ELA FICOU VIÚVA E FOI ABANDONADA, MAS NO CAMINHO ACHOU UMA BRUXA QUE MUDOU TODA SUA VIDA

Depois de o sino da capela lá debaixo toca a última vez, não abre a porta a ninguém, nem se baterem chamando pelo meu nome, nem se ouvir choro na estrada. Por quê? Porque não é gente de Deus que anda por aqui de noite. É alma penada. Escapou num sussurro. Brigar riu-se. Um riso seco, sem alegria.  Alma penada. A gente reza 1/3 e resolve.

O problema é gente viva. A frase ficou ecoando na cabeça de Quitéria. Naquela noite a casa pareceu maior do que era. Os passos de dona Brígida soavam pela madeira,  indo e vindo entre a cozinha e um quarto mais ao fundo, que se mantinha sempre trancado, cheiro de tisana fervendo,  um pouco de fumaça das lamparinas, às vezes um murmúrio de reza que ela não reconhecia.

Quando se recolheu ao quarto, Quitéria sentiu o corpo pedir descanso, mas o sono não vinha. A lua surgiu pela fresta da janela, cortando um pedaço do quintal. A figueira lá fora parecia se mexer sozinha. Os galhos faziam sombra no chão, como braços compridos. Ela fechou os olhos. >>  >> Foi então que ouviu um assobio longo vindo do lado de fora do muro.

Em seguida,  um chamado baixo, uma voz de homem arrastada. Dona Brígida, abre a porta. O coração de Quitéria disparou. Lembrou-se da ordem da velha. Não abrir por nada. A voz insistia. Dona Brígida, pelo amor de Deus, me atende. Parecia choro, parecia súplica. O som de algo batendo de leve no portão de madeira, como se um corpo cansado se escorasse ali.

Quitéria se levantou da cama, os pés fizeram o açoalho gemer, foi até a porta do quarto, encostou o ouvido. O corredor estava escuro. Só uma linha de luz vinha da fresta sob a porta da cozinha. A voz do lado de fora ficava mais aflita. Eu pago. Juro que pago. Só não me deixa perder a roça. Ela ia dar um passo quando uma sombra cortou o retângulo de luz. Dona Brígida.

A velha passou sem olhar para o quarto de Quitéria. Foi até a entrada da casa. Ouvia-se o tilintar das chaves, mas não abriu. “Vai embora, Ambrósio”, disse ela firme através da madeira. “Hoje não tem conversa. Vou perder o plantio, dona Brígida, pelo amor que a senhora tiver. Você já perdeu o plantio quando decidiu gastar o dinheiro da safra em carta de jogo.

Agora aguenta silêncio. Depois algo socou o portão com força. Uma vez, duas. O cachorro da vizinhança latiu ao longe. “Bruxa miserável!”, gritou o homem do outro lado. “Vai arder no inferno com seu dinheiro!” O som de passos pesados se afastou na estrada, foi sumindo junto com o açubio do vento.

Quitéria recuou para dentro do quarto. Bruxa, de novo a palavra, mas agora vinha carregada de dívida, de perda, de raiva de quem deve e não quer pagar. Deitou-se sem tirar o vestido, ficou olhando para o teto escuro. Ali, naquela primeira noite, começou a entender. A suposta bruxa do outro não vivia de feitiço, vivia de cobrar o que o povo devia.

E em lugar onde todos dependem da mesma mão para comer, é fácil transformar essa mão numa coisa maldita. Lá fora, o vilarejo dormia com medo e rancor.  Lá dentro, entre paredes cheias de raízes secas e papéis trancados, uma velha contava contas e pecados. que Téria, encolhida na cama estreita, sentiu que tinha entrado em algo maior do que sua própria desgraça.

Não sabia ainda que se ficasse aquele ódio que o povo tinha por brígida, um dia cairia inteiro sobre as costas dela. A noite avançou devagar e quando o primeiro galo cantou, o mundo lá fora continuava o mesmo. dentro da casa do outeiro. O destino da viúva sem rumo já estava preso em alguma gaveta que ela ainda não vira.

O segundo dia começou com o barulho seco de algo batendo na mesa da cozinha. Quitéria entrou  ainda ajeitando o lenço na cabeça. Dona Brígida estava sentada, as mãos ossudas sobre um maço de papéis amarelados. Ao lado, uma pequena caixa de ferro trancada. Come”, ordenou, apontando com o queixo para o prato de mingau. “Depois me ajuda com isso.

