Ela plantou gliricídia como cerca viva e chamaram de doida. Dois anos depois, virou pasto e adubo… – YouTube Transcripts: Em abril de 1986, numa pequena propriedade de terra mista entre a Caatinga e a Mata dos Cocais, perto de Codó, no Maranhão, uma mulher de 29 anos, de nome Raimunda, Aparecida dos Santos, pegou num feixe de estacas verdes, que tinha cortado na semana anterior, colocou-o debaixo do braço e foi para a fronteira norte da propriedade, onde acerca de arame farpado necessitava de uma reforma Há mais de 3 anos. As estacas eram ramos direitos, com pouco menos de 2 m cada um, de uma árvore que ela tinha descoberto num sítio mais distante em Caxias, durante uma visita à sua prima no ano anterior. Eram ramos de Gliricídia. Raimunda chegou à fronteira, abriu o feixe e começou a espetar as estacas no solo, espaçadas de cada metro e meio, ao longo de todo o troço de vedação que precisava de ser refeito. Não cavava buraco fundo, só enterrava a base da estaca cerca de 40 cm, com o ajuste de um pisão de madeira para firmar. O sol já estava forte a meio da manhã e o suor escorria-lhe pela testa. Mas Raimunda continuava a trabalhar com o ritmo de quem sabia o que estava a fazer. Foi nessa altura que José Bento, o marido, apareceu vindo do campo de mandioca. Tinha visto a mulher a sair cedo de casa com aquele feixe esquisito e tinha ficado intrigado, mas estava ocupado demais para ir atrás. Agora, no caminho de regresso a casa, para o almoço, viu o que ela estava a fazer na fronteira. Raimunda, mulher, o que é que estás aí a fazer com estes ramos? Plantar cerca, José. Plantar cerca? Como assim plantando cerca? Cerca a gente faz com mourão de aroeira e arame, mulher. Cerca não se planta. Esta aqui planta-se. José Bento aproximou-se, examinou uma das estacas que ainda não tinha sido enterrada, virou-se na mão. Que ramo é este? É Gliricídia. Conheci na propriedade do compadre Manoel em Caxias, quando fui visitar a Antónia no ano passado. Tu lembras-te que fui passar lá uma semana? Lembro, mas tu não me falaste de galho nenhum. Não falei porque não tinha a hora certa. Agora tem. Estou plantando. José Bento abanou a cabeça com aquele jeito de homem do interior maranhense que considera que sabe das coisas do mato porque cresceu nele. Raimunda mulher, esta cerca aqui não vai segurar bicho nenhum. Estes ramos vão secar em 15 dias e cair. A gente vai ficar sem cerca na fronteira e o boi do Tobias vai entrar e comer a lavoura inteira. Não vai secar, José. Gliricídia pega de estaca, brota, vira a árvore. Quem te disse isso? O compadre Manuel disse: “Mostrou-me acerca dele que está lá há mais de 10 anos e que plantou de estaca igual a essa. ” José Bento calou-se por um instante. Olhou para a mulher. Era homem que respeitava a esposa, casado com ela havia 8 anos, e sabia que Raimunda não era de inventar moda à toa, mas aquilo parecia, no mínimo, uma teimosia que ia dar trabalho extra sem precisar. Raimunda, mesmo que estes ramos peguem, mesmo que virem árvore, ainda assim a gente vai precisar de fazer a cerca de arame farpado. Não se pode confiar em árvore para segurar o gado. Eu vou fazer a vedação de arame depois, José. Mas plantando isto aqui agora, daqui a um tempo vou ter a sebe, que segura, que dá sombra, que dá folha para gado a comer e que ainda recupera o chão da divisa que está fraco. É três coisas em uma só. José Bento abriu a boca, fechou de novo, olhou para as estacas já fincadas, contou de cabeça. Eram quase 30 plantadas no troço de vedação já preparado e ainda faltavam mais umas 20 que estavam no feixe no chão. 50 árvores, Raimunda, vais plantar 50 árvores na fronteira? Vou e depois vou plantar mais 50 nas outras divisas. Mulher, isso é uma loucura. A propriedade vai tornar-se um mato fechado. Não vai virar mato, vai tornar-se uma cerca. José Bento abanou a cabeça pela última vez, virou-se as costas e desceu para casa para almoçar. não discutiu mais, mas no caminho foi resmungando baixinho sobre como mulher dá nestas ideias estranhas quando passa muito tempo com prima da capital sobre como ia perder gado pelo buraco da vedação enquanto Raimunda esperava a árvore crescer, sobre como sogra dele, dona Yolanda, tinha avisado quando ele casou que Raimunda era uma rapariga leitora demais, que ia ter uma ideia de cidade na cabeça. O almoço na cozinha de chão batido com o fogão a lenha aceso pro frescura que entrava pela janela, José O Bento contou à dona Iolanda, que vivia com o casal desde a morte do sogro, em 1982, o que tinha visto Raimunda a fazer: “Mamã, a Raimunda plantou um ramo na fronteira norte, disse que é sebe.” Disse que vai virar árvore. Dona Iolanda, mulher de 64 anos, baixa, gorda, com o cabelo branco apanhado no coque firme, levantou os olhos do prato de baião de dois sebes. Que história é esta? Galho de uma árvore chamada Glicídia. Disse que pega de estaca, que vira a árvore, que vai servir de vedação e de alimento para gado. A Dona Yolanda riu com aquela gargalhada curta de quem ouviu coisa absurda. Filha, deixa de inventar modas. Cerca a gente faz com Mourão. A gente sempre fez assim. A tua mãe fazia, a tua avó fazia, a minha mãe fazia. Para quê mexer no que está certo? Raimunda, que estava a servir o feijão para os dois filhos pequenos, O Pedro de 6 anos e a Conceição de quatro, não respondeu de imediato. Pôs o prato na mesa, sentou-se no seu lugar, pegou no pano da mesa, dobrou. A Dona Iolanda, com todo o respeito, a senhora nunca viu gliricídia. Não é um mourão comum, é outra coisa. É uma árvore que apanha só com um galho enterrado, que cresce depressa, que dá folha durante todo o ano e que não apanha praga. E onde a senhora arranjou esta árvore, Raimunda? No sítio do compadre Manoel em Caxias no ano passado. O Compadre Manoel é da família de quem? É primo do meu pai que faleceu, a senhora Yolanda. A senhora não conheceu? Pois é, filha de homem morto com ideia de pessoas que não conhecemos. Eu não confio. José Bento, tu não vais deixar a tua mulher mexer na divisa, não, não é? José Bento, que estava com a colher na boca, olhou paraa mãe, olhou paraa mulher e respondeu como respondem os homens casados ​​que querem manter a paz ao almoço. Mamã, deixa a Raimunda fazer aquilo que ela quer. Se não resultar, a gente faz a vedação direito depois. Não não custa nada experimentar. Não custa nada. E o tempo que ela está perder plantando ramo que não vai pegar? E o trabalho que ela vai dar aos senhora quando o boi do Tobias entrar e comer a mandioca? Raimunda comeu em silêncio. Sabia que a dona Yolanda ia repetir aquela conversa durante os próximos seis meses sem parar e que José Bento ia ficar entre a mãe e a esposa, sem saber bem de que lado ficar. Tinha aceitado isso quando casou e mais ainda quando a dona Yolanda veio viver com eles. Era a forma que a coisa funcionava no Maranhão dos Cocais. Sogra com nora a partilhar cozinha, marido tentando equilibrar. Deixa-me contar quem era a Raimunda Aparecida dos Santos. Porque o que ela fez naquela fronteira de propriedade em Abril de 86 e o ​​que ela ia descobrir nos dois anos seguintes, só faz sentido se se souber de onde tinha vindo aquela mulher que plantava a árvore quando todo o mundo plantava mourão morto. Raimunda nasceu em 1957 em Codó, a filha mais velha do seu Sebastião dos Santos e a dona Maria do Carmo. O Sr. Sebastião era lavrador pequeno com uma propriedade de 5 hectares na zona rural de Codó. E dona Maria do Carmo era costureira, que atendia mulheres do concelho inteiro com aquele talento que ela herdara da própria mãe. Eram quatro filhos no total. Raimunda, depois Antónia, depois José e por último Sebastião Filho, batizado em homenagem ao pai. A peculiaridade da família Santos não estava naquilo que cultivavam, que era o mesmo que toda a família da região cultiva: mandioca, arroz, milho, feijão, com algumas cabeças de gado e babaçu. A peculiaridade era que a dona Maria do Carmo, apesar de viver na zona rural, tinha 5 anos de escolaridade, coisa rara entre mulheres do interior maranhense naquela época. E mais raro ainda, ela acreditava que as filhas mulheres deviam estudar pelo menos o mesmo que ela tinha estudado. Raimunda foi matriculada na escola rural mais próxima aos 6 anos e estudou até à quarta classe, idade em que a maioria das raparigas da região já estava a ajudar em casa em tempo integral. Quando completou os 12 anos, A dona Maria do Carmo conseguiu com muito custo e com a ajuda da irmã tia Ester, que residia em Codó cidade, matricular Raimunda, numa escola pública da sede do concelho, com a menina a ir e voltar todos os dias de boleia com vizinhos que faziam o percurso. Raimunda estudou até à oitava classe, parando aos 15 anos quando A dona Maria do Carmo ficou doente e Raimunda teve de voltar para ajudar nos cuidados da casa e dos irmãos mais novos. Mas Raimunda gostava de ler. Tia Ester, a tia de Kodó, tinha uma estante de livros porque o marido tinha sido professor primário antes de morrer jovem. E a Raimunda, sempre que ia visitar a tia, regressava com dois ou três livros emprestados que devorava nas noites de sertão maranhense, à luz fraca da candeeiro de Querosene, deitado na rede da varanda. Leu de tudo. Romance de Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, manual antigo de agricultura familiar que a tia Ester tinha herdado do marido. Almanaque da saúde da editora Capivarol. revista Manchete Velha, que chegava amassada às mãos da tia. Cartilha do Movimento de Educação de Base, livro de história do Brasil, livro sobre plantas medicinais que tinha sido publicado em São Luís nos anos 60. Foi pelos livros que Raimunda começou a ter ideias diferentes das outras mulheres da zona rural. Não diferentes no sentido de querer ir embora ou virar-se coisa de cidade, mas diferentes no sentido de questionar porque é que as coisas eram feitas da forma que eram feitas e se não havia outra forma de o fazer. Raimunda casou em 1978, com 21 anos, com José Bento dos Santos Filho, lavrador da região, vizinho da propriedade dos seus pais, que ela conhecia desde criança. José Bento era 5 anos mais velho, tinha já a propriedade pequena dele, herdada do pai que tinha morrido jovem. O casamento foi simples, na igrejinha de São José, da aldeia de Garapé Grande, com festa no terreiro da casa dos pais dela. Os primeiros anos de casamento foram tocando a propriedade pequena de José Bento, com mandioca, arroz, milho e cerca de 10 cabeças de gado e umas 20 cabras. Em 1980 veio Pedro, o filho mais velho. Em 82 veio a Conceição. Em 82 faleceu também o pai de José Bento. E a dona Yolanda, que vivia sozinha na casinha ao lado, veio viver com o casal. Era uma situação para a qual nenhuma das duas estava completamente preparada, mas que se foi ajeitando com o tempo. A relação de Raimunda com a sogra era cordial, mas tensa. A Dona Yolanda era mulher tradicional do sertão maranhense, que considerava que a mulher tinha um lugar certo na vida e que o lugar