O CASO FRITZL FRANCÊS: O PESADELO DE LYDIA GOUARDO
Esse livro revelou pormenores de um dos casos mais terríveis e absurdos de que se tem notícias. O que vou contar aqui provavelmente vai chocá-lo, depois fica o aviso de conteúdo sensível. Uma mulher estava deitada numa cama de hospital numa maternidade de uma cidade no leste de Paris. Ela tinha acabado de dar à luz um menino e estava ali a fazer o que toda a mãe faz nas primeiras horas, respirando, processando o que tinha acabado de acontecer.
Aquele bebé agora estava ali nos braços dela. Uma enfermeira chegou com uma prancheta à mão e fez umas anotações e perguntou o que pergunta sempre a todas as mães: “Quem é o pai daquele bebé?” A mulher que estava na cama olhou para a enfermeira, respondeu baixinho, sem desviar o olhar, disse uma frase curta. A enfermeira depois parou um segundo, pediu para repetir e a mulher repetiu.
E aí a enfermeira anotou mais alguma coisa na prancheta, agradeceu com um aceno, virou as costas e foi seguir o expediente. Essa mesma mulher voltou a maternidades parecidas ali na região mais cinco vezes nos 14 anos seguintes. Cinco partos, cinco vezes a mesma pergunta e sempre a mesma resposta. Em nenhuma destas vezes a história saiu daquela sala de partos.
A frase que ela falou e o motivo pelo qual ninguém o fez nada com ela são o que faz deste um dos piores casos de silêncio institucional do true crime europeu. Sou o Marcos Campos e hoje entramos num caso de França que durou 28 anos. Como uma família inteira viveu três décadas assim dentro da mesma aldeia, com seis crianças a nascer, de uma situação que os vizinhos comentavam entre si, sem que ninguém, polícia, médico, professor, presidente da câmara, assistente social, ninguém tomasse uma única atitude. Porque cada vez que a vítima
fugia, era devolvida pelas autoridades para dentro da casa que tinha denunciado. E o que liga este caso a quatro meninas que desapareceram todas no mesmo Verão em 1987 em cidades a poucos quilómetros umas das outras? São estas perguntas que a gente vão responder em conjunto no episódio de hoje.
Então já se ajeita, presta atenção nos pormenores e vamos aos factos. Antes de vos apresentar a mulher daquela maternidade, preciso tirar-te daqui por dois minutos e te levar para outro local do mapa francês. Um lugar que parece à primeira vista não ter nada a ver com a história que eu acabei de contar, de dar pormenores. Era Maio de 1987, num subúrbio a leste de Paris.
Uma menina de 10 anos desceu do elevador do prédio dela para brincar com as amigas ali no pátio. O nome dela era Virginie Delmas. Aqui ele era um dia comum. Havia muita gente na rua, sol, criança a correr para lá e para cá. A Virgínia desapareceu sem que ninguém visse claramente o momento em que ela foi levada.
O corpo dela só ia aparecer 5 meses depois, em outubro, num pomar de uma cidade vizinha, 21 dias depois do sumisso da Virgínie, em Malacof, outro cidade ali nos arredores de Paris, uma menina de 10 anos chamada Ema Gridari pediu à mãe para descer para comprar um esquadro na papelaria ali do bairro. Foi vista uma vez no centro comercial perto de casa.
Segundo testemunhas da época, ela estava acompanhada por um homem atarracado, de cabelo loiro, curto, que usava luvas. Menos de duas horas depois, o corpo dela apareceu em chamas no parque de estacionamento de um edifício em Chatum, local que ficava praticamente ali ao lado, na fronteira com Malacof.
Três dias depois da morte da Ema, numa pequena cidade rural chamada Buler, uma menina de 7 anos chamada Perrini Vinheiron saiu sozinha de casa para ir à aula de cerâmica. Chovia muito naquele dia. A aula ficava a poucas centenas de metros. A Perrine não chegou. 24 dias depois encontraram-na estrangulada num campo de cousa na periferia de Shell, a uns quilómetros dali.
