ELA ACHOU QUE IA CRIAR OS FILHOS SOZINHA NA ESTRADA… ATÉ O FAZENDEIRO VIÚVO NÃO IR EMBORA SEM ELES

Noa quarto, que precisou de ajuda porque estava com sono e mal conseguia ficar de pé. E Clara, por último, que se recusou a entrar sem a mãe. Quando voltaram a cozinha, a mesa estava posta. Arroz, feijão, frango do campo desfiado e couve refogada, uma jarra de sumo de laranja, pão de queijo que Dora tinha aquecido no forno.

Noa olhou para a mesa e depois olhou para a Dora com um enorme sorriso. “S! Isto tudo é para nós?” Dora colocou as mãos na cintura. “Para quem mais ia ser, menino?” Helena sentou-se com os filhos. O Teodoro sentou-se na cabeceira. A Dora serviu e foi indo e vindo da cozinha. E durante algum tempo, a sala de jantar da fazenda Riacho Fundo teve o que não tinha há muito tempo. Barulho.

Barulho de colher a bater num prato, de criança a pedir mais, de alguém derramando sumo e desculpando-se, de dois irmãos a discutir qual o pedaço de frango era maior. O Teodoro comeu sem falar, mas Helena notou de soslaio que não estava a olhar para o prato, estava olhando para as crianças com uma expressão que ela não soube nomear naquele momento.

Mais tarde, ela ia perceber o que era. Era saudade. Depois do jantar, Dora levou Helena até ao quarto dos fundos. Era um quarto grande, com duas camas, simples mas limpo, com janela que dava para o quintal, onde uma mangueira velha estendia os ramos. Tem cobertor no armário se arrefecer. Banheiro fica a dois passos. Muito obrigada, Dona Dora.

Dora parou à porta, olhou para Helena com aquela perspicácia directa de mulher que viveu o suficiente para não ter tempo de rodeo. De onde vieram, filha? De longe. Tão a ir para onde? A Helena demorou. Ainda estou a descobrir. A Dora ficou quieta um momento depois disse: “Esta cama ali já dormiu gente que chegou da mesma forma que você, sem saber para onde ia.

Às vezes é aqui que a pessoa descobre.” Ela saiu. Helena olhou para as crianças que já estavam a se acomodando. A Clara tinha dormido no caminho do jantar para o quarto, literalmente no ombro da mãe. Noa estava resistindo ao sono, mas perdendo a batalha. Rebeca ajudava Mateus com o ténis que estava com o atacador embaraçado.

Eliabe já estava deitado de costas, olhando para o teto. Mãe! Eliabe disse sem tirar os olhos do tecto. Oi, este agricultor, ele é bom? A Helena ficou um segundo. Acho que sim. Por que razão ele voltou? Ela não tinha resposta certa para isso. Às vezes não sabemos explicar, mas volta na mesma. Eliabe ficou quieto depois. Ainda bem. Helena apagou a luz, ficou deitada no escuro com clara de um lado e noa do outro, ouvindo a respiração dos filhos ir ficando mais devagar, mais funda, até tornar-se sono de verdade.

E lá fora, na varanda da quinta, ela podia ouvir os grilos e o coachar longínquo de sapos no riacho, e o silêncio de um homem que estava sentado sozinho no escuro, como fazia toda a noite, mas que naquela noite estava com os olhos abertos de um forma diferente, como se a casa tivesse demasiado barulho para o deixar dormir, e como se, estranhamente isso não fosse uma coisa má.

A Helena acordou antes do sol. Era um hábito que ela tinha desenvolvido nos últimos meses, quando acordar cedo era a única forma de ter 5 minutos de silêncio antes de os filhos acordassem e o dia começasse a cobrar. Mas naquela manhã, quando abriu os olhos e demorou um segundo a lembrar-se onde estava, o silêncio tinha uma textura diferente.

Não era o silêncio do quarto do aluguer em atraso, com o barulho de rua a invadir a janela e a preocupação pesando como cobertor. O silêncio do interior, com o cantar do galo lá fora, o vento que passa pela mangueira e os filhos a dormir com aquela tranquilidade que as crianças têm quando estão com o estômago cheio.

Ela ficou deitada durante um momento, ouvindo, depois levantou-se, passou pelo corredor pé ante pé e foi até à cozinha. O Teodoro já lá estava sentado à mesa com uma chávena de café, vestido para trabalhar, olhando para janela como se estivesse num local muito distante dali. Quando ouviu os passos, rodou a cabeça. Os dois ficaram se olhando por um segundo.

“Bom dia, Helena” disse. “Bom dia”, respondeu. E depois, como se precisasse de preencher o silêncio, “O café está no fogão”, ela serviu. Sentou-se na cadeira que estava do lado oposto da mesa, e não cabeceira. Tomou o primeiro gole e ficou a olhar para o próprio copo. Ficaram os dois em silêncio por um momento.

Não era um mau silêncio. Era o silêncio de dois adultos que ainda não sabem bem o que são um para o outro, mas que, por algum motivo não sentem necessidade de fingir que sabem. Foi Teodoro quem falou primeiro. Como é que a senhora dormiu? Bem, melhor do que há muito tempo. Pausa. As crianças também.

Ele concordou com a cabeça. A senhora disse que ia para o Bom Retiro do Sul. Está lá alguém? Uma prima. Não nos vemos muito, mas ela disse que se eu precisasse, a senhora ligou para ela. A Helena demorou um segundo. Meu telemóvel descarregou ontem na estrada. Teodoro levantou-se, foi até um armário perto do fogão e voltou com um carregador. Esse deve servir.

Ela olhou para o carregador, depois olhou para ele. Obrigada. Deixa a carregar e liga para ela. Precisa de saber se tem espaço antes de lá ir. Era prático, direto, sem sentimentalismo. Helena ficou a pensar nisso enquanto ligava o telemóvel e voltava para sentar. O senhor tem filhos? A pergunta saiu antes que ela pensasse se o devia fazer.

Teodoro prendeu o queixo por um segundo, olhou para o café. Não. Pausa. A gente tentou, mas não veio. Aquelas cinco palavras tinham um peso que Helena reconheceu. A forma como ele disse não veio, demasiado depressa, como quem corta a própria frase antes de ela sangrar. Perdão, não devia ter perguntado.

Não, tudo bem. Ele levantou a chávena, tomou o último gole. A senhora vai precisar ligar paraa prima e confirmar. Se não tiver espaço, se não tiver, nós vira. Não, se não tiver, a senhora fica aqui até aparecer uma solução. Helena piscou os olhos. O senhor acabou de nos conhecer ontem. Sei disso.

E já está a dizer que posso ficar. Teodoro colocou a chávena na pia, ficou de costas para ela durante um momento. A Dora vai sair amanhã cedo para visitar a filha em Uberaba. Fica fora 15 dias. Esta casa vai ficar sem ninguém para cozinhar, para organizar. A senhora percebe de cozinha? Helena encarou as costas largas dele. Entendo.

