Luiz Gonzaga “o Rei do Baião”: adorado pelo Brasil, odiado pelo filho que abandonou.u

Luiz Gonzaga “o Rei do Baião”: adorado pelo Brasil, odiado pelo filho que abandonou. l

1987, Rio de Janeiro,  o Maracananzinho lotado. No palco, um homem de chapéu de couro e acordeão no colo. Ao lado, um homem mais novo com o microfone na mão, pai e filho. Juntos num palco pela primeira e única vez na vida. A plateia não sabia o peso daquele momento. A maioria das pessoas ali havia comprado o bilhete para ver música.

 Não sabia que estava prestes a assistir a alguma coisa que não tem nome fácil. Quando a música começou, Gonzaguinha virou a cara para o lado, olhou para o pai e começou a  chorar. Não foi um choro de emoção de artista. Não foi o choro de quem está emocionado com a própria performance.

 Foi um choro de 30 anos de silêncio, desfazendo-se de uma vez só  no meio de um palco com o Brasil a assistir. Para entender porque aquelas lágrimas pesavam tanto, é preciso voltar ao início, não ao início de um, ao início dos dois. E antes de continuar, deixa-me dizer-te o que vai ver nos próximos minutos.  Vais entender por Luís Gonzaga, o homem que pôs o Nordeste no mapa cultural do Brasil, abandonou o próprio filho e fingiu durante décadas que ele não existia.

 Você vai acompanhar este filho crescendo sozinho com o apelido mais pesado do forró no peito e nenhum pai em casa. Se ainda não subscreveste o canal, faz isso  agora. Carrega no botão aqui em baixo e ativa o sininho e deixa o teu like. É a única forma de garantir que vai receber os próximos vídeos. Fica até ao fim. Exu, Pernambuco, 1912.

O sertão nordestino não era cenário, era personagem. A seca rachava a terra, rachava as famílias, rachava os sonhos antes que tivessem tempo de virar plano. Luís Gonzaga do Nascimento nasceu no meio de tudo isto, filho de Januário, um acordeonista que tocava nas festas do interior para ganhar uns trocos. Desde pequeno que Luís ficava a olhar para o pai tocar e pensava que queria que  para si.

 Não, a vida sofrida do sertão, a música, a concertina, o poder de fazer uma multidão parar e ouvir. Aos 16 anos, ele foi-se embora. Simplesmente foi, sem dinheiro, sem plano,  sem destino certo. Andou o Nordeste inteiro tocando em feiras, em festas, em qualquer sítio que pagasse alguma coisa. Anos mais tarde, chegou ao Rio de Janeiro.

Um nordestino a mais numa cidade que não queria saber de nordestinos. Sotaque errado, roupa errada, música errada. Mas Gonzaga não tinha por hábito aceitar o que os outros achavam que era certo ou  errado. E foi exatamente essa teimosia que o salvou e que mais tarde, quando aplicada a outras situações, ia custar caro.

 Porque enquanto Gonzaga conquistava o Rio de Janeiro centímetro por centímetro, enquanto aprendia a navegar numa cidade que não foi feita para ele, enquanto tocava em bares e esquinas  e tentava furar o mercado discográfico, que não via espaço para um acordeonista do sertão, no mesmo Rio de Janeiro, em 1945, uma mulher chamada Odaleia descobriu que estava grávida.

 O pai da  criança era Luís Gonzaga, que naquela época já começava a surgir no cenário musical carioca. Gonzaga soube da gravidez e foi-se embora. Não houve qualquer briga registada, não houve cena documentada, houve o que às vezes é mais pesado do que qualquer briga. Houve ausência. Houve um homem que simplesmente não ficou.

 Odaleia criou o filho sozinha num Rio de Janeiro que não era fácil para ninguém, muito menos para uma mãe solteira nos anos 40. Quando ser mãe solteira tinha um peso social que hoje é difícil de dimensionar completamente. A criança nasceu e recebeu o nome de Luís Gonzaga do Nascimento Júnior, o apelido do pai que não estava lá.

