CHORÃO: o ADICTO por trás do ÍDOLO… A obscura VERDADE sobre a noite em que morreu entre COCAÍNA

Era a voz de toda uma geração, o homem que ensinou a milhões de jovens brasileiros que era possível vencer vindo do absoluto nada, que se podia construir um império com as mãos sujas de asfalto e a garganta cheia de raiva. O mesmo homem que nas suas músicas falava de força, de luta, de resistência, de lutar pelo que se quer, sem importar de onde se vem, era na intimidade um ser profundamente partido, encurralado pelos seus próprios demónios num apartamento do bairro de Pinheiros, em São Paulo, enquanto todo o Brasil

esperava vê-lo subir ao palco algumas semanas depois. Mas o chorão não voltou ao palco nunca mais. Na madrugada do dia 6 de março de 2013, o seu corpo foi encontrado caído no chão da cozinha do seu apartamento, na rua Moraz. As paredes tinham marcas de sangue, o sofá estava tombado, garrafas vazias de álcool, SIM caixas de medicamentos espalhadas pelo chão e o rasto branco do que o foi consumindo durante anos.

O delegado responsável pelo caso foi categórico ao falar com a imprensa. O apartamento apresentava as marcas de um homem em crise psicótica ativa, alguém que nas suas últimas semanas vivia convicto de que existiam câmaras escondidas filmando cada um dos seus movimentos que perseguiam-no, que já não conseguia distinguir o que era real do que o seu próprio cérebro destruído construía.

Não houve uma festa selvagem, não houve uma noite de excessos com os amigos. Houve um homem sozinho, completamente só, lutando contra fantasmas que só ele conseguia ver num apartamento que ele mesmo destruiu antes de dar o seu último suspiro. O relatório do Instituto Médico Legal de São Paulo, não que tenha demorado algumas semanas para ser divulgado, mas cujo resultado todos já intuíam, foi contundente e definitivo.

4714 microgína por militro de sangue. uma concentração devastadora que por si só para explicar tudo. Mas o delegado Itagiba Franco do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, foi mais longe e acrescentou algo que todos devem ouvir com atenção. O coração, os rins e o cérebro do chorão já estavam seriamente comprometidos antes daquela madrugada.

Não foi o excesso de uma noite que o matou, foi o resultado acumulado, silencioso e devastador de anos de abuso que foram deteriorando órgão a órgão, enquanto o palco continuava aceso e os contratos continuavam a ser assinados e o Brasil inteiro continuava a cantar as suas músicas sem saber o que acontecia por trás.

E hoje vamos entrar nessa história, e não a história oficial, a que a comunicação social contou as pressas nos dias seguintes à sua morte entre a comoção e a homenagem apressada, a história completa, com as partes que incomodam, com as contradições que o tornam mais humano e mais trágico ao mesmo tempo. São quatro coisas que vai descobrir nesse vídeo.

Em primeiro lugar, a verdade sobre a infância brutal que ninguém relaciona diretamente com as suas músicas e que explica quase tudo o que veio depois. Segundo, o momento exato em que a a cocaína deixou de ser uma fuga e se tornou a única realidade que o chorão conhecia. Terceiro, as fissuras que destruíram a banda por dentro, as quezílias que ele próprio provocou e que foram o deixando-o cada vez mais isolado dentro da a sua própria lenda.

e quarto e o que realmente aconteceu naquele apartamento de pinheiros durante os últimos dias da a sua vida antes de o Brasil acordar com a notícia que ninguém queria receber. Durante anos falou-se de tudo no Brasil sobre a sua morte, que foi um acidente que podia ter acontecido qualquer noite, que foi inevitável porque era assim que ele era, que ele procurou, que a indústria musical espremeu-o até não restar nada do que ele foi no início, que as pessoas que o rodeavam falharam com ele no momento mais crítico.

Hoje vai ter toda a história construída com os factos documentados e com o contexto que só se compreende quando se sabe de onde veio Alexandre Magno Abrão antes de se tornar o chorão. E aviso desde já, não é uma história fácil de ouvir, mas é exatamente o tipo de história que merece ser contada da forma certa. Antes de continuar, ah, se é daquelas que cresceram com o Charlie Brown Júnior a tocar na rádio, se proibida para mim ou só por uma noite marcaram algum momento importante da sua vida, preciso que se inscreva nesse canal e ative

o sininho agora mesmo, porque aqui no Lendas na Sombra vai encontrar as histórias que outros não têm coragem de contar sobre as figuras que definiram o entretenimento brasileiro durante décadas. as verdades que a indústria preferia que não viessem à tona, os segredos de quem fez história e pagou um preço brutal por isso.

O chorão é apenas o início do que tem aqui. Ativa o sininho e vamos continuar. Mas para compreender como tudo terminou naquela madrugada de Pinheiros, primeiro é preciso saber de onde veio este homem. Porque a história do chorão não começa nos grandes palcos, nem nos estúdios de gravação, nem nas primeiras posições das paradas do Brasil dos anos 2000.

Começa muito antes, num local que tinha muito pouco de glamor e muito de luta diária para sobreviver num país que naquela época também não sabia muito bem como se sobrevivia. Alexandre Magno Abrão nasceu no dia 9 de abril de 1970 no bairro de Vila Rosa, na zona norte de São Paulo. Um bairro operário sem enfeites.

Daqueles que o São Paulo dos anos 70 tinha as pencas em todas as direções, ruas que se transformavam em lama quando chovia, casas apertadas umas contra as outras, construídas com materiais que por vezes vezes eram mais vontade do que estrutura. As famílias que viviam com o básico e que nos maus meses viviam com menos do que isso.

Não era o sertão nordestino que as telenovelas da Globo romantizavam. Era a periferia real da maior megalópole da América do Sul. A que não aparecia nos ecrãs, mas que era a realidade quotidiano da maioria dos paulistanos daquela época. O Brasil em que o Chorão nasceu era o Brasil da ditadura militar na sua fase mais intensa, os anos do milagre económico que crescia no papel e não chegava aos bairros como o Vila Rosa, dos atos institucionais que silenciavam qualquer voz que ousasse questionar algo.

Um Brasil em que a desigualdade era tão profunda e tão naturalizada que nascer onde nasceu Alexandre Magno Abrão era já um ponto de partida que fazia qualquer sonho grande parecer uma loucura de proporções irresponsáveis. A sua mãe, Nilda Abrão, era empregada doméstica. Trabalhava limpar a casa dos outros, cozinhar para fora, fazendo pastéis que depois vendia.

E o pequeno Alexandre era quem fazia as entregas, percorrendo o bairro alimentos que outras famílias iam comer, enquanto na sua própria casa o dinheiro nunca sobrava. Esta imagem concreta, a do menino que bate às portas alheias transportando a comida dos outros, diz mais sobre quem foi o chorão e de onde saiu a sua raiva do que qualquer entrevista que ele tenha dado em toda a sua vida de artista.