Então, enquanto não aparece o que fazer, a senhora ajuda com a casa em troca de pouso e comida para as crianças, sem dívida, sem obrigação para além disso. Ela ficou a olhar para ele. Isto não é caridade. Eu disse que era, está-me parecendo. Ele rodopiou, olhou para ela com aqueles olhos escuros e diretos. É uma troca. Você trabalha.

Eu ofereço o que tenho. É assim que funciona em quinta. Se lhe quiser chamar caridade, está no seu direito. Mas não é o que é. A Helena ficou quieta. Ele tinha razão. E a forma como tinha colocado, sem pena, sem aquele tom de quem está a fazer um favor enorme, tinha desarmado a resistência que ela estava a preparar.

Ela olhou para o telemóvel a carregar na tomada. Vou ligar paraa minha prima. Bom, Mari. Ele pegou o chapéu no gancho perto da porta e saiu. A Helena ficou sozinha na cozinha, ouvindo os seus passos na varanda e depois o som distante de ordens dadas aos peões do dia de trabalho começando na quinta.

Quando o telemóvel ligou, ela marcou o número da prima Conceição. Tocou quatro vezes. Olá, Helena. Oi, Conceição. Eu estou eu precisei de vir. Tô tentando lá chegar. Silêncio do outro lado. E então, Helena, meu Deus, eu bem, olha, eu disse que podia vir, mas foi antes de o Geraldo perder o emprego, percebe? Estou com a minha sogra aqui em casa, o quarto que eu estava a pensar dar-te.

Helena fechou os olhos. Tudo bem, Conceição. Não, não está tudo bem. Eu me sinto-me horrível, mas não tenho como. Eu compreendo. Fica tranquila. Você tá onde agora? Está bem? As crianças estão bem? Estou bem. A gente está bem. Ela respirou fundo. Eu ligo-te depois. Tá. Ela desligou, ficou a olhar para o telemóvel na mão.

Depois chegou o barulho de cinco crianças a acordar de uma vez, os passos correndo pelo corredor, as vozes misturando e Clara apareceu à porta da cozinha com o cabelo em pé e os olhos ainda semificerrados. Mãe, que cheirinho bom. É café, meu amor. Tem comida? Tem. Vai chamar os irmãos? A Clara saiu a correr e a Helena ficou olhando para a porta que Teodoro tinha usado e para a estrada lá fora e para o sol que estava a subir lentamente sobre as pastagens da quinta.

Ela não tinha destino mais, mas tinha pelo menos um lugar. Nos primeiros dias foi estranho, não de uma forma má necessariamente, mas estranho como é quando dois mundos que nunca se tocaram de repente partilham o mesmo espaço. Helena cozinhava, limpava, organizava, tinha jeito com casa. Isso ela sempre teve. E a casa de Teodoro, grande e cheia de quartos que nunca usava, tinha aquele ar de lugar que funcionava, mas que há muito tempo não respirava.

As crianças tomaram conta da quinta de um forma que ela não esperava. Noa encontrou um cão velho chamado Bento, que dormia debaixo da varanda e não desgrudou mais do animal. Ia atrás dele durante toda a tarde, e o cão, que, segundo o Zé, não se aproximava de ninguém há anos, deixava o menino de 4 anos fazer o que queria.

Eliabe começou a seguir Zeneco pela quinta, silencioso como sempre, mas com aquele olhar que absorvia tudo. O peão mais velho percebeu passado um dia que o menino estava a prestar atenção de verdade e começou a explicar as coisas. Como se repara uma cerca? Como se sabe quando o gado precisa de água? Como se lê o tempo pela forma como as nuvens se formam a meio da tarde? Mateus encontrou um livro numa prateleira da sala, um dicionário antigo, encadernado em pele, com as bordas gastas.

Ficou com ele a toda a tarde, virando as páginas com um cuidado que Helena observou da janela da cozinha, com um aperto no peito que ela não soube explicar bem. Rebeca ajudou a mãe desde o primeiro dia, não porque foi mandada, porque era assim que A Rebeca funcionava. Ela via o que precisava de ser feito e fazia.

Com 8 anos, ela já tinha uma maturidade que fazia com que a Helena orgulhar e doer ao mesmo tempo. Porque a maturidade demasiado cedo em criança é sinal de que ela cresceu para compensar alguma falta. E Clara, Clara simplesmente tomou conta da casa como se tivesse nascido nela. saía por todos os quartos, tocava nas coisas com aquela curiosidade de três anos que não tem freio.

E quando Teodoro aparecia no final da tarde, ela era sempre a primeira a correr para a varanda e a ficar olhando para ele com aquela cara de quem espera alguma coisa. Teodoro não sabia o que fazer com a Clara. Era visível, era quase engraçado, se não fosse tão comovente. Ele chegava, ela aparecia e ele estava parado, feito estátua, olhando-a de cima, claramente, sem conhecer o protocolo adequado para lidar com uma criança de 3 anos, que te encara-o como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

Na terceira tarde, Clara pegou-lhe na mão sem avisar. Teodoro olhou para baixo paraa mão pequena na sua e ficou tão quieto que Helena, que estava a ver da janela, precisou de morder o lábio para não dar riso, mas não tirou a mão. Ficou ali parado na varanda com a mão de Clara na sua e olhou para o horizonte com uma expressão que Helena não soube nomear naquele momento, mas que ficou com ela o resto do dia.

Foi no quinto dia que chegou o primeiro problema. Não veio de fora, veio de dentro. O Zé Neco foi até Teodoro ao fim da tarde com o chapéu na mão, o que era sinal de que ia dizer algo que preferia não dizer. O seu Teodoro, preciso de falar um negócio. Fala. Os peões estão a comentar a mulher e as crianças.

Teodoro continuou a olhar para o curral, comentando o quê? que que o senhor nunca foi de se meter em caso alheio, que desde que a dona Mariana foi embora, o Senhor não tenha dado espaço para nada, nem ninguém e agora aparece uma mulher com cinco filhos e e Zeneco engoliu em seco. Há gente achando estranho, perguntando quem é ela, de para onde veio, se o senhor conhece a história toda dela.

O Teodoro rodopiou, olhou para o peão com uma calma que era mais intimidante do que a raiva. Neco, estás a trabalhar aqui há quanto tempo? 23 anos, o seu Teodoro. Então sabe como eu trato da minha vida? Sei. Então tás me dizendo isso porque acha que devo saber ou porque há alguma coisa que achas que não sei? Zeneco ficou quieto por um segundo.

Houve um homem ontem de tarde, enquanto o senhor estava no fundo da quinta, veio até ao portão, perguntou se tinha aqui uma mulher com filhos. Eu disse que não sabia de nada. Teodoro ficou muito parado. E como era o homem? Alto, jovem, cerca de 35 anos, carrinha de caixa aberta preta, matrícula de fora. O que mais ele disse? apenas perguntou se tinha visto.

Eu disse que não. Ele ficou ali parado uns 5 minutos, olhando para as terras, depois foi-se embora. Silêncio. Fez certo em não dizer nada, disse Teodoro. E fez certo em me contar. O senhor sabe quem é? Ainda não. O Zé Neco colocou o chapéu de volta. Seu Teodoro, este é um caso de polícia se complicar. Pode ser.