 Quando o menino cresceu e começou a compreender o mundo ao redor, começou a compreender também  o tamanho do nome que carregava. Luiz Gonzaga não era uma pessoa qualquer, era o rei do baião. Era o homem que o Brasil inteiro conhecia. E quando os Os colegas de escola perguntavam se ele era filho daquele Gonzaga, o menino não sabia bem o que responder, porque na prática tinha o nome do pai, tinha o apelido, tinha a herança, tinha o peso de uma identidade construída em cima de uma ausência. Só não tinha o pai.

 E essa diferença entre carregar um nome e ter uma presença entre ser filho no papel e ser filho na vida, ia moldar tudo o que vinha pela frente de uma forma que nenhum dos dois conseguia ainda ver. Em 1946, Luiz Gonzaga gravou Baião com Humberto Teixeira e o Brasil nunca mais foi o mesmo. Não é exagero.

 Antes de Gonzaga, o Nordeste era invisível na cultura nacional. Existia na pobreza, existia na migração, existia no sofrimento silencioso de milhões de pessoas que saíam do sertão para tentar a vida nas grandes cidades e chegavam sem ser vistos. Gonzaga colocou este povo no rádio, colocou o sutaque, a concertina, a zabumba, o triângulo.

 Colocou a saudade da terra a um ritmo que fazia com que o corpo  querer dançar enquanto o coração doía. Asa Branca veio em 1947 e tornou-se mais do que uma música. Virou o hino de todo o nordestino que algum dia precisou de ir embora sem querer. A letra falava de seca, de despedida,  de frágil esperança.

 falava de algo que metade do Brasil conhecia na própria pele. Gonzaga não era apenas um artista, era um  espelho. E o Brasil, pela primeira vez, viu-se naquele espelho e reconheceu algo que tinha vergonha de admitir, que sentia saudades. O chapéu de o couro tornou-se um símbolo, a concertina tornou-se símbolo, o homem tornou-se um símbolo.

 Nos anos 50, ninguém era maior do que Luís Gonzaga no coração do povo nordestino. Ele era o rei e acreditava que  com uma convicção que não deixava margem para a dúvida, nem espaço para a culpa, nem espaço para um filho que crescia do outro lado da cidade, carregando o seu nome sem ter a sua presença.

 Esse filho cresceu e quando chegou a hora de escolher o que fazer da vida, Luís Gonzaga Júnior escolheu a música. Talvez fosse inevitável,  talvez fosse destino, talvez fosse uma tentativa inconsciente de chegar perto do  pai por um caminho que o pai não podia ignorar. Mas se era para ser músico, não ia ser igual ao pai.

 Gonzaguinha foi pro lado oposto  com uma determinação que dizia muita coisa sobre quem ele era. Enquanto o pai tocava baião e forró, o filho mergulhou na MPB. Enquanto o pai cantava o sertão, o filho cantava o Brasil urbano, político, sufocado pela ditadura militar que havia tomado o poder em 1964. Gonzaguinha tornou-se compositor, tornou-se intérprete, tornou-se voz de uma geração que queria mudar o país e não podia dizer isso em voz alta.

 As suas músicas tinham duplo sentido, tinham uma poesia carregada,  tinham uma raiva elegante que os sensores demoravam a compreender, mas acabavam sempre por entender. E numa destas músicas, entre metáforas e versos cuidadosos, havia algo que soava pessoal demasiado para ser apenas arte. Havia uma dor específica, a dor de quem cresceu olhando para o lado e não encontrou ninguém lá. Gonzaga ouviu esta música.

 O rei do baião, no auge do seu reinado, ouviu o filho que tinha deixado para trás transformar a ausência dele em canção e ficou em silêncio. Ninguém sabe exatamente o que lhe passou pela cabeça naquele momento, mas o silêncio durou menos do que os 30 anos anteriores. Algo tinha começado a se mover. No final dos anos 50, o Brasil mudou  de gosto.

