Vai julgar-me por isso. Tudo bem. Eu também me julgaria se ouvisse essa história de outra pessoa. O meu nome é Rafael Menezes, tenho 37 anos, CEO da A Nexum Tecnologia, empresa que fundei aos 28 e que hoje conta com 140 colaboradores em Belo Horizonte. Cresci numa família batista de contagem, interior de Minas, filho de pastor.
Cresci, ouvindo que imagem não fala com ninguém, que terço é van repetição, que devoção mariana é idolatria disfarçada de fé. Passei a vida adulta achando exatamente isso. Tenho as razões teológicas memorizadas desde criança. Primeiro mandamento, não terás outros deuses. Deuteronómio 4:15. Não fizestes imagem alguma. Primeiro Timóteo 2:5.
Há um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus. Aprendi a citar estes versículos com a naturalidade com que a criança aprende tabuada. O que ninguém ensina juntamente com estes versículos é a diferença entre veneração e adoração. Aprendi só muito depois. E quando aprendi, percebi que estava a combater um palha, não uma posição real.
Mas isso faz parte do que vou contar. E a mulher que mudou tudo usa uma medalha de Nossa Senhora Aparecida todos os dias. Mas não vou começar por ela. Vou começar por uma medalha encontrada no banco de trás do o meu carro numa noite de insónia que eu tentei deitar fora três vezes e não consegui. Antes de continuar, faz-me um favor, escreve nos comentários de onde está a ver e que horas são aí.
Quero saber até que ponto este testemunho está a chegar. Antes de fechar este vídeo, abre o primeiro comentário fixado. Identificámos sete padrões em testemunhos como este, situações em que Nossa Senhora age antes mesmo de ser chamada. Lê o que lá está escrito e volta aqui. Deixa-me contar como estava a minha vida antes daquele domingo.
O apartamento de cobertura em Lourdes, BH, tinha sido destaque numa revista de arquitetura. Não fui eu que mandei paraa revista. Foi a agência de comunicação que contratei. Sou a idiota agora. Na época parecia normal. Acordava às 5:30, ginásio, reunião às 7. Dormia às 11 com meia dose de zopd, porque sem o medicamento o cérebro não desligava.
Tinha dois telemóveis, um para o trabalho, outro pessoal. Mas o pessoal também era trabalho, porque toda a gente que me ligava tinha algum interesse no que eu construí. Relacionamentos. tinha do tipo que dura o tempo que dura e termina sem cena, porque ninguém investiu o suficiente para ter o que perder. Havia uma executiva de São Paulo durante uns 8 meses, inteligente, bonita, ambiciosa como eu.
A gente encontrava-se nos aeroportos, por vezes. Quando terminou, nenhum dos dois chorou. Acho que nenhum dos dois telefonou a contar aos amigos. Simplesmente deixou de acontecer. Isso pareceu-me eficiente na época. Havia um apartamento de cobertura com um sistema de automação que controlava a luz, a temperatura e a música. Havia uma academia particular no 13º andar.
Havia uma cave com vinhos que eu raramente abria. Havia um silêncio às 11 da noite que eu disfarçava com o noticiário do telemóvel antes de tomar o comprimido. Não estava infeliz, não sabia que havia outra opção. E termina sem cena, porque ninguém investiu o suficiente para ter o que perder. A O Nexum ia bem. Contratos novos, expansão para São Paulo, conversa com parceiros asiáticos que podia tornar-se o maior negócio da história da empresa.
Minha vida era uma sequência de métricas batidas e tomava medicamentos para dormir. A minha mãe, a dona Lúcia, ligava toda a semana. Eu atendia quando conseguia e enviava mensagem quando não conseguia, que era na maioria das vezes. Ela é devota de Nossa Senhora Aparecida desde que me entendo por gente. Vai à Aparecida do Norte todos os anos, tem uma imagem na sala, reza o terço depois do jantar.
Cresci a achar aquilo bonito, mas equivocado. Ela nunca pressionou. É o tipo de pessoa que reza em vez de cobrar. Meses antes daquele domingo, ela contou-me que estava numa novena. Não me disse porquê, apenas disse que estava pedindo por mim. Não perguntei o que estava a pedir. Devia ter perguntado seis meses de novena, todos os dias.
Antes de continuas a achar que a minha mãe é ingénua. Tem 70 anos, criou dois filhos sozinha depois do meu pai morreu. Administrou uma frutaria durante 22 anos no centro de contagem e tomou melhores decisões financeiras do que muita gente com MBA. Ela não é ingénua, ela acredita mesmo. A diferença importa.
Ela contou-me o que havia pedido na última noite da novena, dias antes de me ligar para o aniversário. Disse que tinha ficado diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida na sua sala e dito em voz baixa: “Mãezinha, eu não sei mais o que fazer. O meu filho não me escuta.” Depois coloca no caminho dele alguém que ele consiga ouvir. No dia seguinte, ela ligou-me a pedir a missa.
Na missa, dois metros depois da imagem pelo qual ela tinha parado, estava a Cecília. Quando conto isto a pessoas que conhecem tudo o que aconteceu depois, elas ficam em silêncio por um segundo. Eu também fico. A ligação que mudou tudo foi uma quinta-feira à noite. Eu estava no escritório depois das 8, o que era normal.
Ela disse que o aniversário do 70 anos estava a chegar e que queria um presente. Não, uma viagem. Não joia, não dinheiro. Queria que eu fosse à missa com ela no domingo. A minha reação interna foi de quem recebeu uma pedido de reunião num horário que não funciona. O domingo era o único dia que conseguia trabalhar sem interrupção, mas a voz dela tinha alguma coisa diferente naquela noite, mais sossegada do que o normal.
Fui não com boa vontade. Fui porque 70 anos é 70 anos e porque a alternativa era lidar com a culpa. A Igreja de Nossa Senhora das Graças fica no bairro da Serra em BH. Fachada antiga, escadaria em pedra, vitrais, cheiro a incenso que me levou diretamente para memórias de infância que não me sabia que ainda existiam.
Ao entrar, passamos por uma imagem de Nossa Senhora Aparecida numa lateral. A dona Lúcia parou. fez o sinal da cruz com aquela naturalidade de quem faz aquilo faz décadas sem pensar. ficou com os olhos fechados por um instante, os lábios movendo-se levemente. Fiquei dois passos atrás à espera. Olhei para a imagem, aquela imagem de barro escuro, manto bordado, coroa dourada, o menino Jesus no coração, os pés sobre a meia lua, pensando sobre aquilo, da maneira que penso em reunião, quando alguém apresenta um dado que não sustenta a conclusão. Isto aqui é
projeção humana num objeto inanimado. 2 metros depois, vi Cecília pela primeira vez. Não sei se acredita em coisas que acontecem ao mesmo tempo e que não são coincidência. Eu não acreditava. Agora tenho mais dúvidas. A dona Lúcia parou, fez o sinal da cruz, ficou ali por um instante com os olhos fechados. Eu fiquei dois passos atrás à espera.
Olhei para a imagem. Aquela imagem de barro escuro, manto bordado, coroa dourada. E pensei da maneira que penso em reunião quando alguém está a apresentar dado fraco. Isto não conversa com ninguém. Do metros depois, vi a Cecília pela primeira vez. Ela estava organizando partituras num canto perto do coral, cabelo castanho, traços simples, aquela postura de quem está no lugar onde deveria estar.
E no pescoço discreto uma medalha. Na altura não prestei atenção à medalha, prestei atenção no resto. A missa começou. Eu me movia-se no automático. Levanta-se, senta-se, ajoelha. As memórias musculares de criança criada em ambiente religioso regressando sem que eu pedisse. Então o coral iniciou o hino de entrada e a voz dela não era tecnicamente perfeita.
Não era o tipo de coisa que se ouve num espetáculo, era outra coisa. Havia uma convicção naquela voz que não vem de treino, vem de acreditar verdadeiramente no que está a cantar. Senti um arrepio. Perguntei à minha mãe quem era ela. Cecília Borges, professora de música na escola municipal, coordena o coro há 6 anos, cuida da mãe que está doente e disse com aquele sorriso que eu conhecia desde criança.
O sorriso da dona Lúcia quando ela acha que está a ser subtil e não está. uma rapariga maravilhosa. Fui ao café comunitário depois da missa, não por vontade própria. A dona Lúcia não teve de me empurrar porque eu precisei da desculpa que ela ofereceu. Encontramo-nos no corredor do salão paroquial. A dona Lúcia fez a apresentação com o à-vontade de alguém que praticou aquele momento.
A Cecília cumprimentou-me com uma compostura que me desconcertou. Não não havia nem o ligeiro desvio de olhar que eu esperava de alguém que acaba de ser apresentado a um CEO de uma empresa de tecnologia. Ela olhou para mim como olharia para qualquer outra pessoa. Aquilo me desequilibrou mais do que qualquer que eu esperava.
Voltei no domingo seguinte. E no seguinte, a minha mãe não perguntou porquê. Simplesmente ficava feliz quando eu aparecia. Aquele sorriso dela que é mais nos olhos do que nos lábios. Comecei a prestar atenção às missas de uma forma diferente. Não análise. Escuta, o padre da paróquia, padre António, tem um jeito de pregar que não apela à emoção.
Argumenta, utiliza o texto, contextualiza historicamente, tira conclusões. Aquilo alcançava-me de um jeito que pregação emocional nunca alcançou. E havia a música, havia a voz da Cecília. Há uma coisa específica que acontece quando ouve alguém cantar alguma coisa em que acredita verdadeiramente. Você consegue distinguir este do técnico.
A técnica que admira. O acreditar de verdade chega a outro lugar. Aquela voz chegava num local que não visitava há anos, não por fé. Vou ser honesto sobre isso. Mas comecei a reparar em coisas que antes eu teria ignorado. Vi a minha mãe a rezar diante da imagem de Nossa Senhora ao entrar.
Vi a Cecília cantar com aquela convicção específica. Via pessoas em volta que claramente estavam naquele lugar porque precisavam de alguma que não conseguia nomear. Numa quarta-feira à noite, não conseguindo dormir sem o medicamento, abri o carro para pegar no carregador que me esqueci e encontrei no banco de trás uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.
Devia ter caído da mala da minha mãe. Ela tinha estado no carro na semana anterior. Peguei, virei. Fiquei a olhar para aquela imagem pequena durante um tempo no silêncio do estacionamento coberto com a luz fluorescente intermitente. Tentei jogar no lixo. Digo tentei porque a mão foi até ao lixo e parou.
Não foi experiência sobrenatural. Foi aquela coisa específica de quando vai fazer um gesto e o gesto não acontece porque alguma parte de si não está de acordo com ele. Coloquei-o no porta-luvas, fui dormir. Ainda precisei do medicamento aquela noite, mais menos para apanhar o carregador que me esqueci e encontrei no banco de trás uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.
Devia ter caído da bolsa da minha mãe numa das vezes em que a levei a algum lado. Peguei, virei a imagem familiar, o manto, a coroa, o menino Jesus. Quis deitar no lixo do estacionamento, mais claramente. Acho que queria testar se conseguia. Não consegui. Coloquei-o no porta-luvas e fui dormir.
O café com a Cecília foi na quinta- seguinte. Ela sugeriu uma cafetaria perto da escola, simples, com prateleiras de livros nas paredes. Cheguei 40 minutos mais cedo. Esse detalhe envergonha-me um pouco até hoje. A conversa durou 3 horas. Não porque eu tenha planeado que durasse. Comecei com a intenção profissional de quem está avaliando uma pessoa nova, aquele modo de ouvir que é na verdade esperar a sua vez de falar.
Ela partiu aquilo em uns 15 minutos. Perguntou o que eu achava que música fazia com as pessoas. Não o que eu sabia sobre isso, o que eu achava. A diferença é importante. Eu sabia várias coisas sobre música, estudos sobre o efeito Mozart, neurociência do processamento auditivo, dados de mercado da indústria fonográfica.
Não achava nada, nunca tinha parado para o encontrar. Ela esperou a resposta de verdade. Disse que para mim a música era produto. Ela disse que para ela música era a língua que o corpo fala quando as palavras não chegam. Fiquei pensar nessa frase durante dias. Quando eu perguntei sobre a medalha, ela não me deu uma explicação teológica.
contou-me uma história. Aquela viagem à Aparecida do Norte, a decisão de regressar a BH, a certeza quieta que ela descreveu como não vem do raciocínio, vem de um lugar mais fundo do que o raciocínio. Disse que não tentaria convencer-me de nada sobre isso, mas que era a razão pela qual ela usava a medalha.
Achei aquilo honesto demais para descartar. Começou com música, foi para as nossas famílias, para o que cada um entendia como sentido. Em algum momento, ela perguntou-me se eu era feliz. Não do modo provocatório que a pergunta às vezes aparece. Do jeito genuíno de quem quer saber. Tenho tudo o que planeei ter. Falei. Isso não responde à minha questão.
Fiquei com isso. A dada altura da conversa, eu Reparei na medalha de perto pela primeira vez. Perguntei porque é que ela usava. Ela sorriu com aquela calma específica dela. Porque Nossa Senhora me trouxe de volta para casa quando mais precisei. Me contou que anos antes tinha sido aceite num conservatório de música em São Paulo.
Oportunidade real de carreira internacional. Então a mãe adoeceu. Ela foi a Aparecida do Norte num fim de semana que descreveu como sentindo que precisava de ir sem saber exatamente porquê. ficou numa das capelas laterais do santuário durante muito tempo. Disse que tinha entrado querendo uma carreira. Saiu sabendo que precisava de voltar para cuidar da mãe.
Não foi uma voz, não foi uma visão. Foi o que ela chama de certeza quieta, que não vem do raciocínio. Vem de um lugar mais fundo que o raciocínio. Nossa Senhora pediu-me para voltar. Ela disse: “Não, com palavras, com certeza. Fiquei a olhar para ela. Aquela mulher tinha sido conduzida de volta para BH anos antes de eu entrar naquela paróquia.
Estava ali no coro naquele domingo específico, porque tinha obedecido a uma certeza sossegada que a trouxe de volta. A minha mãe tinha pedido que alguém fosse colocado no meu caminho e a Cecília tinha chegado antes de eu aparecer. “Arrepende-se?”, perguntei. Jamais. olhou para mim com uma serenidade que não havia fingimento.
Por vezes penso em como seria a carreira, claro, mas depois vejo um aluno a dominar uma peça difícil pela primeira vez e penso que encontrei o lugar certo pelo caminho errado. “Ou pelo caminho certo”, disse ela, que parecia errado na altura. Fiquei com aquilo também. Nos meses seguintes, a Cecília e eu fomos construir algo que não sabia nomear, mas que sabia que era diferente de qualquer coisa que tinha tido antes.
Não foi instantâneo. Nos primeiros meses, havia uma tensão real entre os os nossos mundos, não de incompatibilidade pessoal, de incompatibilidade de ritmo. Eu era o tipo de dois telemóveis que respondia ao e-mail durante o jantar e que considerava o fim de semana a extensão do trabalho.
Era a professora que saía às 4:30, ia visitar a mãe, preparava a aula da semana seguinte à tarde do sábado e protegia o domingo como o dia de não fazer nada que fosse obrigação. À terceira vez que eu Cheguei atrasado a um encontro com desculpa de reunião importante, ela deu-me olhou e disse: “Quero que saibas que quando chega atrasado e explica com reunião importante, o que eu ouço é que não decidiu que este encontro é importante suficiente para ser pontual.
” Não estou zangada. Só quero que saibas o que chega ao meu lado. Ninguém havia me dito isso antes. Aquilo mudou o meu comportamento mais rápido do que qualquer feedback de performance review. Ela não se impressionava com o apartamento ou com a empresa. Cobrava pontualidade, não prestígio. Quando eu chegava atrasado com o pretexto de reunião importante, ela esperava e depois dizia o que achava sobre o assunto.
Ninguém me fazia aquilo. A crise veio em outubro. Hélio Drumon tinha sido o meu mentor durante os primeiros anos da Nexum. Abriu portas, fez apresentações, aportou capital no momento em que precisávamos. Sou grato por aquilo até hoje. O problema com o Hélio era que ele tinha ajudado a construir a empresa que eu era antes de conhecer a Cecília.
E o Hélio que ajudou a construir o eu de antes, não reconhecia o eu de depois. Ele disse-me diretamente no corredor após uma reunião do conselho. Você mudou. E não para melhor, Rafael. Você está a ficar emocional. O seu não pode ser emocional. Não respondi de imediato, mas depois pensei no que significa emocional quando um empresário utiliza aquela palavra.
Significa que começou a tomar decisões que incluem variáveis que não aparecem em folha de cálculo. Coisas como o que é certo, quem vai ser afetado, o que importa a longo prazo, para além do trimestre. Se isso é ser emocional, então sim, tinha ficado emocional. Hélio Drumon, o meu sócio investidor de longa data, tinha agendado a assinatura do maior contrato da história da Nexum para a mesma data do retiro anual do coral que a Cecília coordenava.
Coincidência improvável. Quando Perguntei ao Caio, o meu assistente, sobre o processo de agendamento, ficou desconfortável. Hélio tinha escolhido aquela data deliberadamente. Exigiu a minha presença em Singapura pessoalmente. Os parceiros asiáticos eram difíceis, tinham pedido o CEO no contrato e havia algo mais.
O Hélio havia estado a sondar membros do conselho, sugerindo que a minha atenção estava dividida desde que tinha mudado a minha rotina. Nessa noite saí do escritório às 10 e fiz algo que não tinha feito em nenhum dos domingos anteriores. Fui à Igreja de Nossa Senhora das Graças sozinho. Não planeei isso.
Estava no carro sem destino específico, andando pela cidade porque estar parado no escritório não estava a funcionar. Passei em frente à paróquia. O portão estava aberto. Entrei sem ter a certeza do que estava a fazer ali. O interior tinha uma qualidade de silêncio que não encontra em muitos lugares na cidade. Não silêncio de vazio, silêncio de lugar habitado por muita coisa que não se vê imediatamente.
Sentei-me. Fiquei a olhar para o altar. estava a tentar resolver a equação hélio da forma que resolveria qualquer problema de negócio, mapear as variáveis, calcular os riscos, identificar a solução de menor custo, mas a equação não fechava porque havia uma variável que não consegui reduzir a número.
O que é certo fazer, não o que é inteligente. O que é certo foi quando a senhora chegou. Não era horário de missa. A igreja estava aberta à oração. Havia cerca de 10 pessoas espalhadas pelos bancos. Entrei, sentei-me numa fila do meio, sem saber exatamente o que estava fazendo ali. Uma senhora de cerca de 60 anos estava ajoelhada diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Ficou assim por um bom tempo. Depois levantou-se, andou em direção à saída e passou pelo banco onde eu estava. Parou. olhou-me por um segundo com uma calma que não tinha curiosidade, tinha reconhecimento. “Filho”, disse ela em voz baixa. “Às vezes Deus não nos tira nada. Às vezes ele mostra apenas o que realmente importa.” Virou-se e saiu.
Procurei-a com os olhos quando me levantei. Não estava mais no corredor. Não sei quem era aquela senhora. Semanas depois, Mencionei o episódio ao padre António. Descrevi-a. Perguntei se havia alguém com aquele perfil na comunidade. Ele ficou a olhar para mim por um momento. Disse que a paróquia tinha uns 200 membros ativos e que os conhecia todos, que a descrição que fiz não correspondia a nenhuma delas.
Não disse mais nada sobre o assunto. Só ficou me olhando daquela maneira dele que é mais pergunta do que resposta. Posso elaborar teorias racionais? fiel de outra paróquia que entrou por acaso. Coincidência de frase no momento certo. Qualquer coisa. Mas fico com o padre António olhando-me em silêncio quando a descrevi.
Às vezes ele mostra apenas o que realmente importa. Aquela frase chegou na noite certa, pela pessoa certo, e a pessoa desapareceu. No dia seguinte, liguei para o Caio. Você vai representar a Nexum em Singapura. Você conhece o contrato melhor do que qualquer um. Nomeio-o como representante para essa assinatura. Caio ficou em silêncio por um segundo.
O Hélio vai convocar uma reunião de câmara. O retiro do coro foi num centro de espiritualidade em Nova Lima, a meia hora de BH. Dois dias com o grupo de Cecília, orações, ensaios, silêncio programado. Eu não era do coro, fui como acompanhante. Havia momentos de longo silêncio que eram incomuns para mim.
Não aquele silêncio de reunião que é, na verdade, espera ativa, silêncio proposto como prática. Senti desconforto nos primeiros minutos, depois fui entrando. Há algo que acontece quando se deixa de produzir durante tempo suficiente. O barulho de fundo que normalmente cobre com trabalho se torna audível. Não é necessariamente bonito, mas é real.
Fiquei ali com esse barulho durante um tempo e depois, por razão que não consigo explicar completamente, pensei na minha mãe de joelhos na paróquia naqueles domingos todos, nela quieta, rezando, enquanto eu ficava dois passos atrás esperando. Fiquei com aquilo para o resto do retiro, que convoque.
E foi ao retiro com a Cecília. A reunião do conselho aconteceu na semana seguinte. Hélio tinha trabalhado os outros membros. Havia uma moção de falta de confiança na a minha liderança. O argumento era que eu tinha priorizado o compromisso pessoal num momento crítico para a empresa. Me deram espaço para falar. Não usei diapositivos, não utilizei folha de cálculo.
disse que tinha fundado a Nexum com a ideia de que a tecnologia deveria servir as pessoas, não o contrário, e que tinham passado 10 anos servindo a empresa como se servira a empresa fosse o propósito, e não o meio. Disse que o Caio tinha voltado de Singapura com o contrato assinado, que os parceiros asiáticos tinham elogiado a preparação dele e que isso provava algo que Hélio não queria que o conselho visse, que eu tinha construído uma equipa que funcionava.
A moção foi rejeitada por uma margem pequena. Hélio estava furioso de uma forma contida que é pior do que o furioso expressivo. Disse que eu tinha cometido um erro que ia custar caro. Não respondi. Nos meses seguintes, vendeu as ações de forma gradual. saiu da Nexum sem alard. É o tipo de saída que parece lenta, mas que é na verdade calculada para causar o mínimo de atrito possível enquanto se vai-se embora com o que é seu.
Não tenho raiva do Hélio. Ele era o que era quando conheceu-me e fui o que fui durante os anos em que me ajudou a construir a empresa. A versão de mim que decidiu não ir a Singapura não é melhor nem pior do que a versão que tinha investido. É diferente. E diferente nem sempre cabe no mesmo projeto.
O contrato asiático ficou assinado. O Caio voltou de Singapura com o acordo completo. Parceiros satisfeitos. Cronograma estabelecido. Depois daquilo, promoviu o Caio. Era o certo a fazer. Hélio vendeu as ações nos meses seguintes. Naquele fim de tarde, Fui logo para a casa da Cecília. Não disse nada quando ela abriu a porta. Ela leu-me qualquer coisa no rosto e simplesmente abriu a porta mais para o lado para eu entrar.
Ficamos na varanda dela durante muito tempo, ela com um livro que não abriu. Eu sem conseguir articular corretamente o que estava a sentir. Passado um bocado, eu disse: “Quero conhecer o local para onde foi quando precisava de decidir.” Ela sabia o que eu queria dizer. Uma semana depois, fomos à Aparecida do Norte. Saímos de BH cedo.
Eram 3 horas meia de carro pela Dutra. A A Cecília dormiu durante a primeira hora com a cabeça encostada ao vidro. Eu conduzi em silêncio, o que é invulgar para mim, porque normalmente ligo alguma coisa, podcast, notícias, qualquer coisa que ocupe o espaço auditivo. Naquela manhã não fiz nada.
Chegamos antes das 10. Havia carros com matrículas de todo o o estado no estacionamento, autocarros de excursão com nomes de cidades que eu reconhecia do interior, nomes que me lembraram que o Brasil é muito maior e mais complexo do que o BH corporativo onde eu vivia. Entrei na basílica com aquele modo de observador que cultivei a vida toda, analisando, catalogando, tentando compreender o fenómeno sociológico de tanta gente num mesmo lugar, por razão que não é uma obrigação, não é trabalho, não é benefício tangível.
E fui perdendo esse modo aos poucos, não de uma só vez, aos poucos. Vi um pai carregando uma filha pequena nos braços para se aproximar da imagem. A menina estava com alguma coisa, aparelho hospitalar preso algures que não vi bem. O pai estava com aquele cansaço que só aparece no rosto de quem está a carregar algo pesado há muito tempo.
Vi uma senhora com cerca de 80 anos que fazia o percurso de joelhos, devagar, com evidente dificuldade, completamente serena. Vi um grupo de jovens universitários, da minha percepção, pela roupa e pelas mochilas, que faziam o percurso juntos em silêncio absoluto. Fui construindo uma teoria enquanto observava, algo sobre a função psicológica da devoção, sobre como os rituais coletivos atendem a necessidade humana de pertença.
Então, cheguei à frente da imagem original e a teoria foi embora. Cheguei sem expectativa específica. Não estava à procura de visão ou sinal. Estava à procura de entender o que aquele lugar tinha que tinha dado a Cecília aquela certeza quieta. A basílica é maior do que eu esperava, a quantidade de pessoas também. Não turista de domingo, povo de todo o estado, de toda a condição, que tinha viajado horas para estar ali.
Vi mães com crianças doentes que claramente tinham vindo em promessa. Vi um senhor de 80 anos que deveria estar com mais dificuldade do que demonstrava, visivelmente determinado a chegar à imagem. Vi adolescentes que pareciam não ter sido levados à força. Fui até à imagem original de Nossa Senhora Aparecida. Aquela imagem de barro com 300 anos, pequena, que os pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves tiraram do rio Paraíba do Norte em 1699.
Fiquei parado à frente dela por um tempo e então lembrei-me da minha mãe de joelhos diante da imagem da paróquia, dos meses de novena que ela tinha feito pedindo por mim antes desse domingo, da voz dela na chamada de quinta-feira, mais quieta do que o habitual, da medalha no porta-luvas do meu carro.
Não rezei de forma elaborada. Fiquei parado por um tempo, olhando. A imagem é pequena. Esse detalhe apanha-me sempre de surpresa quando me lembro. Para ser o centro de uma basílica daquele tamanho, a imagem original é muito menor do que a basílica sugere. Barro escuro, traço simples, 320 anos de gente que foi ter com ela.
Pensei na a minha mãe de joelhos diante da imagem da paróquia. Pensei nos seis meses de novena que ela tinha feito pedindo por mim. Pensei na ligação de quinta-feira à noite, a voz mais quieta do que o normal. Pensei na medalha no porta-luvas. Pensei na senhora da igreja que tinha dito uma frase que eu não conseguia tirar da cabeça.
E então aconteceu uma coisa inesperada. Chorei. Não de tristeza, não de arrependimento específico. Aquela coisa que por vezes acontece quando uma tensão que estava tão presente que parou de a perceber de repente vai-se embora. Fiquei ali um bocado com aquilo. Depois disse em voz baixa as palavras que contei antes.
Obrigado por não ter desistido de mim. A Cecília não disse nada. Ficou ao meu lado com a mão no meu braço. Na saída Comprei uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. Não como recordação turística. Não sabia rezar ainda daquela maneira. Disse em voz baixa, sem cerimónias, como se estivesse a fechar uma conta que ficou em aberto durante muito tempo.
Se a senhora ouviu realmente as orações da minha mãe todos estes anos, obrigado por não ter desistido de mim. Cecília estava ao meu lado, não disse nada, apenas ficou, que é o que ela faz. Fica. Esse é o dom dela que demorei a nomear porque ficava à procura de algo mais elaborado. Ela fica, quando chego a casa depois de um dia que não correu bem, ela não pergunta imediatamente o que foi.
Fica quando a mãe dela está com dores e não há nada a fazer para além de estar presente, ela fica. Quando alguém na vida dela precisa de silêncio em vez de solução, ela oferece silêncio. Eu aprendi com ela que ficar é ação, não é passividade disfarçada de cuidado. É o tipo de coisa que se aprende com alguém que passou a vida toda aprendendo a ficar com as pessoas que dela necessitavam.
Na saída da basílica, comprei uma medalha de Nossa Senhora Aparecida numa das lojas próximas. Não como recordação turística, como símbolo de algo que eu tinha finalmente decidido deixar de resistir, que é o que ela faz. Fica. Seis meses depois casámos na igreja Nossa Senhora das Graças. Não foi casamento grande.
Cento e poucos convidados, bifetão paroquial da própria igreja, decoração com flores simples que a dona Lúcia e as suas amigas da comunidade organizaram. Eu tinha crescido numa família que escolhia a liturgia protestante. Naquele dia estava a me casando numa igreja católica, num rito que envolveu confissão prévia, catecumenado de alguns meses e a presença de um padre que me conhecia o suficiente para saber que eu estava chegar de fora e que não havia pressa.
O Padre António foi paciente comigo durante todo este processo. Quando eu chegava com objecções teológicas, ele as recebia sem irritação. Quando ficava preso em alguma coisa que não conseguia aceitar, dizia: “Deixa estar por agora. Volta quando estiver pronto”. Aquele modelo de fé que aceita a dúvida como parte do processo, não como falta de fé, foi o que me permitiu entrar de verdade.
Não fingi acreditar no que não acreditava. Fui chegando às convicções pelo tempo que levou. A Dona Lúcia chorou desde o início ao fim. A Dona Clara, a mãe da Cecília, que tem esclerose múltipla em fase avançada, insistiu em ir com a cadeira de rodas empurrada pelo seu filho. Nos os meus votos, fiz uma coisa que não havia combinado com ninguém.
Tirei do bolso a medalha de Nossa Senhora Aparecida, a que encontrei no banco de trás do carro na noite de insónia. A que tentei jogar fora três vezes. Mostrei à Cecília. Ela percebeu antes de eu explicar. Disse a ela e a todos que estava ali que durante meses carregara aquela medalha no porta-luvas sem admitir o que estava a carregar.
Que fui à igreja pela primeira vez pensando que estava a fazer um favor à minha mãe, que fui da segunda vez por razões que não eram de fé, mas que em algum ponto do caminho percebi que alguém tinha estado a trabalhar muito antes de eu aparecer nesse primeiro domingo. A nossa vida hoje não é o conto de fadas que os textos das redes sociais prometem.
Há uma pequena coisa que realiza-se todos os domingos antes da missa que Nunca vou publicar nas redes sociais, mas que precisa de estar nesse testemunho. A dona Lúcia vive a 20 minutos de nós. Passámos na casa dela, tomámos café, seguimos juntos para a paróquia. Quando entramos na igreja, ela detém-se diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, faz o sinal da cruz, fica por um instante com os olhos fechados.
Hoje fico parado ao lado dela, e não dois passos atrás à espera ao lado. É uma coisa pequena, mas é a coisa que eu mudaria se pudesse mudar alguma coisa dos 10 anos antes daquele domingo. Teria ficado ao lado em vez de dois passos atrás, esperando que ela terminar de fazer o que não fazia sentido para mim, porque acontece que fazia sentido.
Eu só não tinha parado para compreender. Trabalhamos muito. A Nexum cresceu e as responsabilidades cresceram juntos. Há semanas em que saio às 8 da noite e chego a casa com aquela exaustão que antes tratava com o remédio para dormir e que hoje trato com outras coisas. A conversa com a Cecília ao jantar, o terço antes de dormir, a A missa de domingo, que já não é obrigação, mas hábito que eu escolheria, mesmo que não fosse criado em ambiente religioso.
A mãe da Cecília, a dona Clara, tem esclerose múltipla em estádio avançado. Há meses que são difíceis, o cuidado é real, a exaustão é real. Os momentos em que não sabe o que dizer a quem ama quando ela está sofrendo são reais. A fé não elimina isso, mas dá uma qualidade de presença no meio disto que eu não teria conseguido sozinho.
Aprendi a rezar o terço daquele jeito simples que a dona A Lúcia rezou sempre, segurando as contas, falar sem protocolo, às vezes no automóvel, no trânsito, às vezes de manhã, antes de abrir o e-mail, por vezes de madrugada, quando o cérebro não desliga. Funciona de forma diferente do medicamento. O remédio desligava o barulho.
Terço, não desliga o barulho. Coloca o ruído no lugar certo. É uma diferença importante que os textos de redes sociais prometem. Trabalhamos muito. O Anexum cresceu e as responsabilidades cresceram a par. A mãe da Cecília está numa fase difícil da doença e há semanas em que a casa se torna rotina de cuidados que não deixa espaço para mais nada.
Tenho dias em que a velha ansiedade volta e eu preciso lembrar-se conscientemente das coisas que aprendi. Mas já não tomo remédio para dormir. E quando acordo de madrugada com o cérebro acelerado, apanhado o terço que está na mesa de cabeceira que a dona Lúcia deu de presente de casamento, e rezo daquela forma simples que aprendi, segurando as contas e a falar sem protocolo, como quem fala com alguém de verdade.
A medalha que estava no porta-luvas está agora num porta-oias no quarto. A Dona Lúcia me perguntou uma vez se eu achava que havia sido coincidência. Disse que não sabia responder com precisão. Ela ficou quieta por um momento, depois disse: “Quando comecei a novena, não sabia como ia chegar a resposta. Só sabia que ia pedir e pedindo todos os dias ia estar atenta para reconhecer quando a resposta chegasse.
A medalha no banco do carro foi resposta para mim. Foi ela disse. Mas você precisava de decidir se era para si. Aquela distinção ficou comigo. Nossa A Senhora Aparecida não chegou até mim do forma como eu esperaria que acontecimento sobrenatural chegasse. Sem voz audível, sem visão, sem experiência que eu pudesse apontar e dizer: “Foi aqui”.
Chegou pela medalha no porta-luvas, pela voz de Cecília a cantar sobre a redenção, pela senhora da paróquia, que disse uma frase no momento certo e desapareceu. Pelos meses em que voltei à missa, sem saber exatamente porquê, ela chegou por onde conseguia receber e a minha mãe estava atenta o suficiente para reconhecer quando é que este começou a acontecer.
a medalha, a voz da senhora na igreja, os acontecimentos que foram se encaixando. Não sei responder a isso com precisão”, disse eu. Ela riu-se daquele jeito dela. “Então já chegou a um lugar melhor do que onde estava?” Ela estava certa. Desde 1699, quando os pescadores do rio Paraíba do Norte encontraram aquela imagem de barro no fundo da rede, Nossa Senhora Aparecida aparece onde estão os filhos, não onde estão prontos, onde estão? Numa cobertura de Lourdes com dois telemóveis epidem.
Num banco traseiro de um automóvel numa noite de insónia, numa fila de entrada de uma paróquia num domingo que eu queria não estar ali. Ela não precisa que você acredite ainda. Ela só precisa que você apareça. Apareci sem acreditar. O resto veio depois. Preciso de falar sobre o meu pai porque está no centro de como me afastei de qualquer coisa que fosse devoção.
Ele morreu quando eu tinha 22 anos. Enfarte fulminante, sem aviso. Homem de 51 anos que tinha passado toda a vida na igreja, que era diácono, que levava a família todo domingo, que tinha aquela fé simples e firme que eu admirava mesmo quando não entendia. e morreu num enfarte de 51 anos sem aviso. Aquilo pareceu-me na época uma prova de que a fé não protege de nada, que a vida é processo aleatório e que confiar em Deus é projeção de controlo que não existe.
Não me tornei ateu. Fiquei num espaço de não sei e prefiro não investigar que é diferente de ateísmo, mas igualmente distante de fé. durante 10 anos. Quando comecei a regressar à igreja e a ir aos encontros com o padre António, falei sobre o meu pai numa das conversas. O Padre António ficou em silêncio por um momento, depois disse: “Parece que ficou zangado com Deus quando o seu pai se foi embora e que a raiva tornou-se distância.
Não tinha pensado naqueles termos. Disse que talvez.” Ele disse: “Raiva de Deus é oração, é relação. O que desfaz a fé não é a raiva, é a indiferença. Fiquei com aquilo durante semanas. Quando a Cecília me contou a ida à Aparecida do Norte e a decisão de regressar a BH, fez uma distinção que me ficou. Disse que tinha ido ao santuário sem agenda, não para pedir uma resposta específica, para escutar.
Perguntei como se ouve num lugar assim. Ela disse: “Da mesma forma que ouve qualquer coisa importante, deixa de produzir e fica atento ao que chega. Aquilo desafiava o modelo que eu tinha sido criado para seguir. Na tradição evangélica em que cresci, a oração era falar, pedido, louvor, intercessão. Havia estrutura, havia verbalização, tinha resultado esperado.
O modelo dela era diferente, era escuta. Não sei quando fiz a transição de um para o outro, mas fiz. E a meditação mais útil que encontrei para praticar aquela escuta é o terço. As palavras repetidas criam um ritmo que ocupa a parte do cérebro que fica em lup de planeamento. E o espaço que sobra é onde as coisas chegam. Descobri isto acidentalmente numa noite de insónia sem remédio.
Tenho uma teoria sobre por aquela frase da senhora na igreja chegou até mim da forma que chegou. Às vezes Deus não nos tira nada. Às vezes ele mostra apenas o que realmente importa. Eu tinha passado 10 anos construindo uma vida que tinha tudo. E naquele momento específico estava necessitando de escolher entre defender o que tinha construído e estar com a pessoa que me tinha ensinado o que era importante de verdade.
A frase nomeou exatamente aquilo: Não se tratava de perder a Nexum, era sobre o que a Nexum representava na equação de tudo, se a empresa era o fim ou o meio. Durante 10 anos tinha sido o fim. Naquele momento decidi que era o meio. Não sei se aquela senhora era uma fiel comum que disse a coisa certa sem saber que precisava ouvir. Não sei se foi outra coisa.
O que sei é que naquele momento específico, naquela equação que não fechava, aquela frase foi a variável que faltava. Os votos no casamento foram a parte que eu mais trabalhei. Não porque não soubesse que dizer, porque sabia demais e precisava de escolher o que ficava. Há uma coisa que aprendi com a Cecília sobre música que se aplica ao voto de casamento e a muita coisa para além.
O que deixa fora define o que fica uma boa melodia não é aquela que tem mais notas, é aquela com as notas certas. Disse o que tinha que dizer. Mostrei a medalha. Vi o rosto dela perceber antes de eu terminar. Depois da cerimónia, a dona Lúcia veio até mim no jardim da paróquia. Ela não disse nada durante algum tempo, só ficou a me olhando com aquele olhar que conheço desde criança.
Depois disse: “Sabe quem te trouxe até aqui?” “Sei, já falei.” Ela sorriu e foi falar com alguém. Esse foi o presente de aniversário dela. Não o presente de 70 anos que prometi que daria, que foi uma viagem que nós fizeram juntos mais tarde. O presente foi aquilo. Ver-me chegar. Os votos no casamento foram a parte que mais me trabalhei, não porque não soubesse o que dizer, porque sabia demais e precisava escolher o que ficava.
Há uma coisa que aprendi com a Cecília sobre música que aplica-se ao voto de casamento e a muita coisa além. O que deixa de fora define o que fica. Uma boa melodia não é aquela com mais notas, é aquela com as notas certas. Disse o que tinha a dizer. Mostrei a medalha, vi o rosto dela compreender antes de eu terminar.
Depois da cerimónia, a dona Lúcia veio ter comigo, no jardim da paróquia. Ela não disse nada durante algum tempo, só ficou a olhar para mim com aquele olhar que conheço desde criança. Depois disse: “Sabes quem trouxe-te até aqui?” “Sei, já falei.” Ela sorriu e foi falar com alguém. Este foi o presente de aniversário dela, não o presente de 70 anos que prometi que daria, que foi uma viagem que a gente fez juntos mais tarde.
O presente foi aquilo, ver-me chegar. Quero ser honesto sobre a transição de denominação, porque ela foi mais gradual e menos dramática do que talvez pareça nesse relato. Não acordei um dia evangélico batista e fui dormir católico. Foi um processo de meses onde ia à paróquia, conversava com o padre António, fazia as perguntas que precisavam de ser feitas e ia chegando a conclusões que ninguém empurrou, mas que o processo tornou-o inevitável.
A questão da devoção Mariana foi a que mais demorou. Fui ter com o padre António com os versículos que tinha aprendido de memória. Não descartou nenhum deles, contextualizou cada um, mostrou a distinção teológica entre latria, adoração devida só a Deus e a Dúlia, veneração de quem está com Deus. mostrou que a igreja não ensina que Maria é deusa, ensina que ela é a mãe humana de Jesus que foi exaltada e intercede.
Não foi a teologia que me convenceu completamente para ser honesto. Foi a a minha mãe a rezar por mim durante seis meses antes de eu aparecer nesse domingo. Foi a medalha no banco de trás do carro que não consegui deitar fora. Foi a voz da Cecília a cantar sobre redenção na primeira missa. A teologia veio depois dar nome ao que já havia chegado.
Se esse testemunho chegou a algo dentro de si, escreve aqui em baixo uma coisa só. Ela não desistiu, porque ela não desistiu da minha mãe, que rezou por mim durante anos. Não desistiu de mim, que entrei a pensar que era perda de tempo. E não vai desistir de si. Partilha esse testemunho com alguém que cresceu numa tradição que rejeitava esta devoção e que por vezes se pergunta com alguém que trabalha demais e dorme mal e sente que alguma coisa está em falta, mas não sabe nomear o quê? com alguém que tem uma mãe ou uma avó que reza por ele e que nunca agradeceu
direito por isso. Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Mãe do Brasil, cubra você com o seu manto azul e que você nunca se esqueça. Ela não o espera chegar com a fé certa. Ela vai ao encontro de quem aparece, seja lá por qual o motivo a aparecer. Salve, rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa.
Salve a nós bradamos os degredados filhos de Eva. A nós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia pois, advogada nossa, estes vossos olhos misericordiosos a nós volvei e depois deste desterro nos mostrai Jesus o fruto bendito do vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre virgem Maria, rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.
Há uma cena que me volta às vezes às vezes. É da primeira missa. Quando entramos pela porta da igreja Nossa Senhora das Graças e passamos pela imagem de Nossa Senhora Aparecida, a dona Lúcia parou, fez o sinal da cruz, ficou por um instante com os olhos fechados e eu fiquei dois passos atrás pensando isso, não fala com ninguém.
2 met depois, vi a Cecília a organizar partituras. Quando conto esta história a pessoas que conhecem o que aconteceu depois, costumam dizer que foi providência, que Nossa Senhora já estava a trabalhar. Não sei dizer com precisão se aquilo era intervenção ou coincidência bem alinhada ou algo diferente que nenhuma destas palavras alcança completamente.
Sei que a minha mãe tinha pedido por mim por se meses e que 2 metros depois da imagem pelo qual ela tinha parado, estava a pessoa que mudaria o que eu entendia por vida boa. Posso fazer o percurso causal de outra forma? Posso elaborar uma narrativa onde tudo é coincidência alinhada e a fé da minha mãe foi variável e relevante? Posso, mas seria desonesto com o que eu experienciei.
E uma das coisas que aprendi com a Cecília é que ser desonesto com o que experiencia para manter uma teoria consistente é o tipo de integridade que não é integridade. É orgulho intelectual disfarçado de ceticismo. Tenho 37 anos. CEO da Nexum, empresa que cresceu e continua a crescer, casado com professora de música que não me deixou chegar atrasado, sem nomear o que aquilo significava.
Filho de uma mulher que passou seis meses a pedir por mim antes de eu aparecer numa missa. Não tomo mais medicamento para dormir. Acordo às vezes de madrugada, pego no terço, rezo daquele forma simples, segurando as contas e a conversar, e durmo. Quero falar sobre a gala corporativa com mais honestidade do que falei antes.
Não foi só o encontro com o Hélio que foi difícil, foi a minha própria reação ao encontro. Quando o Hélio olhou para a Cecília daquela maneira e fez aquele comentário, eu respondi: “Defendi-a”. Aquilo foi real e foi certo. Mas a parte que não conto é normalmente que por uma fracção de segundo antes de responder, algo dentro de mim calculou se defender ela era inteligente naquele contexto, se havia custo.
Esse cálculo, esse segundo de cálculo onde avaliava se defender a pessoa que amava valia o custo relacional com o sócio importante. Este é o eu que eu estava antes de Cecília, que calculava tudo em termos de custo relacional, de utilidade, de retorno. Defendi-a, mas fiquei incomodado comigo mesmo pelo segundo de cálculo.
Contei-lhe isso mais tarde. Disse que tinha tido aquele segundo e que me envergonhava. Ela ficou olhando para mim por um momento, depois disse: “O facto de ter calculado e ainda assim fez a coisa certa não o torna menos do que pensa. Torna-te alguém que está aprendendo a agir diferente dos reflexos que passou a vida desenvolvendo.
Aquilo ajudou-me mais do que o desconto do momento de cálculo. A virtude não é não ter o mau cálculo, é fazer o certo, apesar dele. É assim que o novo hábito substitui hábito antigo, não de uma só vez, por decisão de força de vontade, por repetição, por escolha feita no momento, mesmo quando o reflexo antigo ainda está lá.
Preciso de falar sobre o padre António, porque ele foi uma peça importante que não aparece o suficiente nesse testemunho. O Padre António tem cerca de 55 anos, jesuíta, formado em filosofia antes de fazer teologia. Quando cheguei à paróquia com as objecções de quem cresceu evangélico, ele recebeu-as como alguém que havia recebido aquelas mesmas objecções, muitas vezes de pessoas diferentes e que havia pensado sobre cada uma delas.
Não me apressou. Quando travava numa questão, dizia: “Deixa estar por agora, volta quando estiver pronto para a próxima”. Aquele modelo de fé que aceita a dúvida como parte do processo, não como uma falha de fé, foi o que me permitiu entrar verdadeiramente em vez de entrar performaticamente. Entrei com dúvida.
A dúvida foi ficando menor com o tempo, não porque alguém a eliminou, mas porque fui tendo experiências que ela não explicava bem. Mas não desapareceu. Ainda tenho perguntas sem resposta. O padre António diz que esta é a condição normal de quem leva a fé a sério sobre a Cecília e a mãe dela. A Dona Clara tem esclerose múltipla há 15 anos.
A doença foi avançando ao longo desse tempo, da forma que as doenças progressivas avançam, períodos de estabilidade, períodos de agrava e um horizonte que é difícil de olhar de frente o tempo todo. A Cecília cuida dela com uma calma que não é negação. Ela reconhece quando está difícil, quando está com medo, quando está zangado com a situação, mas há uma base por baixo de tudo isto que não se move.
Perguntei uma vez de onde vinha aquela base. Ela disse que não sabia explicar completamente, que havia aprendido a rezar, não pedindo que a situação se alterasse, mas pedindo presença para estar na situação. Aquilo era diferente do que tinha aprendido sobre a oração. Oração como pedido por mudança de circunstância, oração como barganha com o transcendente.
O modelo dela era a oração como pedido por companhia no meio da circunstância. Aquela distinção mudou como eu rezo. Há um pormenor da visita ao santuário de Aparecida que não incluí antes e que pertence ao testemunho. Ao sair, enquanto ainda estava processando o que tinha acontecido na frente da imagem, um senhor de cerca de 60 anos me abordou.
Havia estado próximo quando estávamos na fila, provavelmente viu a expressão no meu rosto. Ele perguntou se era a minha primeira vez. disse que era. Ele sentiu-a como alguém que reconhece um estado que já esteve. Disse: “A primeira vez é sempre maior do que a gente espera. Mesmo quando a gente não esperava nada.” Não disse mais nada.
Continuou a andar. Fiquei com aquela frase, mesmo quando não estávamos à espera nada. Eu tinha chegado sem expectativa específica, sem pedido elaborado, sem agenda e tinha chegado àquilo assim mesmo. Talvez seja exatamente assim que funciona. Preciso de dizer uma coisa sobre o que mudou no trabalho. Não foi dramático.
A A Nexum não se tornou uma empresa de filantropia. Não alterei completamente o modelo de negócio. Não fiz discurso de valores que depois não se sustenta na prática. Mas há duas ou três coisas concretas que mudaram. Fui ao hospital visitar um funcionário que tinha sofrido um acidente. Não o funcionário sior, um desenvolvedor júnior que tinha sido contratado há 4 meses.
Fui porque a assistente social da empresa enviou-me uma mensagem e eu decidi ir. Antiga versão de mim, delegaria o contacto para RH. Fui. Estivemos uns 20 minutos a conversar. Ele estava surpreendido de ver o CEO. Eu estava surpreendido por estar ali e importar-me com aquilo de um forma que não era calculado. À saída, a mãe dele agradeceu-me.
Disse que a presença de alguém importante fazia diferença para ele. Aquilo ficou comigo mais do que qualquer resultado de trimestre. Há uma coisa que a Cecília diz sobre o ensino da música às crianças que aplico no trabalho agora. Ela diz que a coisa mais importante que pode comunicar a um aluno não é técnica, é que acredita que ele consegue, que está ali porque ele importa, não porque seja um objetivo de aprendizagem.
Aquilo muda como a criança aprece no instrumento. Passei a verificar se as as pessoas que me rodeiam sabem que eu acredito que elas conseguem. Não como slogan motivacional de reunião de segunda-feira, como convicção real que aparece na forma como eu respondo quando elas erram, em como falo sobre elas para outros, na forma como decido o que delegar.
É trabalho em curso. Não estou pronto, mas estou a caminhar em direção diferente do que andava antes. Deixa-me fechar com a medalha. fica no guarda-joias da mesinha de cabeceira, do lado do terço. Todos os dias eu a vejo antes de sair. Penso na noite de insónia no estacionamento coberto com a luz fluorescente a piscar na mão que foi até o lixo e parou.
Naquele momento, eu não tinha vocabulário para o que estava acontecendo. Só sabia que não conseguia deitar fora. Hoje tenho vocabulário. Nossa Senhora Aparecida tinha estado a trabalhar muito antes de eu entrar naquela paróquia. Estava nas novenas da a minha mãe, estava nas escolhas da Cecília que a trouxeram de volta à BH, estava em tudo o que se organizou de um forma que não planeei e que não teria conseguido planear mesmo que quisesse. Apareci sem acreditar.
Ela foi de qualquer forma. Desde 1699, quando os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves encontraram aquela imagem de barro no fundo do rio Paraíba do Norte. Ela vai onde os filhos estão, não onde estão prontos, não onde estão a merecê-lo. Onde estão? Numa cobertura de Lourdes com dois telemóveis e medicamento para dormir.
Num banco de automóvel numa noite de insónia. Numa fila de entrada de um paróquia num domingo que não queria estar lá. Aparece onde está. Isso é suficiente. Deixe-me contar o que soube da Sicília, que não estava visível do exterior. À superfície, ela é aquela pessoa que tem a vida equilibrada, que sabe o que quer, que não se impressiona com coisas que impressionam a maioria.
E isso é tudo real, mas por baixo disso há anos de escolha difícil. A carreira que ela abdicou não era um sonho de adolescente, era coisa concreta, conservatório com nome, oportunidade real de seguir uma trajetória que a maioria dos músicos não nem chega perto. Ela deixou, não de forma resignada, de forma deliberada, depois de um processo que envolveu a ida à Aparecida do Norte e a clareza quieta que ela descreve como uma certeza que não provém do raciocínio.
Quando a vejo com os alunos, com aquela paciência específica de quem está presente de verdade, com aquela alegria quando algum deles avança, entendo que o que ela ganhou não é consolação pelo que perdeu, é outra coisa, diferente, não inferior. A carreira internacional terá sido maior em escala. O que ela tem agora é mais fundo.
Aquela distinção ensinou-me algo sobre o que tinha construído na Nexum e o que ainda faltava. Há uma conversa que tive com a dona Lúcia poucos dias antes do casamento, que nunca contei à Cecília. Fomos almoçar os dois sozinhos, um hábito que retomei e que vai continuar enquanto ela puder ir. Ela perguntou-me se eu havia encontrado o que procurava.
Disse que não sabia que estava procurando nada. Ela sorriu. Sempre está à procura. Só não sabe nomear o quê. Aquilo fez-me lembrar da pergunta da Cecília na primeira conversa. Se eu era feliz. As duas, a minha mãe e ela, sabiam a resposta antes de eu saber a pergunta. Isto diz-me algo sobre os tipos de pessoa que vale a pena ter perto.
Não os que validam o que é, os que vêm quem ainda pode ser. Tenho pensado em escrever sobre o que mudou nos meus hábitos de oração desde que comecei. Não Sou exemplo de disciplina espiritual. Há semanas em que o terço fica três dias sem ser tocado. Há domingos em que chego na missa com meia atenção porque o telemóvel do trabalho vibrou no caminho e não consegui desligar o modo analítico.
Mas há uma coisa que não voltou, o medicamento para dormir. Não tomo desde os 8 meses depois do primeiro domingo na paróquia. Parei gradualmente com acompanhamento médico, mas a razão pela qual o processo foi mais fácil do que eu esperava foi porque o mecanismo que o medicamento atendia mudou.
O medicamento atendia à impossibilidade de desligar o ruído. O terço não desliga o ruído, altera a relação com ele. Quando reza o rosário, as palavras criam um ritmo que ocupa o processamento linguístico do cérebro. o barulho da preocupação, planeamento, revisão de decisão do dia. Este barulho fica a acontecer mais em segundo plano, como rádio longe.
E no primeiro plano fica aquele silêncio que tem alguma coisa lá dentro. Levei uns dois meses para aprender a chegar àquele silêncio de forma consistente. Antes chegava, por vezes, a maior parte das vezes ficava preso no barulho de fundo, mas aprendi. E isso foi mais eficaz para o sono do que qualquer comprimido.
Tem uma última coisa que preciso de incluir porque está no centro do testemunho e eu fico evitando colocar em palavras de forma direta. Cresci a ser ensinado que a Nossa A Senhora Aparecida era idolatria, que imagem não fala com ninguém, que a devoção mariana era desvio do evangelho. Passei décadas com esta posição e a mulher por quem me apaixonei usa uma medalha de Nossa Senhora Aparecida, foi ao santuário que tomou a decisão mais importante da vida dela.
Acende vela diante da imagem, reza o terço antes de dormir. Se alguém me dissesse antes daquele domingo que ia casar com uma pessoa assim e que ia rezar o terço na mesa de cabeceira ao lado dela, eu diria que não era possível e estaria errado. O que mudou não foi eu ser convencido por argumento teológico, embora os argumentos do padre António fossem sólidos.
O que mudou foi que eu vi o fruto. Vi a minha mãe que passa décadas a rezar e tem aquela paz específica que não se finge. Vi a Cecília, que tomou uma decisão difícil depois de uma visita ao santuário e que vive com aquela clareza de quem está no lugar certo. Vi as pessoas na basílica que chegaram de longe transportando coisas pesadas e que não estavam ali porque foram obrigadas.
O fruto era real, as vidas eram reais. Não posso dizer que Compreendo perfeitamente como funciona a intercessão. Não tenho como provar que a novena da minha mãe causou o que causou em vez de ter coincidido com o que causou. Mas posso dizer que quando olho para o percurso completo da ligação de quinta-feira à noite até hoje e vejo todos os pontos, cada um individualmente explicável como coincidência, mas o conjunto resistindo ao acaso, a hipótese que melhor explica o que aconteceu é a que inclui alguém a trabalhar antes de eu aparecer. E se isto é verdade, então
a minha mãe tem razão há décadas e eu perdi tempo. Há uma oração que aprendi com a dona Lúcia que não é do Missal, é dela. Ela compôs ao longo dos tempos, provavelmente. Diz assim, mais ou menos. Mãezinha Aparecida, não sei o que pedir hoje. Sabe o que falta. Eu só sei que falta. Aquela oração resume o que aprendi sobre a fé neste processo.
Não é uma certeza de tudo, é certeza de presença, de que não está sozinho naquilo que não sabe. Aquilo atinge-me de forma específica porque passei 10 anos a pensar que não saber era falha, que a incerteza era variável a eliminar, que decisão boa era decisão baseada em dado completo. A fé não é um dado completo, é dado suficiente para o passo seguinte.
Aquilo foi a viragem mais prática da minha vida. Mais prática até do que qualquer framework de gestão que aprendi. Tomar o passo seguinte com dado suficiente. Não aguardar dados completos que não chegam. Nossa Senhora Aparecida chegou até mim com dados suficientes para cada passo. A medalha no banco de trás do carro, a conversa de 3 horas.
A frase da senhora na igreja. A oração simples diante da imagem de barro. Cada um suficiente para o passo seguinte. Não mais do que isso. Nem menos. Quero te contar uma coisa sobre o segundo domingo. Foi por razão que não era fé. já disse isso, mas o segundo domingo foi diferente do primeiro, de uma forma específica que me ajuda a compreender o processo.
No primeiro domingo, fui observador, analisava, catalogava. No segundo domingo houve uma pessoa específica que eu queria ver de novo. Aquilo tirou-me do modo observador e colocou-me em modo presença, não mais analisando a missa como o fenómeno sociológico presente numa experiência que envolvia outras pessoas. A presença mudou o que recebi.
Aquilo ensinou-me algo sobre a fé que nenhum argumento teológico ensinaria da mesma forma. A experiência religiosa exige presença, não análise. Quando está fora observando, vê-se o fenómeno, mas não o que o fenómeno transporta. Quando está dentro, recebe o que está disponível para receber. Entrei pela razão errada, mas entrei e aquilo foi suficiente.
Nossa Senhora Aparecida não esperou que eu chegasse com a motivação certa. Esperou que eu chegasse. Dona Lúcia perguntou se eu voltaria no ano seguinte ao santuário. Disse que sim. Ela disse: “Ótimo, porque ela tem favores para agradecer”. Perguntei porquê? Ela disse que a novena tinha sido respondida da forma que ela pediu, depois havia a gratidão da resposta, mas ela queria agradecer de forma mais específica.
“De mãe para mãe”, disse ela, “de quem foi ouvido? Achei aquilo lindo de um forma que antes teria achado ingénua. Agora já não acho. M.