” Ela comeu em silêncio. Sentia o peso do que acontecera à noite anterior. A voz do homem na porta, o ódio jogado contra a casa. Quando terminou, a velha puxou uma cadeira. “Senta aqui, sua vista é melhor que a minha”, queia obedeceu. Os papéis tinham letras tortas, mas legíveis. Alguns eram assinados com cruz, outros com nomes completos, cercados de firulas. Lei em voz alta, pediu Brígida.

Quitéria pigarriou. Eu, Ambrósio Ferreira, lavrador, declaro dever a quantia de leu  mais. O documento cobria a dívida, os juros, o pedaço de terra oferecido como garantia. Havia datas antigas, algumas de mais de 10 anos. Tem o vilarejo inteiro aqui”, murmurou sem perceber que falava alto. “Tem mais do que o vilarejo”,  corrigiu Brígida sem orgulho.

“Tem gente das fazendas em volta. Até o padre já rabiscou o papel nessa mesa. Quitéria sentiu  um arrepio. E tudo isso é seu. A terra é minha. O papel é minha arma.”  A velha encostou as costas na cadeira. Gente, esquece que papel pesa mais que pedra. Uma  pedra mata um corpo, um papel mata uma família inteira.

Era cru  e verdadeiro. Por que a chamam de bruxa? Perguntou finalmente, tomando coragem. Brígida deu de ombros. É mais fácil culpar bruxaria do que culpar a própria ganância. Quando a colheita é boa, ninguém se lembra de mim.  Quando o praga vem, depois dizem que é mal olhado. É praga de bruxa, é castigo.

Ela levantou devagar e dirigiu-se para uma prateleira alta. pegou num frasco de vidro com um pó avermelhado. Vê isto? A mulher do vendeiro jura que é pó de caveira que eu uso para fazer feitiço do amor. Destampou. Cheira. Quitéria aproximou o nariz. Pimenta seca.  Pois é, mas se digo que é só pimenta, acaba a graça.

Preferem a história da bruxa. Colocou o frasco de volta. Eu sustento as lendas porque me convém. O medo afasta curioso e curioso em casa de velha com segredo é perigo. A frase ficou a martelar. Naquele dia Quitéria aprendeu o caminho dos quartos. O quarto trancado no fundo continuava proibido, mas de relance viu por uma nesga.

Não eram velas pretas, nem círculo de sangue. Eram estantes cheias de caixas, mais papéis, mapas de terras, carimbos, uma espécie de escritório improvisado, escondido como se fosse pecado. À tarde, enquanto lavava roupa no tanque do quintal, ouviu sussurros do outro lado do muro.

Ela está lá dentro mesmo? Uma voz de mulher. Tá. Chegou ontem toda a esfarrapada. Dizem que é viúva. Coitada. Coitada. Nada. Vai ver. É aprendiz de bruxa. A Dona Brígida está velha. Precisa de quem continue as coisas dela. Risinhos nervosos, um cuspo na terra. Se começar a morrer mais boi na quinta de baixo, já sabemos quem culpar. Passos apressados. As mulheres afastaram-se.

Quitéria esfregava a roupa com mais força do que necessitava. A espuma cobria os dedos. Ao fundo da casa, a figueira movia-se com o vento. Um galho pareceu apontar diretamente para ela. À noite, o padre veio, não bateu à porta da frente, entrou pelos fundos, por uma portinhola quase escondida que Téria viu pela janela.

A batina preta, o rosto cansado, os olhos inquietos. Fique no quarto, ordenou Brígida, e não escute atrás da porta. Ela fingiu obedecer, mas o ouvido de quem passou a vida a ser humilhado, aprende a sobreviver, roubando pedaços de conversa. Encostou-se à parede fina, as vozes vazavam baixas. “O povo anda inquieto”, dizia  o padre. “Fal de peste.

A peste é mansidão a mais”, respondeu Brígida. Se levantassem a cara da terra, veriam que o problema é outro. Um silêncio. Depois o estalar das moedas sobre a mesa. A freguesia anda com falta de recursos disse o padre constrangido. O dízimo não tem sido. Não veio aqui pedir esmola de velha.

Havia dureza, mas também um estranho respeito na voz de Brígida. veio ajustar o que está atrasado, mas silêncio. Três colheitas, padre, é o que está neste papel. Um ligeiro bater de dedos em algum documento. Se quer que eu continue a manter a escola de ler e escrever disso aí, não me venha com muito discurso de pecado e pouco cobre. O padre suspirou.

A senhora gosta de brincar com o fogo, a dona Brígida. Fogo mesmo é ver crianças sem caderno e sem pão. E isso quem evita sou eu. Não o sino da sua capela. As palavras cortavam, mas havia neles verdade. Quitéria encostou a testa à parede, a cabeça girava. Aquela mulher que a aldeia chamava de bruxa sustentava a paróquia, a escolinha e, de certo modo, o próprio aldeia, com dinheiro, com papel,  com o medo que inspirava.