 A bossa nova chegou com o João Gilberto, Tom Jobim e uma sofisticação que fazia o baião parecer coisa do passado para uma parcela da elite cultural carioca. Depois veio a Jovem Guarda com Roberto Carlos, depois a Tropicalha com Caetano e Gil. O país estava em convulsão cultural e no meio de tudo isto, Luís Gonzaga foi ficando para trás.

 Não de uma só vez, aos poucos, como a maré que sobe imperceptivelmente até que de repente a água está no pescoço. O rádio deixou de tocar,  as editoras discográficas deixaram de ligar, os grandes concertos foram desaparecendo e o homem, que tinha sido o rei do baião, que tinha colocado o Nordeste no mapa cultural do Brasil, foi parar aos circos, nas feiras do interior, nas festas de pequena cidade, onde ainda havia gente que se lembrava do que tinha sido.

era humilhante de uma forma que ninguém comentava em voz alta. Gonzaga era demasiado orgulhoso para se queixar, mas todos os que estavam por perto sabiam. O rei estava sem reino. E nesse mesmo período, enquanto Gonzaga descia, o filho que tinha abandonado subia. Gonzaguinha crescia em visibilidade, em respeito, em presença.

 A ironia era cruel e silenciosa. O pai no esquecimento, o filho a emergir,  os dois ainda sem se falarem. Mas a ditadura não deixou Gonzaguinha subir sem cobrar o preço. As suas músicas foram censuradas, algumas foram proibidas de tocar na rádio. Ele foi chamado a prestar esclarecimentos. Viveu sob vigilância num país onde artistas desapareciam, onde os espetáculos eram cancelados por ordem do governo, onde a a criatividade tinha de se dobrar para sobreviver.

 Gonzaguinha insistiu em continuar a ser quem era. Pagou o preço e enquanto pagava esse preço, lá no interior do Brasil, em feiras e circos empoeirados, Gonzaga pagava também o seu. Dois homens a serem esmagados por forças diferentes ao mesmo tempo, um pelo mercado, o outro pelo estado, um que tinha partido, o outro que tinha ficado sem ter escolhido ficar.

 E foi exatamente aí, no fundo do poço dos dois, que algo começou a mudar. Porque a queda faz o sucesso nunca consegue. A queda abre frestras e pelas frestras entram as questões que o orgulho mantinha do lado de fora. No início dos anos 70, um grupo de jovens artistas Os nordestinos decidiram que era hora de resgatar o que o mercado tinha descartado.

 O movimento harmorial, liderado  por Ariano Suassuna, começou a valorizar a cultura popular nordestina como arte legítima,  como identidade, como resistência. E com isso veio o resgate de Gonzaga. Jovens que na infância ouviam o pai tocar as Asa Branca, agora iam aos espectáculos, compravam os  discos, falavam o seu nome com reverência.

 O rei voltou. Não do mesmo modo.  Era uma volta diferente, mais consciente, mais carregada de significado histórico. E Gonzaga voltou diferente também. Havia passado anos no fundo do poço, tinha aprendido a humildade da forma mais dura. E com a humildade veio uma clareza de que o sucesso tinha impedido durante décadas, a clareza de que havia uma conta aberta, um filho que existia, um silêncio que tinha durado tempo demais.

 Gonzaga começou a mencionar Gonzaguinha em entrevistas, com cuidado com a cautela de quem sabe que qualquer palavra pode ser mal interpretada.  E Gonzaguinha, do outro lado, também fazia os seus movimentos.  Havia raiva. Era impossível que não houvesse raiva. 30 anos de ausência não desaparecem com boa  vontade, mas havia também algo que a raiva não conseguia apagar.

 A curiosidade de conhecer o homem, não o mito, não o rei do baião, o homem que era o seu pai. Gonzaga começou a mencionar Gonzaguinha em entrevistas, devagar,  com cuidado, com a cautela de quem sabe que qualquer palavra pode ser mal interpretada e que o Brasil estava observando.

