Raul Seixas estava no meio de Metamorfose Ambulante num espectáculo privado no Clube Mário Filho, no Rio de Janeiro, quando a porta do salão se abriu lentamente e entrou uma figura com chapéu de couro e gibão bordado. E o que aconteceu nos minutos seguintes naquele salão? Ninguém que estava presente esqueceu-se. Estávamos em 1982.
Raul tinha 37 anos e estava no centro de uma carreira que tinha reinventado a música brasileira de uma forma que ninguém tinha tentado antes. E o salão nobre do clube estava organizado com cadeiras em semicírculo. Um canto reservado para o conjunto, 40 convidados e aquela atmosfera de espectáculo intimista que faz qualquer música soar diferente do que sua.
Num grande palco, Raul tocava com aquela presença que não dependia do tamanho do local. A mesma energia que tinha num estádio estava ali naquele salão, e a pequena plateia respondia de perto com uma intensidade que só o espectáculo intimista permite. O que ninguém além do anfitrião e de duas pessoas da produção sabia era que Luís Gonzaga tinha sido convidado para aparecer nessa noite como surpresa e que estava a caminho do clube naquele preciso momento.
Raul Seixas tinha crescido em Salvador ouvindo Luís Gonzaga na rádio desde criança. E aquele som do sertão tinha entrado nele de uma forma que nunca mais saiu completamente, mesmo quando começou a construir uma carreira própria com uma identidade musical que era só dele. O Raul tinha falado publicamente sobre esta admiração em várias entrevistas ao longo dos anos.
Dizia que Luiz Gonzaga era uma das vozes que tinham formado o que ele era antes mesmo de saber que estava a ser formado por alguma coisa. E havia em tudo o que ele falava sobre o rei do baião, uma reverência que não era de um fã comum, era de alguém que reconhece numa obra anterior algo que ajudou a construir o que veio depois. O Luiz sabia dessa admiração.
Tinha ouvido o Raul falar dele em entrevistas ao longo dos anos e havia entre os dois o respeito silencioso de dois artistas que nunca tinham dividido um palco, mas que transportavam um no repertório do outro de formas que os dois reconheciam. Luiz Gonzaga tinha 69 anos nesse ano de 1982. Estava no Rio entre compromissos e quando recebeu o convite do anfitrião para aparecer de surpresa no concerto de Raul, aceitou sem hesitações, não por obrigação, mas porque havia algo naquele encontro que ele queria ver acontecer
tanto quanto o anfitrião queria organizar. Chegou ao clube com o chapéu de couro e o gibão bordado, entrou pela porta que um funcionário abriu sem questionar e ficou parado num corredor junto ao salão, ouvindo a música de Raul atravessar a parede com aquela clareza que só o som ao vivo tem. Ficou ali alguns minutos antes de entrar, ouvindo Raul tocar.
E havia naquela pausa algo que não era protocolo nem estratégia, era simplesmente o gesto de quem quer ouvir antes de aparecer, de quem respeita o momento que está a acontecer antes de fazer parte dele. Quando a porta do salão se abriu e Luiz Gonzaga entrou, os primeiros que viram foram os convidados que estiveram mais perto da entrada e a reação foi a mesma em todos.
Um segundo de imobilidade, seguido de um murmúrio baixo que começou a espalhar-se pelo salão sem que ninguém tivesse planeado espalhar. O chapéu de couro e o gibão bordado eram inconfundíveis e em 40 pessoas havia nordestinos que tinham crescido com aquela figura no imaginário da infância. Havia jovens que tinham chegado ao baião por outras formas.
Havia pessoas que nunca tinham pensado ver os dois no mesmo local numa mesma noite. Luís ficou parado perto da entrada com aquele calma de sempre, sem avançar para o centro do salão, sem chamar a atenção para a lenda que já estava a chamar só por existir, esperando o momento certo que ainda não tinha chegado.
