Dona Marta: Como uma IDOSA de 70 ANOS 3LIM1N0U 15 MEMBROS do P.C.C na BAHIA

Dona Marta: Como uma IDOSA de 70 ANOS 3LIM1N0U 15 MEMBROS do P.C.C na BAHIA

Nome: Marta de Jesus Santana, natural de Santo Amaro, Baía. Viúva desde os 49 anos, vivia sozinha em Períperi, subúrbio de Salvador. Tocava uma mercearia simples, deixada pelo marido, e criava o neto Ítalo Santana, de 17 anos, como se fosse seu filho. Em janeiro de 2013, Ítalo foi morto a tiros.

 O recado foi dado diretamente da maior facção criminosa do Brasil, que expandia o controlo pelo estado. Dona Marta enterrou o neto. No dia seguinte, fechou a mercearia. No terceiro dia, desenterrou uma caixa de ferro que guardava desde os anos 70, quando atuou no exército brasileiro durante a ditadura. O que veio depois? Ninguém esperava.

 Em 6 meses, 15 elementos da facção foram eliminados sem testemunhas, sem rasto. A partir daí, nascia a lenda da velha justiceira de Períperi, a mulher que eliminou 15 membros da maior organização criminosa do Brasil. Antes de continuarmos, deixe nos comentários de onde está a falar e que horas são aí. E se quiser ter acesso a vídeos exclusivos e sem censura dos maiores processos criminais do Brasil, considere tornar-se membro e não se esqueça de clicar no gosto.

 A Dona Marta sempre acordava antes do sol. Era quando o silêncio ainda reinava na encosta da liberdade e os pardais cantavam mais alto que as sirenes. Colocava a chaleira ao lume, passava café no coador de pano, ligava a vitrola velha e ouvia o mesmo disco. Nelson Gonçalve. A mercearia era do tamanho de uma sala. Prateleiras tortas, cheiro a sabão em pedra e feijão empacotado.

 Quem ali passava comprava fiado e pagava quando podia. A Dona Marta sabia quem era trabalhador, quem era olheiro, quem vinha só para sondar, mas tratava todos por igual, com um bom dia que não precisava de resposta. Era assim todos os dias, até que Itítalo começou a mudar. Avó, vou ali resolver um negócio. Já volto.

 Negócio do que, menino? Tem 17 anos e ainda não terminou nem o ensino secundário. Relaxa, avó. Estou a ver uns trampos aí. Ela não insistia, só olhava para os olhos dele e via aquilo que nenhuma mãe quer ver. O medo disfarçado de coragem. Ítalo já não comia em casa, dormia fora. Chegava com cordão no pescoço, ténis caros, olho vermelho.

 Um dia deixou cair uma pistola dentro da mochila. Ela fingiu que não viu, mas aquele peso ela nunca mais esqueceu. A comunidade comentava: “Italo está no corre. Virou vapor para o cara do miolo, mas é sangue bom, criado pela dona Marta. Ela ouvia tudo calada. Só aumentava o volume do rádio e seguia empacotando arroz até àquela madrugada.

3 da manhã, a vizinha bate à porta, a voz trémula. Dona Marta, acorda é o Ítalo. Ela não perguntou, apenas pegou no chinelo, o documento e o terço. Foi até o local, um barranco atrás da escola abandonada. Tinha uma viatura, tinha curioso, tinha fita amarela. O corpo estava jogado como se não fosse nada.

 Uma camisola do Bahia rasgada, sangue na testa e um pedaço de papel amarrotado no bolso. Quem vacila dorme cedo. O delegado quis perguntar, mas o olhar dela não deixou. Ela apenas abanou a cabeça, confirmou que era ele e voltou a pé para casa sozinha. No funeral não saiu uma lágrima, nem quando lançaram a última pá de terra, nem quando gritaram força, dona Marta! Ela só segurava o terço e olhava para o nada.

 No outro dia, a mercearia não abriu. No outro também não. No terceiro dia, ninguém viu a dona Marta sair. Mas à noite viram uma luz acesa nos fundos e ouviram um som abafado de madeira a ser arrastada. Quem ouviu disse que parecia uma cadeira pesada, mas era mais do que isso. Ela estava no quintal, agachada, cabelo preso, suando debaixo da lua cheia e cavando.

 Cavou até encontrar o que ninguém ali sabia que existia. Uma caixa de ferro enferrujada envolta num plástico grosso com fitas militares. Quando abriu, um cheiro forte a passado explodiu no ar. No interior, uma pistola 9 mm enrolado num pano, um caderno preto com anotações em código, uma carteira de identidade falsa com outro nome, Maria das Graças Souza, e uma foto antiga, dela própria, de farda, ao lado de homens armados com a sigla Doy Cod rabiscada atrás.

 Ela ficou a olhar para aquela foto durante longos minutos, depois pegou na pistola, verificou o carregador, engatilhou com naturalidade, como se tivesse feito isso ontem. Sentou-se numa cadeira de ferro, acendeu um cigarro, o primeiro em 20 anos, e olhou para o céu. Eras tudo o que eu tinha, meu filho. Uma lágrima escorreu. Só uma.

 Agora eles vão saber quem sou eu. E na madrugada seguinte, um dos líderes locais do tráfego, conhecido por neguinho da rifa, foi encontrado com dois tiros certeiros no peito, sem máquina fotográfica, sem testemunha e com um bilhete no bolso escrito à mão em caligrafia trémula por cada mãe que enterrou um filho.

 Agora, me empresta a dor. O corpo de neguinho da rifa foi encontrado numa travessa sem câmaras entre a quadra e o ponto final do autocarro. Dois tiros limpos, sem luta, sem sinal de fuga. A polícia chegou depois de um apanhador de latas ter encontrado estranho o vulto no chão. Quando a sirene subiu o monte, ninguém quis olhar pela janela. Era mais um na estatística.

