O Advogado Entrou no Tribunal para Provar Fraude de Chico Xavier – Saiu Sem Conseguir Ler a Sentença

Em agosto de 193,  um advogado criminalista de São Paulo entrou no fórum de Uberaba com  14 meses de trabalho dentro de uma pasta de couro castanho e a sentença contra Chico Xavier, redidida, revista e pronta para ser lida em voz alta. Heitor Augusto Dantas tinha 44 anos, 20 deles exercer o direito e nunca havia abandonado um processo que ele próprio havia construído.

Saiu às 10:15 da manhã com a pasta fechada, as mãos a tremer e pediu adiamento sem conseguir explicar porquê. O processo foi arquivado 30 dias depois por abandono da parte requerente. Mas o que aconteceu dentro daquele fórum entre as 7:43 e as 10:15 da manhã é a parte que quem estava presente ainda não consegue descrever corretamente.

Dantas tinha sido contratado no Outono de 1962 por um grupo de advogados de Belo Horizonte que representavam interesses que, segundo quem com ele trabalhou nessa altura, nunca soube nomear com total clareza. A proposta era objetiva na forma construir um processo civil contra Francisco Cândido Xavier em Uberaba por charlatanismo, captação dolosa de herança e indução em erro de pessoas em estado de vulnerabilidade.

O grupo tinha reunido 23 famílias que afirmavam ter sido prejudicadas por cartas psicografadas que dirigiam decisões de inventário, de guarda de filhos, de tratamentos médicos interrompidos. O Heitor aceitou. O honorário era elevado, o caso era grande e tinha passado duas décadas acreditando que qualquer coisa pode ser desmontada com os instrumentos certos.

14 meses. Esse foi o tempo que ele demorou até chegar aquela manhã de agosto. E há algo nesse número que importa. 14 meses. É tempo suficiente para que um homem que começou por uma razão continue por outra completamente diferente, sem se aperceber quando a troca aconteceu. O problema é que Heor só se apercebeu disso quando estava com a sentença na mão e a boca fechada.

O que ele ainda não sabia quando assinou o contrato nessa tarde de junho de 1972, era que uma das cartas que ia utilizar como prova central do processo era endereçada a este pelo nome completo, pelo que o pai tinha dito num banco de praça em Campinas num domingo de tarde, três semanas antes de morrer, numa conversa que reitor nunca tinha contado a ninguém. Mas essa carta chega mais tarde.

Antes disso, há muita coisa que precisa ser compreendida sobre como Eitor chegou até ela. E o que vem agora vai mudar completamente a forma como vê o que acabou de ouvir. Porque quando sabe quem reitor Dantas era verdadeiramente, o que ele representava e o que estava em julgo naquele processo? A questão que fica já não é porque não leu a sentença.

A questão que fica é: Quem montou a situação para que ele chegasse até ali? Eitor era conhecido em São Paulo como um advogado que não perdia por descuido. Construía cada processo pela base, verificava cada detalhe antes de subir um degrau e tinha uma reputação específica entre os clientes que pagavam bem.

Ele não prometia ganhar, mas prometia que se perdesse não seria por falta de preparação. Dois colegas de escritório que com ele trabalharam nessa época descrevem o mesmo traço. Heitor tinha uma forma de ouvir as pessoas que fazia com que contassem mais do que pretendiam. Ficava quieto, deixava o silêncio trabalhar e as pessoas preenchiam esse silêncio com informações que ele depois usava.

Esse mesmo traço ia ser o problema, porque para construir o processo contra Chico Xavier, Heitor precisava de ouvir as 23 famílias. E ouvir as 23 famílias ia custar mais do que ele havia calculado. Começou pelas bordas, como sempre fazia. Não foi a Uberaba logo no início. Passou os primeiros três meses a entrevistar as famílias, uma a uma nas suas cidades, sem cruzar qualquer informação, antes de ter ouvido todas.

Uma mulher de Juiz de Fora contou que a mãe tinha doado metade do sítio da família para um centro espírita depois de receber uma carta alegadamente psicografada pelo marido morto a pedir exatamente isso. A mulher trouxe a carta. O Heitor tirou cópia, fotografou a assinatura, ficou a olhar para aquilo durante uns 15 minutos ali mesmo na cozinha daquela mulher, porque a caligrafia era demasiado boa.

demasiado específica. tinha os pequenos vícios de quem tinha escrito à mão por décadas, uma ligeira inclinação no G, o ponto do I colocado ligeiramente à frente da letra, registou como pendência técnica e seguiu. Um homem pato de Minas, antigo funcionário de uma cooperativa, mostrou documentos de um inventário reorganizado depois de uma carta que tinha chegado semanas após a morte do pai em 1979.