Mas ainda não chegou lá. O peão assentiu e foi-se embora. Teodoro ficou parado no mesmo local durante um bom tempo, depois foi para dentro. A Helena estava na cozinha preparando o jantar. As crianças estavam na sala. Ele entrou, ficou parado na porta da cozinha por um momento e ela sentiu a presença dele antes de ouvir qualquer coisa.

Girou, viu o rosto dele e soube, antes que ele abrisse a boca que alguma coisa tinha mudado. Tem coisa que a senhora não me contou. Ele disse: “Não era a acusação, era a constatação.” Helena largou a colher na panela. O que aconteceu? Ontem veio um homem ao portão perguntando por si. O sangue de Helena esfriou.

Ela ficou completamente imóvel por um segundo que pareceu muito mais longo. Depois disse com uma voz que ela controlou com esforço. Como era ele? Teodoro descreveu. A Helena fechou os olhos. Rani, disse ela, quase para si mesma. Quem é ele? A Helena ficou um tempo sem responder, depois dirigiu-se à janela, olhou para o quintal onde as crianças estavam, se certificou que estavam fora do alcance da conversa.

O irmão do meu marido. O Teodoro esperou. Quando o Fábio foi embora, levou dinheiro que não era só dele. Levou coisas que eram da família do Ranieri, tipo acordo de negócio que correu mal, dívida que ficou em meu nome sem eu saber. Ela respirou. A Raniele pensava que eu sabia, que eu estava a esconder coisa, começou a aparecer no apartamento, gritar, ameaçar. E ameaçar como ela demorou.

Ele disse que se eu não ajudasse a encontrar o Fábio, ia arrepender-me. Não disse de que maneira, mas a maneira como ele olhava para as crianças quando disse isso, ela não teve de terminar a frase. Teodoro ficou a olhar para ela com aquela expressão fechada que ela ainda não tinha aprendido a decifrar completamente. Por isso, a senhora saiu.

Por isso a senhora saiu e foi para aqui, porque não ia saber onde procurar. Era o que eu esperava. Ela olhou para ele, mas ele encontrou. Silêncio. Não, Teodoro disse. Ele encontrou a estrada. Não sabe que estás aqui. Ainda ainda? Os dois ficaram a olhar um para o outro. Eu posso ir embora. Helena disse.

Não quero trazer problema ao senhor. Esse não é o seu problema. O Teodoro ficou quieto por um momento que durou demasiado tempo. A senhora disse isso ontem na estrada também, que se ia desenrascar. E ia, ia não, disse, direto, sem crueldade, com cinco filhos, 40 km de estrada de terra batida e sem dinheiro não ia.

E agora com um homem que fez ameaça velada para si e está a passar pela região também não vai. Então, o que é que o senhor está a propor? Que a senhora fique e que a senhora me diga que mais preciso saber. A Helena ficou olhando para ele. Por que razão se importa? A pergunta saiu com uma franqueza que ela não planeou.

Teodoro ficou parado. Aquela pergunta tinha um peso que estava para além da situação prática e os dois sabiam disso. Ele olhou para o chão por um segundo, depois olhou para ela. Porque me arrependi de ir embora ontem na estrada e não me arrependo de ter voltado. Pausa. E porque tem cinco crianças nesta casa que dormiram bem pela primeira vez em semanas e eu não vou colocá-las de volta na estrada por causa de um homem que não tem o direito de assustar ninguém.

A Helena ficou em silêncio. Lá fora, a Noa gritou alguma coisa para Eliabe. O cão Bento ladrou uma vez e a tarde foi caindo lentamente sobre as pastagens da quinta Riacho Fundo. Tudo bem, a Helena disse por fim. Eu conto-te tudo. E contou. A história de Helena não começava com Fábio, mas Fábio tinha-se tornado o centro dela de um modo que ela ainda estava tentando compreender.

Eles tinham-se conhecido quando ela tinha 22 anos numa festa de um parente em Ituyutaba. Ele era bonito, falador, daquele jeito que preenche o ambiente e faz com que todos olhar. Helena era mais séria, mais quieta. Tinham-se atraído por essa diferença, como sempre acontece, e se casou dois anos depois. Os primeiros anos tinham sido bons, não perfeitos, mas bons.

O Fábio trabalhava com compra e venda de maquinaria agrícola. Ela cuidava das crianças e fazia beicinho costurando. Tinham um apartamento pequeno, mas pago a tempo, um carro velho, mas que andava, e uma rotina que se sustentava. Mas o Fábio sempre teve um lado que ela demorou a ver bem, o lado que preferia o atalho, que quando a coisa tornava-se difícil procurava solução rápida no lugar de solução certa, que fazia acordo aqui, negócio ali, e nem contava-lhe sempre o que estava fazendo.

O irmão Ranieri tinha entrado nisto há uns 3 anos atrás. Um negócio de intermediação de terras, alguma coisa com documentação de propriedade que A Helena nunca percebeu bem. Ela tinha assinado alguns papéis que o Fábio trouxe porque ele disse que era formalidade, que ela nem precisava de ler, que ele cuidava.

Ela assinou e quando o negócio desandou e desandou da maneira que desanda, quando é errado desde o início, o nome que apareceu a dever era o dela. Fábio desapareceu três dias depois de ela descobrir, levou o que tinha de valor e foi-se embora sem deixar morada, sem deixar número, sem deixar nada, a não ser dívida e cinco filhos e um apartamento cujo contrato estava prestes a expirar.

Ranierei apareceu uma semana depois, batendo à porta às 8 da manhã, quando as crianças ainda estavam a dormir. Tinha outros dois homens com ele. Não disse quem eram. Disse apenas que ela devia explicação, que o irmão tinha desaparecido com dinheiro que não era só dele e que ela precisava de ajudar a encontrar.

Helena tinha dito a verdade, não sabia onde o Fábio estava. Ranieri não acreditou, ou preferiu não acreditar, porque ela sendo culpada era mais conveniente do que aceitar que o irmão tinha simplesmente desaparecido. Ele voltou mais duas vezes. Na segunda visita, ficou parado à porta, olhando para as crianças, com uma expressão que não era uma ameaça direta, mas que era calculada para parecer ameaça.

E na terceira vez, quando ela disse que ia chamar a polícia, encolheu os ombros e disse: “Chama! Assinou os papéis, dona Helena. Você faz parte do negócio. Ela chamou a polícia na mesma, foi, fez queixa. O delegado foi atencioso, anotou tudo e disse que ia verificar, mas ela sabia, pelos vistos que ele tinha explicado, que aquilo era coisa civil, que ia demorar, que enquanto isso ela estava exposta.

Foi aí que ela decidiu ir embora, não para fugir para sempre, mas para comprar tempo, para colocar os filhos num lugar seguro, enquanto tentava perceber o que havia sido assinado, o que de facto devia, o que era a ameaça vazia e o que era real. Teodoro ouviu tudo isto sentado à mesa da cozinha com a chávena de café que tinha ficado fria na sua frente, sem interromper uma única vez.