Diziam, mais um envolvido, mais um que, no fundo, merecia. Mas o que ninguém conseguia explicar era o bilhete. Por cada mãe que enterrou um filho, agora me empresta a dor. A frase correu como pólvora na quebrada. Primeiro no sussurro dos becos, depois nas mensagens de Zap, nos áudios nervosos. Diz que foi a milícia, diz que foi vingança, diz que há uma mulher a fazer justiça.

 Dona A Marta nesse dia abriu a mercearia às 6 da manhã. Mesma blusa florida, avental limpo, rádio ligado em baixo volume. Serviu dois pães com manteiga à dona Juraci, separou um pacote de farinha de milho pro seu Joaquim e até sorriu levemente para miudagem que passou com uniforme de escola, como se nada tivesse acontecido.

E para todos não tinha mesmo. Só que a facção sabia que sim. neguinho da rifa fazia parte da contenção da área. Era quem organizava o corre e cobrava a renda das casas que libertavam. Para alguém o tirar assim, precisava de precisão, frieza e muito, muito sangue no olho. O responsável da área, conhecido como Darlan, ficou inquieto, subiu o tom no grupo de mensagem, chamou reforço, mandou parar o corre durante dois dias, procurou câmaras, testemunhas, qualquer coisa, nada.

 E foi aí que o medo começou a mudar de lado. Enquanto isso, a dona A Marta lia o jornal na varanda sem pressa. Um café preto na mão, um terço no bolso. Ela marcava no caderno antigo a data, a hora e a distância do disparo. Tudo com letra pequena organizada. Do lado da anotação, o nome riscado. Primeiro, João Carlos, Neguinho da Rifa, 23 e 47.

 Viela da quadra, 6 m, dois tiros. Restavam 14 nomes, todos ligados de alguma forma ao que fizeram com Ítalo. Os que bateram, os que julgaram, os que executaram, os que consentiram. Uns mandaram, outros só assistiram. Mas todos, na cabeça dela eram culpados. Ela não era justiceira, não era heroína, era apenas uma mulher com o coração queimado e o passado acordado.

Dois dias depois, o segundo caiu. Dé, um dos vapores da zona, conhecido por ser boca suja e rufia, apareceu morto dentro de casa. Porta trancada por no interior, sem arrombamento, uma única marca, um corte limpo no pescoço e o mesmo bilhete. A perícia ficou confusa, a comunidade em silêncio, mas os criminosos começaram a tremer.

 Darlan já não dormia. Chamou um pastor da facção de fora para dar um salve na área. Eles queriam explicação e ninguém tinha, porque o medo vinha de onde ninguém imaginava. A Dona Marta caminhava agora até à feira com mais calma, observava tudo, ouvia tudo. Ninguém desconfiava daquela velhinha de passos lentos e olhar cansado, mas ela via tudo e anotava.

 No final da semana, ela assistiu a um vídeo do Neto, salvo numa memória antiga do telemóvel. Ele dançava a rir, de chinelos e sem camisa. Na parede, o mesmo poster de Bobby Marley, que ainda estava no quarto. Ela passou o dedo no ecrã como quem acarcia uma lembrança. Eras bom, meu filho. Só caiu no eléctrico errado.

 Apagou o vídeo, guardou o telemóvel, pegou no caderno e riscou mais um nome. Segundo Anderson Dell Lima 0212, rua do Fundão, faca, corte limpo, quarto trancado. Estavam 13.No fim da tarde, os olheiros passaram a rondar a rua dela. Três motorizadas, duas bicicletas, um carro parado na esquina, mas ela fez o café de sempre, abriu o portão, acenou com a cabeça e voltou para dentro.

 A campainha tocou às 21:12. Três toques secos. Dona A Marta reconheceu o padrão. Era o tipo de toque que os olheiros da área usavam para não assustar os moradores. Educado, mas invasivo. Ela desligou o rádio, limpou as mãos ao pano do avental e foi até à porta. Boa noite, avó. Posso usar o wc rapidinho? Ando na rua desde cedo.

 Era Leléu, 19 anos, vapor antigo do grupo de Darlan. Um dos que, segundo o que ela tinha descoberto, ajudou a emboscar Ítalo. Era ele que tinha atraiu o menino paraa armadilha com a promessa de trampo leve e lucro certo. Ela abriu a porta com um sorriso tímido. Pode sim, meu filho. Segunda a porta à esquerda.

 Ele entrou, olhou rapidamente o ambiente, como quem mapeia. Ela percebeu. Estava desarmado. Camisola larga, calções de ganga, ténis de grife, na cintura apenas um telemóvel. Enquanto ele estava na casa de banho, ela puxou uma sacola de pão e colocou-o sobre o balcão, dentro uma seringa com sedativo, resquício dos tempos antigos, adaptada com o calmante veterinário que ela guardava com cuidado.

 Misturou num copo de sumo de caju já estava gelado à porta da frigorífico. Quando saiu, secando o rosto com papel higiénico, ela já tinha o copo na mão. Está calor hoje, certo? Toma um sumo antes de ir. Leléu hesitou, mas aceitou. Bebeu em dois goles. Valeu, vó. A senhora é mesmo diferentona, viu? Deu um passo, dois e depois as pernas falharam.

 Ela pegou nele antes de cair no chão. Sem ruído, com precisão. Acordou amarrado, deitado sobre o chão de cimento frio do porão. Um espaço que ela utilizava para guardar entulho, mas que servia agora para algo mais prático. Estava escuro, mas uma única lâmpada pendurada iluminava-lhe o rosto. Que porra é esta? Quem és tu, desgraça? Ela apareceu lentamente da penumbra, sem pressa, sem presságios.

 Leléu Anderson Silva, nascido em 1994, morador do beco da pólvora, mãe falecido, pai desconhecido, três passagens por receptação, uma por tráfico, ainda nenhuma condenação. Quem és tu, caralho? Sou a avó do menino que vocês atiraram-no para o mato como bicho. O nome dele era Itítalo. Ele engasgou-se, tentou mexer, mas as cordas eram firmes.

