Lampião e Maria Bonita: As Últimas 24 Horas Reveladas

Lampião e Maria Bonita: As Últimas 24 Horas Reveladas

Há uma última chávena de café. Poucos sabem desse pormenor. Os livros de história falam da emboscada, falam do tenente João Bezerra, falam das cabeças cortadas e expostas em vitrinas de cidades do Nordeste, como troféus que o estado tinha esperado poder mostrar por décadas. Falam do fim, mas não falam do café.

 do café aquecido nas margens do rio no fogo [música] que tinha ficado aceso da noite anterior tomado ao lado de Luís Pedro enquanto o amanhecer do no dia 28 de julho de 1938 ainda não tinha revelado o que trazia. Virgulino Ferreira da Silva tomou café na manhã em que morreu, como qualquer homem toma café na manhã de qualquer dia, sem saber que era o último, com o cansaço de quem tinha dormido num coito no meio da catinga sergipana e que tinha pela frente mais um dia que parecia igual aos anteriores, com o peso que os relatos descrevem naqueles últimos

meses, o peso de homem que tinha carregado o cangaço durante décadas e que tinha chegado ao ponto onde o corpo e o espírito diziam que o tempo estava a tornar-se esgotando de formas que ele próprio não conseguia articular completamente, mas que as pessoas que estavam perto dele conseguiam [música] sentir.

 E então o mundo mudou num segundo. Para compreender o que aconteceu na grota do angico naquela madrugada, precisa primeiro perceber o dia que veio antes, o dia 27 de julho de 1938, o dia que a história esquece, porque é o dia que antecede, o dia que a história lembra-se. Porque é no dia 27 que as peças se posicionam, que os sinais aparecem, que a hipótese de evitar o que veio depois existia e foi descartada ou não foi percebida, ou chegou tarde demais para ser aproveitada.

 O coito estava na grota do Angico, pertencente à quinta Angicos, do lado do Porto da Folha, cidade sergipana, nas margens do rio São Francisco. Do outro lado da água estava Piranhas em Alagoas. Era ponto estratégico com uma vulnerabilidade que Zé Sereno, um dos cangaceiros mais experientes do bando, tinha identificado e que tinha tentado comunicar a Lampião com a insistência de quem sabe que está certo, mas não consegue fazer com que o chefe ouvir o que não quer ouvir.

 O lugar era perigoso e não tinha saída. Zé Sereno dizia isso, repetia. e Lampião, o homem [música] que tinha sobrevivido por décadas num sertão que o tentava matar de todas as formas possíveis. O homem com o olho esquerdo comprometido, que via o mundo inteiro pelo olho direito, com uma intensidade que as testemunhas descreviam como desconcertante, havia escolhido para ficar.

 Por quê? A resposta que os relatos oferecem é que houve uma reunião marcada, uma reunião importante suficiente, para que Lampião esperasse pelo grupo de Corisco, que devia chegar no Raiar do dia seguinte, e pernoitar ali era necessário para que todos os estivessem presentes quando a reunião acontecesse. O que seria discutido nessa reunião só Lampião sabia.

Alguns achavam que havia um plano para atacar a volante de Zé Rufino, o temido perseguidor, que se havia tornado o principal inimigo ativo do bando. Outros achavam que havia [música] algo muito diferente sendo considerado. Outros pensavam que Lampião ia largar o cangaço. Esta possibilidade que aparece nos relatos da época, com a hesitação de que não sabe se é facto ou interpretação retroativa de quem sobreviveu para especular, é talvez a mais reveladora sobre o estado de virgulino naqueles dias. Havia algo nos relatos de quem

estava perto dele que sugeria exaustão que ia para além do cansaço físico. Era o cansaço de quem tinha vivido décadas num estado de alerta constante, que havia companheiros enterrados, [música] que tinha visto o bando encolher e crescer e voltar a encolher, que havia carregado o peso de ser candeeiro, quando ser candeeiro significava ser alvo permanente de todos os lados.

 se havia ou não plano real de saída, a resposta foi levada para o fundo do rio São Francisco nessa manhã e nunca mais voltou. No dia 27, Pedro de Cândido chegou ao coito com encomendas. Pedro era coiteiro, proprietário das terras onde o bando estava a coitadinha, homem que os relatos descrevem como aquele cuja família era proprietária daquelas terras, que vivia na casa da quinta Angicos.

 havia ido à cidade de Piranhas comprar o que Lampião tinha pedido, queijo, cachaça e conhaque. As provisões de homens que estão em pausa, que estão a descansar antes do movimento seguinte, que estão esperando que todos os grupos se reúnam. Zé Sereno recebeu Pedro de Cândido com desconfiança que ele próprio exprimiu sem disfarce.

 Este cabra, este lugar, estes encomendas, nada aqui me cheira bem. Era desconfiança específica, não genérica. Zé Sereno não confiava muito em Pedro e quando examinou o conhaque que tinha sido trazido, apontou um pormenor que os relatos preservaram com a especificidade de quem entendeu que aquele pormenor poderia ser crucial.

 Um furo no celo da garrafa, suficientemente pequeno para ser de agulha [música] de injeção, do tipo que se utiliza para introduzir veneno sem deixar evidência visível de violação do lacre. Zé Sereno disse a Lampião: “Eu, se fosse o senhor, não bebia”. Lampião ouviu e a mosca atrás da orelha que as suspeitas de Zé Sereno tinham plantado fez o seu efeito parcial.

 Lampião não bebeu do conhaque, deixou que os outros bebessem as cachaças, mas não saiu do lugar. Havia também, segundo os relatos, uma informação lateral que chegou com Pedro de Cândido. Um certo José Bernardes tinha ficado desconfiado com a quantidade de queijo comprada. Era pormenor que alguém que não estivesse já nervoso talvez descartasse.

 Queijo comprado em quantidade chama a atenção. Mas atenção de quem? Com que consequências? Zé Sereno processou [música] aquilo como sinal. Lampião processou como ruído. A linha entre sinal e ruído é aquilo que separa os que sobrevivem dos que não sobrevivem em situações de alto risco. E a diferença entre as duas interpretações nem sempre é visível antes de o resultado confirmar qual delas estava certa.

 O Zé Sereno foi mais longe. Disse a Lampião que se o capitão não tirasse os seus homens dali no raiar do dia, ele tiraria os seus. Era ultimato que qualquer subalterno emite apenas quando está absolutamente convicto do perigo. Quando a convicção supera o instinto de preservação hierárquica que normalmente mantém subalterno calado perante chefe que decidiu diferente.

 O Zé Sereno estava convicto, Lampião ficou. O resto do dia 27 correu como qualquer dia num coito de cangaceiro. Homens a beber, jogando carteado, proseando, as mulheres costurar roupas rasgadas em combate ou confeção de peças novas para cangaceiros recém-chegados. A comida sendo preparada pelos homens, as mulheres a ajudar a lavar a loiça.

 A rotina que os dias de pausa produzem em grupos que vivem em estado de alerta constante e que necessitam de momentos onde o alerta baixa para que o corpo e a mente não colapses. havia 35 cangaceiros naquele coito, entre eles Luís Pedro, Mergulhão, elétrico, quinta-feira, Zé Sereno, Balão e outros, cujos nomes os relatos preservaram com aquela especificidade que os sobreviventes mantêm quando precisam de honrar os que não voltaram.

 Quatro mulheres, Sila, esposa de Zé Sereno, Dulce, Enedina e Maria. As duas últimas não sobreviveram ao dia seguinte. Maria, Maria Gomes de Oliveira, Maria Bonita, que tinha escolhido o cangaço de forma que poucos historiadores do período conseguem processar completamente porque não cabe nos estereótipos disponíveis. Não era apenas a mulher de Lampião no sentido de propriedade ou de acompanhante passiva.

 Era mulher que tinha decidido com agência que o contexto dificultava, mas não impossibilitava completamente que aquela vida era a vida que queria viver com tudo o que aquela vida exigia, [música] com o risco constante e a beleza torta de existir completamente fora das estruturas que a sociedade tinha preparado para ela.

 Naquela noite do dia 27, os relatos registam que havia discussão entre Lampião e Maria. Briga por motivos que os relatos descrevem como íntimos, como pertencentes apenas aos dois. O tipo de discussão que os casais têm em noites tensas, quando a atenção não tem outro lugar para onde ir. Os dois discutiram naquela última noite que tinham juntos, sem saber que era a última.

 No amanhecer do dia 28, Lampião reuniu alguns cangaceiros para a oração matinal. Era a [música] rotina que os relatos confirmam como parte consistente do dia de Lampião, o homem que tinha recebido bênção do padre Cícero anos antes e que tinha mantido ao longo de toda a vida do cangaço, uma relação com a fé que o sertão nordestino produz naqueles que vivem com a morte como vizinha permanente.

 Zé Sereno se levantou-se e juntou-se à oração. Sila, a sua mulher, continuou a dormir. Luís Pedro estava ao lado de Lampião, o braço direito que outrora havia prometido que se tivesse de morrer com o capitão, morreria. Seria uma promessa cumprida naquele dia. Maria Bonita continuava a dormir quando Lampião terminou a oração e foi à tenda acordá-la.

 O movimento de homem que vai acordar a mulher na manhã de mais um dia que parece igual aos anteriores. Com aquela intimidade específica dos casais que dormem juntos durante anos e que desenvolvem uma linguagem de gestos que não necessita de palavra para comunicar. Acordou, está na hora, há café.

 O amoroso foi buscar água no rio para fazer o café. Amoroso era nome ou apelido de cangaceiro, cujo papel naquele momento era tarefa doméstica de grupo. Foi até ao rio, baixou-se para encher o recipiente e viu entre os ramos de uns arbustos um soldado da volante com arma apontada em sua direção. O amoroso correu em direção ao acampamento, gritando: “Os macacos! Os macacos!” E o soldado que o tinha avistado, identificado nos registos como Abdom, [música] disparou o primeiro tiro.

 A partir desse tiro, tudo o que tinha sido normal naquelas horas anteriores explodiu em algo completamente diferente. Gritos de dor e de desespero ecoando na grota do angico. [música] Tiros de espingarda de múltiplos pontos simultâneos, rajadas da metralhadora do tenente João Bezerra, que tinha chegado com a volante em silêncio suficiente para que nem o Zé Serenot e o mais vigilante de todos tivesse percebido antes que fosse tarde.

 João Bezerra tinha recebido informação. formação de dentro, do tipo que permite que uma volante monte posição em redor de um coito sem que os sentinelas percebam, que permite aos atiradores estejam posicionados nos pontos certos antes do primeiro disparo, que elimina o elemento surpresa da defesa ao mesmo tempo que o preserva para o ataque.

 A questão sobre quem tinha fornecido essa informação e como chegou ao tenente João Bezerra é uma questão que a historiografia do cangaço nunca respondeu de forma definitiva e que provavelmente nunca responderá, porque as pessoas que sabiam morreram, fugiram ou guardaram o segredo. Pedro de Cândido, o coiteiro que chegara ao dia anterior com queijo e cachaça e conhaque com um furo suspeito no celo.

 a quantidade de queijo que tinha chamado atenção de alguém em piranhas, os detalhes que Isé Sereno enumerara como sinais e que Lampião tinha classificado como ruído. A emboscada em Anjico foi cirúrgica, no sentido em que aqueles que planearam sabiam o suficiente para montar posição eficaz. Não foi o ataque frontal que testa a defesa e escalona conforme a resistência.

 Foi cerco que já estava no lugar antes que o alvo soubesse que havia cerco. De 35 cangaceiros, 24 conseguiram escapar pela catinga, aproveitando a confusão e o terreno que conheciam melhor do que qualquer volante de fora. Morreram 10, morreu Lampião, Morreu Maria Bonita, morreu Enedina. O que aconteceu aos corpos depois é a parte da história que o Brasil do séc.

XX prefere não detalhar com a mesma ênfase que dá as batalhas e as perseguições. As cabeças foram cortadas, foram expostas em vitrinas de estabelecimentos comerciais em cidades do Nordeste, fotografadas, circuladas, tratadas como troféus de vitória que o estado tinha esperado poder mostrar durante décadas.

 Era a demonstração de poder que o poder faz quando finalmente capta o que perseguia a tempo suficiente para que a captura precisa de ser espetáculo. As mesmas cabeças foram depois levadas ao Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, onde médicos e investigadores as examinaram sob o crio da pseudociência racial da época, que acreditava que o formato do crânio podia revelar tendências criminosas, psicologia, motivações.

 procuravam no osso a explicação para décadas de cangaço, a anomalia física que tornasse candeeiro compreensível dentro do quadro teórico que o século XIX tinha legado ao início do século XX. Não encontraram nada de especial, eram crânios humanos normais. O que a ciência racial não conseguia encontrar no osso estava no contexto que a ciência racial não estava equipada para analisar.

 estava no sertão nordestino que o Brasil tinha abandonado a sua própria lógica durante décadas. Estava no sistema de coronéis e vaqueiros e terras de coronéis e filhos de vaqueiros sem terra que tinha produzido as condições para que [a música] o cangaço existia como sistema de resistência e de sobrevivência paralela à ordem oficial.

 Foi na morte do pai de Lampião, ou nas histórias da morte, nas afrontas que haviam empurrado o jovem virgulino para o caminho que o mundo conheceria. Como o caminho de Lampião estava na testa que tinha franjado quando Sabiá desafiou a sua autoridade no passo firme em direção às pedras, quando qualquer cálculo racional dizia para não avançar.

 Na bênção pedida ao padre Cícero com a humildade de um filho que pede a bênção de pai espiritual. Na farda nova de azul mescla inaugurada para a festa de São João. Na chávena de café tomada ao lado de Luís Pedro na última manhã. Luís Pedro prometera que morreria com o capitão, se fosse necessário. Morreu. Zé Sereno tinha dito que o lugar era perigoso e sem saída. Era.

 O amoroso tinha ido buscar água e visto o soldado nos arbustos. foi o último a ver o coito antes de mais mudar. E Maria Bonita tinha dormido na manhã em que não devia dormir. Havia sido acordada por Lampião com o gesto de quem acorda a mulher num dia que parece comum. tinha saído da tenda para o dia que seria o último.

 Os 24 que escaparam carregaram a história para fora da grota do Anjico. A contaram de formas diferentes, com ênfases diferentes, com pormenores que cada memória preservou ou perdeu, de formas que a memória sempre preserva e perde. E destas versões diferentes cruzadas com os registos da volante, com os relatos de moradores da região, com as notícias que os jornais publicaram nos dias seguintes, é possível reconstituir aquelas horas com um grau de detalhe que faz com que a história de Angico ser uma das mais documentadas do cangaço. Mas o pormenor que os documentos

não conservam com a mesma riqueza que preservam os movimentos táticos e os números de mortos é o detalhe humano. a rixa entre Lampião e Maria na noite anterior, a oração da manhã ao amanhecer com Luís Pedro ao lado, a decisão de ficar, apesar do que Zé Sereno tinha dito, tomada por um homem que tinha sobreviveu décadas de perseguição e que desta vez tinha avaliado mal a diferença entre sinal e ruído.

 O cangaço terminou em Angico no dia 28 de julho de 1938. Não terminou porque o Estado tinha finalmente encontrado força suficiente para destruir Lampião em campo aberto. Terminou porque alguém lhe tinha dado informação suficiente para que a volante chegasse sem ser percebida, para que o cerco estivesse montado antes do primeiro tiro, para que a surpresa que tinha protegido o bando durante décadas fosse eliminada da equação numa manhã em que um cangaceiro foi buscar água ao rio São Francisco e viu entre os ramos o que não devia estar ali. A última chávena

de café de candeeiro foi tomada naquela manhã ao lado de Luís Pedro, antes de o amoroso gritasse os macacos e o mundo da grota do angico explodisse em tiros e gritos e fim. Virgulino Ferreira da Silva tinha aproximadamente 41 anos. Tinham passado mais de 20 deles sendo perseguido por exércitos de três estados sem ser capturado.

 Havia criado em redor de si uma mitologia [música] que o sertão nordestino alimentou durante toda a sua vida. e que continua alimentar décadas depois da sua morte. Tinha batizado crianças, dado bênção de padrinho, recebeu bênção de padre Cícero, inaugurou fardas novas em festas de São João, tomado café nas manhãs de mais um dia, que parecia igual aos anteriores, e morrera numa emboscada nas margens do rio São Francisco, porque alguém tinha dito a alguém onde ele estava, e porque ele tinha decidido ficar quando Zé Sereno disse que estava na hora de ir. As cabeças

foram cortadas, foram exibidas, foram fotografadas e circuladas e estudadas em pesquisa de anomalia que não existia e depois foram enterradas décadas depois com cerimónia que o estado, que havia exibiam aquelas cabeças como troféus, organizou, [música] porque o tempo tinha transformado o troféu num problema histórico que necessitava de resolução simbólica.

 A grota do Angico existe mesmo hoje. [música] O rio São Francisco continua a correr do mesmo lado. Os arbustos onde o soldado Abidom se tinha posicionado naquela madrugada de julho, foram substituídos pelos arbustos de décadas depois, que serão substituídos pelos arbustos de décadas ainda à frente. O local onde o maior cangaceiro da história do Brasil tomou a última chávena de café e foi emboscado numa manhã que tinha começado como qualquer outra. Capitão Lampião.

 O título que o papel de Juazeiro não tinha garantido, mas que o apelido popular tinha concedido e que a história não conseguiu tirar. Morreu com ele no dia 28 de julho de 1938 e sobreviveu-lhe em tudo o que o sertão nordestino conta até hoje, quando alguém pergunta quem foi Virgulino Ferreira da Silva. M.

 

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