Maria da empada: A IDOSA DE 63 ANOS que fazia SALGADOS ENVENEN4D0S para ELIMINAR BANDIDOS em RECIFE

Maria da empada: A IDOSA DE 63 ANOS que fazia SALGADOS ENVENEN4D0S para ELIMINAR BANDIDOS em RECIFE

Nome: Maria Antónia da Conceição, lavadeira desde os 13 anos, viúva. Morava sozinha numa casa simples no Recife. Passava os dias entre bacias, sabão de pedra e cheiro a cebola frita. Mas a A vida dela mudou no dia em que encontraram o corpo do seu único filho, João Antônio, atirado para o meio de uma ribanceira com marcas de espancamento e um papel no bolso. X9 não vive.

 João tinha apenas 17 anos, trabalhava numa borracharia, nunca teve passagem, nunca envolveu-se com o crime. Mesmo assim, o caso foi arquivado como acordo entre facções. Ninguém foi detido. Naquela noite, a Maria não gritou, não correu, só acendeu o forno e voltou ao trabalho. E ali, em silêncio, nasceu o que ninguém esperava.

 A mulher que vendia na praça começou a cozinhar justiça com o que tinha à mão. Antes de continuarmos, deixe nos comentários de onde está a falar e que horas são aí. E se você quiser ter acesso a vídeos exclusivos e sem censura dos maiores processos criminais do Brasil, considere tornar-se membro. E não esqueça de subscrever o canal.

 O sol já batia com força nas telhas partidas do barraco 17, quando a Maria pegou na bacia de roupa e foi paraa cacimba. Lavava desde menina, desde antes de saber que a vida não devolve nada. As mãos calejadas, cheias de pequenos cortes, já nem sentiam a água fria. Cada peça torcia com força.

 Lençol, calças de ganga, blusa de gola, tudo pingava memória. A cozinha era o coração da casa, apertada, com paredes manchadas de fumo e um fogão de duas bocas que rugia quando aceso. O cheiro da noite anterior ainda rondava o ar. Arroz com sardinha e cheiro verde colhido do próprio quintal. Sobre a pia, uma faca cega e uma tábua antiga com manchas de cebola.

 Era simples, mas era dela. Tudo ali tinha história. Na rede pendurada torta no canto da sala ficava o canto da O Joãozinho, alto, magro, com um olhar sempre perdido e uma voz mansa. O João era o tipo de rapaz que queria sair do morro, mas sem pisar ninguém. Gostava de desenhar, de escrever frases num caderno velho e ouvir música baixinha enquanto a mãe lavava roupa.

 Nunca andava com uma arma, nunca consumiu droga, nunca respondeu atravessado. Era destes que a maldade gosta de testar. Naquele domingo, saiu cedo. Disse que ia entregar um dinheiro à dona nenê, a senhora que vendia rebuçados na esquina. Vestia uma camisa branca, ténis pretos, com a sola furada.

 O mesmo que Maria costurou a mão com linha grossa e reza muda, saiu e não voltou. O dia virou noite e Maria acendeu a lamparina. Esperou até às 3 da manhã. O João nunca dormia fora, nunca. Na segunda-feira, uma vizinha bateu à porta, batida seca, sem rodeios. Dona Maria, encontraram um corpo ali perto do escadão.

 Está sem documento, mas parece-se com o João. A Maria não chorou, não gritou, não caiu, apenas passou o pano na mão e foi. Desceu a ladeira com o coração enterrado no peito. Quando chegou, os polícias estavam a cobrir o corpo com jornal velho. Só dava para ver o ténis. O All Star preto com a costura de linha grossa, o rosto impossível de reconhecer.

 Tinha um hematoma no maxilar, cortes nas costas, um dos dedos arrancado e um bilhete no bolso. X9 não vive. O relatório foi seco, morte por arma branca e traumatismo. A versão da polícia, ajuste de contas. O delegado nem subiu ao monte. O rabecão demorou 3 horas para chegar. Os homens da perícia olharam de longe. O corpo foi levado como mais um, como sempre.

 No velório improvisado, meia dúzia de vizinhos, uma vela a tremer no canto e um pastor que dizia que Deus colhe os bons cedo. Maria não ouviu nada. Ficou sentada, olhando para o chão, com os olhos vazios e a alma em silêncio. Não havia luto, havia ausência. À noite, depois de guardar os restos do café, a Maria pegou num caderno velho onde anotava contas e receitas.

foliou até à última página em branco, escreveu com calma, letra firme, gordo lelecúnior do CD, China, sargento Falcão, fechou o caderno, escondeu atrás da estante e trancou a porta com dois voltas na chave. Deitou-se, mas não dormiu, apenas esperou pelo dia seguinte, como quem espera um chamamento.

 Nos dias que seguiram, ninguém mencionava João, nem os amigos, nem os vizinhos. Era como se tivesse evaporado. E quem falava falava baixinho. Diz que era X9. Diz que estava devendo a alguém. Diz que foi culpa dele próprio. Maria ouvia tudo em silêncio. Voltou a lavar roupa, voltou à feira, voltou à rotina, mas dentro dela nada voltou.

 O vazio transformou-se em fogo e o fogo plano. Na quarta-feira, ela comprou frango, cebola, pimento, caldo de galinha e massa pronta. também comprou um pó branco sem marca, vendido num saquinho simples por um velho farmacêutico que não fazia perguntas. “Prato”, disse. A Maria não respondeu. Na sexta-feira, a barraquinha dela voltou a calçada, a mesma de antes, de madeira gasta e lona azul.

 O cheiro a empada quente voltou a perfumar o beco. Gente passou, comprou, elogiou. Está melhor que nunca, dona Maria. Ao fim da tarde, ela viu o gordo Leleco a passar com dois comparsas. Leleco, o vapor que ria alto, empinava a moto na travessa e mandava a criança a buscar cigarro. O primeiro nome do caderno. A Maria chamou.

 Ó Leleco, vem provar a nova receita. Ele riu-se, pegou duas, comeu ali mesmo, lambendo os dedos. Dois dias depois, caiu duramente na calçada do mercadinho. Convulsão, boca espumando. Ninguém percebeu nada. A ambulância demorou. Quando chegou, ele já estava roxo. Morte por paragem cardíaca. Enterro rápido, sem velório. O comentário na comunidade: “Castigo de Deus”.

