada com um amigo jornalista anos depois. quase, mas não pediu.

 Subiu para o quarto, ligou à esposa por telefone, falou com os dois filhos do primeiro casamento, que tinham 7 e 5 anos, e adormeceu nessa noite, pensando que estava salvo. Estava enganado, porque 2 anos e 7 meses depois, em Outubro de 93, noutro hotel, agora em Turim, alguém ia oferecer-lhe a mesma coisa, mas desta vez o Casagrande ia aceitar.

 E a gente vai saber quem foi esse alguém, mas ainda falta. Antes precisa de fechar a história de Itália, porque o que aconteceu no Torino entre 90 e 93 marca tudo os que vieram depois. No Torino, o Casagrande encontrou uma rotina nova. Treino de manhã, almoço com os companheiros, sesta, sessão de massagem.

 Regressava a casa, jantava com a família, leitura à noite. Era um homem estável, pesava 82 kg, o mais baixo desde a adolescência. corria 10 km na segunda-feira. Tinha deixado de fumar em 89, mas a sessão de massagem era o momento mais importante do dia para ele. Quem o atendia era o Jeanca Bertini, 43 anos, italiano do norte, nascido numa pequena vila da província de Cúnel.

Massagista do Torino há 11 anos. Cara de mão forte, olhar tranquilo, conversa pausada. O Bertini tinha uma fama entre os jogador brasileiro e argentino da equipa. Sabia aliviar as dores musculares depois do jogo, mas também sabia outras coisas, coisa que a direcção do Torino não sabia ou que sabia e preferia não investigar.

O Bertini tinha uma ligação com a família Bforte de Turim, uma família ligada ao tráfico do norte de Itália desde os anos 60. E dentro do balneário do Torino, o Bertini era um canal silencioso. Não vendia aos jogador igual traficante de rua. Operava de forma diferente, esperava, observava, identificava o jogador vulnerável e só oferecia quando estava certo de que ele ia aceitar.

 O Casagrande demorou três anos a virar alvo do Bertini. Trs anos em que o massagista observou-o, escutou-o falar de música na sessão, ouviu-o falar da mulher, dos filhos, do primo músico de São Paulo, da época roqueira no Corinthians. O Bertini sabia ler os homens e soube, com paciência de caçador esperar o momento exato.

 Esse momento chegou em Outubro de 93 e vamos chegar nessa noite, mas ainda falta. Antes precisa de contar o que estava passando na cabeça do Casagrande em Setembro desse mesmo ano, porque sem compreender a dor daquele mês, não é possível perceber porque aceitou o que aceitou. Em Setembro de 93, em São Paulo, a dona Maria, a mãe do Casagrande, foi diagnosticada com cancro de mama avançado.

 O médico deu-lhe entre os 6 e os 12 meses de vida. O Casagrande recebeu a chamada numa quarta-feira à tarde no seu apartamento em Turim, enquanto ouvia o disco dos Stones. desligou o telefone, sentou-se no sofá, não chorou, chamou a esposa para o quarto, disse-lhe duas frases, depois dirigiu-se até ao estádio para o treino da tarde, como se nada tivesse acontecido nessa noite, na sessão de massagem, o Jeanluca Bertini apercebeu-se de alguma coisa diferente.

 Perguntou: “O Casagrande, pela primeira vez em 3 anos, contou alguma coisa pessoal. contou da mãe. O Bertini escutou em silêncio, deu uns palmada no ombro dele, disse uma frase curta em italiano, falou assim: “Homem forte não consegue ficar acordado de noite inteira a pensar”. O Casagrande compreendeu, perguntou se ele tinha alguma coisa.

O Bertini sorriu pela primeira vez em 3 anos. disse que sim, mas que naquela noite não, que no dia seguinte, que depois do jogo de sábado, nesse sábado, depois do jogo com o Milan, o Bertini deu o primeiro papelinho no vestiário escondido dentro da toalha da sessão de massagem. O Casagrande aceitou, voltou para o hotel, fechou-se no casa de banho, cheirou pela primeira vez em 8 anos e os 8 anos de Portugal e Itália limpo queimaram em 40 segundos.

