O Reencontro Histórico: A Educação como Ponte sobre o Atlântico
Em um momento em que a geopolítica internacional atravessa tensões profundas e reconfigurações complexas, Brasília tornou-se o cenário de um marco histórico para as relações diplomáticas e educacionais entre o Sul Global. Durante o Primeiro Fórum Brasil-África de Reitores, que reuniu 70 dirigentes de universidades brasileiras e 64 reitores vindos de mais de 30 nações africanas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva proferiu um discurso contundente, de forte teor emocional e político. A data escolhida não poderia ser mais simbólica: o Dia da África, celebração que marca a criação da União Africana e serve como um lembrete urgente dos laços indissociáveis que unem o Brasil ao continente africano.
Em sua fala, que transitou entre o resgate da memória histórica, o anúncio de investimentos estratégicos e duras críticas ao cenário global atual, Lula defendeu que a reaproximação com a África não é apenas uma escolha de política externa, mas um imperativo ético e moral. O presidente lamentou o afastamento diplomático ocorrido em anos anteriores e garantiu que seu terceiro mandato está integralmente comprometido em consolidar o Brasil como um parceiro de primeira hora das nações africanas. Para ele, a educação e o compartilhamento de conhecimento científico são as ferramentas definitivas para que os países em desenvolvimento alcancem a soberania e enfrentem as ameaças contemporâneas, como a fome, as mudanças climáticas e o avanço da extrema-direita.
A Dívida Histórica e o Processo de Descolonização Cultural
O ponto de partida do pronunciamento presidencial foi o reconhecimento aberto e honesto da formação social e cultural brasileira. Lula enfatizou que o Brasil possui uma dívida histórica impagável com o continente africano, decorrente de 350 anos de regime escravocrata que arrancou milhões de seres humanos de suas terras natais para erguerem, com sangue e sofrimento, as bases da nação brasileira.
“A coisa mais extraordinária que resultou desses 350 anos de escravidão, com o sofrimento dos escravos africanos, foi a possibilidade da miscigenação do nosso povo”, afirmou o presidente.
Essa fusão cultural entre matrizes africanas, povos indígenas e, posteriormente, imigrantes europeus, moldou a identidade única do Brasil. No entanto, o presidente alertou para as sequelas psicológicas e sociais que o processo colonizador deixou na mentalidade do país, onde, muitas vezes, a própria população se enxerga com menos valor do que realmente possui.
Lula traçou um paralelo direto entre a colonização sofrida pela América Latina e a partilha colonial que assolou a África sob o domínio de potências europeias como França, Inglaterra e Portugal. Ele destacou que a dominação não se restringiu à exploração econômica, mas operou uma profunda “escravização cultural e educacional”. Países africanos que outrora eram plenamente autossuficientes na produção de alimentos foram desestruturados para se tornarem dependentes das metrópoles colonizadoras. Da mesma forma, o sistema educacional brasileiro foi, por séculos, desenhado para perpetuar a visão de mundo dos colonizadores. É contra esse apagamento histórico que o atual governo propõe uma reeducação baseada no respeito mútuo e na exaltação da grandeza africana.
A Centralidade da África no Século XXI e os Cinco Eixos Estruturantes
Olhar para a África, segundo os dados demográficos e econômicos apresentados, significa olhar diretamente para o futuro do planeta. Projeções indicam que, até o ano de 2050, uma em cada quatro pessoas no mundo será de origem africana. Trata-se de um continente caracterizado pela juventude, pela capacidade de inovação e por uma diversidade cultural vibrante, fatores que abrem um horizonte de possibilidades extraordinárias para a economia global.
Desde que reassumiu a presidência em 2023, Lula colocou o continente africano no topo das prioridades da política externa brasileira, realizando visitas oficiais a países como África do Sul, Angola, Cabo Verde, Egito, Etiópia, Moçambique e São Tomé e Príncipe, além de receber diversas lideranças em solo nacional durante as cúpulas do G20, dos BRICS e nos preparativos para a COP30.