Quando ela terminou, ficou em silêncio durante um momento. A senhora tem cópia dos papéis que assinou? Tenho. Foto no telemóvel. Fiz antes de sair. Você mostrou para advogado? Não tive como. Não tenho dinheiro para advogado. Teodoro ficou olhando para a mesa, depois disse: “Tenho um advogado em patrocínio.

Trabalhou com meu pai durante muitos anos, homem honesto. Marco uma consulta.” Helena abriu a boca. Não precisa de fazer isso. Já disse que não vou discutir o que precisa ou não precisa. A senhora tem um problema porreiro, tem como resolver. Vamos resolver. Não tem obrigação nenhuma comigo. Não tenho. Ele concordou.

Mas tô fazendo do mesmo modo. Silêncio. Por quê? Ela perguntou de novo, mas desta vez diferente. Não era a mesma pergunta de antes. Antes ela tinha perguntado com desconfiança, era agora genuína. Era a pergunta de alguém que precisava de entender. Teodoro ficou olhando para ela por um momento e depois disse uma coisa que ela não estava à espera.

Porque quando a Mariana adoeceu, todo o mundo foi muito prestável no início. Vizinho, conhecido, amigo. Primeiro mês, aparecia toda a gente com comida, com palavra de conforto, com oferta de ajuda e depois foi esvaziando. Porque a vida das pessoas continuou e faz sentido que continue, mas a minha não continuou da mesma maneira. Pausa.

Quando ela morreu, fui ao cartório. resolver os documentos sozinho. Fui pro enterro e regressei sozinho. Fui dormir nesta casa vazia sozinho. Ele olhou para o café frio. Ninguém me devia ter ajudado a fazê-lo sozinho. Mas também ninguém apareceu para fazer diferente. Helena ficou muito quieta.

E por isso você voltou à estrada. E por isso voltei. Ela olhou para ele, ele olhou para o café e nenhum dos dois disse mais nada naquele momento, porque algumas coisas ficam mais completas no silêncio do que em qualquer palavra que se pudesse colocar depois. Nos dias que se seguiram, a quinta foi mudando de um jeito subtil que os próprios moradores mal se apercebiam enquanto acontecia.

A Helena tinha um jeito com a casa. Não era só limpeza, não era só cozinha, era aquela forma de mulher que sabe que um lar é feito de pormenor, a toalha dobrada, diferente, a janela da sala que ela abriu e que trouxe o vento da tarde de uma forma que Teodoro não tinha sentido há anos, o vaso de flores do quintal que ela cortou e colocou-o na mesa do jantar sem perguntar e que ficou ali sem ninguém dizer nada, porque era óbvio que ficava bem.

O Teodoro não comentava estas coisas, mas Helena notava que ele notava, o forma como ele chegava ao final do dia e ficava um segundo parado à porta antes de entrar, como se precisasse de calibrar para o facto de a casa estar diferente, a forma como ele olhava para mesa posta, para a comida pronta e tinha um milissegundo de alguma coisa na cara antes de se virar para ela e dizer com a voz do costume: “Cheirou bem do portão.

frango com quiabos hoje. Não como quiabos. Vai comer hoje. Ele comeu. As crianças eram o que mais o desafiava e ao mesmo tempo, o que mais parecia fazê-lo se movimentar de dentro para fora, de um forma que ele não conseguia controlar. O Mateus tinha começado a perguntar coisas, não de uma forma invasiva, não de um jeito de criança que não tem freio.

Mateus tinha aquele jeito específico de perguntar que fazia. A pergunta parece razoável, quase inevitável, como se a resposta já estivesse no ar e ele só tivesse formalizado. O seu Teodoro, por que não tem filhos? Teodoro estava reparando uma dobradiça da porta da varanda. continuou a reparar por um segundo antes de responder: “Não veio.

Tentou?” “Tentei. Faz tempo?” “Faz.” Mateus ficou em silêncio por um momento, sentado no degrau da varanda, com os joelhos abraçados. “O meu pai tentou ter a pessoas também, mas não funcionou da maneira que devia.” Teodoro parou de apertar o parafuso, ficou a olhar para o menino de 7 anos.

“Como assim? Nós estávamos lá, mas ele foi-se embora da mesma maneira. Então, tipo, ter um filho não chega, tem que querer estar junto. Teodoro ficou parado com a chave de fendas na mão. O Mateus continuou a olhar para o quintal, com aquela expressão de quem disse uma coisa muito simples, mas que pesava tonelada. “Vais ficar?”, o menino perguntou sem olhar para ele, como se perguntasse ao quintal.

Teodoro demorou. Não vou a lado nenhum. Essa é a minha quinta. Mateus virou-se, olhou para -lhe com aqueles olhos diretos que tinha. Não era isso que eu estava a perguntar. Os dois olharam-se por um segundo. Teodoro voltou paraa dobradiça. Eu sei disse. E não respondeu mais nada, mas também não se foi embora.

No 10º dia, Helena foi à cidade com Teodoro. O Patrocínio tinha aquele tamanho de cidade do interior que é grande o suficiente para ter o que necessita e pequeno o suficiente para que todos se conhecer. Foram no camião, Helena à frente, as crianças atrás cobertas com uma lona porque o sol estava forte. O advogado de Teodoro, o senhor Armindo, de 60 e poucos anos, escritório na rua principal, recebeu-os com café e aquele jeito de homem habituado a ouvir problema alheio sem se afetar demasiado.

A Helena explicou tudo de novo, mostrou as fotos dos documentos, explicou o que tinha assinado e o que sabia sobre o negócio de Fábio e Ranieri. Seu Armindo passou um bom bocado a ler, tomou dois cafés e, por fim, disse: “Dona Helena, o senor Fábio colocou a senhora num negócio que ela claramente não tinha conhecimento do objeto.

Este tipo de coisa tem suporte para ser contestado. agora vai demorar e vai precisar de informação sobre onde o Fábio está para chegar, num acordo ou numa ação. Eu não sei onde ele está, vai precisar de saber eventualmente, mas por enquanto o que a gente pode fazer é uma notificação pro Ranieri para ele parar de te procurar, porque da forma que a senhora descreveu, o que ele fez tem nome. Chama-se coação.

A Helena ficou a olhar para o advogado. Isso vai funcionar? Coibe, não garante, mas é o primeiro passo. Ela olhou para Teodoro, que estava sentado ao lado, com o chapéu no joelho, ouvindo tudo sem interferir, mas sem perder uma palavra. Pode enviar a notificação. Certo. Só mais uma coisa.

O senhor Armindo olhou para ela com aquela franqueza de velho. O Senr. Ranieri vai saber que a senhora tem morada, que a senhora já não tá rodando sem rumo. Isto pode acalmar porque mostra que tem suporte legal ou pode agitar se ele for do tipo que não gosta de limite. Silêncio. Qual é o endereço que a senhora quer que eu utilize? Helena olhou para Teodoro.

Teodoro olhou para ela. Pode usar o da quinta. Ele disse de forma direta, sem hesitar. Seu Armindo anotou. À saída do escritório, as crianças estavam à espera na calçada. A Noa tinha encontrado um gato laranja que estava a dormir ao sol perto da porta e estava a tentar acordá-lo com um pau com delicadeza cirúrgica que o gato não apreciava.

