Cássia Eller não precisava ter morrido: O erro médico que o Brasil esqueceu

Cásia Heller não precisava de ter morrido. O erro médico que o Brasil esqueceu foi 29 de Dezembro de 2001. O Rio de Janeiro fervilhava. Faltavam dois dias para a passagem de ano. A cidade estava em clima de festa, as praias cheias, os bares abertos, todo o país no modo de passagem de ano.

Ninguém esperava uma tragédia. Às 13 horas desse sábado, uma mulher de 39 anos deu entrada numa clínica privada no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio. Ela não estava bem, mas estava viva. 6 horas depois estava morta. Esta mulher era a Cásia  Heller, uma das maiores vozes que o Brasil já produziu. 39 anos, no auge absoluto da sua carreira.

O disco mais vendido da sua vida tinha sido lançado nesse mesmo ano. Ela tinha 95 espectáculos nas costas num  único ano. Tinha um filho de 8 anos à espera em casa. tinha uma vida inteira pela frente. E em 6 horas, dentro de uma clínica privada, num bairro nobre do Rio de Janeiro, tudo acabou. O Brasil chorou e depois  seguiu em frente.

Mas há algo nesta história que o Brasil nunca parou para ler com atenção. Existe um documento, um documento  público assinado por um procurador do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que diz uma coisa muito simples e, ao mesmo tempo, devastadora.  Este documento diz que a morte de Cásia Heller nessa noite, naquela clínica, era previsível e poderia ter sido evitada.

Não é uma teoria, não é especulação.  É a conclusão formal do Estado brasileiro, redigida em papel, com nome e assinatura, arquivada num tribunal criminal do Rio de Janeiro. E o Brasil nunca soube. Pensa nisso por um segundo. Uma das maiores cantoras da história do Brasil.  Um documento do Ministério Público dizendo que ela não tinha de ter morrido  e o país que a amou nunca soube.

Por quê? O que esteve naquela clínica nessas 6 horas? Quem foram os médicos que a assistiram? O que fizeram e o que deixaram de fazer que levou o procurador a escrever aquelas palavras? E por que razão esta história foi sepultada enquanto o Brasil ouvia uma versão completamente diferente sobre o que tinha acontecido naquela noite? Este vídeo vai responder a cada uma destas questões, com documentos, com nomes, com datas, com os factos que o O Brasil escolheu não ver.

Fica até ao fim, porque o que vai descobrir aqui vai mudar para sempre a forma como se recorda a morte de Cásia  Heller. A notícia caiu na madrugada de 30 de dezembro e antes de qualquer laudo existisse, antes de qualquer investigação começasse, antes que qualquer facto se verificasse, o Brasil já sabia o que tinha acontecido, pelo menos achava que sabia.

A versão chegou rápido. Chegou pela boca de pessoas que estavam nos bastidores. Chegou pelos jornais que necessitavam de uma explicação.  Chegou pelo imaginário coletivo, que já tinha construiu uma narrativa sobre quem CIA Eller era. E esta narrativa dizia o seguinte:  ela tinha um histórico de dependência de drogas, havia recaído e morreu por consequência do próprio vício.

Era uma história que encaixava, era limpa, era fácil. E havia um pormenor que parecia confirmar tudo. O advogado das percussionistas, que tinham levou a Cásia à clínica nessa tarde, afirmou publicamente que a cantora teria admitido aos médicos  ter consumido álcool e cocaína horas antes de dar entrada no hospital.

Pronto, o O Brasil tinha a sua explicação, mas o Brasil estava errado. Em janeiro de 2002, semanas após a morte, o relatório do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro foi divulgado e o que dizia parava tudo. Os exames toxicológicos não encontraram álcool nem drogas no organismo de Ciaer, nenhum vestígio, nada, zero.

O relatório que deveria confirmar a narrativa da overdose fez o oposto, destruiu-a completamente e apontou outra direção. Uma malformação cardíaca  que não tinha sido detectada em vida. Não, as drogas, o coração. Um coração comprometido que ninguém sabia que estava comprometido.  O advogado contratado pela família foi categórico.

