Naquele momento existia apenas eles os dois. William apertou o volante com força, tentando desesperadamente afastar a lembrança que ardia, mas outra veio logo de seguida, ainda mais dolorosa, ainda mais visal. Ele lembrou-se da primeira vez que fizeram amor após a perda de Pietro. Foram apenas três semanas depois do funeral.
Um funeral pequeno demais, demasiado rápido para uma vida tão breve. A Nina estava deitada na cama que dividiam há anos de costas para ele, o corpo encolhido em posição fetal, como se quisesse desaparecer dentro de si mesma. William aproximou-se devagar, inseguro, sem saber se lhe devia tocar, se ela o queria por perto.
Ela virou o rosto devagar e os olhos dela estavam vermelhos, inchados de tanto chorar, completamente perdidos num lugar escuro, onde não conseguia alcançá-la. Eu preciso de sentir alguma coisa para além da dor. Ela sussurrou com a voz entrecortada, estrangulada. Só por um minuto, Guilherme. Só um minuto. Faz-me esquecer. Por favor, faz-me esquecer.
Eles fizeram amor desesperadamente naquela noite. Entre lágrimas silenciosas e suspiros sufocados, cada toque carregado de tudo o que não conseguiam dizer em voz alta. Não foi bonito, não foi romântico, foi cru, doloroso, desesperado, necessário. E quando terminou, Nina virou-se de costas novamente e chorou até adormecer, o corpo sacudindo em soluços que ela tentava abafar na almofada.
Guilherme esteve acordado a noite inteira, apenas segurando-a por trás, sentindo o corpo dela tremer, desejando ter qualquer palavra mágica, qualquer gesto que pudesse reparar, o que estava irremediavelmente quebrado entre eles, mas não tinha. E com o passar dos dias, das semanas, dos meses, simplesmente deixou de tentar.
Mergulhou a fundo no trabalho, nas cirurgias intermináveis, nos turnos que duravam dias. qualquer coisa para não sentir, para não se lembrar, para não encarar o facto brutal de que estava falhando com ela todos os dias um pouco mais. O rádio do carro tocava uma música qualquer que ele nem sequer prestava atenção, até que uma frase cortou o silêncio como uma lâmina afiada.
Atenção a um comunicado urgente. O voo Azedo 2847 da A Azul Airlines realizou aterragem de emergência no aeroporto Salgado Filho após falha hidráulica grave. Equipes de socorro e bombeiros estão no local neste momento. Há relatos iniciais de múltiplas vítimas a serem encaminhadas para os hospitais da região.
Repetimos voa Z28:47. O mundo inteiro deixou de girar. Guilherme conhecia aquele número. Estava gravado na mensagem que a Nina enviou de manhã. Vou a Z847. Embarque às 14as. As mãos dele tremeram violentamente ao volante. O coração disparou tão depressa que sentiu dor no peito. Sem pensar, pisou fundo no acelerador, desviando-se de carros, acelerando em sinais amarelos, com apenas um pensamento a martelar sem parar na sua cabeça. Nina.
Nina, Nina, pela primeira vez em exatamente dois anos, desde aquele dia horrível em que Pietro deixou de respirar nos braços dele, William sentiu algo para além do vazio gelado que o consumia por dentro. Sentiu medo, puro obsteral, absolutamente devastador. E enquanto o hospital se aproximava rapidamente no horizonte, uma certeza o atingiu como um murro direto no estômago.
Ele não podia perdê-la. Não assim. Não, antes de dizer tudo o que engoliu durante tanto tempo, não sem lutar por ela. Uma última vez, William estacionou o carro de qualquer maneira na vaga reservada aos médicos, nem se deu ao trabalho de trancar as portas. Suas pernas levaram-no a correr para dentro do hospital, como se tivessem vontade própria, o coração a martelar, tão forte contra as costelas que mal conseguia respirar direito.
A gravata ainda estava no pescoço, demasiado apertada. a camisa social amarrotada do dia inteiro. E ele não se importava com nada disso. A emergência era um caos controlado. Macas por todos os lados, enfermeiros a correr com bolsas de soro erguidas, para médicos gritando informações sobre sinais vitais, familiares em lágrimas sendo contidos por seguranças.
O cheiro de sangue misturado com desinfetante hospitalar impregnava o ar de uma forma que William conhecia bem. Cheiro de tragédia, de vidas penduradas por um fio. Tomás Ferreira, o seu melhor amigo desde os tempos de internato médico, o intercetou antes mesmo de ele chegar à recepção. Segurou William pelos ombros com força, obrigando-o a parar, a focar.
Gabi, ouve. Escuta com atenção. A voz de Thomás era firme, mas os olhos mostravam preocupação. Eu sei que foi o voo dela, mas não pode operar. Você sabe disso. Deixa a equipa do Cardoso assumir. William soltou-se com um movimento brusco. Quantas vítimas! 17 feridos, três em estado crítico. Tomás hesitou antes de continuar.
Ela está vindo na segunda ambulância. Chega em menos de 5 minutos. Então eu tenho cinco minutos para me preparar. Guilherme já estava a caminhar em direção ao balneário quando Tomás o puxou para trás. Você não está a ouvir. Não pode operar a sua ex-mulher. Justamente por isso, preciso de estar lá. Tomás. A voz de William saiu mais alta do que pretendia, chamando a atenção de alguns funcionários ao redor.
Ele respirou fundo, obrigando-se a baixar o tom. Se alguém lhe vai salvar a vida, vou ser eu. Não. Um estranho que não conhece o histórico dela, que não sabe que tem alergia grave ao contraste iodado, que não sabe da arritmia benigna, que pode confundir qualquer monitor cardíaco. Tomás abriu a boca para argumentar, mas fechou logo de seguida.
conhecia aquele olhar determinado no rosto do amigo. Está bem, mas eu entro contigo na sala e se em algum momento vacilar, se eu perceber que as suas mãos estão tremendo, tomo-lhe o bisturi. Acordo? acordo. 6 minutos e 43 segundos depois, William estava com as mãos enluvadas, máscara cirúrgica na face, paramentado e aguardando à porta da sala de trauma quando a maca da Nina foi empurrada para dentro por dois paramédicos ofegantes.
Que nada, absolutamente nada nos seus 15 anos de carreira em cardiologia. Poderia tê-lo preparado para ver Nina daquela forma. Estava pálida como papel, os lábios sem cor. O cabelo escuro colado no rosto pelo suor e pelo sangue. Tinha um colar cervical imobilizando o pescoço, ligaduras improvisadas no tórax já encharcadas de vermelho e os braços cobertos de cortes e hematomas.
Estava inconsciente, ligado a uma máquina portátil de ventilação e o som do sinal sonoro irregular dos monitores cardíacos soava como uma sentença de morte iminente. Guilherme aproximou-se. E as suas mãos? Mãos que já realizaram centenas de cirurgias complexas sem tremer, tocaram no pulso dela para verificar o fluxo sanguíneo.
E reconheceu aquele pulso. Conhecia cada batida daquele coração. Conhecia o ritmo dele quando ela estava calma, quando estava ansiosa, quando estava apaixonada. Tinham passado 10 anos ouvindo aquele coração bater sobre os seus ouvidos enquanto dormiam abraçados. E agora esse coração estava a falhar. Saturação em 89% e em queda anunciou a enfermeira ao lado.
Pressão arterial 80x 50, taquicardia sinusal, TAC de emergência, ecografia torácica, casometria arterial. Agora a voz de Guilherme saiu firme. Clínica completamente no controlo. Era o médico falando: “Não, o homem destroçado por dentro. Preparem o bloco operatório dois. Vou precisar de dois residentes. Instrumentista experiente, anestesista sior. 5 minutos, ó.
O seu estam confirmaram o que William já suspeitava pelo padrão dos ferimentos. tamponamento cardíaco. O pericárdio, a membrana que envolve o coração, estava lacerado e sangue estava a acumular-se rapidamente em redor do órgão, comprimindo-o, impedindo-o de bombear adequadamente. Se não fosse drenado e reparado imediatamente, Nina teria minutos de vida, talvez menos.
A cirurgia começou às 18:17. William fez a primeira incisão com precisão milimétrica, abrindo caminho através da pele, do músculo, das costelas. Cada movimento era calculado, cada decisão tomada em frações de segundo. Ele não podia errar, não tinha direito de errar. Aos 43 minutos de cirurgia, tudo se desmoronou. Os monitores começaram a apitar freneticamente.
A A pressão arterial de Nina despencou de forma brutal. 60 por 40, 50 por 30. O coração estava a falhar, a perder força, desistindo. Estamos a perdê-la. A voz do anestesista soou distante, abafada pelo barulho do sangue a correr nas veias de William. Ele não hesitou nem por um segundo. Adrenalina 1 mg, massagem cardíaca interna agora.
E então William fez algo que muito poucos cirurgiões fazem na vida. Colocou a mão diretamente sobre o coração de Nina. sentiu o músculo fraco, trémulo, lutando para continuar a bater e começou a massajá-lo manualmente, ritmicamente, aplicando a pressão exata necessária para forçar o sangue a circular. “Volta para mim, amor”, sussurrou tão baixo que ninguém, além dele próprio, ouviu.
“Não deixa-me não agora. Não assim eu ainda não disse. Eu ainda não.” 15 segundos de massagem, 30 segundos. 45.º A sala inteira estava em silêncio sepulcral, todos os olhos fixos nos monitores. E depois, como um pequeno e improvável, o monitor apitou uma vez, duas vezes. Um ritmo irregular, mais presente.
Ritmo sinusal restaurado, anunciou o anestesista. A voz carregada de alívio. Frequência cardíaca 78. Pressão a subir 80 por 50 e estabilizando. Guilherme fechou os olhos durante exatamente 3 segundos, permitindo-se apenas isso antes de voltar ao trabalho. Continuamos. Vamos reparar a laceração do pericárdio antes que aconteça de novo.
A cirurgia estendeu-se por mais 6:57. 6 horas durante as quais William suturou, cauterizou, reparou cada milímetro de tecido danificado com a precisão obsessiva de quem estava operando não apenas um doente, mas o própria razão de ainda estar vivo. Quando finalmente saiu do centro cirúrgico, eram quase 11 da noite. Suas pernas tremiam de exaustão, as costas doíam de estar curvado sobre a mesa por tanto tempo.
E mal se lembrava quando tinha comido ou bebido água pela última vez. O Tomás encontrou-o no corredor, ainda com a roupa cirúrgica. Ela está estável. Conseguiste, Gabi. Salvou ela. Guilherme não respondeu. Apenas deslizou pela parede até se sentar no chão frio do hospital, tirou a máscara cirúrgica com mãos trémulas e só então permitiu que as lágrimas viessem.
Pela primeira vez em dois anos chorou. Chorou pela Nina, pelo Pietro, por tudo que perdeu e quase perdeu outra vez. E foi exatamente nesse momento que uma enfermeira aproximou-se, segurando uma saco plástico transparente. O Dr. Andrade, estes são os pertences pessoais da doente Nina Souza. O senhor ainda consta como contacto de emergência.
Tem um telemóvel aqui. A tela está rachada, mas ainda está ligado. Guilherme pegou no aparelho com as mãos trémulas e viu algo que mudaria tudo. Guilherme ficou encarando o ecrã rachado do telemóvel de Nina durante demasiado tempo, os dedos hesitantes sobre o vidro partido que formava uma teia de aranha perfeita.
Ele sabia que não devia olhar. Sabia que era invasão de privacidade que atravessava todas as linhas éticas possíveis, mas as suas mãos ignoraram completamente a voz da razão. O aplicativo de notas estava aberto e lá bem no topo estava um ficheiro com o título que fez o coração de William dar um solavanco doloroso para William não enviar apenas escrever.
Ele rolou o ecrã, os olhos devorando cada palavra com uma urgência faminta, desesperada. Guilherme, estou escrevendo isto no táxi a caminho do aeroporto porque preciso de o colocar para fora, mesmo sabendo que nunca vou ter coragem de te mostrar. Eu menti-lhe. Menti quando disse que já não te amava. Menti quando disse que precisava de me encontrar.
Menti quando disse que o Porto Alegre tinha-se tornado demasiado pequena para mim. William teve de parar de ler por um momento, apoiando a cabeça contra a parede fria do corredor. Respirou fundo, obrigando o ar a entrar nos pulmões que pareciam ter esquecido como funcionar. A verdade, eu amo-te tanto que dói fisicamente, mas cada vez que tu olhas para mim, eu vejo o Pietro refletido nos seus olhos.
Vejo o filho que não conseguimos manter vivo. E sei, eu sei que vês a mesma coisa quando olha para mim. Nós tornamo-nos lembretes vivos da pior coisa que já aconteceu e eu já não aguento ser a razão da sua tristeza. As palavras começaram a embaciar. Guilherme limpou os olhos com as costas da mão, manchando a pele com resquícios de sangue seco que ainda estava debaixo das unhas, e continuou lendo. Mereces alguém leve, Gabi.
Alguém que o faça rir sem esforço, alguém que não transporte fantasmas. E eu nunca vou ser essa pessoa, não depois de Pietro. Então vou-me embora, não porque quero, mas porque te amo o suficiente para te libertar de mim. Talvez em São Paulo, sem me ver todos os dias, consiga respirar de novo.
Talvez encontre alguém que te faça feliz de verdade. Perdoa-me por ser cobarde. Perdoa-me por não conseguir salvar o nosso casamento. Me perdoa por não o conseguir salvar de mim. Amo-te hoje, amanhã e em todas as vidas que não acredito que existam. Havia um pós escrito que William quase não conseguiu ler por entre as lágrimas.
Pés, a culpa nunca foi sua. Sobre Pietro, sobre nada. A culpa é minha por não conseguir superar, por ter quebrado quando precisavas que eu fosse forte. Perdoa-me. Guilherme leu a carta três vezes completas e a cada leitura, um pedaço dele que estava morto há dois anos começou a doer outra vez. Porque a dor significava que ainda estava vivo, significava que ainda sentia alguma coisa.
A Nina não o deixou porque deixou de amá-lo. Ela deixou-o porque amava demais. E tinha sido cego, surdo, completamente idiota de não perceber. Dr. Andradey? A voz suave da enfermeira trouxe-o de volta. O senhor está bem? Precisa de alguma coisa? Ele limpou o rosto rapidamente, tentando recuperar alguma compostura. Guarda isso no cofre de pertences, sela e não deixa ninguém mexer.
Quando ela se afastou, Tomás deslizou pela parede e sentou-se ao lado de William, os dois no chão gelado do corredor, parecendo dois residentes exaustos após um turno impossível. Não vai para casa, certo? O Tomás já conhecia a resposta. Não posso. E se ela tiver complicações durante a noite? E se a equipa da UCI é excelente, sabe disso.
Eu sei, mas preciso de estar aqui. William olhou para o amigo e, pela primeira vez permitiu que toda a vulnerabilidade transparecesse. Tomás, Li algo que não era para mim no telemóvel dela. O quê? Uma carta. Ela escreveu uma carta dizendo que ainda me ama, que partiu por amor, não por desamor. E eu deixei-a ir, simplesmente deixei.
O Tomás ficou em silêncio por um longo momento, processando. E o que vai fazer agora? Não sei. Ela vai acordar-me odiando por ter invadido a privacidade dela, por ter lido algo que era só dela. Ou vai acordar grata por estar viva. E talvez, só talvez vocês os dois finalmente possam ter a conversa. honesta que deveriam ter tido há dois anos.
Guilherme passou a mão pelo rosto, cansado de um maneira que não tinha nada a ver com a cirurgia de 7 horas. Eu falei com ela completamente. Ela estava a afogar-se e fingi que não via, porque era mais fácil fingir que trabalhar era mais importante do que enfrentar a dor. Você sabe que ela também se afastou, não é? Não foste só tu, mas eu deveria ter lutado.
Deveria tê-la segurado e dito: “Não, vamos passar por isto juntos, mesmo que seja horrível”. Em vez disso, eu fugi para dentro do bloco operatório e deixei-a sozinha com os fantasmas. Tomás suspirou, levantando-se e estendendo a mão para ajudar William a fazer o mesmo. Olha, não sei o que vai acontecer quando ela acordar, mas eu sei que acabaste de salvar a vida dela.
Isto tem que contar para alguma coisa. Nessa noite, William não foi paraa casa. Pediu emprestado um casaco limpo, conseguiu um travesseiro fino e um cobertor áspero e instalou-se na poltrona desconfortável da sala de espera da UCI. De onde estava, conseguia ver através do vidro a cama onde Nina repousava, ligada a uma infinidade de máquinas que apitavam suavemente no silêncio da madrugada.
E foi aí, sob a cruel luz fluorescente das 3 da manhã, que William puxou um bloco de papel e uma caneta do bolso da bata. As suas mãos ainda tremiam ligeiramente, mas ele começou a escrever: “Nina, não sei se vais ler isso algum dia. Não sei sequer se deveria estar a escrever, mas preciso colocar no papel tudo o que nunca disse em voz alta.” Começando por Pietro.
A caneta deslizou pelo papel e as palavras começaram a jorrar como uma barragem finalmente rompida. Ele escreveu sobre o dia em que o Pietro nasceu, tão pequeno, tão frágil, cabendo inteiro nas duas mãos de Guilherme. escreveu sobre as 48 horas em que lutou bravamente sobre como William segurou o filho pequenino e sentia um amor tão avaçalador, tão imenso, que não sabia que era possível amar daquela maneira.
Escreveu sobre a dor insuportável quando o coraçãozinho parou de bater, sobre como se sentiu completamente impotente, incapaz um cardiologista, e não conseguiu salvar o próprio filho. escreveu sobre a culpa que o consumiu, sobre como se fechou emocionalmente, porque simplesmente não sabia como lidar. Com aquela intensidade de sofrimento, fechei-me porque tinha medo, Nina, medo de sentir tudo aquilo outra vez, medo de te olhar e ver a dor refletida nos seus olhos e não ter nada para oferecer para além da minha própria dor.
Então fugi não para longe fisicamente, mas para dentro do trabalho, para dentro das cirurgias. para qualquer lugar onde eu não precisasse de sentir. E no processo de tentar não sentir dor, deixei de sentir tudo. Inclusive você, perdoa-me. Assinou apenas com W e dobrou o papel com cuidado, guardando-o no bolso.
Era a primeira carta. Sabia que haveria muitas outras nas noites que se avizinhavam. Porque pela primeira vez em dois anos, William tinha algo por que esperar, a hipótese de Nina acordar. e talvez apenas talvez a hipótese de finalmente dizer a verdade. Os primeiros raios de sol do quinto dia entraram pela janela da UCI como uma promessa tímida.
Guilherme estava exatamente onde passara os últimos 96 horas, alternando entre a poltrona desconfortável da sala de espera e breves sestas no sofá da sala dos médicos. O Tomás tinha trazido roupa limpas no segundo dia, alimentos que ele mal tocou e café que era a única coisa mantendo-o minimamente funcional. Ele tinha escrito quatro cartas, quatro confissões que Nina talvez nunca lesse, mas que ele precisava de exteriorizar como se a sua própria sanidade mental dependesse disso.
Foi a enfermeira Carla do turno da manhã, quem veio a correr para a sala de espera com os olhos arregalados. O Dr. Guilherme, ela está a acordar. Os sinais vitais mudaram. Ela está a apresentar resposta a estímulos. Guilherme levantou tão depressa que ficou tonto por um segundo.
Quando chegou à porta da UCI, A Marcela já lá estava. tinha chegado de São Paulo na noite anterior, os olhos inchados de chorar, alternando entre raiva e desespero. Ela olhou para William com um misto de emoções que não conseguiu decifrar completamente. “Você fica do lado de fora”, disse ela com firmeza, mas sem a hostilidade que ele esperava.
Quando ela acordar, não pode ser você a primeira coisa que ela vê. Não, depois de tudo. William queria discutir, mas sabia que A Marcela tinha razão. Então ficou ali do outro lado do vidro, as mãos apoiadas na superfície fria. Observando, Nina começou a mexer-se devagar. Primeiro apenas os dedos, depois a cabeça virando ligeiramente de um lado para o outro.
Os olhos começaram a abrir-se lentamente, confusos, lutando contra a luz. Ela tentou falar, mas o tubo de intubação ainda lá estava, impedindo qualquer som de sair. O pânico instalou-se imediatamente nos olhos dela. Marcela segurou a mão da irmã com força. Calma, calma. Está no hospital. Teve um acidente, mas já está tudo bem.