 A respiração ficou curta. Eu eu só levei ele lá. Não fui eu que Tu o atraíste. Fez parecer que era apenas mais um corre, mas sabia do recado, sabia do destino. Ela mostrou a foto de Ítalo criança com uns 6 anos a sorrir em cima de uma bicicleta, a mesma que ela vendeu a pagar o medicamento do pulmão dele.

 Você acha que o que lhe fizeram foi justo? Silêncio. Responde, miúdo. Não, vó. Foi errado. Foi demasiado pesado. Ela aproximou-se. A respiração dele acelerou. Eu vou dar-te uma escolha. Vai dizer-me os nomes, os horários, as rotas, tudo e depois deixo-te dormir para sempre. Ele chorou, tentou negociar, tentou gritar, mas ela já tinha começado a gravar.

 Naquela madrugada, um terceiro corpo apareceu boiando no rio do cobre, rosto desfigurado, sem impressões digitais, mas no bolso um bilhete ensopado, ainda legível. Três filhos das ruas para uma avó de luto. Ainda faltam 12. A polícia estava cada vez mais confusa. A imprensa, por enquanto, nem sequer tocava no assunto.

 E na facção, o clima era de paranóia. Darlan explodiu numa reunião com o grupo. Isso não é polícia, não é milícia. Tem alguém entre nós a fazê-lo. Mas ninguém suspeitava da senhora que naquela manhã vendeu 2 kg de açúcar e um sabão em barra para o mesmo polícia que investigava os crimes.

 Na semana seguinte, ela foi até ao centro da cidade, comprou três cartões. Sim. pré-pagos, um kit de primeiro socorro e um vidro de éter. Regressou a casa antes do escurecer, lavou as mãos, rezou e puxou o caderno. Terceiro, Leandro Leléu Silva 21:30. Suco sedado, interrogatório, destino: Rio do cobre. Deu dois riscos e desenhou uma cruz.

 Ainda restavam 12, mas os os olhos dela agora ardiam com outra coisa além de dor. Foco. As primeiras lendas começaram a circular na terceira semana. E como toda a boa história de quebrada, ninguém sabia onde começava, só sabiam o que estava a acontecer. Tão a dizer que há uma velha a fazer justiça com as próprias mãos.

 Dizem que ela nem sequer existe, que é um polícia reformado. Eu ouvi que é uma mãe que perdeu o filho e agora está a limpar a área. A Dona Marta escutava tudo em silêncio atrás do balcão, separando os ovos em tabuleiros, com o rádio tocando baixo e um leve sorriso no canto da boca. Ela era a história, só não era personagem de ninguém.

 Naquela manhã, algo curioso aconteceu. Um dos cabeças da contenção, marquinhos do Areal, apareceu na mercearia de boné baixo, camisa polo, cordão grosso ao pescoço, entrou calado, deu uma volta, olhando os produtos, e parou à sua frente. Bom dia, avó. Bom dia, meu filho. Tem cigarro do branco? Ela pegou no maço, colocou sobre o balcão, sem demonstrar nada.

 Ele pagou em dinheiro, algo invulgar para quem andava apenas com maços de nota. Antes de sair, olhou para ela por mais um segundo do que devia. A senhora ouviu o que tão a dizer por aí dessa tal mão invisível que está derrubando os gajos? Ela limpou o balcão com um pano seco, sem olhar para ele. Quem faz o mal, uma hora paga, mas quem faz calado nem sempre aparece no jornal.

Marquinhos sorriu de canto de boca, mas não foi um sorriso tranquilo, foi aquele espécie de sorriso que esconde o medo. Fé em Deus, avó. Fé em Deus, meu filho. Ele saiu, mas deixou para trás algo mais pesado que a compra. A sensação de que pela primeira vez o jogo estava a virar. Nessa noite, a dona Marta acendeu a luz do fundo da casa, desceu até à cave, pegou no caderno, na arma e numa caixa pequena com dois pregos, uma serra e uma seringa.

 Ela sabia que o Marquinhos era mais do que fachada. Era ele que dava as ordens nos becos do areal. Era ele quem comprava silêncio e lavava dinheiro com loja de peças. E era ele que se ria quando o Ítalo foi tirado da quebrada. Ela não se ia apressar. O nome dele estava em nono lugar na lista, mas tinha outro antes. Robson Feijão Santos, ex-companheiro de Ítalo no corre, mas tornou-se o dedo duro quando a corda apertou.

 Foi ele quem entregou o nome do neto numa reunião com Darlan numa laje onde decidiram quem ia apagar o vacilão. O feijão agora andava na maciota com medo. Só saía de moto. Trocava de número toda a semana. Dormia cada noite numa laje diferente. Mas a dona Marta tinha tempo e olhos.

 Foi numa segunda-feira chuvosa que ela pegou nele. Esperou no beco atrás do açougrindo tudo menos os olhos. O som da água escondia os passos. O trovão abafou o silenciador. Dois tiros, um na perna, um no peito. Ela aproximou-se, agachou-se e sussurrou: “Entregaste o meu neto por R$ 500. Agora vale quanto feijão?” Ele ainda respirava.

 Tentou falar, mas ela já tinha colocado o bilhete no bolso dele. Saiu antes do sangue encontrar a calçada e regressou a casa antes do jornal da noite. Na manhã seguinte, o mercearia estava aberta às 6. Vendia pão, café, banana. Um polícia militar passou, comprou um pacote de rebuçados para o filho. Conversaram sobre o jogo do Baía.

 Ela sorriu à tarde, foi na farmácia, comprou medicamentos para a pressão, passou no mercado, levou salsicha e farinha. Parecia tudo igual, mas no fundo da casa o caderno tinha agora mais um risco. Quarto, Robson Feijão Santos. 15, Beco do talho. Dois tiros, chuva como cortina. Ainda ram. E no grupo interno da facção, Darlan enviou um áudio seco que correu os telemóveis dos envolvidos.