Não havia nenhuma prova, em caso algum, de que ela estivesse soboito de qualquer substância nessa noite. E havia algo  que tornava a narrativa do sobredosagem ainda mais injusta. Dois meses antes de morrer, em outubro de 2001, Ciao entrevista à revista Marie Claire.  Nessa entrevista, ela falou abertamente sobre a batalha com a dependência de drogas, com aquela honestidade que era a sua marca em tudo que fazia, e disse sem rodeios: “Estava limpo desde  2000.

Tinha feito tratamento entre 98 e 2000. Foi firme. Esta não era a fala de uma mulher escondendo uma recaída. Era a fala de uma mulher que tinha lutado,  que tinha vencido uma batalha muito difícil e que estava a ser honesta sobre isto num país que preferia o rótulo à verdade. Mas quando ela morreu dois meses depois, o Brasil não se lembrou desta entrevista.

O Brasil lembrou o rótulo e o rótulo era mais forte do que o relatório, mais forte do que a declaração da família, mais forte do que as próprias palavras dela. Aqui está o problema central desta história. Quando uma pessoa que viveu fora dos padrões morre de forma inesperada, o Brasil não espera pelos factos. O Brasil já tem a explicação pronta.

E CIA, que tinha lutado a vida inteira contra rótulos, que tinha resistido a tudo o que tentaram impor-lhe, morreu carregando um rótulo que era mentira. Ela não precisava de ter morrido assim, não com essa mentira colada no seu nome, mas o relatório do IML sozinho não respondia  tudo.

Se não foram as drogas, o que de facto aconteceu naquela clínica naquelas 6 horas? Esta pergunta abriu uma investigação. Uma investigação que duraria  3 anos. Ah, chegaria a uma conclusão que mudaria tudo e que o O Brasil nunca parou para ler. Na época acreditou na versão do overdose? Comenta aqui o que te lembravas desta história. Quero muito saber.

Existe um paradoxo no centro da história de Cia que diz tudo sobre quem ela era. No palco, ela era capaz de fazer 190.000 pessoas enlouquecerem. Fora do palco, ela mal conseguia beber uma cerveja num bar de esquina sem se sentir invadida. Era um furacão que tinha medo da sua própria força e este paradoxo atravessa toda a a sua vida.

Cásia Rejan Eller nasceu a 10 de de dezembro de 1962, no Rio de Janeiro. Filha de militar cresceu a viajar pelo Brasil sem raízes fixas, aprendendo desde cedo a encontrar o seu lugar em qualquer lugar. Aos 14 anos, recebeu uma guitarra de presente. E aquilo não foi uma paixão glamorosa,  foi uma obsessão silenciosa construída num país que não sabia o que fazer com uma voz como a dela.

Porque a voz de Cassia Heller era diferente da tudo, um contralto grave, rouco, poderoso, que vinha do fundo da terra e chegava ao peito  de quem ouvia como algo que não tinha nome. Num cenário dominado por vozes agudas e comportadas, ela chegou e virou-se para a mesa sem pedir  licença.

Antes de ser Cásia Heller, ela foi muita coisa: empregada de mesa, cozinheira, ajudante de pedreiro, secretária,  redora, a mulher que cantava em qualquer palco que aceitasse uma voz demasiado grave para os padrões da época.  Ela esperou anos por uma oportunidade e aproveitou como ninguém quando ela veio.

E quando chegou, chegou sendo completamente ela mesma, o que no Brasil dos anos 90 tinha um preço elevado. Ela assumiu publicamente a relação com Maria Eugénia Vieira Martins num país conservador, numa indústria conservadora,  e pagou o preço deste durante anos. foi ignorada, foi diminuída, foi tratada como marginal por um mercado que preferia artistas mais fáceis de vender.