O homem dizia que a carta tinha favorecido um dos irmãos, que Chico Xavier tinha sido instrumentalizado para legitimar uma divisão injusta. Eitor pediu para ver a carta. O homem abriu uma gaveta, tirou o envelope e parou um segundo antes de entregar. Um segundo que Aor notou, mas não comentou. Leu o documento.

A carta não dizia o que o homem havia de escrito. Mencionava a paz entre os irmãos, não favorecia ninguém com clareza. E havia um troço no final que Reitor releu três vezes porque não percebia o que fazia ali. Uma frase sobre um homem que passaria anos carregando um papel que não era seu para destruir algo que resistia a qualquer papel.

Heitor dobrou, devolveu, anotou no caderno. Mas aquela frase ficou, ficou durante semanas. Ele acordava às 3 da manhã com ela a passar pela cabeça, o que o irritava precisamente porque não havia razão racional para tal. Um trecho vago numa carta provavelmente forjada. Mas o problema de uma frase demasiado específica é que o cérebro de um advogado não descansa enquanto não encontra a explicação mais plausível.

E a explicação mais plausível naquele caso era perturbadora. Alguém tinha vazado informação sobre o processo para o lado de Chico, Xavier, e a carta tinha sido produzida com antecedência para criar essa impressão de preciência. Quando fosse descoberta, quando garra, era a explicação lógica.

Eitor agarrou-se a ela e seguiu. Cco meses depois de ter começado, foi a Uberaba pela primeira vez, não para falar com ninguém, para observar. Chegou numa quarta-feira de outubro, se hospedou num pequeno hotel na rua Guilherme Ferreira e passou três dias a circular pelos arredores da Casa da Prece, sem se identificar a ninguém.

O que ele viu nestes três dias não está nos autos do processo, está no caderno de notas pessoais que manteve durante toda a investigação. Um caderno que, segundo dois colegas de escritório que o conheceram bem nessa altura, ele nunca mostrou aos clientes. Anotou que o movimento de pessoas era diferente do que tinha imaginado.

via silêncio. Filas compridas de pessoas sentadas à espera sem conversar, algumas segurando fotografias de familiares mortos entre as mãos, crianças doentes transportadas por mães que vinham de cidades distantes, homens de fato que reconhecia como profissionais liberais, funcionários públicos, pessoas que não costumam aparecer neste tipo de ambiente.

E havia algo no ar que ele deixou registado no caderno com uma frase que os seus colegas ainda se lembram porque lhe era invulgar, um peso que não é tristeza e que não consigo nomear. Regressou a São Paulo na sexta-feira, dormiu 14 horas seguidas. Na semana seguinte retomou o trabalho. Havia irregularidades nos registos de doações ao Centro Espírita que queria explorar.

Houve o testemunho de dois médicos que afirmavam que doentes seus haviam abandonado os tratamentos por orientação recebida em cartas psicografadas. Um desses doentes tinha morrido. Heitor foi atrás do processo clínico, pediu os registos, contratou um especialista para analisar a cronologia. O especialista disse que o abandono do tratamento tinha ocorrido três semanas antes da chegada da carta psicografada.

Não, depois dela. A carta tinha chegado quando o doente já tinha tomado a decisão sozinho. O testemunho do médico estava errado na cronologia e não havia como determinar se por engano ou por outra razão. O Heitor cortou esse médico da lista de provas e registou como testemunho imprestável. Restavam 21 famílias. 21 casos.

tinha material sólido para construir um processo com pelo menos oito deles. Decidiu trabalhar com seis, porque seis eram os que ele conseguia sustentar, sem que nenhum advogado de defesa conseguisse desmontar a sequência. Cronológica: Seis casos bem amarrados valiam mais do que 10 casos com fratura. O processo foi entrado em fevereiro de 1973.

A audiência foi marcada para 7 de agosto. Eitor tinha seis meses para afinar cada detalhe. Mas o que aconteceu nestes seis meses é a parte da história que quem acompanhou o caso de perto ainda discute. Porque foi neste período que a estrutura do processo começou a apresentar fissuras que Hator não tinha ali colocado.