 Maria não sorriu, mas de manhã seguinte dirigiu-se ao caderno e riscou o nome dele com lápis preto. 1 na 16. Agora ela sabia. Ninguém ia vir por ela. Ninguém suspeita de uma senhora que cozinha para todos. E todos se esquecem de perguntar quem é que alimenta a justiça quando ela falta. E naquele silêncio onde antes havia o Joãozinho, nasceu algo novo e muito, muito mais perigoso.

 Dois dias depois da morte de Gordo Lelec, o O monte da Conceição ficou estranho, silencioso, como se o vento tivesse medo de soprar em demasia. Leleco era temido, tão temido que até os inimigos faziam questão de cumprimentar. Quando caiu, ninguém chorou, ninguém acendeu uma vela. Só comentaram baixinho que talvez fosse castigo ou bruxaria ou como sussurrou uma lavadeira amiga de Maria.

 Tem coisa aí que nem a polícia percebe. Maria, por outro lado, regressou da praça nesse dia e sentou-se na cadeira de palha que estava encostada ao fogão. Tirou o pano da cabeça, pegou no caderno, riscou o nome do Leleco com a ponta da faca. Não era impulso, era método. A cada nome que escrevia, ela fazia o mesmo que lavava a roupa, separava, esfregava, torcia, estendia.

Cada um tinha um motivo, cada um histórico. E aquele caderno forrado com pano velho de chita, tornou-se santuário, confessionário, lista de acerto. Na segunda página, mesmo no topo, estava ele. Júnior do CD, braço direito do Leleco. Era o discreto. O tipo que não batia, mandava bater, que não ameaçava, olhava e alguém percebia a mensagem.

 Era Júnior quem organizava as rotas da boca, controlava os vapo e, segundo Maria ouviu de um miúdo, foi ele que mandou buscar o Joãozinho nessa noite. Ele só vai trocar uma ideia connosco. Nada demais. Foi a última frase que o menino ouviu. O Júnior tinha uma rotina metódica. Todas as quartas ele passava na padaria do O Beto ali na rua do Rosário, comprava dois pães e um refrigerante.

 Às vezes levava alguma coisa doce. E sempre, comia sempre empada de frango. Era viciado. A Maria esperou. Na quarta-feira, acordou mais cedo, preparou a massa com calma, desfiou o frango no ponto, utilizou alho, cebola e o mesmo pó branco que dormia escondido num pote de gelado lá no alto do armário.

 Fez seis empadas, três com veneno, três limpas. As envenenadas foram embrulhadas num guardanapo vermelho, as limpas num azul. Levou paraa padaria, como quem leva presente. Ó Beto, posso deixar umas empadinhas aí no balcão? É presente. Primeira fornada nova. O Beto era velho conhecido, achou simpático. Pegou Júnior. Chegou às 10:15.

 Bermudas bege, Chinelo Rider, Bonéda Oakley. Pegou nos dois pães, escolheu a empada do guardanapo vermelho, mordeu-o ali mesmo e sorriu. A Dona Maria é braba, esta aqui derrete. Ela de longe respondeu só com um gesto de cabeça e voltou para casa. calmamente, como quem fecha o portão depois de regar a planta. Júnior caiu três dias depois dentro de casa sozinho.

A avó encontrou-o a babar com o rosto roxo e os olhos virados. Mais uma vez o relatório disse: “Enfarto fulminante, jovem sim, mas sabe-se lá o que ele usava. Só que a favela, a favela começou a notar o padrão. Dois chefes da área, dois mortos em menos de uma semana, sem disparo, sem faca, sem invasão.

 Tem alguma coisa errada aí? Vse oxente e se for doença nova ou se for castigo? E a palavra que ninguém queria dizer começou a surgir no ar. Justiça. A Maria voltou para a cozinha, lavou as formas, esfregou a tábua com sal grosso, depois pegou no caderno, riscou o nome do Júnior e acendeu uma vela. pela primeira vez sorriu.

 Mas o que ela não sabia é que uma menina viu tudo. Ritinha 10 anos, terra a terra, olho atento. Ela morava no barraco das traseiras, filha de Marinalva, uma mulher pequena, viciada, que desaparecia durante dias e tinha, vivia na rua a vender rebuçados, a pedir pão. Às vezes parava à janela da Maria, só para sentir o cheiro do tempero.

Quarta-feira, ela viu a velha separar os guardanapos, viu o pote branco, viu o cuidado quase religioso com que Maria selava cada empada. E a Ritinha não contou para ninguém, porque a Ritinha tinha memória. E recordava o dia em que um homem chamado China entrou no barraco dela quando a mãe estava apagada debaixo do lençol e a Ritinha, encolhida ao canto, fingiu que dormia para não ser levada também.

 O nome seguinte no caderno era esse, a China. Mas depois Maria hesitou. China era perigoso, era grosso, era do tipo que batia primeiro, perguntava depois, vivia armado, era o mais instável da quebrada. A presença dele trazia tensão até nos cães. A Maria sabia, não podia errar. Na semana seguinte, decidiu fazer diferente. Chamou a Ritinha.

 Você tá com fome? Estou sempre. Quer ajudar-me a entregar empada? A menina sorriu pela primeira vez em semanas e foi assim que A Maria ganhou uma aliada. Sem palavra, só olhar”, explicou ela. “As empadas com guardanapo azul podiam entregar. As vermelhas não. Eram para pessoas especiais.” A Ritinha compreendeu.

 No sábado, A Maria preparou as empadas. Três vermelha, cinco azuis. As vermelhas ela mesma levaria para a praça onde China jogava dominó. Mas depois algo aconteceu. Na metade do caminho, a Maria viu a Ritinha correndo em sentido contrário. Ofegante. Tia, tia, não dá, não. Que foi? A China tá com a polícia.

 Tão tudo junto, tão a rir ali, bebendo. A Maria parou, sentiu o sangue gelar. O China estava com o sargento, com falcão, dois nomes no caderno, dois alvos protegidos. A partir dali, ela entendeu. Os homens do monte não andavam mais sozinhos e, se quisesse continuar, teria de ser mais cuidadosa, mais fria, mais estratégica.

 A justiça dela ia ter que aprender a ser invisível. Mas o que A Maria não sabia é que dentro da mala da Ritinha havia um papel amachucado, um rascunho do caderno que ela achou caído no chão da cozinha. Ali tinha três nomes escrito com letra firme e a Ritinha, que não sabia ler, guardou sem saber o peso que transportava.