A indústria tentou em vários momentos suavizar a sua imagem e ela resistiu sempre até ao fim. Essa resistência custou anos de carreira e foi também o que a tornou impossível de esquecer. Esta era a mulher que entrou na clínica Santa Maria no dia 29 de dezembro de 2001. 39 anos, uma vida de luta para chegar onde tinha chegado.

E o que aconteceu naquela clínica nas horas seguintes é uma história que o Brasil devia a ela. Se este vídeo está te conectando com a memória de Cásia,  deixa já o like e se subscreve o canal. Isso ajuda muito e há muito mais conteúdo assim a chegar. 2001 foi o ano em que CIA Eller finalmente chegou, onde sempre deveria ter estado.

Mas enquanto o mundo via o triunfo, o corpo dela estava a mandar sinais que ninguém soube ou quis ler. O ano começou demasiado grande.  A 13 de janeiro, ela subiu ao palco do rocking Rio 3 perante 190.000 pessoas. cantou Chico Boarque,  Kazusa, João do Vale, Renato Russo, Nando Reis. Chamou a nação zombie para tocar Come Together dos Beatles ao seu lado e depois fez o que só ela faria.

Cantou Smells Like Team Spirit dos Nirvana numa versão que fez a multidão enlouquecer. David Groll, que se apresentaria horas depois com os Full Fighters no mesmo palco, o elogiou dos bastidores. Numa atitude que só podia ser  da CIA Eller, ela ainda exibiu os seios para 190.000 pessoas em cadeia nacional.

O Brasil de 2001 não estava pronto, mas ela nunca esperou que o Brasil estivesse pronto para nada.  Em março, gravou o acústico MTV com Nando Reis na produção. Esse álbum venderia mais de 1 milhão de exemplares.  ganharia o Gramy Latino de melhor álbum de rock brasileiro e se tornaria o maior sucesso da sua carreira.

O disco que finalmente colocou  Cia no local onde deveria ter estado desde sempre. Entre maio e dezembro, a Tourê, 95 concertos em 7 meses, um ritmo que colocaria qualquer corpo no limite. E o corpo de Cásia não era qualquer corpo, era um corpo  que já tinha carregado muito antes de 2001.

A mãe revelaria mais tarde, Cásia tinha tido febre reumática dos 4 aos 24 anos. 20 anos de uma doença que ataca diretamente o coração, que deixa cicatrizes no músculo cardíaco, que compromete o funcionamento de uma forma que pode não aparecer nos exames de rotina, mas que está lá silenciosa, acumulando dano. E havia a arritmia cardíaca  que tinha aparecido na infância, um coração que tinha sido submetido a décadas  de pressão e que agora estava a ser colocado para trabalhar a um ritmo de 95 espectáculos num ano.

Antes dos últimos ensaios no Rio, Ciaou para  Lan e disse que havia sentiu falta de ar. Só isso, falta de ar. E Lan Lan, que esteve ao  lado dela durante anos, diria mais tarde com uma clareza dolorosa: “Acho que ela vinha inando,  ninguém sabia, nem ela própria”. O ano mais glorioso da vida de Cásia Heller era também o que a estava a destruir por  dentro.

E os sinais estavam por toda a parte para quem soubesse olhar. Ninguém olhou. Depois de meses a correr o Brasil de norte a sul, Cásia foi para Brasília passar  o Natal com o família. Na cabeça de todos ao redor dela era descanso. Na realidade era o início do colapso de um corpo que tinha chegado ao seu limite. Maria Eugénia,  que viveu ao lado de Cásia durante 14 anos e conhecia-a melhor do que ninguém, contaria depois que a cantora não estava bem nesse período.

Não era só o cansaço físico, era algo mais fundo. Cásia estava emocionalmente esgotada. O ano tinha sido intenso demais, não apenas pelos concertos, mas pelo que veio juntamente com o sucesso repentino. O acústico MTV tinha explodido de uma forma que ela não tinha previsto e para a qual não estava preparada.

De repente, ela já não conseguia fazer coisas simples. Não conseguia beber uma cerveja num bar sem ser assediada. Não conseguia brincar com o filho na rua sem ser fotografada. A fama que esperara a vida inteira tinha chegado e ela não sabia o que fazer com ela. Havia um peso ali que as pessoas de fora não viam. No no dia 25 de dezembro, em Brasília, o mal-estar começou.

enjousos, agitação, um estado que não melhorava com o descanso. No dia 26,  ela partiu de regresso ao Rio de Janeiro. Nos dias seguintes, o agravamento foi progressiva e silenciosa. O tipo de piora que quem está no meio  não consegue medir com clareza, porque vai acontecendo lentamente e cada hora parece apenas um pouco pior do que a anterior.

A tarde do dia 29 de dezembro, o quadro tornou-se suficientemente grave para que as pessoas que o rodeiam decidissem que ela precisava de atendimento médico. A escolha  foi a Casa de Saúde Santa Maria, no bairro das Laranjeiras, uma clínica particular numa zona nobre da cidade, com a aparência de um lugar onde alguém seria bem cuidado.

A Cásia chegou lá em estado de agitação psicomotora, completamente desorientada, sem conseguir se  estabilizar. E aconteceu então algo que, olhando para trás diz tudo sobre o que estava a acontecer naquele atendimento. Em algum momento durante as primeiras horas na clínica, no meio de todo aquele caos, Cácia saiu, simplesmente levantou-se e saiu.

Desorientada como estava, foi para a rua e teve de ser trazida de volta pelas percussionistas Lan e Tamima Brasil, que estavam com ela naquela tarde  e correram atrás dela na calçada de laranjeiras. O próprio médico que a atendia, Marcos Vinícius de Oliveira, confirmaria este pormenor em depoimento à polícia no ano seguinte. Pense nisso por um momento.

Uma paciente em colapso, em agitação psicomotora, completamente desorientada,  saindo da clínica enquanto está a ser atendida, necessitando de ser trazida de volta por pessoas que não são da equipa médica. Este detalhe sozinho levanta perguntas que ninguém fez em voz alta na época. E o que aconteceu nas horas seguintes dentro daquela clínica transformaria estas questões em algo muito mais grave.

Sabia que Cásia tinha problemas cardíacos desde criança? O que sentia quando pensava na morte dela?  Comenta aqui. Essa conversa é importante. O que aconteceu dentro da clínica de Santa Maria nas 6 horas seguintes está documentado. Está nos relatórios periciais,  está nos depoimentos policiais. está nos autos de um processo-crime.

E quando lê esses documentos, decisão por decisão, torna-se cada vez mais difícil não chegar à mesma conclusão, que o Ministério Público  chegou 3 anos depois. Cásia Heller não precisava ter morrido nessa noite. Os médicos que a assistiram foram Marcos Vinícius Gondomar de Oliveira e Jorge Francisco Castro e Perez, dois cardiologistas de de serviço na clínica.

A Cácia chegou a  eles em estado de agitação psicomotora, desorientada, com sintomas que as peritas do Ministério Público descreveriam depois como compatíveis com intoxicação alcoólica  e cocaína, ou no mínimo que exigiam que Esta possibilidade fosse considerada seriamente no protocolo de atendimento. E é aqui que começa o problema.

O primeiro problema foi o que não foi feito. Não foi realizada a lavagem gástrica. Um procedimento padrão em casos de suspeita de intoxicação, que serve para eliminar do organismo as substâncias que podem estar a provocar o quadro. É um procedimento básico, é protocolo,  não foi feito.

O segundo problema também foi o que não foi feito,  mas este tem um pormenor que vai além do protocolo e entra no território do humano. Não foram administrados sedativos. E aqui está o pormenor que ninguém que soube desta história conseguiu  esquecer. A Cásia pediu para ser sedada. Ela própria pediu. Dentro da clínica, no meio do caos daquele atendimento, ela pediu explicitamente para ser sedada.

E o médico Marcos Vinícius de Oliveira negou o pedido. Uma doente em colapso, desorientada,  em agitação intensa, pedindo para ser sedada e o médico a dizer que não. O sedativo indicado para aquelas circunstâncias  era o diazepan, um benzodiazepínico, que é exatamente o protocolo recomendado em casos de suspeita de intoxicação por álcool ou  drogas.

Em vez do diazepan, os médicos escolheram o plazil. Nome técnico: Metoamida. Um antiemético comum vendido sem receita médica nas farmácias, utilizado para enjoos e náuseas. Parece inofensivo. É inofensivo na maior parte  dos casos, mas as peritas do Ministério Público apontaram algo que muda completamente essa equação.

O plazil  pode acelerar a absorção de qualquer substância presente no organismo. Se havia drogas no sistema de Cácia e havia a suspeita documentada  de que havia, aquela injecção aplicada diretamente na veia poderia ter funcionado como um acelerador deste processo. Meia hora após a aplicação do plil, Ciaer teve a primeira paragem cardíaca.

Meia hora, 30 minutos entre a injeção do medicamento contraindicado  e a primeira paragem. Depois da primeira parada, os médicos usaram adrenalina  e atropina na tentativa de reanimá-la. As peritas do MP apontariam que estas substâncias  também estão contraindicadas em casos de enfarte, com suspeita de consumo de álcool ou cocaína.

A adrenalina e a atropina, neste contexto específico, podem libertar a cocaína nos receptores alfa do organismo, agravando o quadro em vez de revertê-lo. Depois da primeira paragem, havia ainda outro caminho, a diálise  ou outro procedimento terapêutico destinado a impedir a progressão do quadro que estava a levar a doente progressivamente ao coma e à morte, como as próprias peritas descreveriam depois nos documentos do processo.

Esse procedimento não foi realizado. Cásia houve uma segunda paragem, depois  uma terceira, depois uma quarta. às 19:05 do dia 29 de dezembro de 2001, depois de quatro paragens cardíacas,  Cásia Heller foi declarada morta e o procurador, que formalizaria a acusação 3 anos depois escreveu nas páginas do processo uma frase que resume tudo com uma precisão que dói.

As condutas voluntárias dos médicos concorreram para a morte da doente, que nas circunstâncias era previsível, mas poderia, com o tratamento adequado, ter sido evitada. Ela não precisava de ter morrido nessa noite. Essa é a conclusão do Estado brasileiro. Está escrito nos autos e o Brasil não sabe. Esse vídeo está a chegar até si agora, porque esta história precisa de ser contada.

Se nunca soube disso, partilha  agora, porque cada pessoa que vê este vídeo é uma pessoa a mais que sabe a verdade sobre o que aconteceu com o Ciaer. Deixa o like, se subscreve o canal. Trs anos depois da morte de Cásia Heller, o Estado brasileiro fez algo que muito poucas pessoas sabem que aconteceu. E a história deste processo, de quem lutou para que ele existisse, de quem tentou enterrá-lo e do silêncio que veio depois é tão reveladora como o que aconteceu dentro daquela  clínica.

Vamos pelo início. Em janeiro de 2002,  é divulgado o relatório do IML. Ausência de drogas, malformação cardíaca. A família respira com a confirmação de que a narrativa do overdose era mentira. Mas a batalha está apenas começando. A polícia investigou, o inquérito correu e depois em 2003 aconteceu algo que muito poucas pessoas sabem.

O próprio Ministério  Público pediu o arquivamento do inquérito. O mesmo MP que depois acusaria primeiro os médicos, tentou encerrar o caso. Isso não é um pormenor menor. É o retrato de como funciona o sistema quando uma família sem poder político tenta responsabilizar uma instituição de saúde privada num bairro nobre do Rio de Janeiro.

Mas havia um juiz. O juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, da 29ª Vara Criminal do Rio de Janeiro,  recebeu o pedido de arquivamento e negou. Disse: “Não, mandou o caso continuar. Esse homem, cujo nome o Brasil nunca conheceu, foi responsável por uma decisão que alterou o rumo desta história.

Sem ele, o processo teria acabado ali em 2003.”  No silêncio. O caso continuou e em Outubro de 2004,  quase 3 anos após a morte da Cia, as peritas Eliane Espinelli, da Coordenadora de Justiça Terapêutica do Ministério Público e Tânia Donati, do grupo de apoio concluíram a perícia  e divulgaram um relatório que mudou tudo.

As conclusões foram  devastadoras. O seu atendimento dado a Cásia Heller foi no mínimo contraindicado  para tratar qualquer doente que pudesse ter feito um eventual uso de álcool  ou de qualquer outra droga. Os os médicos não utilizaram os medicamentos adequados, mais grave aplicaram os errados.

O plázio injetável foi contraindicado. A ausência de sedação foi um erro. A ausência de lavagem gástrica foi um erro. A ausência de diálise após a primeira paragem foi um erro. Cada decisão e cada ausência de decisão  foi documentada como parte de um protocolo que as peritas consideraram inadequado para aquelas circunstâncias.

A 29 de outubro de 2004,  3 anos e exatamente um mês após a morte de Cásia Heller, o procurador Alexandre Temistoclis  de Vasconcelos, da Primeira Central de Inquéritos do Ministério Público, formalizou a acusação à 29ª Vara Criminal do Rio de Janeiro.  Os arguidos Marcos Vinícius Gondomar de Oliveira e Jorge Francisco Castro e Perez.

O crime,  homicídio negligente, apena possível em caso de condenação, até 3 anos de prisão.  O promotor escreveu na queixa, e isso está nos autos, é um documento  público pode ser procurado, que os denunciados adotaram um conjunto de medidas que revelam a falta de aptidão para o exercício da profissão de médico.

e escreveu mais do que as condutas voluntárias dos médicos concorreram para a morte da doente, que nas circunstâncias era previsível, mas poderia, com o tratamento adequado,  ter sido evitada. A Cácia não precisava ter morrido. O Estado brasileiro disse isto em documento, com assinatura, com data. E depois, silêncio.

O processo correu na 29ª vara criminal sem que o país acompanhase. Não houve condenação amplamente noticiada, não houve sentença que o Brasil conheceu. Não houve qualquer momento em que os media, que havia coberto a morte de Cásia com tanta intensidade, voltou com a mesma intensidade para contar o que a justiça havia descoberto.

A história foi engolida pelo tempo,  por outros escândalos, por outras tragédias, pela indiferença de um país que já tinha decidido o que tinha acontecido três anos  antes e não tinha qualquer interesse em ser contrariado. E a narrativa que sobreviveu na memória coletiva do Brasil  foi a mais cruel, a mais injusta e a mais falsa de todas, a da artista destruída pelas próprias drogas.

Dois médicos foram acusados ​​de homicídio negligente pela morte de Cásia Heller. Acha que deveriam ter sido condenados? Comenta aqui. Quero saber o que pensa sobre o assunto. A pergunta que fica depois de tudo isto não é só o que aconteceu naquela clínica. A pergunta mais difícil  e a mais importante é outra. Porque é que o Brasil escolheu não saber? E quando digo escolheu, não estou a usar a palavra levianamente, porque houve escolhas.

Houve escolhas feitas pela media, pelo sistema e por cada um de nós que ouviu o boato da overdose e não foi procurar a segunda versão. O boato chegou primeiro  e no Brasil, em qualquer lugar, aliás, quem chega primeiro com a narrativa fica. A versão do Overdose era simples, era rápida e, acima de tudo, era conveniente, porque ela encaixava num rótulo que já existia.

Ciaer tinha um passado com drogas. Ela tinha falado sobre isso publicamente com uma honestidade rara. E quando uma pessoa tem um rótulo, tudo o que acontece com ela é lido através deste rótulo. Ela morreu, foram as drogas. Não importa o que diz o relatório, não importa o que a  família diz, não importa o que a própria Cásia tinha dito dois meses antes numa entrevista.

O rótulo é mais forte do que qualquer facto. Isso não foi um acidente, foi um padrão. Um padrão que o Brasil aplica com especial intensidade a pessoas que ousam ser diferentes,  que vivem fora dos limites do que é considerado aceitável, que incomodam pelo simples facto de existir como são. Cásia Eller incomodava.

incomodava pela voz, pela sexualidade assumida, pela irreverência, pelo comportamento em palco, pela recusa em ser domesticada por uma indústria que tentou em vários momentos suavizar a sua imagem. Ela não deixou. E quando esse tipo de pessoa morre cedo e de forma inesperada, o Brasil não chora da forma que chora pelos outros.

O Brasil  explica e a explicação mais fácil para a morte de alguém que viveu fora dos padrões é sempre a mesma. Ela trouxe isso para si. Havia ainda o problema do processo judicial em si. Um inquérito numa vara criminal carioca não é uma manchete fácil de vender. Não tem imagem, não tem rosto visível, não tem o drama imediato que a televisão e os jornais precisam para justificar cobertura.

A denúncia do Ministério Público foi noticiada, mas num volume completamente incompatível com a importância do que estava a ser dito. Dois médicos, sendo formalmente acusados de homicídio negligente pela morte de uma das maiores artistas do Brasil.  Deveria ter sido uma história que o país acompanhou durante semanas.

Virou uma nota. E há uma última camada neste esquecimento que é a mais incómoda de todas. O Brasil tem uma dificuldade histórica de responsabilizar os sistemas e instituições  quando eles falham. É mais fácil culpar a vítima. É mais fácil dizer que ela trouxe o fim para si própria. É mais fácil fechar o capítulo  e seguir em frente do que enfrentar a possibilidade de que uma clínica privada num bairro nobre do Rio de Janeiro, com médicos formados, pode falhar de uma forma que  mata. Porque se isto é verdade sobre

Cásia Heller, se um processo do Ministério Público diz que ela não precisava de ter morrido e o Brasil escolhe não ouvir, então essa mesma lógica pode se aplicar a qualquer um de nós. E essa é uma verdade com a qual é muito mais difícil viver do que com um boato sobre overdose. Cassia Eller viveu 39 anos, sendo mais do que o Brasil conseguia suportar.

lutou cada centímetro do caminho para chegar onde chegou. Chegou sendo completamente ela própria, sem pedir licença, sem aceitar ser suavizada, sem abdicar de nada do que era. E no auge de tudo isto, num sábado de Dezembro, no interior de uma clínica de laranjeiras, algo falhou. O relatório do  Instituto de Medicina Legal não encontrou drogas.

O Ministério Público do Estado  do Rio de Janeiro disse que o atendimento foi contraindicado. O promotor colocou no papel, com nome e assinatura,  que a morte era previsível e poderia ter sido evitada. Dois médicos foram formalmente acusados ​​de de homicídio negligente. O Brasil não soube, ou soube e escolheu não importar-se.

Este vídeo não tem o final que gostaria de ter. Não tem sentença, não tem condenação confirmada, não tem o fecho que nós precisamos para dizer que foi feita justiça, porque a história de Cásia Heller não tem um final limpo. E fingir que tem seria desonesto com ela, com Maria Eugénia, que batalhou durante anos pela sua memória, e com todos os que a amaram e nunca receberam uma resposta clara.

O que temos são os factos, o relatório, o processo, a denúncia,  os nomes constantes dos autos e a frase do promotor. A morte era previsível e poderia ter sido evitada.  Isto é o que temos e é mais do que o Brasil escolheu saber durante todos estes anos. Se este vídeo te tocou, se achas que esta história merecia ter sido contada há muito tempo, partilha agora.

Não como um favor ao canal, como um ato de justiça com a memória de uma mulher que o Brasil nunca tratou o direito em vida  e continuou a não tratar depois que ela se foi embora. Deixa o like, se inscreve e até ao próximo vídeo.

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