E no dia 27 de junho do mesmo ano, a sul de Paris, uma menina loira de 8 anos chamada Sabine Dumon saiu de casa comprar um tubo de guache para terminar um desenho que ela estava fazendo para a irmã mais velha. E o destino era a uns 700 m ali perto da casa dela. O corpo foi encontrado no dia seguinte numa cidade vizinha.
Anos mais tarde, em 1999, uma análise nos vestígios preservados, especificamente na t-shirt que ela usava no dia em que foi morta, revelou um ADN masculino completo. E este perfil genético ia tornar-se a principal esperança do caso. Quatro meninas, quatro localidades, menos de 2 meses. A hipótese de um assassino em série pedófilo a agir ali na região de Paris começou a ganhar força, mas as investigações caminharam durante muito tempo de forma fragmentada.
Apesar das semelhanças, os casos não foram tratados desde o início como uma única série. Havia juízes diferentes, serviços de investigação diferentes e pistas que acabavam por se perder pelo caminho. Em 1990, olharam para Gerarle Lebu, que seria depois condenado por um caso parecido noutro lugar, mas ele não esteve na região nos meses certos.
Em 1995 já tentaram com o seral killer britânico Robert Black, que tinha uma propriedade lá em França em Dordonhé, no sudeste de França especificamente. Mas também não deu em nada. Em 1997, o caso da Virgínie Dalmas foi oficialmente arquivado sem qualquer culpado. Naquela altura, quem matou aquelas raparigas parecia ter desaparecido sem deixar nenhum rasto.
Décadas depois, a investigação ainda ia explorar uma outra hipótese, a do homem que ficou conhecido lá em França pelo apelido de Lrilet, identificado em 2021 como Francois Verovê. Era um polícia francês que se matou quando o cerco da polícia se fechou em cima dele. Essa pista foi estudada em particular nos casos da Virginie e também da Perrini, mas até hoje sem conclusão definitiva.
E o caso do François, inclusive já foi apresentado aqui no canal. No fim dos anos 70, começo aí dos 80, uma adolescente dirigiu-se a uma delegacia de polícia no interior de França. Ela era magra, baixa, tinha uma cicatriz no pescoço que descia assim para dentro da blusa. Ela chegou perto ali do balcão e disse baixinho ao polícia que o pai batia-lhe e ela queria ajuda.
Policial escutou, anotou ali, pegou no casaco, pegou na chave do carro, colocou a menina no banco do passageiro e conduziu até ao casa do pai dela. tocou a campainha, entregou de volta a menina ao pai e assim voltou para a delegacia. Essa cena aconteceu com pequenas variações várias vezes ao longo de 28 anos.
A menina ia crescendo, tornava-se jovem, tornava-se adulta, as cicatrizes iam ficando maiores, os polícias iam mudando e o resultado era sempre o mesmo. Ela voltava paraa casa de onde tinha fugido. A explicação que apareceu nos relatos posteriores era essa. Os polícias tinham medo do pai dela. Era um homem violento, conhecido na região, e nenhum dos agentes locais queria entrar em conflito com aquele homem.
Assim, a estratégia era devolver a menina que ia lá reclamar do pai e tocar a vida. A própria menina descreveu tudo isto anos mais tarde, quando foi entrevistada. Contou que quando criança achava que tudo aquilo era normal, que era a vida e existia daquela forma. Só fugia quando o pai batia muito forte. Esta menina se chamava-se Lídia Guardô.
E para te explicar como esta situação foi possível, eu preciso recuar 17 anos antes desta cena na esquadra, paraa noite em que tudo começou. E mais para a frente, talvez todas estas micro histórias que eu te contei até aqui vão começar a fazer muito sentido. A Lídia nasceu a 13 de novembro de 1962 na cidade de Meson Alfor, nos arredores de Paris.