 E Gonzaguinha, do outro lado também fazia os seus movimentos. Havia raiva. Era impossível que não houvesse raiva.  30 anos de ausência não desaparecem com boa vontade ou com o passar do tempo. A raiva estava lá,  construída ao longo de uma infância inteiro sem pai, de uma adolescência carregando um apelido pesado, de uma vida adulta tendo que responder perguntas sobre um homem que não tinha estado lá para nada.

 Mas havia também algo que a raiva não conseguia apagar completamente. A curiosidade de conhecer o homem, não o mito, não o rei do baião que o Brasil reverenciava, o homem que era o seu pai, o homem que tinha tomado uma decisão há décadas e que havia passado o tempo todo a carregar essa decisão de uma forma que Gonzaguinha não podia ver de fora, mas que intuía que existia.

 O reencontro real entre os dois não foi um momento único e cinematográfico. A vida raramente o oferece. Foi um processo. Encontros curtos que foram ficando mais longos, conversas que foram tornando-se mais honestas na medida em que os dois foram percebendo que o tempo de fingir que estava tudo bem era mais curto do que o tempo que restava para dizer o que era necessário dizer.

 Gonzaga era do sertão. Era direto nas coisas práticas e indireto nas coisas emocionais. era orgulhoso de uma forma que tornava qualquer admissão de erro um exercício de enorme custo interno. Gonzaguinha tinha sido criado na cidade, tinha sido forjado pela MPB  e pela resistência política, era mais articulado com as palavras, mais habituado a transformar o sentimento em linguagem, porque tinha passado a vida fazendo exatamente isso nas músicas.

eram diferentes de uma forma que tornava a conversa difícil, mas eram parecidos de uma forma que tornava a conversa inevitável. Os dois adoravam música com uma intensidade que ultrapassava a profissão e chegava a alguma coisa que se parecia com identidade, com razão de existir.

 Os dois transportavam o Nordeste dentro de si, um por ter nascido no sertão  e passado à infância ouvindo o vento e a concertina do pai. O outro, por o ter herdado sem nunca ter pisado na terra do Pai,  transportando uma herança que era abstrata, mas não era menos real. E os dois sabiam, sem terem de dizer em voz alta que o tempo estava a passar e que deixar para mais tarde era um risco que nenhum dos dois podia mais dar-se ao luxo de correr.

 Em entrevistas dessa época, Gonzaguinha falou do pai com uma honestidade que desarmava qualquer que esperasse só raiva ou só perdão, como se os sentimentos humanos fossem suficientemente simples para caber numa destas duas categorias. Ele disse que tinha crescido com a ausência como presença constante, que a ausência havia moldava quem ele era, tanto quanto a presença moldaria qualquer filho,  só de uma forma diferente, um forma que exige que construa sozinho as coisas que deveriam ter vindo prontas. disse que houve momentos em que

sentia falta de algo que nunca tinha tido, o que é um tipo de saudade particularmente cruel, porque não tem memória concreta para se apoiar. Não tem uma imagem do pai à mesa do jantar. Não tem uma recordação de voz ou cheiro ou gesto. Só o vazio do que poderia ter sido e que nunca foi. Mas disse também que tinha chegado a um ponto em que precisava de decidir se ia carregar aquilo para o resto da vida ou se ia tentar construir algo diferente com o tempo que ainda havia.Rio Memórias

 Não por Gonzaga, por si mesmo. Porque carregar uma mágoa durante décadas é um peso que se paga. Não quem te magoou. O perdão quando veio não foi ingénuo,  não foi esquecimento, foi uma escolha adulta feita com os olhos completamente abertos, sabendo exatamente o que tinha acontecido e escolhendo não deixar que aquilo defina o resto da história.