Como desdobramento da cúpula de líderes realizada em Bogotá, o governo brasileiro estabeleceu cinco eixos estruturantes para guiar a cooperação internacional com a região:
O combate implacável à fome e à pobreza através da transferência de tecnologia agrícola.
O enfrentamento urgente das mudanças climáticas, unindo os esforços de preservação ambiental.
A aceleração da transição energética, aproveitando o potencial em energias renováveis de ambas as regiões.
A democratização da inteligência artificial, combatendo os monopólios tecnológicos.
A integração de cadeias produtivas, para evitar que os países do Sul Global continuem sendo meros exportadores de matéria-prima bruta.
O Alerta contra a Extrema-Direita e a Defesa da Autonomia Universitária
Um dos momentos mais contundentes do discurso foi o alerta sobre a escalada global da extrema-direita e seus ataques sistemáticos às instituições de ensino superior. Lula argumentou que a educação é a principal arma para a emancipação social e que, por essa razão, governos e movimentos de caráter autoritário enxergam a universidade como uma ameaça direta aos seus projetos de poder.
De acordo com o presidente, a extrema-direita não tolera a autonomia universitária porque teme a construção da consciência crítica. Esses movimentos tentam calar professores, inibir a diversidade dentro dos campi, censurar manifestações artísticas e negar as evidências científicas, transformando as salas de aula em meros instrumentos de dominação ideológica.
O presidente defendeu que o pensamento crítico deve caminhar lado a lado com a luta anticolonial, o combate ao racismo, à misoginia, à xenofobia e a todas as formas de discriminação. Nesse cenário, as universidades públicas devem permanecer firmes como bastiões de resistência cultural e científica, preservando o legado de líderes como Nelson Mandela, que imortalizou a frase de que a educação é a arma mais poderosa para transformar o mundo.
Inclusão Social e o Legado da Expansão Universitária no Brasil
Ao analisar as barreiras históricas de acesso ao ensino, Lula relembrou as transformações estruturais promovidas no Brasil durante os seus mandatos anteriores e na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff. No início dos anos 2000, o cenário educacional brasileiro era alarmante: menos de 7% da população possuía diploma de ensino superior, um índice inferior ao de muitos países africanos na atualidade, onde a média de ingresso de jovens na universidade gira em torno de 9%.
O presidente ironizou o fato de que foi necessário um operário metalúrgico, sem diploma universitário, chegar ao poder para que a educação superior deixasse de ser um privilégio de elites e se tornasse um direito acessível à classe trabalhadora. Através de políticas públicas arrojadas, foram criadas 20 novas universidades federais, 192 novos campi avançados e 564 institutos federais de educação técnica.

A implementação das políticas de cotas raciais e sociais revolucionou o perfil das universidades públicas, tornando-as um reflexo fiel da diversidade do povo brasileiro. Complementarmente, a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira na educação básica resgatou o orgulho e a ancestralidade de milhões de estudantes. Graças a essas ações, o percentual de brasileiros com diploma universitário triplicou, atingindo a marca de quase 22% da população. Outro marco dessa política de integração foi a fundação, em 2010, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), descrita por Lula como uma “ponte viva” sobre o Oceano Atlântico.
Cooperação Científica, Soberania Alimentar e o Sucesso da Embrapa
A superação da fome e da pobreza extrema não decorre apenas de fatores climáticos ou da escassez natural de recursos, mas sim de decisões políticas que optam por perpetuar a exclusão social. O presidente enfatizou que a África possui todas as condições geográficas e hídricas para se transformar em um dos maiores produtores de alimentos do mundo, e que a experiência brasileira prova que o investimento em pesquisa pública é a chave para alcançar a soberania alimentar.
As universidades públicas e os institutos de pesquisa foram os grandes responsáveis por transformar o Brasil em um celeiro global, formando gerações de agrônomos, veterinários e engenheiros que desenvolveram tecnologias de manejo de solos, biotecnologia e melhoramento genético adaptadas a climas tropicais.