A primeira fissura veio por telefone. Em Março, alguém do grupo de Belo Horizonte que o tinha contratado, ligou a dizer que tinha surgido uma sétima família que queria entrar no processo, uma família de Uberaba, um pai que afirmava ter perdido o contacto com o filho adulto por influência de um grupo ligado ao centro espírita.

Heitor disse que a lista estava fechada. O homem insistiu. Heitor disse que precisaria de pelo menos 45 dias para investigar antes de incluir qualquer coisa nova. O caso chegou até -lhe duas semanas depois, num envelope com documentos, fotos e uma carta escrita à mão pelo pai explicando a situação. O Heitor leu tudo numa tarde. No dia seguinte, ligou para o coordenador e disse que o caso não seria incluído.

O coordenador quis saber porquê. Heitor disse que os documentos não sustentavam a narrativa descrita. Havia inconsistências de data. O testemunho do pai contradizia um documento que ele mesmo tinha enviado no envelope. Qualquer advogado de defesa mediano ia encontrar isso em 48 horas. E uma vez que encontrasse ia usar aquela inconsistência para contaminar os outros seis casos.

O coordenador ficou em silêncio, depois disse: “Tens razão, tira esse”. Mas havia algo naquela conversa que ficou torto para Eitor, duas horas sentado no escritório depois de desligar o telefone, olhando para a pasta, e não conseguia identificar o que era. O problema não era o caso mau. O problema era que alguém tinha tentado colocar um mau caso dentro de um processo sólido que Reitor havia construído com cuidado durante meses.

E não sabia se aquilo tinha sido um erro de avaliação ou uma tentativa deliberada de fragilizar o processo por dentro. Se fosse deliberada, a pergunta que se seguia era incómoda. Fragilizar para beneficiar quem? não chegou a nenhuma conclusão nessa tarde, mas o caderno de anotações pessoais regista que foi a a partir desse dia que começou a anotar, em paralelo ao processo principal, uma segunda linha de observações sobre as pessoas que o haviam contratado.

O Júlio chegou, faltava um mês para audiência. Foi em julho que apareceu a segunda fissura. maior. O Heitor estava a fazer a revisão final dos depoimentos das seis famílias quando apercebeu-se que um dos documentos catalogados em março tinha uma data diferente da que tinha registado. Três dias de diferença. Três dias que pareciam pouco, mas que afetavam diretamente a âncora cronológica de um dos casos mais importantes do seis.

Com a data original, o depoimento da testemunha principal daquele caso era anterior a um evento que reitor tinha utilizado como pivô da argumentação. Com a data alterada, o depoimento ficava depois e a lógica da acusação virava. Passou  um dia inteiro verificando, ligou à família e pediu que trouxessem o documento original.

Quando o original chegou, tinha a data que tinha anotado em março. A cópia na pasta tinha data diferente. Alguém tinha alterado a cópia. O Heitor ficou com os dois papéis em cima da mesa durante um tempo, que ele próprio não soube depois estimar. Então ligou para o coordenador do grupo de Belo Horizonte. A conversa foi curta.

O Heitor disse o que tinha encontrado. O coordenador disse que devia ser um erro de digitalização, que estas coisas acontecem. Heitor disse que não havia digitalização nenhuma envolvida, que a cópia era uma cópia em papel tirada por ele próprio de um original e que a alteração tinha sido feita à mão na data de forma cirúrgica, afetando precisamente o ponto mais frágil daquele depoimento.

O coordenador disse que ia investigar internamente a descobrir o  na terra desfarmada, não era num avent. O coordenador disse que ia investigarem internamente. O Heitor desligou, abriu o caderno, escreveu uma frase, depois olhou para ela por um tempo. A frase era: “Quem está do meu lado neste processo?” ficou sem dormir nessa noite.

Passou as horas a rever os outros cinco casos à procura de outras alterações. Encontrou duas pequenas incoerências, que podiam ser erros genuínos de organização. Podiam, mas a palavra podiam tinha deixado de dar conforto. Oito dias antes da audiência, uma carta chegou pelo correio. sem remetente num envelope simples, o tipo que se compra em qualquer papelaria.

No interior havia uma folha dobrada em três, com uma caligrafia que Heitor reconheceu antes mesmo de ler o nome, no início, vertical, controlada, os erros um pouco pronunciados, o espaçamento, entre palavras, ligeiramente menor que o convencional, a mesma caligrafia que tinha visto em outras cartas psicografadas ao longo de 14 meses de investigação.