 Alguém está a brincar com a a nossa estrutura e vamos descobrir quem, nem que tenha de deitar fogo à partida inteira. A Dona Marta ouviu este áudio por um número de zap clonado enquanto comia cuscus com manteiga e anotava a lista de compras da semana. O inferno começava a aquecer, mas ela já viveu no inferno antes. Periperi nunca foi um local calmo, mas depois do quarto corpo, o silêncio ganhou outro tom.

 Era o tipo de silêncio que pesa no peito, que faz os cães ladrar à toa, que faz as crianças dormirem com as luzes acesas. A fação travou. Suspenderam reuniões, adiaram decisões, alteraram os pontos de venda de lugar. Tudo por medo do invisível. Darlan, agora mais paranóico que nunca, começou a interrogar os próprios soldados.

 Quem falava demais desaparecia. Quem se calava era vigiado. Os patrões queriam culpado, um rosto, um nome, mas ninguém sabia por por onde começar, porque o inimigo deles usava saia, chinelos e bengala e servia café. A Dona Marta sabia que o tempo era a sua melhor arma. Ela acordava cedo como sempre, mas agora cada caminhada até ao feira era mapeada, cada conversa analisada, cada olhar estudado.

 Ela se aproximou-se de Thiago do Gás, o número cinco da lista, ex-colega de mercearia do marido, que se tornou informante da facção quando os bandidos começaram a estorquir o comércio local. Era ele quem passava, quem pagava, quem devia, quem falava demais. E foi ele quem indicou a mercearia como ponto fraco.

 Depois disso, Italo passou a ser pressionado e quando recusou, o resto da história foi escrita com sangue. A Dona Marta não quis matá-lo de forma direta, quis deixá-lo sentir o medo que o neto sentiu. Passou a deixar bilhetes anónimos na caixa de correio dele. Frases simples, mas certeiras.

 Sabe quem indicou o ponto? Você. Eles sabiam da sua boca. A culpa tem NIF. Thago começou a perder-se. Dormia mal, bebia demais. Deixou de ir na igreja, desistiu de trabalhar. Numa semana começou a delirar, achando que era a própria facção a tentar eliminá-lo por traição. Até que, numa tarde abafada, atirou-se da laje onde morava, deixando um áudio a chorar, confessando tudo. O caso foi dado como suicídio.

 A quebrada comentou durante uma semana. A facção preferiu esquecer, mas a dona Marta soube. A guerra também se ganha sem pólvora. Quinto. Tiago do gás. 17:40. Indução psicológica. Bilhetes, queda da laje. Faltavam 10. Entretanto, Marquinhos do Areal, aquele que comprou cigarro e meteu conversa, voltou a rondar a mercearia.

 Agora mais direto, mais frequente. A senhora está bem, avó? Por que não estaria? Só perguntando. Sei lá. A senhora parece mais viva ultimamente. Ela riu com ironia disfarçada de doçura. A morte é que me fez acordar. Marquinhos ficou em silêncio, mas os olhos diziam tudo. Desconfiava. Não sabia porquê, mas sentia algo.

 E esse algo começou a tornar-se plano. Nessa madrugada, dois homens invadiram o quintal da casa dela. Saltaram o muro, foram até à janela da cozinha e tentaram forçar a entrada, mas encontraram pregos virados para cima no batente, armadilha de corda no corredor e a ponta de uma faca encostada ao jugular de um deles antes de conseguir pisar o chão. Ela ainda não os matou.

amarrou os dois, tirou fotografias, pegou nas digitais com fita adesiva e libertou-os com os olhos vendados. Depois de sussurrar uma única frase: “Se voltarem aqui, não vou mostrar só as fotos, vou mostrar o que fiz com os 15”. Saíram a correr, tropeçando no próprio medo. No outro dia, a casa dela foi deixada em paz.

 Na favela, o boato tornou-se temor real. A tal velha da justiça já era falada como entidade. Uns diziam que era polícia aposentada, outros que era mãe de Santo Compacto, mas ninguém conhecia o rosto e os que sabiam não falavam mais. Enquanto isso, Darlan recebia uma visita do exterior, um homem que vestia fato escuro, relógio caro e sotaque de São Paulo.

 Ele não deu nome, apenas mostrou números, 15 mortes e uma ordem: descobrir e apagar. Na mesma noite, a dona Marta preparou uma sopa simples, comeu sozinha, lavou a loiça e foi até ao fundo da casa, onde o seu caderno esperava aberto. Ela escreveu com calma: “Cinco já dormem, 10 ainda respiram, mas o ar deles vai acabar.” fechou o caderno, apagou a luz e antes de dormir rezou uma Avé Maria com os olhos fechados e a mão firme sobre o cabo da pistola.

 A maioria das pessoas anota nome de cliente, conta de água, lista de feira. A Dona Marta anotava outra coisa. No fundo falso do armário velho do quarto, o mesmo que rangia quando o neto brincava às escondidas, ela guardava um caderno preto de capa dura. Era antigo, cheio de páginas amareladas, com cheiro a tempo.

 Ali dentro estavam os nomes, 15, escritos com letra pequena, sem firula, cada um acompanhado de dados que não constavam em qualquer boletim de ocorrência. Apelido, função no esquema, o envolvimento com a morte de Ítalo, rotina diária, pontos fracos. Era um dossier feito por alguém que sabia o que estava a fazer.

 Porque a dona Marta podia ter 73 anos, mas não se esqueceu de nada do que aprendeu quando viveu como Maria das Graças Souza, infiltrada da repressão, treinada para observar, se infiltrar, eliminar. Ela passava os dias recolhendo informações que mais ninguém percebia. Escutava o que diziam na feira, ouvia áudio com o volume no mínimo.