Há uma coisa que se constrói em silêncio quando fazemos isto de criança. Um sentimento que não tem nome exato, mas que mistura o orgulho ferido, dignidade forçada e uma raiva que ainda não sabe para onde ir. Essa coisa encontrou o seu caminho depois nas letras do Charlie Brown Júnior. Mas no início não havia onde a colocar. Não havia ainda nenhum microfone, nenhum palco, nenhuma prancha que funcionasse corretamente.

O seu pai, Geraldo, queria ajudar, mas não conseguia lidar com o que a situação lhe impunha. A mãe sofreu um AVC cerebral na década de 80 e a já precária A estabilidade do lar tornou-se ainda mais frágil. O Alexandre ia mal na escola, isto quando ia, deixou de estudar no sétimo série.

Não foi uma decisão filosófica, nem uma rebeldia calculada. Foi simplesmente que o sistema de ensino não não tinha nada de concreto para oferecer ao menino que vivia na rua, que tinha problemas com a polícia, que não se enquadrava em nenhum molde dos que a sociedade brasileira daquela época tinha disponíveis para alguém na sua situação. foi detido várias vezes, segundo as histórias que circularam no seu meio, geralmente por averiguação, por estar no lugar errado à hora errada, o que na A periferia paulistana dos anos 80 podia ser basicamente em qualquer lugar, a

qualquer hora, se a pessoa tivesse a pele da cor errada ou o apelido do bairro errado. E depois chegou o skate. Foi uma revelação no sentido mais literal da palavra. Na prancha, ele encontrou algo que não tinha encontrado na escola nem na rua de qualquer outra maneira. Uma linguagem própria, uma forma de se mover pelo mundo que era exclusivamente sua.

Não tinha dinheiro para os melhores equipamentos? Claro que não. Aprendeu com o que havia, caindo e levantando-se no asfalto paulistano, igual ao que faria para o resto da vida, em tudo o resto. Os seus amigos da época troçavam dele porque no início chorava quando não conseguia fazer os truques. Daí o apelido que o acompanharia para sempre. Estavam sempre a dizer: “Não chores”.

E chorava do mesmo jeito e continuou treinando. Até que aos 16 anos foi vice-campeão paulista de skate freestyle na categoria de guaratinguetá. O chorão resultou ser melhor do que quase todos os eles. E nesse pequeno arco, nessa distância entre o apelido de deboche e o pódio, já estava contida toda a personalidade do chorão, o que parecia fraco e revelava-se imbatível, o que chorava e depois vencia.

Mas o skate, por mais que o apaixonasse, também não era suficiente para pagar as contas, nem para lhe dar um futuro concreto na realidade do Brasil daquela época. E São Paulo estava a ficar sufocante. Aos 17 anos, em 1987, Alexandre Magno tomou uma decisão que mudaria o resto da sua vida. Foi para Santos.

A cidade costeira do litoral Paulista, a cerca de 70 km da capital, tinha outro ritmo, outro ar, outra escala humana. Havia uma cena underground que começava a formar-se. Jovens que misturavam o skate com o rock, o graffiti com a música, a raiva da periferia com as influências que chegavam do exterior, se do punk e do hardcore anglo-saxónico, que infiltrava-se por fitas K7 copiadas e revistas em segunda mão.

Era o Brasil da abertura democrática, o país que acabara de sair de 21 anos de ditadura militar e que ainda não sabia exatamente o que fazer com toda aquela liberdade recém- recuperada. A energia estava nas ruas, nos pequenos bares, nos espaços onde bandas desconhecidas tocavam para 20 pessoas e sonhavam com o que viria.

Em Santos, o chorão encontrou o seu mundo, continuou com o skate, continuou com a rua, continuou com aquela raiva silenciosa que ainda não tinha nome artístico. Algures em 1991, num bar aconteceu o acidente que mudou a sua vida. O vocalista de uma banda que estava a tocar naquela noite precisou se ausentar por momentos, o tipo mais banal do mundo.

E alguém da plateia empurrou o chorão para o palco quase como uma brincadeira. Como estas coisas que acontecem quando há um pouco de álcool e há um tipo que parece sempre que tem algo a dizer. Ele pegou no microfone, abriu a boca e o que saiu de dentro não era o que ninguém esperava. Tinha algo ali que não se aprende nem se ensaia.

Uma presença, uma intensidade, uma raiva transformada em música que chegava às tripas de quem ouvia antes do que ao cérebro. Um homem da plateia procurou-o depois do concerto e propôs-lhe que entrasse na sua banda como vocalista. Esse homem salvou-o ou talvez o condenou. Depende de como se olha para tudo o que veio depois nessa banda.

E ele conheceu quem seria o seu companheiro mais próximo e o seu conflito mais eterno ao mesmo tempo. Um rapaz de apenas 12 anos chamado champinhon, que tocava baixo com uma maturidade que não correspondia à sua idade, nem ao seu tamanho. A diferença de 8 anos entre eles marcou tudo desde o início. O chorão era o adulto, o que colocava a cara, o que tomava as decisões, o que definia a direção.

O champinhon era o menino-prodígio que fazia o que o chorão queria fazer soar. Esta dinâmica funcionou de forma extraordinária durante anos e terminou sendo também uma fonte inesgotável de tensão e ressentimento acumulado que explodiria nos momentos mais inesperados. Juntos, primeiro na banda What’s Up, onde experimentavam com um som pesado de influências de Biohazard e Suicidal Tendencies, cantando ainda em inglês, e foram construindo algo que ainda não tinha nome definitivo, mas que já tinha uma força innegável. O Charlie

Brown Junior surgiu em 1992. O nome surgiu da forma mais absurda e mais brasileira possível. O chorão estava na prancha quando embateu num carrinho de água de coco que tinha o personagem da banda desenhada desenhado. O nome ficou o Júnior. Ele acrescentou porque considerava que eram filhos do rock, a nova geração do rock brasileiro que se alimentava de Raimundos, Nação Zumbi, Planet Ramp e O Rapa, mas que também ouvia Sublime Red Hot Chili Peppers, Nirvana e os braços mais pesados ​​do hardcore americano.

A A formação clássica completou-se com o baterista Renato Pelado e os guitarristas Marcão Brito e Thiago Castanho. Cinco pessoas com personalidades completamente diferentes, com histórias diferentes, unidas por uma sonoridade que mais ninguém tinha exatamente igual no Brasil. aquela capacidade de pegar no Rev e suavizá-lo com reg, o punk e encharcá-lo de scá, a raiva social e um tá-la de melodia acessível, de transformar a periferia em algo que a classe média também conseguia cantarolar. Começaram por tocar em

circuitos de campeonatos de skate em Santos e São Paulo. Lugares pequenos, plateias de entusiastas, ninguém que os conhecesse para além do próprio bairro. E tinham tão pouco dinheiro que em algum momento o chorão vendeu a única televisão que o seu pai tinha em casa sem pedir licença para pagar ao estúdio de gravação.

O comprador não viu o embate que o aparelho levou ao ser retirado do carro. O chorão e o guitarrista Thago fugiram com o dinheiro. Tão precário, tão irreverente, tão absolutamente deles era o início. Ah, a demo tape chegou aos ouvidos do produtor Rick Bonadio, que era nessa época um dos homens mais importantes da indústria musical brasileira.

E o que ele ouviu o convenceu imediatamente. Em 1997, saiu Transpiração Contínua Prolongada, o primeiro álbum, mais de 500.000 1 cópias. Para uma banda desconhecida, para um rock que a indústria não conhecia muito bem como classificar, nem em que gaveta colocar, este resultado era algo que ninguém esperava e que mudou tudo. O Brasil, que ouvia a Cheé Music, sertanejo e a MPB, deparava-se de repente com um grupo de jovens de Santos que cantavam de sketistas, de rua, de lutar pelo que se quer, das mulheres que dóem e dos sonhos que custam. E algo ressoou,

algo de profundo naquela geração que crescia no Brasil pós hiperinflação, pós plano real. Um país que tentava ser moderno, mas que ainda carregava nas costas todas as dívidas de décadas de desigualdade e repressão militar. De 1997 a 2003, o Charlie Brown Júnior foi asendo a uma velocidade que assustava. Os álbuns Preço Cto, prazo Longo, em 1999, nadando com os tubarões em 2000.

E os seguintes foram construindo uma base de adeptos de uma lealdade quase religiosa. As suas músicas tocaram em Malhação, a série juvenil da Globo, que durante anos foi a mais assistida pelos adolescentes brasileiros e isso levou-os a uma exposição nacional que antes só existia nos seus sonhos.

Hits como te levar daqui e lutar pelo que é meu passaram a ser a banda sonora de toda uma geração que se reconhecia naquelas letras que falavam das suas ruas, dos seus amores, das suas frustrações e daquela sensação de querer algo mais do que o destino que o CEP atribuía ao nascimento. O pico chegou em 2003 com o acústico MTV, disco de platina tripla, mais de 450.

000 1 cópias, um álbum que demonstrava que por baixo de todo o ruído do rock que faziam, havia uma profundidade melódica e lírica que os críticos mais elitistas não esperavam encontrar. Os que os tinham tratado como uma banda de rapazes do skate sem muito fundo tiveram de recalibrar. Proibida para mim, tornou-se um dos grandes clássicos do rock brasileiro moderno.

Uma canção de amor proibido que o chorão escreveu pensando na Graziela, a mulher que amou com uma intensidade que acabaria por ser também uma das fontes da sua destruição. Porque Graziela Gonçalves chegou à vida do chorão muito antes da fama. Eram namorados desde os anos de Santos e desde a altura em que a banda ainda não tinha nome e ele ainda entregava pastéis para sobreviver.

Ela conheceu-o quando não tinha nada, quis-o quando ninguém mais o conhecia, para além de um raio de 10 km. Foi testemunha da transformação daquele rapaz furioso da Vila Rosa no ídolo que milhões de brasileiros adoravam. E foi também testemunha durante anos do outro processo que ocorria em paralelo, o da destruição que a fama, a pressão e a cocaína foram construindo em silêncio enquanto o palco continuava a brilhar.

E aqui é onde a coisa torna-se realmente difícil. Porque o sucesso do chorão foi tão genuíno como a sua tragédia. Não foi uma construção de marketing, não foi uma imagem fabricado em algum departamento criativo de uma estação emissora. O Charlie Brown Júnior chegou onde chegou exatamente porque o chorão não fingia nada.

O que cantava era o que era. A raiva do tipo que entregou comida de porta em porta. A melancolia de quem partiu de São Paulo sem saber bem para onde ia. O amor desesperado, proibido, doloroso, que inspirou músicas que ainda hoje geram uma pressão no peito difícil de explicar. Não havia personagem, não havia imagem construída.

Havia uma pessoa com toda a sua complexidade e toda a sua contradição projectada em letras que funcionavam porque eram absolutamente verdade. E isso, essa ausência de filtro, este levar tudo o que se é direto ao microfone sem escudo, foi a sua maior virtude e a sua condenação mais brutal ao mesmo tempo. O ano de 2005 foi o ponto de viragem, não só para a banda como unidade, para o chorão como pessoa, enquanto ser humano que estava tentando processar coisas para as quais não tinha ferramentas emocionais.

Até aquele momento, o sucesso tinha funcionado como uma espécie de anestesia. Enquanto os espectáculos continuavam, enquanto as músicas tocavam, enquanto havia palcos para subir e plateias que enlouqueciam ao vê-lo, era possível ignorar as fissuras, tapar os buracos com adrenalina e ruído. Mas em 2005 as as fissuras se tornaram fraturas impossíveis de disfarçar.

O Champinhon, o Marcão e o Renato Pelado anunciaram juntos a saída dos Charlie Brown Júnior. As razões que circularam na imprensa eram vagas, divergências musicais, decisões criativas incompatíveis, mas quem estava perto da banda falava de algo muito mais concreto. O biógrafo, que anos mais tarde escreveu sobre o champinhon, deixou registado com uma claridade que dói.

O chorão tinha-se convencido de que a banda era a sua propriedade exclusiva. a ideia de que era ele quem fazia tudo, de quem definia tudo, quem tudo decidia. Uma revista chegou a publicar uma notícia sobre a rutura com o título Chorão Brown Júnior, como se o resto dos membros fossem figurantes na própria história deles.

Fazia parte do seu temperamento, esta necessidade de controlo total que batia de frente com o facto elementar de que numa banda é sempre necessário ceder espaço, é sempre necessário ouvir o do lado. O champinhon, em entrevistas desse período, foi explícito de uma forma que não deixava muito espaço para a interpretação. Disse que o chorão tinha aparecido no programa do Faustão, afirmando que fazia 100% do trabalho e que isto era um desrespeito brutal para com o que o Marcão, o Pelado e ele próprio contribuíam.

Nunca tocou baixo, bateria, porra nenhuma, não é? O que fazia era dar as ideias de boca e nós desenvolvia. Esta frase captura perfeitamente a natureza do conflito, a choque entre um líder que precisava de ser a única fonte de tudo e músicos que tinham o seu próprio orgulho e os seus próprios limites. E o que esta ruptura em massa fez ao chorão por dentro é algo que muito pouca gente entendeu naquele momento.

Para ele, o Charlie Brown Júnior não era apenas um projeto musical, nem um negócio, nem uma fonte de rendimento. Era a sua identidade inteira. Era a prova de que o menino da Vila Rosa, que não terminou sequer o colégio, podia construir algo enorme que o Brasil inteiro reconhecesse. Que três dos quatro membros fundadores fossem embora juntos, coordenados como um bloco.

No momento de maior visibilidade da banda, foi uma traição que nunca digeriu por completo. E e segundo as pessoas que o conheciam de perto, foi exatamente naquele momento que o consumo de cocaína, que já existia antes, embora em níveis que podiam ser controlados de alguma forma, começou a intensificar-se de uma forma que já não tinha volta fácil.

À Graziela, que o conheceu melhor do que ninguém, contou no seu livro e em entrevistas posteriores com uma honestidade que não tem retorno. Disse que o uso intensivo da cocaína começou a escalar por volta de 2005. logo após a fratura da banda original, que no início era uma coisa que ele fazia e que havia períodos de aparente controlo, de tréguas, mas que com o tempo a droga começou a mudar o homem de formas que já não dava para ignorar.

As paranóias apareceram primeiro como algo ocasional e depois como algo constante. O ciúme se tornou irracional. E houve momentos em que ligou ao próprio irmão para dizer que a graziela o andava a trair, quando na realidade o que acontecia era que precisava de uma justificação para sair do apartamento e ir usar cocaína sozinho num hotel do centro.

Esta inversão da realidade, esta capacidade do vício para construir narrativas falsas que protejam o vício e a o disfarcem de outra coisa é uma das coisas mais devastadoras que pode acontecer a uma pessoa. E as pessoas que mais o amavam tiveram de assistir a isso, desenvolver-se em tempo real, sem poder fazer grande coisa.

Mas o ponto é que o chorão continuava a funcionar. É é isso que torna esta história especialmente complexa. Continuou gravação, continuou a fazer shows, reformulou a banda com novos membros e seguiu em frente com uma produtividade que, de fora, parecia imparável. Em 2004, e antes da ruptura definitiva dos originais, teve um dos episódios mais comentados da sua carreira pública, o encontro no aeroporto de Fortaleza com Marcelo Camelo, o vocalista dos Los Hermanos.

O camelo tinha criticado o chorão publicamente por aparecer numa publicitário da Coca-Cola, questionando a coerência entre a imagem alternativa do Charlie Brown Júnior e a associação com uma multinacional. O chorão, que não era exatamente um homem que deixasse as coisas passar, confrontou-o no aeroporto e partiu-lhe o nariz com um soco na sala de chegadas.

Foi detido pela Polícia Federal, teve de pagar uma indemnização por danos morais e no dia seguinte o assunto foi notícia em todo o Brasil. E há algo nesta imagem, a do artista que agride e paga e segue em frente sem que ninguém o questione demais, que resume perfeitamente como o mundo à volta do chorão funcionava. Tudo era perdoado porque ele era o chorão.

Tudo era absorvido porque o talento era innegável e o público o adorava sem condições. Esta dinâmica acabou por ser uma das piores coisas que lhe poderiam ter acontecido. Pessoalmente, isto é algo que ainda me gera uma raiva enorme quando se revê a história com a distância do tempo. Quando alguém tem tanto carisma, quando a sua presença enche estádios e o seu nome gera fanatismo de proporções religiosas, o meio envolvente que o rodeia tende a flexibilizar de formas que se revelam letais.

Ninguém quer dizer ao rei que o rei está errado. As pessoas que têm acesso a ele necessitam desse acesso para viver. Os que dependem economicamente da banda não se podem permitir confrontos que coloquem os contratos em risco. E o resultado é que alguém como o Chorão acabou rodeado de pessoas que diziam sim quando o não era o que ele precisava ouvir, que olhavam para o outro lado quando a carreira de Coca estava na mesa, que toleravam os delírios e as paranóias, porque interromper aquilo tinha um preço que ninguém queria pagar.

Em Janeiro de 2003, facto que muitos preferem não se lembrar. Um jovem de 17 anos foi a uma esquadra de Santos apresentar um boletim de ocorrência contra Alexandre Magno. Disse que o chorão tinha-lhe dado um tapa no rosto depois de ele dizer que não gostava do Charlie Brown Júnior. O chorão afirmou que só o tinha agredido verbalmente porque o rapaz tinha dito coisas depreciativas sobre a banda.

O episódio foi processado, causou escândalo momentâneo e depois foi engolido pela maquinaria da fama. E mais uma amostra desta lógica em que o ídolo podia fazer coisas que a qualquer outra pessoa teriam custado muito mais. E assim chegamos a 2011, que trouxe algo que parecia ser o início de uma recuperação real, uma segunda oportunidade que todos os fãs haviam esperado.

O champinhon e o Marcão regressaram à banda depois de seis anos separados, das entrevistas em que se disseram coisas muito pesadas um sobre o outro nos media brasileiros, dos projetos paralelos que nenhum dos dois conseguiu levar muito longe, voltaram. A reencontro produziu Música Popular Caiara, um álbum ao vivo que soou como reconciliação, que prometia que o melhor ainda estava para vir.

Os fãs viveram aquilo como um presente, como a confirmação de que a família podia se remontar depois da ruptura. Mas o que ninguém via de fora era que, por baixo daquela reconciliação pública, as fissuras continuavam lá, mais profundas, se possível, cobertas apenas pela necessidade dos negócios e pelo amor genuíno que, a algum nível todos os membros daquela banda sentiam uns pelos outros, apesar de tudo, porque em setembro de 2012, durante um concerto em Apucarana, no Paraná, aconteceu algo que os fãs que estiveram presentes nunca vão

esquecer. A meio do concerto, o chorão parou e começou a falar do champinhon na frente do público. Disse que o baixista deveria estar muito grato por ter sido aceito de volta depois de tudo o que tinha feito, que tinha coisas do passado que ainda pesavam. Foi tensionando a situação até que quando anunciou que iam tocar o preço, o champinhon deixou o palco. O espetáculo continuou sem ele.

A plateia gritava. As câmaras dos fãs captaram tudo e o vídeo tornou-se viral em horas. Foi um momento de humilhação pública, de enormes proporções. E as pessoas que conheciam bem o champinhon sabem que isso não foi algo que ele conseguiu superar facilmente, se é que algum dia superou por completo. Alguns dias depois, os dois gravaram um vídeo conjunto a pedir desculpa aos fãs.

O chorão admitiu que as coisas saíram do controle. O champinhon disse que entre eles estava tudo bem, mas quem estava na cena sabia que aquela era a versão pública, a que necessitavam para manter a banda e os contratos a funcionar. A ferida em privado era muito mais profunda do que qualquer vídeo de 2 minutos podia fechar.

E aqui, neste ponto exato da história, tudo começa a se acelerar em direção ao fim de uma forma que é impossível de parar. No final de 2012, aconteceram duas coisas quase ao mesmo tempo na vida do chorão e que em conjunto configuraram o cenário perfeito para o que viria depois. A primeira foi a descoberta de que não conseguiria realizar um dos seus sonhos mais particulares e mais reveladores.

Se tornar bombeiro. Pode parecer estranho para alguém na sua posição, para um ídolo do rock com os estádios cheios e milhões de discos vendidos. Mas o chorão era assim, cheio de contradições genuínas que faziam com que ninguém pudesse reduzi-lo a um único perfil. Este sonho, que se fechou em 2012, segundo o que a Graziela relatou mais tarde, afetou-o de uma forma que as pessoas próximas descreveram como devastadora.

Não era só a carreira de bombeiro, era o símbolo de algo que talvez nem ele próprio conseguisse articular por palavras. A possibilidade de ser útil de uma forma diferente e de ter uma identidade que não dependesse do microfone, nem da banda, nem da fama, que naquele momento já pesava mais do que ele podia admitir em qualquer entrevista pública.

A segunda foi a separação da Graziela, 15 anos juntos. A mulher que o conheceu antes de existir o chorão famoso, antes de existir sequer a banda. A que inspirou Proibida para mim e dezenas de outras letras. Aqui aguentou as recaídas, os tratamentos falhados, as paranóias, os meses em que desaparecia em hotéis de São Paulo para utilizar em privado, enquanto ela tentava manter algo que se chamasse normalidade.

Em novembro de 2012, ela tomou a decisão que não podia continuar a adiar. Foi viver com os pais. O chorão ficou sozinho e a solidão do chorão, sem a graziela era algo para o qual não estava preparado, algo que na sua estrutura emocional funcionava de uma forma completamente diferente de como funcionaria em qualquer outra pessoa.

Em dezembro de 2012, apenas algumas semanas após a separação, apareceu no caldeirão do Hul, o programa de Luciano Hul na Globo, e em direto admitiu que ainda amava a Graziela, que se sentia solteiro, que a música Céu Azul que tinham gravado recentemente estava inspirada nela, parecia frágil de uma forma que os seus fãs não estavam habituados a ver nele.

A armadura do rocker, do tipo duro, do que fazia o que queria, sem pedir licença a ninguém, mostrava fissuras visíveis pela primeira vez num espaço público. Nos meses seguintes, o chorão viveu entre hotéis do centro de São Paulo e o apartamento de Pinheiros na rua Moraz, aquele espaço que utilizava como refúgio quando queria ou precisava de estar completamente sozinho, longe de Santos, onde tinha vivido com a Graziela durante os últimos 10 anos, longe dos olhares dos todo mundo.

Os que o procuravam durante aquele período descrevem um homem que estava a desmoronar-se em câmara lenta, de forma quase imperceptível para quem via-o de vez em quando, mas brutalmente evidente para quem o conhecia de verdade. A cocaína, o álcool e os medicamentos controlados que tomava para ansiedade formavam uma combinação que o conduzia a estados alterados cada vez mais frequentes e mais extremos.

E nesses estados, a paranóia já não era episódica, era permanente. A convicção de que havia câmaras a filmá-lo, de que estava a ser vigiado e de que as pessoas à sua volta tinham intenções ocultas que não conseguia decifrar, mas que sentia como uma ameaça constante. Isso não é o comportamento de alguém que teve uma noite difícil, isto é psicose ativa.

Isto é uma mente que já não consegue distinguir de forma fiável o que é real do que constrói no próprio interior. Uma fonte próxima da família que falou com os media nos dias posteriores à sua morte descreveu-o com uma precisão que gela. Nos últimos meses, o chorão estava muito paranóico. Achava que havia uma câmara a filmá-lo o tempo todo.

Estava num estado em que talvez nem o internamento já ajudasse. O vício era uma bola de neve e os momentos de lucidez iam-se tornando cada vez mais raros e mais breves. Esse depoimento, mais do que qualquer outro, se capta a dimensão real do que estava a acontecer por detrás da imagem pública. Já não era apenas um vício que podia ser tratado com vontade e apoio.

Era uma psicose ativa, um estado mental em que a realidade e o delírio se tinham misturado até se tornarem indistinguíveis um do outro. A Graziela tentou, levou-o a tratamentos médicos que não duraram o suficiente porque ele acabava sempre por voltar ao consumo. Chegou a considerar seriamente interná-lo à força quando a situação saiu completamente do controlo.

Mas o chorão era um adulto com uma vontade de ferro para tudo, menos para largar a cocaína. E este paradoxo entre a força que projetava o mundo e a fraqueza que o destruía por dentro é um dos mais dolorosos de toda esta história. No fim, ela teve de escolher entre acompanhá-lo até ao fundo ou salvar-se.

E essa é uma das decisões mais cruéis que a convivência com alguém em vício ativo pode impor e ela tomou-a, segundo todos os os indícios, com uma enorme dor. Os Os membros do Charlie Brown Júnior também tentaram localizá-lo naqueles últimos dias. A banda procurava ativamente por ele. Havia espectáculos programados.

O próximo concerto era dia 22 de Março no Campo Grande do Rio. Havia compromissos contratuais, agendas cheias, expectativas dos fãs que tinham compraram bilhetes e esperavam ver o Charlie Brown Júnior com a sua formação reunida, mas o chorão não atendia. Desde o meio-dia de terça-feira, 5 de março, segundo SA que a investigação posterior estabeleceria, ninguém da banda conseguiu falar com ele.

O que as câmaras de segurança do edifício de Pinheiros registaram conta a história daqueles últimos dias com uma frieza documental impossível de ignorar. E no Domingo, dia 3 de março, às 18h17, o chorão chegou ao prédio com uma mala, vinha de um hotel do centro de São Paulo e tinha decidido voltar ao apartamento onde ficava sempre quando queria estar sozinho.

Na segunda-feira, dia 4, o seu segurança privada, Víor Vasconcelos chegou ao meio-dia. Saíram juntos naquela tarde. As câmaras mostram-nos voltando às 4:35 da madrugada do dia seguinte. minutos depois, voltaram a entrar no edifício, desta vez com a polícia. Lá lá dentro, o chorão já não podia ser ajudado.

Foi o seu motorista de confiança, Cléber, conhecido nos bastidores do envolvente da banda como tiozão, quem encontrou o corpo. A Polícia Militar recebeu o chamamento às 5:18 da madrugada para verificação de óbito natural num apartamento. O SAMU chegou e constatou que já não havia nada a fazer. Alexandre Magno Abrão tinha 42 anos.

Se faltavam exatamente 34 dias para completar 43. A cena que os agentes encontraram não era a de uma noite de festa que se descontrolou, era a de uma guerra travada em solitário. Um apartamento completamente destruído, o sofá tombado, marcas de sangue nas paredes, golpes que, segundo a investigação, o próprio chorão tinha dado em si mesmo no seu estado psicótico, lutando contra algo que ninguém do outro lado da porta conseguia ver nem nomear.

garrafas vazias de álcool, caixas de medicamentos atiradas pelo chão e o corpo de um homem que durante as suas últimas horas esteve sozinho, completamente sozinho, numa madrugada de quarta-feira que o Brasil inteiro se vai lembrar para sempre. O delegado franco foi claro desde as primeiras horas. Não havia indícios de intervenção de terceiros.

O homicídio foi descartado em poucas horas. Sei o que ficou foi a imagem mais devastadora possível. Um ídolo que se destruiu a si próprio sozinho em privado, sem que ninguém conseguisse chegar a tempo para evitar. E quando semanas depois chegou o relatório definitivo do IML, o número de 4.714 microgína por mil de sangue, confirmou o que todos já sabiam.

Mas o delegado acrescentou algo que não deveria nunca ser perdido de vista. O coração, os rins e o cérebro do chorão já apresentavam danos muito graves que eram anteriores à aquela noite. A droga foi o último golpe sobre um organismo que há anos recebia golpes que ninguém via de fora. A notícia agitou o Brasil de uma forma que poucas mortes de artistas tinham feito antes.

O seu velório no ginásio Arena Santos, aberto ao público, durou quase 24 horas. Mais de 5000 pessoas desfilaram para se despedirem. O Mano Brown, o Dexter, te sketista Sandro Dias, o ator Alexandre Frota, músicos do NX0 e dos Raimundos, gente comum que simplesmente cresceu com as suas músicas tocando ao fundo das tardes de adolescência.

A Câmara Municipal de Santos decretou três dias de luto oficial. A Câmara Municipal da Cidade teve uma sessão especial com um minuto de silêncio e com a presença do filho do chorão, Alexandre, que naquele momento tinha 23 anos e teve de se despedir em público de um pai que foi ao mesmo tempo ídolo de milhões e uma pessoa que carregou demasiado peso para estar de todo presente.

E no dia da sua morte, nesse mesmo 6 de março de 2013, entrou no ar Meu Novo Mundo, a última gravação com a a sua voz. Uma música que naquele contexto soa impossível profética. Num dos seus versos diz que não sabe como acaba, mas sabe como começa. Ah, o Brasil inteiro ouviu aquilo naquele dia e não soube exatamente o que fazer com esta dor, com esta coincidência que parecia precisa demasiado para ser apenas casualidade.

E algo que também não deveria nunca ser esquecido, algo que acrescenta uma dimensão ainda mais trágica a tudo o que aconteceu. 6 meses após a morte do chorão, no dia 9 de setembro de 2013, o champinhon foi encontrado morto em sua casa. Tudo indica que foi suicídio após uma discussão com a esposa. O baixista, que tinha sido o companheiro mais eterno do chorão, com quem tinha partilhado mais de 20 anos de música, lutas, reconciliações, noites de ensaio em bairros de Santos e estádios lotados por todo o Brasil, não sobreviveu muito tempo à perda do seu líder. O Charlie

Brown Júnior acabou de morrer nesse Setembro, duas figuras chave da mesma banda e as duas mortas no mesmo ano com apenas se meses de diferença. O Brasil ainda não terminou de processar esta dupla perda e talvez nunca a processe de todo. Agora inscreva-se se ainda não fez, porque o que vem neste canal é exatamente isso.

histórias completas, as que têm a parte incómoda, as que não são contadas nos especiais de televisão porque incomodam demasiado. Atores e cantores do Brasil de todos os tempos que viveram a sombra do sucesso e pagaram um preço que ninguém contou por inteiro. Dá já um like e ativa o sininho para não perder nenhum, porque há uma questão que flutua sempre quando se revê a história do chorão, com a distância do tempo que já passou.

Poderia ter sido evitado? Houve um momento, uma decisão diferente, um tratamento mais sustentado, uma rede de apoio real que poderia ter alterado o final? E a resposta honesta é que sim. Não no último minuto, não naquela madrugada de Pinheiros, quando já era tarde demais, mas sim anos antes, quando o vício tinha ainda períodos de trégoa, quando o chorão ainda tinha momentos de lucidez suficientes para compreender o que se aproximava.

O que falhou não foi apenas a sua vontade. O que falhou foi o sistema de proteção que deveria ter existido à sua volta e que na indústria do entretenimento brasileiro, quase nunca aparece quando é necessário mais, porque a ninguém convém que o artista pareu mais de 5 milhões de álbuns ao longo da carreira.

ganhou dois Gramy latinos, um em 2005 pelo álbum Tamo Aí na Aividade e outro em 2010 por Camisola 10 Joga Bola até na Chuva. E as suas músicas tocaram na abertura de Malhação da Globo durante anos. Apareceram em anúncios publicitários, em filmes, na banda sonora de toda uma geração de brasileiros. E enquanto tudo isso acontecia, enquanto os contratos eram assinados e os estádios enchiam-se e os prémios chegavam, o chorão ia-se desfazer-se por dentro como algo que ninguém queria olhar diretamente, porque ver aquilo implicava reconhecer que

havia um problema, que o negócio não podia dar-se ao luxo de parar. Será que ninguém à sua volta via o que estava a acontecer? Esta pergunta, sinceramente, gera-me uma raiva difícil de colocar em palavras sem soar simplista. A Graciela viu e esgotou as suas próprias reservas na tentativa de salvá-lo.

Os membros da banda viram cada um à sua maneira, com os seus próprios limites e os seus próprios interesses. Sônia Abrão, e a apresentadora de televisão e prima do chorão, disse nos dias posteriores à morte que estava muito deprimido e emocionalmente frágil, que a depressão tinha muito a ver com o fim da relação e com a sensação de não conseguir realizar os sonhos que ele próprio se havia imposto.

foi uma das primeiras pessoas públicas a reconhecer que por detrás do ídolo estava um homem sofrendo de uma forma que ia muito para além do vício, que a cocaína era o sintoma e o problema estava mais profundo. Pára um instante, pensa nisso. O homem que em lutar pelo que é meu cantava que é preciso lutar pelo que se quer, que em dias de glória prometia que os dias de glória vão chegar, que em proibida para mim colocava em palavras um amor tão intenso que se tornava quase insuportável de ouvir.

E esse mesmo homem passou as suas últimas semanas convicto de que estava a ser filmado sem que ninguém soubesse, brigando com fantasmas num apartamento destruído, com um corpo que já acusava anos de danos irreversível. A distância entre a imagem pública e a realidade privada era um abismo que ninguém quis ou conseguiu atravessar a tempo.

E há algo mais que o tempo permite ver com uma clareza que no calor do momento era impossível. O chorão foi o primeiro sintoma visível de uma doença que a indústria musical brasileira ainda não sabe como tratar com honestidade. O rock nacional dos anos 90 e 2000 produziu figuras de uma autenticidade e uma intensidade brutais. artistas que viviam no limite porque era exatamente isso que se lhes pedia, porque era isso que os tornava grandes, que enchia os estádios e vendia os discos.

E depois, quando o limite foi ultrapassado, quando o corpo e a mente começaram a cobrar a conta de tudo o que tinha custado chegar até ali, as mesmas estruturas que tinham beneficiado de levá-los até àquele ponto não tinham nenhuma resposta real para o que encontravam do outro lado. O chorão Skate Park, em Santos, a pista coberta que ele próprio ajudou a criar em 2006, continua a ser um espaço onde os jovens aprendem o desporto, que foi o seu primeiro amor, a primeira coisa na vida que o fez sentir que tinha algo completamente seu. Há uma rua em Franco

da Rocha que tem o seu nome completo, Alexandre Magno Abrão. O seu filho, também chamado Alexandre, teve de carregar o estranho e pesado legado de ter o nome de um ídolo que foi também seu pai. E numa relação que a vida de Rockstar e todos os seus custos tornaram complicada de formas que ninguém de fora tem o direito de simplificar.

As suas músicas, é É preciso dizer com toda a clareza do mundo, não envelheceram. É isso que separa os verdadeiros artistas dos produtos descartáveis, que o que criam continua a funcionar muito depois de já não estarem, continua a chegar a pessoas que nem sequer tinham nascido quando foi gravado. Só por uma noite, não vou te deixar. Vou levar-te.

Dias de glória, o couro vai comer. Céu azul. Cada uma destas músicas capta algo específico do que foi viver sendo jovem no Brasil nesses anos, do que foi crescer na periferia e querer algo mais. Amar com demasiada intensidade, lutar contra um sistema que empurrava sempre para baixo e continuam a ressoar porque essas realidades não desapareceram.

Ou o Brasil que inspirou o chorão, é em muitos aspectos ainda reconhecível no Brasil de hoje. O crítico musical André Barcinski definiu o chorão como o mais próximo que o rock brasileiro teve de um verdadeiro herói punk. Não no sentido da estética, mas no sentido mais profundo. Alguém que não conseguia ser outra coisa para além do que era, que não tinha a capacidade de colocar uma máscara e representar o papel que o negócio queria que representasse.

Foi exatamente isso que o tornou grande. E foi exatamente isso, essa impossibilidade de se separar do que sentia, de encontrar uma distância saudável entre ele e os seus demónios, de construir pelo menos uma fina muro de proteção entre o seu mundo interior e o mundo que o consumia de fora, que também o destruiu. A mesma fonte, a mesma coisa.

O que o tornou único, era indissociável do que o matou. Foi assim que terminou Alexandre Magno Abrão, o homem que entregou pastéis de porta a porta na Vila Rosa de São Paulo e que depois encheu o Maracanã com a sua voz, o que aprendeu a andar de skate chorando e que acabou por ser vice-campeão paulista, o que apanhou um microfone num bar de Santos sem ter planeado e que depois vendeu 5 milhões de álbuns com o que saía da sua garganta, o que amou a Graziela durante 15 anos de formas que às vezes eram músicas.

E às vezes eram paranóia e às vezes as duas coisas ao mesmo tempo, o que lutou com todos os que amava, porque não sabia amar sem controlo, nem controlar sem destruir. A sombra levou o homem, a lenda permaneceu. E esta diferença entre o que fica e o que se perde é exatamente o tipo de história que este canal existe para contar sem adossantes, sem romantizar a dor, nem celebrar a queda, mas simplesmente para que a verdade completa fique registada em algum lugar onde as pessoas que a queiram encontrar possam. E aqui surge algo que muito pouca

gente no Brasil liga-se diretamente com tudo o que aconteceu depois. Algo que está documentado, mas que os media trataram de uma forma superficial, porque tocava uma parte da história que incomodava demasiadas pessoas ao mesmo tempo. Nos anos que vão de 2005 a 2012, enquanto o chorão continuava a produzir música, fazendo espectáculos e mantendo a fachada de que tudo estava sob controlo, havia algo que se construía por baixo de tudo isto, que não era apenas a deterioração física e emocional de um homem confrontado com

o seu vício. era o isolamento progressivo de alguém que foi ficando sem as pessoas que realmente o conheciam uma a uma, ora por culpa dele, ora vezes pela dinâmica que a fama cria ao redor de quem a vive e por vezes simplesmente porque a vida de um dependente ativo acaba por ser tão imprevisível e tão desgastante que as as pessoas que o querem bem já não tm mais recursos para continuar perto.

Pensa no mapa da sua vida afetiva nesses anos. O Renato Pelado saiu da banda em 2005. E depois encontrou o seu caminho na fé na igreja Bola de Neve, longe daquele mundo de excessos que o próprio reconheceu que o tinha levado a consumir álcool, canábis, cocaína e calmantes durante os anos em que tocou com o chorão.

Em entrevistas posteriores, o nu falou das noites depois de tocar para 30.000 pessoas de chegar ao quarto de hotel e sentir um vazio que não tinha nome. Esse vazio que o nu descreve é ​​exactamente o mesmo que o chorão descrevia nas suas letras, com uma precisão que os fãs liam como poesia e que na realidade era um diagnóstico, não era uma metáfora, era uma fotografia interior do que lhe acontecia por dentro cada vez que as luzes do palco apagavam-se e ele ficava sozinho com o que era sem o microfone. O Marcão,

o guitarrista, regressou em 2011, mas também carregou feridas da ruptura de 2005, que nunca foram verbalizadas por completo em público. E o champinhon, o mais próximo, o que estava desde os 12 anos, o que conhecia o chorão antes de existir a fama e o dinheiro e toda a construção em redor, o champinhon também voltou, mas com uma dívida emocional acumulada que era demasiado grande para um vídeo de desculpas conjunto resolver.

O que teve lugar naquele palco de Apucarana em setembro de 2012, quando o chorão o humilhou diante de todos, fala de um homem que já não conseguia controlar o que dele saía, que a substância e os anos de ressentimento e a deterioração psicológica tinham quebrado o filtro que separa o que pensamos do que a gente diz em público.

E isto numa pessoa que sempre foi explosiva, que sempre tinha a pólvora perto, tornou-se algo imprevisível de formas que tornavam muito difícil estar perto dele para qualquer pessoa que não estivesse disposta a absorver o dano colateral. O que a Graziela descreveu no seu livro? Aquele pormenor de que o chorão saía de casa dizendo ao próprio irmão que ela o traía, quando na realidade o que procurava era pretexto para ir a um hotel usar cocaína, é um dos retratos mais exatos do que o vício severo faz com a arquitetura da mente de uma pessoa. Não

é mentira consciente, calculada, si cínica, é que a substância reordena a narrativa interna de quem a consome, constrói uma realidade alternativa na qual o dependente é sempre a vítima, sempre o que tem razão, sempre o que está rodeado de gente que não compreende ou que o trai. Esta narrativa funciona como uma armadura que protege o vício de qualquer intervenção externa.

E enquanto esta armadura estiver ativa, nenhum tratamento, nenhuma conversa, nenhuma internamento que o próprio afetado não decida por dentro vai funcionar de maneira sustentada. A pergunta que nunca teve resposta pública e que as pessoas que o rodeavam continuam a fazer é quanto do que o chorão sentia naqueles últimos meses era a paranóia induzida pela substância e quanto era uma intuição sombria, quase inconsciente de que o próprio corpo já não aguentava mais.

O O delegado Franco disse com a frieza clínica que o cargo exige: “Os órgãos do chorão estavam comprometidos de forma grave antes daquela madrugada”. Isto significa que a algum nível físico, no nível em que o corpo guarda a conta de tudo o que a mente prefere ignorar, Alexandre Magno Abrão já estava no limite desde bastante antes do dia 6 de março.

E a gente pergunta-se inevitavelmente se ele sabia, se em algum daqueles momentos de lucidez que iam tornando-se mais raros e mais breves, havia algo que lhe dizia que o tempo se tornara muito curto. A última música que gravou, Meu Novo Mundo, que entrou no ar no mesmo dia em que o seu corpo foi encontrado como se o universo tivesse orquestrado esta crueldade com propósito.

Há um verso que diz que não sabe como acaba, mas sabe como começa. Há quem neste verso queira ler uma despedida, há uma consciência de que o fim estava próximo. quem prefira vê-lo como coincidência, como a tragédia de que qualquer letra pode tornar-se profética se o contexto lhe der esse peso. A verdade é que ninguém pode saber com certeza, mas o que se pode dizer é que o meu novo mundo é obra de um homem que estava a pensar no início de algo, na possibilidade de um ponto de partida diferente e que este, nas circunstâncias em que vivia, tinha a mesma ambiguidade

que tinha toda a sua vida. A linha ténue entre querer começar de novo e não conseguir encontrar a saída. Há outro elemento daqueles últimos meses que merece ser nomeado com a seriedade que corresponde e que tem a ver com a indústria mais do que com o chorão como indivíduo. Nos dias posteriores à sua morte, toda a assessoria de imprensa da banda emitiu um comunicado dizendo que o seu estado de saúde era bom e que ele estava de férias, que tinha planos para viajar para os Estados Unidos nos próximos dias. Foi isso que se disse

publicamente, enquanto internamente todos o procuravam sem conseguir localizá-lo. O aparato de gestão de imagem funcionando com a sua própria lógica, mesmo no momento em que a situação já era crítica. Não dá para saber com exatidão o que cada pessoa naquele entorno sabia, nem até que ponto estavam conscientes da gravidade real.

Mas esta declaração pública de que estava tudo bem, emitida num momento em que claramente tudo não estava bem, diz algo sobre as dinâmicas que rodeiam os grandes artistas no Brasil e que raramente são discutidas em profundidade quando tudo termina e depois da morte. Houve um outro processo que também não deveria passar despercebido.

A empresa Promocon Eventos e Publicidade com sede no Paraná interpôs em 2015 uma ação judicial contra o filho do chorão, Alexandre, cobrando uma indemnização pelos nove concertos que o artista não chegou a cumprir antes de morrer. Nove espetáculos. O homem acabara de morrer e já tinha alguém contabilizando o custo económico da sua ausência.

Isto, mais do que qualquer outra coisa, resume a natureza da relação entre o sistema e o artista. Até ao fim e depois do fim, o que importava era a dívida contratual. O ser humano que estava por detrás do nome era assunto secundário. O rock brasileiro perdeu algo naquela madrugada que ainda não repôs por completo.

Não porque não tenham aparecido novos artistas com talento, que sim apareceram, mas porque o chorão representava uma articulação específica entre a raiva da periferia e a melodia acessível, entre a autenticidade total e o gancho popular, que é extremamente difícil de repetir quando acontece de forma genuína. O crítico que o definiu como o mais próximo que o rock brasileiro teve de um herói punk a sério não estava exagerando.

Os verdadeiros heróis punk não são os que vestem bem a imagem, são os que não conseguem fazer outra coisa para além do que são. E o chorão, com tudo o que isso lhe custou, foi exatamente isso até ao último dia. os fãs da geração que o viveram em tempo real, os que compraram transpiração contínua prolongada em 1997, quando ainda não tinham muito claro porque aquela música chegava daquela maneira, hoje tem 40, há 50 anos e ainda ouvem estas músicas com algo no peito que não é apenas nostalgia, é reconhecimento.

A sensação de que alguém captou algo real do que foi viver naquele Brasil, do que foi querer algo mais do que o C e P atribuía. do que foi amar de forma demasiado intensa e brigar de forma demasiado direta e não saber exatamente como moderar nenhuma das duas coisas. Isto não desaparece só porque quem criou já não está.

Isso permanece porque era verdade quando foi escrito e a verdade não tem prazo de validade. E há jovens de 20 anos que descobrem o Charlie Brown Júnior hoje que encontram proibida para mim ou dias de glória em algum algoritmo ou por indicação dos pais e que sentem exatamente o mesmo que sentiram aqueles que as ouviram pela primeira vez na rádio do Brasil dos anos 2000.

E porque o que o chorão pôs naquelas letras não estava preso a uma época específica. estava preso a uma condição humana que não se altera, a de querer mais, a de amar com demasiada força, a de vir de baixo e lutar com tudo o que se tem para chegar a algum lugar que valha a pena. Isso é universal. Isso transcende o ano em que foi gravado e o bairro onde nasceu quem escreveu.

Alexandre Magno Abrão entregou tudo o que tinha, até o que não devia ter entregado, até a saúde, a lucidez, os anos que lhe faltavam. E o Brasil que recebeu tudo isso, deveria conseguir olhá-lo de frente, sem romantizar a tragédia, mas sem a reduzir também à narrativa simplista do artista, que viveu demasiado depressa e pagou o preço óbvio.

Foi muito mais complicado do que isso, foi muito mais humano do que isso. E e era evitável de formas que o sistema que o sustentou e que se beneficiou dele durante 20 anos, preferiu não ver até que já não não havia mais nada a ver. Se chegou até ao final deste vídeo, já sabe que tem muito mais histórias como esta esperando.

Atores, cantores e apresentadores do Brasil de todas as épocas que viveram a sombra do sucesso e pagaram um preço que ninguém contou por inteiro. Dá um like se isto te mexeu por dentro. Subscreve o canal Lendas na Sombra e ativa o sininho, porque tem dezenas de investigações sobre figuras do entretenimento brasileiro que lhe não vai encontrar documentadas assim em nenhum outro lugar.

As verdades que a indústria preferia esconder, os segredos de quem fez história, tudo aqui.

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