Você está segura. A equipa médica entrou rapidamente e William observou de fora enquanto removiam o tubo com cuidado. Nina torciu violentamente, todo o corpo contraindo-se com o esforço e William sentiu cada tosse como se fosse nele mesmo. Quando ela finalmente conseguiu respirar sozinha, a primeira palavra que saiu da garganta rouca foi: “O avião aterrou de emergência.
Está em Porto Alegre. Nos moinhos de vento. Marcela limpou as lágrimas do próprio rosto enquanto segurava a irmã. Você quase a gente quase te perdeu. A Nina processou a informação lentamente, o olhar ainda confuso a percorrer a sala, catalogando os tubos, as máquinas, os pensos. E depois os seus olhos encontraram o vidro e encontraram o Guilherme.
O mundo inteiro pareceu parar naquele segundo infinito. Os olhos de Nina e ainda com aquele tom de verde acinzentado que William sempre amou. Arregalaram ligeiramente surpresa, confusão, algo mais que ele não conseguiu identificar. Ele levantou a mão lentamente, colocando a palma contra o vidro. Um pequeno gesto, simples.
Estou aqui o gesto dizia. Estou aqui. Você está viva. A Nina olhou para a mão dele no vidro e, por momentos, apenas um breve momento, a sua própria mão moveu-se como se fosse fazer o mesmo. Mas depois ela parou a meio do caminho, os dedos tremendo no ar, e deixou cair a mão de volta para a cama.
Os seus lábios se moveram, formando uma única palavra que William conseguiu ler perfeitamente, mesmo através do vidro, mesmo sem som. Por quê? Por que razão está aqui? Porque me salvou? Porque não me deixou ir? Guilherme não tinha resposta. Ainda não. Então apenas ficou ali. A mão ainda no vidro, os olhos fixos nela, tentando transmitir tudo o que não conseguia dizer.
Marcela olhou para o vidro, depois para Nina. Foi ele que o operou. 7 horas de cirurgia. Teve tamponamento cardíaco. O seu coração parou duas vezes sobre a mesa. Ele Ele trouxe-te de volta. Nina fechou os olhos, uma lágrima solitária a escorrer pelo canto e desaparecendo na almofada hospitalar. Quando os voltou a abrir, havia raiva misturada com algo que parecia dor.
Ela olhou diretamente para William e abanou a cabeça devagar, um movimento quase imperceptível. Não, não te quero aqui. Guilherme sentiu o golpe como se fosse físico, mas acenou com a cabeça, compreendendo, respeitando. Tirou a mão do vidro, deu um passo atrás e se afastou. Nos três dias seguintes, Nina recusou-se a falar com ele.
Recusou até que ele entrasse no quarto. Marcela servia de intermediária para tudo. Resultados de exames, ajustes de medicação, evolução clínica. Guilherme respeitava o espaço, mas não se ia embora. Continuava no hospital. assumindo outros doentes, mas sempre por perto. E a cada três dias, quando Marcela não estava a olhar, ele deixava um bouquet pequeno de lírios brancos na recepção da UCI, com instruções para que fossem entregues à Nina, sem bilhetes, sem mensagens, apenas as flores, lírios brancos, as mesmas flores que compunham
o bouquet do casamento deles 10 anos atrás. Na primeira vez, a Marcela trouxe as flores de volta. Ela não quer. Na segunda vez, as flores ficaram na mesinha de cabeceira durante algumas horas antes de desaparecerem. Na terceira vez, quando Marcela entrou no quarto transportando o bouquet, encontrou Nina acordada, sentada na cama, segurando um envelope que ela reconheceu imediatamente.
“O que é isto?”, Marcela perguntou. A Nina olhou para a irmã com olhos vermelhos inchados. Cartas. Ele escreveu-me cartas. A enfermeira do turno da noite entregou, disse que ele pediu-lhe para me dar quando eu me sentisse pronta. E leu? Liu uma. A Nina segurou o papel com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A número sete sobre o Pietro.
Marcela sentou-se na beira da cama, colocando as flores no colo da irmã. E o que ela dizia? Nina respirou fundo, a voz saindo-lhe trémula, carregada. Ele escreveu sobre o dia em que o Pietro nasceu, sobre como segurou-o pela primeira vez e achou que o coração ia explodir de tanto amor. Sobre as 48 horas, cada minuto, cada segundo, sobre como segurou a mãozinha pequenino e cantou uma música idiota que a mãe costumava cantar-lhe quando era criança.
Ela parou, limpando as lágrimas que agora caíam livremente. Escreveu que quando Pietro parou de respirar, quis morrer junto, que passou dois anos a desejar ter morrido no lugar dele e que se fechou emocionalmente porque não conseguia processar aquela dor sem implodir completamente. Marcela segurou a mão da irmã em silêncio.
Ele nunca me contou nada disso, céu. Nada. A gente perdeu o nosso filho e ele simplesmente desligou, desapareceu para dentro do trabalho e eu achei que não se importava. que para ele era mais fácil seguir em frente. Nina olhou para as flores que tinha no colo, mas ele estava a afogar-se também e nenhum de nós vimos.
O que vai fazer? Nina ficou em silêncio por um longo momento, apenas olhando para os lírios brancos. Já não sei, mas acho que preciso de ler o resto. As outras cartas. Naquela noite, quando William passou pelo corredor da UCI às 2 da manhã, ele ainda não conseguia dormir em casa. Viu através do vidro Nina acordada, sentada na cama, com vários papéis espalhados à volta.
Ela estava a ler as cartas e quando ela levantou os olhos e viu-o ali parado no corredor, pela primeira vez em oito dias, ela não desviou o olhar. Eles ficaram assim, apenas se olhando através do vidro, durante demasiado tempo. E depois Nina fez algo que fez o coração de William dar um salto doloroso.
Colocou a mão no vidro do lado de dentro. No démo dia após o acidente, Nina mandou finalmente um recado através da Marcela. Diz para ele que pode entrar. Guilherme estava no meio de uma consulta de rotina quando recebeu a mensagem. Encerrou a conversa com o doente mais rapidamente do que deveria.
Pediu desculpa pelo atropelo e praticamente correu pelos corredores do hospital até à ala da UCI. Quando chegou à porta do quarto, teve de parar por um momento, obrigando-se a respirar. tentando acalmar o coração que batia tão descompassado quanto na noite da cirurgia. Bateu de leve na porta, mesmo sabendo que ela já esperava. Posso entrar? Pode.
A voz de Nina estava mais forte agora, menos rouca, mas ainda carregava um cansaço profundo que não não tinha nada a ver com o corpo e tudo a ver com a alma. Ela estava sentada na cama, recostada em almofadas, o cabelo apanhado num coque bagunçado, usando um roupão hospitalar cinzento sobre o avental azul. Os pensos no tórax eram ainda visíveis pelo decote, que havia uma tipóia leve segurando o braço esquerdo por causa de uma fratura menor no ombro, mas eram os olhos que mais chamaram a atenção de Guilherme.
Estavam diferentes, ainda magoados, ainda cansados, mas também determinados. como se ela tivesse tomado alguma decisão importante e agora estava pronta para executá-la. “Olá”, disse ele, “porque não não conseguiu pensar em mais nada inteligente.” “Olá!” O silêncio que se seguiu foi sufocante, pesado, carregado de tudo que nenhum dos dois sabia como começar a dizer.
Guilherme ficou parado perto da porta, as mãos enfiadas nos bolsos da bata branca, tentando desesperadamente parecer mais confiante do que se sentia. Foi Nina quem quebrou o silêncio e quando o fez, não foi com gentileza. Leu a minha carta? Não era pergunta, era afirmação, acusação. Guilherme não tentou negar. Li estava no meu telemóvel, era privado.
A voz dela estava controlada, mas conseguia ouvir a raiva a ferver logo abaixo da superfície. Eu sei e foi errado, mas Nina, o telemóvel estava aberto quando chegou à emergência. A policial me entregou porque eu ainda estava como contacto de emergência e quando o vi parou, respirou fundo. Eu precisava entender por si estava a ir embora.
Não tinha direito. A Nina apertou os lençóis entre os dedos, os nós dos dedos ficando brancos. Aquelas palavras eram minhas. Os meus sentimentos. Você não tinha direito de lá entrar e simplesmente simplesmente pegar. Tem razão. Não tinha. E se pudesse voltar atrás? Eu Ele parou. Não, não ia mentir.
Na verdade não. Mesmo sabendo que era errado, eu li. Porque estava desesperado, Nina. Porque estava inconsciente, possivelmente morrendo. E eu precisava saber, precisava de compreender. Entender o quê? A voz dela subiu uma oitava. Que eu ainda te amo, que sou demasiado patética para conseguir seguir em frente, entender que estava a se sacrificando.
Guilherme deu um passo à frente, começando a contenção a rachar. Não me estavas a deixar porque não amava-me. Estava a deixar-me porque amava demais. É isso, Nina. Isso muda tudo. Não muda nada. Ela estava a gritar agora, as lágrimas a começar a escorrer. Eu ainda sou a mesma pessoa quebrada que não conseguiu superar a perda do nosso filho.
Você ainda é o mesmo homem que se fechou e desapareceu para dentro do trabalho. Nada mudou, Guilherme. Absolutamente nada. Eu mudei. A voz dele saiu mais alta do que pretendia. Euando no quarto pequeno. Respirou fundo, forçando-se a baixar o tom. Nina, estive dois anos com tanto medo de sentir qualquer coisa que preferi não sentir nada.
E você interpretou isso como se eu o culpasse pela morte do Pietro, mas nunca, nunca te culpei. Então, quem é que culpava? A mim próprio. A confissão saiu crua, desprotegida. Eu culpava-me por não conseguir salvá-lo, por ser um maldito cardiologista e não conseguir fazer o coração do meu próprio filho continuar a bater.
Culpava-me por não conseguir arranjar-te, por não conseguir arranjar-nos. A Nina abanou a cabeça, mais lágrimas a cair. Não era o seu trabalho me consertar, William, mas era o meu trabalho aparecer. Era o meu trabalho estar presente, segurar-te, chorar junto, qualquer coisa menos desaparecer. Aproximou-se da cama, mas ainda assim mantendo a distância.