E a forma como ela veio ao mundo carrega um pormenor que ninguém ia compreender o direito por décadas. Em 1962, o o seu pai, o Remon Guardô, estava preso. Cumpria 5 anos por assalto à mão armada. Mas mesmo preso em algum momento do ano, recebeu uma carta da sua mulher, a Jacqueline, dizendo que estava grávida.
O bebé, na verdade, não era dele, mas quando a Lídia nasceu, ele reconheceu legalmente a criança como filha dele. O papel, então ele era o pai. Quem era o verdadeiro pai biológico da Lídia? Bom, eu conto-te isso daqui a pouco. Por enquanto, segura essa informação muito simples, ok? Para todo o mundo do lado de fora daquela família, o rei era o pai, para todo o efeito legal, era quem tinha a guarda da criança.
Jaqueline, a mãe estava sozinha com dois filhos mais velhos, o Bruno e a Nádia, e agora também uma recém-nascida. Em algum momento depois do nascimento da Lídia, abandonou os três filhos. Como o Reimon continuava preso, o sistema social francês começou a mexer os pauzinhos. Os três irmãos foram então retirados e colocados numa família de acolhimento.
A Lídia passou os três primeiros anos de vida ali. Os três irmãos chamavam a mulher que cuidava deles de Ababá. E foi nesta casa com aquela mulher que a Lídia teve pela primeira vez em décadas algo semelhante com uma infância. E depois, em algum momento entre 1965 e 67, o Raymond saiu da prisão. A primeira coisa que fez foi descobrir onde estavam os filhos para poder ir buscá-los.
Mas não foi a um notário, nem procurou um advogado, nem juiz, nada disso. Numa noite, pegou uma espingarda de caça e foi até à casa da ama. bateu à porta, entrou, apontou a arma para aquela mulher que tinha cuidado dos três irmãos durante três anos e disse da maneira que sabia dizer que ia levar as crianças.
A família ameaçada entregou obviamente as crianças. Afinal, não tinham muito que fazer ali diante daquele homem armado. A Lídia tinha três, talvez 4 anos. Ela foi colocada num carro com os irmãos e essa foi a última vez que ela viu uma casa onde um adulto cuidava de uma criança. Um adulto deve cuidar de uma criança. O Reimon tinha uma companheira nova nessa altura aí dos factos, uma mulher chamada Lucien Pupá, que se ia revelar, já aqui adianto para vós, um capeta encarnado.
A Luciene era uma espécie de visitadora de reclusos, uma função de trabalho voluntário. E foi assim que ela se envolveu-se com o Rimon ainda lá dentro da cadeia. Quando ele saiu, começaram então a conviver e a Luciene assumiu o papel de madrasta legal dos três irmãos. A família foi então viver num apartamento numa cidade chamada Mom, uns 50 km a leste de Paris, cidade industrial de certo modo movimentada.
O O Rimon e a Luciene trabalhavam numa gráfica imprimindo material numa máquina de tipografia. O Remon ia virar anos depois. Impressor ambulante, sabem? dos que viajam por toda a região com uma máquina dele ali de porta em porta. E uma das primeiras decisões que o casal tomou na nova cidade foi que nenhum dos três filhos ia mais à escola.
A partir desse momento, a vida das crianças foi-se enterrando dentro daquele apartamento. Em 1971, já no mesmo apartamento, foi o ano em que o Rimon começou os abusos sexuais. Primeiro com a Nádia, a mais velha, depois com a Lídia, que tinha 8 anos. E quando a Lídia tentava revoltar-se, o Raimon fazia-a respirar éter.