Naquela noite, aconteceu outra coisa. Depois que o padre saiu pelos fundos, sem ser visto, a neblina subiu do vale. Cercou a casa como um bicho branco. Quitéria já estava deitada quando ouviu um barulho suave, algo a roçar na janela. >>  >> levantou-se lentamente, chegou perto, um boneco de trapos pendia do lado de fora, preso por um pedaço de cordel.

Tinha a cabeça feita de pano branco, sem rosto. O corpo era apenas um trapo amarrado à cintura, no peito um pedaço de papel preso com espinho. Ela ficou paralisada, abriu a janela com cuidado. A neblina entrou fria, pegou no boneco, as mãos tremiam. Desdobrou  o papel, letras tortas rabiscadas à pressa. Bruxa nova, regressa para onde veio, antes que a terra  te engula.

O estômago de Quitéria revirou, guardou o bilhete e o boneco debaixo do colchão num impulso. Na manhã seguinte, mostrou a brígida. A velha não pareceu surpreendida. Acham que assusta?  Ela beliscou o boneco entre dois dedos. fizeram parecido para mim quando comprei o sítio do defunto salustiano. E a senhora fez o quê? Pus fogo e continuei indo à venda de cabeça erguida.

Atirou o boneco para o fogão por cima das brasas. O pano chiou, o cordel se contorceu. Em segundos ficou apenas uma mancha escura. O medo é coisa que a gente escolhe a quem dá. Eu não dou o meu para ninguém. Mas à noite, quando achava que Quitéria estava a dormir, a velha esteve acordada mais tempo, andando pela casa, conferindo trancas, vigiando pela janela.

Não estava tão tranquila como fingia. Os dias foram passando, a aldeia observava de longe. Na venda diziam que a viúva batia o pé como uma bruxa. Na fonte murmuravam que os olhos dela tinham um brilho estranho. Tudo em quem vive perto da maldade se torna sinal. Mesmo que a verdadeira maldade esteja noutro lugar.

Certa tarde, um boato correu pela praça. Uma criança desaparecera. O filho pequeno de um dos devedores da dona Brígida. Os homens saíram em busca com tochas. Caçaram o menino pela beira do ribeiro, pelo mato ralo, pela estrada. Nada. Quando a noite caiu, o pai apareceu à porta da casa do outiro. Desta vez não bateu, arrombou. Quitéria estava na cozinha quando ouviu o estrondo.

Devolve o meu filho, velha maldita berrava o homem. Eu sei que a senhora levou para pagar a dívida. A veia do pescoço saltava. Os olhos estavam vermelhos de choro e de pinga. Entrou na cozinha aos tropeções com uma faca na mão. Brígida ficou parada. Não recuou. Se eu quisesse a sua vida, não precisava de um menino. A voz dela era fria. Bastava um papel. Bruxa.

Ele avançou um passo. Foi Quitéria quem gritou. O senhor acha mesmo que uma criança paga dívida de homem feito? A faca tremeu-lhe na mão. Por um instante, a pergunta entrou mais fundo do que o ódio. Ele desapareceu depois que eu Vim aqui implorar mais prazo. E desapareceu onde? Insistiu Quitéria. Na beira da roça. Eu fui ver o milho.

Quando olhei, ele já não estava. Brígida estreitou os olhos. Vai procurar a casa de quem vive, dizendo que eu sou um bicho mau. Gente assim gosta de ter distração paraas próprias safadezas. A acusação ficou no ar. O homem  hesitou. Do lado de fora. Outras vozes se aproximavam. Vinham atrás dele. Se você me cravasse essa faca, continuou brígida, baixa, só para ele ouvir.

Perdia a terra, a mulher e os outros filhos. Quem o pôs nesse beco foi você mesmo. Eu só escrevi o papel. Ele respirava pesadamente. A raiva, a dor e a culpa lutavam no seu rosto. Por fim, pousou a faca sobre a mesa, saiu tropeçando, empurrando quem estava na porta. As vozes do povo misturaram-se. O que ela fez? Não fez nada.

Devia ter acabado logo com esta bruxa. A casa voltou ao silêncio. Brígida sentou-se lentamente, as mãos tremiam. Quitéria viu pela primeira vez. O medo na velha. A senhora está bem? Eu estou velha e isso sim.  O olhar dela voltou-se para a figueira do quintal que se movimentava-se sob o vento.

Uma hora as contas que escrevi vão ser pesadas contra mim.  Nos dias seguintes, a aldeia ferveu de boatos. O menino apareceu, afinal, numa choupana de taipa na beira do ribeiro. Um rapaz mais velho tinha-o levado para trabalhar escondido, longe da vista do pai. >>  >> queria usar o menino como ajudante sem pagar.