Você está certa sobre isso? Eu falhei completamente, mas sobre ser a causa da minha infelicidade. Nina, és a única coisa que já me fez genuinamente feliz. E eu deitei isso fora por puro medo. Medo de quê? de sentir, de viver, de arriscar ser feliz e perder de novo. Guilherme olhou-a diretamente nos olhos. Porque se eu me permitisse amar-te completamente, abertamente e depois te perdesse também, não sobreviveria.
Então preferi fechar-me antes que você me deixasse. Mas deixei-te de qualquer maneira, porque eu empurrei-te para longe primeiro. Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado consigo próprio. A gente fez tudo mal, Nina. Você tentou proteger-me indo embora. Eu tentei me proteger desaparecendo emocionalmente.
E no fim estávamos os dois apenas sozinhos, assustados, fingindo que estava tudo bem. Nina ficou em silêncio durante um longo momento, apenas olhando para as próprias mãos. Quando finalmente falou, a voz saiu pequena, vulnerável. Eu amava-te tanto que metia medo, William, e tu simplesmente desapareceu.
Você estava ali fisicamente a dormir na mesma casa, mas tinha desaparecido e eu já não sabia como te alcançar. Eu sei. Ele aproximou-se mais um passo e nunca me vou perdoar por isso, por te ter abandonado quando tu mais precisava de mim. E agora? O que mudou? Porque é que agora quer aparecer? William hesitou, escolhendo as palavras com cuidado, porque quase te perder me acordou, literalmente.
Quando ouvi no rádio que o seu avião tinha caído pela primeira vez em dois anos, senti algo para além de vazio, senti terror, senti desespero e percebi que preferia sentir dor, sentir medo, sentir qualquer coisa. Era o que voltar para aquele vazio. Tirou um envelope grosso do bolso da bata, as 15 cartas que tinha escrito.
Eu escrevi-lhe toda a noite desde o acidente. Não são desculpas, são tudo o que eu deveria ter dito nos últimos dois anos e não disse. Sobre o Pietro, sobre nós, sobre como eu sinto-me. Guilherme colocou o envelope na mesinha de cabeceira. Não precisa ler agora. ou nunca se não quiser. Mas precisava que soubesse que elas existem, que finalmente pus para fora tudo o que estava preso dentro de mim.
Nina olhou para o envelope como se fosse uma granada prestes a explodir. Guilherme, não tem de responder nada. Não estou a pedir perdão. Não estou a pedir uma segunda oportunidade. Só estou a pedir que que conheça. Aripukabiras. Verdade. Antes de decidir o que Z por mim. Dirigiu-se até à porta, a mão na maçaneta. Eu vou sair agora.
Mas a Nina, só mais uma coisa. Ela levantou os olhos esperando. Li a sua carta e percebi uma coisa. Estavas a amar-me da única forma que achava que podia, deixando-me ir. E eu estava a amar-te da única forma que achava que podia, deixando-o em paz. A sua voz falhou um pouco e no fim estávamos os dois errados.
Porque o amor não é sobre deixar ir, é sobre segurar mesmo quando dói. Ele abriu a porta pronto para sair. Guilherme. Ele parou, mas não se virou, limitou-se a esperar. Obrigada por ter lutado por mim naquela mesa de operações, por não ter desistido. Fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras, sempre, e saiu fechando a porta suavemente atrás de si, deixando Nina sozinha com 15 cartas que talvez mudassem tudo, ou talvez não mudassem nada.
Mas, pelo menos finalmente, a verdade estava sobre a mesa. A Nina passou duas noites inteiras lendo e relendo as 15 cartas. Cada uma era como descascar uma camada de cebola, revelando partes de William que ela pensava conhecer, mas que, na verdade, nunca tinha visto completamente. Ele escreveu sobre Pietro com uma honestidade brutal que fez o coração dela se partir de novo sobre como segurou o filho pequenino e sentiu pela primeira vez na vida um amor tão grande que não cabia dentro do peito.
escreveu sobre a culpa irracional de não conseguir salvá-lo, sobre as noites em que ficava acordado, repassando cada detalhe médico, procurando onde tinha errado, mesmo sabendo que não tinha erro, sobre como se sentia um falhado como pai, como médico, como homem. Mas foi a carta 12 que quebrou Nina completamente, aquela que dizia em letras claras e diretas: “Amo-te, presente não passado, porque nunca parou, nem por um segundo, mesmo quando estava frio, distante, escondido no trabalho, amava-te.
Só não sabia mais como demonstrar sem me despedaçar no processo. A Nina dobrou a carta com cuidado, voltou a colocá-lo no envelope e, pela primeira vez em anos, permitiu-se considerar a possibilidade impossível. E se tentássemos de novo? No 13º dia, Marcela entrou no quarto trazendo café e encontrou a irmã acordada, sentada na cama, olhando pela janela com aquela expressão distante que ela conhecia bem.
Leu todas? – perguntou Marcela, apontando para o envelope na mesinha. Todas três vezes. E Nina virou-se para a irmã, os olhos vermelhos mais secos. Não tinha mais lágrimas sobrando. Ele não é o bom da fita da história, céu. Ele falhou comigo. Falhou feio. Eu sei. Mas eu também falhei com ele.
A Nina passou a mão pelo cabelo, frustrada. Eu fechei-me tanto quanto ele. Tranquei-me no quarto, parei de trabalhar, deixei de viver. E quando ele tentava aproximar-se, eu empurrava-o para longe, porque doía demasiado ser vista daquela maneira, quebrada, patética, incapaz de superar. Marcela sentou-se na beirada da cama.
Então, o que vai fazer? Não sei. Ele disse que não está pedindo uma segunda oportunidade, mas acho que acho que quero dar uma. A Nina olhou para a irmã vulnerável. Sou idiota? Não, você é humana. Marcela segurou a mão dela. Olha, eu passei os últimos dois anos a ver-te definhar, a ver-te virar uma sombra do que eras e fiquei com raiva dele por isso.
Mas ontem eu conversei com o Thomás, o melhor amigo do William, e ele contou-me coisas sobre como o William estava destruído, também sobre as crises de pânico que tinha escondido na casa de banho do hospital, sobre como recusava folgas porque ficar em casa significava encarar o quarto vazio do Pietro.
Marcela apertou a mão da irmã. Vocês os dois estavam a afogar-se, Nina, só que cada um afundou sozinho, pensando que estava a proteger o outro. Nessa tarde, a Nina pediu que uma enfermeira chamasse William. Quando ele chegou, ainda de bata, provavelmente tinha saído de uma cirurgia. Ela já tinha tomado uma decisão. “Senta-te”, ela disse, apontando para a cadeira ao lado da cama.
William sentou-se tenso, esperando. Eu li todas as cartas. Nina respirou fundo. É preciso dizer-te uma coisa. Antes de qualquer outra conversa. Tudo bem. Eu não vou a São Paulo. O rosto de William mudou tão depressa que seria cómico em qualquer outra situação. Surpresa, esperança, medo, tudo ao mesmo tempo. O quê? Cancelei.
Liguei para empresa ontem. Expliquei a situação. Eles foram compreensivos. A Nina ajeitou o almofada atrás das costas, ganhando tempo. Mas não estou a ficar por tu, Guilherme. Não, ainda estou a ficar porque percebi que estava a fugir de novo. Ele assentiu devagar, processando. Entendo. Eu quero tentar contigo, mas não da forma que era antes.
Não posso voltar para aquele apartamento cheio de fantasmas. Não posso voltar àquela vida onde mal se falava. Então a gente cria uma nova. William inclinou-se para a frente. Os cotovelos nos joelhos, uma vida diferente. De raiz, com regras. Nina tirou um papel dobrado do criado mudo. Ela tinha preparado aquilo.
Regras não negociáveis. OK. Quais? Primeira, terapia de casal semanal. No mínimo seis meses. Sem faltas, sem desculpas, sem estou ocupado no hospital. Concordo. Segunda, não vivemos juntos imediatamente. Você fica no seu apartamento ou aluga outro. Eu alugo um lugar para mim. A gente namora, reconstrói, mas com espaços próprios.
Eu preciso de tempo para me encontrar de novo sem ti como muleta emocional. William hesitou por um segundo. Ela viu a resistência nos olhos dele, mas depois assentiu. Durante quanto tempo? Até termos certeza. Sem pressas. Pode ser de 6 meses, pode ser um ano, o tempo necessário. OK, concordo. Ele respirou fundo.
Qual a terceira? Terceira, estabelece limites no trabalho, horários fixos, turnos controlados. E se sentir que está a recorrer ao trabalho como fuga, diz-me: “Transparência total, Guilherme, sem mais esconder.” Concordo. Mas esta regra vale pros dois lados. Se sentir que está a se fechando novamente, também fala. Justo.
A Nina olhou para a última regra no papel. Hesitou. Era a mais difícil. O quê? E William perguntou gentilmente. Qual a quarta? A quarta é sobre Pietro. Nina sentiu a garganta apertar só de dizer o nome. A gente nunca falou sobre ele. De verdade. Cada um chorou sozinho. Guardou a dor, fingiu que não doía tanto quanto doía. Se vamos tentar de novo, ele não pode ser o elefante na sala.
Como o imagina? Não sei ainda. Talvez visitemos o túmulo juntos. Talvez façamos algum ritual no aniversário dele. Talvez a gente basta falar sobre como ele era pequeno, mas perfeito. Sobre como durou pouco tempo, mas significou tudo. As lágrimas vieram agora, quentes e libertadoras. Mas ele precisa de fazer parte da nossa vida sem nos consumir. Precisa de ser memória.
Não, ferida aberta. Guilherme tinha lágrimas nos olhos também. F Janina, não sei se consigo. Nem eu, mas tentamos juntos. Ficou em silêncio por um longo momento, apenas olhando para ela. E depois disse algo que mudou tudo. Eu já vendi o apartamento. A Nina piscou. Surpresa. O quê? Quando? Na semana passada, antes de saber a sua resposta, antes de saber se me ias dar alguma hipótese, passou a mão pelo rosto.
Porque mesmo que dissesse que não, eu não conseguia mais ficar lá. Cada canto daquela casa lembrava-me de ti, do Pietro, de tudo o que perdemos e não era saudável. Para onde vai? Aluguei um pequeno apartamento em Petrópolis, perto do hospital mais diferente, novo sem passado. Ele olhou diretamente para ela e já falei com a direção.
