No Brasil de 1915, quando um artista envelhecesse e não conseguisse mais trabalhar, o destino quase certo era a miséria. Um homem viu isso acontecer e no auge da a sua fama, quando podia simplesmente usufruir do sucesso, fez uma escolha que ninguém esperava. O que ele criou existe até hoje.
Tem 107 anos, fica escondido numa aldeia do Rio de Janeiro e em 2026 alberga 43 artistas. que você certamente já viu na televisão. Mas a história de como nasceu este lugar, os motivos reais que levaram este homem a criá-lo e quem são os 10 famosos que lá vivem hoje, isso quase ninguém sabe. Uma cantora brasileira vencedora de um Grammy está lá dentro.
A atriz que viu esta semana no BBB26 já viveu nesse mesmo sítio e disse que nunca mais queria ter saído. E uma única pessoa já construiu sete casas nesta aldeia do seu próprio bolso, em silêncio, sem pedir reconhecimento nenhum. Esta é a história incrível do Retiro dos Artistas. Se ainda não está subscrito neste canal, subscreve agora e ativa o sininho, porque é exatamente este tipo de história que encontra aqui todas as semanas.
Vamos começar. Para compreender o retiro dos artistas, precisa primeiro conhecer o homem que o criou, porque a história do retiro não começa com uma instituição, começa por uma pessoa. E essa pessoa tinha uma história que poucas pessoas conhecem. O nome dele era Leopoldo Constantino Fre da Cruz.
Nasceu em Niterói no dia 30 de setembro de 1882. Desde criança que Leopoldo tinha um sonho, ser ator, mas os seus pais eram completamente contra isso. Para a família Frey o palco não era lugar para um homem sério. E assim, Leopoldo foi obrigado a engolir o sonho, estudar Direito e seguir o caminho que a família lhe traçou. Formou-se.
O pai arranjou-lhe até um cargo diplomático na embaixada do Brasil em Paris. Um cargo prestígio, estável, respeitável, tudo o que a família queria para ele. Leopoldo foi para Paris, mas nunca aparecia na embaixada. Estava sempre nos teatros, observando, aprendendo, respirando aquele mundo que tinha sido proibido para ele desde a infância.
E foi em Paris que tomou a decisão que mudaria a sua vida. abandonou o cargo diplomático e começou a carreira de ator em Portugal, estreando-se numa peça chamada O Rei Maldito. Regressou ao Brasil em 1915, foi contratado, montou a sua própria companhia teatral e entre 1917 e 1927 tornou-se o maior ator do Brasil.
Não havia nome maior no teatro brasileiro do que o de Leopoldo Fre. Era um ídolo, enchia teatros, era admirado, reverenciado, celebrado, mas havia algo em Leopoldo Fre que o separava completamente dos outros ídolos da sua época. Enquanto a maioria olhava apenas para o seu próprio sucesso, olhava para os lados e o que via perturbava-o profundamente.
No Brasil de 1915, não havia reforma formal para artistas, não havia sindicato, não havia proteção de espécie nenhuma. Os empresários que podiam pagavam uma espécie de pensão informal aos veteranos que já não conseguiam trabalhar. Os que não podiam ou simplesmente não queriam deixavam de pagar. E já está.
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E o artista que tinha passado 30 40 anos a fazer rir o Brasil, a encher teatros em todo o país, a criar personagens que ficavam na memória dos pessoas para sempre. Esse artista terminava os seus dias sozinho, sem dinheiro, sem família, sem dignidade nenhuma. Leopoldo Fre via isso acontecer ao seu redor.
Via colegas de profissão a envelhecer na miséria. Via pessoas que tinham dado tudo pela arte a simplesmente esquecidas quando já não tinham mais nada para dar e não conseguia aceitar. no auge da sua fama, no momento em que tinha tudo, nome, dinheiro, reconhecimento, ele fez uma pergunta que mais ninguém estava a fazer.
Por que razão quem dedicou a vida inteira à arte tem de terminar assim? Foi esta pergunta que mudou tudo. Leopoldo Freud não se ficou apenas pela pergunta, agiu. Começou a trabalhar na Ideia em 1915. Reuniu amigos do meio artístico e jornalístico. Conversou, convenceu, mobilizou. tinha ao seu lado pessoas como Eduardo Leite, Mário Magalhães e o jornalista Irineu Marinho, que mais tarde seria o pai de Roberto Marinho, o fundador da Rede Globo.