 Naquela noite, naquela casa de banho do hotel de Turim, o Casagrande prometeu-lhe mesmo que ia ser só uma vez, que era pela mãe, que era pela dor, que ia parar na segunda-feira. O vício respondeu em silêncio, falou: “O senhor nunca mais vai parar”. e tinha razão. O Casagrande não parou até aos 52 anos, 14 anos depois, quando regressou ao Brasil em 94, depois de quatro temporadas em Itália, a dona Maria já estava morta.

 Tinha falecido em fevereiro desse ano, enquanto Casagrande terminava o contrato com o Torino. Chegou ao velório dois dias depois do enterro. Estava dopado durante a viagem inteira. Aterrou em São Paulo com o nariz entupido de cocaína comprada em Turim, escondida no forro da mala. Ninguém reparou. O Casagrande jogou mais dois anos no São Paulo Futebol Clube, depois no Flamengo, depois no Paulista.

 Retirou-se do futebol profissional em 96, aos 33 anos, sem grande despedida, sem homenagem em estádio cheio, sem saída digna. saiu igual entrou, calado, com dores por dentro, com o corpo cansado e iniciou a segunda descida, a definitiva, a que quase o matou. Entre 96 e 2007, o Casagrande teve quatro sobredosagem.

 A primeira em 98, num apartamento da Avenida Paulista, durante uma festa fechada com um músico de rock. reanimaram-no com uma bofetada no peito e água fria. A segunda em 2001, num hotel do Rio de Janeiro, durante uma viagem de trabalho como comentador de um canal a cabo. Foi uma camareira do hotel que encontrou-o, a terceira em 2005, na própria casa dele, enquanto a segunda esposa dormia no quarto do lado.

Desta vez salvou-se sozinho, acordando no chão da casa de banho às 5 da manhã, vomitando Billy. E a quarta? A quarta foi a pior. A que mudou tudo. A que tem data exata. 17 de Março de 2007. Sábado. Apartamento do Casagrande na zona ocidental de São Paulo, rua interna de um bairro residencial conhecido por Vila Madalena.

Nessa noite, o Casagrande tinha guarda partilhada do filho mais novo do segundo casamento. Um miúdo de 12 anos. O miúdo chegou no apartamento na sexta-feira à tarde com o mochila escolar e um jogo de PlayStation. Iam ficar o fim de semana junto. Era a primeira vez em três meses que o pai e filho iam passar dois dias seguidos.

 A mãe do miúdo tinha implorado ao Casagrande por telefone na terça-feira anterior. Tinha dito uma frase que ele recordou até hoje. Tinha falado assim: “Ele tem saudades? Aproveita, não usa nada nesse fim de semana”. O Casagrande prometeu, mas não cumpriu. A madrugada do dia 17 de Março de 2007, às 3h20 da manhã, o filho de 12 anos do Casagrande acordou no quarto de hóspedes do apartamento porque tinha sede.

 O miúdo caminhou descalço pelo corredor até à cozinha, serviu um copo de água para ele e, no regresso ao quarto passou em frente do banheiro principal do apartamento. A porta estava entreaberta, a luz acesa. Empurrou a porta com a mão e viu o pai caído no chão de cerâmica branca, as costas encostadas à base da pia, os olhos entreabertos, sem se mexer, com uma seringa de plástico ainda enfiada no braço esquerdo à altura do antebraço.

 O miúdo não gritou, não correu, não se mexeu durante quase 15 segundos. Depois caminhou até ao pai, ajoelhou-se, encostou a mão ao rosto dele. O rosto estava morno, a respiração era apenas um fio. E então o miúdo fez o que qualquer adulto teria feito mal no lugar dele. Não ligou ao Samu, não ligou à mãe, ligou para a única pessoa cujo número ele sabia de cabeça porque é que o pai tinha repetido durante anos em voz alta.

 ligou pro Raí, o irmão do Sócrates. Tr anos depois da morte do Sócrates, o Raí continuava a ser o amigo mais próximo do Casagrande no mundo do futebol. O Raí atendeu ao terceiro toque. Eram 3:22 da manhã. Vivia num apartamento nos jardins, a 15 minutos de carro. O miúdo explicou em 40 segundos. O Raí disse três coisas.