Raul estava entregue à música, com os olhos semicerrados, quando o guitarrista ao lado deu um ligeiro toque no braço sem parar de tocar, e fez um gesto discreto em direção à porta. O Raul abriu os olhos, virou o rosto e viu. A figura de chapéu de couro e Giibão estava parada perto da entrada do salão com aquela postura ereta que qualquer brasileiro reconheceria num segundo.
E o Raul ficou por uma fração de segundo com a mão na guitarra e a voz no meio de um verso. Porque havia algo naquele momento que não cabia dentro do andamento da música e que pedia um tempo diferente para ser processado. Portanto, fez uma coisa que ninguém no salão esperava. parou a música, parando todo o conjunto junto num segundo e os 40 convidados ficaram em silêncio imediato a olhar para o palco sem compreender o que tinha interrompido metamorfose ambulante no meio, até que Raul virou-se para o microfone e disse o nome em voz alta para toda a sala ouvir.
Raul disse o nome com uma voz que não tinha nada do apresentador, calculando o efeito. Era a voz de alguém que estava genuinamente surpreendido, apesar de ter visto com os próprios olhos. como se dizer o nome em voz alta, fosse a única forma de confirmar que aquilo era real.
O salão inteiro virou o rosto para a porta ao mesmo tempo e Luís Gonzaga ficou parado perto da entrada com aquela expressão serena de sempre. O chapéu direito, os braços ao longo do corpo, sem qualquer gesto de chegada triunfal, apenas a presença que sempre teve e que não necessitava de qualquer movimento extra para preencher um espaço.
Raul largou a guitarra no suporte ao lado, desceu do palco improvisado com passos rápidos e foi em direção a Luís com aquela energia direta que era a sua marca, sem cerimónia, sem o protocolo de dois artistas se cumprimentando num evento, com a naturalidade de quem vai ao encontro de alguém que representa algo muito maior do que um colega de profissão.
Os 40 convidados ficaram parados a observar aquele encontro no meio do salão, como se soubessem que estavam a ver algo que não tinha ensaio e não se repetiria. Raul chegou junto de Luís, abriu os braços e os dois abraçaram-se no meio do salão com aquela qualidade de abraço que não é de apresentação, é de reconhecimento.
O encontro de dois corpos que transportam histórias que se tocam em algum ponto, mesmo sem se ter cruzado antes. Raul disse baixinho, quase ao ouvido de Luí, que tinha crescido a ouvir a sua voz e que não sabia o que dizer agora que estava de frente. O Luiz respondeu com aquela calma direta que era a marca dele. Depois não diz nada, toca.
O salão ouviu aquilo e reagiu com aquele murmúrio que as pessoas fazem quando algo simples chega a um lugar fundo sem pedir licença. Raul recuou um passo, olhou para o Luiz com uma expressão que misturava a alegria, com uma seriedade que nem sempre aparecia no rosto dele em público, e depois virou-se para o salão e perguntou em voz alta o que já todos estavam esperando que ele perguntasse.
Havia no rosto de Raul naquele momento algo que os convidados mais próximos reconheceram como raro, a expressão de alguém que construiu uma carreira inteira com autoconfiança e que de repente se encontra na presença de algo maior do que essa autoconfiança. Sem saber exatamente o que fazer com isso, o Raul perguntou se O Luís ia tocar.
O salão respondeu antes que o Luís pudesse responder, não com um grito, nem com aplauso, mas com aquele silêncio expectante que é mais alto do que qualquer ruído, porque diz exatamente o que toda a gente está a sentir sem que ninguém precise abrir a boca. O Luiz olhou para o conjunto de músicos que ainda estava em palco improvisado, olhou para o espaço do salão e disse que sim, mas que ia precisar de uma concertina.
O anfitrião António, que estava parado a um canto do salão, com uma expressão de quem estava a viver o momento que tinha planeado durante meses e que estava a ser melhor do que tinha imaginado, deu um sinal a um dos funcionários do clube, que saiu pela porta lateral e voltou em menos de 2 minutos com uma concertina que tinha sido deixada em guarda naquela noite, especificamente para aquele momento, porque o António tinha pensado em cada detalhe, com o cuidado de quem não admite que uma surpresa bem Bem, planeada fale por falta de preparação.
O salão inteiro ficou a olhar para Acordeão ser entregue nas mãos de Luís Gonzaga, como se estivesse a ver um objeto encontrar o lugar onde sempre deveria ter estado. Luiz pegou na acordeão, encaixou os braços com aquela naturalidade de quem está a colocar algo de volta ao lugar certo, sentiu o peso do Fle, premiu algumas teclas e ficou um momento em silêncio no centro do salão, com os olhos baixados.
Raul ficou ao lado, a guitarra de volta nas mãos, olhando para Luís com uma atenção que os convidados mais próximos descreveram depois como a de um aluno que está prestes a ver alguma coisa que estudou a vida inteira, mas nunca tinha visto de perto. Os músicos do conjunto ficaram nos seus lugares, no palco improvisado, sem saber exatamente o que ia acontecer a seguir, porque não havia combinação, não havia setlist, não existia qualquer planeamento para além do facto de Luís Gonzaga e Raul Seixas estavam de pé no mesmo
salão com instrumentos nas mãos e 40 pessoas que esperam em silêncio. Havia uma qualidade naquele momento que todos os sentiam, mas que ninguém conseguiria descrever com precisão depois a qualidade de algo que está prestes a acontecer pela primeira e única vez e que todos os presentes sabiam instintivamente que não voltaria.
Luís olhou para o Raul, o Raul olhou para o Luiz e sem que qualquer palavra fosse trocada, Luiz iniciou os primeiros acordes de asa branca. O salão respondeu de imediato, não com aplauso, mas com aquele silêncio absoluto que é a maior resposta que um música pode receber. O silêncio de 40 pessoas que deixaram de respirar ao mesmo tempo sem combinar.
O Raul ficou parado por um segundo, ouvindo aqueles primeiros acordes com os olhos fechados e depois entrou com a guitarra de um forma que ninguém no salão esperava, não sobrepondo-se, não concorrendo, mas encontrando dentro daquela melodia um espaço que parecia ter sido ali deixado especificamente para ele, como se Asa Branca sempre tivesse tido aquela parte e só estivesse à espera daquela noite para a mostrar.
Os músicos do conjunto foram entrando um a um. O O salão do Clube Mário Filho ficou completamente quieto e havia em cada rosto presente uma expressão que não era de público a assistir a um concerto, era de testemunha perante algo que sabia que não se repetiria e que, por isso mesmo, precisava de ser guardado com cuidado dentro de si antes que a noite terminasse.
Nessa noite, os 40 convidados saíram do Clube Mário Filho, sabendo que tinham visto algo que não se repetiria, e a forma como saíram dizia tudo sobre o que tinham vivido. devagar em grupos pequenos, a falar baixo, como pessoas que acabaram de sair de um local sagrado e ainda estão a carregar o peso do que ficou lá dentro.
Nos dias seguintes, a história correu o Rio de Janeiro, com aquela velocidade que só os acontecimentos únicos têm. E o que chamava a atenção em todos os relatos era o mesmo pormenor, um momento em que Raul tinha parado metamorfose ambulante no meio e dito o nome e o momento em que os dois tinham tocado asa branca juntos, sem qualquer ensaio, sem qualquer combinação prévia, como se a música conhecesse o caminho sozinha e necessitasse apenas dos dois para andar.
Músicos que ouviram a história de segunda mão diziam que dariam tudo para ter estado naquele salão nessa noite. Não pelo espetáculo, mas pela raridade daquele tipo de encontro que acontece uma vez e deixa uma marca que não tem como ser apagada pelo tempo. O anfitrião António Melo nunca falou sobre aquela noite em nenhuma entrevista, não porque quisesse guardar para si, mas porque havia coisas que perdem algo quando são contadas por quem as organizou. e ele sabia disso.
Raul Seixas falou sobre essa noite algumas vezes ao longo dos anos seguintes, sempre com uma economia de palavras que não era característica dele quando o assunto era música. Dizia que tinha tocado em muitos lugares e com muitas pessoas, mas que naquela noite no clube tinha sido diferente de tudo, porque não havia palco separando ninguém de ninguém, não havia distância entre quem tocava e quem ouvia, e que tocar asa branca ao lado de Luís Gonzaga num salão de 40 pessoas tinha sido a experiência mais próxima
que tinha tido na vida do motivo pelo qual tinha começado a fazer música. Luiz Gonzaga, quando questionado sobre aquela noite em entrevistas, respondia com aquela simplicidade direta que era a marca dele. Dizia que tinha ido porque queria, que tinha tocado porque a música pediu e que o Raul tinha entrado em asa branca com a guitarra de uma forma que não tinha previsto, mas que tinha sido exatamente certo.
Como quando alguém completa uma frase que lhe começou sem saber que estava a ser completada. Os dois morreram no mesmo mês de agosto de 1989, com 20 dias de diferença. E quem conhecia a história daquela noite no clube sentiu aquela coincidência de um maneira que não tinha explicação fácil, mas que também não precisava de nenhuma.
O que aquela noite revelou foi algo que António Melo tinha intuído quando decidiu juntar os dois num mesmo salão, que os artistas que chegam à verdade por caminhos diferentes têm muito mais a dizer um ao outro do que os artistas que chegam pelo mesmo caminho. Raul e Luiz eram de gerações diferentes, de universos musicais que a maioria dos pessoas não colocaria na mesma frase.
E foi exatamente por isso que quando tocaram juntos, o que saiu foi algo que nenhum dos dois teria conseguido fazer sozinho. Asa branca com guitarra eléctrica num salão de um clube no Rio de Janeiro, em 1982, não estava no guião de ninguém. E foi a coisa mais verdadeira que aconteceu nessa noite, exatamente por isso, porque a verdade raramente está no guião.
É no momento em que duas as pessoas param o que estão fazendo e decidem encontrar o que têm em comum antes de defender o que a separa. E o que ficou dessa noite não foi gravado em nenhum disco e não existe em nenhum ficheiro. Existe apenas na memória de 40 pessoas que estiveram num salão de clube no Rio de Janeiro e viram acontecer algo que não tinha nome, mas que todos reconheceram como verdadeiro.
Esta história ensina-nos que as ligações mais inesperadas são muitas vezes as mais verdadeiras. Raul Seixas e Luís Gonzaga vinham de mundos musicais que o senso comum colocaria em lados opostos. E, no entanto, quando estiveram no mesmo salão, o que aconteceu foi uma harmonia que ninguém tinha planeado e que todos reconheceram imediatamente como real.
Há pessoas na sua vida neste momento que parecem distantes de tudo o que lhe é, que chegaram à vida por caminhos completamente diferentes dos seus, que ouvem música que nunca ouviria e vem o mundo por ângulos que parecem não ter nada a ver com o seu. E é exatamente nestas pessoas que muitas vezes é o encontro mais importante que lhe ainda não teve.
Porque quando dois mundos diferentes se tocam verdadeiramente, o que nasce entre eles não é de nenhum dos dois. É algo novo que só existe porque os dois estiveram no mesmo lugar ao mesmo tempo e decidiram tocar juntos sem ensaio. Os dois morreram no mesmo mês de Agosto de 1989, com 20 dias de diferença. E quem conhecia a história daquela noite no clube sentiu aquela coincidência de um maneira que não tinha explicação fácil, mas que também não precisava de nenhuma, porque havia entre os dois uma ligação que o tempo não tinha como desfazer. Se
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