Quando descobriram, houve grito, briga,  mas ninguém pediu desculpa a Brígida. Era mais fácil esquecer que tinham tentado invadir a casa dela e continuar a chamá-la de bruxa. Nessa noite, depois de as as coisas acalmaram, Brígida chamou Quitéria para o quarto proibido. “Já viu demais para ficar de fora”, disse apenas, abrindo  a porta.

O quarto não tinha nada de mágico, só papéis, muitos, em pilhas,  em caixas, em prateleiras. Mapas de terras riscados com tinta vermelha, nomes, assinaturas. Isto aqui sustenta este aldeia desde antes de nasceres, explicou. Foi o meu pai que começou. Depois continuei. Ela passou a mão por um mapa.

Quando as minas de ouro foram minguando, os senhores daqui foram embora, vendendo barato o que podiam.  O meu pai comprou a maioria, eu comprei o resto. Olhou firme para a viúva. Tudo o que vê da porta da venda até à última cerca do pasto lá por baixo tem o meu nome escrito em algum lugar.

Quitéria ficou calada, a garganta seca. Porque me mostrou isso? Porque não vou durar para sempre. E algum olho tem de saber ler o que está escrito aqui. A senhora não tem herdeiros? Brígida sorriu sem alegria. Tive um filho. Dei-lhe de mamar, cuidei e ensinei a andar.  Ele cresceu e decidiu que preferia chamar-me bruxa. Também foi-se embora atrás de uma promessa de fortuna noutra comarca.

Nunca mais voltou. Um silêncio pesado instalou-se. E os outros familiares? Parente só aparece quando vê riqueza. E riqueza aqui tem dois lados, o do dinheiro e o do ódio. Ela fechou o mapa. Tens medo de mim, viúva? Quitéria pensou na resposta. Tenho medo do que o povo sente pela senhora. Brígida sentiu-a satisfeita.

É um começo. Naquela madrugada, um cheiro diferente acordou Quitéria. O fumo não era do fogão, era outra. levantou assustada, abriu a porta do quarto. O corredor estava cheio de fumo grosso, escura. “Fogo!”, gritou. Brígida já vinha a coxear, um balde na mão. No fundo da casa correram. Alguém havia atirado um pedaço de pano em chamas pela janela da dispensa.

As prateleiras de madeira pegavam fogo rápido. Trabalharam num silêncio desesperado, atirando água, batendo cobertores molhados. O fogo teimava em subir pelas paredes. Lá fora, na estrada, ouviam-se risos abafados, passos apressados afastando-se. Quando conseguiram controlar as chamas, metade da dispensa estava preta.

Algumas caixas de papel tinham ficado chamuscadas. Brígida passou as mãos pelos documentos, como quem confere uma criança cheia de machucados. “Não levaram o que queriam”, murmurou. “Só me avisaram que podem mais”. Ela olhou para Quitéria. “Acha mesmo que é a assombração que ronda este casa?” não era.

E a partir desse dia, a viúva passou a ter a certeza o que assombrava a casa do outiro não eram sombras sem corpo, eram corpos cheios de rancor, famintos de uma vingança que não tinha coragem de se assumir como tal. Aos poucos, o olhar da aldeia foi mudando. Quando Quitéria ia buscar água na fonte, as conversas paravam, os olhos se desviavam.

Uma tarde, uma menina deixou cair o pão ao lado dela. A mãe puxou a filha pelo braço. Não pega, não. Ela pode ter posto coisa em cima. O pão ficou  ali sozinho na poeira. Regressando a casa, com o cântaro nos braços, Quitéria sentiu uma pontada de raiva, não pelo nome de bruxa, mas pelo modo como a cobardia de todos se encostava-se nela.

Ao chegar ao outiro, encontrou brígida sentada sob a figueira. A velha parecia mais pequena, o rosto mais fundo de rugas. Cedo ou tarde vão tentar arrancar-me esta casa, disse, sem preâmbulo. Não com papel, com fogo ou com faca. Olhou diretamente para a viúva. E quando eu cair, vão pensar que estás apenas mais uma sombra que por aqui passou.

Uma brisa gelada correu entre os ramos. A senhora fala como se não tivesse escolha.  Escolha? Eu tive lá atrás”, respondeu seca, “Quando decidi comprar o primeiro pedaço de terra a um homem desesperado. Agora as escolhas acabaram. Ela respirou fundo. Mas você ainda tem. Que escolha tenho?”  A voz de Quitéria saiu mais alta do que queria.