Clara correu para Helena quando a viu sair. Teodoro ficou na passeio, olhando para a rua. O sol batia forte. Um ou dois conhecidos passaram e deram bom dia. Olharam com aquele olhar de quem regista sem comentar e foram embora. A Helena ficou do lado dele. Obrigada, ela disse para com isso. Com o quê? Com obrigada.

Você já agradeceu mais vezes do que precisava. É que você faz mais do que devia. Ou talvez você esteja habituada a gente que fazia menos do que devia. e isso desconfigurou o que é normal. Helena ficou a olhar para ele. Era a coisa mais longa e mais direta que tinha dito sobre a situação dela em 10 dias e tinha uma precisão que ela não esperava.

“Pode ser isso?”, disse ela. “É isso?” gritou Noa porque o gato o tinha arranhado e fugido. A Clara estava a tentar explicar à Noa que a culpa era dele. Rebeca estava a tentar mediar. Mateus estava claramente achando graça, mas fingindo que não. Eliabe estava do lado observando com a expressão habitual. O Teodoro olhou para as crianças, ficou olhando durante tempo suficiente paraa Helena reparar.

A gente precisa de mantimento. Ele disse então, voltando para a voz prática de sempre. Mercadinho fica ali na quadra seguinte. Eu pago o que puder. Ele já estava a andar. Hoje não, Teodoro. Hoje não, Helena. Ela ficou parada por um segundo, depois foi atrás. Fazia três semanas que Helena e as crianças estavam na quinta do Riacho Fundo, quando a coisa que estava crescendo em silêncio entre ela e Teodoro começou a ocupar demasiado espaço para continuar a ser ignorada.

Não era nada que se pudesse apontar. Não era um momento específico, não era uma frase dita, não era um gesto que cruzasse linha nenhuma, era acumulado. Era o forma como ele se aproximava quando ela estava a contar alguma coisa, a distância que mantinha, mas que tinha diminuído sem que nenhum dos dois tivesse decidido.

era a forma que ela sabia já sem ter de olhar quando ele estava na varanda à noite e que por vezes ela ficava parada à janela da cozinha ouvindo o silêncio dele sem precisar de outra coisa. A Dora tinha voltado de Uberaba. Chegou numa manhã de quinta-feira com uma mala e aquele olhar de quem saiu viu outra coisa e voltou para avaliar o que mudou.

ficou parada à porta da cozinha durante um bom bocado, observando Helena, que estava a fazer pão, e as crianças que estavam espalhados pela sala, e o trovão que estava do lado de fora, porque a Noa tinha encontrado uma forma de abrir o portão do pasto e o cavalo tinha entrado no quintal e ainda ninguém tinha conseguido convencer o animal a sair.

“Meu Deus!”, Dora disse. “Ande bom dia, dona Dora”. Helena disse sem parar o que estava fazendo. Bom dia. A Dora pôs a mala no chão. Esta casa tá diferente. Sim. Diferente bom ou diferente mau. Isso depende de quem está a avaliar. A Dora ficou quieta um momento, depois puxou uma cadeira, sentou-se e ficou a olhar para Helena trabalhar.

Você gosta dele? Helena não parou de amassar o pão. Eu mal conheço-o. Gosta do mesmo jeito. Dona Dora. Pode dizer o que quiser, mas eu conheço este homem há 20 anos e nunca o vi ele trazer ninguém para dentro desta casa, nem um familiar próximo que pediu. Ele trouxe-o a si e a cinco criança porque viu na estrada.

Ele próprio disse, sentiu que não conseguia ir embora. Pois é, Dora disse, como se aquele fosse o argumento definitivo. Isto não significa nada além de que é um homem de bom coração. Teodoro Fagundes não é de bom coração, não. Dora disse com uma franqueza afetiva, que era o seu feitio. Ele é um homem justo, mas o afeto não é o forte dele.

Não era sequer antes de perder a Mariana. E depois que perdeu, então ela abanou a cabeça. Então o que aconteceu com ele quando o viu na estrada não foi bondade do coração, não foi outra coisa. A Helena parou de sovar, ficou a olhar para o pão por um segundo. Não posso pensar nisso agora. Ela disse: “Com honestidade, não com evasão. Tenho cinco filhos, um problema jurídico que ainda não resolveu e estou em casa de um homem a quem não posso dar trabalho.

Não não consigo pensar em mais nada além disso.” Tá certo. A Dora concordou. Só não fingia que não existe. Não estou a fingir. Tá. Pausa. Estou tentando. A Dora levantou-se, pegou o avental no gancho. Isto é diferente, disse. E começou a ajudar com o pão, como se a conversa não tivesse acontecido.

Teodoro tinha o próprio lado daquilo tudo para lhe dar. Não era simples. Havia uma vida inteira de hábito que dizia que ele funcionava melhor sozinho, que a quinta era o bastante, que o trabalho e a terra ocupavam o espaço que era necessário ser ocupado. Depois da Mariana, tinha construía uma rotina que era sustentável, exatamente porque não dependia de mais ninguém.

Acordava cedo, trabalhava até anoitecer, jantava com A Dora, que não exigia conversa, dormia, repetia. Aquilo tinha um custo que ele sabia. Não era felicidade, mas era suportável. Agora a casa tinha barulho. Tinha barulho de manhã quando as crianças acordavam e o corredor ficava pequeno paraas cinco vozes. Tinha barulho de tarde quando Noa e Eliabe regressavam do pasto com o Zé Neco e vinham contar ao Teodoro o que tinham visto, como se ele precisasse de ser informado sobre o próprio gado.

Tinha barulho de noite quando Helena colocava as crianças para dormir e ficava na cozinha um pouco mais. E ficava na varanda, sabendo que ela estava ali, separados por uma parede e um silêncio que não era vazio. E tinha o Mateus. O Mateus tinha feito uma pergunta que ficou com Teodoro sem que ele conseguisse livrar. Você vai ficar.

Não era sobre ele ir embora da quinta, era sobre algo diferente. O Mateus tinha 7 anos e percebia mais do que devia. E a pergunta era sobre outra coisa, sobre se Teodoro era o tipo de homem que fica ou o tipo que vai, sobre se aquilo que estava a acontecer era real ou temporário, sobre se as crianças podiam confiar.

E Teodoro não tinha respondido, porque não sabia a resposta, sabia o que sentia. Isso ele sabia com uma clareza que era quase inconveniente, mas sentir e saber o que fazer com o que sente são coisas muito diferentes. Numa noite da quarta semana, estava na varanda quando a Helena saiu. Ela não disse nada. ficou parada à porta, olhou para o céu que estava limpo e cheio de estrela, e depois foi e sentou-se no banco de madeira que ficava no canto da varanda a 2 m dele. Ficaram em silêncio.

Lá longe, o riacho fazia aquele barulho manso de água em pedra, que era a banda sonora da quinta toda a noite. “Estás bem?”, – perguntou Helena por fim. “Estou.” Pausa. “É?” “Estou a pensar em quê? Enquanto faz sentido ir embora. Teodoro olhou para ela. Porquê agora? Porque não posso ficar para sempre.