não era ficar ler livro, nem inventar moda. A imunda, que aceitara viver com a sogra por respeito ao marido e à tradição, suportava as observações constantes com paciência, mas continuava à maneira dela. Lia nas noites, separava livros para os filhos lerem quando crescessem, conversava sobre coisas que a sogra achava estranhas, observava o que outros faziam noutras propriedades quando ia visitar a família. Em 1985 foi quando Raimunda foi visitar Antónia, a irmã que tinha casado com um lavrador de Caxias e vivia no sítio da família do marido. Antónia tinha mandado dizer que estava doente, que queria ver a irmã. E Raimunda apanhou o autocarro da empresa cidade de Caxias e foi passar uma semana lá. Antónia tinha sarado em alguns dias e Raimunda aproveitou o tempo para conhecer o sítio do compadre Manoel, primo do pai, que ela só conhecia de nome. O sítio do compadre Manoel ficava num lugar bonito, com terra mais húmida, com algumas nascentes pequenas, com uma vegetação um pouco diferente da que Raimunda conhecia. E na entrada da propriedade, ao longo de quase 300 m, tinha uma vedação diferente de tudo o que Raimunda tinha visto antes na vida. Era uma fileira contínua de árvores, todas iguais, com copa baixa e larga, com flores cor-de-rosa penduradas em cachos e com arame farpado preso diretamente no tronco das mesmas. As árvores estavam vivas, frondosas, e ofereciam sombra contínua ao longo do percurso. Compadre Manuel, que árvore é esta que o Sr. tem na vedação? Glicídia, comadre, tu nunca viu? Nunca. Aqui em Codó não há. Pois é boa planta. Veio do norte do país, de gente que conheceu antigamente um engenheiro agrónomo da Bahia. Eu plantei essa cerca aqui há 12 anos e ela está viva, está a produzir, está a segurar o boi. Raimunda ficou a olhar para a cerca, examinando as árvores, apanhou um galho que tinha caído no chão, examinou a folha. Compadre O Manuel viu o interesse dela e foi explicando. Apanha-se um galho desses com mais ou menos 2 m e enterra diretamente no solo. Não necessita de raiz, não necessita de muda em saco, não precisa de nada. Enterra o ramo e ele apanha. Vira a árvore. Sério, compadre? Sério? Eu tenho aqui umas estacas guardadas porque tenho refeito alguns pedaços da vedação onde estava a falhar. Se tu quiseres, eu dou-te umas para te levar de volta para Codó. Quero, compadre, quero mesmo. Mas comadre, a gliricídia não é só para a cerca, não. É para forragem também. O gado come a folha, cabra come, ovelha come. É folha rica em proteína, melhor que muita ração de saco. E mais, a folha cai no chão, transforma-se em adubo, recupera a terra. Onde tu plantar gliricídia, em dois ou três anos, a terra volta a ficar boa. Cerca, forragem e adubo. Tudo numa só árvore. Tudo numa só árvore. E tu podas-a quando quer. Ela rebrota e o ciclo continua. Raimunda passou o resto dessa semana em Caxias, percorrendo a cerca do compadre, examinando, fazendo pergunta. O Compadre Manuel mostrou-lhe como cortava o ramo na altura certa, em que altura do ano funcionava melhor, como enterrava a estaca, como podava depois que a árvore tinha crescido. Raimunda anotou tudo num caderninho que tinha levado na bolsa, com a letra dela cuidadosa de quem só estudou até à oitava classe, mas escrevia melhor que muita gente formada. regressou a Codó com um feixe de 40 estacas atado com cordel, embrulhado em folha de bananeira para não perder humidade na viagem. José Bento, quando ela chegou a casa com aquele feixe, não compreendeu o que era. Raimunda guardou as estacas num canto húmido atrás da casa, por baixo de uma touceira de bananeira, e foi à espera do momento certo para plantar. Esse momento surgiu em abril de 1986, quando a estação chuvosa do Maranhão já estava firme, e ela sabia que as estacas iam apanhar com mais facilidade na humidade do início da chuva. E foi então que aconteceu a cena desse dia, com José Bento perguntando o que ela estava fazendo na fronteira e a dona Yolanda rindo ao almoço. Nos primeiros dois meses, parecia que a sogra ia ter razão. As as estacas plantadas em abril não apresentaram sinal de vida até ao final de junho. Algumas começaram a apresentar sinais que pareciam de morte, com a casca ressecando, ficando a base escura. Dona Iolanda todos os dias comentava ao almoço ou ao jantar. Raimunda, esses ramos teus estão a morrer, hein? Eu vi hoje passando para alimentar as galinhas. Tá tudo seco. Vai precisar de fazer cerca a sério no fim do ano. Está no tempo, dona Yolanda. O Compadre Manoel disse que demora. O Compadre Manoel vive em Caxias, filha. Terra de Caxias é diferente daqui. É pouca diferença, dona Yolanda. Era a mesma estação do ano quando ele plantou também. Pois eu acho que tu desperdiçou tempo. Mas no início de julho, com o início das chuvas mais constantes do meio do ano maranhense, Raimunda viu numa manhã, na primeira estaca da divisa norte um pequeno rebento, verde e claro, saindo do tronco enterrado. Quase saltou de alegria. Foi olhar para as outras estacas. Em três horas de inspeção cuidadosa, encontrou rebento em quase 30 das 50 estacas plantadas. As outras 20, ela ainda não conseguia ver bem se estavam mortas ou se ainda iam brotar. Levou o José Bento a ver. José Bento, que andava cético, mas que tinha a teimosia mais ligeira que a da mãe, olhou os novos rebentos, mexeu levemente, examinou. Olha, Raimunda, brotou mesmo. Esses ramos brotaram. Eu bem te disse, José. Tu disseste mesmo. Vamos ver se vai ficar. Dona Yolanda veio também, com a visível desconfiança no rosto, examinou os rebentos, fungou. Brotou. Vai ver se aguenta. Brotar é fácil. Aguentar a seca de Outubro é que vai mostrar. Raimunda não respondeu. Continuou a ir ver as estacas. todos os dias. Em agosto das 50 estacas, 38 tinham brotado e estavam a crescer. As outras 12 ela arrancou e replantou com estacas novas, ajustando a forma de enterrar, escolhendo ramos mais novos com casca mais lisa. O segundo plantio, em agosto, teve melhor resultado. Das 12 estacas refeitas, 10 pegaram. No final de agosto de 86, Raimunda tinha 48 gliricídias vivas e crescendo na fronteira norte da propriedade. Em outubro, com o calor do meio do ano a apertar e a estação seca chegando, a dona Yolanda continuava a torcer para que as árvores murchasssem. Não murcharam. A glicídia é uma árvore que aguenta seca de um a três meses sem problema. E o que paraa a dona Yolanda parecia um milagre, na verdade era apenas característica da espécie. As árvores cresceram a um ritmo que surpreendeu a Terra Imunda. No final do primeiro ano, em Abril de 1987, as primeiras gliricídias plantadas já tinham mais de 2 m de altura, com copa a começar a formar-se, com galhos novos. E foi neste ponto que Raimunda começou a fazer a segunda parte do plano que tinha desde Caxias. Em Maio de 87, ela começou a podar ligeiramente as primeiras gliricídias, tirando folhagem nova, e levou aquela folhagem para o coxo do gado. José Bento, desta vez foi ver com curiosidade real: “Raimunda, o gado vai comer folha de árvore?” “Vai, José, vai comer porque esta folha é rica. Mais rica que Capim. Olha lá. E despejou no coxo. Os vitelos e as cabras, sem hesitação, atacaram a folhagem como se fosse a melhor coisa que tinham comido em semanas. Comeram tudo em 15 minutos, pediram mais. Raimunda foi cortar mais folha, voltou e o gado voltou a comer com a mesma fome. A Dona Yolanda, sentada na varanda, viu ao longe e não comentou. Pela primeira vez em meses, não tinha o que dizer. José Bento, nessa noite, deitado na rede da varanda enquanto Raimunda costurava à luz fraca da candeeiro, falou baixinho. Raimunda, hum, aquela tua árvore está a funcionar, tá? Eu devo-te desculpa. Não me deve nada, José. Tu não conhecias. Devia ter confiado mais. Tu confiaste o suficiente. Tu deixaste-me plantar. Outros homens não deixariam. A mamã ainda não engoliu. A mamã vai engolir no tempo dela. Não vamos forçar. Tu tens mais paciência do que eu, mulher. Eu tenho que ter. Sou a Nora. Os dois riram e a conversa morreu ali. Mas a partir desse dia, José Bento começou a ajudar Raimunda na poda das gliricídias, no transporte da folhagem pro coxo, na manutenção das estacas que ela continuava a plantar em outras divisas da propriedade. No segundo ano, 1987, Raimunda plantou mais 120 estacas nas outras três estremas da propriedade. Agora com mais confiança, com mais técnica, com mais ajuda. Da 120, mais de 100 pegaram. No fim de 87, a propriedade tinha quase 150 gliricídias plantadas nas divisas, todas em fase diferente da crescimento, todas a pegar. Em 1988, 2 anos depois da primeira plantação, aconteceu o que Raimunda tinha esperado. As primeiras gliricídias da fronteira norte tinham mais de 3 m de altura, tronco já robusto, e José Bento começou a prender o arame farpado diretamente no tronco delas, eliminando a necessidade de Mourão de Aroeira em quase todo o troço. Cerca de Mourão de Aroeira da fronteira norte, que era a parte mais problemática da propriedade, foi sendo substituída pela sebe, com economia significativa de madeira, mão-de-obra e tempo. E mais, em Maio de 88, a propriedade enfrentou uma seca mais forte que o normal paraa época. Os pastos secaram mais cedo. Os vizinhos começaram a comprar erva seca e ração na feira de Codó. Raimunda, ela tinha gliricídia. Podou as árvores intensivamente, cortando os ramos novos sem prejudicar o tronco, e alimentou o gado com a folhagem fresca durante semanas. As gliricídias rebrotaram em 45 dias e estavam prontas para outra poda. O gado de José Bento e Raimunda atravessou aquela seca em melhor condição que o de qualquer vizinho. As cabras, principalmente deram saltos visíveis na produção de leite por causa da giricídia, e os vitelos novos engordaram em meses que outros vitelos estavam a emagrecer. Foi nesta altura que a história começou a alastrar pela vizinhança. Os vizinhos que tinham ouvido falar nas piadas de dona Yolanda sobre a esquisita cerca de Raimunda, começaram a vir ver o propriedade. Compadre António da divisa sul foi o primeiro. Chegou numa tarde de Junho de 88, examinou as gliricídias, ouviu a explicação de Raimunda e foi embora pensativo. Comadre, isso aí é coisa séria. Você me dá umas estacas? Dou, compadre. Quantas o senhor quer? Quantas couber numa carroça? O Compadre Antônio voltou no dia seguinte com a carroça e Raimunda separou para ele quase 50 estacas. Ensinou como plantar. O Compadre António agradeceu, levou e plantou na sua propriedade nessa semana mesmo. Depois veio com padre Sebastião do outro lado do ribeiro. Depois veio a dona Adelina, a única criadora de gado solo da região, viúva que tinha herdado a propriedade do marido. Depois veio o senhor Pereira, o mais cético dos vizinhos, aquele que mais tinha ido à feira quando a dona Yolanda contou a história em 1986. O senhor Pereira chegou meio sem jeito, como quem chega pedindo desculpa sem dizer com palavra. E Raimunda recebeu com a mesma cordialidade que tinha recebido todos os outros. Ensinou, deu