Observava reações, horários, trocas de turno. E a cada movimento confirmado riscava uma linha no papel. Restavam 10 nomes e entre eles três eram fundamentais. Marquinhos do Areal, o cabeça da contenção, já desconfiado, cada vez mais próximo da verdade. Darlan, o gestor local, articulador do tribunal do crime que decretou a execução do neto, o pastor Danilo, um dos mais perigosos, enviado de fora para resolver o problema silencioso que abalava a facção.

 Estes três estavam marcados, mas precisavam de ser os últimos. precisavam ver o seu castelo ruir antes da queda. Na quebrada, o medo tornou-se regra. Pessoas passaram a evitar sair à noite. Crianças já não jogavam à bola na rua. Os cultos, os pagodes e até os bailes diminuíram. A velha do bilhete era agora mais temida que a própria polícia.

 Enquanto isso, um polícia aposentado, Majoraldo, começou a ligar os pontos. Ele via os relatórios, as balísticas, as cenas e via algo que já ninguém via. Padrão. Foi ele quem décadas atrás participou na operação que deu por morta a tal Maria das Graças Sousa. Lembrava-se do estilo dela, dos métodos, dos olhos frios.

 Quando leu o nome do terceiro executado, Leléu bateu a suspeita. Alguém voltou dos mortos. O major decidiu ir ter com Peri, parou na porta da mercearia, viu a dona Marta de longe, esperou que ela ficasse sozinha e entrou. Ela reconheceu-o antes mesmo do sino da porta bater. Quanto tempo, major? Maria, ou melhor, Marta.

 O nome depende da época, não é? Ficaram em silêncio durante alguns segundos. Ele tirou o boné, mostrou a careca já envelhecida, os olhos vermelhos. Achei que tinha ido para o outro lado. Fui, mas voltei a enterrar quem merece. É você, então? Ela não respondeu, apenas ofereceu um café. Isso que está a fazer tem um preço.

 Já paguei com a vida do meu neto e quando acabar aí descanso de verdade. O major ficou calado, bebeu o café, olhou nos olhos dela e depois fez algo inesperado. Tirou uma pen drive do bolso. Aqui tem os áudios do tribunal do crime que julgou o Ítalo. Consegue ouvir a voz de todos eles, incluindo o desgraçado do Darlan.

 Isto nunca pode chegar à mão da corregedoria, mas pode ajudá-lo. Por que me está a ajudar? Porque há gente que o sistema não pune e sempre soube o que fazer com este tipo. Ela pegou no pen drive, guardou-o no soutien, sorriu. Obrigada, Aldo. Saiu sem olhar para trás e não voltou mais. Naquela noite ela ouviu cada áudio, um a um. Vozes de homens a rir, a troçar, decidindo quem vive e quem morre como se fosse um jogo.

 Ítalo vacilou, escondeu dinheiro do corre. Tem de tombar. tombar mesmo, senão perde o respeito. Ela ouviu tudo em silêncio. Depois escreveu: Sexto. Thiago cabeça, Z0 Bel 37. Áudio confirmado junto da laje azul. Restavam nove. Na manhã seguinte, Marquinhos do Areal passou de novo na porta da mercearia. Desta vez não comprou nada, apenas olhou.

 A senhora é resistente, hein? Quem já foi mulher de a guerra não morre facilmente, meu filho. Ele travou, mas não respondeu. E nesse olhar ela soube. Ele estava a chegar perto demais. A partir desse dia, o olhar de Marquinhos já não era de curiosidade, era de caça. Ele tinha visto algo, talvez no discurso dela, talvez na forma como ela segurou a chávena, talvez no silêncio que não combinava com uma senhora de bairro. Ele começou a perguntar por aí.

Primeiro ao de leve, depois com mais sede. Essa velia aí sempre foi assim calada. Tem um parente fora da cidade e o neto dela estava envolvido com quem? Mas ninguém tinha resposta que bastasse, porque a dona Marta era o tipo de presença que o tempo engole sem se aperceber. Ela era constante demasiado para ser notada, demasiado invisível para ser lembrada até agora.

 Na mesma semana, Marquinhos começou a rondar a casa dela à noite. Passava devagar de moto, parava na esquina, acendia cigarro, observava. Ela via tudo pela fresta da cortina e esperava. Na sexta-feira voltou, mas desta vez entrou. Bateu à porta 19 horonto. Ela atendeu. Boa noite, avó. Boa noite. Posso entrar? Tenho uma dor aqui na perna.

Acho que puxei no treino. Ela sabia que era teste, mas abriu na mesma. Ele entrou lentamente, olhando o ambiente com calma. Os quadros na parede, as prateleiras de arroz, a cadeira de balanço. Tudo comum, tudo simples. A senhora vive sozinha? Desde que o meu neto se foi. Sim, peço desculpa. Não sente, não. Quem sente não participa.

 Ele engasgou-se no próprio fôlego. O sorriso desapareceu. Como assim? Ela pegou num copo de água, entregou. Os olhos dele vasculharam a cozinha. Tô perguntando por há coisa estranha a acontecer, né? Os gajos a morrer, sumindo. A senhora deve ouvir aqui alguma coisa, não é? Ela se aproximou-se devagar e respondeu com a voz baixa: “Quem ouve demais costuma ser o próximo a não ouvir mais nada.

O Marquinhos riu-se, mas foi aquele riso torto, forçado. Terminou o copo, agradeceu, saiu, mas à saída bateu os olhos no braço dela, que ao mexer o avental deixou à mostra uma tatuagem desbotada com três números e uma sigla 031 MGS. Ele gelou por um segundo. Sabia que já tinha visto aquilo. Mas onde? Na noite seguinte, voltou com um dos soldados de moto, máscara no rosto. Decidiram entrar pelos fundos.

A Dona Marta já sabia. Preparou tudo: estilete, corda, clorofórmio e uma máscara preta com a cruz vermelha. Resquício dos tempos de operação. Quando saltaram o muro, foram recebidos com um golpe seco de pau de madeira. Um desmaiou, o outro tentou reagir, mas foi contido com uma chave de braço e adormeceu com o pano encharcado.