E foi mais ou menos por esta altura, com Lídia, ainda com 9 anos de idade, recém- iniciado num pesadelo que ela mal entendia, que aconteceu o episódio que ia marcar o corpo dela para o resto da vida. 1972, a Luciene, o pá, olhou para a Lídia e disse que era a hora do banho. O que aconteceu dentro daquela casa de banho? Os depoimentos da própria Lídia.
no livro dela, nos relatórios policiais do processo que veio depois. É realmente chocante. São descrições muito fortes, tá malta? Até difícil de contar. A Luciene tinha enchido a banheira com água fervente no limite, escaldando mesmo. A A Luciene empurrou a Lídia para dentro. A criança gritou e em segundos desmaiou de dor até.
E com a Lídia inconsciente, Luciane pegou num bidão de água sanitária e atirou-o dentro daquela água. Depois pegou numa escova com cerdas bem duras e começou a esfregar na pele da Lídia. Quando a Lídia voltou assim, num hospital, o seu corpo tinha queimaduras de terceiro grau, desde o pescoço até aos tornozelos, sem contar tanto que ela deve ter inalado dessa lixívia.
Sobreviveu praticamente por milagre. Ela esteve internada durante 8 meses, fez aproximadamente 10 enxertos de pele e aqui aconteceu uma coisa que sozinha talvez seja a maior denúncia institucional deste caso. Depois de 8 meses, o corpo da menina ainda em recuperação, o Raymond chegou ao hospital, falou com os médicos e tirou a filha a força de lá.
Os médicos sabiam que ela tinha sido queimada, tinham tratado as queimaduras dela, não impediram a saída. A história das queimaduras teve um segundo capítulo administrativo que diz tudo sobre a lógica daquela família perversa e a falta de lógica de um estado preguiçoso. As lesões eram tão graves que o estado francês concedeu uma pensão de invalidez, mas a pensão saiu em nome de quem? Do Raymond, do próprio diabo como pai responsável.
E para garantir que ele recebesse a incapacidade total e não parcial, obrigou a Lídia, mesmo depois de recuperada, a continuar a utilizar cadeira de rodas em algumas avaliações. O dinheiro era dele, as queimaduras dela viraram a reforma deste homem. E foi exatamente com esse dinheiro aí que ele comprou em 1975 uma quinta velha num vilarejo do interior de Senemar chamado Coulon, uma propriedade rural isolada com terreno em volta e quintal bastante grande.
Segundo consta, a família foi expulsa do apartamento lá em Mo por causa da barulhos, gritos da Lídia. Dizem até que ninguém sabia ao certo o que era. Pensavam que era só barulho, que era incomodando criança gritando. Foi nesse novo lar, a quinta, que praticamente tudo de relevante nesta história aconteceu nos 24 anos seguintes.
Tudo de relevante, entre muitas aspas, certo? [música] Já tinha acontecido praticamente o inferno na vida desta menina e dos irmãos também, não é? A partir de agora, conseguimos, por incrível que pareça, nós não, não é? Esse desgraçado aí consegue cavar mais um buraco para colocar um degrau na direção do inferno. A quinta era o reino do reino.
A primeira coisa que fez ao mudar-se para lá foi furar as paredes dos quartos das filhas, buracos para ele poder observar de fora. E o uso destes buracos não era só dele. Quando o Rimond violava a Nádia ou a Lídia, a Luciene, a sua mulher, ficava do outro lado da parede, observando pelo olho mágico improvisado.
Isto não é especulação, ok? É um facto documentado nos depoimentos, no livro, na investigação. A Luciene via tudo e quando ela escolhi entrar era para participar e não parar. Bizarro demais, não é, malta? Pelo amor. O Bruno e a Nádia, os irmãos, conseguiram de alguma forma fugir a este pesadelo. O O Bruno fugiu de casa aos 15 e a Nádia aos 18.
º As autoridades, tanto quanto se sabe, não tentaram trazê-los de volta, talvez porque já [música] eram considerados demasiado grandes para justificar uma operação policial. Mas a A Lídia ficou. E o problema com a Lídia, do ponto de vista do Ran, era que ela era a única que tinha registo legalmente como sua filha, a única dele.