A carta era-lhe dirigida. Heitor Augusto Dantas, nome completo. Não havia menção ao processo, não havia qualquer menção ao Uberaba. Havia quatro parágrafos escritos na primeira pessoa por alguém que se identificava como Arnaldo Dantas, o pai de Heitor, falecido em 1961, de insuficiência cardíaca, quando o reitor tinha 32 anos.

Ele leu a primeira linha e colocou o papel em cima da mesa. Ficou olhando para o tecto, 3 minutos mais ou menos. Depois pegou novamente no papel. O primeiro parágrafo dizia coisas gerais do tipo que qualquer pessoa poderia escrever sobre o amor de um pai. O segundo era diferente. Mencionava uma conversa que Eitor tivera com o pai algumas semanas antes da sua morte, numa tarde de domingo, num banco de jardim na zona central de Campinas, perto de uma fonte que Eitor se lembrava de ver funcionando.

Pai e filho sentados, o sol indo embora, uma conversa sobre o escritório de advogados que A Thor queria abrir. O pai tinha dito algo naquele banco que reitor nunca tinha repetido para ninguém. Uma frase inteira com as palavras exactas que o velho tinha utilizado, com o modo específico de colocar aquela frase, uma forma que não era literário nem formal, era a forma de falar de um homem que tinha trabalhado a vida inteira como gerente de armazém e escolhia as palavras como quem conta moedas.

A carta reproduzia esta frase: palavra por palavra. Heitor ficou com o papel nas mãos durante um tempo que não soube depois medir. A secretária do escritório bateu à porta às 4:30 para avisar sobre uma ligação. Ele não respondeu. Bateu de novo às 5. Ele disse: “Já vou”. com uma voz que a secretária descreveu depois para um colega como uma voz que parecia vir de outra divisão. Ela foi-se embora.

Ele ficou naquela sala até escurecer naquela noite, segundo consta nas memórias pessoais de um colega de escritório de Eitor, que circularam entre familiares após a morte de ambos. Eitor ligou para este colega às 11 da noite e pediu-lhe que encontrassem no dia seguinte para um café.

O colega disse que foi ao encontro no dia seguinte e que reitor apareceu com a carta na mão, colocou-a sobre a mesa e ficou a olhar para o colega sem dizer nada. O colega leu, demorou uns 5 minutos. Quando terminou, perguntou como Eitor achava que tinham obtido aquela informação. disse que tinha passado a noite inteira tentando responder exatamente a esta pergunta, que a única forma de alguém ter essa informação era tê-la ouvido de a sua própria boca, que nunca tinha contado a ninguém o que o pai tinha dito naquele banco, que o pai tinha morreu semanas depois daquela conversa

e nunca houve oportunidade de a repetir. O colega perguntou se era possível que o pai tivesse contado a alguém. Eitor ficou a olhar para o café por um momento. Depois disse que o pai era um homem que guardava as coisas importantes com muito cuidado e que a frase em questão era exatamente do tipo que ele não teria partilhado com ninguém, porque era uma frase que reconhecia uma fraqueza dele próprio.

E homens da geração do pai não costumavam circular fraquezas. O colega perguntou então o que é que o Heitor ia fazer. O Heitor disse que ia para Uberaba na semana seguinte, que se ia sentar na frente do juiz e ler a sentença que tinha construído durante 14 meses, que havia duas possibilidades, ou a carta era uma falsificação sofisticada, e alguém tinha conseguido, por algum meio que ainda não identificara, o acesso a uma informação que considerava impenetrável.

ou havia algo a acontecer que não cabia nos instrumentos que ele conhecia e que em nenhum dos dois casos ia desistir do processo. O colega disse que nunca o tinha visto tão quieto ao dizer algo com tanta firmeza. Heitor chegou a Uberaba a 5 de agosto, dois dias antes da audiência. se hospedado no mesmo pequeno hotel da rua Guilherme Ferreira de quando tinha ido observar em outubro do ano anterior.

O recepcionista reconheceu-o pelo rosto, mas não disse nada. O Keitator fez nessas 48 horas anteriores à audiência é descrito de formas diferentes pelas pessoas que o conheciam. Uma colega de escritório disse que tinha ligado na noite de 5 para confirmar pormenores de um dos depoimentos que ela tinha transcrito.

A voz estava normal, segundo ela. Focada. Técnica. Um amigo de Campinas disse que Aitor tinha mandado uma carta curta nessa semana que chegou depois da audiência. uma carta que dizia apenas que estava bem e que havia coisas que precisavam de ser pensadas com calma. O que se sabe com alguma certeza, porque a registo, é que na manhã do dia 7 de agosto às 6:45, Eitor pediu ao hotel uma folha de papel e um envelope.

Escreveu alguma coisa, fechou o envelope sem colocar qualquer nome na frente e entregou ao recepcionista. com o pedido de que guardasse. Às 7:43, entrou no fórum. A audiência estava marcada para as 8:30. Havia representantes das seis famílias, alguns deles acompanhados por familiares. Havia três advogados da defesa, todos de Uberaba, que chegaram juntos e se instalaram na mesa oposta com pastas organizadas.

Havia um juiz substituto, porque o titular tinha adoecido na véspera e um funcionário do cartório que circulava organizando papéis. Havia uma estenógrafa que chegou exatamente às 8 com a máquina num estojo de couro e estava uma mulher sentada no fundo da sala. Este detalhe aparece nos relatos de, pelo menos, quatro pessoas diferentes que estavam presentes nessa audiência.

Uma mulher com cerca de 60 anos, cabelo brancos presos, com um fixador simples, vestido escuro de tecido fino, sentada na cadeira mais afastada da mesa principal, junto à parede do fundo. O funcionário do cartório disse em relato posterior a um investigador do movimento espírita nos anos 1980, que quando tinha chegado às 7:15 para abrir a sala, a mulher já estava sentada, que lhe tinha dado bom dia e ela tinha respondido com um aceno de cabeça que tinha assumido que era familiar de alguma testemunha e não tinha perguntado

mais nada. Ninguém perguntou mais nada. Este é o tipo de detalhe que as pessoas olhando para trás não conseguem explicar porque ninguém perguntou. Um dos advogados da defesa disse depois que tinha assumido a mesma coisa que o funcionário do cartório. O representante das famílias de Araguari disse que nem tinha anotado a mulher quando entrou.

A audiência começou. Reitor apresentou os seis casos com a precisão que marcava o o seu trabalho. Leu os testemunhos, apresentou os documentos, fez as correlações cronológicas. Quem esteve presente diz que a argumentação era sólida, que cada caso encaixava no seguinte de uma forma que dificultava a defesa de encontrar um ponto único para concentrar o contraargumento.

Um dos advogados da defesa pediu a palavra em quatro momentos diferentes. Foi ouvido, respondeu. A audiência correu por mais de 2 horas, sem que nenhuma das duas partes cometesse um erro técnico visível, da o Baidi Bintoken, da menina dan e a Chegou o momento da leitura do sentença. O tribunal substituto olhou para Eitor e pediu-lhe que fizesse a leitura formal do documento que havia protocolado.

pegou no documento da pasta, abriu-o na primeira página, ficou a olhar para ela. O representante das famílias de Araguari, um homem chamado Geraldo Souza, que tinha acompanhado o processo desde o início e que concedeu um relato informal a um investigador décadas depois. disse que estava sentado ao lado de Eitor nesse momento, que viu Heitor, abriu o documento, olhar para o primeira linha e ficar parado, que o silêncio durou o tempo suficiente para que o juiz se inclinasse ligeiramente para a frente e perguntasse havia algum

problema. Heitor disse que não havia problema. olhou novamente para o papel e assim, segundo Geraldo Souza, e também segundo a estenógrafa, que recordou a audiência nesse mesmo relato dos anos 1808, virou a cabeça em direção ao fundo da sala. A mulher de cabelos brancos estava a olhar para ele.

Geraldo Sousa disse que não sabe o que se passou entre os dois naquele momento, porque era impossível saber. eram olhares, não palavras, mas disse que foi no instante seguinte que a voz de Reitor, quando tentou iniciar a leitura, saiu diferente, baixa, como se saísse de dentro de água. Ele leu a primeira linha em voz alta e parou a meio da segunda.

O juiz perguntou-lhe se estava bem. Eitor disse que sim, que precisava de um momento. O juiz concedeu 5 minutos. Eitor levantou-se, saiu da sala, foi para o corredor. Geraldo Sousa seguiu-o. Disse que quando chegou ao corredor, o Heitor estava com as costas encostadas à parede e os olhos fechados. As mãos seguravam o documento dobrado.