 Falou-lhe não ligar para mais ninguém. falou para ele tirar a seringa do braço do pai com muito cuidado e deixar dentro de uma saco de plástico que estava em cima da pia. Disse-lhe para se sentar do lado do pai e falar com ele até ele chegar. Não grita, não chora. O Raí falou. Conversa com ele tal como ele tivesse acordado. Conta alguma coisa da escola.

Mantém-no conectado. O miúdo fez tudo. Tirou a seringa com dois dedos, meteu no saco, deixou em cima da pia, sentou-se ao lado do pai, segurou a mão esquerda dele e conversou em voz baixa durante 28 minutos. Contou do jogo da liga escolar da quinta-feira anterior anterior. Contou do novo videojogo. Contou do melhor amigo da escola.

 A voz do miúdo, segundo o Casagrande, contou anos depois, foi a última coisa que ele escutou antes de ficar completamente inconsciente. O Rai chegou ao apartamento às 3:50, tinha a chave porque o Casagrande tinha dado para ele dois anos antes para emergência. Entrou, viu a cena, fez sinal para o miúdo se levantar e começou a aplicar respiração boca a boca.

 Ligou a um médico amigo que morava perto, o Doutor Drausio Varela, que chegou em 10 de minutos com uma mala de emergência. Aplicaram uma injeção de Naloxona, um antídoto contra a sobredosagem de opiácio. O Casagrande respirou fundo às 4:13 da madrugada, abriu o olho, não disse nada durante uma hora.

 Às 5:20 da madrugada, o Raí ligou à mãe do miúdo, contou o que tinha acontecido, disse que o filho dela estava bem fisicamente, mas em choque. Pediu para ela vir buscar. A mãe chegou às 5:45. O miúdo estava à espera na sala, vestido, com a mochila às costas, sentado no sofá sem se mexer. Não tinha falado com ninguém nos últimos 20 minuto.

 Mas antes de sair do apartamento nessa madrugada, antes de descer para o carro da mãe, o miúdo fez uma coisa que ninguém sabia que ele estava a fazer. tirou uma folha do caderno escolar da mochila, pegou num lápis, caminhou até ao quarto do pai, que estava a dormir debaixo do efeito do remédio, escreveu quatro linha na folha, dobrou no meio e enfiou por baixo da porta fechada do quarto.

 Depois saiu com a mãe e não voltou a ver o Casagrande durante 47 dias. A folha ficou debaixo da porta até ao segunda-feira às 9 horas da manhã, quando os Casagrande acordou completamente, saiu do quarto e pisou-a descalço. Baixou-se, pegou, abriu e leu as quatro linhas que o filho de 12 anos tinha escrito naquela madrugada.

 Estas quatro linhas falava o seguinte: “O Casagrande revelou pela primeira e única vez numa conversa privada com a jornalista Bianca Santana da revista 451 numa entrevista de 2024 que foi depois parcialmente editada antes de ser publicada. As quatro linhas falava textualmente: “Pai, eu sei quem te traz.

 Eu vi uma vez na porta. Se não parar, eu conto-lhe. E sabe para quem? Estas quatro linha foi o que internou o Casagrande seis meses depois. Não foi o acidente de automóvel que sofreu em agosto de 2007. Não foi a pressão da família, não foi a depressão profunda. Foi estas quatro linha escrita por um miúdo de 12 anos às 4:30 da madrugada numa folha arrancada de um caderno de matemática.

Porque o miúdo tinha visto alguém, tinha visto a pessoa que entregava droga por Casagre. E essa pessoa, igual a gente foi saber depois, não era um fornecedor qualquer dos Bec de São Paulo, era alguém com história, alguém que já tinha aparecido na vida do Casagrande 14 anos antes noutra cidade, noutro país, noutra língua.