Meio período por se meses, casos menos complexos, sem turnos noturnos. Vou supervisionar os residentes em vez de fazer todas as cirurgias sozinho. A Nina sentiu algo se mexer dentro do peito. Esperança, talvez. Você fez tudo isto antes de saber se lhe ia dar uma chance? Fi-lo, porque percebi que precisava de mudar por mim, Nina, não por você.
Eu estava a matar-me aos poucos, utilizando o trabalho como anestesia. E mesmo que me mandasse embora hoje, eu ainda precisaria dessas mudanças. E foi nesse momento que a Nina compreendeu, ele não estava a mudar por ela, estava mudando para ele. E isso, exatamente isso, fazia toda a diferença do mundo. Então, nós tentamos ela perguntou a voz pequena, mas firme. Guilherme sorriu.
O primeiro sorriso genuíno em semanas. A gente tenta. Ele estendeu a mão como se fosse selar um acordo formal. A Nina olhou para a mão estendida e, em vez de apertar, entrelaçou os dedos nos dele. O toque era elétrico, familiar, assustador. Ficaram assim, de mãos dadas, não dizendo nada, porque às vezes o silêncio diz mais do que 1000 palavras.
E pela primeira vez em dois anos era um silêncio cheio de possibilidades. Os dois meses seguintes foram uma dança delicada entre a aproximação e a cautela. William alugou um apartamento compacto em Petrópolis, com mobiliário básico e nenhuma memória. A Nina encontrou um estúdio em auxiliadora, pequeno, mas cheio de luz natural, onde montou uma prancheta e começou timidamente a aceitar pequenos projetos de arquitetura.
Eles encontravam-se três vezes por semana. Jantares simples em restaurantes discretos, onde conversavam de verdade pela primeira vez em anos. Caminhadas longas no Parque Farrupilha, onde William contava casos no hospital e Nina falava sobre os clientes novos, sobre a ansiedade de voltar a criar. Tardes de cinema onde se sentavam lado a lado sem se tocarem, mais conscientes de cada centímetro de distância entre eles.
A primeira sessão de terapia de casal foi um desastre absoluto. A terapeuta Dra. Camila fez uma pergunta simples. O que cada um de precisam do outro neste momento? A Nina explodiu. Eu preciso que ele compreender que não pode simplesmente apagar dois anos de abandono com cartas bonitas e promessas que ainda estou zangado, que ainda dói.
Guilherme reagiu na defensiva. E eu preciso que compreenda que eu também estava a sofrer, que não foi abandono, foi a sobrevivência. Eu fiz o melhor que pude. O seu melhor foi ignorar-me por dois anos. O seu melhor foi trancar-se no quarto e afastar-me. Toda vez que tentava ajudar, a discussão escalou até Nina se levantar e sair da sala, batendo com a porta.
Guilherme ficou sentado à cabeça entre as mãos, achando que tinha acabado tudo outra vez. Mas quando saiu do consultório 10 minutos depois, Nina estava encostada à parede do corredor, os braços cruzados, o rosto ainda vermelho de raiva e de choro. Semana que vem, mesma hora. Ela disse sem olhar para ele.
O quê? A gente volta semana que vem. Agora ela olhava, os olhos ainda brilhando de lágrimas. Porque se nós desistir à primeira dificuldade, não vale a pena experimentar. Guilherme sentiu algo soltar-se dentro do peito. OK, semana que vem. E voltaram e voltaram a lutar. E voltaram outra vez. Até que lentamente as sessões começaram a funcionar.
Começaram a ouvirem-se um ao outro de verdade, começaram a baixar as defesas. No dia do aniversário do Pietro, 2 anos e três meses desde que partiu, William passou em casa da Nina às 9 da manhã. Ela estava à espera à porta, vestida de forma simples, o cabelo apanhado, os olhos já vermelhos mesmo antes de saírem.
Foram ao cemitério em silêncio. Guilherme dirigiu. A Nina olhou pela janela. Quando chegaram ao pequeno túmulo, uma lápide branca com um ursinho de peluche eternamente novo ao lado. Ambos ficaram parados durante um longo momento, apenas olhando. Foi Nina quem falou primeiro. A voz trémula, mas firme. Olá, Pietro. É a mamã.
Eu, eu não venho aqui há muito tempo. Desculpa-me por isso. Eu tinha medo que doesse demais. William ajoelhou-se e passou a mão pela lápide fria. Olá, filho. O seu pai aqui. Desculpa também por ter sido cobarde, por ter fugido em vez de ficar. Ficaram ali por quase uma hora. Choraram. Lembraram. A Nina contou sobre o projeto de arquitetura que estava desenvolvendo espaços de despedida em hospitais.
Guilherme falou sobre um paciente pediátrico que salvou na semana anterior, como tinha pensado em Pietro durante toda a cirurgia. E pela primeira vez falar sobre o filho não os destruiu. Doeu, sim, mas era uma dor partilhada, mais leve de transportar quando dividida. Nessa noite, William convidou a Nina para jantar no apartamento dele. “Nada de sofisticado”, avisou.
“Vou tentar fazer um risotto e provavelmente vai queimar”. Nina riu-se. Aquele riso solto que ele não ouvia há tanto tempo. Eu levo o vinho para nós afogar as mágoas se o risotto for intragável. O risotto ficou passado e pegajoso, mas eles riram-se disso. Sentaram-se no chão da sala minúscula, porque William ainda não tinha comprado mesa de jantar direito.
Beberam vinho barato de caixinha e conversaram até tarde sobre tudo e sobre nada. Por volta das 11 da noite, quando Nina se levantou para ir embora, tropeçou no tapete. Guilherme a segurou pelos braços, impedindo a queda, e, de repente, estavam muito pertos, muito, muito pertos. Ele sentiu o perfume dela, aquele mesmo de sempre, floral e suave.
Sentiu o calor do corpo dela contra o dele. Viu os olhos dela a arregalharem ligeiramente, a respiração ficando mais rápida. Ninas, ele começou a voz rouca. Ela não o deixou terminar. Puxou-o pelo colarinho da camisa e beijou-o. Foi como se alguém tivesse acendido um fósforo num quarto cheio de gasolina. Dois anos de saudade, de desejo reprimido, de amor negado, explodiram de uma só vez.
Guilherme apensou contra a parede do corredor estreito, as mãos nos cabelos dela, no rosto dela, tentando tocar tudo ao mesmo tempo. Nina correspondeu com igual intensidade, as unhas arranhando-lhe levemente as costas por cima da camisola. Um gemido baixo escapando quando beijou o pescoço dela. Separaram-se ofegantes, as testas encostadas tentando recuperar o ar.
“Eu não sei se estou pronta para”. Nina começou a voz trémula. William beijou-lhe a testa com ternura. Então não precisa de estar. Não fazemos nada que não queira. Eu espero o tempo que for necessário. A Nina olhou para ele, os olhos a brilhar. Eu tive tanto medo de nunca mais sentir aquilo, de nunca mais querer ser tocada desse jeito. Eu também.
Ele afastou uma madeixa de cabelo do rosto dela. E agora que estou a tocar-te de novo, não sei se consigo parar. Mas paro, se pedir. Ela beijou-o de novo, mais devagar desta vez. Um beijo profundo, carregado. Quando se separaram, sussurrou contra os lábios dele. Fica comigo hoje. Só fica. Não precisamos de fazer nada. Só não Quero estar sozinha.
Guilherme pegou na mão dela entrelaçando os dedos. Eu fico. Deitaram-se na cama de solteiro do quarto minúsculo. Vestidos apenas abraçados. Nina de costas, William por trás. O rosto enterrado no cabelo dela, o braço à volta da cintura. “Senti tanto a sua falta”, sussurrou no escuro. “Todas as noites, durante dois anos, senti a tua falta assim.
” Nina segurou a mão dele com mais força. Eu também. Eles não fizeram amor nessa noite, mas se reconectaram de uma forma que era ainda mais íntimo. Dormiram entrelaçados, acordaram de madrugada e conversaram sobre sonhos antigos e medos novos. E quando o sol começou a nascer, William percebeu algo fundamental. A paixão nunca tinha morrido entre eles, apenas tinha ibernado, aguardando o momento certo para voltar à vida.
E agora devagar, ela estava a despertar, não com a urgência desesperada de antes, mas com algo mais profundo, mais consciente, mais verdadeiro. Nina virou-se de frente para ele, os rostos a centímetros de distância. Na próxima vez?” Ela começou hesitante. “Próxima vez?”, perguntou esperançoso.
Eu quero contigo, mas preciso ter a certeza que é diferente, que não é o desespero ou a nostalgia, que é real. William beijou-lhe o nariz. “Quando tiver a certeza, eu estarei aqui. Prometes?” Prometo. E enquanto a cidade acordava lá fora, ficaram ali apenas existindo juntos, reconstruindo tijolo a tijolo, algo que um dia foi lindo e que talvez pudesse voltar a ser lindo, só que dessa vez mais forte, mais consciente, mais verdadeiro.
Quatro meses se passaram desde que Nina acordou no hospital. 4 meses de reconstrução cuidadosa, de terapia semanal, de jantares e passeios e conversas que aos poucos dissolviam as camadas de mágoa. E naquele sábado ensolarado de primavera, tinham um compromisso diferente: visitar casas. É cedo demais? Nina perguntou enquanto William conduzia em direção ao bairro Ipanema. Não sei.
Você acha que é? Eu perguntei primeiro. Ele riu-se pegando na mão dela por cima do câmbio. Acho que sabemos quando está pronto. E se não estivermos, a gente descobre junto. A casa era perfeita no papel. Três quartos, jardim pequeno, varanda com vista parcial para o Guaíba, espaço suficiente para respirar, mas não tão grande que se perdessem um do outro.
A corretora os recebeu com um sorriso profissional e iniciou o tour. Tudo estava a correr bem até chegarem ao segundo quarto. Era médio. Com janela virada a nascente, luz suave entrando pelas cortinas brancas. A corretora disse algo sobre ser perfeito para escritório ou quarto de hóspedes. Mas tudo o que Nina conseguiu ver foi um berço que não estava lá, um móbil de nuvens pendurado no teto, roupinhas minúsculas dobradas numa cómoda.
