LAMPIÃO HUMILHOU O DELEGADO: A Vingança de Zé Baiano: O Destino Cruel do Delegado Domiciano 

LAMPIÃO HUMILHOU O DELEGADO: A Vingança de Zé Baiano: O Destino Cruel do Delegado Domiciano 

Há um tipo de história que o sertão guarda com mais cuidado do que qualquer outra. Não a história dos grandes confrontos, não os relatos das batalhas que os cordéis imortalizaram com rimas que ecoam até hoje nas praças e feiras do Nordeste. O tipo de história que o sertão guarda com mais cuidado é a história do pormenor humano, da origem, do motivo que veio antes do motivo que toda a gente conhece, da corrente de causas que liga uma decisão à outra até chegar no momento em que tudo explode de uma forma que parece súbita, mas que

qualquer pessoa que conheça a cadeia inteira sabe que foi construído tijolo por tijolo ao longo de meses ou anos. A história de Domiciano começa com um professor, não começa por Lampião, não começa com cangaço, nem com violência, nem com nenhum dos elementos que fariam qualquer pessoa que conheça o período imaginar que sabe para onde é que esta história vai.

 Começa com um homem chamado Eleutério Gualberto Abad, professor que percorria o interior da Bahia lecionando de fazenda em fazenda, de forma particular que podiam pagar por educação num tempo em que a educação pública no sertão profundo era ainda mais escassa do que hoje. Eleutério foi ensinar na quinta de um senhor chamado Jorvino Paca.

 ficou lá por volta de três meses. E ao fim desses três meses, uma filha de Jorvino Paca acusou-o de a ter ofendido. A autoridade que se ocupava destas questões era encuraçar umas 20 léguas de distância, numa época em que nem macururé ainda existia. Intimaram todo o mundo, professor, rapariga, pai da rapariga. Viajaram às 20 léguas até Curaçá para a audiência e ali estava o delegado e escrivão dos feitos criminais da região, Domiciano.

 Na audiência, o professor disse que não casaria com a rapariga. Explicou que não podia, que ignorava completamente a acusação, que era capaz de jurar que nem ele, nem qualquer outro rapaz devia àquela rapariga nada, que os pais de família sabiam criar ela tinha mais tempo. falou tudo o que um homem inocente fala quando acredita que a verdade é suficiente para resolver a situação.

 E Domiciano respondeu com a lógica do delegado que entendia a lei não como um instrumento de verdade, mas como instrumento de ordem. Isso não interessa. O que interessa é você casar. Eleutério repetiu que não podia, que não casaria. O pai da rapariga foi-se embora, mas não levou a filha. deixou a menina na casa de Domiciano com 500 contos de réis para fazer o casamento acontecer.

 Aqui é onde a história se complica de uma forma que o relato oral preservou com aquela riqueza específica das histórias que passaram por muitas bocas antes de chegar a quem as conta agora. Havia uma mulher chamada generosa. Generosa gostava de Domiciano de um forma que ela própria declarava publicamente, sem esconder com aquela franqueza que certas mulheres do sertão t que as distingue completamente do estereótipo submisso que o imaginário popular associa, por vezes, [a música] a mulher nordestina do período. Ela dizia

que não gostava de um filho tanto quanto gostava do professor Eleutério. Dizia em voz alta: “Para quem quisesse ouvir.” E ao mesmo tempo generosa tinha amizade próxima com Zé Baiano. Amizade próxima no sentido que o sertão utiliza quando não quer dizer diretamente o que a proximidade representava, mas [a música] que qualquer ouvinte que conhecesse o contexto entendia.

 Zé Baiano era parente do Zengraça, família com quem andava e Generosa fazia parte desta rede de relações. Quando Generosa percebeu que Domiciano estava a utilizar a situação da rapariga para garantir que o professor casasse, talvez por interesse próprio, talvez por ciúme, talvez pela combinação específica das duas coisas que a mente humana frequentemente produz.

 Sem hierarquia clara entre os motivos, ela foi falar com o Zé Baiano. Pediu que ele fizesse qualquer coisa que atrapalhasse Domiciano. Zé Baiano era cangaceiro, membro do bando de Lampião, com reputação própria dentro do cangaço, com os olhos verdes que os relatos descrevem como fuzilando de ódio quando decidia agir.

 Era homem que não precisava de muito para se convencer a agir quando a ação servia os seus interesses ou a as suas lealdades. e generosa com quem tinha a relação que tinha, tinha pedido. O pormenor sobre o professor Eleutério nesse ponto some dos registos. Não sabemos se o casamento foi forçado, se conseguiu escapar, se Domiciano encontrou outra solução.

 O que os relatos preservam é a consequência que veio meses depois, quando o Domiciano estava de férias na quinta, sentado numa cadeira de preguiçosa na varanda da frente, com a espingarda encostada ao lado e um caixão de balas por perto, casa rodeada que era pormenor de quem sabia que tinha inimigos e procurava o mínimo de proteção que a arquitetura permitia.

A mulher de Domiciano ouviu os cães latindo. Domiciano, os cães estão latindo. E depois, com aquela urgência específica de quem reconheceu antes do marido o que o ladrar estava a anunciar. Domiciano, é candeeiro na porteira. Olha para a chaporteira tal como está. Faz as tuas ações.

 Faz as tuas ações era a expressão que o sertão utilizava para dizer que era tempo de resolver, de agir, de não perder mais tempo, porque o tempo tinha acabado. E a mulher completou com o que sabia ser verdade e que o marido precisava de ouvir com clareza antes que fosse tarde. “Não tem aí um fuzil?” Domiciano estava sozinho.

 Todo o homem que ia pegar no seu lado estava em frente, nas outras partes da propriedade. E Lampião entrou. Os relatos dizem que chegou calado, que nem bom dia deu, que foi direto ao objetivo com aquela eficiência do homem que fizera aquele tipo de coisas muitas vezes e que tinha aprendido que a cerimónia desnecessária cria complicação que cerimónia nenhuma evita. Tinha cordas.

Passou as cordas a Domiciano ali mesmo na varanda ainda de pijama. Amarrou as pernas por baixo, amarrou os braços para trás, pôs o homem no espinhaço de um jeg e saíram. Pegaram na espingarda, a munição e marcharam em direção ao rio abaixo de Curaçá. O que veio a seguir ao longo dos dias seguintes é uma das histórias mais pormenorizadas que a memória oral do sertão baiano preservou sobre o cangaço.

 Não porque seja a mais violenta ou a mais dramática em termos de confronto armado, mas porque é a história que mostra o cangaço como sistema de poder, que opera com uma lógica própria, com um instrumento de terror calculado, com aquela combinação específica de brutalidade e negociação que distinguia o cangaço do banditismo comum.

 À saída casa onde tinha passado a noite, Lampião avistou uma espingarda pendurado com uma cartucheira à frente. Perguntou do dono. O dono estava ali. Disse que o fuzil estava ali para matar os jacarés que estavam a acabar com a criação. Lampião processou aquilo com a velocidade de quem conhece a diferença entre história real e história inventada.

 Se o homem fosse realmente matar o Jacaré, não levaria a cartucheira junto. A cartucheira era para combate. Jacaré não exigia a cartucheira. O rapaziada toda na rua estava armada à espera que ele passasse. Lampião não era menino. Quando o dono da espingarda voltou da beira do rio, Domiciano ainda em cima do Jeg, o dono respondeu à pergunta de Lampião sobre o que havia ido fazer com uma mentira que qualquer pessoa que tivesse pensado um segundo a mais teria percebido que seria detectada.

 Disse que havia levado a espingarda para matar Jacaré. Lampião disparou e matou. Descendo em direção a Riacho seco, o grupo parou numa quinta para pedir animal. O dono, um homem que o relato identifica como Henrique, primo do narrador, negou a cavalo. Havia pessoa do lado que denunciou que tinha cavalo. Lampião, com a raiva que se tinha acumulado desde o espingarda do jacaré, matou também o Henrique.

Dois homens mortos. Domiciano ainda em cima do Jeg, continuando o grupo. Curaçá para o Riacho Seco eram oito léguas. O grupo saiu numa segunda-feira de manhã às 10 horas. Passou o resto da segunda, dormiu, avançou na terça-feira, continuou quarta-feira indo em direção a ribeiro seco, que era feira, que era vida, que era o tipo de concentração de pessoas que o cangaço ora evitava ora utilizava como palco deliberado para a mensagem que queria enviar.

 Naquele caso, Lampião queria entrar num riacho seco. Parou o grupo a menos de 1 km, chamou Domiciano e fez declaração de que os relatos preservam com a precisão de frase que as testemunhas entenderam ser importante guardar exatamente como foi dita. Domiciano, vou entrar num riacho seco se ouvir um tiro da minha arma em quem primeiro disparar na sua cara.

Domiciano respondeu com aquela objetividade específica de quem está amarrado em cima de um jeg h a dias e que chegou num estado de clareza que a exaustão por vezes produz. Capitão, mas o que é que eu vou fazer? Você não é o mandante da chuva, manda então um portador avisar que se não quiserem lutar, saiam. Mandaram o portador.

O pessoal que estava armado num riacho seco, à espera do grupo, porque a notícia tinha viajado mais depressa do que o Jegiciano correu. Quando o Lampião entrou na feira do Riacho seco, a resistência havia-se dissipado pela simples ameaça de que a entrada seria cobrada na cara de Domiciano. Terror calculado.

 Não teve de atirar num único homem para tomar a feira. Precisou apenas que as pessoas soubessem que tinha alguém amarrado com o qual cobrariam o preço da resistência. O instrumento não era a bala, era Domiciano. E enquanto Domiciano estivesse vivo e acessível como instrumento, ele valia mais do que morto. Na feira do Riacho seco, com o Jeg amarrado e o grupo a beber cachaça e circulando como se fossem visitantes comuns que haviam chegado praspeira como qualquer outro, apareceu um homem chamado Alcântara Candia.

 Alcântara tinha a história. Havia sido contratado pelas forças pernambucanas. havia levado ferimento no braço, mas era tão insolente com as próprias forças que os Os comandantes de volante não conseguiam trabalhar com ele. Maltratava famílias, batia, ameaçava. Tinha sido dispensado, mandado embora e tinha ido parar a riacho seco.

 Toda a gente na rua sabia do caso de Alcântara. Quando o Lampião chegou, as pessoas avisaram: “Alcântara, vai-te embora. Alcântara, vai! Não fica aqui. Alcântara não saiu. Estava a beber seguro do tipo de segurança que a cachaça e arrogância produzem em conjunto e disse que não tinha nada. Ficou. Lampião estava encostado a uma porta de bodega.

Alcântara aproximou-se, chegou perto, estendeu a mão para pegar no bornal de Lampião com aquela familiaridade, que é exatamente o tipo de coisa que os homens como Lampião lêem como desafio antes que seja declarado abertamente. Lampião pegou no Bornal primeiro, olhou para ele com aquela expressão que os relatos descrevem como pesarosa, como de quem está a relembrar-se de alguma coisa que estava a tentar não se lembrar.

 Disse: “É alcântara?” Alcântara disse que não era. Lampião disse: “Dei-me uma corda”. Amarraram o Alcântara. Depois chegaram dois irmãos, João e outro. O João era solteiro. Veio falar com Lampião. Capitão, sei que o senhor não vai deixar de matar o meu irmão, mas vou fazer um pedido.

 Matem-me a mim, que sou solteiro, e deixe-o, que é pai de família. Lampião olhou para João por um momento. A resposta que deu revela a lógica que ele aplicava nestas situações que não era de misericórdia, mas era de código próprio. Disse que o João não lhe devia nada, que quem devia era Alcântara. Como ia matar o João e deixar Alcântara? Mas se O João tinha interesse em fazer uma pequena viagem juntamente com o irmão, a passagem era fácil. O João não saiu.

 Então Lampião fez algo que os relatos descrevem com o tipo de pormenor que revela carácter de uma forma que nenhuma descrição abstrata consegue. Mandou Alcântara suspender a manga do casaco do braço esquerdo. Se não tivesse cicatriz de bala no cotovelo, dispensava-o. Alcântara deu trabalho a obedecer. Relutou, resistiu, suspendeu finalmente.

Era cicatriz de bala. Alcântara era o homem a quem fora contratado, tinha combatido, tinha deixado marca no corpo. matou os dois ali na feira de Riacho seco. Passou o resto do dia na feira com Domiciano ainda amarrado em cima do Jeg, com o burro ali parado na rua enquanto a vida da feira continuava à volta, com aquela adaptação que o O sertão nordestino desenvolve para absorver presença de cangaceiros sem parar completamente, continuando com o mínimo necessário de quotidiano enquanto a situação resolve-se ou agrava-se para

um lado ou para o outro. Havia na rua um inimigo de Domiciano. Alguém que sabia que Lampião não gostava de Domiciano, que sabia da origem de tudo, que tinha sua própria conta com o delegado. O relato não preservou claramente o nome, identifica como alguém da família de Onel, mas preservou o que ele disse. Chegou junto de Domiciano e ofereceu: “Tu quer acabar de uma vez no mundo? Me diga que eu corto as cordas.

” Domiciano respondeu: “E a resposta que deu que os relatos preservaram como exemplo de um tipo específico de dignidade que o sertão reconhecia mesmo nas situações mais degradantes foi a seguinte: “Vai embora, rapaz. Na altura em que cortarem as cordas e eu plantar no chão, não me levanto-me mais nunca.

 Tem coragem? Tem? Já rezei nas costas do homem e não tem jeito. Pode ir embora. Esta viagem já está dada.” O homem foi-se embora. Domiciano avaliara a situação com a frieza de quem tinha tido dias amarrado em cima de um jeg para pensar. Sabia que cortar as cordas com um candeeiro presente era a morte imediata. Sabia que o corpo estava destruído de tanto tempo amarrado.

 Sabia que a oferta era gesto de inimigo que o queria ver morrer de uma forma mais humilhante do que aquela que já estava a acontecer. De Riacho seco, o grupo desceu mais uma légua até uma quinta chamada Angico. Dormiram. Na manhã seguinte, quinta-feira cedo, Lampião chamou Domiciano. Domiciano, a sua vida custa 500 contos de réis.

 Domiciano respondeu com aquela honestidade que não tem para onde fugir quando a situação é tão clara como um espingarda apontada e uma quantia declarada. Capitão, se o senhor me dissesse lá em casa, tinha feito o meio de arranjar. Tomava emprestado isto e aquilo. Mas aqui o que é que eu vou fazer? Deus é, olha.

 Lampião respondeu: “Há gente, mandas uma pessoa”. Fizeram um portador, colocaram-no em cima de um cavalo. Lampião disse: “Meta o couro, quando cansar, apanhe outro”. O portador saiu. Eram nove léguas para a casa onde Domiciano vivia, para Curaçá, para onde a família se encontrava. O portador foi, não foi logo para casa, foi paraa rua primeiro, onde as pessoas se juntaram, onde o povo se mobilizou, onde o tipo de coletividade que o sertão às vezes produz para resolver problema que nenhum indivíduo sozinho resolve aconteceu. Foram buscar o dinheiro,

juntaram 500 contos de réis para salvar Domiciano. O portador voltou com o dinheiro, saiu às 6 ou 7 horas da manhã e chegou às 5 horas da tarde com o dia ainda limpo. 18 léguas de ida e volta montado comparada para levantar o dinheiro em menos de 12 horas no sertão do início do século XX, onde légua era medida da distância e do esforço e não apenas de quilómetros lineares, isto era cavalgar com a urgência de quem sabe que chegar tarde era chegar depois de Domiciano já estar morto.

 Chegou com o dinheiro. Domiciano olhava. O portador entregou ao capitão. O capitão recebeu. Então Lampião disse a frase que selou o acordo. Domiciano, agora é o seguinte. A sua vida por mim está garantida. Agora os meninos lá. E o Zé Baiano correu para dentro. correu para dentro e cortou as cordas que prendiam as pernas dos Domiciano por baixo do Jeg, cortou-as do pescoço, passou uma corda na perna, passou numa gaia de Anjico.

 O sangue preto tinha escorrido pelas pedras por seis dias depois. Esta história que chegou ao narrador por via oral, com todos os pormenores que a transmissão oral preserva e com todas as lacunas que a a transmissão oral cria, é, ao mesmo tempo, história de Domiciano, história de Lampião, história de Zé Baiano e, no fundo, história de Generosa e do professor Eleutério Gualberto Abad.

Porque sem generosa, pedindo ao Zé Baiano que atrapalhasse Domiciano, não havia ordem de captura. Sem Eleutério e a filha de Jorvino Paca e a audiência em Curaçá e a decisão de Domiciano de forçar o casamento que o professor recusava, não havia ressentimento de generosa para transformar em pedido. Sem o pedido, Zé Baiano não tinha motivação específica para incluir Domiciano no tipo de operação que o grupo realizou.

 O sertão tem esta propriedade de guardar as origens das histórias quando as as cidades perdem, porque no sertão as pessoas são poucas, as histórias circulam e quem viveu perto dos acontecimentos sabe que a versão completa começa muito antes do primeiro disparo ou da primeira corda.

 E a versão completa da história de Domiciano começa num professor que lecionava de quinta em quinta, numa acusação de ofensa, numa audiência em curaçá, numa mulher chamada generosa, que declarava publicamente o que sentia, e num cangaceiro de olhos verdes, que foi chamado para atrapalhar. A história de Lampião e do Cangaço é frequentemente contada através dos grandes eventos.

 Os assaltos a cidades, as batalhas com volantes, as mortes famosas, Anjico e o fim. Mas a história real do cangaço viveu nos pormenores como este, no professor que não queria casar, na filha que acusou, no delegado que forçou o que não devia forçar, na mulher que tinha ciúmes e amizade com um homem que podia cobrar a conta, no Jeg que carregou o homem amarrado durante dias pelo sertão baiano, no portador que cavalou 18 léguas em menos de 12 horas, porque chegar tarde era chegar depois de ser tarde demais. E na corda que o Zé Baiano

cortou com a pressa específica de quem tinha esperado pelo momento certo. E agora que o momento chegou, não precisava de mais instrução do que aquela. Domiciano havia sobrevivido. Os 500 contos de réis haviam sido pagos. A vida estava garantida por Lampião. Mas a corda que O Zé Baiano cortou não era a corda que o libertava, era a corda que o matava.

 E o sangue preto nas pedras do angico ainda estava lá seis dias depois, quando o narrador passou por aquele lugar. O professor Eleutério, que tinha começado tudo lecionando de quinta em quinta no interior da Baía, nunca aparece nos relatos do que veio depois. Talvez tenha sido forçado a casar. talvez tenha conseguido sair da situação pelo caminho que o delegado tinha impedido.

 Talvez tenha ido para outra região e iniciado o novo ciclo noutra exploração com outro nome que precisava de professor particular e onde a sua história anterior ainda não tinha chegado. O sertão tem muitas histórias cujas pontas não se amarram, cujos personagens secundários desaparecem depois de cumprirem a sua função na narrativa principal, cujos motivos mais profundos nunca são completamente esclarecidos, porque quem poderia esclarecer ou morreu, ou foi-se embora, ou nunca falou.

 O que ficou foi a história de Domiciano, o delegado que tinha forçado o casamento, que não era o seu papel forçar, que tinha tomado 500 contos de réis de pai de moça para garantir resultado que a lei não deveria garantir daquela forma que havia acumulado inimigos suficientes para que generosa tivesse razão de ir falar com Zé Baiano, que tinha passado dias amarrado em cima de Jeg pelo sertão baionense, pagando por decisões que havia tomado num cartório em Curaçá, encontrando-se que a posição de delegado e escrivão o protegia de consequências.

A posição não o tinha protegido. O dinheiro tinha comprado a vida por Lampião. Mas o Zé Baiano não estava ali para fazer acordo. O Zé Baiano estava ali para cobrar o que generosa tinha pedido. E o que generosa tinha pedido não era que Domiciano fosse assustado ou humilhado ou carregado durante dias em cima de Jeg, embora tudo isto tivesse acontecido.

 O que tinha sido pedido era que fosse atrapalhado. E a forma mais definitiva de atrapalhar alguém é fazer o que fez o Zé Baiano quando o dinheiro foi entregue e a vida foi garantida por Lampião. Correu para dentro, cortou as cordas erradas e o sangue negro escorreu pelas pedras do angjico durante seis dias. Era essa a vingança de Zé Baiano.

 Não nasceu da batalha, não nasceu da disputa territorial. Nasceu de uma mulher que declarava publicamente o que sentia, de um professor que lecionava de quinta em fazenda, de um delegado que tinha Confundiu a autoridade com o poder ilimitado, e de uma rede de relações do sertão profundo, que ligava pessoas, que a distância tornava improvável de ligar, mas que o cangaço tornava possível de mobilizar quando alguém no centro desta rede decidia que era altura de cobrar.

 O sangue preto nas pedras era a assinatura de uma cadeia de causas que tinha começado meses antes numa audiência em Curaçá e que o sertão tinha guardado com toda a precisão que histórias importantes merecem de boca em boca, de geração em geração, até chegar até aqui.

 

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