 Na segunda-feira seguinte à morte de Júnior, a favela amanheceu mais vazia. Menos gritos, menos motos fazendo curva apertada, menos risos altas na boca de fumo. Era como se o próprio morro tivesse prendido a respiração. Mas Maria, Maria estava calma. Acordou cedo, colocou água no fogo, lavou a cara com o pano húmido da noite anterior e sentou-se na cadeira de palha para escrever.

 Pegou no caderno forrado de pano florido, abriu na página seguinte e com uma caneta azul riscou dois nomes já mortos. Ficavam agora só dois nessa lista, a China e a sargento Falcão. Só que antes de pensar no polícia de farda suja, ela precisava cuidar do mais imprevisível, a China, o homem que todos sabiam do que era capaz, mas ninguém sabia o que ele queria.

 Era o tipo que podia rir e bater no mesmo minuto, descontrolado, embriagado, respeitado pelo medo. A Maria não queria chamar a atenção e por isso começou a agir diferente. Na terça-feira foi até à feira do bairro de baixo. Andou ao sol quente com o saco de pano, como fazia antigamente, apanhar alho bom, cebola firme, cheiro verde ainda suado da terra.

 passou na banca dava, que vendia frango do campo, escolheu dois peitos grandes, pagou com o troco contado, voltou lentamente, observando os rostos, os burburinhos já começavam. Tu viste o que aconteceu com o Leleco? Morreu seco. E o Júnior nem hipótese teve. Isto não é coisa de bandido, não. É outra paragem. Mas ninguém, ninguém desconfiava da velha lavadeira que andava de cabeça baixa e voz mansa.

 Quando chegou a casa, tirou os sapatos à porta, lavou os pulsos no tanque e respirou fundo. Era dia de cozinhar justiça. Nessa tarde, Maria não utilizou o guardanapo vermelho. Achou melhor disfarçar. Pegou num pano bege liso, sem marca. Fez seis empadas, três normais, três com o toque invisível. Na hora de misturar o veneno, teve calma.

 O pozinho ia direitinho no recheio, nunca na massa. Aprendera que o sabor do frango disfarçava melhor, depois selava com clara de ovo para ninguém reparar. A Ritinha, que assistia da janela, perguntou: “Tia, é para mais um mau?” Maria olhou-a nos olhos, não respondeu, apenas assentiu com a cabeça. “Ele é pior que os outros?”, a menina insistiu.

 É o tipo de homem que Deus virou o rosto. A China frequentava a mesma praça dos outros, mas aos fins de tarde gostava de jogar dominó com os outros cabeça da favela, apostando moedas, cigarros e, por vezes, humilhação. Naquele dia, a Maria apareceu por volta das 16 o com o cesto de empadas coberto com o pano bege, sorrindo como se fosse apenas mais uma tarde.

 Estou a testar o tempero novo. Querem provar? A China, com a cerveja numa mão e a peça de dominó na outra, respondeu: “Só se for de graça, velha, para ti é presente.” Riu-se, pegou numa, mordeu-a com vontade, lambeu os dedos, desce redondo. “Tu és perigosa, hã, dona Maria?” Ela sorriu. Fingiu que ia embora, mas ficou num canto, sentada no murinho, como quem só queria um pouco de vento.

 Observou a China a comer a segunda empada. Na terceira ele recusou, deu ao amigo. A Maria voltou para casa. Naquela madrugada, uma gritaria rebentou perto da viela. Se A China tava a convulsionar no chão de casa. A sua mulher, desesperada, corria com um pano molhado, chamando o vizinho, rezando alto.

 Deram chá, deram água com sal, fizeram reza de umbanda. Nada funcionou. Quando o SAM chegou, já era tarde. A autópsia deu paragem cardíaca e, de novo, como os outros dois, sem explicação médica clara, era o terceiro homem poderoso a cair, sem sangue derramado. E aí o sussurro transformou-se em grito abafado.

 Não pode ser coincidência, mas quem é que ia ter coragem? Isto é trabalho fino, vice de dentro. E foi aí que apareceu ele, alguém que Maria não esperava, um investigador, à paisana, novo na área. Chamava-se Brandão. Fumava cigarro de palha, andava com sapatos social no barro. Não sorria, não ameaçava, só ouvia. Passou a subir o Morro todas as semanas.

 Fazia perguntas educadas, conversava com as senhoras, observava os movimentos, queria perceber o que estava a acontecer, mas sem barulho. E numa dessas voltas, cruzou com Maria. Boa tarde, minha senhora. Dona Maria, não é? Boa tarde. Sou eu, sim. A senhora é muito conhecida aqui. Dizem que faz umas empadas boas. Faço sim. Quer provar? Agora não. Estou de serviço.

Se mudar de ideias é só bater palmas. Brandão sorriu de canto e foi-se embora. Mas naquele olhar Maria viu algo que não viu nos outros. Ele desconfiava. Naquela noite, a Maria não cozinhou, sentou-se com o caderno no colo, abriu a página onde agora só restava um nome, sargento Falcão. Mas agora já não era só ele.

Brandão também estava a entrar no radar. A Maria sabia que não podia errar. Cada movimento a partir dali teria de ser mais do que preciso, teria de ser invisível. Mas uma coisa era certa, o sabor da empada. Estava a começar a ser confundido com o sabor da justiça, e isso era demasiado perigoso. O nome dele era Sargento Falcão, mas no monte ninguém o chamava assim.

 Era só Falcão, um nome seco, direto, igual ao jeito dele. O tipo de polícia que não escrevia um boletim, escrevia medo na cara dos outros. Falcão era o tipo que sorria com um cigarro no canto da boca enquanto dava estaladas a um vendedor ambulante. O tipo que com farda ou sem andava sempre armado, sempre e fazia questão de mostrar. Ele não prendia, cobrava.

 A cada mês subia o monte para recolher a taxa da tranquilidade. Era assim que chamava o dinheiro que tomava aos barraqueiros, feirantes, vendedor ambulante, das senhoras que fritavam pastel e das raparigas que vendiam dindim no esferovite. E se alguém não pagasse, o barulho começava.

 Num mês a mercadoria desaparecia, noutro aparecia um filho preso com coisa plantada no bolso. E quando queriam dar exemplo, era bala, perdida, mas certeira. A Maria conhecia este tipo de homem. Já tinha lavado a farda suja de sangue. Sabia o cheiro, sabia o olhar e agora era o único nome ainda vivo no caderno de pano florido. Falcão gostava de aparecer.

 Chegava com a viatura ligada, sirene intermitente, mesmo quando não havia emergência. Parava no meio da ruela e deixava os miúdos da favela calar-se na hora. Boa tarde, comunidade. Vim ver se está toda a gente comportado. O tom de deboche queimava mais do que sol. Na quarta-feira seguinte à morte do China, Falcão apareceu com dois polícias novatos e uma fome de leão.

Tinha acabado de sair de uma operação para inglês ver e saiu do carro querendo lanche. Onde está a famosa empada dessa velha? Estou doido para provar. Maria estava na praça. Tinha levado a fornada do dia. Desta vez 10 empadas, duas com o toque em branco. Ela não esperava que fosse ele a aparecer primeiro.

 Falcão chegou, pediu duas sem cerimónias. pegou direto da cesta. A Maria tentou disfarçar a tensão. Quer aquecer no forno, sargento? Quente ou fria, se for boa, está valendo. E mordeu ali mesmo. A Maria não sabia se era uma das venenosas, tinha baralharam os guardanapos de propósito para não atrair suspeitas, mas agora o risco era real.

 O sargento terminou a empada, limpou os dedos às calças, riu. Rapaz, se todos aqui fizessem como esta senhora, este morro tava salvo. Os polícias riram junto, um deles pegou outra e foram-se embora. A Maria ficou ali com o coração na garganta, imóvel por uns minutos. O plano dela, até então perfeito, tinha começado a escorregar.

Nessa noite, ela não conseguiu dormir, não pelo medo, mas pelo erro. Não sabia se tinha dado a empada certa ao homem errado. Se fosse uma das normais, tudo bem. Mas se tivesse servido veneno para o PM errado, podia ser o fim. Falcão não morreu. No dia seguinte, apareceu no mesmo horário, rindo mais do que nunca.

Dona Maria, empadinha da senhora é braba mesmo, viu? Maria forçou um sorriso, mas por dentro já tinha percebido. O veneno falhou ou não foi servido. Ela precisava tentar de novo, mas sem riscos, sem hipótese de errar. Foi então que teve uma ideia, o aniversário da filha do Falcão, uma pequena festa organizada num clube da comunidade, só a família, os amigos e alguns convidados especiais, entre eles os próprios comerciantes que pagavam a paz.

 Maria soube pela boca da Rita, que ajudava a mãe a limpar o clube. Disse que iam servir refrigerante, bolo, batatas fritas e empadas. A senhora não quer levar umas para vender? O pessoal disse que pode. A Maria não pensou duas vezes, fez 20 em cada, seis com a mistura, mas desta vez numerou discretamente a base das forminhas, com um pontinho de verniz vermelho por baixo.

 Sabia quais eram quais. Não ia errar. Chegou cedo à festa, com o cesto forrado, vestida com um avental limpo e um lenço azul na cabeça. Parecia a avó de qualquer criança. Deixou o cesto no balcão e ficou sentada a um canto. Viu quando Falcão chegou com a filha ao colo. Viu quando a sua mulher, com as unhas feitas e riso forçado, pegou em empadas para servir e viu quando ele próprio pegou numa das que tinham marca.

 Mordeu, comeu, untou os dedos de ketchup. A velha tá se superando. Isto aqui é receita de outro mundo. A Maria apenas olhou, não disse nada. Saiu antes dos parabéns. Naquela madrugada choveu intensamente no Recife. Raios cortando o céu, a água batendo no telhado de zinco, como se quisesse levar tudo embora. No noticiário da manhã seguinte, uma pequena manchete.

 Policial sofre doença súbita em casa após confraternização. Sargento Falcão. Falência de órgãos, relatório inconclusivo. O monte. Silêncio, Maria. Um risco a mais no caderno e a página virada. Mas ela não viu o que ficou para trás. Na pressa de sair da festa, esqueceu-se de um guardanapo. Nele, um rabisco. Número, símbolo, talvez distração da rotina.

Brandão viu, recolheu e nessa tarde entrou na sua sala, colocou o papel em cima da mesa e fez a pergunta que já não saía da cabeça. Quem é esta velha? O chamava-se Ritinha, 10 anos. Olhos grandes, redondos, tristes, como quem já compreendeu tudo cedo demais. Pele morena, cabelo ralo, um calção sempre largo e uma sandália furada.

 Era magra de doer, mas viva. Sobrevivia com bala no sinal, pão seco na marmita e sorte quando chovia só do lado de fora. Vivia com a mãe num barraco de duas paredes e um colchão no chão. A mãe, Marinalva, era outra sombra na quebrada. Uma mulher que um dia foi bonita antes da pedra entrar na vida e apagar a cor da pele, o riso da boca, o brilho do olho.

 Agora vivia caída num canto, dormir com estranhos, vender o corpo por R$ 10 e um gole de cachaça. A Ritinha aprendeu cedo que a fome não era o pior castigo. O pior era ninguém ver, mas uma pessoa via. A Maria conheceu Ritinha num fim de tarde. A menina estava encostada à parede da venda do Tono, segurando um embrulho vazio de biscoito como se fosse ouro.

 Tinha os olhos colados na bandeja de empadas. A Maria escreveu: “Quero uma?” A Ritinha fez que não com a cabeça. “Tens fome?” Ela encolheu os ombros. A Maria estendeu o salgado. A menina pegou nele com as duas mãos e devorou ​​em dois minutos. “Mastiga menina, senão vai magoar a barriga”. Depois disso, apareceu quase todos os dias.

Primeiro só olhando, depois ajudando a carregar o cesto. Com o tempo tornou-se quase parte da tenda. Maria passou a dar-lhe um pedaço de empada em cada fornada e mais do que isso, passou a ouvir. A Ritinha falava pouco, mas quando falava era com a alma. Tia, a senhora gosta de estar sozinha? Há dia que sim, há dia que dói. Eu gosto.

 Quando tem gente é pior. A Maria não perguntava, mas entendia. Numa sexta-feira à noite, a chuva caiu forte. O vento entrou pelas fras barraco de Maria, como se quisesse contar segredos. Ela estava a passar roupa quando ouviu um barulho à porta. Erainha, encharcada, a tremer. Mãe trancou, disse que não queria chorar. A Maria puxou-a para dentro, secou-a com um pano limpo, fez mingal, deu roupa seca, pôs a dormir na rede do Joãozinho.

 Naquela madrugada, a menina teve pesadelo, chorava a dormir. Não deixa-o entrar, tia, não o deixes. A Maria não dormiu. Ficou sentada na cadeira, observando a menina a dormir. E ali, naquele silêncio de goteira e lembrança, entendeu que a Ritinha era a infância que o monte enterra todos os dias. No dia seguinte, enquanto organizava os panos de prato, Maria viu algo cair do saco da menina.

 Um papel dobrado, amarelado, com marcas de dedos e uma letra conhecida. Era uma folha arrancada do caderno de pano. Estavam lá três nomes: Leleco, Júnior, China. Todos riscados. A Maria congelou. Simbe, onde é que apanhou isso, menina? A Ritinha encolheu os ombros, falou baixinho, caiu do caderno, tia. Eu guardei, não contei para ninguém.

 Por que razão o guardou? Porque era o nome dos monstros. A Maria fechou os olhos. A menina sabia e mais do que isso, entendia. Nesse dia, Maria não cozinhou. Ficou com a cabeça baixa, lavar roupa sem ver a água. Pensava na vida da menina. Pensava nos monstros que ainda viviam. Pensava no que viria depois. E foi quando a Ritinha, sentada no degrau da porta, falou: “Tia, posso escrever um nome no teu caderno?” Maria parou, olhou com atenção.

 Que nome? Tonhão. Maria franziu o sobrolho. O dono da venda. Por quê? A Ritinha baixou a cabeça. Porque ele mexe na minha blusa quando vou levar fiado. Diz que é uma brincadeira, mas não é. Eu tenho medo. A Maria não disse nada, apenas entrou, pegou no caderno e estendeu à menina. Escreve. Com a letra tremida, Ritinha escreveu: “Tonhão não precisava de mais nada”.

 Na madrugada seguinte, Maria acendeu o forno. Desta vez não havia raiva, havia tristeza. fez quatro empadas, duas pro morro, duas para o homem que abusava de uma menina de 10 anos e achava graça a isso. Levou o cesto até à venda antes do sol nascer. Fiz para agradecer a confiança, pelo pão fiado. É presente. O Tonhão sorriu com a boca cheia de dentes amarelados.

 Ó, dona Maria, não precisava. Às vezes precisa, sim. Ele comeu uma ali, a outra guardou. No dia seguinte, Tonhão não abriu a venda. À noite foi levado para o hospital vomitando sangue. Dois dias depois não voltou mais, ninguém percebeu. Mas uma menina de 10 anos, com o olho ainda triste, dormiu melhor nessa noite. E Maria riscou o nome e ao lado escreveu: “Este foi por ela.

” Mas do outro lado da cidade, o papel esquecido na bolsa da menina parou nas mãos erradas. Ritinha, sem saber, tinha deixado cair o bilhete no portão da escola. A professora achou, achou o conteúdo estranho e entregou para um contacto da polícia comunitária. O papel foi parar à secretária de Brandão e ali viu três nomes, três mortes, uma mesma letra.

 Há uma criança no meio disso e alguém muito mais esperto por trás. Brandão dobrou o papel e desceu o Morro no dia seguinte, mas desta vez ele não foi com sapatos sociais, foi com a alma em alerta. Depois da morte de Tonhão, a favela deixou de perguntar quem será o próximo e passou a olhar para o alto.

 Como quem sabe que tem algo maior decidindo. A Maria sentia isso no ar. Quando descia com o cesto de empadas, os os olhares mudaram, os sorrisos viraram a cenos curtos. As mães, que antes só viam uma velha simpática, viam agora mais, um tipo de escudo. Os mais velhos diziam que ela tinha a mão pesada de Oxum. Os mais novos começaram a apelidar as empadas de A justiça da Senhora e sem que ninguém dissesse nada, a Maria virou-se lenda, mas uma lenda viva.

 E isso era perigoso. No barraco, Maria mantinha tudo igual. Acordava cedo, lavava roupa, varria à frente, cozinhava. Mas agora o fogão não era só fogão, era altar. Cada fornada, um julgamento. O caderno ganhava mais nomes. Alguns sussurrados por vizinhos com medo, outros revelados por olhares. A Maria não procurava.

 Os nomes vinham ter com ela, ela anotava. Não era vingança, era correção. Primeiro novo nome, Beto da Lanus, proprietário de um puxadinho na rua nova. vendia o acesso à internet, mas também filmava as meninas pelo buraco da parede. Diziam que ele guardava os vídeos num HD externo escondido dentro do congelador.

 A Maria ouviu isto da própria mãe de uma das meninas numa conversa sussurrada, com os olhos cheios de vergonha. Anotou, esperou e num sábado passou pela Lanho Houseous. Trouxe umas empadas para venda. Promoção do dia. O Beto pegou, comeu duas. Na segunda-feira teve uma paragem respiratória fulminante. A irmã jurou que ele estava bem.

 O relatório nada conclusivo. Mais um risco no caderno. Segundo o nome, Nego Tadeu. Diziam que era informador da polícia, mas também vendia arma aos miúdos da boca. Se aproveitava-se dos menores, dava um revólver e dizia: “Vai lá cobrar”. Era cobarde, mas era protegido. A Maria não teve pressa. Esperou que ele aparecesse no batente da casa da amante, onde sempre pedia cerveja gelada e empada com pimenta.

 Fez apenas uma, recheada com carne moída e sianeta. Na primeira dentada, Tadeu caiu para o lado. Não houve grito, não teve socorro. O povo apenas assistiu. Mais um risco no caderno. Enquanto isso, Brandão voltava. já não era só um investigador curioso. Agora tinha papel, nome e fôlego. Havia três mortes ligadas por um padrão, sem marcas, sem luta, sem testemunha.

 Todas em áreas próximas, todas com algum tipo de denúncia anterior. Todas com uma única coisa em comum, em padas. E quando pediu o papel que a professora entregou, viu os nomes. Todos os três estão mortos. Pediu cópia da ficha de moradores. Maria aparecia como lavadeira aposentada. Nada estranho, sem cadastro criminal, viúva, um filho morto em circunstância suspeita.

Esta mulher perdeu tudo, mas Brandão já sabia. As pessoas que perdem tudo, podem fazer qualquer coisa. Ritinha seguia do lado dela, silenciosa, atenta, ajudava agora a separar as empada, as normais e as com justiça. A Maria já não escondia. Não da menina. Estas são para quem feriu, estas são só comida.

 A Ritinha perguntava pouco, mas olhava para tudo. E um dia, depois de voltar da rua, com os olhos marejados, colocou um nome novo na lista. Delegado Nogueira. A Maria travou. Por quê? Ele entra na escola e mexe nas raparigas, pede abraço, encosta. A diretora diz que é carinho. Maria não respondeu, mas o nome ficou.

 No domingo, o delegado apareceu numa festinha de rua, onde a comunidade homenagiava as conquistas com segurança. Foi chamado para fazer discurso. Maria levou padas. deixou no balcão. Nogueira pegou numa, mordeu. Melhor coisa que este morro já teve. A frase tornou-se meme, mas três dias depois foi internado com insuficiência hepática.

 A comunicação social falou em suspeita de envenenamento, mas nada foi provado e no monte o mito cresceu. Maria tornou-se oração para uns, maldição para outros. Ela é santa, ela é bruxa, ela é a mão de Deus, mas o que ela era, só ela sabia. E o caderno tinha agora 14 nomes riscados. Mas na última folha havia algo que Maria nunca tinha colocado antes, o próprio nome ali escrito com a mesma caneta azul, porque ela sabia que tudo aquilo tinha um fim, que um dia o silêncio acabaria, que um dia viriam, mas até lá ela cozinharia cada empada como se fosse

a última. E o Brandão já estava no portão. Choveu a noite inteira no monte da Conceição. Chuva grossa, daquelas que arrancam telha, afogam lembrança e limpam o que não devia. A Maria acordou antes da água baixar. O barraco estava húmido, com cheiro a mofo e vela apagada. A Ritinha ainda dormia na rede, abraçada numa almofada sem fronha.

 A velha levantou-se devagar, foi até ao fogão e acendeu o fogo como quem acende promessa. Havia uma urgência no ar, como se o tempo estivesse a encurtar. O caderno tinha 14 nomes riscados, mas agora tinham surgido três novos. Três que não estavam nos planos, mas que vinham surgindo nos coxichos. nos olhares baixos, nas frases soltas, um polícia reformado que fazia ronda extra exigindo o respeito, um pastor que expulsou uma mãe solteira da igreja porque ela manchava o altar e um vereador que prometeu a creche, mas entregou o ponto

da boca. A Maria anotou os nomes, mas no fundo sabia que estava a chegar perto do fim e foi aí que cometeu o erro. Na quinta-feira decidiu fazer empadas especiais, recheio novo, massa mais leve. Era uma homenagem a si própria e talvez um adeus disfarçado. Separou os ingredientes com o dobro do cuidado, fez a divisão entre empadas limpas e as justas.

 Embalou como sempre, mas esqueceu-se de uma coisa, a etiqueta da cor. Usava sempre paninhos vermelhos pras marcadas e azuis para as normais, mas naquela fornada misturou, colocou duas venenosas no pano errado e entregou. Quem recebeu foi o Zézinho do gás, um rapaz novo, surdo de um ouvido que ajudava na venda.

 Apanhou a empada errada, comeu ali mesmo. Horas depois, caiu duramente no chão. Maria ficou a saber pela vizinha. A senhora soube? O Zezinho. Teve um treco estranho, foi levado para o hospital. Ela não disse nada, mas o mundo girou. As mãos tremiam, o peito parecia rasgar-se por dentro. O Zezinho era inocente e a culpa foi dela.

 Naquela noite, a Maria não dormiu, sentou-se no chão da cozinha com o caderno no colo e chorou pela primeira vez desde Joãozinho. Desculpa, desculpa. Ritinha acordou com o choro abafado, se aproximou-se, sentou-se ao lado, não disse nada, apenas segurou a mão da velha e ficou ali. Entretanto, Brandão avançava.

 O guardanapo esquecido no O aniversário da filha do Falcão foi cruzado com o bilhete encontrado na escola. As letras batiam certo. A caligrafia era da mesma mão. Conseguiu um mandado discreto para entrar no monte como técnico de saneamento. Fotografou a fachada do barraco da Maria e, mais, apanhou amostras de uma empada comprada na praça.

 Numa operação disfarçada, a perícia preliminar confirmou: “Traços de substância tóxica”. Baixo teor, efeito cumulativo. Ela não mata à pressa, ela apaga lentamente. Agora tinha a certeza, mas faltava a prova. Na sexta-feira, a Maria fez uma fornada curta. Só quatro empadas, duas para doação, duas para acerto. Levou paraa praça como sempre, mas dessa vez sentiu algo estranho.

 Brandão tava ali disfarçado, mas estava sentado num banco, óculos escuros, camisa clara, observando. Não vendia, não comprava, só via. Maria olhou de longe, sentiu a gelar a borbulha, voltou para casa. Naquela noite decidiu que não faria mais. pegou o caderno, abriu na última página, olhou pro próprio nome escrito lá em baixo dos outros, pensou: “Talvez vá antes de terminar”.

 Mas depois ouviu um barulho na janela. Era a Ritinha. Tia, fala, minha filha. A menina da escola disse que tem polícia a subir o morro, que é por causa das mortes. A Maria fechou os olhos. O tempo tinha acabado. No sábado, a sirene não tocou, mas os passos ecoaram. Dois homens à paisana. Um deles era Brandão. Bateram à porta às 10. A Maria abriu.

 Bom dia, senhora. Podemos conversar um pouco? Ela assentiu. Claro. Entrem. Sentaram-se na cozinha. Brandão olhou para o redor, viu o fogão aceso, o cesto com pano azul, o cheiro a especiarias no ar. A senhora tem vendido empadas na praça, certo? Vendo sim, desde o ano passado. E ouvi dizer que são as melhores do Recife. Ela sorriu tristemente.

 Não sei se são, mas são feitas com amor. A senhora conhece o Zezinho do Gás? Claro que um bom menino. Ouvi dizer que ele se sentiu mal. Pois é, estamos a investigar isso. Maria assentiu, ficou em silêncio. A senhora importa-se se levarmos uma empada para laboratório? Pode levar, está lá tudo. Brandão pegou numa, guardou-a num saco plástico. Obrigado, Dona Maria.

 Antes de sair, olhou-a bem nos olhos. Se quiser conversar, estou aqui. Maria segurou o olhar. Não se preocupe, rapaz. Quando eu tiver algo para dizer, você vai saber. Quando saíram, Maria fechou a porta devagar. foi ao armário, pegou no pote do veneno, enterrou-o no quintal, depois abriu o caderno, riscou o seu próprio nome e escreveu outro Brandão, não por raiva, mas porque agora estava no jogo.

 E jogo no monte só acaba de duas maneiras, com justiça ou com sangue. O céu estava nublado quando a Ritinha entrou na escola carregando a bolsa surrada, os olhos baixos, a camisa remendada, a sandália batida. Nada nela chamava a atenção e era assim que ela gostava. Mas dentro da bolsa, juntamente com o estojo rasgado e o caderno de português, havia um papel dobrado com cuidado.

 O bilhete, aquele que Maria escrevera há tempos pensando deixá-lo junto da última fornada, caso o fim chegasse. Uma espécie de testamento. Se um dia me acharem, saibam. Eu só fiz o que toda a mãe faria. A Maria nunca teve coragem de queimar. E a Ritinha, que vira o bilhete ser guardado no fundo do armário, pegou sem pensar.

 Não por maldade, mas por medo. Medo de que um dia ninguém compreendesse o que ela viu, o que ela viveu, o que Maria era de verdade. Na hora do recreio, com os olhos marejados, entregou o bilhete à professora. É da minha tia, mas é segredo. A professora leu. Tremeram as mãos. Chamou a coordenadora e o papel chegou até Brandão. A Maria já sentia.

 Não precisava de notícia, de rádio, de recado de vizinho. Sentia no ar, no vento mais gelado, na forma como os passarinhos desapareceram, no olhar dos moradores, que agora era diferente, não de medo, mas de luto antecipado. Ela sabia, o fim estava vindo, mas ainda tinha um nome no caderno. Um nome que não podia ficar impune. Deputado Osvaldo Nogueira.

 O mesmo que subia o monte em época de eleição, prometendo escola, almoço, uniforme, o mesmo que sorria com os dentes brancos e dizia que a favela era prioridade, o mesmo que, segundo dois ex-vapores, mandou matar o Joãozinho. A Maria ouviu isto sem querer, no pátio de uma casa, numa conversa atravessada entre dois homens bêbados, a voz dela gelou, o sangue ferveu.

 Ela nunca teve a certeza de quem premiu o gatilho, mas quando ouviu aquele nome, soube que era ele o fim da linha e para ele faria a última fornada. Nessa tarde, acendeu o forno com mais calma do que nunca, limpou a bancada, separou os ingredientes com a precisão de um cirurgião, mas um pormenor estava diferente.

 Ela tirou o sal do armário e viu o pacote aberto. No interior, ao lado da colher de medida, estava o bilhete em falta. Maria parou, o coração bateu forte, olhou para a janela, olhou para Ritinha. Apanhaste, filha? A menina baixou a cabeça chorando. Perdoa-me, tia. Eu só queria guardá-lo. Só queria que se te apanhassem soubessem porquê.

 Maria sentou-se. Eles já sabem. No dia seguinte Osvaldo subiria o monte com equipa, câmara e assessor. Visita programada, estratégia de campanha. Queria mostrar que tinha acesso ao povo. A Maria soube pela boca de uma vizinha. Ele vai à praceta, vai comer, abraçar criança, dizer que adora isto aqui era o momento.

 Fez oito empadas, duas normais, seis com o toque final. Usou tudo, o pó inteiro, cada grama, cada partícula. Era o último ato. Guardou a cesto, tomou banho, vestiu a roupa que usava nos dias de missa, prendeu o cabelo com cuidado e, por cima da empada do deputado, colocou um guardanapo com um bordado antigo. Era do Joãozinho. A praça estava cheia, as mães com crianças no colo, jovens com camisola de campanha, homens fardados em posição.

 A Maria chegou silenciosa, caminhava devagar, como sempre, aproximou-se do palanque improvisado. Osvaldo sorriu, baixou-se. A senhora é a famosa Maria da empada, certo? Já me falaram. Ela assentiu. Fiz uma especial pró senhor. Aceito com gosto. Mas só se a senhora tirar uma fotografia comigo. Ela sorriu, mas apenas com a boca.

 Por dentro já não havia mais nada. Ele mordeu. Ela virou costas. Não esperou reação, nem desespero, nem sirene. Foi-se embora. Horas depois, a cidade parou. Deputado Osvaldo Nogueira sofre doença súbita durante evento numa comunidade do Recife. Investigação aponta para possível contaminação alimentar. Alvo de denúncias, deputado estava a ser monitorizado por agentes federais.

 No morro, ninguém disse nada, só o eco do rádio e o cheiro a empada que ainda pairava no ar. Nessa noite, Maria arrumou a cozinha, varreu o chão, lavou as formas e tinha a observava. Para onde a senhora vai? Acho que está na hora de descansar, filha. A senhora vai fugir? Não, só fogemos quando temos culpa. Eu só vou esperar.

 Pegou no caderno, rasgou página a página, atirou-o para o fogo, mas não queimou a capa, dobrou-a e escondeu. Às 22 horas bateram à porta. Brandão, com dois homens. Dona Maria, a senhora sabe porque estamos aqui? Ela assentiu. Sei que sim. Estendeu as mãos como quem entrega uma receita já feita. Não chorou, não pediu, não confessou.

 Só queria que soubessem. Nunca foi sobre matar, foi sobre impedir que continuassem. Brandão não respondeu, mas os olhos não eram de vingança, eram de respeito. Na descida do monte, a Ritinha chorava encostada ao portão. A Maria olhou para trás e disse: “Sê forte. Um dia vão ouvir o teu silêncio.” A notícia da prisão de Maria correu como rast pólvora.

 Idosa é detida suspeita de envenenar um deputado no Recife. Empadas da morte. A cozinheira que se tornou uma lenda. Mistério no monte. Série de mortes pode ter ligação com a justiça pelas próprias mãos. Na TV, era mostrada de rosto coberto, caminhando entre dois agentes sem algemas. Na legenda, lavadeira, viúva, vingadora.

 No monte a história era outra. A praça amanheceu vazia. Barracos acenderam vela. Crianças fizeram um cartaz com lápis de cera. Volta, Maria. A Ritinha não falou com ninguém aquele dia. Ficou sentada na escada do barraco, olhando para o horizonte, com o caderno forrado de pano escondido por baixo da blusa, a capa era tudo o que restava.