E aqui, antes de eu vos contar o que aconteceu quando ela fez 18 anos, preciso voltar a uma pergunta que ficou aberta lá no início do episódio. Quem era biologicamente o pai da Lídia? Não é? Porque a resposta a esta questão era uma coisa que os vizinhos do aldeia durante anos ficaram sussurrando entre si, sem saberem bem que pensar.
Vai vendo os habitantes de Colum, que conheciam ali a família, não é, comentavam em particular que o Reond e o A Lídia tinha um mar de família meio estranho. Não parecia um pai e uma filha. Exatamente. Um dos vizinhos, um antigo agricultor chamado Robert Serran, anos depois, quando tudo estava exposto, ia contar a uma investigadora francesa que ele e os outros sempre suspeitaram de algo estranho ali.
Eles conheciam a Jaqueline, a esposa do Reimon, conheciam também o Reon, sabiam que ele tinha ficado preso e olhavam paraa Lídia e viam ali um ar de família, entre aspas, como diziam, só que diferente de uma relação ali de pai e filha. E a explicação que só veio a público décadas depois com a investigação do caso era a seguinte.
Quando Jaqueline engravidou em 62, durante a pena do Reyond, o homem que engravidou ela era o próprio pai do Raymond, ou seja, o sogro de Jaqueline. A Lídia, então, biologicamente, era a filha do seu avô. Quando o Raymon conheceu a Lídia como filha no nascimento, estava a reconhecer na prática uma irmã. Ou seja, a Lídia era uma espécie de meia irmã do homem que ia torturá-la durante décadas.
Quando a Lídia completou 18 anos em novembro de 1980, o Rimon chegou à frente dela e disse uma frase só. disse que ela já tinha idade para ter filhos e começou a engravidar a rapariga sistematicamente. Para garantir que a gravidez vingasse, ele chegou acorrentar a Lídia numa viga do sót lá da sua quinta durante vários dias seguidos.
O primeiro filho nasceu em 82 de e era um rapaz. A Lídia tinha 19 anos. Os outros vieram com diferenças de poucos anos. Aos 14 anos, entre os 82 e os 96, a Lídia teve seis rapazes, todos do Raymond. Em cada um dos seis partos, ela foi para uma maternidade de um hospital público da região, foi internada, deu a luz e ali ficou até receber alta.
Ela mesma diz hoje que teve sorte dos seis terem nascido rapazes, porque segundo ela, o velho, como ela chamava ao Raymond, tinha uma conhecida preferência por meninas pequenas. Se uma das crianças tivesse nascido menina, ela não tinha dúvidas de qual seria o destino daquela menina. E agora pergunto, lembram-se daquela cena lá no início do vídeo, uma mulher na cama, enfermeira com a prancheta a perguntar, não é, as perguntas que elas fazem ali eventualmente, não é, quem é o pai? Era a Lídia. E aconteceu seis vezes isso, ok?
Além desta primeira que narrei, mais cinco depois. Em cada um dos seis partos, em algum momento das primeiras horas pós nascimento, uma enfermeira e uma funcionária ali do registo civil chegava perto da Lídia, uma prancheta e fazia sempre a mesma pergunta a preencher a certidão de nascimento. Quem é o pai deste bebé? A Lídia respondia sempre a mesma coisa.
Falava baixinho, mas não desviava o olhar. Ela dizia que o pai do bebé era o pai dela, só que parava por aí. Ela não pedia ajuda para ela naquele momento. Aquilo era simplesmente a vida que ela tinha. Ela ainda nem sequer entendia bem que aquilo era um crime e que ela estava aprisionada, em nenhuma destas seis vezes, em nenhum dos hospitais, nenhuma enfermeira, nenhum funcionário, nenhum médico, nenhum administrador, ninguém pegou aquele formulário, levou-o a um chefe de polícia ou para um chefe ali do hospital mesmo para ele ligar para o
serviço social, para a polícia, etc. Os seis bebés foram registados como filhos do Raymond e da Lídia. E a Lídia foi libertada para casa seis vezes e só Lídia fugia. Não sempre. Ela diz que só fugia quando o Raymond batia demasiado nela. Como para todos os efeitos legais era o pai dela. Em algumas destas fugas ela era ainda menor de idade.
O abrigo simplesmente a entregou. Em outras fugas, ela conseguia chegar à polícia. E depois a cena que eu descrevi ali no início se repetia. caras levavam-na de volta. Só que numa dessas furgas, aconteceu alguma coisa diferente. Durante o pouco tempo que a Lídia esteve longe do Raymond, ela conheceu um homem e tiveram então de alguma forma ali um contacto mais íntimo.
A Lídia acabou engravidando, mas isso ela só ia descobrir semanas depois quando o Rêmedo já tinha aparecido para a ir buscar e ela já estava de volta lá à quinta sem barriga aparente ainda nenhuma, ok? Quando a gravidez se tornou óbvia, teve o bebé dentro de casa como se fosse mais um filho do reimo. O nome que ela deu para a criança foi o Rud.
E aquela então seria a sua sétima gravidez. O Rond morreu acreditando que o Rud era filho dele também. A Lídia até hoje guarda em segredo a identidade do verdadeiro pai desse menino. E a única outra pessoa do mundo exterior com quem Lídia tinha algum tipo de contacto durante todo este período era uma mulher chamada Mariane, a única amiga.
Não tem muito detalhe disponível sobre esta amizade, ok? Mas a Mariane aparece em vários relatos da Lídia como a única pessoa em 28 anos, não é, durante toda a trajetória com quem ela podia trocar uma palavra de adulto para adulto. E malta, são 28 anos, ok? de 1971, quando a Lídia tinha 8 anos e o Reed começou a abusar dela até 99, quando ela ia fazer 37.
Até que num dia comum, a 20 de novembro de 1999, o rei Meguardo morreu dentro da própria exploração aos 62 anos. Ele não tinha sido preso, investigado, nem acusado de nada. morreu de velícia na cama dele. E aí, finalmente, a Lídia conseguiu abrir a porta daquela quinta e sair. E esse abrir de portas é muito mais simbólico do que parece, não é? A Lídia mal sabia ler, não sabia escrever, tinha o corpo coberto de cicatrizes e a alma também.
A história tinha terminado, o agressor estava morto, a vítima estava fora de casa. E para qualquer narrativa convencional, esse era o ponto final. Mas há sempre o más. Por que razão o caso da Lídia Aguardo, como o mundo o conhece hoje, só começou de verdade depois de o Rond já ter, já tava, melhor dizendo, debaixo da terra.
Tudo o que veio antes foi um rapto privado dentro de uma aldeia. O que veio depois é que transformou aquilo num dos casos mais comentados em França. Em 2003, 4 anos depois da morte do pai, a Lídia conseguiu reunir coragem e provas suficientes para fazer o que ninguém o tinha feito por ela. Ela entrou na justiça.
Como o Rayond estava morto, já não podia ser julgado. Então o processo foi contra a única outra adulta que tinha vivido dentro daquela casa e sabia de tudo o que acontecia. lá, participava inclusive a madrasta, a Luciene. As acusações foram duas. A primeira era a omissão criminosa por tudo o que ela tinha presenciado e não fez nada durante décadas.
A segunda era de agressão sexual, uma vez que olhava lá e queria participar também. Durante este processo, a primeira instância correu lenta no dia 13 de Março de 2007. A Lucien foi condenada a 3 anos de prisão, mas com um instrumento lá da lei francesa que fez com que a pena ficasse suspensa.
Ou seja, a condenação não era, existia condenação, mas ela efetivamente não ia para a cadeia, não é? Fica só ali o registo que foi condenada. Na prática, malta, ela saiu do tribunal, foi paraa casa. E no mesmo dia 13 de Março de 2007, um dos maiores jornais da França, o Le Parisiã publicou pela primeira vez esta história. O título da matéria era condenada por ter negado os violações da própria filha.
Foi a primeira vez que o nome guardo apareceu fora dos limites da aldeia. Dois meses depois, em maio de 2007, outro grande jornal francês, o Liberacion, mandou também repórter para Colum, lá onde ficava a quinta. Reborter passou alguns dias na aldeia, conversou com a Lídia, conversou também com os vizinhos e publicou um enorme perfil da vítima.
Foi este texto que fez com que o caso ganhasse uma dimensão nacional na imprensa francesa, mas o resto do mundo ainda não tinha ouvido falar. Aí, em 27 de Abril de 2008, noutra parte da Europa, um caso quase idêntico rebentou. Na Áustria, um homem chamado Joseph Fritzer foi preso depois de se ter descoberto que ele tinha raptou a própria filha lá no porão da sua casa durante 24 anos e tinha feito sete filhos com ela.
O mundo inteiro ficou chocado e em paralelo, nove dias antes do rebentamento do caso austríaco, a tribunal de apelação de Paris elevou a pena da Luciene de três para 4 anos de prisão, mas mantendo a suspensão. É uma burocracia bizarra. Ela seguiu sem ir presa. Luciene, com 68 anos de idade foi a única pessoa em todo o caso guardo que recebeu uma única condenação criminal.
A A Lídia recebeu 3.000€ de indemnização pelo filho abusado e 6.000€ para a própria pelos 28 anos de tortura. Baita grana para uma vida inteira arregaçada, não é? Em Maio de 2008, no embalo do choque mundial com o caso austríaco, a Lídia publicou o seu livro escrito com um jornalista francês veterano chamado Jean Michel Carandec e o título do livro em português é O silêncio dos outros.
E havia ali um subtítulo também, o seu pai fez nela seis filhos. Todo o mundo sabia, ninguém fez nada. Como a Lídia mal sabia escrever, ela chamava o seu parceiro escritor ali carinhosamente do meu pequeno escrivão. E foi com este livro aí que o caso Guardo deixou de ser um caso francês e tornou-se um caso mundial.
E mais cedo, lá no início do episódio, lembram-se que Contei sobre quatro meninas que sumiram? Ficou ali meio deslocado. Acho que vocês até pensaram que eu estava ficando meio doidinho, não é? Foi você contou quatro meninas desapareceram, de de repente começou a contar de um pai abusivo. Pois, isso foi lá em 1987, em cidades próximas ali umas das outras em França, não é? Todas mortas, todos os processos arquivados sem culpado.
Lembra que pedi-te para guardar essa informação? Pois é. Em maio de 2009, alguém na polícia francesa releu uma frase enterrada nas últimas páginas do livro da Lídia. livro que ela acabou de lançar, este livro que acabei de comentar convosco. Ela tinha lá escrito uma suspeita, tinha dito com as palavras dela que talvez o pai tivesse feito outras vítimas.
E os investigadores começaram a cruzar os dados. E o que apareceu nesse cruzamento foi inquietante. A quinta do Reimon, ali no aldeia de Colum ficava a 2 km de uma dessas cidades onde criança desapareceu. Exatamente onde a Perrin Vinheiron tinha desaparecido a caminho da aula de cerâmica. Lembra-se? Também ficava a uns 10 km só do pomar, onde o corpo da Virginie tinha sido encontrado.
O Reiman era impressor ambulante, lembra-se? fazia rotas por toda a aquela região, tinha carro, trabalhava em horários irregulares. E depois, com tudo isso, o atual companheiro da Lídia, o Silvan Esquirl, contou aos jornalistas uma coisa que apanhou os investigadores surpresa, talvez uma fisgadinha no fígado.
Disse que o rei Mon tinha derramado várias lajes de betão suspeitas no quintal da quinta. Lajes que ele próprio tinha fechado por cima. Em Maio de 2009, vários juízes de instrução franceses reuniram-se para trocar informações sobre as quatro meninas desses casos aí. A hipótese guardo era forte e suficiente para justificar a decisão que vem a seguir.
No dia 11 de junho desse ano, 10 anos depois da morte do Raymond, uma juíza ordenou a esumação do corpo dele. Os polícias foram ao cemitério onde estava enterrado, abriram o caixão, recolheram o material genético e enviaram para o laboratório para comparar com o ADN que tinha sido preservado na t-shirt de uma das crianças, a Sabine Dumon.
Em paralelo, a polícia partiu as lajes ali de betão da quinta. Vasculharam o poço, procuraram dentro das paredes, olharam para todo o lugar onde pudesse haver um corpo de criança escondido. Três semanas depois, saiu o resultado do comparação com o ADN da Sabine, negativo. O ADN da t-shirt não era do Rei Mon.
Ele provavelmente não tinha matado a Sabine do Mon. Mas para as outras três meninas, Virginie, Ema e Perrini, não havia ADN preservado para comparar. As provas tinham-se perdido com o tempo. A justiça francesa não conseguiu confirmar nem descartar que tivesse matado as outras três. Assim, os quatro casos continuam oficialmente abertos.
E 5 anos depois da esumação do Rey Mon, uma antropóloga francesa de nome Leonor Lequen decidiu transformar o caso guardo em objeto de estudo académico. Ela queria responder, do ponto de vista das ciências sociais a questão que ficou pendurada nesta história inteira. como uma cidade inteira consegue saber e não fazer nada perante isso? Para escrever este estudo, ela passou um ano a viver nos arredores de Colum, [música] entrevistou vizinhos, comerciantes, funcionários da autarquia, professores, reformados, políticos locais. O livro
saiu em 2014 com o título Um e sexto comum. E, no entanto, toda a gente não sabia. E o que ela documentou é o que fecha este caso aqui de uma vez por todas. Não foi um caso de ocultação, foi um caso de comentário público. Os vizinhos sabiam, os comerciantes do bairro sabiam. E assim esta investigadora escreveu na conclusão do seu livro que o incesto da Lídia não foi uma anomalia secreta naquela aldeia, foi um elemento quase ordinário da vida quotidiano de Colum, uma coisa que entrava e saía das conversas, mas nunca
transformava-se numa única ação concreta. E a Lídia hoje vive num pequeno povoado nos arredores de Paris com os filhos. Reconstruiu a vida dela com aquele homem chamado Silvan, mesmo que tinha contado da história das lajes de betão. Teve mais dois filhos com ele. Usa roupas compridas durante todo o ano para esconder as cicatrizes que ainda cobrem o corpo dela desde o pescoço até aos tornozelos.
Dizem entrevistas que prefere viver dia após dia, que quando uma conta de eletricidade chega ao correio dela, ela fica feliz, porque conta da luz significa que ela está viva. Tem algo que sintetiza este caso surreal de absurdo, é o que está no livro da Lídia. Toda a gente sabia, mas ninguém disse nada. Pois é, Abiduzitos, que caso tão pesado, não é? Denso.
Parece um guião de um filme de terror daqueles que se vê as pessoas sabendo, olhando. Depois dizes: “Pô, ninguém vai fazer nada”. Como aquela aquele ditado escroto, não é? De que [música] briga de marido e mulher ninguém mete a colher, certo? Sei lá, não é? Até que ponto quem vê e não faz nada não tem o sanguinho na mão. E por incrível que pareça, não é essa a história isolada, ok? Vou trazer ainda brevemente aqui no canal mais uma história mais contemporânea que tem também elementos, inclusive os nomes foram preservados, tamanha bestialidade por detrás de tudo,
que lembra também o caso do do Fritzel. Dizes assim: “Caramba, o negócio se repete e sempre os mesmos erros. Absurdo. Comenta aqui para mim o que achou de tudo isso. Agradeço imensamente a sua companhia. Um beijo do ruivo.