Ela olhou para as estrelas. As crianças estão a se acostumando. Eliabe segue o Zeneco igual sombra. A Noa já sabe onde fica cada coisa da quinta. Clara chama-lhe Doro e acha que esse é o nome certo. Ela fez uma pausa. Se eu deixar muito tempo, vai ser mais difícil. Mais difícil para quem? Ela demorou. para eles quando tiver de ir.

De ti, e se não tiveres que ir? Helena rodou a cabeça, olhou para ele. Teodoro olhava-a com aquela expressão fechada que ela tinha aprendido a ler melhor, fechada de fora, mas com aquela coisa lá dentro que ele nunca conseguia esconder completamente quando se esquecia de controlar. Teodoro, eu sei que é cedo, disse ele, eu sei que não há um nome certo para isso ainda.

Eu sei que há um problema que ainda não resolveu. E eu sei que não estás em condições de confiar em ninguém na palavra. Pausa. Mas eu precisava de dizer que não estou à espera que vás embora. Não estou à espera que o prazo acabe. Tô esperando o contrário disso. Helena ficou a olhar para ele. Isto é muita coisa. Sei. Tem certeza do que tá dizendo? Não disse com honestidade.

Mas sei que quando penso em ti a ir embora, alguma coisa não encaixa. Não encaixou desde a estrada. Fui embora e não consegui. Isso foi impulso. Talvez. Mas impulso que se confirma todas as manhãs quando estás na cozinha e eu estou na varanda e a casa tem barulho. Não é só impulso mais.

A Helena olhou para o riacho lá longe. Tenho cinco filhos. Eu sei. Não são fardos para carregar, são a minha vida. Quem ficar comigo fica com eles. Eu também sei disso, disse ele. E havia uma convicção na voz que não era performance. Não estou a propor que você abandone nada. Tu a dizer que talvez o que está a tentar carregar sozinha não necessite de ser carregado sozinho.

O silêncio durou um tempo longo. Eu tenho medo Helena disse por fim baixinho. Não como admissão de fraqueza, mas como facto. O Fábio era encantador também no começo. Eu não sou encantador. Teodoro disse com uma secura que era tão genuína que ela teve de morder o lábio. Não é? Esse é o problema. Problema.

Você sendo encantador, eu resistia facilmente. Você sendo direto e honesto e teimoso e ela parou. E é mais difícil de ignorar. Teodoro ficou a olhar para ela. Por um segundo, aquela expressão fechada se abriu um pouco mais do que o habitual. E o que estava por baixo dela era simples. Era apenas um homem que tinha ficado sozinho há muito tempo e que estava cuidadosamente com medo de querer de novo.

“Não estou a pedir decisão agora”, disse. “Estou só a pedir que não ir embora porque acha que tem de ir”. Helena ficou em silêncio durante algum tempo. “Está bom”, disse ela por fim. ficaram na varanda mais um tempo, sem se tocar, sem precisar de dizer mais nada. O riacho continuou a fazer o seu barulho manso e a quinta ficou quieta ao redor deles, como se soubesse que alguma coisa importante tinha sido dita naquele banco de madeira debaixo daquele céu cheio de estrela.

Dois dias depois, Ranierei chegou, não ao portão. Foi mais direto que isso. Apareceu na cidade em patrocínio, num dia em que Helena tinha ido com a Rebeca comprar material escolar, porque a Rebeca tinha pedido, com aquela voz cuidadosa de quem não quer parecer que está a pedir, se podia ter um caderno. A Helena estava na papelaria quando viu a carrinha preta do lado de fora.

ficou parada no corredor da loja com Rebeca ao lado e esperou. Ranieri entrou. Era alto, de ombros largos, com aquele jeito de homem habituado a ocupar espaço. Quando viu, Helena, parou, sorriu. Era um sorriso que não se aproximava dos olhos. Helena, que sorte a minha. Raniere, tava te procurando. Eu sei. Rebeca apertou a mão da mãe.

Helena apertou de volta, sinalizando que estava bem. Aqui não é lugar para essa conversa. Helena disse. Então vamos lá para fora. Não vou a lugar nenhum contigo, Helena. A voz dele ficou mais baixa. Não estou aqui para briga. Estou aqui porque o meu irmão desaparece. Eu fico com prejuízo e tu desapareces também. Parece suspeito. Não desapareci. Fui embora.

Tem diferença para mim. Não tem. Ranieri. A voz dela foi firme. Meu advogado enviou-lhe notificação. Já tem registo do que fez. Se você continuar a procurar-me, vai ser ação legal. Você entendeu? Ele ficou a olhar para ela, avaliando. Você arrumou o advogado no interior. Arrumei. Quem tá te bancando? Isso não é da sua conta.

Ele olhou paraa Rebeca. A Helena sentiu a filha encolher-se ligeiramente e deu um passo em frente, colocando o corpo entre os dois de uma forma que não era dramático, mas era muito claro. “Você não vai olhar paraa minha filha? Estou só. Não”. A voz dela não subiu. Ficou exatamente no mesmo tom, mas tinha alguma coisa nela que Ranieri registou.

Vai sair dessa loja e vai ficar longe de mim e dos meus filhos. Porque se não ficar, o que o seu irmão fez vai parecer detalhe perto do que vou mover contra si. Silêncio. Ranierei ficou a olhar para ela. Você mudou. Mudei. Ficou mais um segundo. Então encolheu os ombros com aquela afetação de quem quer parecer que não se importa.

Tá bem, Helena, mas vai precisar de falar comigo cedo ou tarde. Quando o Fábio aparecer, quando o Fábio aparece, tu vai falar com o meu advogado, não comigo. Ele saiu. Helena ficou parada durante um segundo, sentindo o coração que estava mais acelerado do que queria admitir. Então olhou paraa Rebeca. A menina estava com os olhos arregalados.

Mãe, foste muito corajosa. A Helena agachou até ficar ao nível da filha. A gente fica mesmo com medo, disse ela. Mas o medo não significa que recue. Medo significa que faz do mesmo jeito, só que a tremer por dentro. Rebeca ficou olhando para a mãe. Eu quero ser igual a -lo quando crescer. A Helena abraçou a filha ali mesmo no corredor da papelaria com o cheiro a borracha nova e caderno ao redor delas.

“Vais ser melhor”, disse ela. “Eu garanto.” De volta à fazenda, ela contou a Teodoro o que tinha acontecido. Ele ouviu tudo sem interromper. Quando ela terminou, ficou em silêncio por um momento e depois disse: “Foi ao cartório de patrocínio alguma vez?” “Não.” “Por quê?” Porque o Ranieri foi lá ontem perguntando por terras registadas no seu nome ou no nome do Fábio.

Helena piscou. Como sabe? O notário é amigo meu. Ligou-me a pensar que eu ia querer saber. Pausa. O Ranieri não está só atrás do dinheiro que o seu marido levou. Ele está atrás de alguma coisa que ficou registada. Terra, talvez. Algum ativo que o Fábio não levou quando se foi embora. A Helena ficou parada. O Fábio tinha terra.