Do outro lado dessa mesma conversa, Gonzaga falava do filho com uma mistura de orgulho e embaraço que aparecia no rosto antes das palavras conseguirem chegar. Orgulho porque Gonzaguinha tornara-se um artista extraordinário por conta própria, sem ajuda, sem o nome do pai como trampolim, na verdade, muitas vezes transportando o nome do  pai como um peso que outros artistas não teriam de carregar.

tinha chegado onde tinha chegado, apesar de tudo, não por causa de tudo. E constrangimento, porque Gonzaga sabia, sabia o que tinha feito, sabia o que tinha deixado de fazer, [a música] sabia o tamanho do que tinha custado ao filho, a decisão que tomara décadas atrás, com a irresponsabilidade de quem ainda não compreendia o que aquela decisão iria custar.

 carregava isso com a dignidade contida de quem não se vai ajoelhar em público, mas também não vai fingir que está  tudo bem, porque fingir seria pior do que o silêncio. Quando perguntaram sobre o filho numa entrevista, Gonzaga fez uma pausa longa, o tipo de pausa que diz mais do que qualquer resposta poderia dizer.

 E depois disse que o Gonzaguinha  era um grande artista, que tinha orgulho, eram poucas palavras, mas vinham de um lugar que qualquer pessoa que o conhecia sabia que era fundo. E então veio 1987,  o espectáculo no Maracananzinho, o palcão onde tudo aquilo que tinha sido construído em particular, nas conversas curtas que foram ficando mais longas, nos encontros cuidadosos entre dois homens aprendendo a conhecerem-se tarde demais e cedo o suficiente, ganhou forma pública.

 Pai e filho no mesmo palco a cantarem juntos, mostrando ao Brasil que havia uma história ali que não era só de abandono e silêncio, era também de volta, de algo que tinha sido recuperado com esforço e honestidade,  e escolha consciente de não deixar que o passado seja a única história. Quando Gonzaguinha chorou, chorou por tudo isto ao mesmo tempo, pela infância  sem pai, pelos anos de raiva legítima, pelo processo lento e por vezes doloroso de se aproximar de um estranho que tinha o mesmo sangue e o mesmo

apelido, pelo orgulho de estar ali naquele palco, tendo ali chegado por conta própria, sem precisar do pai para construir quem [a música] era ou o que havia feito. e talvez pela percepção que só chega quando a perda está suficientemente próxima para ser sentida, de que o tempo que restava era finito. Gonzaga tinha 75 anos.

 Não havia mais décadas pela frente, havia o agora. E o agora era esse palco, essa música, este choro que o Brasil inteiro viu e que poucos na plateia compreenderam completamente. Você viu este choro no início deste vídeo e provavelmente pensou que era a emoção de artista. Agora já sabe o peso exato do que era.  Depois de 1987, pai e filho viveram uma proximidade que nunca tinha existido antes.

 Não era a relação de pai e filho que começa no berço e constrói-se dia a dia durante décadas de pequenos momentos acumulados. Era outra coisa. Eram dois adultos, dois artistas, dois homens que tinham vivido vidas inteiras separados e que agora tentavam perceber o que fazer com os anos que ainda havia. Havia afeto real, havia respeito mútuo, que não era o respeito forçado de quem está a fazer as pazes por obrigação social ou por medo do julgamento alheio.

Gonzaga falava de Gonzaguinha com um brilho nos olhos que as pessoas que estavam por perto nessa altura descrevem de uma forma parecida. E Gonzaguinha continuava a ser quem sempre tinha sido, independente,  dono de uma voz e de uma carreira que eram completamente suas, mas com uma camada a mais que só aparece em quem resolveu algo que parecia irresolvível e descobriu do outro lado uma leveza que não esperava encontrar.

Em 2 de agosto de 1989, Luiz Gonzaga morreu no Recife, tinha 76 anos. O Brasil parou. Não é figura de linguagem. O Nordeste  inteiro, os nordestinos espalhados por todo o país, as gerações que tinham crescido ouvindo asa branca, saindo do rádio da sala ou da cozinha. Tudo aquilo se manifestou num luto coletivo que mostrava o tamanho exato do que tinha partido.