E Pietro, sempre Pietro. assombrando cada canto vazio. O peito dela apertou. A respiração tornou-se curta, demasiado rápida. As paredes começaram a fechar. Eu preciso ar preciso de ar. Guilherme a seguiu para fora imediatamente, segurando-a pelos ombros enquanto ela praticamente corria para o jardim. Nina, olha para mim. Respira devagar comigo.

Mas ela não conseguia. O ataque de O pânico já tinha tomado conta completamente. Está a ir rápido demais. Tudo está a ir rápido demais. E se a gente falhar outra vez? E se daqui a um ano estivermos piores? E se nos mudarmos para aqui e os fantasmas vierem juntos? Nina, talvez não sejamos feitos para isso.
Ela gritava agora, as lágrimas a cair sem controlo. Talvez a gente só seja bom a amar-se um ao outro de longe. A distância segura, porque toda a vez que tentamos de perto, a gente se destrói. William segurou-lhe o rosto entre as mãos. obrigando-a a olhar nos olhos dele. Ei, ei, volta aqui comigo. Respira.
Mas Nina afastou-se, balançando a cabeça. Eu não consigo fazer isso agora. Não consigo. Tudo bem. Assim, a gente não faz. A gente vai-se embora, volta para os nossos apartamentos. Esquece casas por enquanto. Você não entende. A frustração explodia juntamente com o pânico. Tenho medo, Guilherme. Medo que a gente esteja só a fingir que dá certo.
Medo que no fundo sejamos as mesmas pessoas quebradas que se destruíram antes. E tenho medo que voltas a fugir quando as coisas ficarem difíceis. A voz dele saiu mais elevado agora, a própria frustração vazando. Medo que ao primeiro sinal de problema que decida que é mais fácil estar sozinha do que lutar comigo. Porque sempre lutou tanto, não é? Você que apareceu, que ficou, que segurou a minha mão e tu agarraste a minha.
Quando eu estava a afogar-me em culpa, você veio buscar-me ou preferiu trancar-se no quarto e deixar-me sozinho também? Eles estavam a gritar agora. Ali no jardim da casa vazia, a mediadora discretamente desaparecendo para dentro. Anos de dor, de ressentimento não processado, de medo acumulado a jorrar para fora, em palavras que cortavam como lâminas.
Talvez isso seja um erro. E a Nina gritou. Talvez estejamos a forçar algo que já morreu. Então desiste. Guilherme gritou de volta. Vai-se embora outra vez. Foge. É o que faz melhor mesmo. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Nina olhou para ele como se tivesse levado um tapa.
William percebeu tarde demais o peso do que tinha dito. Nina, eu não não. Ela levantou a mão, impedindo-o de continuar. Tem razão, é o que eu faço, fujo. E depois ela virou as costas e caminhou em direção à rua. Guilherme ficou ali parado, a vê-la partir, cada fibra do corpo dele a gritar para correr atrás, para segurar, para consertar.
Mas o Tomás tinha dito algo há semanas que ecoou na cabeça dele agora. Por vezes, a melhor forma de lutar por alguém é dar espaço. Então, ele deixou-a ir, subiu para o carro e voltou para casa sozinho, o estômago embrulhado, pesando a culpa toneladas. Três dias se passaram em silêncio absoluto. Três dias em que William respeitou o espaço dela, mas enviou uma mensagem por dia, sempre a mesma.
Bom dia. Estou aqui quando estiver pronta. Sem pressão, sem cobrança, apenas presença. A Nina lia as mensagens e não respondia. Passava os dias no estúdio fingindo trabalhar, na verdade apenas encarando a prancheta vazia. Marcela ligou duas vezes, ela ignorou. A terapeuta enviou mensagem a perguntar se estava tudo bem.
Ela respondeu apenas preciso de tempo. Na terceira noite, às 11:15, começou a chover. daquele jeito que só chove em Porto Alegre, torrencial, violento, ensurdecedor. E Nina deu por si, olhando pela janela, lembrando-se de outra chuva há 10 anos, quando ficaram presos na estrada a caminho da serra, lembrando como William ajoelhou-se encharcado e pediu ela em casamento com as palavras mais imperfeitas e perfeitas do mundo, e algo se rompeu dentro dela, uma barragem que nem sabia que estava a segurar.
pegou na chave do carro e saiu à chuva. Quando chegou ao edifício de William 20 minutos depois, estava completamente encharcada. Tocou no intercomunicador com dedos trêmulos. Alô? A voz dele suou cautelosa. Sou eu. Silêncio. Depois sobe. Quando a porta do apartamento se abriu, William estava descalço de calças de fato de treino e t-shirt velha, os cabelos desarrumados de quem estava a tentar dormir sem sucesso.
Ele olhou para Nina encharcada, a tremer. Não sabia se de frio ou de emoção. “Eu não quero aprender a viver sem ti”, disse ela. A voz a sair baralhada entre chuva e lágrimas. “Quero aprender a viver com você. com os medos, com as brigas, com os dias impossíveis, mas juntos. Guilherme puxou-a para dentro, fechando a porta.
Você está gelada. Eu sei, mas precisava de vir. Precisava de te dizer. A Nina olhou para ele, vulnerável de uma forma que não era há muito tempo. Desculpa-me por ter fugido de novo. Tinha razão. É o que eu faço quando se torna difícil. E eu sinto muito por lhe ter atirado isso à cara daquele jeito.
Ele pegou numa toalha, começou a secar-lhe o cabelo com cuidado. Você não merecia. Mas era verdade. Verdade. Tita com raiva ainda magoa. Nina segurou-lhe os pulsos, parando o movimento. Guilherme, eu tenho tanto medo de falhar, de o magoar, de ser magoada. Mas sabe o que eu tenho ainda mais medo? De acordar daqui há 10 anos e perceber que o deixei ir por cobardia.
Ele largou a toalha, segurou-lhe o rosto. Então não deixa. Beija-me. Tem certeza? Pela primeira vez em meses, tenho a certeza de alguma coisa. Guilherme beijou-a e não foi amável ao hesitante. Foi intenso, necessário. Dois anos de saudade e 4 meses de contenção finalmente explodindo. Puxou-a contra o corpo dele, as mãos nos cabelos molhados dela.
E a Nina correspondeu com igual ferocidade, as unhas cravando-se nos ombros dele por cima da t-shirt. Eles cambalearam pelo corredor até ao quarto, tirando roupas molhadas pelo caminho, deixando um rasto de tecido encharcado. E quando finalmente estavam na cama, pele contra pele, William parou. “Tem certeza?”, perguntou de novo.
A respiração irregular. “Faz amor comigo”, ela sussurrou. faz-me esquecer de todo o medo. E fê-lo devagar e intensamente cada toque uma promessa silenciosa. Cada beijo uma cura, cada suspiro um recomeço. Depois, deitados entrelaçados nos lençóis desarrumados, Nina traçou com o dedo a tatuagem no peito, as iniciais dela que ele nunca tinha contado sobre.
Quando o fez? Um mês depois de termos separado, ele beijou-lhe a testa. Porque mesmo sem você, ainda estava aqui. Nina sentiu as lágrimas virem de novo. Eu te amo. Nunca parei. Eu também te amo. E desta vez a gente faz dar certo. Promete? Prometo tentar todos os dias, mesmo nos dias impossíveis. E enquanto a chuva continuava lá fora, adormeceram assim juntos, entrelaçados finalmente em paz.
A mudança para a casa em Ipanema aconteceu seis semanas depois daquela noite chuvosa. Não foi para a primeira casa que visitaram. Aquela carregava o peso do ataque de pânico de Nina. Em vez disso, encontraram outra, mais pequena, mais acolhedora, com um jardim que pedia para ser cuidado e uma varanda de madeira de onde conseguiam ver um bocadinho do Guaíba ao entardecer.
A primeira noite foi estranha. Circularam pela casa nova como dois estranhos educados. Cada um procurando o seu espaço, tentando perceber como habitariam aquele lugar juntos. William queimou o jantar, tentou fazer um frango de molho que ficou seco como o cartão. A Nina riu tanto que teve de se sentar no chão da cozinha segurando a barriga.
Eu avisei que cozinhar não era o meu forte. Ele disse meio ofendido, meio a rir também. A as pessoas encomendam pizza”, ela sugeriu limpando as lágrimas de tanto rir. “E da próxima vez cozinho.” “Bom dia, Sr. Sandrade”, disse na manhã seguinte, encontrando-a na cozinha a tentar fazer café.
Nina olhou por cima do ombro, um pequeno sorriso nos lábios. “Ainda é Senrita Sousa?” Tecnicamente, por enquanto, ele respondeu, puxando-a para um beijo lento e matinal, que sabia a recomeço. As semanas seguintes foram de construção de rotinas, William saindo cedo para o hospital, mas regressando religiosamente às 6 da tarde, sem exceções, sem turnos extras.
A Nina a montar o pequeno escritório no quarto das traseiras, aceitando projetos maiores agora, sentindo a confiança a regressar aos poucos. Jantares juntos quase toda a noite, fins de semana explorando a cidade como se a estivessem a descobrir pela primeira vez. Seis meses após se terem mudado juntos, A Nina recebeu um convite que mudaria tudo.
Um hospital em São Paulo queria que ela apresentasse um projeto, espaços de despedida. Salas especialmente concebidas para as famílias se despedirem dos bebés em situações de perda perinatal. Ela ficou a olhar para o e-mail durante quase uma hora antes de mostrar a Guilherme naquela noite. Eles querem que eu vá lá, apresente o conceito, possivelmente fechar um contrato.
Ela explicou. A voz carregada de emoção. Seria o primeiro projeto assim. Em memória do do Pietro. Guilherme ficou em silêncio, lendo o e-mail por cima do ombro dela. Quando finalmente falou, a voz estava embargada. Nina, isto é incrível. Vai fazer? Não sei. É sobre ele, sobre o que perdemos. Não sei se sou suficientemente forte.
Ele girou a cadeira dela, fazendo-a encará-lo. Você é a mulher mais forte que conheço. E ele, a Nina, ou o Pietro, pode ajudar outras famílias. A nossa dor pode tornar-se algo que cuida de outras pessoas. As lágrimas dela caíram silenciosas. Ias comigo a São Paulo para esta apresentação. Não perderia por nada.
Três semanas depois, estavam no auditório de um hospital de São Paulo, Nina de pé diante de 50 profissionais de saúde, arquitetos e administradores hospitalares. Suas mãos tremiam, segurando o comando do slide, mas a voz saiu firme. O meu nome é Nina Souza e há dois anos perdi o meu filho. Ele chamava-se Pietro.
Viveu 48 horas e nessas 48 horas ensinou-nos mais sobre o amor do que anos. Inteiros poderiam ensinar. Ela avançou o slide, mostrando o projeto. Este espaço existe porque ele existiu, porque nenhuma família deveria ter de se despedir em uma sala fria e impessoal, porque até nos momentos mais dolorosos existe dignidade, existe amor.
Guilherme assistiu da primeira fila, os olhos marejados, o orgulho a estufar o peito de um jeito que quase doía. Quando ela terminou a apresentação, recebida com aplausos longos e emocionados, foi o primeiro a levantar-se. Nessa noite no quarto de hotel, Nina chorou nos braços dele. Eu consegui. Falei sobre ele e não desmoronei. Foste perfeita.
Ele estaria orgulhoso. Você acha? Tenho certeza. A primeira sala foi inaugurada no Midu Hospital Moinhos de Vento, três meses depois, com uma placa pequena e discreta. Espaço Pietro. Em memória de todas as vidas breves que deixaram amor eterno, o dia da inauguração foi emocional. O Tomás e a esposa estavam lá. Marcela veio de São Paulo com o marido, colegas do hospital, amigos, doentes de William, que se tornaram família ao longo dos anos.
E quando Nina e William cortaram a fita juntos, de mãos dadas não havia olho seco na sala. Naquela noite de regresso a casa, William preparou uma surpresa. Velas na varanda, vinho à vista do Guaíba, reflectindo as luzes da cidade. A Nina saiu do banho e encontrou tudo montado, o coração acelerando. O que é? A gente já foi casado.
William começou por pegar na mão dela e trazendo-a para a varanda. Mas aquelas pessoas eram diferentes, mais jovens, mais ingénuas. Achavam que o amor era suficiente sem trabalho. A Nina sentiu as lágrimas começarem. Guilherme, hoje a gente sabe que o amor é uma escolha diária. É aparecer nos dias difíceis, é lutar, se reconciliar, crescer juntos.
Ele se ajoelhou-se, tirando uma pequena caixinha do bolso. Não era a aliança antiga, era nova. Nina Souza, quero casar com a mulher que é hoje, a arquiteta brilhante, a mulher forte que transformou a dor em propósito, a pessoa que me ensinou que é possível recomeçar. Volta a casar comigo, mais diferente. Melhor.
Nina puxou-o para cima, beijando-o entre lágrimas e risos. Sim, mil vezes sim. O beijo que se seguiu foi longo, profundo, cheio de promessas. Quando se separaram, Nina olhou para o anel. Simples, delicado, perfeito. Não vai perguntar porquê uma aliança nova? perguntou. Eu sei porquê. Porque somos pessoas novas. Este é um novo começo. Exatamente.
Eles casaram dois meses depois, numa pequena e íntima na praia da Atlântida. Apenas 30 pessoas, família próxima e amigos que acompanharam a viagem. A Nina usava um vestido simples, branco, fluído. William estava de fato claro, descalço na areia. Quando o celebrante disse: “Pode beijar a noiva”. Guilherme a inclinou-se dramaticamente, arrancando risos e aplausos de todos.
O Tomás gritou: “Guarda energia para o depois, mano! A noite de Núciassias foi diferente de tudo o que viveram antes. Não foi o sexo desesperado do recomeço. Foi devagar, reverente. Os olhos abertos, sussurros constantes de “amo-te a cada toque”. William adorou cada centímetro do corpo de Nina como se fosse a primeira vez, dizendo entre beijos: “És perfeita”.
Sempre foi, mesmo com as cicatrizes? Ela perguntou vulnerável, tocando nas marcas no próprio tórax, físicas do acidente e emocionais da vida, sobretudo com elas. Elas te trouxeram de volta para mim. Depois, deitados, entrelaçados, Nina traçou o contorno do rosto dele. Eu quero ter filhos consigo de novo.
Não agora, mas um dia. William gelou, os olhos se enchendo-se de lágrimas. Tem a certeza? Tenho. O Pietro vai ser sempre nosso primeiro filho, mas ele não tem de ser o único. O nosso amor é grande o suficiente para mais. E se der medo? Se reviver tudo, vai dar medo. Mas a gente enfrenta juntos como tudo agora. Guilherme puxou-a para mais perto, o rosto enterrado no cabelo dela.
Desta vez é para sempre, de verdade. Desta vez eu acredito. E sob o som das ondas a partir na praia, sob o móbil de nuvens do Pietro pendurado no quarto, como bênção silenciosa, dois corações que quase pararam de bater aprenderam a bater juntos novamente. Não perfeitamente, mas verdadeiramente. E no fim era isso que importava.
18 meses após o acidente, que quase separou William e Nina para sempre, eles receberam um convite que os deixou nervosos e esperançosos ao mesmo tempo. Uma clínica especializada em luto perinatal convidou-os para palestrar sobre a vida após a perda, reconstruindo relacionamentos. “Não sei se consigo”, admitiu Nina na noite anterior, sentada na cama com o portátil no colo, revendo as anotações pela décima vez.
falar sobre tudo aquilo perante estranhos, pessoas que estão a viver o pior momento das vidas delas. William sentou-se ao lado, fechando o portátil gentilmente. A gente não precisa de ir se não se sentir preparada. Não é isso. Eu quero ir. Eu só tenho medo de não ter as palavras certas, de dizer algo errado e magoar alguém. Nina, olha para mim.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos. A gente não precisa ter as palavras certas. A gente só precisa de ser honesto, contar a nossa história como ela foi, feia, dolorosa, real. Isso já é suficiente. No dia seguinte, às 10 da manhã, estavam no pequeno auditório da clínica. 15 casais sentados nas cadeiras, todos em diferentes fases de luto.
Alguns tinham perdido bebés há semanas, outros anos, mas todos transportavam aquele mesmo olhar que William e Nina reconheciam no espelho, o olhar de quem sobreviveu ao insuportável. Nina começou, a voz tremendo apenas no início. O meu nome é Nina. Há 2 anos e meio perdi o meu filho Pietro.
Nasceu prematuro, lutou por 48 horas e depois deixou-nos. E eu achei que quando ele morresse, o amor que eu sentia pelo meu marido morreria junto. William continuou: “O meu nome é William. Sou cardiologista”, fei ironicamente não Consegui salvar o coração do meu próprio filho e quando ele morreu, fechei-me completamente.
Mergulhei no trabalho, evitei a minha esposa. Fingi que se não falasse sobre a dor, ela simplesmente desapareceria. Contaram tudo sem filtros. O divórcio, o silêncio, a fuga de Nina para São Paulo, o acidente, a cirurgia, a carta não enviada, as 15 cartas escritas à luz das velas num hospital vazio, a reconstrução dolorosa, tijolo por tijolo, uma mulher na terceira fileira levantou a mão, os olhos vermelhos de chorar.
Vocês são felizes agora a sério? Ou só estão a fingir para nos dar esperança? Nina e William entreharam-se. Foi Nina quem respondeu com uma honestidade brutal. Felizes? Não todos os dias. Há dias que acordo e a primeira coisa que penso é no Pietro. Há dias em que choro no chuveiro sem razão aparente. Tem dias que o William e eu discutimos sobre disparates porque no fundo estamos a lutar com a vida que não tivemos.
Ela segurou a mão dele. Mas construímos uma vida onde a a felicidade é possível, onde o amor é mais forte que a dor. Não porque a dor desapareceu, mas porque aprendemos a carregá-la juntos. William complementou. A gente não tem um final feliz de conto de fadas. Temos final real, com dias bons e maus, com recaídas e avanços. Mas estamos aqui juntos, a escolher um ao outro todos os dias.
Isto, isto vale mais que qualquer felicidade perfeita. Quando a palestra terminou, vários casais os procuraram, agradeceram, choraram, abraçaram. Uma mulher sussurrou para Nina. Obrigada por me dares permissão para não estar bem. No caminho de regresso a casa, William conduzia em silêncio, processando tudo. A Nina olhava pela janela quando de repente se desviou da rota.
fazendo-se à estrada para o miradouro do monte de Santa Teresa. “Onde a gente vai?”, perguntou ela. “Vai ver.” Quando chegaram ao Miradouro, o mesmo onde tinham ido inúmeras vezes quando namoravam, o solva começando a pôr-se, pintando o céu de laranjas e rosas. William estacionou, desligou o carro e virou-se para Nina. Há algo que eu preciso perguntar-te há um tempo, mas estava à espera do momento certo e depois da palestra hoje, depois de tudo o que a gente passou, percebi que não existe momento certo. Existe apenas agora.
Nina sentiu o coração acelerar. Guilherme, ele tirou uma pequena caixinha do porta-luvas. Nina arregalou os olhos. Espera, já estamos casados, eu sei. Mas isto aqui é diferente. Ele abriu a caixinha revelando não uma aliança, mas um pequeno pendente de prata, um coração com uma nuvem gravada. A gente reconstruiu o nosso casamento, mas tem uma coisa que ainda não fizemos juntos, uma escolha que ainda não tomámos.
Que escolha? William respirou fundo. Tentar de novo ter um filho. Não para substituir o Pietro, nunca. Mas para o honrar, para mostrar que o nosso amor sobreviveu e pode criar vida de novo. As lágrimas de Nina vieram instantâneas. Você Você Você Você tem a certeza? Depois de tudo tenho medo? Sim. Terror absoluto.
Mas Nina, eu não quero que o medo decida a nossa vida. Quero que o amor decida. E eu amo-te e quero construir uma família consigo. De novo, do jeito certo desta vez. A Nina atirou-se nos braços dele, chorando e rindo ao mesmo tempo. Sim, sim, quero. Mas, Guilherme, e se e se correr mal, a gente lidam juntos. E se der certo, vamos ter feito algo incrível.
Transformado dor em esperança. Ele colocou o colar nela. O coração somos nós. A nuvem é ele, sempre connosco, sempre parte da família. Beijaram-se enquanto o sol desaparecia no horizonte, selando não um fim, mas um novo começo. Seis meses depois, Nina segurava um teste de gravidez com mãos trémulas. Duas linhas, positivo.