Não sabia? Eu? Ele falava de negócio com a terra, mas nunca pensei que tinha algo registado. Armindo precisa de ver isso com urgência. Amanhã cedo a gente vai lá. Teodoro. Hum. Por que está a fazer tudo isso? Ele olhou para ela. Já disse e disse que não conseguia ir embora, mas isso vai para além disso.

Você tá se metendo em problema que não é seu, passou a ser meu. Quando quando entraste na minha cozinha e os teus filhos tomaram conta da minha quinta. Uma pausa curta. E quando ficou na varanda comigo sem que ninguém pedisse? E quando a Clara começou a chamar-me Douro e eu não corrigi porque não quis. Helena ficou a olhar para ele.

Você é complicado. Sou simples. Ele disse: “É o que parece complicado para quem não está habituado ao homem que fica.” Ela ficou quieta e desta vez foi ela que deu o passo. Foi simples. Ficou de pé na frente dele, olhou para cima, estava alto e ficou ali por um segundo que tinha peso. Ele ficou muito parado.

Então, levantou a mão e tocou na lateral do rosto dela lentamente. como alguém que faz uma coisa que tem medo de fazer mal. Helena fechou os olhos por um segundo e quando abriu, ele continuava lá. “E na manhã vamos ver o Armindo”, ele disse com a voz que tinha ficado ligeiramente diferente. “Amanhã a gente vai e depois falamos sobre o resto.” Sobre o resto? Ela concordou.

Do corredor veio o barulho da Noa a chamar o cão Bento aos gritos, claramente, sem qualquer noção de que havia algo a acontecer na sala. Os dois se afastaram, mas aquele milímetro de distância que tinha diminuído na varanda na noite anterior tinha diminuído um pouco mais. O seu Armindo ficou olhando pros documentos durante um tempo longo.

Era uma manhã de terça-feira. Helena, O Teodoro e as crianças tinham ido a patrocínio cedo. As crianças ficaram na sala de espera do escritório com a Rebeca tomando conta e Helena e Teodoro deram entrada com o advogado. O que Armindo encontrou puxando os registos do cartório notarial com o nome de Fábio Barros era uma desarrumação organizada da forma que só quem sabe o que está a fazer consegue fazer.

O Fábio tinha registado uma parcela de terreno em nome de Helena havia 2 anos. 18 haares num concelho pequeno, perto de Coromandel, terra boa. Segundo o registo, o Fábio tinha comprado utilizando recursos que agora se tornava claro, vinham do negócio com o irmão Ranieri. O problema era que a terra estava em nome de Helena e Ranierei sabia.

Ele não vai até si por causa do dinheiro que o seu marido levou. Armindo disse: “Ou não só por isso, vai porque essa terra vale e porque se assinou os papéis sem saber que foi o que aconteceu, ela pode estar envolvida no contrato original do negócio que correu mal. Dependendo do que estava escrito, ele pode alegar direito sobre ela.

” Mas ela não sabia do que estava a assinar. Teodoro disse, é exatamente o argumento que nós utilizamos, mas precisa de ir a juízo, precisa de uma ação declarativa que mostra que ela foi colocada no negócio sem conhecimento de causa e sem benefício real. Quanto tempo isso leva? Meses, talvez um ano. Helena olhou para a mesa.

E, enquanto isso, enquanto isso, o Ranieri não pode fazer nada com a Terra. Ela fica bloqueada, mas ele pode continuar à tua procura, te pressionando. Agora, se tiver morada fixa, representação legal e registo de tudo o que fez, qualquer coisa que ele tentar tem resposta na lei. Endereço fixo, repetiu Helena. Ela olhou para Teodoro.

Teodoro olhou para ela. A quinta. Ele disse ao advogado, mas olhando para ela. O endereço da exploração pode usar como fixo. Armindo anotou. Muito bem, então nós protocola esta semana. Quando saíram, o sol já estava alto. As crianças tinham invadido a calcada e Noa tentava convencer um pombo a ficar parado à medida que se aproximava, o que claramente não estava a funcionar.

Helena parou no passeio, respirou. Um ano, disse ela, talvez menos. É muito tempo. É. Teodoro concordou sem minimizar, mas é resolvível. Você sabe que vai ser complicado. Ele pode aparecer na quinta, pode falar mal de você na região, de que está a lutar uma mulher com um problema legal com Helena.

O quê? A região pode falar o que quiser. Disse com uma paciência que não era indiferença, era convicção. A minha terra é minha, a minha casa é minha. Quem entra e quem sai, eu decido. E se complicar mais do que esperava? Já complicou mais do que esperava no dia em que voltei à estrada. Ele disse: “E não me arrependi nenhum dia.” Ela ficou olhando para ele. Teodoro. Hum.

Eu preciso de te dizer uma coisa. Fala. Eu não sei ainda exatamente o que sinto. Tem muita coisa que ainda está a resolver dentro de mim. tem muito medo que ainda está a desmanchar e eu não quero te prometer coisa que não tenho a certeza. Pausa. Mas sei que quando voltou na estrada foi a primeira vez em muito tempo que alguém escolheu ficar.

E isso está a fazer diferença num lugar em mim que eu não sabia que precisava de diferença. O Teodoro ficou muito quieto. Isso está bom. Ele disse por fim. Não precisa de mais do que isso. Por enquanto. Não te parece pouco? Não”, disse, e havia certeza na voz. “Parece começo.” Nos meses que se seguiram, a quinta O Riacho Fundo foi mudando de uma forma que não era repentino, não era dramático, mas que era profundo.

O processo legal andava lento, como toda a coisa gira, mas andou. Armindo foi construindo o caso. Hanieri mandou o advogado que fez ameaça, que não foi a lado nenhum. Houve uma audiência em que Helena teve de ir a patrocínio, onde ficou sentada numa sala pequena enquanto advogados discutiam sobre papéis que ela mal tinha percebido quando assinou e saiu de lá com a sensação de que a coisa estava a caminhar para o lado certo.

Sobre Fábio, ele apareceu não paraa Helena. apareceu porque foi encontrado num estado vizinho, num negócio torto que não era o primeiro. E quando a situação descontrolou-se, tentou usar o nome dela outra vez, mas desta vez havia registo, havia advogado e o que tentou colar não colou. A Helena não sentiu vitória quando soube.

Sentiu cansaço e depois sentiu uma leveza que vinha debaixo de um lugar que estava comprimido há muito tempo. Os filhos foram crescendo dentro da quinta de um forma que ela não planeou, mas que foi acontecendo como planta que encontra onde crescer. Eliabe tornou-se sombra de Zeneco de vez. O peão mais velho, que nunca tinha tido um filho, foi desenvolvendo com o menino uma linguagem própria de gesto e observação que Helena achava bonita e estranha e boa ao mesmo tempo.