“Pode ir embora?”, disse a velha, “Fingir que nunca viu nada, ou pode ficar e aprender a carregar a ira de um povo inteiro às costas”. A imagem era brutal.  mas verdadeira. Nessa noite, antes de dormir, Quitéria esteve muito tempo a olhar para as próprias mãos e questionou-se quantas vidas cabiam ali dentro. Não sabia que a resposta viria mais rapidamente do que imaginava,  nem que quando a morte entrasse finalmente na casa do outiro, não viria com vela acesa e padre ao lado, mas com silêncio e veneno.

Os dias seguintes ao incêndio pareceram mais curtos e mais pesados.  Brígida toscia com frequência. Uma tosse seca, funda, que sacudia o corpo pequeno. Quase não saía mais de casa, mandava quitéria à venda. ao açoug. Se me vão atacar, vão usar as suas costas como caminho”, disse um dia. “É mais fácil bater em quem parece fraco.

” Na venda, o ambiente mudou. Antes, a viúva era ignorada, agora  era vigiada. Silvério, o vendeiro, pesava o sal com uma lentidão  irritante. Os homens nos bancos mediam-na com o canto do olho. Numa tarde, enquanto ela esperava o troco, um sujeito de chapéu baixo resmungou alto o suficiente para que todos ouvissem.

Primeiro ela vem como pobrezinha, depois entra na casa da bruxa. Daqui  a pouco é ela que manda amarrar a nossa terra em papel. Gargalhadas escorreram pelo ambiente nervosos. Cuidado com o que diz, Adalto”, advertiu outro.  “Vai que ela te atira praga”. Quitéria apertou a sacola nas mãos. O impulso de responder era forte, mas uma parte dela já tinha percebido o jogo.

Em lugar onde o medo manda, a primeira palavra passa a arma. Voltando pelo caminho de terra batida, reparou numa coisa. Alguns homens marcavam o tronco das árvores com sinais, cruzes, traços. Não era superstição, era aviso. A casa do outiro estava rodeada de marcas invisíveis, como se fosse um alvo. Naquela noite, Brígida quase não comeu, empurrou o prato. A comida perdeu o sabor.

Quitéria insistiu: “A senhora precisa de se alimentar. Preciso de ar e de tempo.” Ela olhou para o quarto dos papéis. E tenho o pouco dos dois. Tarde da noite, quando a casa parecia dormir, a velha chamou: “Anda cá!” Ela estava sentada à mesa, uma vela acesa diante de si, sobre a mesa, um único papel dobrado.

“O que é isso?” “Testamento. Brígida encarava a chama. Mandei o escrivão da cidade vizinha vir aqui às escondidas há dois meses.” Entregou o papel à viúva. Lê? As mãos de Quitéria suavam. abriu o documento. O coração batia alto no peito. Ali, em letras firmes, estava escrito o que ela não esperava: A casa do outeiro, as terras em redor, as casas da aldeia construídas em terreno arrendado, o armazém, tudo, tudo passaria para Quitéria Rodrigues, viúva, sem filhos, natural de com os pormenores completos. Ela levantou os olhos. Isso é

loucura. Loucura é deixar isso nas mãos de quem já me odeia em silêncio. Retorquiu a velha. Você pelo menos viu o que tem por detrás das paredes? Vão-me matar. Talvez tentem. Não havia consolo na voz dela. Só constatação. Porque eu, Brígida, respirou fundo. Porque você sabe o que é ser expulsa de tudo.

Quem já foi posta fora de uma casa entende que o poder não é para brincar. Fixou o olhar na viúva. vai ter vontade de se vingar, de usar o papel como chicote. Se fizer isso, torna-se igual a eles, um silêncio longo. E se eu rasgar isso? Sussurrou a Quitéria. A terra encontra outro dono e provavelmente, pior, a vela vacilou com o vento.

Amanhã cedo chamo o padre, completou a velha. Ele não gosta de mim, mas gosta de papel reconhecido. Vai dar o jeito dele. Mas o dia seguinte não chegou do forma que elas imaginaram. Antes do amanhecer, Quitéria acordou com um ruído estranho, um copo a cair, um gemido abafado. Levantou-se num salto, encontrou brígida caída no chão da cozinha, os olhos entreabertos, a pele amarelada, ao lado o copo de barro partido, um resto de líquido emposoado.

Dona Brígida! ajoelhou-se ao lado dela, tentou erguer a cabeça num colo improvisado. A velha respirava curto, os lábios murmuravam algo que Quitéria não entendeu. O cheiro no ar era doce, um doce enjoativo que não combinava com nada que tivessem em casa, veneno. Ela não era tola, tinha visto o homem morrer assim numa luta de terras na infância.

Brígida segurou o pulso da viúva com força inesperada. Não queima os papéis. murmurou quase sem voz. Muda o modo de usá-los. Os dedos afrouxaram, o olhar perdeu o foco. Foi só silêncio. Quitéria ficou ali ajoelhada durante demasiado tempo, até o sol começar a empurrar a noite pelas frinchas da janela.

Quando o aldeia soube, o corpo ainda estava quente. Vieram todos, não por pena,  por curiosidade, e, no fundo, por alívio. A bruxa tinha morrido. O sacerdote fez o sinal da cruz sobre o corpo com expressão difícil de decifrar. É uma alma que parte. A sua voz era burocrática.  O resto, Deus julga.

Na beira do terreiro, os homens coxixavam. Foi castigo. Foi a própria  feitiçaria que se virou contra ela. Deve ter sido coisa do demónio. Ninguém mencionou veneno. Quitéria olhava para tudo de  pé, sentindo a roupa colar no corpo. O suor frio escorria pela nuca. Quando tentaram tirar o cadáver da casa, ela  colocou-se à frente.

Vai sair pela porta da frente, disse firme. Não como o bicho caçado. Os homens hesitaram.  Aquilo era mais dignidade do que estavam dispostos a conceder, mas perante a firmeza dela, cederam.  O corpo de Brígida desceu o outiro em silêncio. A aldeia inteira veio ver. Enterraram-na num canto do cemitério, não muito perto das famílias antigas, mas também não tão afastado como queriam.

Quitéria voltou sozinha para a casa do outiro.  O vazio lá no interior era quase sólido. A mesa ainda tinha a marca do copo.  O testamento dobrado continuava no lugar onde ela o deixara. O cheiro doce ainda pairava. Ela abriu todas as janelas, deixou o vento entrar. À tarde, o padre apareceu, desta vez pela porta da frente.

Preciso de conversar, disse, sem rodeios. Sentaram-se na cozinha. Ele limpou o suor da testa com um lenço. Soube que a senhora tem um documento. Tenho. Queitéria colocou-o sobre a mesa. E o senhor sabia dele antes de mim? Não sabia? O padre apertou os lábios. Dona A Brígida falou-me das suas intenções. Pedi-lhe que refletisse, mas ela era obstinada.

E o escrivão reconheceu as firmas. Legalmente? Ele suspirou. Legalmente? Tudo isto agora é seu. A frase caiu sobre ela como pedra. O senhor acha que fui eu? Perguntou de repente. O quê? Acha que eu envenenei a dona desta casa para ficar no lugar dela? O padre afitou. Viu a olheira funda, o rosto marcado de noite mal dormida.

“O vilarejo acha”, disse por fim. “Se ainda não acha, vai achar. A a sinceridade doeu mais do que uma acusação direta. E o senhor? Ele demorou a responder. Eu não sei. Ela riu sem humor, então é como se achase. Levantou-se, pegou no testamento e guardou-o no bolso do avental. Vão subir isto aqui esta noite, avisou o padre para perguntar o que será deles.

Deles? Dos que vivem em terra que agora é sua. Apoiou as mãos na mesa. Cuidado com o que responde. Palavra maldada vira faca. Quando o sol se pôs, a casa do outiro já não era apenas uma casa, era um tribunal. Viúva na cabeceira, povo no terreiro. Deus, se ali existisse, devia estar calado a um canto.

Vieram em grupo, homens, mulheres, crianças. Alguns com chapéu na mão, em sinal de respeito, outros de punho fechado, em sinal de revolta escondida. Queremos saber o que vai ser de nós”, disse um agricultor, tomando a dianteira. “A terra que planto é da senhora agora?” “O teto onde crio meus filhos?”, perguntou uma mulher, a voz embargada.

“E a venda?”, arriscou-se o velho. “Paga aluguel para quem agora?” As perguntas caíam como pedras. Quitéria respirou  fundo. Por um momento, a imagem de si mesma como senhora absoluta daquelas vidas passou pela cabeça. Poder expulsar quem a insultara, aumentar juros, fazer pagar com sangue o que jogaram de ódio sobre ela. A tentação ardeu, mas atrás dela parecia ouvir a voz de Brígida.

Não queima os papéis, muda o jeito de usá-los. Nada muda hoje, falou enfim. Ninguém vai ser tirado da terra. Ninguém vai ter aluguel aumentado. Um murmúrio correu entre o povo. Por enquanto, atalhou um homem. Amanhã a senhora muda de ideia. Quitéria encarou-o. Meu nome é quitado de dívida. Era mentira, mas soava como verdade naquele instante.

Enquanto ele for, o nome que assina os papéis, vai ser para diminuir peso, não para aumentar. Silêncio. Vou chamar o escrivão.  Continuou. Quem tiver papel aqui dentro vai sentar comigo um por um. Vamos ver o que é justo,  o que é abuso, o que foi cobrado duas vezes. Os olhos se arregalaram. Aquilo não fazia parte do que esperavam da nova bruxa.

“Vai perdoar tudo”,  cutucou alguém desconfiado. “Perdoar tudo é não aprender nada”,  respondeu seca. Mas tem dívida aí que já foi paga três vezes, só não foi marcada como quitada. Alguns homens baixaram o olhar. Sabiam que tinham aproveitado o medo da velha para empurrar juros em cima de vizinho. Porque sim, Brígida cobrava, mas muita gente cobrava em nome dela e aumentava valores às escondidas.

que Téria tinha visto os números, tinha comparado. O verdadeiro monstro não estava só na dona do outiro, estava nas mãos que levavam papel e voltavam com moeda a mais. Naquela noite, ninguém dormiu direito no vilarejo. Uns sonhavam com o perdão que podia vir, outros com as falcatruas que seriam descobertas.

Na casa do outeiro,  a viúva sentou sozinha diante dos mapas. A vela fazia sombras dançar pelas paredes. “Sou a dona disso tudo”, murmurou  sem acreditar na própria voz. Não se sentia poderosa. Sentia-se cercada, capaz de ser amada por alguns e odiada por muitos. No dia seguinte, começaram as visitas.

Um a um, os devedores apareceram. Passaram pela figueira, pela porta, pelo corredor, cheio de raízes secas. Sentaram à mesa da cozinha. Quitéria abria o baú, pegava o papel correspondente, lia, devolvia ao dono a própria história em voz alta. Muitos descobriam ali, pela primeira vez, o quanto deviam de verdade e o quanto acreditaram em fantasia.

“Eu não sabia que era tudo isso”, murmurou uma mulher, enxugando as mãos no avental. “Nem é”, retrucou Quitéria. “do desses juros aqui foram inventados. riscaram as porcentagens com a ponta da faca. Foi alguém que passou na sua casa dizendo que vinha em nome da velha. Cobrou- a mais. Alguns reconheciam o nome, um vizinho, um parente.

A raiva mudava de direção. Já não era só contra a bruxa morta, era contra quem vivo se aproveitara do medo que ela inspirava. Enquanto isso, do lado de fora, outros não se conformavam. “Quem essa viúva pensa que é?”, resmungou o vendeiro. Agora vem querendo pagar de santa. Ouvi dizer que vai escrever papel para metade da vila respondeu o compadre.

Se ela quiser, tira sua venda do chão com uma assinatura. O medo que antes tinha um alvo claro agora se espalhava. Virava desconfiança entre todos. Uma noite, uma pedra quebrou uma janela da casa. Quitéria correu para ver. No chão, um bilhete preso à pedra. Quem manda demais não vive muito. Ela guardou o papel junto com o boneco de pano que ainda conservava queimado nas bordas.

Não contou a ninguém. Sabia que a ameaça não vinha de longe, vinha de perto, talvez da mesma mão que preparara o veneno de Brígida. Com o tempo, a verdade começou a aparecer, não por confissão, mas pela soma de pistas. O homem que entregara o remédio para a tosse de Brígida, dias antes da morte.

O parente distante que vivia rondando, oferecendo ajuda com os papéis. O escrivão, espantado, ao descobrir que tinha sido procurado por esse parente para saber da validade do testamento. Motivo havia, oportunidade também, mas no fim não houve justiça de tribunal, nem punição exemplar. No interior esquecido do século XIX, crimes assim morriam no mesmo silêncio em que eram cometidos.

Só não morriam dentro da cabeça de quem viu Quité Téria sabia, e o homem que envenenara a velha também. Quando o encontrou na estrada, meses depois, os olhos dele fugiram, as mãos tremeram um pouco. Ela não o denunciou, nem o perdoou. só carregou o peso do que sabia como se fosse mais um papel na caixa.

Aos poucos, o vilarejo mudou, não por milagre, por pequenos movimentos. Quitéria reduziu alguns juros, cancelou outros, deu prazo em situações de doença, mas em troca exigia que as crianças viessem à escola, que aprendessem a ler. “Quem sabe ler não precisa ter medo que escrevam por ele”, dizia. Reformou a venda, mas tirou-se o velho da posição de intocável.

pôs outra pessoa para conferir o caderno de fiado. Arrumou a estrada até o outiro. Não para facilitar visitas, mas para lembrar que ninguém vivia fora da terra de ninguém. Sigilo continuou, medo continuou, mas mudou de lugar. Agora, o povo temia mais a própria consciência do que a sombra da figueira.

