E estou a pensar deixar a televisão. Eu estou em ponto de ter um stress muito violento. [Música] Era uma noite de 22 de Maio de 1986 e já passava das 23 horas, quando um dos maiores apresentadores da TV brasileira chamou os comerciais com o gesto que o consagrou. Essa seria a última vez.
Ele sentiu-se mal ao vivo, foi levado de urgência para o hospital, mas o seu coração não aguentou. Flávio António Barbosa Nogueira Cavalcante nasceu no Rio, na cidade maravilhosa, em 15 de Janeiro de 1923. Apesar de não existirem muitas informações sobre a sua infância e juventude, sabe-se que vivia naquela que era a capital do Brasil.
Numa época em que o rádio era o principal meio de informação. Ainda jovem, começou a trabalhar. Inclusive, o primeiro emprego de Flávio Cavalcante foi no Banco do Brasil. Depois ingressou como repórter no jornal Amanhã. Mas o o jornalismo foi apenas o primeiro passo de uma viagem que o transformaria num dos comunicadores mais marcantes da televisão brasileira.
No entanto, Flávio teria ainda uma longa passagem profissional pela alfândega do Rio de Janeiro, onde trabalhou até 1964. Antes, porém, no início dos anos 50, compôs ao lado do seu irmão Celso a canção Mancha de Batom, gravada pelo conjunto Os Cariocas. [Música] A sua relação com a música e capacidade de análise crítica levaram-no a comandar o seu primeiro programa na rádio, Discos.
possíveis na rádio Tupi já em 1952, que foi depois transmitido pela rádio Mairink Veiga. Lá ele também comandou o programa Nós, os Gatos, ao lado de Jacinto de Tormes. Em 1957, Flávio estreou-se na televisão com o programa Um Instante Maestro, exibido na TV Tupi. Pouco tempo depois, passou a apresentar o Noite de Gala na TV Rio.
A sua presença carismática, aliada a um estilo incisivo, logo chamou a atenção do público. Um facto curioso é que neste mesmo período esteve nos Estados Unidos e conseguiu entrevistar o então O presidente John F. Kennedy diretamente da Casa Branca, um feito para poucos. Já em 1965, desligado da alfândega, Flávio recriou o um instante maestro.
Aqui está o comentador de música popular, Flávio Cavalcante. [Música] Desta vez na TV Excelsior. Que violência, gente. Mas que violência entraram hoje no programa. Em 1967, o programa regressou à TV Tupi, sendo exibido sempre às terças-feiras. O programa marcou uma época pela sua característica original. E agora, como prometi-vos, vou mostrar o que está a acontecer no submundo do disco.
Numa espécie de tribuna, Flávio Cavalcante elogiava ou criticava ferozmente os mais recentes lançamentos da música. Foi nele que iniciou uma das suas marcas registadas, que era o ato de quebrar discos que considerava maus em palco ao vivo, algo inédito na televisão. Não dá, tá? Vamos, há tanta gente com boas composições esperando vez para gravar.
Vem esta porcaria da Poligran e grava isso aí, ok? Nosso por favor. O sucesso foi grande e o apresentador emplacou mais dois programas na mesma emissora. A sua majestade é a lei. Enfim, torturas praticadas com queimadura de cigarro e alicate. Agora, meus senhores, o que não entendo é que quatro médicos do Instituto de Medicina Legal deram um relatório pericial dias antes.
Dois são mesmo. Dois e a grande chance. Para o a maior realidade em matéria de chance na televisão, vou chamar outro candidato ao primeiro MIT, Mercado Internacional do Talento, com um guião de êxitos estimado em 200 milhões de cruzeiros. O candidato chama-se Ed Nelson, mas o grande marco na sua carreira ainda estava para vir.
Em 1970, estreou-se aos domingos no comando do programa Flávio Cavalcante. O seu nome primeiro? Eduardo. Eduardo. Sim. Sete pessoas. Nós estávamos a beber uma cerveja na rua da passagem 153 ou dois, dois pessoas. Sim. Chegou com uma bereta e ficou com medo? Pomba. você ficou com medo. Algo que ajudou a alavancar ainda mais a repercussão dele foi o facto de este ser um dos primeiros programas de televisão a ser exibido para todo o país através satélite.
Foi no espectáculo que levava o seu nome, que Flávio consolidou a sua presença carismática, aliada a um tom [Música] autoritário. Flávio em tempo livre. Diferente dos apresentadores tradicionais da época, não tinha medo de confrontar os convidados e expressar opiniões fortes, o que o tornou uma das figuras mais marcantes da TV brasileira em todos os tempos.
Cumprimentos à TV Piratini de Porto Alegre, o senhor Walter Perak Barcelos, diretor do Banco do Brasil. Flávio conduzia a atração com desenvoltura, unindo gestos marcantes, como tirar e colocar os óculos, os seus bordões, como o nossos comerciais, por favor. Comercial, por favor. Além disso, tinha um olhar apurado para a inovação, o que o levou a criar o primeiro concurso de talentos e o primeiro juuri da televisão numa só varanda, num modelo de competição onde as personalidades analisavam performances de artistas em
ascensão. Grandes artistas como Emílio Santiago, Alion e Fafá de Belém deram os seus primeiros passos nestes programas que ainda hoje são populares no Brasil. Apesar do sucesso, Flávio deixou a TV Tupi em 1976, devido aos problemas financeiros enfrentados pela emissora. Mas apenas anos depois regressou com o seu programa Mudar o Dia de Exibição para os sábados.
Fiel à estação, Flávio Cavalcante permaneceu na Tupi até ao encerramento em 1980. Segundo lugar com 93 pontos, Everardo. Primeiro lugar com 96 pontos, Emílio Santiago. Assim, esteve na Band a apresentar diariamente o programa Boa Noite Brasil por um breve período. [Música] Boa noite, Brasil. Boa noite, Belo Horizonte.
e depois levou o seu programa Flávio Cavalcante para o SBT, onde trabalhou de 1983 a 1986. Discreto sobre a sua vida pessoal, Flávio era casado com Belinha Cavalcante desde 1948. O casal teve três filhos. Apesar da postura rígida e autoritária na televisão em entrevistas, falava da esposa com carinho e respeito, atribuindo-lhe grande parte da sua estabilidade emocional.
Eles mantiveram um relacionamento sólido ao longo das décadas e Belinha esteve sempre ao lado do apresentador nos momentos mais difíceis da sua carreira. Na esfera da vida pública, Flávio construiu uma reputação conservadora e apoiou o regime militar de 1964, apresentando posturas alinhadas com o golpe.
Era um crítico feroz de figuras que considerava revolucionárias ou moralmente inadequadas. O seu Caetano Veloso, com todo o seu talento, preciso ouvir que isto não se grava num país civilizado. O que acabou de gravar? Um dos seus alvos mais notórios era o músico John Lennon, um dos líderes do grupo The Beatles, que o apresentador julgava ser uma má influência para a juventude.
Da mesma forma, manifestava-se abertamente contrário à homossexualidade e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, posições que hoje seriam vistas como polémicas e ultrapassada. Contudo, mesmo sendo um apoiante do regime, Flávio foi também vítima de censura. Em 1973, o seu programa foi suspenso por 60 dias após exibir uma história considerada indecente pelo governo.
Ele também surpreendeu ao sair em defesa da atriz Leila Diniz, quando foi perseguida também pelo regime após uma entrevista concedida ao jornal O Pasquim. No início da década de 80, após o encerramento da TV Tupi, Flávio Cavalcante decidiu afastar-se temporariamente da televisão para cuidar da sua saúde já debilitada.
Durante esse período, procurou seguir as recomendações médicas, tentando diminuir o stress e a carga de trabalho que vinham afetando o seu bem-estar. Inclusive, chegou a admitir publicamente que considerava a possibilidade de se aposentar da telinha. E estou a pensar em deixar a televisão. Eu estou em ponto de Estou em ponto de ter um stress muito violento.
Essas declarações preocuparam os seus colegas e fãs que temiam pelo agravamento do seu estado físico. Mas em 1983, Silvio Santos, reconhecendo a talento e a importância de Flávio para a televisão, fez um convite irrecusável para que integrasse o elenco da SBT. Mesmo ciente das suas limitações de saúde, o apresentador aceitou o convite, movido pela paixão, pela comunicação e pelo desejo de continuar a contribuir para o meio televisivo.
Existe há quase 2000 anos e há quase 2000 anos que existe a discussão: os padres devem casar ou não devem casar? 22 de maio de 1986 parecia ser mais um dia comum de trabalho para o comunicador. Aos 63 anos, já enfrentava graves problemas cardíacos e circulatórios, resultado de anos de trabalho intenso e de uma vida marcada pelo stress das polémicas e emoções fortes.
Não me encontro bem de saúde. Eu estou em ponto de ter um stress muito violento. Por mais que tivesse recomendação médica para diminuir o ritmo, o apresentador recusava-se a parar. Nesse dia, entrou no palco da SBT para apresentar o seu tradicional programa dominical. O público, habituado ao seu estilo firme e enérgico, não se apercebeu de imediato que algo estava errado.
Mas para quem estava nos bastidores, os sinais eram evidentes. O Flávio suava excessivamente. A sua respiração estava pesada e vez ou outra, levava a mão ao peito discretamente, como se tentasse aliviar um incómodo. Ainda assim, seguiu conduzindo a atração com profissionalismo, chamando jurados, comentando apresentações e interagindo com convidados.
Conforme o programa avançava, o desgaste físico tornava-se mais visível. Em determinados momentos, a sua voz parecia menos firme, enquanto o seu olhar demonstrava cansaço. Em um dado momento, a situação agravou-se. Visivelmente indisposto, Flávio chamou o intervalo comercial com o seu gesto clássico de dedo para o alto e o seu bordão, os nossos comerciais, por favor.
Mas assim que os anúncios assumiram o controlo, ele desfaleceu no palco, sendo imediatamente apoiado por membros da produção. Em poucos minutos, uma ambulância foi acionada e o apresentador foi levado às pressas para o hospital. Diante da situação inesperada, a produção do programa teve de agir rapidamente.
Wagner Montes, que já fazia parte da atração e era um dos grandes nomes do SBT na altura, foi chamado para assumir a apresentação no regresso do intervalo. Com um semblante sério, comunicou ao público que Flávio se tinha sentido mal e sido encaminhado para atendimento médico.
Vocês devem estar a estranhar eu estar a apresentar o programa. Desculpem, porque eu também fui apanhado de improviso. O Flávio teve uma pequena disposição. Wagner disse ainda em tom de súplica e muito desejoso que se tudo desse certo, Flávio Cavalcante estaria no palco a apresentar o espetáculo na próxima semana.
E, se Deus quiser, na próxima quinta-feira ele estará aqui, porque aqui é o seu lugar para comandar o seu programa. O programa foi encerrado nesse mesmo instante, deixando os telespectadores sem informação concretas sobre o estado de saúde dos Flávio Cavalcante. Aquela noite entraria para a história da televisão brasileira como um dos momentos mais dramáticos já transmitidos em direto.
Um dos maiores comunicadores do país tinha saído do palco pela última vez, sem imaginar que jamais retornaria. Logo após desmaiar no palco do SBT, Flávio foi levado às pressas de ambulância para o Hospital Unicor em São Paulo, e a sua família logo foi informada do sucedido. Ele havia sofrido uma isquemia miocárdica. Nos dias seguintes, Flávio permaneceu internado sob cuidados intensivos, mas o seu estado de saúde oscilava entre momentos de ligeira melhoria e novos episódios de instabilidade.
No hospital, os médicos identificaram um agravamento grave dos seus problemas cardíacos. Afinal, a recusa em reduzir o ritmo tinha cobrado o seu preço. Assim, no dia 26 de maio de 1986, apenas 4ro dias após o incidente no programa, o coração de Flávio não resistiu e este faleceu aos 63 anos. Com sua partida, a televisão brasileira perdia um dos seus mais icónicos comunicadores.
Logo, a comoção foi imediata. O velório de Flávio Cavalcante reuniu uma multidão de fãs, amigos e figuras importantes da televisão brasileira. Sílvio Santos, responsável por o levar à SBT, esteve presente e demonstrou grande emoção. O público que acompanhava Flávio há décadas fez fila para dar o seu último adeus.
O seu enterro decorreu em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, e foi acompanhado por cerca de 2.000 pessoas. No dia seguinte à sua morte, a SBT manteve-se fora do ar até ao momento do sepultamento. No ecrã exibia-se um slide que dizia que todos estavam tristes com a perda do colega, que seria sepultado às 16 horas em Petrópolis e que, após o facto, o canal retomaria a sua programação normal.
O impacto da morte de Flávio Cavalcante foi profundo. O seu estilo inconfundível, as suas polémicas e o seu compromisso com a TV deixaram um vazio, mas o seu legado permaneceu vivo, influenciando gerações de comunicadores e programas, deixando a sua marca na história da televisão brasileira. O filho Flávio Cavalcante Júnior escreveu a biografia do pai contando memórias, polémicas e trazendo um olhar do marido e pai de família que o Flávio também era.
Segundo Júnior, a sua intenção era mudar a imagem que o pai teve nas gerações mais jovens, que o viam apenas como alguém reaccionário e que apoiou o regime militar. Inclusive, afirmou que, apesar de ter apoiado o golpe, Cavalcante abandonou a ideia ao constatar que não haveria a liberdade prometida, até porque ele próprio foi vítima de censura.
Já o apresentador Geraldo Luiz utilizou o episódio que envolveu a isquemia sofrida por Flávio Cavalcante como justificação para recusar uma proposta da Record para fazer um programa diário. Ele disse que precisava priorizar a sua saúde e que não queria ficar doente de tanto trabalhar como o icónico apresentador.
Já conhecia a percurso de Flávio Cavalcante? Me conte nos comentários, subscreva e deixe o seu gosto. Separei um vídeo especial para si. Ele está a aparecer aí no ecrã. Vemo-nos lá. เ