Ela entrou no quarto onde William estava a ler artigos médicos. Ele olhou para ela e soube imediatamente. Nina, ela mostrou o teste chorando. Estou grávida. Cinco semanas. William puxou-a para um abraço apertado, ambos a chorar, tremendo. A gente consegue. Desta vez a gente consegue. Os meses seguintes foram de ansiedade, intensa e alegria cautelosa.
Cada ecografia era uma vitória. Cada batida do coração no monitor era um milagre. A gravidez progrediu saudável. A Nina passou do primeiro trimestre, depois do segundo e quando chegaram ao terceiro, pela primeira vez se permitiram acreditar. No quinto mês de gestação, numa tarde tranquila em casa, William estava com a cabeça encostada à barriga de Nina, a conversar com o bebé. Olá, pequeno.
Aqui é o papá. Tens um irmãozinho no céu que está a cuidar de si. O nome dele é o Pietro e era do tamanho do todo o meu coração, assim como você é agora. Nina passou a mão pelos cabelos dele, as lágrimas escorrendo silenciosas. A gente vai ficar bem, todos nós. Como sabe? Porque dessa vez sabemos que o amor não é sobre não ter medo, trata-se de ter medo e optar por ficar mesmo assim.
Guilherme beijou-lhe a barriga, sentindo um pontapé forte. Riu por entre as lágrimas. Ele chutou. Sentiu. Senti. Ele tá a dizer que concorda. Nessa noite, deitados na cama, o mobile de nuvens do Pietro balançando suavemente na brisa que entrava pela janela entreaberta, William sussurrou: “Obrigado! Porquê? Por não ter desistido de mim, por ter voltado naquela noite chuvosa, por me ter dado a oportunidade de ser o homem que merece.
” Nina virou-se de lado, encarando-o. Obrigado por ter lutado pela minha vida, por ter escrito aquelas cartas, por me ter mostrado que recomeçar é possível. Desta vez é para sempre. Ele disse, beijando-a suavemente. Desta vez, ela respondeu, não tenho dúvidas. E sob o móbil que representava o filho que perderam, ao lado da barriga que transportava o filho que esperavam, dois corações que quase deixaram de bater encontraram finalmente o seu ritmo juntos para sempre, de verdade.
3 anos e meio após o acidente, que quase o separou para sempre, William acordou com um som de risos vindos da cozinha. Ele esticou o braço instintivamente para o lado do cama onde deveria estar Nina, encontrando apenas lençóis mornos e amassados. O relógio da mesinha marcava 7:20 da manhã de um domingo soalheiro. Levantou-se lentamente, vestindo a primeira t-shirt que encontrou e caminhou descalço pelo corredor.
O que encontrou na cozinha fez o seu coração apertar-se daquele jeito bom, daquele jeito que ainda o apanhava de surpresa. Mesmo depois de tanto tempo, a Nina estava de pijama, o cabelo apanhado num coque bagunçado, tentando virar panquecas enquanto segurava nos braços. Helena, a filha de um ano e 8 meses que tinha os olhos verdes da mãe e a teimosia do pai.
A menina ria-se cada vez que Nina errava a virado e a massa caía de qualquer maneira na frigideira. A mamã não sabe fazer isso direito, não é, Helena? E Nina dizia em tom de brincadeira, beijando a bochecha gordinha da filha. Bom dia para as mulheres mais bonitas da minha vida. William anunciou encostado ao batente da porta, os braços cruzados, um sorriso tonto no rosto.
Nina virou-se, o rosto iluminando. Bom dia, dorminhoco. Achei que ia dormir até ao meio-dia. Vocês fazem barulho a mais. Ele aproximou-se, beijou A Nina devagar, depois encheu o rosto de Helena de beijos sonoros que fizeram a menina gargalhar. E depois, pequena, já pôs a mamã a trabalhar? Helena bateu com as mãozinhas na mesa da cadeirinha animada. Papa, papa.
Sim, o papá está aqui e vai salvar estas panquecas antes que a sua mãe queime a cozinha toda. Nina empurrou-o de brincadeira. Ei, eu estou a tentar. Está a correr muito bem, amor. Mas deixa o profissional assumir. William pegou na espátula, ajeitando o fogo. Você encarrega-se da nossa filha bagunceira.
Enquanto terminava as panquecas, desta vez sem queimar, Nina sentou-se com Helena ao colo, dando pedacinhos de banana para a menina. Observou o marido a movimentar-se pela cozinha, com familiaridade, trauteando baixinho uma música que ela não reconhecia e sentiu uma onda de gratidão tão forte que precisou de piscar para afastar as lágrimas.
“No que está a pensar?”, perguntou William sem se virar, como se sentisse o peso do olhar dela. Em como a vida é estranha. Há 4 anos estava num avião caindo, pensando que ia morrer sozinha, arrependida, sem ti. E hoje, hoje Estou aqui contigo, com ela, nesta cozinha desarrumada, comer panquecas queimadas.
Ei, estas não estão queimadas. A Nina riu. Estão sim, mas não importa porque é perfeito da forma que é. Depois do café que Helena mais espalhou pela cadeira do que comeu, eles vestiram a menina e foram para o lugar que visitavam religiosamente. Uma vez por mês, o cemitério estava silencioso naquela manhã de domingo, apenas o canto dos pássaros e o vento suave nas árvores.

No túmulo de Pietro, agora com 4 anos e meio de partida, havia sempre flores frescas. Hoje William trouxe lírios brancos, ainda as flores preferidas. A Nina sentou-se na grama com Helena ao colo. A menina curiosa, ainda demasiado pequena para entender onde estavam. Olá, Pietro. A Nina começou a voz calma.
Trouxemos alguém para te conhecer, ou melhor, para que conheça melhor. Esta é a sua irmãzinha, Helena. Ela tem o seu nariz, sabia? E é teimosa tal como você era. Segundo as enfermeiras que cuidaram de si. Guilherme se ajoelhou-se ao lado delas, passando a mão pela lápide. Fala-lhe, Helena. Fala oi para o seu irmão.
Helena, que estava aprendendo a falar, balbuciou algo incompreensível e esticou a mãozinha em direção à lápide, como se quisesse tocar. A Nina segurou-lhe a mãozinha com cuidado, aproximando, deixando que os dedinhos tocassem na pedra fria. “Ele tê-lo-ia adorado”, disse William, a voz embargada. terá sido o irmão mais velho protetor, chato que não deixava ninguém se aproximar.
“E seria a irmãzinha que o deixaria louco.” Nina completou, beijando o topo da cabeça de Helena, mas também seria a sua alegria. Ficaram ali meia hora, apenas os três, ou os quatro, contando com a presença que sempre ali sentiram. Contaram a Pietro sobre a inauguração da quinta sala de despedida que Nina projetou. desta vez em Curitiba.
Sobre como William tinha reduzido ainda mais a carga de trabalho para poder procurar A Helena na creche três vezes por semana sobre os planos para talvez aumentar a família de novo no futuro quando se se sentissem prontos. Antes de irem embora, A Nina colocou um pequeno catavento colorido ao lado das flores para si brincar com o vento, Pietro.
Até a próxima vez. No caminho de regresso a casa, a Helena adormeceu na cadeirinha. William conduzia com uma mão, a outra entrelaçada com a de Nina sobre o consola central. “Achas que a gente conseguiu?” perguntou Nina baixinho, olhando pela janela. Conseguiu o quê? Transformar a dor em algo belo, em vida, em amor que permanece.
Guilherme apertou-lhe a mão. Acho que nós não transformou a dor. Ela ainda está lá, sempre vai estar. Mas a gente aprendeu a viver com ela, a construir à volta dela, a não deixar que seja ela a definir tudo. Nina virou o rosto para ele. Eu amo-te hoje e sempre. Eu também te amo. Nos dias fáceis e nos dias impossíveis.
Quando chegaram a casa, William carregou Helena ainda a dormir para o quarto, deitando-a cuidadosamente no berço. A Nina ficou à porta observando o coração apertado de uma forma boa. O móbil de nuvens do Pietro, agora pendurado no quarto da Helena, balançava suavemente com a brisa da janela entreaberta. William passou-lhe a mão de leve, um ritual que fazia cada vez que entrava ali.
“Cuida dela por nós, irmãozinho?” Ele sussurrou. Nessa noite, deitados na cama abraçados, a Nina traçou o contorno do rosto de William no escuro. “Passámos por tanta coisa e sobrevivemos juntos. Acha! que vão fazer filmes sobre nós, brincou ela. Ele riu baixinho. Acho que a nossa história é demasiado boa para ser verdade. Mas é, é verdade, é real, é nossa.
E tem final feliz? William pensou por um momento. Não há final, porque ainda estamos escrevendo todos os dias, mas tem amor, tem luta, tem escolha. E no final, acho que isto é melhor que qualquer final feliz de conto de fadas. A Nina aconchegou-se mais perto. Então vamos continuar escrevendo para sempre. E sob o mesmo teto que albergava memórias de dor e promessas de futuro.
Dois corações que aprenderam a bater em sincronia continuaram a sua dança, não perfeita, não sem tropeções, mas verdadeira. E no fim era tudo o que sempre precisaram de ser. Porque no fim, o amor verdadeiro não é sobre nunca cair, trata-se de escolher levantar em conjunto, mesmo quando cada músculo do corpo implora para desistir.
William e Nina provaram que os finais mais belos nascem dos recomeços mais improváveis, quando dois corações despedaçados decidem reconstruir-se, não como eram antes, mas como algo novo, mais forte, mais verdadeiro. E talvez esta história não seja só deles. Talvez seja sobre todos nós que um dia precisamos de escolher entre fugir da dor ou atravessá-la de mãos dadas com quem amamos.
Se esta história tocou o seu coração de alguma forma, se sentiu cada lágrima, cada recomeço, cada escolha difícil que William e Nina fizeram, deixem o vosso like aqui em baixo. Ele é muito mais do que um clique. É um abraço que nos incentiva a continuar trazendo histórias que falam da vida real, do amor imperfeito, da dor que transforma.
Subscreva o canal para não perder as próximas histórias que vão emocionar-te e conta-me nos comentários de onde está a ouvir essa mensagem. A sua presença aqui, o seu apoio é o que mantém este espaço vivo. Obrigada por ter ficado até ao fim. Obrigada por acreditar que todo o recomeço é possível.