Luiz Gonzaga descobriu uma futura lenda do forró na plateia — esse momento vai te dar arrepios…  tc

Luiz Gonzaga descobriu uma futura lenda do forró na plateia — esse momento vai te dar arrepios…  tc

Luís Gonzaga estava hospedado no Hotel Tavares Correa em Garanhuns numa tarde de 1949, quando ouviu um som vindo da porta do hotel, que o fez parar o que estava fazendo e prestar atenção. O que aconteceu nas horas seguintes naquele hotel mudou para sempre o rumo da música brasileira.

 Luís tinha 36 anos nesse dia. Estava no auge do sucesso que tinha conquistado no Rio de Janeiro depois de anos de luta e percorria o Nordeste em Tourê, levando o baião de volta para terra que o tinha criado. Garanhuns era uma cidade do agreste pernambucano, conhecida pelo clima ameno e pelas festas juninas. E o hotel onde Luís estava hospedado era um dos mais movimentados da cidade, com um fluxo constante de viajantes, comerciantes e músicos que passavam por ali.

 Mas o som que vinha da porta naquela tarde era diferente de tudo o que o movimento normal daquele hotel produzia. E Luís reconheceu isso antes mesmo de saber de onde vinha. Do lado de à porta do hotel, estava um trio de meninos que se apresentava naquele local com uma regularidade que os funcionários do hotel já tinham incorporado a paisagem do lugar.

 O trio chamava-se Os Três Pinguins e era formado por três irmãos, filhos do Mestre Chicão, um acordeonista e afinador de acordeões, conhecido em Garanhuns, por todos os que tinham alguma ligação com a música. Os meninos tocavam à porta do hotel, em bares, em feiras de rua, em qualquer lugar que abrisse espaço para eles, passando o chapéu depois de cada apresentação e levando para casa o que conseguiam juntar.

 O mais novo do trio, um menino de 7 anos que ainda era chamado de bebé, tocava com uma desenvoltura que não combinava com a idade, os dedos pequenos a mexer pelas teclas, com uma segurança que chamava a atenção de qualquer pessoa que parasse para ouvir com atenção. Naquela tarde, Luiz Gonzaga parou e o que ouviu naqueles primeiros segundos foi suficiente para o fazer largar o que estava a fazer e ir até à porta do hotel para ver de perto quem estava tocando.

 A administração do hotel, sabendo que o rei do baião estava hospedado e que os meninos estavam na porta, como sempre, tomou uma decisão que parecia simples, mas que iria mudar a história da música brasileira. convidou os três pinguins a entrar e a se apresentar no interior do hotel, especialmente pro Luís Gonzaga e seus acompanhantes.

 Os meninos entraram com aquela timidez de criança que entra num local diferente do que está habituada, olhando para os lados, segurando os instrumentos com mais força do que o necessário e foram levados para o salão, onde o Luís estava sentado esperando. Neném carregava a concertina de oito baixos que o pai tinha dado de presente quando tinha 6 anos.

 um pequeno instrumento, mas que nas mãos daquele menino soava de um jeito que nenhum pequeno instrumento deveria soar. Luís ficou parado a olhar pros três rapazes que entraram pela porta do salão e não disse nada por um momento. Apenas observou com aquela atenção de quem está a deixar o que está vendo chegar antes de reagir ao que está vendo.

 Os três pinguins começaram a tocar no salão do hotel com Luís Gonzaga sentado à frente. E havia algo naquele momento que todos os que estavam presentes sentiram, mas que ninguém teria conseguido descrever com precisão. A sensação de estar a ver dois mundos da mesma música encontrando-se no mesmo espaço. O rei que tinha levado o baião por todo o Brasil, sentado em frente de um rapaz de 7 anos que tocava aquele mesmo baião como se tivesse nascido sabendo.

 O Luís ficou quieto durante toda a a apresentação, com os olhos em bebé, não nos outros dois irmãos, em bebé, nos dedos dele, na forma como o corpo do menino se movia com o instrumento, na forma como fechava os olhos, em alguns momentos, como quem está a ouvir algo que mais ninguém ouve. Os acompanhantes de Luís, que se encontravam no salão, trocaram olhares entre si durante a música, porque era claro que o rei do baião não estava apenas a assistir uma apresentação de crianças.

 Havia no rosto de Luís uma concentração que os seus acompanhantes reconheceram como a expressão que tinha quando estava perante algo que não encontrava todo o dia e que, por isso mesmo, necessitava de ser tratado com o cuidado que as coisas raras exigem. Quando os três pinguins terminaram e o salão ficou em silêncio, Luís Gonzaga ficou parado por um momento antes de falar, depois se levantou-se, foi até ao bebé, baixou-se devagar até ficar à altura do menino, olhou para ele de perto com aquela atenção de quem está a confirmar algo que já sabia,

mas precisava de ver de perto e perguntou o nome. O menino respondeu baixinho, com a timidez de 7 anos perante o homem mais famoso que já tinha visto na vida. Luís ficou um momento em silêncio, olhando para aquele rosto de criança, os olhos grandes e sérios de quem ainda não sabe o tamanho do que transporta, e depois disse com uma calma que tinha o peso de uma promessa. Menino, vais longe.

 Se um dia vieres ao Rio de Janeiro, me procura que eu tenho uma concertina nova à sua espera. O Mestre Chicão, que estava parado no canto do salão observando tudo, fechou os olhos por um segundo quando [a música] ouviu aquelas palavras, como alguém que recebeu uma confirmação que estava à espera, mas que mesmo assim chegou maior do que esperava.

 Luís não se contentou em ouvir e elogiar. Pediu ao menino para tocar de novo, desta vez sozinho, sem os irmãos. E o bebé olhou para o pai que estava parado no canto do salão, observando tudo com uma expressão de quem não sabe bem o que está a acontecer, mas sente que é importante. E o pai acenou com a cabeça que sim.

 O menino encaixou a concertina nos braços, ficou um segundo em silêncio e começou. Luís ouviu com os olhos fechados a cabeça ligeiramente inclinada e os acompanhantes que se encontravam no salão disseram depois que nunca tinham visto Luiz naquela postura durante a apresentação de mais nenhum músico. A postura de quem não está a avaliar, está recebendo.

 Quando o bebé terminou, Luís abriu os olhos, olhou paraa Mestre Chicão no canto do salão e disse com uma direteza que não deixava espaço para dúvida: “Eu filho tenho um dom que eu não vi em muita gente. Cuida dele com cuidado. O Mestre Chicão engoliu em seco e assentiu com a cabeça, sem conseguir responder nada mais do que isso.

 Porque havia palavras que chegam demasiado grandes para ser respondidas na hora e que necessitam de tempo para serem carregadas antes de poderem ser ditas de volta. O Luís passou toda a tarde com os meninos naquele salão do Hotel Tavares Correia fazendo perguntas sobre como tinham aprendido, sobre o que tocavam nas feiras, sobre o que ouviam na rádio, e em algum momento pegou na própria concertina e tocou junto com o bebé, os dois com instrumento na mão, o homem de 36 anos e o rapaz de sete num salão de um hotel em

Garanhuns. Numa tarde comum de 1949, os funcionários do hotel, que passavam pelo corredor paravam à porta por um momento para ouvir antes de continuar. E o proprietário do estabelecimento ficou parado numa cadeira ao fundo do salão durante quase uma hora sem que ninguém tivesse convidado e sem que ninguém pedisse para ele sair.

 Havia qualquer coisa naquele som de duas acordeões em idades tão diferentes encostando juntas que não cabiam dentro de uma tarde normal e que todos os que ouviram souberam logo que não esqueceriam. A cidade de Garanhuns continuava do lado de fora com o seu movimento normal de feira e de rua, sem saber que dentro daquele salão de hotel estava a acontecer algo que ela carregaria no nome durante décadas.

 Antes de para ir embora, o Luiz chamou o Mestre Chicão para uma conversa separada, longe dos meninos, e disse o que tinha a dizer com aquela clareza direta que era a marca dele. Disse que o menino tinha um talento que Garanhuns era demasiado pequeno para segurar, que chegaria um momento em que o Rio de Janeiro precisaria de ser o próximo passo e que quando esse momento chegasse, ele queria ser avisado porque ia ajudar a abrir as portas que necessitassem de ser abertas.

 O Mestre Chicão ouviu aquilo em silêncio, olhando para o filho que estava do outro lado do salão, ainda com a concertina nas mãos. E quando voltou o rosto para Luís, havia nos olhos do pai uma mistura de orgulho e de algo parecido com vertigem. O sentimento de quem está a ouvir o futuro sendo descrito por alguém que sabe o que está dizendo.

 Luiz deixou uma morada no Rio de Janeiro com o Mestre Chicão antes de sair, escrito num papel dobrado que o pai guardou-o no bolso da camisa como se fosse um documento oficial. saiu do hotel nessa tarde, da mesma forma como tinha chegado, sem alarido, sem cerimónia, como alguém que fez o que precisava de ser feito e seguiu em frente, deixando para trás algo que levaria anos para mostrar o tamanho que tinha.

 Os anos seguintes, Luís Gonzaga acompanhou a evolução de Neném à distância, perguntando sobre o menino a músicos que passavam por garanhuns, mandando recado pelo pai quando tinha notícias, mantendo aquela ligação que não precisava de contacto constante para continuar existindo. Neném foi crescendo e tocando, e a concertina foi crescendo juntamente com ele, um instrumento de oito baixos, sendo substituído por modelos maiores à medida que os braços do menino iam alcançando o que os dedos já sabiam fazer.

[música] A história do dia no Hotel Tavares Correa ficou a ser contada em casa, repetida pelo pai nas festas, relembrada pelos irmãos e foi-se tornando parte da identidade daquele menino ainda antes que ele soubesse exatamente o que ela significava. Havia uma responsabilidade naquelas palavras de Luís que o Neném foi entendendo aos poucos, não como um peso, mas como uma direção, uma bússola apontando para um norte que ele ainda não conseguia ver, mas que sentia existir.

 E cada vez que a concertina pesava mais do que devia nos dias difíceis, Neném ouvia dentro da cabeça aquela voz calma, dizendo que ia longe e continuava. Em 1957, quando o bebé tinha 15 anos, o Mestre O Chicão pegou no papel dobrado que tinha guardado oito anos antes, escreveu uma carta a Luís Gonzaga, no Rio de Janeiro e disse que o momento tinha chegado.

 O Luís respondeu rapidamente, dizendo que esperava o menino. Quando o bebé chegou ao rio e foi ao encontro de Luís, o rei do baião recebeu o rapaz que tinha sido um menino de 7 anos naquele salão de hotel, olhou-o por um longo momento e foi buscar a uma caixa de couro a concertina de 80 baixos que tinha prometido anos antes em Garanhuns.

Entregou o instrumento com as duas mãos, olhou nos olhos do rapaz e disse: “Agora chama-se Dominguinhos.” Out, o nome que Luiz Gonzaga deu naquele dia ao filho do Mestre Chicão ficou para sempre. E o menino que tinha tocado de oito baixos à porta do Hotel Tavares Correia tornou-se um dos maiores acordeonistas que o Brasil já produziu.

 A acordeão de 80 baixos que Luís entregou nesse dia foi o primeiro instrumento de verdade que Dominguinhos teve nas mãos. E disse em entrevistas, décadas depois que quando encaixou os braços naquela concertina pela primeira vez, sentiu que tinha chegado ao lugar onde [a música] sempre deveria ter estado. Dominguinhos falou sobre aquele dia em Garanhuns, em praticamente todas as entrevistas que deu ao longo da vida, sempre com uma emoção que não diminuía com o tempo, como se a memória dessa tarde no salão do Hotel Tavares

Correa permanecesse fresca, independentemente de quantos anos tivessem passado. Dizia que quando Luís Gonzaga baixou até à altura dele e perguntou o nome, algo mudou dentro de si naquele momento. Não porque era famoso, não porque era o rei do baião, mas porque havia, na forma como aquele homem olhava para ele, uma seriedade que nenhum adulto tinha direcionado para um menino de 7 anos daquela forma antes.

 O olhar de quem está a ver alguma coisa real e quer que a pessoa que transporta aquilo saiba que é real. Dominguinhos dizia que demorou anos a compreender completamente o que tinha acontecido nessa tarde, mas que desde aquele dia tocou de uma forma diferente, com uma nova consciência do que estava nas mãos, como se as palavras de Luís tivessem colocado um nome naquilo que ele fazia antes de ele próprio ter palavras para isso.

 Quando Luís Gonzaga morreu em Agosto de 1989, Dominguinhos não conseguiu falar sobre -lo em público durante muito tempo, porque havia entre os dois uma ligação que não cabia nas palavras que existem para descrever relações comuns. Mestre O Chicão guardou o papel dobrado com o morada de Luís Gonzaga, no Rio de Janeiro, durante 8 anos dentro do bolso de uma camisa que estava pendurada num prego na parede do quarto.

 E toda vez que alguém perguntava o que era aquele papel, dizia que era o futuro do filho escrito à mão. Quando finalmente usou o papel e enviou a carta avisando que o momento tinha chegado, ficou sentado à espera da resposta com aquela paciência de pai, que apostou tudo numa crença e está à espera de ver se a crença se confirma.

 A resposta de Luís chegou em poucos dias, direta e calorosa. E o Mestre Chicão leu a carta em voz alta paraa família reunida na sala, com um bebé sentado no chão, com a acordeão no colo, ouvindo o próprio futuro sendo lido em voz alta pelo pai. Quando o Dominguinhos regressou do Rio, meses depois, com o novo nome e a acordeão de 80 baixos debaixo do braço, O Mestre Chicão ficou parado à porta de casa, olhando para o filho por um longo momento sem falar.

 E depois entrou, dirigiu-se até à camisa pendurada no prego, tirou o papel dobrado do bolso e guardou-o numa Bíblia onde ficou pelo resto da vida. A história daquele encontro em Garanhuns ficou a ser contada no meio musical brasileiro como um dos exemplos mais claros do que Luís Gonzaga representava para além da música, um homem que usava a sua própria posição não como privilégio pessoal, mas como responsabilidade coletiva, que via em cada talento descoberto uma obrigação de ajudar aquele talento a chegar onde precisava de chegar. O Luís distribuiu mais

de 100 acordeões ao longo da vida para incentivar novos músicos. abriu portas no rio para dezenas de artistas nordestinos que chegavam sem contacto e sem dinheiro. E [a música] fez tudo isso com a mesma naturalidade com que tinha abaixado num salão de um hotel em Garanhuns para perguntar o nome de um menino de 7 anos.

 Não havia cálculo naqueles gestos, não havia uma estratégia de legado, havia apenas a crença simples e inabalável de que a música do Nordeste era maior do que qualquer nome individual e que [a música] cuida dos talentos que vinham depois fazia parte do mesmo trabalho de cuidar da música que tinha abraçado quando era jovem. Esta história ensina-nos que reconhecer o talento de alguém e dizê-lo em voz alta pode mudar todo o rumo de uma vida.

 Luiz Gonzaga podia ter ouvido aquele som à porta do hotel. achado bonito e seguido o dia como se nada tivesse acontecido e ninguém teria cobrado nada. Mas ele parou, foi até ao menino, baixou-se até à altura dele e disse com todas as letras que aquilo que o menino transportava era real e merecia ser levado longe. Pense em quantas pessoas à sua volta carregam algo que nunca foi reconhecido em voz alta, que nunca ouviram de ninguém, que o que fazem vale a pena ser levado adiante.

 Uma frase dita no momento certo com a seriedade que o momento pede, pode ser a diferença entre um talento que se perde e um talento que torna-se dominguinhos. Não precisa ser Luiz Gonzaga a fazê-lo. Precisa apenas de ter a disposição de parar, ouvir de verdade e dizer o que está a ver antes que a pessoa na a sua frente desista de acreditar que o que transporta tem valor.

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