estacas, mandou plantar. Dona Iolanda, em julho de 88, depois de mais de dois anos resmungando, disse finalmente a frase que Raimunda esperara em silêncio. Filha, sim, dona Yolanda. Aquela tua árvore resultou, hein? Deu. Eu fui besta. Raimunda parou o que estava fazendo, virou-se para a sogra e respondeu com a calma de quem tinha esperado dois anos para essa conversa. Dona Iolanda, a senhora não foi besta, a senhora não conhecia, ninguém aqui em O Codó conhecia. Eu só vi por acaso na propriedade do compadre Manoel em Caxias e quis testar. Foi sorte minha, mais que mérito. Não foi sorte, filha, foi cabeça boa. Eu devia ter confiado. Confia agora, é o que interessa. Dona Yolanda em silêncio por um instante, depois falou outra coisa que surpreendeu Raimunda. Filha, ainda tens aquele caderninho onde anotaste o que o compadre Manuel te disse? Tenho. Pode me ensinar? Posso, dona Yolanda? Posso ensinar-te tudo. E assim Raimunda começou a ensinar a sogra, que tinha ainda 66 anos, ainda forte, e que passou a participar no maneio das gliricídias com mais entusiasmo do que muito jovem vizinho. A Dona Iolanda aprendeu a podar, a transportar folhagem, a propagar estacas novas. Em poucos meses, ela já estava plantando juntamente com Raimunda em zonas novas, falando das gliricídias com orgulho, quase como se tivesse sido ideia dela. Os filhos cresceram. Pedro fez 12 anos em 88 e começou a ajudar nas podas com a foice de cabo curto que José Bento tinha feito para ele. Conceição, com 10 anos, ajudava no transporte da folhagem numa carriola de madeira que José Bento tinha construído. Em 1990, a propriedade já era referência regional. Não tinha mais um único troço de cerca sem gliricídia. Mais de 300 árvores cobriam as divisas, todas em diferentes fases de crescimento, todas produzindo. A produtividade do gado tinha aumentado, o gasto com ração tinha descido para menos de metade. A terra das divisas, antes erodida e pobre, tinha começou a recuperar com a queda constante das folhas de giricídia, que serviam de adubo verde natural. Em 1992, um técnico da Embrapa Meio Norte, com sede em Teresina, ouviu falar da propriedade através de um relato de extensionista local e foi visitar. Era o O Dr. Genésio Carvalho, engenheiro agrónomo de 40 anos, especializado em sistemas agroflorestais. esteve um dia inteiro a andar pela propriedade, examinando as sebes, perguntando, anotando, fotografando. Ao fim do dia, sentado na varanda tomando café com Raimunda e José Bento, falou: “Dona Raimunda, a senhora tem aqui uma propriedade que é caso de estudo. A senhora montou um sistema agroflorestal completo com integração de sebe, forragem e adubo verde, sem ter formação técnica formal, baseada apenas em observação e replicação. Isto é, na minha opinião, mais valioso do que muita investigação de doutorado. Raimunda Rio de Leve. Doutor, eu só copiei o que o compadre Manuel tinha feito em Caxias, mas a senhora copiou e adaptou para as condições daqui, aplicou à escala maior, sistematizou, ensinou aos vizinhos. Isto é trabalho de extensão rural feito por quem nunca foi extensionista, mas que compreende a função social do conhecimento. Doutor, eu não fi-lo por mérito, fi-lo por sorte. Não foi sorte, dona Raimunda. Foi observação, foi paciência, foi capacidade de ler o ambiente. Sorte é uma palavra que usamos quando não quer reconhecer o seu próprio trabalho. Raimunda guardou aquela frase. Em alguns meses, Genésio regressou com mais três técnicos, com estudantes de agronomia, com máquina fotográfica profissional. A propriedade virou estação de demonstração informal da Embrapa e Raimunda passou a receber ao longo dos anos seguintes dezenas de visitantes interessados ​​em aprender o sistema. Em 1995, foi convidada para falar num seminário de agricultura familiar em Teresina. Tinha 38 anos. Aceitou, com a mesma simplicidade com que tinha aceitou anos antes o feixe de estacas do compadre Manuel. Subiu ao palco do auditório com um vestido azul comprado na feira do codó, sapato fechado, cabelo apanhado em coque alto e falou sem leitura, sem anotação. Eu plantei a primeira estaca de gllicídia em Abril de 86. A minha sogra, a dona Yolanda, riu-se de mim. O meu marido teve dúvida. Os vizinhos acharam que eu estava com a cabeça leve. Eu plantei na mesma, porque tinha visto a árvore a funcionar no sítio do compadre Manoel em Caxias. E eu tinha aprendi com a minha mãe e com a tia Ester, que quando vemos uma coisa a funcionar noutro lugar, a gente não precisa de esperar que a autoridade diga que pode. A gente experimenta. Se der errado, é apenas uma divisa de vedação. Se der certo é uma coisa nova que entra na vida. fez uma pausa. Aquela primeira cerca de 50 estacas, 16 dela morreram. 38 brotaram. Dessas 38, todas hoje continuam vivas. 9 anos depois. A propriedade hoje tem mais de 300 pés. O gasto com ração desceu para menos de metade. A produtividade do gado aumentou. A terra das divisas está mais fértil. E mais importante, a minha sogra, que se riu da minha cara em 86, hoje aos 73 anos, é uma das maiores entusiastas do sistema e ensina às netas com mais paciência do que eu mesma. A plateia riu-se nessa parte. Raimunda sorriu, esperou. A lição que eu queria deixar é uma só. Quando a gente é mulher do interior, gente do mato, gente sem diploma, e queremos experimentar uma coisa nova, toda a gente ao redor tem motivo para dizer que não vai resultar. Marido tem dúvida porque tem responsabilidade. Sogra tem dúvida porque viu muita má ideia na vida. Vizinho tem dúvidas porque ninguém quer plantar disparates para depois passar vergonha. Mas o verdadeiro teste não é a opinião deles, é o resultado. E o resultado necessita de tempo para aparecer. Quem não tem paciência não chega ao resultado. Quem tem paciência chega. Aplausos longos. Raimunda desceu do palco sem perceber bem porque estava a ser aplaudida tanto, porque para ela aquilo era apenas simples relato de uma coisa que tinha resultado. Nos anos seguintes, a história foi-se firmando. A propriedade de Raimunda e José Bento em Codó tornou-se referência maranhense em sistema agroflorestal com Gliricídia. Os estudantes da Universidade Federal do Maranhão fizeram lá trabalho de campo. A A Embrapa publicou uma cartilha técnica em 1998, mencionando o caso, com fotografias da propriedade e citações de Raimunda. Em 2005, uma cadeia de televisão de São Luís fez uma reportagem de 15 minutos sobre o sistema e Raimunda foi entrevistada na varanda da casa com a dona Yolanda sentada ao lado aos 83 anos, com o cabelo todo branco, mas firme e lúcida. A repórter, no fim da entrevista, perguntou paraa dona Yolanda: “Dona Iolanda, a senhora chegou a duvidar quando a Raimunda começou a plantar essa vedação?” Dona Yolanda riu com aquela gargalhada solta de quem já tem paz com os erros do passado. “Filha, duvidei mais do que devia. Eu fui dura com a Raimunda, mas a A Raimunda foi paciente comigo, esperou eu compreender no meu tempo e ensinou-me depois, sem nunca cobrar”. Eu hoje só posso dizer paraas outras sogras do Maranhão, confia mais na Nora. Às vezes ela sabe mais do que nós. A repórter riu-se, Raimunda riu-se e a entrevista acabou em clima leve. A Dona Iolanda faleceu em 2010 com 87 anos em paz na cama com Raimunda a segurar a mão dela. Antes de partir falou baixinho: “Filha, estou aqui, mãe. Era a primeira vez que a dona Yolanda chamava à Raimunda de filha e a primeira vez que Raimunda chamava a dona Yolanda de mãe. Tinham demorou 28 anos para chegar a esse ponto. Cuida da gliricídia. Cuido, mãe. Ensina para Conceição. Para o Pedro também. Já ensino, mãe. Tu foste a melhor coisa que aconteceu naquela casa. E foi. Raimunda enterrou a sogra em Codó, junto ao sogro, e voltou paraa propriedade. José Bento tinha morrido 3 anos antes, em 2007, de um problema cardíaco. Raimunda ficou na propriedade com Pedro, o filho mais velho, que tinha casado e vivia com a sua mulher Marlene, numa casa nova que tinham construído no terreno principal. Conceição tinha casado com um técnico agrícola e vivia em Caxias. justamente onde a história tinha começado. Hoje, Raimunda tem 69 anos, vive ainda na mesma casa que ela e José Bento construíram em conjunto. A propriedade hoje tem mais de 500 gliricídias plantadas, todas descendentes da primeira leva de estacas que ela trouxe de Caxias em 1985. Pedro gere a propriedade com a esposa Marlene e os dois filhos do casal neto de Raimunda, que estão a ser criados aprendendo a podar a gliricídia desde os 7 anos. O caderninho azul, onde a Raimunda anotou as instruções do compadre Manuel em 85, está guardado dentro de uma caixa de madeira na sala, juntamente com outros papéis importantes da família. Conceição passou um fim de semana inteiro em 2015, digitalizando aquele caderno, página a página, com a autorização da mãe, e mandou cópia digital para a Embrapa, que arquivou juntamente com a documentação técnica que tinha publicado nos anos 90. Em 2023, uma equipa de uma universidade portuguesa esteve em Codó fazendo investigação sobre sistemas agroflorestais tropicais e foi mesmo propriedade de Raimunda a fazer entrevista. O investigador, no final da entrevista, perguntou-lhe qual era a lição que ela tirava de tudo aquilo. Raimunda pensou um instante, olhou paraa cerca viva que dominava o horizonte da propriedade e respondeu: “Senhor doutor, a lição é simples. Quando vemos uma coisa boa noutro lugar, a gente não precisa de esperar permissão para trazer para casa. A gente traz, planta, espera e vê. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, é apenas uma divisa de cerca perdida. Mas se não experimentarmos, a gente nunca sabe. Pausa. E quando a família ri, não respondemos com palavra, responde com resultado. Demora 2 anos, demora três, mas o resultado chega. E quando chega, já ninguém se ri. O investigador anotou, agradeceu, foi embora. Raimunda voltou paraa cozinha terminar o jantar. Lá fora, na fronteira norte da propriedade, as gliricídias plantadas em 1986 tinham agora 38 anos. Eram árvores grandes, com troncos grossos, copas largas, cobertas das flores rosadas características da espécie, que floresciam dezembro após dezembro. O arame farpado estava preso aos troncos, como o compadre Manuel tinha ensinado. As folhas caíam todo o ano e se transformavam em adubo no solo. 38 anos depois, acerca que a dona Yolanda tinha chamava de loucura e que José Bento tinha duvidado em silêncio na primeira manhã de Plantação, era a única coisa da propriedade que tinha continuado a crescer, a alimentar, a fecundar e a segurar gado, sem nunca falhar. 38 anos depois, a mulher, que tinha sido chamada de doida em 1986, era a única referência regional em cerca viva. E o caderninho azul, que tinha vindo de Caxias dentro da bolsa de uma viagem de uma semana era estudado em universidade portuguesa. Tudo porque uma mulher de 29 anos numa manhã de Abril tinha plantado um feixe de ramos verdes na fronteira enquanto a família se ria.