O maior exemplo desse sucesso é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Lula apresentou dados econômicos impressionantes sobre a estatal:
| Indicador Econômico da Embrapa | Impacto na Sociedade |
|---|---|
| Retorno do Investimento Público | Para cada US$ 1,00 investido, o retorno social é 27 vezes maior. |
| Parceria Estratégica Internacional | Cooperação direta com a União Africana para transferência tecnológica. |
| Formação de Capital Humano | Capacitação de técnicos africanos via plataformas de ensino à distância. |
Através da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, lançada sob a presidência brasileira do G20, soluções concretas estão sendo direcionadas para 26 países africanos que já aderiram à iniciativa, com foco no fortalecimento da agricultura familiar, programas de alimentação escolar e transferência de renda.
Sustentabilidade, Clima e o Combate ao Colonialismo Digital
A agenda ambiental e a transição ecológica justa representam outra frente de convergência mútua. Brasil e África abrigam os dois ecossistemas florestais mais vitais para a regulação climática do planeta: a Floresta Amazônica e a Floresta da Bacia do Congo. Lula rejeitou de forma veemente a falsa dicotomia entre o crescimento econômico e a preservação ambiental, demonstrando que o Brasil retomou o controle sobre o desmatamento ilegal ao mesmo tempo em que promove a bioeconomia e fortalece os direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais.
No campo tecnológico, o presidente lançou um alerta rigoroso contra o que classificou de “colonialismo digital”. A concentração do desenvolvimento de ferramentas de Inteligência Artificial nas mãos de poucas corporações multinacionais situadas no Norte Global representa um risco iminente de subordinação cultural e econômica. Os algoritmos atuais funcionam frequentemente como novos instrumentos de dominação, moldando comportamentos e esvaziando o debate público.
Para contrapor essa tendência, Lula defendeu a necessidade premente de os modelos de linguagem de IA serem desenvolvidos também em língua portuguesa, em zulu e nas diversas línguas nativas dos povos africanos. Para financiar essa transição soberana, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial alocou:
US$ 20 milhões para o financiamento de projetos conjuntos de pesquisa com a África e América Latina.
US$ 10 milhões para a abertura e compartilhamento de supercomputadores e infraestruturas digitais brasileiras para cientistas parceiros.
US$ 5 milhões até 2030, por meio do programa Profit, voltado à criação de redes de excelência científica.
Das Intenções aos Atos: O Chamado à Ação Coletiva
Em uma autocrítica severa e transparente sobre a burocracia estatal e a inércia diplomática, Lula chamou a atenção dos ministros e reitores presentes para a distância que frequentemente separa os discursos inflamados da execução prática dos projetos. Relembrando iniciativas passadas de seus mandatos anteriores, como uma universidade à distância e uma fábrica de antirretrovirais em Moçambique que acabaram descontinuadas ou privatizadas por falta de acompanhamento contínuo, o presidente exigiu uma mudança radical de postura.
O orçamento anual da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), atualmente fixado em cerca de 10 milhões de dólares, foi classificado por Lula como “irrisório” diante do tamanho da economia brasileira e do tamanho da responsabilidade social que o país tem com o continente africano.
“Se a gente ficar esperando sobrar dinheiro, a gente não faz. Se a gente ficar esperando sobrar tempo, a gente não faz. É preciso tomar a decisão política de fazer acontecer”, exclamou.
O encerramento do evento foi marcado por uma convocação entusiasmada à autonomia das universidades. O presidente ressaltou que as instituições de ensino possuem independência jurídica e acadêmica para firmar convênios, promover o intercâmbio de estudantes e professores e criar disciplinas conjuntas por meio das ferramentas digitais modernas, sem a necessidade de aval ou ordens diretas do Ministério da Educação ou do Palácio do Planalto. Citando os versos célebres da música de Geraldo Vandré, “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, Lula concluiu reafirmando que o tempo do Sul Global assumir as rédeas do seu próprio destino científico, educacional e econômico é o presente.