Eliabe começou a saber coisas sobre a terra, sobre o gado, sobre o tempo, que menino de cidade nunca aprenderia. O Mateus encontrou um acesso à biblioteca pública de patrocínio. Teodoro passou a levá-lo uma vez por semana. No início ficava à espera do lado de fora, depois começou a entrar junto. A Helena soube que ficavam sentados, um ao lado do outro, em silêncio, cada um no seu livro, e que isso era suficiente para ambos.

A Noa ficou com os animais, ficou com o Bento, ficou com o trovão que deixava o menino fazer-lhe festas, mas ainda não o deixava montar. ficou com um gatinho que Dora tentou enchotar e não conseguiu. Ficou com dois pintos que saiu de um galinheiro e que Noa nomeou de Bilu e Tatu por razões que ninguém entendeu. Rebeca começou a estudar.

Estava atrasada na escola por causa das semanas de incerteza, mas era inteligente e recuperou rapidamente. Helena arranjou uma escola em patrocínio e era Teodoro quem levava de manhã na carrinha no caminho da cidade, sem que fosse uma decisão formal, sem que ninguém tivesse combinado. Simplesmente aconteceu e continuou a acontecer.

Clara, Clara, que tratava Teodoro de Doro desde o início, que nunca compreendeu que aquilo estava errado e que Teodoro nunca corrigiu. Clara que um dia, numa manhã comum de semana, foi ter com ele à varanda e subiu para o colo do mundo. Teodoro ficou tão parado que Helena, observando da janela, pensou que tinha parado de respirar, mas ele colocou o braço à volta da criança e ficou ali com a Clara ao colo.

Olhando pro pasto, com uma expressão que Helena não precisou de tentar nomear desta vez. Ela já sabia. A conversa mais importante aconteceu numa noite comum. Não havia lua cheia, não havia nada de especial no céu. Havia apenas o riacho a fazer barulho e as crianças a dormir, e os dois na varanda que se tinha tornado o lugar deles sem que tivessem de declarar.

Eu quero pedir-te uma coisa. Helena disse. Fala. Quero que seja honesto comigo sobre uma coisa. Digo o que quiser saber. Pensa na Mariana? Teodoro ficou quieto por um tempo. Penso ele disse, sem hesitar, sem se esquivar. Sempre vou pensar. Foi minha mulher durante 18 anos. Não desapareça. Eu sei. Não estou a pedir que desaparece.

Então, o que é que está a perguntar? Estou a perguntar se quando você pensa nela, o que sente é saudade de um amor que ficou ou saudade de uma vida que não consegue deixar de querer de volta. Ficou em silêncio por um momento mais longo. No início era a segunda coisa. Ele disse: “Por muito tempo não queria seguir, queria aquela vida de volta.

E como não podia, Fiquei parado. Não lhe agora? Agora ele olhou paraa varanda, paraa porta da casa, para onde as crianças estavam dormindo. Agora ainda tenho saudades dela. Mas o que eu quero de volta não é aquela vida específica, é ter vida, ter barulho, ter. Ele parou. Ter o quê? Ter motivo para voltar para dentro de casa quando o trabalho termina.

Ele olhou paraa Helena. E esse motivo existe agora. Ela ficou a olhar para ele. Eu tenho medo de perder de novo. Ela disse: “Eu também”. Ele respondeu. “Mas não recua por causa disso.” “Não”, disse ele, “porque recuei ontem na estrada e não gostei do que senti. E voltei e foi a decisão certa.” Helena ficou a olhar para o riacho.

“Então ficamos”, disse ela. “Não era pergunta.” “A gente fica”, ele confirmou. E foi assim, sem cerimónias, sem promessa excessiva, sem nada que fosse além do que eram, dois adultos que tinham sido quebrados de maneiras diferentes, que se tinham encontrado numa estrada de terra batida num dia comum e que tinham descoberto que, por vezes, o que estava à procura não estava onde esperava, estava onde alguém parou e voltou.

Meses depois, Zé Neco foi encontrar Teodoro no fundo da fazenda. Senhor Teodoro, que foi? Os meninos estão querendo saber se podem ajudar a fechar a cerca do pasto três. Teodoro ergueu a cabeça. Os meninos, o Eliabe e o Mateus, Zenec disse, e havia no tom daquele homem velho e direto alguma coisa que era afeto, embora nunca fosse chamar assim.

O Eliab já sabe fazer, o Mateus ainda não, mas aprende depressa. Teodoro olhou para o peão. Leva-os lá e ensina o Mateus. Tá. O Zeneco foi. Teodoro ficou olhando para o pasto. Lá longe, viu os dois meninos a correr para alcançar Zeneco, que ia à frente com o passo largo de sempre. O Eliabe, que já combinava com o terreno, com a calma. O Mateus, que tropeçou num torrão, se equilibrou e continuou a correr.

Teodoro ficou a olhar por um tempo, depois voltou ao trabalho, mas havia uma coisa no rosto dele que qualquer pessoa que passasse por ali conseguiria ver. Era a mesma expressão que Helena tinha visto naquela primeira noite de jantar, quando ele olhava para as crianças barulhentas à volta da mesa.

Saudade, mas diferente dessa vez. Não era a saudade do que tinha perdido, era a saudade ao contrário. A saudade que sente quando olha paraa frente e percebe com uma espécie de susto silencioso que a vida voltou a ter alguma coisa que valha a pena. Helena estava na varanda quando voltou no final da tarde. Ela estava a costurar alguma coisa.

Noa dormia no chão do lado dela com o Bento encostado às costas. A Clara tinha desenhado giz no chão da varanda e estava a admirar a própria obra. Rebeca lia ao canto. Eliabe e Mateus chegaram logo a seguir a Teodoro, sujos de terra e satisfeitos da maneira que criança fica quando fez alguma coisa real. Teodoro subiu os degraus da varanda, parou, ficou a olhar para tudo aquilo por um momento.

Helena levantou os olhos, os dois entreolharam-se. Cheirou bem do portão, disse, costelinha com mandioca. Não como mandioca, vai comer hoje. E entrou. Clara pegou-lhe na mão no caminho e ele não só não tirou, apertou. Esta é a história de Helena Barros, que foi para a estrada com tudo o que tinha e chegou a casa com mais do que esperava, e de Teodoro Fagundes, que foi embora uma vez e voltou para não ir mais.

E das cinco crianças que ensinaram uma quinta fechada, que barulho às vezes é o sinal de que a vida voltou. Nem tudo se resolve depressa, nem tudo tem final limpo. O processo legal de Helena demorou 11 meses para ser encerrado. Houve audiência que correu mal antes de dar certo. Houve um dia em que Ranierei ainda aparecia e precisava de resposta.

Houve dia em que Helena chorou sozinha no casa de banho, porque o cansaço de tudo chegou de uma vez, mas ela não foi sozinha e isso mudou tudo. Se você chegou até aqui, muito obrigado por assistir até ao final. Esta história foi feita com muito cuidado e carinho para você. Se ela te tocou de alguma forma, se sentiu alguma coisa, se se viu em alguma personagem, se lhe simplesmente gostou, faz uma coisa por mim, subscreve o canal, curte este vídeo, comenta aqui em baixo o que achou, o que o emocionou, o que levou desta história e ativa o sininho

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Cuida de si. M.

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