 Gonzaguinha estava lá no velório, no funeral, com uma expressão que as fotos preservaram e que misturava a perda de qualquer filho que perca o pai com algo mais específico. O fecho de uma história que havia durou décadas  e que tinha terminado de um jeito que não era perfeito. que histórias assim nunca terminam de uma forma perfeita, mas que tinha terminado com algo resolvido.

O pai tinha partido, mas tinha partido depois do palco de 1987, depois do choro, depois de alguma coisa ter sido dito entre os dois que o mundo nunca saberá ao certo o que foi, mas que estava escrito no rosto dos dois naquelas fotos de 1987. Menos de 2 anos depois, a 29 de abril de 1991, Morreu Luís Gonzaga do Nascimento Júnior num acidente de viação na Via Dutra.

tinha 45 anos. O Brasil levou um choque de natureza diferente do que havia levado com Gonzaga. Era demasiado jovem, era cedo demais, era uma carreira que tinha ainda muito pela frente, muito a dizer, muitas canções por escrever. Gonzaguinha tinha gravado mais de 20 álbuns, tinha escrito canções que entraram para a história da música brasileira, tinha vivido com uma intensidade que tornava os 45 anos maiores do que a idade costuma ser.

 Mas a morte não negoceia com intensidade, nem com talento, nem com o quanto ainda havia para ser feito. A Via Dutra não sabia quem estava naquele carro. E assim terminou a história dos dois, pai e filho, separados por décadas de silêncio, aproximados por uma janela de tempo que foi curta, mas que existiu, e os partidos com menos de dois anos de diferença, como se houvesse uma lógica cruel, mas precisa nisso tudo.

 Como se o tempo tivesse dado exatamente o espaço necessário para eles resolverem o que precisava de ser resolvido e depois cobrado a conta dos dois quase ao mesmo tempo. Gonzaga cantou a saudade do Nordeste para um Brasil inteiro que precisava ouvir aquilo e que às vezes não sabia que precisava até ouvir.

 Cantou a seca, a despedida, a esperança de regresso que dependia da chuva  e de Deus e de coisas que ninguém controla. Milhões de pessoas se reconheceram naquelas músicas porque falavam de algo universal por baixo do regional. falavam de perda, de saudade, de querer voltar a um lugar que já não existe da maneira que deixou, porque os lugares mudam  e tu mudas e o tempo não pára nenhum dos dois.

Gonzaguinha cantou outra coisa. Cantou a cidade, a resistência, a raiva elegante de quem não aceita o mundo da forma que está. Cantou também nas entrelinhas,  ao longo de toda uma carreira, a ausência, a pergunta que um filho faz quando o pai não está e que nunca tem uma resposta completamente satisfatória, porque não existe uma resposta completamente satisfatória para tal.

 Os dois deixaram músicas que continuam a tocar porque continuam verdadeiras. A seca do sertão ainda existe, a ausência paterna ainda existe, a saudade ainda existe. E 1987 ainda existe. Gravado em vídeo, disponível para quem quiser ver um homem de 42 anos, olhar para o lado, ver o pai que nunca teve da forma que precisava e chorar com a força de tudo o que não foi dito há tempo, mas que ainda assim no final de alguma forma foi.

Tiveram menos de 10 anos de paz depois de  décadas de silêncio. Não é o final que queríamos para esta história, mas é o único que existiu. E talvez seja por isso que esta história ainda importa, porque ela não acaba bem do jeito fácil. Ela termina bem do jeito difícil, do único jeito que a vida real permite.

 Se tem alguém na sua vida com quem ainda não resolveu as contas, não espera.  Gonzaga e Gonzaguinha tiveram a sorte de terem tido o tempo que tiveram. Nem todo o mundo tem essa sorte. Se este vídeo te tocou, deixa o like agora. Compartilha no seu grupo de família no WhatsApp, envia para quem precisa de ouvir esta história.

 E se ainda não está inscrito, inscreve e ativa o sininho. A próxima história também vai valer a pena.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *