Jackson do Pandeiro estava no meio de uma frase quando a porta do estúdio da A Rádio Globo abriu-se e Luís Gonzaga entrou. E o que aconteceu nos minutos seguintes nessa madrugada no Rio de Janeiro, ninguém que esteve presente esqueceu. Estávamos em 1978. O programa Amigos da Madrugada ia para o ar da meia-noite às 3 da manhã e era comandado pelo radialista Atelson Alves, um dos poucos espaços da Rádio Carioca, que ainda dava palco à música nordestina nessa altura, com a regularidade que ela merecia.
Jackson do Pandeiro trabalhava nesse programa havia anos. Era presença constante e o pequeno auditório da Rádio Globo se enchia cada vez que ele aparecia com aquela energia eléctrica de pandeirista que transformava qualquer espaço num forró. Luiz Gonzaga nunca tinha ali aparecido, e não por falta de convite, mas porque entre os dois havia uma história de quase 30 anos de rivalidade silenciosa que nenhum dos dois tinha tido ainda à disposição para encerrar.
Naquela noite, O Luí apareceu sem avisar. A rivalidade entre os dois tinha começado décadas antes, nas rádios do Recife, quando Luís chegou ao Nordeste pela primeira vez depois de ter rebentado no Rio, cheio de confiança, e descobriu que a estrela da Rádio Jornal do Comércio não era ele, era um certo nordestino serelepe de tamboril, que tinha conquistado a plateia recifense antes mesmo de o Luís aparecer por lá.
Jackson do tamborileiro era de Alagoa Grande, na Paraíba, filho de uma cantora de coco e tinha chegado à música pelo ritmo, pelo corpo, por uma forma de tocar e de se mover, que não tinha igual em lugar nenhum do Brasil. Luís era o rei do baião, a voz do sertão saudoso e sofrido, e Jackson era o rei do ritmo, a festa nordestina em pessoa.
E os dois reinavam sobre territórios que tinham fronteiras, mas que nunca se misturavam completamente. Não havia briga declarada entre eles, não havia ofensa pública, havia apenas aquela distância que se instala entre dois artistas que nunca param para se ouvirem verdadeiramente e que, por isso, não sabem o que perdem.
E essa distância foi crescendo ano após ano, alimentada não pelo ódio, mas por ausência, pelo simples facto de nenhum dos dois tinha ainda dado o passo que precisava de ser dado. A Deus soube que Luiz Gonzaga estava do lado de fora do estúdio 30 segundos antes do programa ir ao ar, quando um funcionário bateu no o seu ombro e disse o nome baixo no ouvido.
Adelon ficou parado por um segundo, processando a informação, porque Gonzaga nunca tinha aparecido naquele programa em anos de existência. e depois disse para deixar entrar. Jackson do tamboril estava sentado na cadeira ao lado do microfone com o tamboril ao colo quando a porta se abriu e virou o rosto com aquela descontração de quem está no território dele e depois viu a expressão que passou pelo rosto de Jackson naquele segundo era uma expressão que Adelson, que conhecia o paraibano há 8 anos, nunca tinha visto. Uma mistura de
surpresa com aquela centelha de alguém que está prestes a não deixar um momento desse passar sem dizer alguma coisa. Luís entrou com o chapéu de couro e o gibão bordado e ficou parado perto da porta sem avançar, como alguém que sabe que entrou num território que não é exatamente o seu e que vai precisa de ganhar o espaço que quer ocupar.
Adeuson fez as apresentações com aquela habilidade de radialista experiente de transformar o potencial constrangimento em entretenimento e disse aos ouvintes que o programa tinha uma surpresa naquele madrugada, que o rei do baião tinha aparecido para visitar o rei do ritmo. O auditório pequeno reagiu com um entusiasmo que Adelson sentiu imediatamente como algo diferente do entusiasmo normal.
Era a energia de quem está a ver acontecer ao vivo algo que não estava no guião e que, por isso mesmo, tinha uma qualidade que o argumento nunca consegue produzir. Jackson olhou para Luiz com aquela expressão ainda no rosto e disse ao microfone com um sorriso que tinha dentes, mas também tinha história. Gonzaga, apareceu aqui porque finalmente admitiu que o ser tão triste que cantas não chega perto do forró de verdade que faço.
A plateia riu, Adelson riu-se e Luiz Gonzaga ficou parado perto da porta com aquela calma de sempre, olhando para Jackson com uma expressão que não respondia ao desafio, mas também não recuava dele. Era a expressão de alguém que tinha entrado naquele estúdio sabendo que ia encontrar resistência e que tinha vindo preparado não para vencer a resistência, mas para atravessá-la.
O Luís foi até à cadeira que Adelson tinha indicado, sentou-se, ajeitou o chapéu e disse com aquela voz tranquila que não precisava de volume para ter presença. “Jckson, a gente esteve quase 30 anos sem se ouvir de verdade. Eu vim aqui para isso, não para ganhar nada, não para perder nada. Vim para te ouvir tocar e para ti me ouvir tocar e depois vemos aquilo que pensa.
Jackson ficou um momento em silêncio, olhando para Luiz com o tamborileiro parado no colo. E a Delson, que tinha passado anos ao lado de Jackson e conhecia cada variação do rosto do paraibano, viu que algo tinha mudado naquele silêncio, que a faísca inicial tinha dado lugar a uma atenção diferente, a atenção de alguém que ouviu algo que não esperava ouvir e que ainda não sabe o que vai fazer com aquilo.
Havia naquelas palavras de Luiz uma honestidade que não deixava espaço para resposta pequena. E Jackson, que nunca tinha sido homem de pequena resposta, ficou quieto durante mais tempo do que Adelson esperava, como alguém que está deixando uma frase chegar fundo antes de se mover. Adelson abriu o programa anunciando que aquela noite seria diferente de todas as outras e pediu que Jackson começasse por tocar alguma coisa, porque era o que Jackson fazia melhor e era o que o auditório queria ver.
Jackson pegou no tamboril com aquela familiaridade de quem está a apanhar uma extensão do próprio corpo, levantou-se da cadeira e começou. O que saiu do tamborileiro de Jackson naquele momento era o som que o Brasil inteiro conhecia, mas que ao vivo tinha uma qualidade diferente, uma precisão rítmica que parecia impossível para um único instrumento nas mãos de uma única pessoa, o ritmo multiplicando-se dentro de si próprio, de uma forma que os músicos que estavam no estúdio acompanhavam com os olhos arregalados, como quem
está a ver uma coisa que sabe que existe, mas que nunca pára de impressionar. Luís Gonzaga ficou parado na cadeira, ouvindo com aquela atenção de músico que ouve tudo ao mesmo tempo. E havia na cara dele uma expressão que Adelson captou da sua posição. Não era a expressão de rival avaliando rival, era a expressão de alguém que está a receber algo que não esperava receber daquela forma.
Quando Jackson terminou e o auditório respondeu com aquele aplauso de quem acabou de ver alguma coisa que não tem como ser descrita com palavras, ele virou-se para Luís com aquele sorriso que tinha dentes e história e disse: “Agora tocas alguma coisa para a gente ver o que o baião faz com que o meu ritmo não faz”.
Havia no desafio de Jackson uma provocação genuína, mas também uma curiosidade que ele próprio talvez não tivesse nomeado ainda, porque havia anos de distância entre os dois que tinham construiu uma imagem do outro feita de fama e de rumor, não de escuta real. E Jackson estava prestes a ouvir Luís Gonzaga de perto pela primeira vez na vida.
O Luís pediu a concertina que tinha deixado à entrada do estúdio, encaixou nos braços com aquela naturalidade de décadas e ficou um momento em silêncio antes de começar, como alguém que está a escolher não o que vai tocar, mas sim de onde vai tocar. Havia algo naquele gesto de silêncio antes de começar que os músicos do estúdio reconheceram como a marca de alguém que não necessita de aquecimento porque transporta a música dentro o tempo todo, esperando apenas o momento certo para sair.
Luiz começou com uma melodia lenta, quase uma toada, o folle abrindo lentamente, como quem não tem pressa de chegar a lado nenhum. E o estúdio foi ficando quieto com aquela qualidade de silêncio que só o baião de Luís Gonzaga conseguia criar. Um silêncio que não era ausência de ruído, mas presença de algo que chegava de longe e que transportava dentro de si a imagem de um sertão que a maioria das pessoas no auditório conhecia apenas pelas músicas, mas que sentia como memória, mesmo sem ter vivido.
Jackson ficou parado com o tamborileiro no colo, ouvindo. E Adelson, que estava a observar o rosto do paraibano, com a atenção de quem conhece cada pormenor daquele rosto, viu a expressão ir mudando lentamente, a faísca de rivalidade sendo substituída por algo mais quieto e mais sério, como alguém que está a ouvir uma língua diferente da sua e de repente começa a compreender o que as palavras estão a dizer.
Jackson não mexeu durante toda a música, o que, para quem o conhecia era em si mesmo uma informação, porque Jackson sempre se mexia quando havia música. Quando Luís terminou o silêncio, durou alguns segundos antes de o auditório reagir. E quando reagiu, foi com um tipo de aplauso diferente do que tinha recebido Jackson.
Não menos intenso, mas com uma qualidade diferente, mais lenta, mais funda, como quando as as pessoas aplaudem não só o que ouviram, mas o que sentiram por causa do que ouviram. Jackson ficou parado olhando para Luiz por um longo momento, sem dizer nada, e depois disse no microfone com uma voz que tinha perdido a faísca provocadora do início da noite e tinha ganho outra coisa no lugar.
Gonzaga, passei anos a pensar que o que fazia era coisa de saudade velha. Mas isto que acabou de tocar não é saudade, é outra coisa. É mais fundo do que a saudade. Luiz olhou para Jackson e respondeu com aquela calma direta que era a sua marca. E o que tocou antes não é alegria, é mais fundo do que a alegria.
O estúdio ficou em silêncio por um segundo e depois Adelson ouviu algo que não esperava ouvir naquele programa naquela madrugada. Os dois riram ao mesmo tempo. O que aconteceu depois foi algo que Adelson descreveu anos mais tarde como o momento mais especial em décadas de rádio. Luiz e Jackson tocaram juntos sem combinação prévia, sem arranjo planeado.
A concertina e o tamboril encontrando-se um ao outro naquele estúdio pequeno da Rádio Globo no meio da madrugada carioca. E o que saiu daquele encontro era diferente de tudo o que cada um fazia sozinho. Não era baião, não era forró de pandeiro, era algo que ainda não tinha nome, mas que o auditório reconheceu imediatamente como real.
Adelson ficou parado no seu lugar sem falar porque tinha compreendido que qualquer palavra sua nesse momento seria menos do que o silêncio de deixar acontecer. E os ouvintes que estavam acordados naquela madrugada ouvindo o programa na rádio, disseram depois de terem ficado parados com o ouvido colado ao aparelho sem se mexer, porque havia algo nesse som que dizia que se saísse por um segundo ia perder alguma coisa que não voltava.
A Deus contou aquela noite em entrevistas para o resto da vida, sempre com a mesma emoção de quem viveu algo que o tempo não conseguia diminuir. Dizia que em décadas de rádio tinha presenciado muitos encontros. muitas estreias, muitos momentos que o público celebrava e que ficavam na história, mas que aquela madrugada no pequeno estúdio da Rádio Globo tinha uma qualidade diferente de tudo, porque não foi planeada por ninguém, não foi produzida por ninguém, simplesmente aconteceu como acontecem as coisas verdadeiras, sem aviso e sem ensaio.
Dizia também que o que mais ficava com ele não foi o momento em que os dois tocaram juntos, mas o momento antes, quando Jackson disse que o baião de Luís era mais fundo do que a saudade e o Luiz disse que o ritmo de Jackson era mais fundo do que a alegria. Porque naquelas duas frases os dois tinham feito algo que não tinham conseguido fazer em quase 30 anos de carreiras paralelas.
tinham deixado de olhar um para o outro como concorrentes e tinham começado a olhar como músicos que tinham muito mais em comum do que as diferenças de estilo deixavam ver. A partir dessa noite, Luiz voltou ao programa de Adelson várias vezes e ele e Jackson tornaram-se amigos de verdade pelos anos que ainda tinham pela frente.
Jackson do Pandeiro faleceu em julho de 1982, 4 anos depois dessa noite. E Luís Gonzaga faleceu em agosto de 1989, 7 anos depois de Jackson. Os dois partiram em meses de agosto e julho. Jackson em Julho de 82 e Luís em Agosto de 89. como dois artistas que tinham chegado ao mesmo ponto de partida nordestino por caminhos diferentes e que de alguma forma terminaram a viagem em meses semelhantes de anos diferentes.
Quem conhecia a história daquela madrugada na Rádio Globo pensava nesta coincidência com aquela sensação que não tem explicação racional, mas que também não não precisa de nenhum, a sensação de que havia entre os dois uma ligação que o tempo de rivalidade não tinha desfeito e que a amizade que veio depois tinha apenas revelado o que sempre lá esteve.
A Deuson, que sobreviveu aos dois, contava a história cada vez que alguém perguntava qual tinha sido bametinap tinha sido o momento mais importante da carreira dele. E a resposta era sempre a mesma. Aquela madrugada, aquele estúdio pequeno, aqueles dois homens tocando juntos pela primeira e única vez.
O que aquela noite revelou era algo que vai para além da história de dois músicos que passaram décadas sem se ouvir de verdade. Era a história de duas formas genuínas de contar a mesma coisa. O Nordeste, a vida, a dor e a festa que cabem juntas no mesmo corpo, chegando por caminhos tão diferentes que as pessoas em redor confundiam diferença com oposição.
Luiz Gonzaga cantava o sertão que parte e que tem saudades, e Jackson do Pandeiro cantava a festa de quem chegou e decidiu viver. E nenhum dos dois estava errado. E nenhum dos dois estava completo sem o outro. Porque o Nordeste que eles carregavam era os dois ao mesmo tempo. Saudade e alegria, partida e chegada.
O baião lento e o tamborileiro acelerado. Duas metades da mesma verdade que demoraram quase 30 anos para se encontrar num pequeno estúdio de madrugada. E o que aquela noite mostrou foi que quando as duas metades finalmente se encontraram, o que nasceu entre elas não era nem o baião, nem o ritmo do tamborileiro.
Era algo que só existia, porque os dois tinham decidido estar no mesmo lugar ao mesmo tempo e deixar acontecer o que precisava de acontecer. Esta história nos ensina que as rivalidades mais longas muitas vezes não são rivalidades de verdade, são distâncias que ninguém teve ainda a coragem de atravessar.
Luís e Jackson passaram décadas a evitar-se, não porque se odiassem, mas porque nunca tinham parado para se ouvirem. E sem se ouvir, construíram imagens um do outro feitas de fama e de rumor, que não não tinham nada a ver com quem cada um era de verdade. Quantas pessoas na sua vida está a evitar agora por uma razão que nunca foi testada de perto, por uma diferença que parece maior do que é, porque nunca atravessou a distância para ver o tamanho real da mesma.
Luís Gonzaga atravessou aquela distância numa madrugada de 1978, entrando numa porta sem avisar. E o que encontrou do outro lado era algo que tinha estado disponível durante quase 30 anos, esperando que alguém tivesse à disposição para ir buscar. A única coisa que separava a rivalidade da amizade era a decisão de comparecer.
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