Era alguém que o miúdo só tinha visto uma vez, mas que reconheceu por uma marca no rosto. E essa marca, aquela cicatriz fina que atravessava a bochecha esquerda, era o pormenor exato que o Casagrande tinha referido anos antes numa conversa de jantar que o miúdo escutou por acaso quando tinha 9 anos e que guardou sem saber porque ficou nele marcada.

Vamos saber quem era essa pessoa, vai saber porque é que ela atravessou o oceano, vai-se lá saber o que estava dentro do envelope que ela levou para a clínica no dia em que internaram o Casagre. E vai-se lá saber porque é que o Casagrande, depois de tudo isto, depois das quatro linhas do filho, depois da clínica, depois da sobriedade, depois dos livros, depois da Globo, nunca a denunciou até hoje, Março de 2007, uma semana depois da noite em que o filho espetou a folha por baixo da porta.

 O Casagrande continuava no apartamento da Vila Madalena. Não tinha saído, não tinha falado com mais ninguém além do Raí, que passava para o ver de dois em dois dias com um saco de comida e um olhar cansado. A folha com as quatro linha estava em cima da mesa da sala, dobrada no meio em cima de um livro do Charles Bukovski, que o Casagrande tinha deixado aberto numa página qualquer.

 O Casagrande lia a folha duas ou três vezes por dia. abria, lia, dobrava de novo, sem chorar, sem se mexer, igual ele tivesse à espera que as palavras mudassem sozinha. Mas as palavras não mudaram e a partir dessa folha, tudo o que aconteceu depois foi uma contagem regressiva rumo à clínica. Só que o Casa Grande naquele momento não sabia o que o espectador já sabe.

 Não sabia quem era a pessoa que o filho tinha visto à porta. Ainda não a tinha ligado com o passado italiano dele. Ia entender depois na clínica numa visita que ninguém esperava. Mas antes de chegar nesta visita, precisa de voltar para trás. Precisa de voltar para Turim, para Itália, pró Jeanluca Bertini e o massagista. Porque entre 94 e 2007 passaram 13 anos em que o Bertini não desapareceu da vida do Casagrande, só mudou de geografia.

 Em 98, o Bertini foi despedido do Torino depois de uma investigação interna por irregularidade dentro do departamento médico do clube. A investigação não chegou à justiça, ficou arquivada. A família Bfort mexeu os cordelinhos. O Bertini recebeu uma modesta indemnização e desapareceu de Turim, mas não voltou a vilazinha dele. Fez outra coisa.

 Em 96, numa pausa de pré-época do Torino, o Bertini tinha viajado para São Paulo com um grupo de italiano para conhecer a cidade. Nessa viagem, conheceu a Luciana Almeida, brasileira de 32 anos, separada, sem filho, proprietária de um salão de estética pequeno no bairro de Pinheiros. Iniciaram um relacionamento à distância.

Casaram numa pequena cerimónia em Turim em 97. E depois da demissão do Torino em 98, o Bertini mudou-se para São Paulo. Em definitivo, instalou-se num apartamento do bairro da Vila Mariana. Trabalhou durante anos como massagista particular para uma clínica de estética. Teve um filho com a Luciana em 2000. aprendeu português o suficiente para se virar no básico.

Manteve sempre um forte sotaque italiano que qualquer um reconhecia à primeira frase e manteve também a ligação dele com o Brasil de outra maneira. O Bertini nunca largou de vez o negócio, continuou a fazê-lo em silêncio. Não vendia, não é? oferecia igual no Torino, esperava, identificava e atacava quando tinha razão.

 Entre 99 e 2005, o Bertini ofereceu droga a vários brasileiros ligado a ao futebol e ao roque. Alguns aceitaram, outros não. A Polícia de São Paulo, numa investigação de 2018 sobre rede de tráfego de pequena dimensão em Pinheiros e Vila Madalena, mencionou o seu nome num relatório interno que nunca chegou à imprensa.

 Obertini foi interrogado duas vezes, solto as duas vezes. Não tinham prova, mas houve uma pessoa para quem Ubertini ofereceu droga várias vezes entre 2000 e 2006. Uma pessoa que o Bertini sempre tinha considerado a maior conquista silenciosa da sua época no Torino. Uma pessoa para quem ele, nos termos pessoais dele, sentia que tinha dado o melhor que tinha.

 Essa pessoa era o Casagrande. Obertini começou a entrar em contacto com ele em 2001, depois da segunda overdose do Casagrande no Rio. Encontrou-o através de um companheiro rocker em comum, enviou uma mensagem curta. O Casagrande não respondeu à primeira, nem na segunda, mas respondeu à terceira em Fevereiro de 2002, quando estava há 11 meses limpo e sentiu necessidade de voltar a usar.

 O Bertini era o único fornecedor de São Paulo que entendia a sensibilidade italiana dele, o gosto dele por cocaína de certa pureza, a história dele. O Casagrande ligou, o Bertini recebeu-o no apartamento da Vila Mariana nessa mesma noite e os dois gajo, sem falar muito, recompuseram uma relação que tinha durado anos em silêncio. A partir de 2002, o Bertini passou a ser o fornecedor estável do Casagrande.

Não era o único, mas era o principal. O Bertini levava a droga para o apartamento dele, na Vila Madalena, duas ou três vezes por mês, sempre à noite, sempre sozinho, tocava à campainha, subia, deixava o embrulho em cima da mesa da sala, cobrava em dinheiro, conversava 20 minutos sobre futebol italiano e ia-se embora.

 Era o corpo, era o rosto, era a sombra que o Casagrande tinha deixado entrar. E era a pessoa que o filho de 12 anos tinha visto à porta do apartamento uma única vez, dois meses antes da madrugada de Março de 2007. Tinha visto porque é que naquele dia o miúdo tinha chegado ao apartamento do pai antes do previsto, levado pela mãe que tinha um compromisso de trabalho de última hora.

 O miúdo tocou a campainha. O Bertini, que estava lá lá dentro entregando um pacote, saiu para abrir, pensando que era o Casagrande que tinha descido à portaria. E o miúdo viu, ele viu de frente, viu o rosto dele, viu o sotaque e viu sobretudo a cicatriz fina que atravessava essa bochecha esquerda dele desde o lóbulo da orelha até ao canto da boca.

 Essa cicatriz o Bertini tinha desde 89. Tinha apanhado numa briga com um membro de outra família mafiosa de Turim. Durante uma negociação que acabou mal, foi uma marca reconhecível, inconfundível. E o miúdo com 9 anos naquele momento, tinha guardado sem perceber porquê. Por que razão o guardou? Por causa de uma conversa que tinha escutado três meses antes durante um jantar de família em casa da tia paterna.

O Casagrande estava a contar uma história de Itália, de um jogo do Torino contra o Inter. Tinha referido um massagista italiano do clube e tinha jogado um pormenor de passagem. O tipo tinha uma cicatriz no rosto, comprida, fininha. Parecia um risco de caneta. Eu nunca perguntei do que era, nunca quis saber.

 O miúdo sentado ao lado da mãe tinha escutado aquela frase sem compreender, mas tinha guardado. E três meses depois, quando viu a cicatriz na cara do tipo, que abriu a porta do apartamento do pai, ligou os pontos. Não soube o que significava exatamente, mas soube que aquele tipo tinha alguma coisa a ver com a Itália que o pai nunca quis contar para ele.

 Foi isso que o miúdo escreveu na folha do caderno. Pai, eu sei quem te traz. Eu vi uma vez à porta. Se não parar, eu vou contar. E sabe para quem? O para quem não era uma ameaça pública, não era a imprensa, não era a polícia, era uma só pessoa, uma pessoa específica que o Casagrande temia mais do que qualquer manchete de jornal.

E nós vamos saber quem, mas antes de saber para quem, precisa de perceber o que aconteceu 4 meses depois. Em agosto de 2007, quando o Casagrande teve o acidente de viação que o levou pro hospital e do hospital para a clínica de internamento obrigatório. E quando Jean Luca Bertini, duas semanas depois da internamento, apareceu à entrada do O Instituto Bau de Itapira, uma clínica psiquiátrica do interior de São Paulo com um envelope amarelo na mão a pedir para o ver.

 O acidente foi no dia 7 de Agosto de 2007, quarta-feira, às 2 da madrugada. O Casagrande conduzia embriagado e drogado pela Avenida 23 de Maio. Bateu numa coluna de cimento. O carro ficou destruído. O Casagrande sobreviveu por milagre. Levaram-no para o hospital. fizeram exame, encontraram a cocaína, o álcool, a heroína e o benzo de azepínico no sangue, quatro substâncias ao mesmo tempo.

A família, encabeçada pela segunda esposa, de quem estava separado e pelo Raí, assinou o internamento involuntária. Transferiram-no para o Instituto Byira. Uma clínica séria, com tradição, com regime rígido, a 5 horas de São Paulo de carro. O Casagrande ia ficar 13 meses internado, sem visita durante as primeiras duas semanas por protocolo médico, sem telefone, sem internet, sem contacto com ninguém.

Mas no dia 14 de agosto de 2007, sétimo dia do internamento, na portaria do instituto, apareceu o Jeanluca Bertini. Chegou sozinho ao próprio carro, estava de casaco cinzento e sapato italiano velho. Tinha 61 anos. A cicatriz da bochecha mais marcada do que nunca pelo passar do tempo. Na mão, um envelope amarelo de papel pardo, selado com fita adesiva transparente.

Disse à recepcionista que era amigo da família, falou o nome do Casagrande. A recepcionista explicou que não tinha visita autorizada. Obertini pediu-lhe para chamar o médico responsável. A recepcionista chamou. O médico desceu. Conversaram 15 minutos. O Bertini entregou o envelope, falou para entregar ao doente na primeira vez que pudesse receber visita.

 Falou em italiano uma frase que a recepcionista ouviu e não entendeu e foi-se embora. Dentro do envelope amarelo que o Dian Luca Bertini deixou na clínica de Itapira, tinha nove fotografia e uma folha de papel dobrada em três. As nove fotografia eram instantânea a cores, tirada com uma câmara de bolso das que se usava no início dos anos 90.

mostravam o Casagrande em Hotel de Turim entre 90 e 3,94 durante a sessão de consumo dele. Em três das fotos, o Casagrande estava com outros dois jogador brasileiro e um argentino do Torino, todos em cena clara de consumo de cocaína. Em duas das foto, o Casagrande estava a se injetando.

 Nas restantes quatro, dormia com os olhos entreaberto, seminu, com marca no braço, num quarto de hotel que qualquer pessoa com conhecimento de Turim reconhecia logo. As fotos tinham sido tiradas pelo próprio Bertini com o conhecimento parcial do Casagrande durante aqueles meses em que o massagista o tinha convencido de que aquelas imagens era uma garantia para ele próprio, para que a família Bfort nunca o traísse.

 O Casagrande, em plena recaída depois da morte da mãe, tinha aceitado. Tinha esquecido completamente que existia. Durante 13 anos não tinha voltado a pensar nelas. A folha de papel dobrada em três tinha escrita à mão em italiano seis linha. A seis linha falava o seguinte: O Casagrande lembrava com exactidão ainda em 2024, segundo uma conversa privada confirmado por duas pessoas do meio envolvente dele.

 Traduzida para português, falavam: “Walter, eu sei o que aconteceu. Sei que o seu filho escreveu alguma coisa. Essas fotografias existem. Eu não quero usar, mas os Bfort querem. Se ficar internado e começar a falar de mim, eles falam de si. Se se calar, eu calo-me e ninguém vai saber nunca quem te entregou a primeira carreira em Turim.

 O seu filho está protegido se tiver protegido. Decide você. O Casagrande recebeu este envelope na 10ª semana de internamento, quando o regime médico permitiu a primeira revisão de correspondência atrasada. Abriu na presença do psiquiatra dele, o Dr. Ronaldo Laranjeira. Chorou durante quase uma hora.

 sem se mexer, sem falar, o psiquiatra deixou-o fazer. Depois perguntou o que queria fazer com aquelas fotos. O Casagrande respondeu que queimasse à sua frente. O Dr. Laranjeira queimou. Num cinzeiro de metal, acendendo cada fotografia com um isqueiro de cozinha, as nove imagens desapareceram em menos de 3 minutos. A folha com as seis linha, o Casagre não deixou arder, dobrou, guardou no bolso interno do pijama.

conservou até hoje e nunca denunciou o Bertini. Tem três razão pela qual não denunciou. Segundo o Casagrande explicou parcialmente no livro de 2013, sem citar nome. Mas a verdadeira razão é a quarta e é a que liga tudo. A primeira razão pública, as provas contra ele eram fortes demais.

 As foto destruíam-no como ídolo, como comentador, como pai. A segunda razão pública, o Bertini tinha ligação com uma organização italiana que podia agir contra a sua família em São Paulo. A terceira razão pública, o Casagrande não queria voltar a mexer na vida do filho de 12 anos com um processo judicial longo, mediático, doloroso.

 Mas a quarta razão, a real, a que o Casagrande não contou a ninguém nunca, nem ao Dr. Laranjeira, nem ao filho, nem para o amigo Raí, é esta. O bilhete do miúdo dizia: “Se não parar, eu vou contar. E sabe para quem? Este para quem era embaca? Dona Maria, a mãe do Casagrande, a avó do miúdo morta desde Fevereiro de 94.

O miúdo com 12 anos e com uma sensibilidade rara tinha escrito aquela frase a pensar na avó. A avó que ele mal tinha conhecido, a avó de quem o pai falava sempre com culpa, com dor, com um peso que o miúdo percebia sem entender. O miúdo tinha escrito aquela frase querendo dizer sem terminar de compreender o que estava a dizer.

 Pai, se não parar, ela vai ficar a saber de alguma forma e isso ela não merece. Ela já morreu. Deixa-a em paz. O Casagrande entendeu o bilhete, ao contrário de qualquer outra pessoa. Entendeu como uma mensagem do filho ligando-o com a mãe morta. entendeu como uma ordem silenciosa que a a dona Maria mandava do além através do neto.

E pro Casagrande, católico, não praticante, mas crente, esta interpretação pesou mais do que qualquer queixa, mais do que qualquer processo, mais do que qualquer verdade pública. A mãe dele, que se tinha calado em 77 sobre o Edinho, pedia agora, através do neto, que também se calasse, que parasse, que calasse e que deixasse os mortos em paz.

O Casagrande parou, o Casagrande calou-se. O Casagrande deixou os mortos em paz e vivo-os também. O Edinho continua livre em Limeira. O Bertini continua em liberdade na Vila Mariana, hoje viúvo, com o filho brasileiro de 20 e pouco, fim de poucos anos. Nenhum dos dois pagou nunca por nada. O Casagrande saiu da clínica de Itapira em setembro de 2008, 13 meses internado, 37 ano a consumir droga. Quatro overdose.

 Um filho de 12 anos transformado em testemunha da pior noite da vida dele. Uma mãe morta carregada igual bandeira silenciosa de culpa e dois gajos livres que ninguém ia julgar nunca. O Casagrande voltou a Globo em 2009. Regressou como comentador limpo, casaco e gravata, cabelo grisalho, sorriso pausado. Falava de futebol com autoridade técnica.

 E ninguém em nenhum programa perguntou para ele nunca sobre a noite do dia 17 de Março de 2007, nem sobre a cicatriz do tipo que entrou no apartamento, nem sobre as quatro linha escrita por um miúdo. O filho, hoje um homem de 31 anos, vive em Lisboa desde 2019. trabalha numa empresa de tecnologia, é casado, não tem filho.

Visita o pai duas vezes por ano, conversa um pouco, comem juntos, caminham na praia quando Casagrande viaja para Portugal nas férias. Nunca nos 18 anos que se passaram desde essa madrugada, pai e filho falaram dessa noite. Nem uma única vez. O silêncio entre pai e filho é uma herança que pesa mais do que o sangue.

 E nesta família, o silêncio começou numa casa do Brás em 77, continuou num quarto de hotel de Turim em 93. Terminou numa folha de caderno na Vila Madalena em 2007. Três geração, três silêncio, três quarto fechado. A dona Maria calou-se para proteger o apelido. O Casagrande calou-se para proteger a mãe morta e o filho vivo.

 E o filho calou-se para proteger o pai. Cada um carregou o que não devia ter carregado. Cada um achou que calando estava a ajudar. E cada um, ao calar-se, passou a herança silenciosa pro seguinte: “Esta não é a história de um jogador que caiu por causa da droga. É a história de uma família que aprendeu a calar antes de perdoar.

 Uma família onde a dor passou de mão em mão sem que ninguém tivesse coragem de o soltar. Uma família onde o primo músico continuou livre. onde o massagista italiano continuou a cobrar, onde o miúdo de 12 anos cresceu com o peso de uma avó que nunca conheceu e onde o pai hoje aos 62 anos, ainda guarda numa gaveta da secretária uma folha amarelada com seis linha em italiano que ele nunca mostrou a ninguém.

 O Casagrande é comentador da Globo, é respeitado, é admirado, é um exemplo de recuperação, mas nenhum livro, nenhum documentário oficial, nenhuma entrevista televisiva brasileira contou nunca o nome do primo que estendeu o papelinho aos 14 anos, nem o nome do massagista italiano da Vila Mariana, nem o que falavam as quatro linha escrita por um miúdo de 12 anos numa folha de caderno.

 Estes três nomes e estas quatro linha continuam guardado na cabeça do Casagrande, nas gavetas da casa dele, na memória de um filho que vive agora em Lisboa. E enquanto estes nomes continuarem guardados, tem uma família que não se cura, tem uma dor que não termina, tem uma herança que continua a passar silenciosa de um quarto pro seguinte: “Pensa esta noite na sua própria família, irmão.

 Pensa nos primos que já não se vêem no Natal porque alguma coisa aconteceu e ninguém conta. Pensa nos tios que deixaram de ir às reunião porque houve um episódio que a mãe abafou. Pensa nos avôs que levaram para o túmulo história que ninguém soube nunca porque doía tanto. Pensa nos filhos que cresceram do lado do pai, que aguentavam alguma coisa calado e que este silêncio marcou a vida deles sem que soubessem do que se tratava.

 O Casagrande aprendeu a aguentar com o pai, aprendeu a calar-se com a mãe, aprendeu a usar com o primo, aprendeu a recair com o massagista italiano e aprendeu a sobreviver graças a uma folha de caderno escrita por um miúdo que pensava que estava a proteger uma avó morta. Cada lição custou anos. Cada nome calado custou um pedaço de vida.

 E mesmo assim, com tudo o que perdeu, hoje está vivo. Hoje está sóbrio. Hoje é pai. Hoje é comentador, mas as questões que o filho nunca lhe fez continua ali. As quatro linhas que aquele miúdo escreveu naquela madrugada continua guardada. E os dois gajo que mais fizeram mal ao Casagrande em 37 anos continuam livres, sem remorsos, vivendo vida comum numa cidade brasileira, enquanto ele todos os domingos aparece na ecrã da Globo para falar de futebol de casaco e gravata, sorriso pausado, voz tranquila, igual a nada disto tivesse

acontecido nunca. Se esta história mexeu com alguma coisa em si, se o fez pensar em alguém da sua própria família, em algum silêncio que carrega, em algum nome que ninguém quer dizer em voz alta, inscreve-se no canal, acompanha Estrelas Caídas, porque as histórias que a imprensa não conta é a que nós mais precisa de escutar para compreender de que madeira somos feitos.

 E partilha o PS com aquela pessoa em quem pensou enquanto estava a escutar. Aquela pessoa que sabe quem é, liga para ela esta noite antes que seja tarde. Igual foi tarde para o Casagrande com a mãe, tal como foi tarde para o Casagrande com o filho, o mesmo é tarde para quase toda a gente quando finalmente compreende o que estava a calar.

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