Não tava chorando. Estava a respirar devagar. como alguém que aprendeu a respirar assim para controlar alguma coisa que a respiração normal não controla. Geraldo disse que tentou perguntar o que tinha acontecido. Heitor abriu os olhos, olhou para ele e disse uma frase que Geraldo repetiu exatamente nas mesmas palavras décadas depois.

Eu sei o que lá está escrito e escrevi, mas já não consigo ler. Geraldo disse que não percebeu o que Eitor quis dizer, que perguntou o que havia impedi-lo, queor fechou os olhos novamente e não respondeu. Voltaram para a sala. Passados ​​os 5 minutos, o reitor ficou de pé diante do juiz substituto e disse, com voz controlada, que tinha identificado um impedimento técnico nos documentos durante a revisão final do manhã e que necessitava de um prazo para regularizar a situação.

Antes de prosseguir, pediu o adiamento formal. O juiz, que era substituto e não havia acompanhado os meses anteriores do processo, analisou rapidamente e concedeu 30 dias. As seis famílias ficaram na sala sem perceber o que havia acontecido. Os advogados da defesa trocaram olhares, mas não disseram nada. A estenógrafa parou de digitar.

Geraldo Souza ficou a olhar para Eitor à espera de alguma explicação que não veio. A mulher do fundo da sala já tinha saído. O funcionário do cartório disse, no mesmo relato dos anos de 1880 que quando olhou para o fundo da sala, depois queor pediu o adiamento, a cadeira estava vazia, que não tinha certeza de quando ela tinha saído porque tinha estado de costas para o fundo da sala durante uma boa parte da audiência, que olhou para a porta e não havia movimento, que a mulher tinha saído sem que ninguém ouvisse a porta. Heitor

cumprimentou o juiz, pegou na pasta, saiu, parou na calçada ao sol de agosto, por volta de do minutos. Entrou no carro, ficou mais uns minutos antes de ligar o motor. Nessa tarde, de volta para o hotel, ligou para o coordenador do grupo de Belo Horizonte e disse que estava saindo do caso.

O coordenador disse que havia contrato assinado. Heitor disse que sabia, que estava a abdicar dos restantes honorários e devolveria o que fosse necessário se houvesse determinação judicial. O coordenador disse com voz que a transcrição de memórias do colega de escritório descreve como demasiado elevada para quem tinha dito: “Tem razão, três meses antes que ia mover uma ação por quebra de contrato, Heitor disse: “Pode mexer”.

Desligou. O processo ficou parado durante os 30 dias de prazo. Quando o prazo expirou, nenhum documento havia sido protocolado. O caso foi arquivado por inércia da parte requerente. A ação por incumprimento de contrato prometido pelo coordenador nunca chegou. Mas há algo que aconteceu antes do arquivamento, que é, segundo quem acompanhou este caso de perto ao longo dos anos, a parte que mais importa de toda a história.

Três dias depois da audiência, Heitor regressou a Uberaba, tão grande da verfica da Caé sarrada cá bemde calveada. Desta vez não foi observar. Entrou na casa da oração, juntou-se à fila, esperou. Quando chegou a sua vez, sentou-se à frente de Chico Xavier. O que foi dito naquele atendimento, o Heitor nunca relatou publicamente em vida.

Não há registo escrito por parte deste, mas há um relato informal de um senhor que trabalhava como voluntário na organização dos atendimentos. Um homem identificado nas notas do investigador apenas como o seu Odair de Uberaba que descreveu o que tinha observado. O seu Odair disse que Chico recebeu aquele homem como recebia todos os outros, que não havia reconhecimento especial, nenhum sinal de que soubesse quem era ou o que tinha acontecido três dias antes, a 15 minutos dali, que o Chico apanhou um papel, ficou em silêncio com os olhos

semicerrados por alguns instantes e começou a escrever, que escreveu durante uns três ou 4 minutos, sem parar, que dobrou o papel, entregou-o ao homem e disse uma frase, uma frase apenas. O seu Oir disse que a frase foi: “Ele esperou muito tempo para te dizer isso.” Eitor pegou no papel, dobrou-o, colocou-o no bolso do casaco, agradeceu e levantou-se.

O seu Odair” disse que Eitor ficou parado na entrada da casa da oração por alguns minutos, com a mão no bolso sobre o papel, olhando para a rua larga ao sol do meio da manhã, que começou então a andar sem pressa, como quem não tem um destino específico, mas não está perdido. O que estava escrito nesse papel, ninguém sabe ao certo.