Eram quase 30 plantadas no troço de vedação já preparado e ainda faltavam mais umas 20 que estavam no feixe no chão. 50 árvores, Raimunda, vais plantar 50 árvores na fronteira? Vou e depois vou plantar mais 50 nas outras divisas. Mulher, isso é uma loucura. A propriedade vai tornar-se um mato fechado. Não vai virar mato, vai tornar-se uma cerca.

José Bento abanou a cabeça pela última vez, virou-se as costas e desceu para casa para almoçar. não discutiu mais, mas no caminho foi resmungando baixinho sobre como mulher dá nestas ideias estranhas quando passa muito tempo com prima da capital sobre como ia perder gado pelo buraco da vedação enquanto Raimunda esperava a árvore crescer, sobre como sogra dele, dona Yolanda, tinha avisado quando ele casou que Raimunda era uma rapariga leitora demais, que ia ter uma ideia de cidade na cabeça. O almoço na cozinha de chão

batido com o fogão a lenha aceso pro frescura que entrava pela janela, José O Bento contou à dona Iolanda, que vivia com o casal desde a morte do sogro, em 1982, o que tinha visto Raimunda a fazer: “Mamã, a Raimunda plantou um ramo na fronteira norte, disse que é sebe.” Disse que vai virar árvore. Dona Iolanda, mulher de 64 anos, baixa, gorda, com o cabelo branco apanhado no coque firme, levantou os olhos do prato de baião de dois sebes.

Que história é esta? Galho de uma árvore chamada Glicídia. Disse que pega de estaca, que vira a árvore, que vai servir de vedação e de alimento para gado. A Dona Yolanda riu com aquela gargalhada curta de quem ouviu coisa absurda. Filha, deixa de inventar modas. Cerca a gente faz com Mourão. A gente sempre fez assim.

A tua mãe fazia, a tua avó fazia, a minha mãe fazia. Para quê mexer no que está certo? Raimunda, que estava a servir o feijão para os dois filhos pequenos, O Pedro de 6 anos e a Conceição de quatro, não respondeu de imediato. Pôs o prato na mesa, sentou-se no seu lugar, pegou no pano da mesa, dobrou. A Dona Iolanda, com todo o respeito, a senhora nunca viu gliricídia.

Não é um mourão comum, é outra coisa. É uma árvore que apanha só com um galho enterrado, que cresce depressa, que dá folha durante todo o ano e que não apanha praga. E onde a senhora arranjou esta árvore, Raimunda? No sítio do compadre Manoel em Caxias no ano passado. O Compadre Manoel é da família de quem? É primo do meu pai que faleceu, a senhora Yolanda.

A senhora não conheceu? Pois é, filha de homem morto com ideia de pessoas que não conhecemos. Eu não confio. José Bento, tu não vais deixar a tua mulher mexer na divisa, não, não é? José Bento, que estava com a colher na boca, olhou paraa mãe, olhou paraa mulher e respondeu como respondem os homens casados ​​que querem manter a paz ao almoço.

Mamã, deixa a Raimunda fazer aquilo que ela quer. Se não resultar, a gente faz a vedação direito depois. Não não custa nada experimentar. Não custa nada. E o tempo que ela está perder plantando ramo que não vai pegar? E o trabalho que ela vai dar aos senhora quando o boi do Tobias entrar e comer a mandioca? Raimunda comeu em silêncio.

Sabia que a dona Yolanda ia repetir aquela conversa durante os próximos seis meses sem parar e que José Bento ia ficar entre a mãe e a esposa, sem saber bem de que lado ficar. Tinha aceitado isso quando casou e mais ainda quando a dona Yolanda veio viver com eles. Era a forma que a coisa funcionava no Maranhão dos Cocais.

Sogra com nora a partilhar cozinha, marido tentando equilibrar. Deixa-me contar quem era a Raimunda Aparecida dos Santos. Porque o que ela fez naquela fronteira de propriedade em Abril de 86 e o ​​que ela ia descobrir nos dois anos seguintes, só faz sentido se se souber de onde tinha vindo aquela mulher que plantava a árvore quando todo o mundo plantava mourão morto.

Raimunda nasceu em 1957 em Codó, a filha mais velha do seu Sebastião dos Santos e a dona Maria do Carmo. O Sr. Sebastião era lavrador pequeno com uma propriedade de 5 hectares na zona rural de Codó. E dona Maria do Carmo era costureira, que atendia mulheres do concelho inteiro com aquele talento que ela herdara da própria mãe.

Eram quatro filhos no total. Raimunda, depois Antónia, depois José e por último Sebastião Filho, batizado em homenagem ao pai. A peculiaridade da família Santos não estava naquilo que cultivavam, que era o mesmo que toda a família da região cultiva: mandioca, arroz, milho, feijão, com algumas cabeças de gado e babaçu. A peculiaridade era que a dona Maria do Carmo, apesar de viver na zona rural, tinha 5 anos de escolaridade, coisa rara entre mulheres do interior maranhense naquela época.

E mais raro ainda, ela acreditava que as filhas mulheres deviam estudar pelo menos o mesmo que ela tinha estudado. Raimunda foi matriculada na escola rural mais próxima aos 6 anos e estudou até à quarta classe, idade em que a maioria das raparigas da região já estava a ajudar em casa em tempo integral. Quando completou os 12 anos, A dona Maria do Carmo conseguiu com muito custo e com a ajuda da irmã tia Ester, que residia em Codó cidade, matricular Raimunda, numa escola pública da sede do concelho, com a menina a ir e voltar todos os dias de boleia com vizinhos que

faziam o percurso. Raimunda estudou até à oitava classe, parando aos 15 anos quando A dona Maria do Carmo ficou doente e Raimunda teve de voltar para ajudar nos cuidados da casa e dos irmãos mais novos. Mas Raimunda gostava de ler. Tia Ester, a tia de Kodó, tinha uma estante de livros porque o marido tinha sido professor primário antes de morrer jovem.

E a Raimunda, sempre que ia visitar a tia, regressava com dois ou três livros emprestados que devorava nas noites de sertão maranhense, à luz fraca da candeeiro de Querosene, deitado na rede da varanda. Leu de tudo. Romance de Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, manual antigo de agricultura familiar que a tia Ester tinha herdado do marido.

Almanaque da saúde da editora Capivarol. revista Manchete Velha, que chegava amassada às mãos da tia. Cartilha do Movimento de Educação de Base, livro de história do Brasil, livro sobre plantas medicinais que tinha sido publicado em São Luís nos anos 60. Foi pelos livros que Raimunda começou a ter ideias diferentes das outras mulheres da zona rural.

Não diferentes no sentido de querer ir embora ou virar-se coisa de cidade, mas diferentes no sentido de questionar porque é que as coisas eram feitas da forma que eram feitas e se não havia outra forma de o fazer. Raimunda casou em 1978, com 21 anos, com José Bento dos Santos Filho, lavrador da região, vizinho da propriedade dos seus pais, que ela conhecia desde criança.

José Bento era 5 anos mais velho, tinha já a propriedade pequena dele, herdada do pai que tinha morrido jovem. O casamento foi simples, na igrejinha de São José, da aldeia de Garapé Grande, com festa no terreiro da casa dos pais dela. Os primeiros anos de casamento foram tocando a propriedade pequena de José Bento, com mandioca, arroz, milho e cerca de 10 cabeças de gado e umas 20 cabras.

Em 1980 veio Pedro, o filho mais velho. Em 82 veio a Conceição. Em 82 faleceu também o pai de José Bento. E a dona Yolanda, que vivia sozinha na casinha ao lado, veio viver com o casal. Era uma situação para a qual nenhuma das duas estava completamente preparada, mas que se foi ajeitando com o tempo. A relação de Raimunda com a sogra era cordial, mas tensa.

A Dona Yolanda era mulher tradicional do sertão maranhense, que considerava que a mulher tinha um lugar certo na vida e que o lugar não era ficar ler livro, nem inventar moda. A imunda, que aceitara viver com a sogra por respeito ao marido e à tradição, suportava as observações constantes com paciência, mas continuava à maneira dela.

Lia nas noites, separava livros para os filhos lerem quando crescessem, conversava sobre coisas que a sogra achava estranhas, observava o que outros faziam noutras propriedades quando ia visitar a família. Em 1985 foi quando Raimunda foi visitar Antónia, a irmã que tinha casado com um lavrador de Caxias e vivia no sítio da família do marido.

Antónia tinha mandado dizer que estava doente, que queria ver a irmã. E Raimunda apanhou o autocarro da empresa cidade de Caxias e foi passar uma semana lá. Antónia tinha sarado em alguns dias e Raimunda aproveitou o tempo para conhecer o sítio do compadre Manoel, primo do pai, que ela só conhecia de nome. O sítio do compadre Manoel ficava num lugar bonito, com terra mais húmida, com algumas nascentes pequenas, com uma vegetação um pouco diferente da que Raimunda conhecia.

E na entrada da propriedade, ao longo de quase 300 m, tinha uma vedação diferente de tudo o que Raimunda tinha visto antes na vida. Era uma fileira contínua de árvores, todas iguais, com copa baixa e larga, com flores cor-de-rosa penduradas em cachos e com arame farpado preso diretamente no tronco das mesmas.

As árvores estavam vivas, frondosas, e ofereciam sombra contínua ao longo do percurso. Compadre Manuel, que árvore é esta que o Sr. tem na vedação? Glicídia, comadre, tu nunca viu? Nunca. Aqui em Codó não há. Pois é boa planta. Veio do norte do país, de gente que conheceu antigamente um engenheiro agrónomo da Bahia.

Eu plantei essa cerca aqui há 12 anos e ela está viva, está a produzir, está a segurar o boi. Raimunda ficou a olhar para a cerca, examinando as árvores, apanhou um galho que tinha caído no chão, examinou a folha. Compadre O Manuel viu o interesse dela e foi explicando. Apanha-se um galho desses com mais ou menos 2 m e enterra diretamente no solo.

Não necessita de raiz, não necessita de muda em saco, não precisa de nada. Enterra o ramo e ele apanha. Vira a árvore. Sério, compadre? Sério? Eu tenho aqui umas estacas guardadas porque tenho refeito alguns pedaços da vedação onde estava a falhar. Se tu quiseres, eu dou-te umas para te levar de volta para Codó.

Quero, compadre, quero mesmo. Mas comadre, a gliricídia não é só para a cerca, não. É para forragem também. O gado come a folha, cabra come, ovelha come. É folha rica em proteína, melhor que muita ração de saco. E mais, a folha cai no chão, transforma-se em adubo, recupera a terra. Onde tu plantar gliricídia, em dois ou três anos, a terra volta a ficar boa.

Cerca, forragem e adubo. Tudo numa só árvore. Tudo numa só árvore. E tu podas-a quando quer. Ela rebrota e o ciclo continua. Raimunda passou o resto dessa semana em Caxias, percorrendo a cerca do compadre, examinando, fazendo pergunta. O Compadre Manuel mostrou-lhe como cortava o ramo na altura certa, em que altura do ano funcionava melhor, como enterrava a estaca, como podava depois que a árvore tinha crescido.

Raimunda anotou tudo num caderninho que tinha levado na bolsa, com a letra dela cuidadosa de quem só estudou até à oitava classe, mas escrevia melhor que muita gente formada. regressou a Codó com um feixe de 40 estacas atado com cordel, embrulhado em folha de bananeira para não perder humidade na viagem.

José Bento, quando ela chegou a casa com aquele feixe, não compreendeu o que era. Raimunda guardou as estacas num canto húmido atrás da casa, por baixo de uma touceira de bananeira, e foi à espera do momento certo para plantar. Esse momento surgiu em abril de 1986, quando a estação chuvosa do Maranhão já estava firme, e ela sabia que as estacas iam apanhar com mais facilidade na humidade do início da chuva.

E foi então que aconteceu a cena desse dia, com José Bento perguntando o que ela estava fazendo na fronteira e a dona Yolanda rindo ao almoço. Nos primeiros dois meses, parecia que a sogra ia ter razão. As as estacas plantadas em abril não apresentaram sinal de vida até ao final de junho. Algumas começaram a apresentar sinais que pareciam de morte, com a casca ressecando, ficando a base escura.

Dona Iolanda todos os dias comentava ao almoço ou ao jantar. Raimunda, esses ramos teus estão a morrer, hein? Eu vi hoje passando para alimentar as galinhas. Tá tudo seco. Vai precisar de fazer cerca a sério no fim do ano. Está no tempo, dona Yolanda. O Compadre Manoel disse que demora.

O Compadre Manoel vive em Caxias, filha. Terra de Caxias é diferente daqui. É pouca diferença, dona Yolanda. Era a mesma estação do ano quando ele plantou também. Pois eu acho que tu desperdiçou tempo. Mas no início de julho, com o início das chuvas mais constantes do meio do ano maranhense, Raimunda viu numa manhã, na primeira estaca da divisa norte um pequeno rebento, verde e claro, saindo do tronco enterrado. Quase saltou de alegria.

Foi olhar para as outras estacas. Em três horas de inspeção cuidadosa, encontrou rebento em quase 30 das 50 estacas plantadas. As outras 20, ela ainda não conseguia ver bem se estavam mortas ou se ainda iam brotar. Levou o José Bento a ver. José Bento, que andava cético, mas que tinha a teimosia mais ligeira que a da mãe, olhou os novos rebentos, mexeu levemente, examinou. Olha, Raimunda, brotou mesmo.

Esses ramos brotaram. Eu bem te disse, José. Tu disseste mesmo. Vamos ver se vai ficar. Dona Yolanda veio também, com a visível desconfiança no rosto, examinou os rebentos, fungou. Brotou. Vai ver se aguenta. Brotar é fácil. Aguentar a seca de Outubro é que vai mostrar. Raimunda não respondeu. Continuou a ir ver as estacas. todos os dias.

Em agosto das 50 estacas, 38 tinham brotado e estavam a crescer. As outras 12 ela arrancou e replantou com estacas novas, ajustando a forma de enterrar, escolhendo ramos mais novos com casca mais lisa. O segundo plantio, em agosto, teve melhor resultado. Das 12 estacas refeitas, 10 pegaram.

No final de agosto de 86, Raimunda tinha 48 gliricídias vivas e crescendo na fronteira norte da propriedade. Em outubro, com o calor do meio do ano a apertar e a estação seca chegando, a dona Yolanda continuava a torcer para que as árvores murchasssem. Não murcharam. A glicídia é uma árvore que aguenta seca de um a três meses sem problema.

E o que paraa a dona Yolanda parecia um milagre, na verdade era apenas característica da espécie. As árvores cresceram a um ritmo que surpreendeu a Terra Imunda. No final do primeiro ano, em Abril de 1987, as primeiras gliricídias plantadas já tinham mais de 2 m de altura, com copa a começar a formar-se, com galhos novos.

E foi neste ponto que Raimunda começou a fazer a segunda parte do plano que tinha desde Caxias. Em Maio de 87, ela começou a podar ligeiramente as primeiras gliricídias, tirando folhagem nova, e levou aquela folhagem para o coxo do gado. José Bento, desta vez foi ver com curiosidade real: “Raimunda, o gado vai comer folha de árvore?” “Vai, José, vai comer porque esta folha é rica.

Mais rica que Capim. Olha lá. E despejou no coxo. Os vitelos e as cabras, sem hesitação, atacaram a folhagem como se fosse a melhor coisa que tinham comido em semanas. Comeram tudo em 15 minutos, pediram mais. Raimunda foi cortar mais folha, voltou e o gado voltou a comer com a mesma fome.

A Dona Yolanda, sentada na varanda, viu ao longe e não comentou. Pela primeira vez em meses, não tinha o que dizer. José Bento, nessa noite, deitado na rede da varanda enquanto Raimunda costurava à luz fraca da candeeiro, falou baixinho. Raimunda, hum, aquela tua árvore está a funcionar, tá? Eu devo-te desculpa. Não me deve nada, José. Tu não conhecias.

Devia ter confiado mais. Tu confiaste o suficiente. Tu deixaste-me plantar. Outros homens não deixariam. A mamã ainda não engoliu. A mamã vai engolir no tempo dela. Não vamos forçar. Tu tens mais paciência do que eu, mulher. Eu tenho que ter. Sou a Nora. Os dois riram e a conversa morreu ali. Mas a partir desse dia, José Bento começou a ajudar Raimunda na poda das gliricídias, no transporte da folhagem pro coxo, na manutenção das estacas que ela continuava a plantar em outras divisas da propriedade. No segundo ano, 1987,

Raimunda plantou mais 120 estacas nas outras três estremas da propriedade. Agora com mais confiança, com mais técnica, com mais ajuda. Da 120, mais de 100 pegaram. No fim de 87, a propriedade tinha quase 150 gliricídias plantadas nas divisas, todas em fase diferente da crescimento, todas a pegar. Em 1988, 2 anos depois da primeira plantação, aconteceu o que Raimunda tinha esperado.

As primeiras gliricídias da fronteira norte tinham mais de 3 m de altura, tronco já robusto, e José Bento começou a prender o arame farpado diretamente no tronco delas, eliminando a necessidade de Mourão de Aroeira em quase todo o troço. Cerca de Mourão de Aroeira da fronteira norte, que era a parte mais problemática da propriedade, foi sendo substituída pela sebe, com economia significativa de madeira, mão-de-obra e tempo.

E mais, em Maio de 88, a propriedade enfrentou uma seca mais forte que o normal paraa época. Os pastos secaram mais cedo. Os vizinhos começaram a comprar erva seca e ração na feira de Codó. Raimunda, ela tinha gliricídia. Podou as árvores intensivamente, cortando os ramos novos sem prejudicar o tronco, e alimentou o gado com a folhagem fresca durante semanas.

As gliricídias rebrotaram em 45 dias e estavam prontas para outra poda. O gado de José Bento e Raimunda atravessou aquela seca em melhor condição que o de qualquer vizinho. As cabras, principalmente deram saltos visíveis na produção de leite por causa da giricídia, e os vitelos novos engordaram em meses que outros vitelos estavam a emagrecer.

Foi nesta altura que a história começou a alastrar pela vizinhança. Os vizinhos que tinham ouvido falar nas piadas de dona Yolanda sobre a esquisita cerca de Raimunda, começaram a vir ver o propriedade. Compadre António da divisa sul foi o primeiro. Chegou numa tarde de Junho de 88, examinou as gliricídias, ouviu a explicação de Raimunda e foi embora pensativo.

Comadre, isso aí é coisa séria. Você me dá umas estacas? Dou, compadre. Quantas o senhor quer? Quantas couber numa carroça? O Compadre Antônio voltou no dia seguinte com a carroça e Raimunda separou para ele quase 50 estacas. Ensinou como plantar. O Compadre António agradeceu, levou e plantou na sua propriedade nessa semana mesmo.

Depois veio com padre Sebastião do outro lado do ribeiro. Depois veio a dona Adelina, a única criadora de gado solo da região, viúva que tinha herdado a propriedade do marido. Depois veio o senhor Pereira, o mais cético dos vizinhos, aquele que mais tinha ido à feira quando a dona Yolanda contou a história em 1986. O senhor Pereira chegou meio sem jeito, como quem chega pedindo desculpa sem dizer com palavra.

E Raimunda recebeu com a mesma cordialidade que tinha recebido todos os outros. Ensinou, deu estacas, mandou plantar. Dona Iolanda, em julho de 88, depois de mais de dois anos resmungando, disse finalmente a frase que Raimunda esperara em silêncio. Filha, sim, dona Yolanda. Aquela tua árvore resultou, hein? Deu. Eu fui besta.

Raimunda parou o que estava fazendo, virou-se para a sogra e respondeu com a calma de quem tinha esperado dois anos para essa conversa. Dona Iolanda, a senhora não foi besta, a senhora não conhecia, ninguém aqui em O Codó conhecia. Eu só vi por acaso na propriedade do compadre Manoel em Caxias e quis testar. Foi sorte minha, mais que mérito.

Não foi sorte, filha, foi cabeça boa. Eu devia ter confiado. Confia agora, é o que interessa. Dona Yolanda em silêncio por um instante, depois falou outra coisa que surpreendeu Raimunda. Filha, ainda tens aquele caderninho onde anotaste o que o compadre Manuel te disse? Tenho. Pode me ensinar? Posso, dona Yolanda? Posso ensinar-te tudo.

E assim Raimunda começou a ensinar a sogra, que tinha ainda 66 anos, ainda forte, e que passou a participar no maneio das gliricídias com mais entusiasmo do que muito jovem vizinho. A Dona Iolanda aprendeu a podar, a transportar folhagem, a propagar estacas novas. Em poucos meses, ela já estava plantando juntamente com Raimunda em zonas novas, falando das gliricídias com orgulho, quase como se tivesse sido ideia dela. Os filhos cresceram.

Pedro fez 12 anos em 88 e começou a ajudar nas podas com a foice de cabo curto que José Bento tinha feito para ele. Conceição, com 10 anos, ajudava no transporte da folhagem numa carriola de madeira que José Bento tinha construído. Em 1990, a propriedade já era referência regional. Não tinha mais um único troço de cerca sem gliricídia.

Mais de 300 árvores cobriam as divisas, todas em diferentes fases de crescimento, todas produzindo. A produtividade do gado tinha aumentado, o gasto com ração tinha descido para menos de metade. A terra das divisas, antes erodida e pobre, tinha começou a recuperar com a queda constante das folhas de giricídia, que serviam de adubo verde natural.

Em 1992, um técnico da Embrapa Meio Norte, com sede em Teresina, ouviu falar da propriedade através de um relato de extensionista local e foi visitar. Era o O Dr. Genésio Carvalho, engenheiro agrónomo de 40 anos, especializado em sistemas agroflorestais. esteve um dia inteiro a andar pela propriedade, examinando as sebes, perguntando, anotando, fotografando.

Ao fim do dia, sentado na varanda tomando café com Raimunda e José Bento, falou: “Dona Raimunda, a senhora tem aqui uma propriedade que é caso de estudo. A senhora montou um sistema agroflorestal completo com integração de sebe, forragem e adubo verde, sem ter formação técnica formal, baseada apenas em observação e replicação.

Isto é, na minha opinião, mais valioso do que muita investigação de doutorado. Raimunda Rio de Leve. Doutor, eu só copiei o que o compadre Manuel tinha feito em Caxias, mas a senhora copiou e adaptou para as condições daqui, aplicou à escala maior, sistematizou, ensinou aos vizinhos. Isto é trabalho de extensão rural feito por quem nunca foi extensionista, mas que compreende a função social do conhecimento.

Doutor, eu não fi-lo por mérito, fi-lo por sorte. Não foi sorte, dona Raimunda. Foi observação, foi paciência, foi capacidade de ler o ambiente. Sorte é uma palavra que usamos quando não quer reconhecer o seu próprio trabalho. Raimunda guardou aquela frase. Em alguns meses, Genésio regressou com mais três técnicos, com estudantes de agronomia, com máquina fotográfica profissional.

A propriedade virou estação de demonstração informal da Embrapa e Raimunda passou a receber ao longo dos anos seguintes dezenas de visitantes interessados ​​em aprender o sistema. Em 1995, foi convidada para falar num seminário de agricultura familiar em Teresina. Tinha 38 anos. Aceitou, com a mesma simplicidade com que tinha aceitou anos antes o feixe de estacas do compadre Manuel.

Subiu ao palco do auditório com um vestido azul comprado na feira do codó, sapato fechado, cabelo apanhado em coque alto e falou sem leitura, sem anotação. Eu plantei a primeira estaca de gllicídia em Abril de 86. A minha sogra, a dona Yolanda, riu-se de mim. O meu marido teve dúvida. Os vizinhos acharam que eu estava com a cabeça leve.

Eu plantei na mesma, porque tinha visto a árvore a funcionar no sítio do compadre Manoel em Caxias. E eu tinha aprendi com a minha mãe e com a tia Ester, que quando vemos uma coisa a funcionar noutro lugar, a gente não precisa de esperar que a autoridade diga que pode. A gente experimenta. Se der errado, é apenas uma divisa de vedação.

Se der certo é uma coisa nova que entra na vida. fez uma pausa. Aquela primeira cerca de 50 estacas, 16 dela morreram. 38 brotaram. Dessas 38, todas hoje continuam vivas. 9 anos depois. A propriedade hoje tem mais de 300 pés. O gasto com ração desceu para menos de metade. A produtividade do gado aumentou.

A terra das divisas está mais fértil. E mais importante, a minha sogra, que se riu da minha cara em 86, hoje aos 73 anos, é uma das maiores entusiastas do sistema e ensina às netas com mais paciência do que eu mesma. A plateia riu-se nessa parte. Raimunda sorriu, esperou. A lição que eu queria deixar é uma só. Quando a gente é mulher do interior, gente do mato, gente sem diploma, e queremos experimentar uma coisa nova, toda a gente ao redor tem motivo para dizer que não vai resultar.

Marido tem dúvida porque tem responsabilidade. Sogra tem dúvida porque viu muita má ideia na vida. Vizinho tem dúvidas porque ninguém quer plantar disparates para depois passar vergonha. Mas o verdadeiro teste não é a opinião deles, é o resultado. E o resultado necessita de tempo para aparecer.

Quem não tem paciência não chega ao resultado. Quem tem paciência chega. Aplausos longos. Raimunda desceu do palco sem perceber bem porque estava a ser aplaudida tanto, porque para ela aquilo era apenas simples relato de uma coisa que tinha resultado. Nos anos seguintes, a história foi-se firmando. A propriedade de Raimunda e José Bento em Codó tornou-se referência maranhense em sistema agroflorestal com Gliricídia.

Os estudantes da Universidade Federal do Maranhão fizeram lá trabalho de campo. A A Embrapa publicou uma cartilha técnica em 1998, mencionando o caso, com fotografias da propriedade e citações de Raimunda. Em 2005, uma cadeia de televisão de São Luís fez uma reportagem de 15 minutos sobre o sistema e Raimunda foi entrevistada na varanda da casa com a dona Yolanda sentada ao lado aos 83 anos, com o cabelo todo branco, mas firme e lúcida.

A repórter, no fim da entrevista, perguntou paraa dona Yolanda: “Dona Iolanda, a senhora chegou a duvidar quando a Raimunda começou a plantar essa vedação?” Dona Yolanda riu com aquela gargalhada solta de quem já tem paz com os erros do passado. “Filha, duvidei mais do que devia. Eu fui dura com a Raimunda, mas a A Raimunda foi paciente comigo, esperou eu compreender no meu tempo e ensinou-me depois, sem nunca cobrar”.

Eu hoje só posso dizer paraas outras sogras do Maranhão, confia mais na Nora. Às vezes ela sabe mais do que nós. A repórter riu-se, Raimunda riu-se e a entrevista acabou em clima leve. A Dona Iolanda faleceu em 2010 com 87 anos em paz na cama com Raimunda a segurar a mão dela. Antes de partir falou baixinho: “Filha, estou aqui, mãe.

Era a primeira vez que a dona Yolanda chamava à Raimunda de filha e a primeira vez que Raimunda chamava a dona Yolanda de mãe. Tinham demorou 28 anos para chegar a esse ponto. Cuida da gliricídia. Cuido, mãe. Ensina para Conceição. Para o Pedro também. Já ensino, mãe. Tu foste a melhor coisa que aconteceu naquela casa. E foi.

Raimunda enterrou a sogra em Codó, junto ao sogro, e voltou paraa propriedade. José Bento tinha morrido 3 anos antes, em 2007, de um problema cardíaco. Raimunda ficou na propriedade com Pedro, o filho mais velho, que tinha casado e vivia com a sua mulher Marlene, numa casa nova que tinham construído no terreno principal.

Conceição tinha casado com um técnico agrícola e vivia em Caxias. justamente onde a história tinha começado. Hoje, Raimunda tem 69 anos, vive ainda na mesma casa que ela e José Bento construíram em conjunto. A propriedade hoje tem mais de 500 gliricídias plantadas, todas descendentes da primeira leva de estacas que ela trouxe de Caxias em 1985.

Pedro gere a propriedade com a esposa Marlene e os dois filhos do casal neto de Raimunda, que estão a ser criados aprendendo a podar a gliricídia desde os 7 anos. O caderninho azul, onde a Raimunda anotou as instruções do compadre Manuel em 85, está guardado dentro de uma caixa de madeira na sala, juntamente com outros papéis importantes da família.

Conceição passou um fim de semana inteiro em 2015, digitalizando aquele caderno, página a página, com a autorização da mãe, e mandou cópia digital para a Embrapa, que arquivou juntamente com a documentação técnica que tinha publicado nos anos 90. Em 2023, uma equipa de uma universidade portuguesa esteve em Codó fazendo investigação sobre sistemas agroflorestais tropicais e foi mesmo propriedade de Raimunda a fazer entrevista.

O investigador, no final da entrevista, perguntou-lhe qual era a lição que ela tirava de tudo aquilo. Raimunda pensou um instante, olhou paraa cerca viva que dominava o horizonte da propriedade e respondeu: “Senhor doutor, a lição é simples. Quando vemos uma coisa boa noutro lugar, a gente não precisa de esperar permissão para trazer para casa.

A gente traz, planta, espera e vê. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, é apenas uma divisa de cerca perdida. Mas se não experimentarmos, a gente nunca sabe. Pausa. E quando a família ri, não respondemos com palavra, responde com resultado. Demora 2 anos, demora três, mas o resultado chega. E quando chega, já ninguém se ri. O investigador anotou, agradeceu, foi embora.

Raimunda voltou paraa cozinha terminar o jantar. Lá fora, na fronteira norte da propriedade, as gliricídias plantadas em 1986 tinham agora 38 anos. Eram árvores grandes, com troncos grossos, copas largas, cobertas das flores rosadas características da espécie, que floresciam dezembro após dezembro. O arame farpado estava preso aos troncos, como o compadre Manuel tinha ensinado.

As folhas caíam todo o ano e se transformavam em adubo no solo. 38 anos depois, acerca que a dona Yolanda tinha chamava de loucura e que José Bento tinha duvidado em silêncio na primeira manhã de Plantação, era a única coisa da propriedade que tinha continuado a crescer, a alimentar, a fecundar e a segurar gado, sem nunca falhar.

38 anos depois, a mulher, que tinha sido chamada de doida em 1986, era a única referência regional em cerca viva. E o caderninho azul, que tinha vindo de Caxias dentro da bolsa de uma viagem de uma semana era estudado em universidade portuguesa. Tudo porque uma mulher de 29 anos numa manhã de Abril tinha plantado um feixe de ramos verdes na fronteira enquanto a família se ria.

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