 Acordaram amarrados, lado a lado, na cave escura. A luz pendurada balançava. O ventilador antigo fazia um som agudo. No canto, ela sentada com a máscara na cara, a bengala apoiada ao lado e um gravador em cima da mesa. “Quem vos mandou? Vai tomar no O som do estilete” interrompeu a resposta.

 Segunda oportunidade, quem mandou foi o Marquinhos. Ele disse que a senhora era estranha, que talvez tivesse a ver com as mortes. E agora? O que você acha? Silêncio. Ela anotou tudo, pegou as impressões digitais, fotografou o rosto e soltou os dois vendados com a mesma frase de sempre: “Diz ao teu patrão que a próxima vez não há aviso.

” No dia seguinte, um vídeo vazou em grupos de WhatsApp da quebrada. Dois soldados da facção largados na berma da pista, com as mãos atadas e bilhetes colados no peito. Quem espia morre antes de ver o final. A tensão explodiu. Darlan ficou furioso, mandou fechar a quebrada, subir homens armados, interrogar os moradores.

Mas a dona Marta continuava lá atrás do balcão, servindo pão com mortadela para um menino de 8 anos, a separar leite condensado para uma vizinha e no bolso o caderno preto. Sétimo, Miguel Caveirinha, tentativa de invasão. Neutralizado, libertado. Oitavo, Paulo Mandela. Iden, faltavam sete. Naquela noite, o Marquinhos não passou sequer no dia seguinte, mas o seu nome foi sublinhado no caderno três vezes, porque agora ele sabia demais e em breve saberia o suficiente para morrer.

 Chovia intensamente em Salvador. A água batia nos telhados com raiva, lavando as ruas da liberdade como se quisesse apagar os vestígios de algo. Mas havia coisa que nem o tempo, nem a chuva conseguem lavar. Dona Marta acendeu uma vela em frente à foto do neto. A cada relâmpago, o seu rosto parecia piscar.

 Ela segurava o terço com força, mas não rezava, apenas se lembrava. Lembrava-se da outra vida, de quando se chamava Maria das Graças Souza, de quando envergava farda sem insígnia, recebia ordens que ninguém assinava e cumpria missões que não existiam nos registos oficiais. Foi no final de 1978 que tudo se partiu.

 Uma operação suja num barracão em Maragojipe, onde o exército decidiu eliminar até os seus próprios. Ela descobriu tarde demais. Tivvera que matar para escapar. Abandonou tudo, falsificou documentos, mudou de nome, sumiu. Só uma pessoa sabia da verdade. O major Aldo, o mesmo que agora, velho e cansado, reapareceu para lhe entregar os áudios da morte do neto.

 Ela devia-lhe mais do que podia pagar. Na noite de terça-feira, ele mandou uma mensagem. Tem coisa grande a vir, gente de fora. Contrataram o matador. Não é da facção, é particular, profissional. Vem para te apagar. Prepare-se. O nome do homem, Danilo, pastor. Nascido no interior de São Paulo, ex-segurança de deputado, antigo matador de milícias, convertido ao crime por fé.

 Era frio, limpo, metódico, nunca errava. Chegaria em dois dias. Ficaria num flat de frente para o mar. Pagamento: 100.000 adiantado. Mais 100.000 Na entrega da cabeça. Dona Marta fechou a mercearia, disse aos vizinhos que ia viajar para ver uma prima doente em Alagoinhas, mas não foi a lugar nenhum, apenas desceu para a cave. Lá ela preparou tudo, reviu rotas de fuga, lubrificou armas, costurou uma camisa falsa com proteção por baixo e estudou as imagens que o major enviou.

 Danilo à saída do aeroporto, pegando no carro alugado, abrindo o cofre do quarto. Ela sabia o que fazer. Na quinta-feira, foi até à igreja do bairro, onde sabia que ele ia aparecer, não por fé, mas por ironia. Ele visitava sempre templos antes das execuções. Um tipo de ritual de limpeza, segundo as lendas, vestida de preto, véu na cara, bengala na mão.

Ela entrou na igreja vazia às 16 horas, ficou sentada no último banco, esperou. Às 16:18 entrou alto, forte, barba bem feito, óculos escuros, camisa social. Parecia um advogado ou um pastor, mas os olhos frios. Sentou três bancos à frente, fez o sinal da cruz, fingiu orar.

 Ela levantou-se, passou por ele como quem vai acender uma vela e deixou cair um envelope no banco. Ele pegou, abriu lá dentro uma foto dele com a esposa e o filha à porta de casa e um bilhete. Mate quem quiser, mas nunca se esqueça que também há quem chorar por si. Ele travou. virou-se de lado, procurando a mulher de Vé, mas ela já tinha saído do lado de fora.

 A Dona Marta entrou num carro alugado e dirigiu-se diretamente ao flat, onde estava hospedado. Já sabia o número, o horário da limpeza, o código da porta. Entrou com luvas, vasculhou, instalou escuta no espelho, câmara no relógio e deixou um frasco de veneno escondido dentro do protetor bucal que utilizava para dormir. Saiu sem deixar rasto.

 No dia seguinte, enviou uma mensagem anónima no telemóvel do major. Ela é boa, mas não vim para jogar xadrez, vim para fechar caixão. Segunda-feira, meia-noite era um aviso, mas para ela era desafio. Na noite marcada, ela dirigiu-se à laje abandonada onde o neto foi julgado. Lugar simbólico, lugar de sangue. Esperou na escuridão, deitada, olhos abertos, respiração controlada.

 Danilo chegou à meia-noite em ponto sozinho, sem pressas. “Então és tu?”, disse sem medo. Ela não respondeu. Sete corpos e a senhora ainda acha que há mais tempo. Está velha, está lenta, está cansada? E estás a pensar que tás a falar com uma avó de novela? Eu estou aqui para encerrar essa história. Então começa.