A inspiração tinha vindo de um modelo que ele conheceu durante o tempo que passou em Paris, o Meson de Retrete des Artistes de Ponodam, criada nos arredores de Paris para apoiar os artistas aposentados. Leopoldo quis trazer esse mesmo espírito para o Brasil, mas foi mais longe. quis criar algo que fosse verdadeiramente digno.
Não uma casa de caridade, mas um lugar onde o artista pudesse viver com respeito, com privacidade, com autonomia. A 13 de agosto de 1918, no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro, Leopoldo Freud reuniu 68 profissionais do entretenimento e fundou oficialmente a Casa dos Artistas, que o Brasil mais tarde passaria a conhecer como o Retiro dos Artistas.
Para homenagear o ator João Caetano, um das maiores lendas do teatro brasileiro, a data oficial da fundação foi transferida para 24 de agosto. E até hoje, o dia 24 de agosto, é o dia do artista no Brasil, uma herança direta do que Leopoldo Fre construiu nesse ano. Um ano após a fundação, conseguiu a doação de um terreno de 15.000 m² em Jacarpaguá.
O homem que doou este terreno foi Frederico Figner, o fundador da casa Edison, o primeiro produtor fonográfico do Brasil, um pioneiro que reconheceu o valor do que Leopoldo estava a construir e decidiu ser parte dele. Os primeiros moradores que entraram por aquela porta eram um casal chamado Madalena e Domingos Marquísio.
Dois artistas sem família, sem dinheiro, sem para onde ir. Para eles, aquela porta não era o fim de nada. Era o início de uma vida com dignidade. Leopoldo Freud nunca chegou a ver o que o retiro dos artistas se tornaria. Em 1931, durante as filmagens de uma película em Paris, contraiu tuberculose. Foi internado num sanatório em Davos, na Suíça, e no dia 1 de Março de 1932 morreu. Tinha 49 anos.
O homem que passou a vida inteira a lutar para que os artistas não morressem esquecidos e sem apoio, morreu longe do Brasil, aos 49 anos, numa cama de hospital na Suíça. Mas o que ele plantou em 1918 não morreu com ele, continuou a crescer. E em 12 de maio de 2022, 90 anos depois da sua morte, o retiro dos artistas foi declarado património tombado pelo estado do Rio de Janeiro.
O O Brasil reconheceu oficialmente o que aquele homem construiu e hoje, em 2026, o lugar que Leopoldo Fre criou por pura A sensibilidade humana ainda está de pé, mais vivo do que nunca. E agora vai entender o que este lugar se tornou. O retiro dos artistas fica em Jacarpaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.
E a primeira coisa que precisa ficar clara é que este lugar não é o que a maioria das pessoas imagina. Não é um asilo, não é um depósito de gente, é uma aldeia cultural completa. Existem 50 casas individuais e independentes. Cada morador tem o seu próprio espaço, quarto, sala, cozinha, casa de banho. Decora do seu jeito, recebe visitas, mantém a sua privacidade e a sua autonomia.
Não há grades, não existem horários rígidos, a dignidade. Além das casas, o retiro tem um refeitório com seis refeições por dia. Teatro próprio para apresentações, sala de cinema, biblioteca, piscina semiolímpica, salão de beleza, centro de fisioterapia, acompanhamento médico, psicológico e de enfermagem. Tem um ginásio aberto inclusive para a comunidade envolvente.
Tem brechó beneficente. E em dezembro de 2025 foi anunciou a criação de um centro cultural dentro da instituição, com peças de teatro, concertos, sessões de cinema, exposições artísticas, bailes de danças de salão e workshops de arte terapia. Os moradores não ficam parados, participam em aulas de representação e dobragem.
Alguns ainda fazem participações em projetos televisivos, outros ensinam os mais novos. A arte continua viva ali dentro todos os dias. Hoje, em 2026, o retiro acolhe 43 moradores, atores, cantores, instrumentistas, produtores, figurinistas, maquilhadores, cenógrafos, toda a classe artística, não só as estrelas, mas também quem trabalhou toda a vida nos bastidores para que o espetáculo existisse.
E tudo isto funciona exclusivamente com donativos. Não há verba pública garantida, não há patrocínio fixo. É a generosidade das pessoas e artistas que mantém este lugar de pé há mais de um século. Agora chegou a hora de conhecer os 10 mais famosos que vivem lá. Que antes de continuar, se este vídeo está a surpreender-te, deixa o like agora.
Isso ajuda muito este canal a continuar a trazer histórias como esta para si. Número um, Marcos Oliveira, o eterno Beiçola. Para o Brasil, ele será sempre o Beiçola, o genro atrapalhado, bom vivã e inesquecível da série A Grande Família, exibida pela Globo de 2001 a 2014, durante 14 temporadas, ao lado de nomes como Marieta Severo, Luiz Gustavo e Marco Nanini.
Marcos construiu uma carreira sólida. Além da grande família, trabalhou em Osuburbanos Deus Salve o Rei e Poliana Moça, mas quando a série terminou, os contratos foram rareando e a vida fora das câmaras foi ficando cada vez mais difícil. Em julho de 2023, Marcos Oliveira publicou uma mensagem nas redes sociais que chocou o Brasil inteiro.
Ele havia sido vítima de um golpe. Alguém em seu nome tinha feito empréstimos, aberto contas e gerado dívidas impagáveis. Sua A reforma do INSS havia sido bloqueada. Os seus direitos autorais na Globo sequestrados pela dívida. sem conseguir pagar a renda há meses, escreveu publicamente: “Tenho fome, tenho-me ajuda!” A influenciadora Deolane Bezerra dou.
000 para o ajudar, mas não foi suficiente. Em agosto de 2024, a situação chegou ao limite. Ele recebeu uma ordem de despejo do apartamento onde vivia em Botafogo, com uma dívida que ultrapassava os 12.000 dars em rendas. em desespero, declarou: “Estou em pânico, sem condições para nada e apático.
Tenho de sair e não sei para onde vou. Foi então que aconteceu algo que o Brasil precisava de ver. A atriz Marieta Severo, sua colega de 14 anos em A Grande Família, onde ela vivia a icónica dona nenê, decidiu agir. Financiou do próprio bolso a construção de uma casa completamente nova dentro do retiro dos artistas.
A 10 de abril de 2025, Marcos Oliveira entrou pela porta da a sua nova casa, nas redes sociais escreveu: “Malta, estou de casa nova. Gratidão. Retiro dos artistas Marieta Severo, Tata Vernec e todos os que me ajudaram até aqui. 45 dias depois, em entrevista à CNN Brasil, disse: “Estou em paz, tranquilo e voltando ao ativo.
” Mas há um pormenor que quase ninguém sabe. Marcos hesitou muito antes de aceitar a mudança. Falou abertamente sobre o estigma de viver num lugar assim, que havia outro problema. Ele tinha três cadelas. E o retiro só permitia um animal de estimação de pequeno porte. Marcos precisou de encontrar um lar para duas delas antes de aceitar a mudança.
Só depois de ter a certeza de que estavam bem cuidadas, ele disse que sim. Hoje Marcos Oliveira tem agenda no teatro, projetos no cinema independente e segue em frente. O retiro não foi o fim da sua história, foi um novo começo. A número dois, Iris Bru, a vedeta que encantou gerações. Se tem mais de 40 anos, lembra-se certamente de Iris Bru, mas provavelmente não sabe metade da história dela.
A Iris nasceu no Rio de Janeiro em 16 de fevereiro de 1935. Nos anos 1950, quando a televisão brasileira ainda gatinhava, ela já era uma estrela, como vedeta do teatro de revista, o género de entretenimento mais popular do Brasil naquela época. Encantava as plateias com talento, beleza e uma presença em palco que poucos conseguiam igualar.
Quando a televisão explodiu, Iris estava lá. Atuou em grandes telenovelas da TV Globo. Guerra dos sexos, corpo a corpo, Selva de Pedra, Vale Tudo, O Beijo do Vampiro e Belíssima. Em Valeudo em 1988, viveu a personagem Eunice e marcou toda uma geração de telespectadores. Depois da Globo, continuou ativa na A Record TV, com trabalhos em vidas opostas, Chamas da Vida, Ribeirão do Tempo e Balacobaco.
Nos seus últimos anos, Iris vivia na Flórida, nos Estados Unidos, com o filho Marcelo Caruzo, os netos e os bisnetos. Mas em 2024, uma reviravolta inesperada. Ela perdeu o Green Card e não podia ficar nos Estados Unidos de forma irregular. O filho trouxe-a de volta para o Brasil. Ela chegou com um princípio de Alzheimer que já estava a ser tratado nos Estados Unidos.
Em junho de 2024, a Iris Bru mudou-se para o retiro dos artistas. O filho renovou completamente a casa, colocou móveis novos e espalhou-se pelas paredes fotos de toda a trajetória artística da mãe. Quando a Iris entrou e viu as fotos, ficou emocionada e feliz. O presidente do retiro, o ator Stepan Neresian, recebeu-a com uma frase que resume tudo: “A Iris está na história da nossa vida cultural e artística.
Mulher linda que encantou plateias. É uma honra para o retiro dos artistas a recebê-la. Em março de 2026, Iris Bru completou 91 anos. Ela segue recebendo cuidados, conversando, lembrando de histórias e, segundo o filho, demonstra ainda o vontade de voltar a atuar. Número três, Flora Purin, a rainha do jazz brasileiro.
Esta história vai-te surpreender porque estamos a falar de uma artista de nível mundial que tocou com os maiores nomes do jazz internacional, foi nomeada para o Grammy múltiplas vezes. Recebeu uma das maiores honras do governo brasileiro e que em setembro de 2023 chegou ao retiro dos artistas junto com o marido. O seu nome é Flora Purim.
Nasceu no Rio de Janeiro a 6 de março de 1942. É chamada A rainha do jazz brasileiro e o título não é exagero. Flora possui uma extensão vocal de 6 oitavas, uma raridade absoluta no mundo da música. Foi membro fundador do grupo Return to Forever, ao lado de Chica, e Stanley Clark, ajudando a definir o som do jazz fusion nos anos 1970.
gravou e atuou com Diz Gilesp, Carlos Santana, Jill Evans, Stan Gats e Mickey Hart dos Grateful Dead. Ao longo de quase 60 anos de carreira, gravou 25 álbuns como líder e mais 10 com o marido, o percussionista Airto Moreira. Em 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu a Flora e a Airto a Ordem do Rio Branco, uma das maiores honras do Brasil, reservada para quem contribui de forma excepcional para a promoção da cultura brasileira no mundo.

Então, por que razão o retiro? Após uma pneumonia que deixou sequelas graves no marido Airto Moreira, Flora envolveu-se em esforços para angariar fundos para custear o tratamento dele. A saúde de Airto ficou comprometida e em setembro de 2023 o casal decidiu juntos mudar-se para o retiro dos artistas, onde poderiam ter cuidados médicos e apoio diário.
Mas A Flora não parou de trabalhar. Em 2025, Hela e Airto foram convidados para um retiro criativo num estúdio em Fortaleza, resultando no single aqui, ó. Um álbum completo do casal estava previsto ser lançado em 2026. A casa que Flora e Airto ocupam no retiro foi, curiosamente a mesma casa onde a atriz Solange Couto viveu durante a pandemia, mas esta história vai ouvir mais à frente.
Número quatro. Rui Rezende, o astromar de Roque Santeiro. Para os Os fãs de novela dos anos 1980, este nome vai fazer-te sorrir de saudade. Rui Rezende ficou eternizado pelo papel de Astromar na novela Roque Santeiro de 1985. Um dos maiores fenómenos da história da televisão brasileira, escrito por Dias Gomes e exibida pela Globo num Brasil que acabava de sair da ditadura militar.
Roque Santeiro foi mais do que uma telenovela, foi um evento nacional, uma crítica social acutilante, embrulhada numa história de amor e humor que o país inteiro parou para assistir. Rui Rezende fez parte desta história. Foi um dos rostos de um dos maiores momentos da televisão brasileira de todos os tempos.
Com uma carreira construída ao longo de décadas no teatro e na televisão, Rui chegou ao retiro dos artistas em 2019, tornando-se um dos moradores mais antigos da atual fase da instituição. Ele é exatamente o perfil que Leopoldo Freud tinha em mente quando fundou aquele lugar. Um profissional que dedicou a sua vida à arte, que fez história e que merece viver com dignidade e companhia na terceira idade.
No retiro, o Rui participa nas atividades culturais e continua a ser uma referência viva da televisão que formou o gosto artístico do Brasil. Número cinco, Carlinhos Pandeiro de Ouro, um lenda da música brasileira. O nome diz tudo. Um músico que passou a vida inteira com o tamborileiro nas mãos, tocando em palcos do Brasil e do mundo, levando a essência da música popular brasileira para quem quisesse ouvir.
Carlinhos Pandeiro de Ouro chegou ao Retiro dos Artistas em 2023 e representa uma mensagem importante que o retiro carrega desde 1918. O lugar não acolhe apenas quem encontra-se em dificuldade financeira extrema, acolhe também quem precisa de companhia, de cuidado, de comunidade. Artistas que passaram a vida a viajar, que nem sempre construíram família, que na terceira idade se vem sozinhos e que encontram no retiro um lugar onde as histórias são respeitadas e a arte é valorizada todos os dias.
E daqui a pouco vai descobrir algo sobre o número sete desta lista, que vai mudar completamente a forma como vê este lugar. Número se Bet Pinho, da cena alternativa ao aconchego do retiro. Beth Pinho é um nome que talvez não conheça pela televisão, mas que é uma figura profundamente respeitada no teatro brasileiro.
Ligada ao icónico Teatro Oficina, um dos grupos teatrais mais influentes e radicais da história cultural do Brasil, Bet representa uma geração de artistas que viveu para o palco, para a experimentação, para uma visão da arte que ia muito para além do entretenimento convencional. O Teatro Oficina foi palco de A resistência artística durante a ditadura militar, de experimentação estética e de uma visão do mundo que transformou o teatro nacional.
Fazer parte deste universo é ter um lugar especial na história da cultura brasileira. Bet Pinho chegou ao retiro numa das casas construídas com a doação da Marieta Severo, de quem vamos falar com muito mais detalhe daqui a pouco. E a sua história representa algo fundamental. O retiro não é só para as estrelas da televisão, é para todos os profissionais das artes, para quem viveu em palco, nos bastidores, na música, na dança, para toda a classe artística brasileira.
Número sete, Jaime Lebovit, o veterano que pediu um Kindle no Natal. Jaime Lebovit é um daqueles atores que que reconhece imediatamente no ecrã, mesmo que por vezes não saiba o nome. Com uma extensa carreira em novelas da Globo, incluindo Alma Gémea e várias outras produções, Jaime é um veterano de 78 anos que passou a vida inteira no plateau de gravação.
Em dezembro de 2025, o retiro dos artistas lançou uma campanha de Natal que se tornou viral nas redes sociais. A instituição pediu a cada morador que escrevesse o seu maior desejo de Natal num papel e o exibisse para a câmara. A campanha ultrapassou 30.000 gostos em poucos dias. O pedido de Jaime Lebovit parou o Brasil.
Com 78 anos, uma carreira inteira de telenovelas, décadas de trabalho na televisão brasileira, escreveu no papel que queria ganhar um Kindle, um leitor de livros digitais, um pedido simples, humano, que tocou o coração de quem viu, porque por detrás daquele papel havia uma vida inteira de arte, de trabalho, de histórias que merecem ser recordadas e que naquele momento cabiam numa única folha de papel dobrada entre as mãos de um homem de 78 anos.
Número 8, Sílvio Posato. Uma vida dedicada à televisão brasileira. Sílvio Posato construiu a sua carreira ao longo de décadas de trabalho na televisão brasileira. Participou em produções que marcaram gerações de telespectadores, incluindo o remake de Pantanal, uma das novelas de maior audiência da Globo nos últimos anos, que voltou a prender todo o Brasil ao ecrã e provou que certas histórias são eternas.
Silvio representa algo que o retiro dos artistas precisa que o Brasil entenda. Não são apenas as grandes estrelas que chegam lá. São profissionais sérios, dedicados, que deram anos e anos da sua vida à cultura deste país, que trabalharam em silêncio, cena a cena, personagem a personagem e que merecem exatamente o mesmo respeito e a mesma dignidade que qualquer outro artista que passou pelos holofotes.
No retiro, Sílvio encontrou uma comunidade e uma casa que é verdadeiramente sua. Número Colmar Diniz. Porque os bastidores também têm história. Comar Diniz nunca esteve em frente às câmaras. Provavelmente nunca viu o rosto dele na televisão. O nome dele nunca foi manchete de jornal, nunca foi assunto de um programa de mexericos.
Comar Diniz é cenógrafo e figurinista. E sem ele e sem profissionais como ele, as novelas que amava não existiriam. Sem o cenógrafo, não há cenário. Sem o figurinista não há fantasia. Sem estes profissionais que trabalham na sombra, não há espetáculo, não há emoção, não há nada.
O retiro dos artistas sabe que desde o primeiro dia. Desde a sua fundação em 1918, a instituição acolhe não apenas atores e cantores, mas toda a classe artística: instrumentistas, produtores, realizadores, maquilhadores, figurinistas, cenógrafos. Quem dedicou a sua vida ao espetáculo? Seja no palco ou nos bastidores, tem um lugar ali.
Comar Diniz chegou recentemente ao retiro e reforça a mensagem que Leopoldo Fre gravou em 1918 com as suas próprias mãos. A arte é feita por todos e todos merecem ser cuidados. Número 10, Claron, mais de 20 anos e ainda ativa. E chegamos ao 10º nome desta lista. E a história de Claire Digon é talvez a mais reveladora de todas, porque ela derruba de vez o maior preconceito que existe sobre o retiro dos artistas.
Claire é atriz com uma carreira construída ao longo de décadas na televisão brasileira. Mora no retiro dos artistas há mais de 20 anos. Não chegou lá em crise, não chegou lá desesperada. chegou, encontrou a sua casa, a sua rotina, a sua comunidade e ficou por opção. E o mais importante, ainda hoje faz participações em projetos de televisão.
Claire Digon é a prova viva de que viver no retiro não significa o fim da carreira, não significa isolamento, não significa esquecimento. Ela continua a trabalhar, continua a atuar, continua a ser artista com uma base segura, uma comunidade que a apoia, sem a preocupação do aluguer em atraso, sem a angústia da solidão.
A história de Claire é a história que o retiro deveria contar todos os dias. Aqui a arte não para. Agora precisamos de falar de algo que mantém esse lugar de pé há mais de um século. Porque o retiro dos artistas não recebe fundos públicos garantida, não tem patrocínio fixo, funciona integralmente através de donativos, dinheiro, materiais de construção, vestuário, alimentos, eletrodomésticos, mobiliário e trabalho voluntário. Existe uma fila de espera.
Atualmente, cerca de 10 pessoas aguardam uma vaga. A procura supera sempre a capacidade e é aqui que entra a mulher que a administradora Cida Cabral chama de O Anjo do Retiro, a atriz Marieta Severo. Marieta tem 78 anos e uma carreira monumental, teatro, cinema, televisão, décadas de trabalho que a tornaram uma das maiores atrizes do Brasil.
Mas o que ela tem feito pelo retiro vai para além de qualquer papel que já interpretou. Ao longo dos últimos anos, Marieta Severo doou ao retiro dos artistas um total de sete residências. Sete casas construídas do zero, com material, mão-de-obra e mobília pagos do seu próprio bolso. Entre estas casas estão a que alberga Marcos Oliveira e a que a luta Bet Pinho. Tudo feito em silêncio.
Sem dar entrevistas sobre isso, sem pedir o reconhecimento, a administradora A Cida Cabral disse uma coisa sobre Marieta que ficou gravada. A Marieta tem uma generosidade incrível. Ela doa tudo, material, mão-de-obra e mobília. Em 25 anos aqui, poucas vezes lidamos com alguém tão bondoso.
Ela é o anjo do retiro. Chegamos ao fim deste vídeo, mas o retiro dos artistas não tem fim. Há 107 anos, um homem chamado Leopoldo Fre abandonou um cargo diplomático em Paris porque não conseguia manter-se longe dos teatros. Regressou ao Brasil, tornou-se o maior ator do seu tempo e, no auge da sua fama fez uma escolha que ninguém esperava.
olhou para os colegas que estavam a morrer na pobreza e decidiu que aquilo não podia continuar. Criou o retiro dos artistas. Morreu aos 49 anos sem ver o que aquela decisão se tornaria. Hoje o que ele plantou alberga 43 residentes, tem uma fila de espera de 10 pessoas e conta com artistas como Marieta Severo, que continuam a construir literalmente um futuro mais digno para a classe artística brasileira.
Marcos Oliveira encontrou a paz depois de anos de pânico. Iris Bruce completou 91 anos rodeada de carinho. Flora Purim gravou novas músicas de dentro do retiro. O Claron vive lá há mais de 20 anos e ainda atua. E Solange Couto, que ali viveu nos momentos mais difíceis da sua vida, hoje está dentro do programa mais visto no Brasil e recorda o retiro com amor.