 No estabelecimento prisional feminino, Maria foi recebida com olhares diferentes. Nem medo, nem desprezo, respeito. Mulheres que ali viviam por crimes que não escolheram, por cair no elétrico errado, por proteger filho, por sustentar marido bandido, olhavam agora para ela como quem vê uma história que podia ser delas.

 A diretora do estabelecimento prisional chamou-a de lado. A senhora tem noção do tamanho disso? Só sei o peso do que carrego. Ficou em cela individual, mas não pediu, não exigiu, apenas aceitou. Dormia pouco, comia pouco e não dizia nada. Mas do exterior, o mundo explodia. Osvaldo Nogueira sobreviveu. Por pouco, internado em estado grave, com sequelas no fígado e rins, foi transferido para São Paulo sob escolta.

 A investigação federal revelou um esquema de branqueamento, compra de votos, envolvimento com segurança paralela. O que a Maria não sabia, mas Brandão descobriu, era que o deputado estava prestes a ser denunciado pelo próprio Joãozinho. O João havia feito parte de uma ação de panfletagem de um projeto social, onde viu Nogueira ameaçar uma professora que não aceitou ceder parte da merenda ao esquema da campanha.

 Escreveu uma carta, entregou ao coordenador do projeto, dias depois foi morto. A carta ficou esquecida até agora. Quando Brandão leu, percebeu tudo. O João não estava envolvido, era testemunha. Brandão sentou-se no escritório, olhou para o bilhete que Maria escreveu, leu de novo: “Se um dia me acharem, saibam.

 Eu só fiz o que toda a mãe faria.” E depois fez o impensável. Guardou o bilhete no bolso, não entregou, pediu a exoneração do caso. Disse que não se sentia apto, ninguém entendeu. Mas Maria soube. Duas semanas depois, na prisão, recebeu a visita de uma advogada. Tem apoio? Há gente querendo transformar isso em campanha. Querem chamar-te símbolo.

Não quero símbolo, só quero silêncio. E justiça, já fiz a que podia. A advogada deixou um envelope no interior, uma cópia do dossier que ligava Nogueira ao homicídio do filho desta. A Maria leu lentamente, página a página. No fim, fechou os olhos, respirou fundo e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu em paz.

 No morro, um político novo começou a subir. Jovem promissor, dizia que queria fazer diferente. No palanque, pediu empada a uma das vizinhas. Alguém do público gritou: “Cuidado, sabe a sério!” O riso foi geral, mas no fundo ninguém se esqueceu. E a Maria? Maria ficou na cela em paz. Mas um guarda jura que numa madrugada viu luz na cozinha do presídio.

 Sentiu cheiro a alho e cebola e uma empada quentinha apareceu no refeitório. Sem dono, sem explicação, só com um bilhete. Tem sabor a justiça, mas cuidado, é forte. O tempo passou lentamente dentro da prisão. Cada manhã uma cópia do dia anterior, o mesmo café ralo, a mesma oração na cela ao lado, a mesma luz amarela no corredor.

 Mas Maria não se queixava. Lavava a roupa das outras reclusas, costurava lençol rasgado, ensinava a fazer empada com o que tinha, mas apenas a massa, nunca o recheio. O forno da cozinha passou a altar. O cheiro de cebola voltou a ser perfume, para quem olhava de fora, aquela mulher de quase 70 parecia apenas uma senhora tranquila, mas quem conhecia sabia.

 Sabia que ali dormia uma guerra vencida. Ritinha continuava no monte, agora com 11 anos, a viver com uma assistente social que adotou a causa da menina. A escola começou a correr melhor, as notas subiram. O olho continuava triste, mas já piscava diferente. Todos os meses escrevia uma carta a Maria. Às vezes falava da escola, às vezes do céu.

 Às vezes não falava nada. Tia, eu não deixei ninguém esquecer. Aqui toda a gente ainda fala da senhora. E em todas as cartas desenhava uma empada, sem rosto, sem nome, só o contorno. E uma frase para quem merece. Na televisão, a história de Maria tornou-se debate. Uns diziam que ela era psicopata, outros mártir.

 Documentários foram feitos. Uma produtora quis comprar os direitos. A Maria recusou. Minha a história não é um filme, é ferida. Brandão, agora fora da polícia, abriu um pequeno restaurante no centro. Chamou de modo silencioso. Servia prato feito e pão com ovo, mas uma vez por semana servia empada, sem nome, sem preço.

 Quanto vale, moço? Vale o que sentir depois de comer. A clientela cresceu, mas ninguém sabia quem era o cozinheiro a sério, nem precisava. A Maria passou a coser pequenos cadernos com capa de pano. Dava a quem via a esperança onde o mundo só deixava as trevas. Chamava-lhe o livro do certo. Dizia: “Escreve aqui o que viste, o que te fizeram, o que não devia ter acontecido.

Isto aqui não é uma denúncia, é um desabafo.” Quando chegou o terceiro caderno cheio, ela deixou de escrever. e deixou um bilhete colado no último. Se a justiça for cega, ensine-a a cheirar. O dia em que Maria morreu foi igual aos outros, sem sirene, sem ruído. Encontraram-na a dormir, com um pano de prato cobrindo o rosto e as mãos cruzadas no peito, no bolso da blusa, um papel dobrado, a mesma frase de sempre: “Eu só fiz o que todas as mães fariam”.

 No prisão, as reclusas choraram como se perdessem uma irmã velha. Na cozinha, ninguém cozinhou nesse dia. Na cela, deixaram uma empada no canto da cama, sem recheio, mas com sabor a verdade. Epílogo. Anos mais tarde, uma mulher de 30 e poucos anos, de blusa branca e lenço azul na cabeça, montou uma pequena barraquinha no mesmo ponto onde Maria vendia.

 No letreiro bordado à mão, salgados da tia R. As empadas saíam do forno às 11 a quentinhas, silenciosas. E quem comia não sabia se sorria pela receita ou pelo mistério. Mas uma vez por mês aparecia um guardanapo com a marca de um ponto vermelho na base, só um para alguém que merecia. E ninguém nunca perguntou nada, porque há coisas que o morro entende sem ter de dizer.

Se o coração apertou em algum momento, é porque sabe o peso do que nós tá contando. Talvez vha partilhar com alguém que também transporta essa memória calada. E se quiser continuar a ouvir estas histórias que a TV nunca contou, a casa é sua.

 

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