 Mas saiba, não sou um capítulo. Sou o fim do livro. Trocaram tiros rápidos. Preciso. Os dois ficaram feridos. Ela ao ombro, ele ao perna. No fim, caiu. Ela se aproximou-se, de arma em punho, e disse: “Você não precisava de morrer, mas escolheu o lado errado da mira. Ele cuspiu sangue, sorriu.

 A senhora é um monstro?” “Não, eu sou o que acontece quando a justiça deixa a mãe sozinha. Um disparo. Silêncio. Nono. Danilo, pastor. Emboscada, laje do tribunal. Final da missão. Faltavam seis, mas agora ela estava ferida. Mais do que o corpo, o tempo começava a cobrar. E o próximo da lista já estava a sentir que a hora dele estava perto.

 A lua mal iluminava as lajes de Peri Per. Quando a dona Marta saiu de casa, silenciosa e alerta, a chuva miudinha começava a cair, como se Deus limpasse as ruas antes da guerra. Ela vestiu calças escuras, sapatos firmes, ajeitou o lenço ao pescoço para cobrir parte da cicatriz antiga, aquela marca de uma vida que tentou enterrar.

 A bengala ficou ao lado da cama, pronta, caso fosse necessário dissimular dor ou fraqueza. Com a mochila às costas, transportando o caderno, a arma, o rádio e mantimentos, ela desceu as escadas com cuidado. Cada ranger da madeira era obstáculo vencido. Na calçada, o vento trazia o cheiro de terra molhada, betão e tensão.

 Ela caminhou pelas ruelas com passos medidos. As luzes dos postes tremiam, os carros passavam lá longe, lanternas distantes moviam-se como sombras. O som abafado de uma guitarra vinha de uma laje próxima, alguém tentando dormir, mas o mundo já estava acordado para o terror. Ela não parou. Seguiu numa rota silenciosa, previamente pensada, evitando cruzamentos, procurando brechas entre as paredes.

 Em cada esquina olhava para os lados, estudava rostos que poderiam ser armadilhas. Não podia errar. Quando chegou a laje abandonada que escolheu para o confronto final, o seu coração pulsava tão firme que parecia querer romper o peito. O local era um esqueleto de betão. Janelas partidos, grafites apagados, degraus invadidos pela vegetação.

 A lua dizia mais do que qualquer lâmpada poderia, delineando sombras escuras e espaços vazios, ela estacionou o carro com um farol baixo. saiu devagar, olhando cada canto, cada entulho, cada possível esconderijo. Apareceu com passos ligeiros, como quem anda pela própria cidade, com certeza no olhar.

 Vestia camisa social, calças escura, sapatos limpos. O tipo de pessoa que nunca suja o salto, mas com sangue nos dedos que já encomendou mortes. Ela ficou parada, imóvel. esperou que ele avançasse até estar suficientemente perto, nem longe demais, nem tão perto que pudesse atacá-la antes. Quando ele falou, veio voz calma, controlada.

 Então é você. Ela não respondeu, respirou fundo, sentiu o ombro latejar. Machucado antigo reagia ao momento. Ele continuou. Sete corpos já caíram. Você acha mesmo que pode terminar isto sozinha? Ela ergueu a arma lentamente. Nada de explosão, nada de fúria, apenas firmeza. Não acho, tenho a certeza. Os dois dispararam quase ao mesmo tempo.

 O estrondo cortou o silêncio. Ela sentiu o impacto no ombro. Doía, mas não foi suficiente para a derrubar. Ele cambaleou, coxeou, caiu entre cacos de betão e mato rasteiro. Ela se aproximou-se, respirando lentamente, arma em punho, olhos fixos no rosto dele. Ele sorriu meio torto, cuspindo sangue. A senhora é pior que me disseram.

 Ela ergueu o cano com cuidado. Você escolheu cruzar o meu caminho. Agora vai pagar. Aquele disparo que veio a seguir foi seco. Ele tombou. Permanecia vivo durante segundos. Ela olhou para ele como quem olha para todo um universo feito de decisões erradas. Ele tentou falar, mas engasgou-se.

 Ela baixou a arma, respirou fundo e disse: “Este é o fim”. Ele fechou os olhos, caiu de vez. Ela permaneceu ali minutos, imóvel, respirando o cheiro da pólvora e da chuva. sentiu o peso daquela vitória na alma. Não era um alívio, mas um dever cumprido. Subiu a laje, colocou uma das mãos no peito, como se escutasse o rosto de Ítalo em cada batimento.

 O vento levantou o lenço que cobria a cicatriz. Na escuridão, ela permitiu-se sentir a dor, a exaustão, mas também a força de quem não desistiu. Quando amanheceu, ninguém sabia quem tinha ganho. E a dona Marta caminhou de volta para casa, com o caderno no bolso, com a arma oculta, com o passado presente, porque a vingança talvez tenha acabado, mas a cicatriz dela viveria para sempre.

 A vizinhança já não era a mesma. A morte, que antes era estatística, agora tinha rosto, silêncio e recado. Já não era o ruído do tráfico, o vai e vem das motos, o cheiro a pólvora na noite abafada. Era algo novo, algo que deixava até os mais velhos desconfiados, com o olhar atravessado. Periperi amanheceu mais vazia do que nunca.

 Portas fechadas, olhares pelas fras, gente falando baixo até na feira. O ar parecia ter engasgado no medo. A Dona Marta voltou para casa antes do sol nascer. As roupas estavam molhadas pela chuva miudinha, mas ela não sentia frio. A dor no ombro era constante, mas o corpo tinha aprendido a funcionar em automático.

 Sentou-se na cadeira de baloiço da sala e ficou ali ouvindo os ruídos da rua, tentando voltar ao normal. Cada som era um lembrete de que o mundo girava, mesmo quando alguém caía. Ela pegou no caderno pela última vez nessa madrugada. foliou cada página com calma, sentindo a textura do papel como se acariciasse o rosto do neto.

 Em cada linha, um nome, em cada nome, uma dor, em cada dor, um motivo. E ali, naquele quarto de paredes descascadas, com cheiro a café velho e madeira húmida, ela riscou a última linha com um traço fino, mas firme. Depois fechou o caderno, amarrou-o com um pedaço de fita e guardou-o dentro do colchão. Não chorou, não sorriu, apenas ficou quieta.

silêncio que dizia tudo o que ninguém nunca ia ouvir. Horas depois, um carro da polícia civil passou lentamente pela rua. Dois investigadores desceram, bateram à porta de uma vizinha. Perguntaram sobre a noite anterior, sobre ruídos, movimentações. Ela disse que dormia cedo, que não viu nada, que aquela rua ali era tranquila.

 Um dos polícias olhou para a casa da dona Marta, apontou com o queixo. A vizinha franziu o sobrolho. A senhora que ali mora, a mais velha? É sozinha, tem anos já. Uma bênção. Vendia pão. Tinha um neto, mas já morreu. Tadinho. O polícia fez que sim com a cabeça, agradeceu. Voltaram para o carro e foram embora.

 Dona A Marta assistia a tudo da janela com o cortina entreaberta, o rosto impassível, a mão encostada ao peito, o batimento ainda arritmado. Por enquanto, no final da tarde, ela foi até à Praça da Liberdade, sentou-se no mesmo banco em que costumava lanchar com Ítalo quando este era criança. Era sábado.

 As crianças brincavam no escorrega velho. Um grupo de jovens jogava à bola no campinho de areia. Ela ficou a olhar sem pressa, como se esperasse que o tempo a viesse buscar ali. Uma senhora mais nova aproximou-se. Dona Marta? Olá, minha filha. A senhora vendeu-me farinha na semana passada. Queria agradecer o bolo. Ficou uma delícia.

 Ela sorriu levemente. Olhou nos olhos da mulher e viu ali algo, um tipo de paz que ela não conhecia mais. Que bom que ficou bom. Aproveita. A boa farinha rende mais do que a gente espera. A mulher despediu-se e ela ficou ali. O tempo passou, o sol desceu, a praça esvaziou-se. Quando ela regressou a casa, já era noite.

 Fechou a porta, trancou-a à chave, sentou-se à mesa, serviu-se uma chávena de café. Estava frio, mas não fazia diferença. Do outro lado da cidade, Darlan, o último da estrutura viva da facção na área, recebia a notícia da morte de Danilo, pastor. A mensagem vinha sem assinatura, apenas uma foto, o seu rosto desfigurado, um recado escrito com a mesma caligrafia que aterrorizava a quebrada há semanas.

Darlan travou o telemóvel com força. Sabia que era o fim. Não havia mais contenção, já não havia base, a área estava limpa. E quem o fez foi alguém que sabia onde doía. Ele respirou fundo, pegou no telefone, ligou para São Paulo, pediu ordem de retirada, disse que a Baia estava perdida, que ali já não dava mais. O comando aprovou.

 retirada total da operação no subúrbio ferroviário de Salvador. A Dona Marta, sem saber da ligação, olhava para o retrato de Ítalo pendurado na parede. A camisola do Bahia que usava ainda guardava a mesma cor, o mesmo sorriso, mas agora era só memória, memória e sangue. Na madrugada seguinte, ela teve um sonho.

 Sonhou que Ítalo regressava a casa, sentava-se na mesa, comia cuscuz com ovo e dizia: “Avó, resultou.” Ela chorava no sonho, mas ao acordar não havia lágrimas, apenas suor e cansaço. Nos dias seguintes, a mercearia permaneceu fechada. Os moradores começaram a comentar. Uns diziam que ela tinha viajado, outros que estava doente.

Alguns acreditavam que ela tinha morrido, mas ninguém tinha a certeza de nada. O Major Aldo apareceu uma última vez, foi a casa dela, bateu-lhe na porta, chamou baixinho. Marta, sou eu. Abriu, mais magra, mais pálida, mas com os mesmos olhos de ferro. Entra. Sentaram-se na sala. Ela serviu café. Tirou do bolso uma pequena caixa.

No interior, um pendente de prata com o nome Ítalo gravado. Peguei nisso com o legista. No dia, achei que devia ficar contigo. Ela segurou-o com firmeza, não não disse nada, só colocou no pescoço e fechou os olhos durante 2 segundos. Acabou, disse. Acabou para eles. Para mim nunca, concordou. Ficou mais um tempo, depois foi-se embora.

 antes de sair, olhou para trás e disse: “A história nunca vai saber o que fez, mas a paz daqui é culpa sua.” Ela não respondeu. Nessa noite, ela dormiu pela primeira vez em paz, sem armas ao lado, sem mochila arrumada, sem plano, sem lista, apenas o corpo cansado e o coração pesado, mas quieto. Na manhã seguinte, a dona Marta não acordou.

 O corpo foi encontrado na cama, coberto com um lençol limpo, o terço enrolado na mão, o retrato de Ítalo sobre o peito e um bilhete deixado na mesinha de cabeceira. Acabou. Não quero flores. Só Quero que ninguém se esqueça que até uma senhora de 73 anos pode fazer o que o sistema não teve coragem.

 O enterro foi discreto. Só compareceram três pessoas. A vizinha, o major Aldo e a mulher do bolo de farinha. Mas, nesse mesmo dia, em Peri Peri, o comércio voltou a abrir sem medo. As crianças jogaram à bola até tarde e o nome dela começou a circular como lenda. verdade e aviso, porque no fim ela não era justiceira, não era vingadora, não era santa, era apenas uma avó com o coração despedaçado que fez a guerra curvar-se diante do amor.

 E quem entender isto vai saber que toda a laje tem um nome escondido e toda partida há alguém que carrega o peso de todos os que o estado esqueceu. Se essa história te prendeu até aqui, deixa o gosto para ajudar o canal, subscreve para não perder as próximas e partilha com alguém que precisa de ouvir isto.

 

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