Quando andava pela praça, ainda chamavam-na de bruxa por trás. Mas de vez em quando alguém a cumprimentava de cabeça erguida. “Deus lhe pague, dona Quitéria”, dizia ao ver um filho com caderno novo debaixo do braço. A viúva nunca se acostumou completamente. À noite, ainda ouvia o assubio do primeiro homem que veio  implorar na porta.

Ainda sentia o cheiro doce do veneno na cozinha.  A casa do outeiro continuava cheia de sombras, mas agora ela sabia que a maioria tinha rosto.  E na figueira do quintal, em vez de ver braços de fantasma, começou a ver outra coisa: o peso dos anos, o nó das escolhas humanas. Nada ali era obra de demônio, nem de santo.

Era só a soma de ganância, covardia, medo e oportunidade. A verdadeira bruxaria daquele lugar sempre tinha sido o poder de um papel e o que as pessoas estavam dispostas a fazer para não encarar o próprio nome escrito nele. Muito tempo depois, quem passava pelo vilarejo ainda contava a história. Dziam que houve uma bruxa que mandou em tudo e que depois da morte dela surgiu outra, uma viúva vinda de longe que herdou a casa alta e os segredos do outeiro.

Mas o que ninguém via de fora era a explicação simples por trás de cada assombração. A voz na estrada, pedindo por dona brígida, depois do sino da noite, não era a alma penada. eram devedores desesperados, com medo de perder a roça. Os bonecos de pano amarrados na janela não eram trabalho de feitiço, eram recados covardes, feitos por mãos que tremiam mais de culpa do que de ódio.

O fogo na dispensa não tinha sido castigo divino. Era tentativa falhada de queimar papéis que prendiam um povo inteiro por dívida. O veneno no copo não caiu do céu. Foi posto ali por alguém que queria a herança, que contava com o ódio do vilarejo para encobrir o crime sob a palavra castigo. A suposta bruxa nunca voou em vassoura nenhuma.

Não falava com espírito, falava com padre, com escrivão, com jagunço. Sabia usar a lei do homem para amarrar mais forte do que qualquer maldição inventada. Quando deixou tudo para a viúva sem destino, não fez gesto de bondade pura, fez escolha dura. Preferiu passar o fardo dos papéis para alguém que sabia o que era ser posta para fora, do que para um parente que via naquelas terras só cifrão.

Queitéria nunca virou santa, nem podia. mantinha dívidas, cobrava o que era justo. Sabia que se rasgasse tudo, o vilarejo afundava de vez, mas mudou a direção das cordas. Em vez de usar o medo para enriquecer em cima da miséria, usou o medo que via nos olhos alheios para lembrar a si mesma de não repetir as mesmas violências. A verdadeira explicação para a lenda da bruxa do outeiro era um conjunto de coisas bem humanas.

a manipulação de um povo ignorante, a necessidade de alguém controlar o pouco de riqueza que ainda circulava, a conveniência de ter um monstro único para culpar pelos próprios erros. No fim, nem Brígida, nem Quitéria tinham poder sobrenatural nenhum. O que tinham era informação, papel, coragem de encarar o ódio de muitos.

O medo que rondava o vilarejo não vinha da figueira torta no quintal. vinha do segredo de saber quem devia o que, a quem, quem roubou, quem mentiu, quem envenenou. E isso sim parecia feitiço, porque nenhuma assombração pesa tanto quanto a culpa que uma pessoa carrega em silêncio. Anos mais tarde, quando Quitéria também se foi, enterrada perto da velha que um dia a acolheu, os papéis já não tinham o mesmo poder.

Muita dívida tinha sido revista, muita injustiça exposta. O vilarejo continuava pobre, mas diferente. As crianças sabiam escrever o próprio nome, sabiam principalmente ler o nome dos outros. E assim o grande feitiço da ignorância começou a se desfazer. O povo seguiu chamando as duas de bruxas nas conversas de roda, porque era mais fácil dizer: “Foi coisa delas do que assumir que tudo o que aconteceu ali foi só obra de gente comum.

Gente capaz de expulsar viúva sem dó, de envenenar velha por herança, de queimar casa por papel e às vezes também capaz de mudar o jeito de usar o poder que cai na mão. No fim, no outeiro, como em tantos outros cantos esquecidos do interior do Brasil, o maior terror nunca veio do além. Veio do que o homem é capaz de fazer quando tem medo de perder o pouco que chama de seu.

>>  >> E se existe alguma maldição que ficou naquelas pedras, é a lembrança silenciosa de que o verdadeiro monstro naquela história  sempre foi humano. No.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *