Filho é condenado pela morte da própria mãe após investigação revelar histórico de obsessão e controle
A cidade de Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, foi palco de um dos casos criminais mais impactantes dos últimos anos. O assassinato de Marta Golveia Gonçalves dos Santos, de 37 anos, inicialmente cercado de dúvidas e suspeitas de um ataque cometido por um desconhecido, terminou com a condenação de seu próprio filho, Mateus Gabriel Gonçalves dos Santos.
A investigação revelou que o crime foi precedido por um longo período de conflitos familiares, comportamento possessivo e crescente instabilidade emocional do acusado.
Uma mulher dedicada à família e aos próprios sonhos
Marta conciliava o cuidado com os três filhos e o trabalho como cuidadora de um cadeirante. Embora fosse formada como técnica em enfermagem, não conseguia oportunidades na profissão e continuava buscando uma colocação na área da saúde.
Casada com o caminhoneiro Carlos Roberto dos Santos, que permanecia dias fora de casa devido ao trabalho, ela era conhecida entre amigos e familiares por sua dedicação à família, pela forte religiosidade e pelo hábito de praticar ciclismo nos fins de semana.
No início de 2022, Marta e o marido planejavam mudar-se para Maringá, no Paraná, em busca de melhores condições de vida e novas oportunidades profissionais.
Relação entre mãe e filho preocupava familiares
O relacionamento entre Marta e o filho mais velho havia se deteriorado ao longo dos anos.
Segundo testemunhas ouvidas pela Polícia Civil, Mateus demonstrava um comportamento excessivamente controlador. Ele monitorava a rotina da mãe, fiscalizava suas conversas, tinha acesso às suas redes sociais e costumava questionar seus horários e deslocamentos.
As discussões tornaram-se frequentes, principalmente quando o padrasto estava viajando a trabalho.
Pessoas próximas também relataram que o jovem apresentava discursos confusos envolvendo religião, afirmando ouvir vozes e fazer declarações sobre a morte da mãe. Marta chegou a compartilhar sua preocupação com amigos da igreja, pedindo orações e dizendo acreditar que o filho precisava de ajuda.
Poucos dias antes do crime, a decisão da família de mudar de cidade sem levar Mateus teria provocado novos conflitos dentro de casa.
O desaparecimento durante um passeio de bicicleta
Na manhã de 23 de janeiro de 2022, Marta saiu para realizar um passeio de bicicleta, atividade que fazia regularmente.
Antes de sair, avisou uma amiga que passaria em sua casa após o percurso. Como não apareceu no horário combinado nem respondeu às ligações, familiares iniciaram as buscas.
No fim da tarde, o corpo foi localizado às margens da rodovia MS-276, em uma área de vegetação. A bicicleta estava escondida próxima ao local, enquanto alguns objetos pessoais foram encontrados espalhados.
A perícia constatou múltiplos ferimentos provocados por objeto perfurante na região da cabeça e do pescoço. Também houve suspeita inicial de violência sexual, mas os exames periciais não permitiram uma conclusão definitiva.
Investigação muda o rumo do caso
Nos primeiros momentos, investigadores consideraram diferentes hipóteses para o homicídio.
Entretanto, o comportamento de Mateus durante as buscas e após a confirmação da morte chamou a atenção dos policiais. Segundo testemunhas, ele demonstrava pouca emoção diante da tragédia e apresentava versões contraditórias sobre seus próprios movimentos naquela manhã.
A análise dos aparelhos celulares tornou-se decisiva.
Peritos identificaram que o acusado possuía acesso ao telefone da mãe e havia manipulado o chip do aparelho pouco antes e logo após o horário estimado do crime. Os registros de localização também colocaram seu celular na mesma região onde Marta foi assassinada.
Outro elemento considerado relevante foi a recuperação de mensagens nas quais Mateus mencionava detalhes do homicídio que ainda não haviam sido divulgados publicamente pelas autoridades.
Além das provas técnicas, testemunhas relataram que o jovem conhecia perfeitamente o trajeto realizado pela mãe e foi visto circulando pela cidade na manhã do crime, contrariando sua versão inicial de que teria permanecido dormindo.
Prisão e denúncia
Com o avanço das investigações, a Polícia Civil reuniu elementos suficientes para solicitar a prisão preventiva de Mateus.
Ele foi detido em 3 de fevereiro de 2022, enquanto participava do processo de seleção para ingressar no Exército.
Mesmo após a prisão, manteve a versão de inocência. O Ministério Público ofereceu denúncia por feminicídio qualificado, sustentando que o crime foi motivado pelo desejo de manter o controle sobre a vítima e pela incapacidade do acusado de aceitar sua independência.
Julgamento
O Tribunal do Júri analisou o caso em setembro de 2023.
Durante o julgamento, a acusação apresentou laudos periciais, registros telefônicos, dados de geolocalização e depoimentos de familiares, investigadores e testemunhas.
A defesa questionou a condução da investigação, alegando que algumas diligências não teriam sido realizadas e defendendo a existência de dúvidas quanto à autoria.
Após analisar todas as provas apresentadas, os jurados acolheram a tese do Ministério Público.
Condenação
Mateus Gabriel Gonçalves dos Santos foi condenado a 20 anos, 5 meses e 11 dias de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes reconhecidos pelo Tribunal do Júri.
Após a sentença, familiares da vítima afirmaram esperar que a condenação representasse o encerramento de um longo período de sofrimento iniciado muito antes do assassinato.
Um caso que deixou marcas
O homicídio de Marta causou profunda comoção em Nova Andradina e ganhou repercussão nacional pela dinâmica incomum do crime.
Além da violência dos fatos, o processo evidenciou como sinais de controle excessivo, isolamento, ameaças e conflitos familiares podem evoluir para situações extremas quando não recebem intervenção adequada.
Mais do que um caso criminal, a história tornou-se um alerta sobre a importância de reconhecer comportamentos obsessivos e buscar apoio das autoridades e de profissionais especializados diante de situações de violência dentro do próprio ambiente familiar.