Heitor levou consigo até à sua morte em 1998. Nunca publicou nada sobre o caso, nunca deu entrevistas. A pasta, com todos os documentos do processo ficou guardada num armário do escritório em São Paulo, até que foi recolhida pelos familiares. A única vez em que falou sobre o que tinha acontecido naquele agosto de 1963, foi numa conversa com o colega de escritório, registada nas memórias pessoais desse colega.

O colega perguntou anos depois o que tinha impedido Eitor de ler a sentença nessa manhã. Eitor ficou em silêncio por um momento, depois disse: “Passei 14 meses construindo uma acusação e no momento em que precisei de abrir a boca para dizer o que tinha construído, percebi que sabia mais do que ali estava escrito e que o que sabia a mais não cabia dentro do que tinha escrito.

” O colega perguntou o que queria dizer. Heitor disse: “O meu pai faleceu quando eu tinha 32 anos. Numa tarde de domingo num banco de jardim em Campinas, três semanas antes de morrer, ele disse-me uma coisa que nunca contei para ninguém. E essa coisa estava escrita num papel que chegou pelo correio sem remetente. O colega perguntou o que estava escrito.

Heitor olhou para ele por um segundo e depois disse que havia coisas que perdem alguma coisa. essencial quando são repetidas, que a frase do pai era do tipo que só faz sentido entre as duas pessoas que estiveram presentes nessa tarde, que se a repetisse agora a um terceiro, ela passaria a ser outra coisa, uma informação, talvez, mas não o que era, e mudou de assunto.

Há quem leia esta história e veja um homem que foi contratado para destruir algo e acabou por destruir a própria certeza. Há quem veja um homem que foi manipulado pelos dois lados e nunca soube exatamente por quem. Há quem ver outra coisa completamente diferente que cada um vai ver a partir do que carrega.

As pessoas que conviveram com reitor Dantas nas décadas seguintes descrevem alguém que tinha mudado num grau difícil de quantificar, mas fácil de perceber. Não ficou mais suave, não tornou-se mais religioso, não mudou de escritório nem de cidade. Continuou o advogado até aos 66 anos. Continuou construindo processos pela base, verificando cada detalhe antes de subir um degrau.

Mas há algo que os colegas descrevem de formas semelhantes. Ele havia desenvolvido uma forma de ouvir os clientes, que era diferente do de antes, um silêncio mais longo, uma tensão que ia além do que necessitava para o processo. O envelope que tinha pedido ao hotel nessa manhã de 7 de agosto estava guardado no balcão da recepção. Ninguém o veio buscar.

Quando o hotel foi renovado nos anos seguintes, o recepcionista que tinha guardado o envelope levou paraa casa porque não sabia o que fazer com ele. Disse que esteve numa gaveta durante anos, que quando finalmente decidiu abrir o papel no interior estava em branco. em branco, como seor naquela madrugada, antes de entrar no fórum, tivesse pedido papel e envelope se sentado à mesa, ficado alguns minutos com a caneta na mão e depois decidiu que o que queria dizer ou não cabia em palavras ou havia deixado de precisar de ser dito. O ficheiro

do processo de 1973 consta até hoje no cartório de Uberaba. Nas fichas de tramitação, ao lado do nome do advogado responsável, existe uma anotação manuscrita do funcionário do cartório notarial que diz apenas: “Retirou-se antes da leitura. Quatro palavras para 14 meses e tudo o que veio depois. Esta é uma história de carácter ficcional e reflexivo, inspirada no contexto histórico e espiritual de Chico Xavier.

As personagens, os acontecimentos e os diálogos aqui descritos são inteiramente inventados. Qualquer semelhança com pessoas ou situações reais é coincidência. Se chegou até aqui, inscreva-se. Tem muito mais à sua espera aqui no canal. E se esta história tocou em algo, se ela fez lembrar uma época em que a fé tinha outro peso, o próximo vídeo vai ainda mais fundo.

Tem a história de um médico psiquiatra de Porto Alegre que esteve 3 anos construindo um processo para internar Chico Xavier por transtorno dissociativo grave. Reuniu relatórios, reuniu assinaturas de colegas, chegou até à véspera do protocolo final. Um dos signatários se recusou assinar à última hora. O motivo que deu foi registado numa carta que até hoje ninguém que a leu consegue explicar de forma satisfatória.

A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como esta esperando por você aqui no canal. Yeah.

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